Resposta à réplica do senhor abade Chesnel, em l’Univers

Revista Espírita, julho de 1859

O jornal L’Univers inseriu, em seu número do dia 28 de maio último, a resposta que demos ao artigo do senhor abade Chesnel sobre o Espiritismo, e fê-la seguir de uma réplica deste último. Esse segundo artigo, reproduzindo todos os argumentos do primeiro, menos a urbanidade das formas a qual todo o mundo estava pronto a render justiça, não poderíamos respondê-la senão repetindo o que já dissemos, o que nos parece completamente inútil. O senhor abade Chesnel se esforça sempre por provar que o Espiritismo é, deve ser e não pode ser senão uma religião nova, porque dele decorre uma filosofia, e que se ocupa da constituição física e moral dos mundos. Nessa conta, todas as filosofias seriam religiões. Ora, como os sistemas são muitos e todos têm partidários mais ou menos numerosos, estreitaria singularmente o círculo do catolicismo. Não sabemos até que ponto é imprudente e perigoso emitir uma tal doutrina; porque é proclamar uma cisão que não existe; ao menos dar-lhe a idéia. Vede um pouco a que conseqüência chegaríeis. Quando a ciência veio contestar o sentido do texto bíblico dos seis dias da criação, criou-se-lhe o anátema, disse-se que era atacar a religião; hoje, quando os fatos deram razão à ciência, quando não há mais meios de contestá-los senão negando a luz, a Igreja se pôs de acordo com a ciência. Suponhamos que então se dissesse que essa teoria científica era uma religião nova, uma seita, que ela apareceu em contradição com os livros sacros, que ela derrubava uma interpretação dada há séculos, disso resultaria que não se poderia ser católico e adotar essas idéias novas. Pensai, pois, a que se reduziria o número dos católicos, se fossem suprimidos todos aqueles que não crêem que Deus fez a Terra em seis vezes vinte e quatro horas!

Ocorre o mesmo com o Espiritismo; se o olhais como uma religião nova, é porque aos vossos olhos ele não é católico. Ora, segui bem o meu raciocínio: De duas coisas uma: ou é uma realidade, ou é uma utopia. Se for uma utopia, não há com que preocupar-se com ele, porque cairá por si mesmo; se for uma realidade, todos os raios não impedi-lo-ão de sê-lo, tanto quanto não impediram outrora à Terra de girar. Se há verdadeiramente um mundo invisível que nos cerca, se se pode comunicar com esse mundo e dele obter notícias sobre o estado daqueles que o habitam, e todo o Espiritismo está aí dentro, logo isso parecerá tão natural quanto ver o Sol em pleno meio-dia ou encontrar milhares de seres vivos e invisíveis em uma límpida gota d’água; essa crença se tornará tão vulgar, que vós mesmos sereis forçados em vos render à evidência. Se, aos vossos olhos, essa crença é uma religião nova, ela está fora do catolicismo; porque não pode ser, ao mesmo tempo, a religião católica e uma religião nova. Se, pela força das coisas e da evidência, ela se tornar geral, e não poderá ser de outro modo se for uma das leis da Natureza, do vosso ponto de vista não haverá mais católicos, e vós mesmos não sereis mais católicos, porque sereis forçados a fazê-lo como todo o mundo. Eis, senhor abade, o terreno sobre o qual nos arrasta a vossa doutrina, e ela é tão absoluta que me agraciais já com o título de grande sacerdote dessa religião, honra da qual, verdadeiramente, pouco desconfiava. Mas ides mais longe: segundo vós, todos os médiuns são os sacerdotes dessa religião. Aqui vos detenho em nome da lógica. Até o presente, pareceu-me que as funções sacerdotais eram facultativas, que não se era sacerdote senão por um ato de própria vontade, que se não o era, apesar dela e em virtude de uma faculdade natural. Ora, a faculdade dos médiuns é uma faculdade natural que se prende à organização, como a faculdade sonambúlica; que não requer nem sexo, nem idade, nem instrução, uma vez que é encontrada nas crianças, nas mulheres e nos velhos, entre os sábios como entre os ignorantes. Compreender-se-ia que moços e jovens fossem sacerdotes e sacerdotisas sem o querer e sem o saber? Em verdade, senhor abade, é abusar do direito de interpretar as palavras. O Espiritismo, como eu disse, está fora de todas as crenças dogmáticas, com as quais não se preocupa; não o consideramos senão como uma ciência filosófica, que nos explica uma multidão de coisas que não compreendemos, e, por isso mesmo, em lugar de abafar em nós as idéias religiosas, como certas filosofias, fá-las nascer naqueles em que elas não existem; mas se quereis, por toda a força, elevá-lo à categoria de uma religião, vós mesmos o empurrais para um caminho novo. É o que compreendem perfeitamente muitos eclesiásticos que, longe de produzir o cisma, se esforçam em conciliar as coisas, em virtude desse raciocínio: se as manifestações do mundo invisível ocorrem, isso não pode ser senão pela vontade de Deus, e não podemos ir contra a sua vontade, a menos que digamos que, no mundo, qualquer coisa pode ocorrer sem a sua permissão, o que seria uma impiedade. Se tivesse a honra de ser sacerdote, disso me serviria em favor da religião; faria dela uma arma contra a incredulidade, e diria aos materialistas e aos ateus: Pedis prova? Essas provas, heis-las aqui: é Deus que as envia.

 

abade Chesnel, em l'Univers

 

Conversas familiares de além túmulo

Revista Espírita, julho de 1859

NOVIDADES DA GUERRA

O governo permitiu aos jornais, apolíticos darem notícias da guerra, mas como as relações são muitas sob todas as formas, seria ao menos inútil repeti-las aqui. O que talvez fosse mais novo para os nossos leitores é uma narração chegada do outro mundo; embora não seja tirada da fonte oficial do Moniteur, não deixa de oferecer interesse do ponto de vista dos nossos estudos. Pensamos, pois, interrogar algumas das gloriosas vítimas da vitória, presumindo que poderíamos encontrar nisso alguma instrução útil; tais objetos de observação e sobretudo da atualidade não se apresentam todos os dias.

Não conhecendo, pessoalmente, nenhum daqueles que tomaram parte na última batalha, pedimos aos Espíritos que consentem em nos assistir, se gostariam de nos enviar um deles; pensamos mesmo encontrar, num estranho, mais liberdade e facilidade do que se fora em presença de amigos ou de parentes, dominados pela emoção. Com a resposta afirmativa, tivemos as entrevistas seguintes.

 

O Soldado Argelino de Magenta.

PRIMEIRA ENTREVISTA.

(Sociedade, 10 de junho de 1859.)

 

1. Rogamos a Deus Todo-poderoso permitir ao Espírito de um dos militares mortos na batalha de Magenta comunicar-se conosco. – R. Que quereis saber?

2. Onde estáveis quando vos chamamos? – R. Não sei dize-lo.

3. Quem vos preveniu que desejávamos conversar convosco? – R. Um que é mais esperto do que eu.

4. Em vossa vida duvidáveis que os mortos poderiam vir conversar com os vivos? – R. Oh! disso, não.

5. Que efeito isso produziu sobre vós ao vos encontrardes aqui? – R. Deu-me prazer; deveis, pelo que me dizem, fazer grandes coisas.

6. A qual corpo da armada pertencíeis? (Alguém disse em voz baixa: Pela sua linguagem deve ser um zuavo.) – R. Ah! Vós o dissestes.

7. Que grau tínheis? – R. O de todo mundo.

8. Como vos chamáveis? – R. Joseph Midard.

9. Como morrestes? – R. Gostaríeis de tudo saber e de nada pagar.

10. Vamos! Perdestes vossa alegria; dizei sempre, nós pagaremos depois. Como morrestes? – R. Por uma ameixa carregada.

11. Ereis contrário a ser morto? – R. Minha fé! Não; estou bem aqui.

12. No momento em que morrestes, imediatamente vos reconhecestes? – R. Não, estava tão atordoado que não o acreditava.

Nota. Isto está conforme tudo o que observamos nos casos de morte violenta; o Espírito, não se rendendo conta de sua situação, não crê imediatamente estar morto. Esse fenômeno se explica muito facilmente; ele é análogo ao do sonâmbulo que não crê dormir. Com efeito, para o sonâmbulo, a idéia do sono é sinônimo de suspensão das faculdades intelectuais; ora, como pensa, para ele não dorme; disso não se convence senão mais tarde, quando estiver familiarizado com o sentido ligado a essa palavra. Ocorre o mesmo com o Espírito surpreendido por uma morte súbita, quando nada havia preparado sua separação do corpo; para ele a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento; ora, como vê, sente-se, tem suas idéias, para ele não está morto; é necessário algum tempo para se reconhecer.

13. No momento que morrestes, a batalha não tinha terminado; seguistes suas peripécias? – R. Sim, uma vez que disse que não me acreditava estar morto; eu queria sempre ir de encontro aos outros cães.

14. Que sensação experimentastes nesse momento? – R. Estava encantado, achava-me muito leve.

15. Víeis os Espíritos de vossos companheiros deixarem seus corpos? – R. Não me ocupava disso, uma vez que eu não acreditava na morte.

16. Em que se tornava nesse momento essa multidão de Espíritos deixando a vida no tumulto da refrega? – R. Creio que faziam como eu.

17. Os Espíritos daqueles que se batiam com mais ardor, uns contra os outros, que pensavam encontrando-se juntos nesse mundo dos Espíritos? Estavam ainda animados uns contra os outros? -R. Sim, durante algum tempo e segundo o seu caráter.

18. Reconheceis-vos melhor agora? – R. Sem isso não me teriam enviado aqui.

19. Poderíeis dizer-nos se entre os Espíritos mortos há muito tempo, encontravam-se ali os que se interessavam pela sorte da batalha? (Pedimos a São Luís consentir ajudá-lo em suas respostas, a fim de que sejam tão explícitas quanto possível para a nossa instrução). – R. Em uma grande quantidade, porque é bom que sabeis que esses combates e suas conseqüências estão preparados de longa data, e que nossos adversários não estão enlameados de crimes, como o fizeram sem serem impelidos tendo em vista conseqüências futuras, que não tardareis a saber.

20. Deveria haver aí quem se interessasse pelo sucesso dos Austríacos; isso formava dois campos entre eles? – R. Evidentemente.

Nota. – Não nos parece ver aqui os deuses de Homero tomando partido uns pelos Gregos, e os outros pelos Troianos? Quem eram, com efeito os deuses do paganismo, senão Espíritos dos quais os Antigos fizeram divindades? Não tínhamos razão em dizer que o Espiritismo é uma luz que iluminará mais de um mistério, a chave de mais de um problema?

21. Eles exerciam uma influência qualquer sobre os combatentes? – R. Uma muito considerável.

22. Poderíeis descrever-nos a maneira pela qual exerciam essa influência? – R. Do mesmo modo que todas as outras influências produzidas pelos Espíritos sobre os homens.

23. Que pensais fazer agora? – R. Estudar mais do que o fiz durante a minha última etapa.

24. Ides retornar para assistir, como espectador, aos combates que ainda se travam? – R. Não sei ainda; tenho afeições que me retêm neste momento; entretanto, conto escapar um pouco, de tempo ao outro, para me divertir vendo as brigas subseqüentes.

25. Qual gênero de afeições vos retêm? – R. Uma velha mãe enferma e sofredora, que me chora.

26. Peço perdão pelo mau pensamento que passou pelo meu espírito a respeito da afeição que vos retém. – R. Não o quero mais assim; disse-vos bobagens para vos fazer rir um pouco; é natural que não me tomeis por uma grande coisa, tendo em vista o honorável corpo ao qual pertenceis; mas tranqüilizai-vos: eu não me empenhei senão por essa pobre mãe; mereço um pouco que me tenham mandado para junto de vós.

27. Quando estáveis entre os Espíritos, ouvíeis o ruído da batalha; víeis as coisas tão claramente quanto durante a vossa vida? -R. Primeiro perdi a visão, mas depois de algum tempo já via muito melhor, porque via todas as astúcias.

28. Pergunto se percebíeis o ruído do canhão. – R. Sim.

29. No momento da ação, pensáveis na morte e no que vos tornaríeis se fosses morto? – R. Pensava no que se tornaria minha mãe.

30. Era a primeira vez que íeis ao fogo? – R. Não, não; e a África?

31. Vistes a entrada dos Franceses em Milão? – R. Não.

32. Sois o único que morreu na Itália? – R. Sim.

33. Pensais que a guerra durará muito tempo? – R. Não; é fácil, e pouco meritório, de resto, predizê-lo.

34. Quando vedes, entre os Espíritos, um de vossos chefes, o reconheceis ainda como vosso superior? – R. Se o é, sim; se não, não.

Nota. – Na sua simplicidade e seu laconismo, essa resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita, a superioridade moral é a única que se reconhece; aquele que não a tinha na Terra, qualquer que fosse sua classe, não tem nenhuma superioridade; ali, o chefe pode estar abaixo do soldado, o senhor abaixo do servidor. Que lição para o nosso orgulho!

35. Pensais na justiça de Deus, e vos inquietais com ela? – R. Quem não pensaria nela? Mas, felizmente, não tenho que temê-la sempre; resgatei, por algumas ações que Deus achou boas, algumas escapadelas que fiz na qualidade de zuavo, como dissestes.

36. Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de vossos companheiros e afastar dele um golpe fatal? – R. Não; isso não está em nosso poder; a hora da morte é marcada por Deus; se deve passar por ela, nada pode impedi-la; como nada pode atingi-lo se a aposentadoria não soou para ele.

37. Vedes o general Espinasse? – R. Não o vi ainda, mas espero muito ainda vê-lo.

SEGUNDA ENTREVISTA.

(17 de junho de 1859.)

38. Evocação – R. Presente! Coragem! Avante!

39. Lembrai-vos de ter vindo aqui há oito horas? – R. Mas!

40. Dissestes-nos que não tínheis revisto ainda o general Espinasse; como poderíeis reconhecê-lo, uma vez que já não carrega sua farda de general? – R. Não, mas conheço-o de vista; ademais não temos uma multidão de amigos prontos a nos dar a palavra. Aqui não é como no grande círculo; não se tem medo de se consentir em auxiliar e vos respondo que não há senão os maus velhacos, os únicos que não se vêem.

41. Sob qual aparência estais aqui? – R. Zuavo.

42. Se pudéssemos ver-vos, como vos veríamos? – R. Com turbante e calção.

43. Pois bem! Suponho que nos aparecesse com turbante e calção, onde apanhastes essa roupa, uma vez que deixastes a vossa no campo de batalha! – R. Ah! Eis! Nada sei; tenho um alfaiate que me arranjou esta.

44. De que são feitos o turbante e o calção que levais? Rendei-vos conta disso? – R. Não; isso diz respeito ao algibebe.

Nota. – Essa questão da roupa dos Espíritos, e várias outras não menos interessantes que se ligam ao mesmo princípio, estão completamente elucidadas pelas novas observações feitas no seio da sociedade; disso daremos conta no nosso próximo número. Nosso bravo zuavo não é bastante adiantado para resolvê-las por si mesmo; ser-nos-ia preciso, para isso, o concurso de circunstâncias que se apresentam fortuitamente, e que não colocamos no caminho.

45. Dai-vos conta da razão pela qual nos vedes, ao passo que não podemos ver-vos? – R. Creio compreender que vossos óculos são muito fracos.

46. É pela mesma razão que não poderíeis ver o general sem uniforme? – R. Sim, ele não o usa todos os dias.

47. Quais dias ele o usa? – R. Sim! Quando é chamado ao palácio.

48. Por que estais aqui em zuavo, se não podemos ver-vos? — R. Muito naturalmente porque sou zuavo ainda, desde há oito anos, e que no meio dos Espíritos, guardamos por muito tempo essa forma, mas isso não é senão entre nós, compreendeis que quando vamos para um mundo muito estranho, a Lua ou Júpiter, não nos damos ao trabalho de fazer tanto preparo pessoal.

49. Falais da Lua, de Júpiter, é que para aí fostes depois de vossa morte? – R. Não, não me compreendeis. Corremos muito o universo desde a nossa morte; não explicamos uma multidão de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhores que nós como não o fazíamos há quinze dias? Passa-se na morte uma metamorfose no Espírito, que não podeis compreender.

50. Tornastes a ver o corpo que deixastes no campo de batalha? – R. Sim, não é mais belo.

51. Que impressão essa visão deixou em vós? – R. Tristeza.

52. Tendes conhecimento de vossa existência precedente? -R Sim, mas não foi bastante gloriosa para que dela me vanglorie.

53. Dizei-nos somente o gênero de existência que tivestes? -R. Simples comerciante de peles indígenas.

54. Nós vos agradecemos por consentir em retornar uma segunda vez. – R. Até breve; isso me alegra e me instrui; desde que me toleram aqui, voltarei de bom grado. Um Oficial

Superior Morto em Magenta

(Sociedade. 10 de junho de 1859.)

1. Evocação. – R. Heis-me aqui.

2. Poderíeis dizer-nos como viestes tão prontamente ao nosso chamado? – R. Fui prevenido de vosso desejo.

3. Por quem fostes prevenido? – R. Por um emissário de Luís.

4. Tínheis conhecimento da existência da nossa sociedade? -R. Vós o sabeis.

Nota. – O oficial, do qual se trata, com efeito, concorreu para que a Sociedade obtivesse autorização para se constituir.

5. Sob qual ponto de vista consideráveis nossa sociedade, quando ajudastes a sua formação?
– R. Eu não estava ainda inteiramente fixado, mas me inclinava muito em crer, e sem os acontecimentos que sobrevieram, iria certamente instruir-me em vosso círculo.

6. Há muitas notabilidades que partilham as idéias espíritas, mas que não a confessam abertamente; seria desejável que as pessoas influentes na opinião desfraldassem abertamente essa bandeira. – R. Paciência; Deus o quer e esta vez a palavra é verdadeira.

7. Em qual classe influente da sociedade pensais que o exemplo será dado em primeiro lugar? – R. Por toda parte um pouco no início, inteiramente em seguida.

8. Poderíeis dizer-nos, do ponto de vista do estudo, se, embora morto quase no mesmo momento do zuavo que acabou de vir, vossas idéias estão mais lúcidas que as dele? – R. Muito; o que pôde dizer que testemunhava uma certa elevação de pensamentos, era-lhe soprado, porque ele é muito bom, mas muito ignorante e um pouco leviano.

9. Interessai-vos ainda pelo sucesso de nossas armas? – R. Muito, mais que nunca, porque lhe conheço hoje o objetivo.

10. Poderíeis definir o vosso pensamento; o objetivo sempre foi altamente confessado, e na vossa posição sobretudo, devíeis conhecê-lo? – R. O objetivo que Deus se propôs, o conheceis?

Nota. – Ninguém menosprezará a gravidade e a profundidade desta resposta. Assim vivendo, conhecia o objetivo dos homens: como Espírito, ele via o que havia de providencial nos acontecimentos.

11. Que pensais da guerra em geral? – R. Minha opinião é que vos desejo que progridais bastante rapidamente para que ela se torne impossível, tanto quanto inútil.

12. Credes que virá um dia em que ela será impossível e inútil? – R. Penso-o, e disso não duvido, posso dizer-vos que o momento não está assim tão longe como podeis crer, sem, entretanto, dar-vos a esperança de vê-lo vós mesmos.

13. Vós vos reconhecestes imediatamente no momento de vossa morte? – R. Reconheci-me quase em seguida, e isso graças às vagas noções que tinha do Espiritismo.

14. Poderíeis dizer-nos alguma coisa do Senhor***, morto igualmente na última batalha? – R. Ele está ainda nas redes da matéria; tem mais dificuldade para dela sair; seus pensamentos não estavam dirigidos desse lado.

Nota. – Assim o conhecimento do Espiritismo ajuda o desligamento da alma depois da morte; abrevia a duração da perturbação que acompanha a separação; isso se concebe; conhecia de antemão o mundo onde se encontra.

15. Assististes à entrada de nossas tropas em Milão? – R. Sim, e com alegria; estava arrebatado pela ovação que acolheu nossas armas, primeiro por patriotismo, depois por causa do futuro que as espera.

16. Podeis, como Espírito, exercer uma influência qualquer sobre as disposições estratégicas? – R. Credes que isso não foi feito desde o princípio, e tendes dificuldade de adivinhar por quê?

17. Como ocorre que os Austríacos tenham abandonado, tão prontamente, uma praça forte como Pavie? – R. O medo.

18. Portanto, estão desmoralizados? – R. Completamente, e depois agindo-se sobre os nossos num sentido, deveis pensar que uma influência de uma outra natureza agia sobre eles.

Nota. – Esta intervenção dos Espíritos nos acontecimentos não é equivocada; eles preparam os caminhos para o cumprimento dos desígnios da Providência. Os Antigos teriam dito que isso foi a obra dos Deuses’, nós dizemos que foi a dos Espíritos por ordem de Deus.

19. Podeis dar-nos a vossa apreciação sobre o general Giulay, como militar, e todo sentimento de nacionalidade à parte? – R. Pobre, pobre general.

20. Voltaríeis com prazer se vos chamássemos? – R. Estou à vossa disposição, e prometo mesmo retornar sem ser chamado; a simpatia que tenho por vós não pode senão aumentar, deveis assim pensar. Adeus.

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Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Revista Espírita, julho de 1859

 

Publicaremos no futuro o comentário regular das sessões da Sociedade.

Contávamos fazê-lo a partir deste número, mas a quantidade de matérias nos obrigou a adiá-lo para a próxima entrega. Os Sócios que não residem em Paris, e os membros correspondentes, poderão assim seguir os trabalhos da Sociedade.

Limitar-nos-emos a dizer hoje que, apesar da intenção do que o senhor Allan Kardec havia expressado em seu discurso de encerramento de renunciar à presidência, quando da renovação da secretaria, ele foi reeleito por unanimidade com uma abstenção e um voto em branco. Acreditaria mal responder a um testemunho assim elogioso persistindo em sua recusa. Ele não aceitou, todavia, senão condicionalmente e sob a reserva expressa de renunciar às suas funções no momento que a Sociedade se encontrasse em condições de oferecer a presidência a uma pessoa cujo nome e posição social fossem de natureza a dar-lhe um maior relevo; sendo seu desejo poder consagrar todo o seu tempo aos trabalhos e aos estudos que ela demanda.

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Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Discurso do encerramento do ano social 1858-1859

 

Revista Espírita, julho de 1859

 

Senhores,

 

No momento em que se expira vosso ano social, permiti-me vos apresentar um breve resumo da marcha e dos trabalhos da Sociedade.

Conheceis sua origem: ela se formou sem desígnio premeditado, sem projeto preconcebido. Alguns amigos se reuniam em minha casa num pequeno grupo; pouco a pouco, esses amigos pediram minha permissão para me apresentarem seus amigos. Não havia então presidente: eram reuniões íntimas de oito a dez pessoas, como existem centenas delas em Paris e alhures; mas era natural que, em minha casa, eu tivesse a direção do que ali se fazia, seja como dono da casa, seja também em razão dos estudos especiais que. eu havia feito, e que me davam uma certa experiência da matéria.

O interesse que se tomava por essas reuniões, era crescente, embora não se ocupasse senão de coisas muito sérias; pouco a pouco, de um e de outro, o número dos assistentes aumentava, e meu modesto salão, muito pouco propício para uma assembléia, tomou-se insuficiente. Foi então que, alguns dentre vós, propuseram se procurasse um lugar mais cômodo, e se cotizarem para subvencionar os gastos, não achando justo que eu os suportasse sozinho, como fizera até aquele momento. Mas, para se reunir regularmente, além de um certo número, e no local estranho, era necessário conformar-se às prescrições legais, era necessário um regulamento, e, conseqüentemente, um presidente como titular; enfim, era necessário constituir uma sociedade; o que ocorreu com o consentimento da autoridade, cuja benevolência não nos faltou. Era necessário também imprimir aos trabalhos uma direção metódica e uniforme, e consentistes em me encarregar de continuar o que fazia em minha casa, em nossas reuniões particulares.

Trouxe para minhas funções, que posso dizer laboriosas, toda a exatidão e todo o devotamento de que era capaz; do ponto de vista administrativo, esforcei-me por manter, nas sessões, uma ordem rigorosa, e dar-lhe um caráter de gravidade, sem o qual o prestígio de assembléia séria teria logo desaparecido. Agora que minha tarefa terminou, e que o impulso foi dado, devo vos participar a resolução que tomei de renunciar, para o futuro, a toda espécie de função na Sociedade, mesmo a de diretor dos estudos; não ambiciono senão um título, o de simples membro titular, com o qual estarei sempre feliz e honrado. O motivo de minha determinação está na multiplicidade dos meus trabalhos, que aumentam todos os dias em razão da extensão das minhas relações, porque além daqueles que conheceis, preparo outros mais consideráveis, que exigem longos e laboriosos estudos, e não absorverão menos de dez anos; ora, os da Sociedade não deixam de tomar muito tempo, seja para a preparação, seja para a coordenação e a cópia correta. Por outro lado, eles reclamam uma assiduidade freqüentemente prejudicial às minhas ocupações pessoais, e que tomam indispensável a iniciativa, quase exclusiva, que me deixastes. Foi por causa disso, Senhores, que tive que tomar tão freqüentemente a palavra, lamentando a miúdo que os membros eminentemente esclarecidos que possuímos nos privassem de suas luzes. Já há muito tempo tinha o desejo de demitir-me de minhas funções; eu o expressei, de um modo muito explícito, em diversas circunstâncias, seja aqui, seja em particular a vários de meus colegas, e notadamente ao senhor Ledoyen. Tê-lo-ia feito mais cedo sem o temor de trazer perturbação à Sociedade, retirando-me ao meio do ano, podendo se crer em uma defecção; e não era necessário dar essa satisfação aos nossos adversários. Portanto, deveria cumprir minha tarefa até o fim; mas hoje, quando esses motivos não mais existem, apresso-me em vos participar a minha resolução, a fim de não entravar a escolha que fareis. É justo que cada um tenha sua parte de encargos e de honras.

Depois de um ano, a Sociedade viu crescer rapidamente sua importância; o número de membros titulares triplicou em alguns meses; tendes numerosos correspondentes nos dois continentes, e os auditores ultrapassariam o limite do possível se não se pusesse um freio pela estrita execução do regulamento. Contastes, entre estes últimos, as mais altas notabilidades sociais e mais de uma ilustração. O zelo que se toma em solicitar admissão em vossas sessões testemunha o interesse que se tem por elas, não obstante a ausência de toda experimentação destinada a satisfazer a curiosidade, e talvez mesmo em razão de sua simplicidade.

” Se todos não saem dela convencidos, o que seria pedir o impossível, as pessoas sérias, aquelas que não vêm com uma intenção de difamação, levam da gravidade dos vossos trabalhos uma impressão que as dispõem a aprofundar essas questões. De resto, não temos senão que aplaudir as restrições que colocamos para a admissão de ouvintes estranhos: evitamos assim a massa de curiosos importunes. A medida com a qual limitastes essa admissão a certas sessões, reservando as outras unicamente para os membros da Sociedade, resultou por vos dar maior liberdade nos estudos, que a presença de pessoas ainda não iniciadas e cujas simpatias não estão asseguradas, poderiam entravar.

Essas restrições parecerão muito naturais para aqueles que conhecem o objetivo da nossa instituição, e que sabem, antes de tudo, que somos uma Sociedade de estudos e de pesquisas, antes que uma arena de propaganda; por essa razão não admitimos, em nossas fileiras, aqueles que, não tendo as primeiras noções da ciência, nos fariam perder nosso tempo em demonstrações elementares, renovadas incessantemente. Sem dúvida, todos nós desejamos a propagação das idéias que professamos, porque as julgamos úteis, e cada um de nós nisso contribui com a sua parte; mas sabemos que convicção não se adquire senão por observações continuadas, e não por alguns fatos isolados, sem seqüência e sem raciocínio, contra os quais a incredulidade sempre pode levantar objeções. Um fato, dir-se-á, é sempre um fato; é um argumento sem réplica. Sem dúvida, quando ele não é nem contestado e nem contestável.

Quando um fato sai do círculo das nossas idéias e dos nossos conhecimentos, à primeira vista parece impossível; quanto mais ele é extraordinário, mais objeções levanta, por isso é contestado; aquele que lhes sonda as causas, que se dá conta dele, encontra-lhe uma base, uma razão de ser; compreende-lhe a possibilidade, e, desde então, não o rejeita mais. Um fato, freqüentemente, não é inteligível senão pela sua ligação com outros fatos; tomado isoladamente, pode parecer estranho, incrível, absurdo mesmo; mas que seja um dos anéis da cadeia, que tenha uma base racional, que se possa explicá-lo, e toda a anomalia desaparece. Ora, para conceber esse encadeamento, para compreender esse conjunto ao qual se é conduzido de conseqüência em conseqüência,  é necessário em todas as coisas, e talvez ainda mais em Espiritismo, uma seqüência de observações racionais.

O raciocínio, portanto, é um poderoso elemento de convicção, hoje mais que nunca, quando as idéias positivas nos levam a saber o por quê e o como de cada coisa.

Espanta-se com a persistente incredulidade, em matéria de Espiritismo, da parte de pessoas que viram, ao passo que outras, que nada viram, são crentes firmes; quer dizer que estes últimos são pessoas superficiais que aceitam, sem exame, tudo o que se lhes diz? Não; pelo contrário: os primeiros viram, mas mas não compreendem; os segundos não viram, mas compreendem, e não compreendem senão pelo raciocínio.

O conjunto dos raciocínios sobre os quais se apóiam os fatos, constitui a ciência, ciência ainda muito imperfeita, é verdade, e da qual nenhum de nós pretende ver atingir o apogeu, mas, enfim, é uma ciência em seu início, e é na direção da pesquisa de tudo que pode ampliá-la e constituí-la que estão dirigidos vossos estudos. Eis o que importa se saiba bem fora desse recinto, a fim de que não se equivoque sobre os objetivos que nos propusemos; a fim de que não se creia, sobretudo, vindo aqui, encontrar uma exibição de Espíritos dando-se em espetáculos. A curiosidade tem um termo; quando está satisfeita, procura um novo objeto de distração; aquele que não se detém na superfície, que vê além do efeito material, encontra sempre alguma coisa para aprender; o raciocínio é para ele  uma  mina  inesgotável:  é sem  limite. Nossa linha de conduta, aliás, poderia ser melhor traçada pelas admiráveis palavras que o Espírito de São Luís nos dirigiu, e que não deveríamos jamais perder de vista: “Zombou-se das mesas girantes, não se zombará jamais da filosofia, da sabedoria e da caridade que brilham  nas comunicações sérias. Que alhures se veja, que em outro lugar se ouça, que entre vós se compreenda e se ame.”

Essas palavras: que entre vós se compreenda, são todo um ensinamento. Devemos compreender, e procuramos compreender, porque não queremos crer como cegos: o raciocínio é o facho que nos guia. Mas o raciocínio de um só pode se extraviar, por isso quisemos nos reunir em sociedade, a fim de nos esclarecermos mutuamente pelo concurso recíproco de nossas idéias e de nossas observações. Colocando-nos nesse terreno, assemelhamo-nos a todas as outras instituições científicas, e nossos trabalhos farão mais prosélitos sérios do que se passássemos nosso tempo fazendo girar e bater as mesas. Logo estaríamos saciados; queremos para o nosso pensamento um alimento mais sólido, eis porque procuramos penetrar os mistérios do mundo invisível, cujos fenômenos elementares não são senão os primeiros indícios. Aquele que que sabe ler, diverte-se repetindo, sem cessar, o alfabeto? Teríamos talvez um maior concurso de curiosos que se sucederiam em nossas sessões como os personagens de um panorama móvel, mas esses curiosos, que não poderiam levar uma convicção improvisada pela visão de um fenômeno inexplicável para eles, que o julgariam sem aprofundá-lo, seriam antes um obstáculo aos nossos trabalhos; eis porque, não querendo desviar de nosso caráter cientifico, afastamos quem não é atraído para nós por um objetivo sério. Ó Espiritismo tem conseqüências tão graves, e toca questões de uma tão grande importância, dá a chave de tantos problemas, nele haurimos, enfim, um tão profundo ensinamento filosófico, que ao lado disso, uma mesa girante é uma verdadeira infantilidade.

A observação dos fatos sem o raciocínio é insuficiente, dizemos, para conduzir a uma convicção completa, e é de preferência àquele  que  se  declarasse convencido por  um  fato que  não compreende, que se poderia taxar de leviandade; mas essa maneira de proceder tem um outro inconveniente, que é bom mencionar, e cada um de nós pôde testemunhar, é a mania da experimentação, que lhe é a conseqüência natural. Aquele vê um fato espírita sem dele ter estudado todas as circunstâncias, geralmente, não vê senão o fato material, e desde então o julga sob o ponto de vista de suas próprias idéias, sem pensar que fora das leis conhecidas pode, e deve, haver leis desconhecidas. Crê poder fazê-lo manobrar à sua vontade; impõe suas condições e não estará convencido, diz, senão quando se cumpre de tal modo e não de tal outro; ele imagina que se experimenta os Espíritos igual a uma pilha elétrica, não conhecendo nem sua natureza, nem sua maneira de ser que não estudou, crê poder impor-lhe sua vontade, e pensa que devem agir ao sinal dado pelo seu bom prazer de convencer-se; porque está disposto, por um quarto de hora, ouvi-los, se imagina que devem estar às suas ordens. São os erros nos quais não caem aqueles que se dão ao trabalho de se aprofundar; sabem render-se conta dos obstáculos e não pedem o impossível; em lugar de querem conduzir os Espíritos ao seu ponto de vista, ao que não se prestam de boa vontade, colocam-se no ponto de vista dos Espíritos, e para eles os fenômenos mudam de aspecto. Para isso são necessárias a paciência, a perseverança, e uma firme vontade, sem a qual não se chega a nada.

Quem quer realmente saber,  deve  submeter-se às  condições da coisa,  e  não querer submeter a coisa às suas próprias condições. Eis porque a Sociedade não se presta a experimentação que seriam sem resultados,   porque  sabe,  pela experiência,  que  o  Espiritismo, não mais que  toda ciência,  não se aprende em algumas horas e com presteza. Como ela é séria, não quer ter negócios senão com pessoas sérias, que compreendem as obrigações que um semelhante estudo impõe, quando se quer fazê-lo conscientemente. Ela não reconhece como sérios aqueles que dizem: Fazei-me ver um fato e estarei convencido.

Isso quer dizer que negligenciamos o fato? Muito ao contrário, uma vez que toda a nossa ciência está  baseada sobre os fatos; procuramos, pois, diligentemente todos aqueles que nos oferecem um objeto de estudo, ou que confirmam princípios admitidos; quero dizer somente que não perdemos nosso tempo reproduzindo aqueles que conhecemos, não mais do que o físico não se diverte se repetindo as experiências que nada lhe ensinam de novo. Centramos nossas investigações sobre tudo aquilo que pode esclarecer nossa marcha; ligando-nos de preferência às comunicações inteligentes, fontes da filosofia espirita, e cujo campo é sem limites, bem mais do que as manifestações puramente materiais, que não têm senão o interesse do momento.

Dois sistemas igualmente preconizados e praticados se apresentam no modo de se receberem as comunicações de além-túmulo; uns preferem esperar as comunicações espontâneas, os outros as provocam por uma chamada direta feita a tal ou tal Espírito. Os primeiros pretendem que na ausência de controle para constatar a identidade dos Espíritos, esperando sua boa vontade, se está menos exposto a ser induzido em erro, já que aquele que fala é porque quer falar, ao passo que não é certo que aquele que se chama possa vir ou responder. Objetam que deixar falar o primeiro que aparece, é abrir a porta aos maus tão bem quanto aos bons. A incerteza da identidade não é objeção séria, pois que, freqüentemente, existem meios de constatá-la, e que, aliás, essa constatação é o objeto de um estudo que se prende aos próprios princípios da ciência; o Espírito que fala espontaneamente se encerra, o mais ordinariamente, em generalidades, ao passo que as perguntas lhe traçam um quadro mais positivo e mais instrutivo. Quanto a nós, não condenamos senão os sistemas exclusivos; sabemos que se obtêm coisas muito boas por um e por outro modo, e se damos a preferência ao segundo, é porque a experiência nos ensinou que, nas comunicações espontâneas, os Espíritos enganadores não deixam de se ornamentar com nomes respeitáveis do que nas evocações; eles têm mesmo o campo mais livre, ao passo que pelas perguntas são dominados, são dirigidos mais facilmente, sem contar que as perguntas são de uma utilidade incontestável nos estudos. É a esse modo de investigações que devemos a multidão de observações que recolhemos, a cada dia, que nos fazem penetrar mais profundamente esses estranhos mistérios. Quanto mais nós avançamos, mais o horizonte aumenta diante de nós, e nos mostra o quanto é vasto o campo que temos a ceifar.

As numerosas observações que fizemos permitiram levar um olhar investigador sobre o mundo invisível, desde a base até o cume, quer dizer, no que He tem de mais ínfimo como no que tem de mais sublime. Ás inumeráveis variedades de fatos e de caracteres que saíram desses estudos, feitos com a calma profunda, a atenção sustentada e a prudente circunspeção de observadores sérios, nos abriram os arcanos desse mundo tão novo para nós; a ordem e o método que colocastes em vossas pesquisas foram os elementos indispensáveis para o sucesso. Com efeito, sabeis, pela experiência, que não basta chamar ao acaso o Espírito de tal ou tal pessoa; os Espíritos não vêm, assim, ao sabor de nosso capricho e não respondem a tudo aquilo que a fantasia nos leva a perguntar-lhes. É necessário, com os seres de além-túmulo, circunspeção, saber ter uma linguagem apropriada à sua natureza, às suas qualidades morais, ao grau de sua inteligência, à classe que eles ocupam; estar com eles, dominador ou submisso, segundo as circunstâncias, compadecente por aqueles que sofrem, humilde e respeitoso com os superiores, firme com os maus e os obstinados que não subjugam senão aqueles que os escutam com complacência; é necessário, enfim, saber formular e encadear, metodicamente, as perguntas para obter respostas mais explícitas, agarrar nas respostas as nuanças que são, freqüentemente, traços característicos, revelações importantes, que escapam ao observador superficial, sem experiência ou de passagem. A maneira de conversar com os Espíritos é, pois, uma verdadeira arte que exige tato ou conhecimento do terreno sobre o qual se caminha, e constitui, propriamente falando, o Espiritismo prático. Sabiamente dirigidas, as evocações podem ensinar grandes coisas; oferecem um poderoso elemento de interesse, de moralidade e de convicção: de interesse, porque elas nos dão a conhecer o estado do mundo que espera todos nós, e do qual se faz, algumas vezes, uma idéia tão bizarra; de moralidade, porque podemos ver aí, por analogia, nossa sorte futura; a convicção, porque se encontra nessas conversações íntimas a prova manifesta da existência e da individualidade dos Espíritos, que não são outros senão nossas almas desligadas da matéria terrestre. Estando formada, em geral, vossa opinião sobre o Espiritismo, não tendes necessidade de assentar vossas convicções sobre a prova material das manifestações físicas; também não quisestes, segundo o conselho dos Espíritos, encerrarvos nos estudos dos princípios e das questões morais, sem negligenciar, por isso, o exame dos fenômenos que podem ajudar na procura da verdade.

A crítica demolidora nos censurou por aceitarmos, muito facilmente, as doutrinas de certos Espíritos, sobretudo naquilo que concerne às questões científicas. Essas pessoas mostram, por isso mesmo, que elas não conhecem nem o verdadeiro objetivo da ciência espírita, nem aquele que nos propusemos e se pode, com todo o direito, retornar-lhe a censura de leviandade em seu julgamento. Certamente não é a vós que é necessário ensinar a reserva com a qual se deve acolher o que vem dos Espíritos; e estamos longe de tomar todas as suas palavras por artigos de fé. Sabemos que entre eles existem os de todos os graus de saber e de moralidade; para nós é todo um povo que apresenta variedades cem vezes mais numerosas que aquelas que vemos entre os homens; é chegar a conhecê-lo e compreendêlo; por isso, estudamos as individualidades, observamos as nuanças, tratamos de compreender os traços distintivos de seus costumes, de seus hábitos, de seu caráter; queremos, enfim, tanto quanto possível, nos identificar com o estado desse mundo. Antes de ocupar uma residência, gostamos muito de saber como ela é, se estaremos ali comodamente, conhecer os hábitos dos vizinhos que teremos, o gênero de sociedade que ali poderemos freqüentar. Pois bem! É nossa residência futura, são os costumes do povo no meio do qual viveremos, que os Espíritos nos fazem conhecer. Mas, do mesmo modo que, entre nós, as pessoas ignorantes e de visão estreita se fazem uma idéia incompleta do nosso mundo material e do meio que não seja o seu, do mesmo modo os Espíritos cujo horizonte moral é limitado, não podem abarcar o conjunto, e estão ainda sob o império de preconceitos e de sistemas; não podem, pois, nos informar, sobre tudo o que concerne ao mundo espírita, mais do que um camponês poderia fazê-lo quanto ao estado da alta sociedade parisiense ou do mundo sábio. Seria, pois, ter de nosso julgamento uma bem pobre opinião, pensando-se que escutamos todos os Espíritos como oráculos. Os Espíritos são o que são, e não podemos mudar a ordem das coisas; não sendo todos perfeitos, não aceitamos suas palavras senão sob o benefício de inventário, e não com a credulidade de crianças; julgamos, comparamos, tiramos conseqüências de nossas observações, e seus próprios erros são para nós ensinamentos, porque não renunciamos ao nosso discernimento.

Essas observações se aplicam igualmente a todas as teorias científicas que os Espíritos possam dar. Seria muito cômodo não ter senão que interrogá-los para encontrar a ciência toda pronta, e para possuir os segredos da indústria: não adquiriremos a ciência senão ao preço de trabalho e de pesquisas; sua missão não é nos livrar dessa obrigação. Aliás, sabemos que não só nem todos sabem tudo, mas que há, entre eles, falsos sábios, como entre nós, que crêem saber o que não sabem, e falam daquilo que ignoram com o descaramento mais imperturbável. Um Espírito poderia dizer, pois, que é o Sol que gira e não a Terra, e sua teoria não seria mais verdadeira porque vinda de um Espírito. Que aqueles que nos supõem uma credulidade tão pueril, saibam, pois, que tomamos toda opinião manifestada por um Espírito por uma opinião individual; que não a aceitamos senão depois de tê-la submetido ao controle da lógica e dos meios de investigação que a própria ciência espírita nos fornece, meios que todos vós conheceis.

Tal é, senhores, o objetivo que a Sociedade se propõe; certamente, não me cabe vo-lo ensinar, mas alegro-me em lembrá-lo aqui, a fim de que, se minhas palavras ressoarem lá fora, não se equivoquem mais sobre o seu verdadeiro caráter. Estou feliz, de minha parte, por não haver senão que seguir-vos nesse caminho sério que eleva o Espiritismo à categoria de ciência filosófica. Vossos trabalhos já deram frutos, mas os que darão mais tarde são incalculáveis, se, como disso não duvido, permanecerdes nas condições propícias para atrair os bons Espíritos entre vós.

O concurso dos bons Espíritos, tal é, com efeito, a condição sem a qual ninguém pode esperar a verdade; ora, depende de nós obter esse concurso.

A primeira de todas as condições para conciliar sua simpatia, é o recolhimento e a pureza de intenções.

Os Espíritos sérios vão onde são chamados com seriedade, com fé, fervor e confiança; não gostam de servir para experiência, nem se darem em espetáculo; ao contrário, comprazem-se em instruir aqueles que os interrogam sem segunda intenção; os Espíritos leviamos, que zombam de tudo, vão por toda parte e de preferência onde encontram ocasião para mistificarem; os maus são atraídos pelos maus pensamentos, e por maus pensamentos é preciso entender todos aqueles que não estejam conforme os princípios da caridade evangélica. Portanto, em toda reunião, quem carregue consigo sentimentos contrários a esses preceitos, conduz consigo Espíritos desejosos de semearem a perturbação, a discórdia e a desafeição.

A comunhão de pensamentos e de sentimentos para o bem é, assim, uma coisa de primeira necessidade, e essa comunhão não pode encontrar-se num meio heterogêneo, onde teriam acesso as baixas paixões do orgulho, da inveja e do ciúme, paixões que sempre se trairiam pela malevolência e pela acrimônia da linguagem, por espesso que seja, aliás, o véu com o qual se procure cobri-las; é o a, b, c, da ciência espírita. Se quisermos fechar, aos maus Espíritos, as portas deste recinto fechado, cerremos-lhes primeiro a porta de nossos corações, e evitaremos tudo o que poderia dar-lhes presa sobre nós. Se alguma vez a Sociedade tornar-se o joguete de Espíritos enganadores, por quem seriam ali atraídos? Por aqueles em quem encontrassem eco, porque não vão senão aonde sabem ser escutados. Conhece-se o provérbio:

Dize-me com quem andas, dir-te-ei as manhas que tens; e que se pode indagar assim com respeito aos nossos Espíritos simpáticos: Dize-me o que pensas, e dir-te-ei com quem andas. Ora, os pensamentos se traduzem pelos atos; portanto, admitindose que a discórdia, o orgulho, a inveja e o ciúme não podem ser insuflados senão pelos maus Espíritos, quem trouxesse aqui esses elementos de desunião, suscitaria entraves, acusaria, por isso mesmo, a natureza de seus satélites ocultos, e não poderíamos senão lamentar sua presença no seio da Sociedade.

Queira Deus que ela jamais seja assim, eu o espero, e com a assistência dos bons Espíritos, se soubermos nos tornar favoráveis, a Sociedade se consolidará, tanto pela consideração que saberá merecer quanto pela utilidade de seus trabalhos. Se não tivéssemos em vista senão experiências de curiosidade, a natureza das comunicações seria quase indiferente, porque não as tomaríamos sempre senão por aquilo que seriam; mas como, em nossos estudos, não procuramos nem nossa diversão, nem a do público, o que queremos são comunicações verdadeiras; para isso ser-nos-á necessária a simpatia dos bons Espíritos, e essa simpatia não é adquirida senão por aqueles que afastam o mal na sinceridade de sua alma. Dizer que os Espíritos levianos jamais puderam se introduzir entre nós, favorecidos por algum ponto fraco, seria muita presunção e pretender a perfeição; os próprios Espíritos superiores poderiam permiti-lo para experimentarem nossa perspicácia e nosso zelo na procura da verdade; mas nosso julgamento deve manter-nos em guarda contra as armadilhas que podem nos ser estendidas, e nos dá, em todos os casos, os meios para evitá-las.

O objetivo da Sociedade não consiste somente na pesquisa dos princípios da ciência espírita; vai mais longe: ela estuda também suas conseqüências morais, porque aí sobretudo está a verdadeira utilidade.

Nossos estudos nos ensinam que o mundo invisível que nos cerca reage, constantemente, sobre o mundo visível; eles no-lo mostram como uma das forças da Natureza; conhecer os efeitos dessa força oculta que nos domina e nos subjuga com o nosso desconhecimento, não é ter a chave de mais de um problema, a explicação de uma multidão de fatos que passam despercebidos? Se esses efeitos forem funestos, conhecer a causa do mal não seria ter o meio de preservar-se deles, como o conhecimento das propriedades da eletricidade nos deu o meio de atenuar os efeitos desastrosos do raio? Se sucumbirmos, então, não nos poderemos queixar senão de nós mesmos, porque não mais teremos a ignorância por desculpa. O perigo está no império que os maus Espíritos tomam sobre os indivíduos, e esse império não é apenas funesto do ponto de vista dos erros de princípios que possam propagar, mas o é, ainda, do ponto de vista dos interesses da vida material.

A experiência nos ensina que jamais é impunemente que se abandona à sua dominação; porque suas intenções nunca podem ser boas. Uma de suas táticas, para alcançar seus fins, é a desunião, porque sabem muito bem que dominarão facilmente aquele que estiver privado de apoio; também seu primeiro cuidado, quando querem se apossar de alguém, é o de sempre inspirar-lhe a desconfiança e o distanciamento de quem possa desmascará-los, esclarecendo-o com conselhos salutares; uma vez senhores do terreno, podem, à sua vontade, fasciná-lo com promessas sedutoras, subjugá-lo gabando suas inclinações, aproveitando, para isso, todos os lados fracos que encontram, para melhor fazê-lo sentir, em seguida, a amargura das decepções, feri-lo em suas afeições, humilhá-lo em seu orgulho, e, freqüentemente, não elevá-lo um instante senão para precipitá-lo de mais alto.

Eis, senhores, o que nos mostram os exemplos que, a cada instante, se desenrolam aos nossos olhos, tanto no mundo dos Espíritos quanto no mundo corpóreo, os quais podemos aproveitar para nós mesmos, ao mesmo tempo que procuramos aproveitá-los aos outros. Mas, dir-se-á, não atraireis os maus Espíritos evocando homens que foram a escória da sociedade? Não, porque não sofreremos jamais sua influência.

Não há perigo senão quando é o Espírito que se IMPÕE, ele jamais existe quando se IMPÕE ao Espírito.

Sabeis que esses Espíritos não vêm ao nosso chamado senão como constrangidos e forçados, e que, em geral, encontram tão pouco do seu meio entre nós, que sempre têm pressa de se irem. Sua presença é para nós um estudo, porque, para conhecer, é necessário ver tudo; o médico não chega ao apogeu do seu saber senão sondando as feridas mais hediondas; ora, essa comparação do médico é tanto mais justa quando sabeis quantas feridas cicatrizamos, quantos sofrimentos aliviamos; nosso dever é mostrar-nos caridosos e benevolentes para com os seres de além-túmulo, como para os nossos semelhantes.

Desfrutaria eu, pessoalmente, senhores, de um privilégio extraordinário se estivesse ao abrigo da crítica. Ninguém se coloca em evidência sem se expor aos dardos daqueles que não pensam como nós.

Mas há duas espécies de críticos:

uma que é malevolente, acerba, envenenada, onde o ciúme se trai a cada palavra; a que tem por objetivo a procura sincera da verdade, e comportamentos diferentes. A primeira não merece senão o desdém: com ela jamais me atormentei; só a segunda é discutível.

Algumas pessoas disseram que fui muito apressado nas teorias espíritas; que não chegara o tempo de estabelecê-las, que as observações não eram bastante completas. Permiti-me algumas palavras a esse respeito.

Duas coisas devem ser consideradas no Espiritismo: a parte experimental e a parte filosófica ou teórica. Fazendo-se abstração do ensinamento dado pelos Espíritos, pergunto se, em meu nome, não tenho o direito, como tantos outros, de elocubrar um sistema de filosofia? O campo das opiniões não está aberto a todo o mundo? Por que, pois, não faria conhecer a minha? Caberá ao público julgar se ela tem ou não o senso comum. Mas essa teoria, em lugar de fazer um mérito, se mérito há, eu declaro que ela emana inteiramente dos Espíritos. – Seja, diz-se, mas ides muito longe. – Aqueles que pretendem dar a chave dos mistérios da criação desvendaram o princípio das coisas e a natureza infinita de Deus, não vão mais longe que eu, que declaro, em nome dos Espíritos, que não é dado ao homem aprofundar essas coisas sobre as quais não se pode estabelecer senão conjecturas mais ou menos prováveis? – Ides muito depressa. – Seria um erro terem certas pessoas avançado? Aliás, quem as impede de caminhar? – Os fatos não estão ainda suficientemente observados. – Mas se eu, com ou sem razão, creio tê-los observado bastante, devo esperar o bom prazer daqueles que permanecem atrás? Minhas publicações não barram o caminho de ninguém. – Uma vez que os Espíritos estão sujeitos ao erro, quem vos disse que aqueles que vos informaram não estão enganados? – Com efeito, aí está toda a questão, porque a da precipitação é muito pueril. Pois bem!

Devo dizer sobre o que está fundada a minha confiança na veracidade e na superioridade dos Espíritos que me instruíram. Direi primeiro que, segundo o seu conselho, não aceito nada sem exame e sem controle; não adoto uma idéia senão se ela me parece racional, lógica e está de acordo com os fatos e as observações, se nada sério vem contradizê-la. Mas meu julgamento não poderia ser um critério infalível; o assentimento que encontrei numa multidão de pessoas mais esclarecidas do que eu, é para mim uma primeira garantia; encontro uma outra, não menos preponderante, no caráter das comunicações que me fizeram desde que me ocupo com o Espiritismo. Nunca, posso dizê-lo, escapou uma única dessas palavras, um único desses sinais pelos quais se traem sempre os Espíritos inferiores, mesmo os mais astuciosos; jamais dominação; jamais conselhos equivocados ou contrários à caridade e à benevolência, jamais   prescrições   ridículas;   longe   disso,   não   encontrei   neles senão pensamentos grandes, nobres, sublimes, isentos de pequenez e mesquinharia; em uma palavra, suas relações comigo, nas menores, como nas maiores coisas sempre foram tais que se fora um homem que houvesse falado, tê-lo-ia pelo melhor, o mais sábio, o mais prudente, o mais moral e o mais esclarecido. Eis, senhores, os motivos de minha confiança, corroborados pela identidade de ensinamentos dados a uma multidão de outras pessoas antes e depois da publicação de minhas obras. O futuro dirá .se estou ou não com a verdade; à espera, creio dever ajudar o progresso do Espiritismo trazendo algumas pedras ao edifício. Mostrando que os fatos podem se assentar sobre o raciocínio, terei contribuído para fazê-los sair do caminho frívolo da curiosidade, para fazê-los entrar na via séria da demonstração, a única que pode satisfazer os homens que pensam e não se detêm na superfície.

Termino, senhores, pelo curto exame de uma questão da atualidade. Fala-se de outras sociedades que querem se levantar rivalizando com a nossa.

Uma, diz-se, conta já com 300 membros e possui recursos financeiros importantes. Quero crer que isso não seja uma fanfarrice, que seria também pouco lisonjeira para os Espíritos que a houvessem suscitado, como para aqueles que deles se fazem os ecos. Se for uma realidade, nós a felicitaremos sinceramente, se ela obtiver a unidade de sentimentos necessária para frustrar a influência dos maus Espíritos e consolidar a sua existência.

Ignoro completamente quais são os elementos da sociedade, ou das sociedades, que se diz querer formar; não farei, pois, senão uma nota geral.

Há em Paris e alhures uma multidão de reuniões íntimas, como foi a nossa outrora, onde se ocupa, mais ou menos seriamente, das manifestações espíritas, sem falar dos Estados Unidos, onde elas se contam por milhares; conheço-as onde as evocações se fazem nas melhores condições e onde se obtêm coisas muito notáveis; é a conseqüência natural do número crescente de médiuns que se desenvolvem em todos os lados, apesar dos galhofeiros, e quanto mais avançarmos, mais esses centros se multiplicarão. Esses centros, formados espontaneamente de elementos muito pouco numerosos e variáveis, nada de têm de fixo ou de regular e, propriamente falando, não constituem sociedades. Para uma sociedade regularmente organizada, são necessárias condições de vitalidade muito diferentes, em razão mesmo do número de membros que a compõem, da estabilidade e da permanência. A primeira de todas é a homogeneidade nos princípios e na maneira de ver. Toda sociedade formada por elementos heterogêneos, carrega consigo o germe de sua dissolução; pode-se dize-la natimorta qualquer que lhe seja o objeto: político, religioso, científico ou econômico.

Uma sociedade espírita requer uma outra condição, que é a assistência dos bons Espíritos, querendo-se obter comunicações sérias, porque dos maus, deixando que tomem pé, não podemos esperar senão mentiras, decepções e mistificações; sua própria existência tem esse preço, uma vez que os maus serão os primeiros agentes de sua destruição; eles a minarão pouco a pouco, se não fizerem desabar tudo primeiro. Sem homogeneidade, nada de comunhão de pensamentos, e, portanto, nada de calma, nem de recolhimento possíveis; ora, os bons não vão senão ali onde encontram essas condições; e como encontrá-los numa reunião onde as crenças são divergentes, onde uns não crêem mesmo em tudo, e onde, conseqüentemente, domina sem cessar o espírito de oposição e de controvérsia? Eles não assistem senão aqueles que querem ardentemente se esclarecer, tendo em vista o bem, sem segunda intenção, e não para satisfazer uma vã curiosidade. Querer formar uma sociedade espírita fora dessas condições, seria dar prova de ignorância, a mais absoluta, dos princípios mais elementares do Espiritismo.

Somos nós, pois, os únicos capazes de reuni-los? Seria bem deplorável, e além do mais, bem ridículo para nós assim crer. O que fizemos, seguramente, outros podem fazê-lo.

Que outras Sociedades se ocupem, pois, dos mesmos trabalhos nossos, que prosperem, que se multipliquem, tanto melhor, mil vezes tanto melhor, porque será um sinal de progresso nas idéias morais; tanto melhor, sobretudo, se forem bem assistidas e tiverem boas comunicações, porque não temos a pretensão de um privilégio a esse respeito; como não temos em vista senão nossa instrução pessoal e o interesse da ciência, que nossa sociedade não oculta nenhum pensamento de especulação nem direto e nem indireto, nenhuma via ambiciosa, que sua existência não repousa sobre uma questão de dinheiro, as outras Sociedades serão para nós irmãs, mas não podem ser concorrentes; se delas tivermos ciúmes, provaremos que estamos assistidos por maus Espíritos. Se uma delas se formasse tendo em vista criar-nos uma rivalidade, com a segunda intenção de nos suplantar, ela revelaria por seu próprio objetivo à natureza dos Espíritos que presidiram sua formação, porque esse pensamento não seria nem bom nem caridoso, e os bons Espíritos não simpatizam com os sentimentos de ódio, de ciúmes e de ambição.

Temos, de resto, um meio infalível de não temer nenhuma rivalidade; foi São Luís quem nolo deu: Que entre vós vos compreendais e vos ameis, disse-nos. Trabalhemos, pois, para compreender; lutemos com os outros, mas lutemos com caridade e abnegação. Que o amor ao próximo esteja inscrito em nossa bandeira e seja a nossa divisa; com isso afrontaremos o escárnio e a influência dos maus Espíritos. Nesse terreno, podem nos igualar, e tanto melhor, porque serão irmãos que nos chegarão, mas depende de nós não estarmos nunca ultrapassados.

Mas, dir-se-á, tendes uma maneira de ver que não é a nossa; não podemos simpatizar com princípios que não admitimos, porque nada prova que estais com a verdade. A isso eu respondo: Nada prova que estejais mais do que nós na verdade, porque duvidais ainda, e a dúvida não é uma doutrina. Pode-se diferir de opinião sobre pontos da ciência, sem se morder e se atirar a pedra; é mesmo muito pouco digno e muito pouco científico fazê-lo. Procurai, pois, de vossa parte como procuramos da nossa; o futuro dará razão a quem tem direito. Se nos enganamos, não teremos o tolo amor próprio de nos obstinar em idéias falsas; mas há princípios sobre os quais se está certo de não se enganar: são o amor ao bem, a abnegação, a abjuração de todo sentimento de inveja e de ciúme; esses princípios são os nossos, e com esses princípios pode-se simpatizar sempre sem se comprometer; é o laço que deve unir todos os homens de bem, qualquer que seja a divergência de suas opiniões: só o egoísmo coloca entre eles uma barreira intransponível.

Tais são, Senhores, as observações que acreditei dever vos apresentar, deixando as funções que me confiastes; agradeço do fundo do coração todos aqueles que consentiram em me darem testemunhos de sua simpatia. Chegue onde chegar, minha vida está consagrada à obra que empreendemos, e ficarei feliz se meus esforços puderem ajudar a fazê-la entrar no caminho sério que é a sua essência, o único que poderá assegurar seu futuro. O objetivo do Espiritismo é de tornar melhores aqueles que o compreendem; tratemos de dar o exemplo e de mostrar que, para nós, a doutrina não é letra morta; em uma palavra, sejamos dignos dos bons Espíritos, se quisermos que os bons Espíritos nos assistam. O bem é uma couraça contra a qual virão sempre se quebrar as armas da malevolência.

 

ALLAN KARDEC.Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

O major Georges Sydenham

Encontramos o relato seguinte de uma coleção notável de histórias autênticas de aparições e outros fenômenos espíritas, publicados em Londres em 1682, pelo reverendo J. Granville e o doutor H. More. Está intitulado: Aparição do Espírito do major Georges Sydenham ao capitão V. Dyke, extraída de uma carta do senhor Jacques Douge, de Mongton, ao senhor J. Granville.

— Pouco tempo depois da morte do major Georges, o doutor Th. Dyke, parente próximo do capitão, foi chamado para cuidar de uma criança doente. O doutor e o capitão deitaram-se na mesma cama. Quando tinham dormido um pouco, o capitão bateu e ordenou às suas domésticas para levar-lhe duas velas acesas, as maiores e as mais grossas que pudessem encontrar. O doutor lhe perguntou o que isso significava. “Conheceis, disse o capitão, minhas discussões com o major, no que se refere à existência de Deus e à imortalidade da alma: não pudemos nos esclarecer sobre esse dois pontos, e embora o tivéssemos sempre desejado.

“Ficou, pois, convencionado que aquele que de nós dois que morresse primeiro, viria, na
terceira noite depois de seus funerais, entre minuto e uma hora, no jardim desta pequena casa, e aí esclarecesse a sobrevivência a esse respeito. Será hoje mesmo, acrescentou o capitão, que o major deverá cumprir sua promessa.” Em conseqüência, colocou seu relógio de bolso junto dele, e às onze e meia levantou-se, tomou uma vela em cada mão, saiu por uma porta do fundo, da qual levou a chave, e assim passeou no jardim durante duas horas e meia. No seu retorno, declarou ao doutor que nada viu, nem nada ouviu que não fosse muito natural; mas, acrescentou-me, sei que meu major viria se pudesse.

Seis semanas depois, seguiu para Eaton para ali colocar seu filho na escola, e o doutor foi
com ele. Alojaram-se no albergue com a insígnia de São Cristóvão, e permaneceram dois ou três dias, mas não deitaram juntos como em Dulversan; estavam em dois quartos separados.

Uma manhã, o capitão ficou mais tempo, do que de costume, em seu quarto, antes de chamar o doutor. Enfim, ele entrou no quarto desse último, o rosto todo transtornado, os
cabelos eriçados, os olhos desvairados e o corpo todo tremente. – Que houve, pois, primo capitão? Disse o doutor. O capitão respondeu: Eu o vi meu major. – O doutor pareceu sorrir. Eu vos afirmo que jamais o vi na minha vida ou vi-o hoje. Fez-me, então, a seguinte narração: “Esta manhã, ao romper do dia, alguém veio ao lado de minha cama, arrancou as cobertas, gritando: cap, cap (era o termo familar do major, para chamar o capitão.) – Eu respondi: O que! meu major? – Ele respondeu: Não pude vir no dia dito; mas agora heis-me e vos digo: Há um Deus, e um muito justo e terrível; se não mudardes de pele, vereis quando aí estiverdes! – Sobre a mesa havia uma espada que o major me havia dado; quando este deu duas ou três voltas no quarto, pegou a espada, tirou-a da bainha, e não a encontrando tão brilhante como deveria estar: Cap, cap, disse ele, esta espada estava melhor cuidada quando era minha. – Com essas palavras, ele desapareceu de repente.”

O capitão não somente ficou perfeitamente persuadido da realidade do que havia visto e
ouvido, mas ainda ficou, depois desse tempo, muito mais sério. Seu caráter, outrora leviano e jovial, foi notavelmente modificado. Quando ele convidava seus amigos, tratava-os com nobreza, mas mostrava-se forte sobre si mesmo. As pessoas que o conheciam asseguram que ele acreditava ouvir, freqüentemente, em seus ouvidos, as palavras do major, durante os dois anos que viveu depois dessa aventura.

ALLAN KARDEC.

 

 

Variedades

Revista Espírita, junho de 1859 A princesa de Rebinine.

(Extraído do Courrier de Paris), de maio de 1859.)

Sabeis que todos os sonâmbulos, todas as mesas girantes, todos os pássaros magnetizados, todos os lápis simpáticos e todos os tiradores de cartas predisseram a guerra desde há muito tempo?… Profecias nesse sentido foram feitas a uma multidão de personagens importantes que, fingindo tratar muito ligeiramente essas supostas revelações do mundo sobrenatural, não deixaram de ficar muito preocupados com elas.

De nossa parte, sem decidir a questão num sentido nem no outro, e achando, aliás, que, ali onde o próprio François Arago duvidava, é menos permitido não se pronunciar, limitar-nos-emos a contar, sem comentários, alguns fatos dos quais fomos testemunhas.

Há oito dias, fomos convidados para uma noite espírita, na casa do barão G….

Na hora indicada, todos os convidados, em número de doze somente, se achavam ao redor da mesa…. milagrosa, uma simples mesa de mogno, de resto, e sobre a qual, no momento, servira-se o chá e os sanduíches de rigor.

Desses doze convivas, devemos nos apressar em proclamá-lo, nenhum poderia, razoavelmente, incorrer na censura de charlatanismo. O senhor da casa, que conta ministros em seus parentes próximos, pertence a uma grande família estrangeira.

Quanto aos seus fiéis, se compunham de dois distintos oficiais ingleses, um oficial da marinha francesa, um príncipe russo muito conhecido, um médico muito hábil, um milionário, um secretário de embaixada e dois ou três figurões do subúrbio Saint-Ger-main. Éramos o único profano entre esses ilustres do Espiritismo’, mas, em nossa qualidade de cronista parisiense, e cético por dever, não poderíamos ser acusado de credulidade…. exagerada. A reunião em questão não poderia ser considerada o jogo de uma comédia; e que comédia! Uma comédia inútil e ridícula, sem a qual cada um teria, voluntariamente, aceito, ao mesmo tempo, o papel de mistificador e de mistificado? Isso não é admissível. E, de resto, com que objetivo? Com qual interesse? Isso era o caso ou jamais se perguntar: Quem engana aqui?

Não, ali não havia nem má-fé, nem loucura…. Coloquemos, se quiserdes, que houvera acaso…. É tudo o que a nossa consciência nos permite conceder-vos.

Ora, heis o que se passou:

Depois de haver interrogado o Espírito sobre mil coisas, se lhe perguntou se as esperanças de paz, – que pareciam então muito fortes, – eram fundadas.

– Não, respondeu muito distintamente em duas vezes diferentes.

– Teremos, pois, a guerra? – Certamente!…

– Quando isso? – Em oito dias.

– Entretanto, o Congresso não se reúne senão no próximo mês…. Isso adia para muito longe as eventualidades de um começo de hostilidades. – Não haverá Congresso!

– Porquê? – A Áustria o recusará.

– E qual será a causa que triunfará? – A da justiça e do bom direito…. a da França.

– E a guerra, que será ela? – Curta e gloriosa.

Isso nos traz à memória um outro fato do mesmo gênero, que se passou igualmente sob os nossos olhos há alguns anos.

Recorda-se que, quando da guerra da Criméia, o imperador Nicolau chamou para a Rússia todos aqueles de seus súditos que habitavam a França, sob pena, para estes, de verem confiscados os seus bens, recusando-se a atender essa ordem.

Estávamos então em Saxe, em Leipzick, onde se tomava, como por toda parte, um vivo interesse pela campanha que vinha de começar. Um dia, recebemos o bilhete seguinte:

“Estou aqui por algumas horas somente; vinde ver-me, – hotel de Pologne, nº 13!”

“PRINCESA DE REBININE.”

Conhecêramos muito a princesa Sophie de Rebinine, uma mulher encantadora e distinta, cuja história era todo um romance (que escreveremos um dia), e que muito queria nos chamar seu amigo. Apressamo-nos, pois, em atender seu amável convite, tão agradavelmente surpreso quanto encantado pela sua passagem por Leipzick.

Era um domingo, um 13, e o tempo estava naturalmente cinza e triste, como ocorre sempre nessa parte da Saxe. Encontramos a princesa em sua casa, mais graciosa e mais espiritual que nunca, somente um pouco pálida, um pouco melancólica. Fizemos-lhe essa observação.

– De início, nos respondeu ela, parti como uma bomba. – Era o caso, uma vez que heis-nos em guerra, e estou um pouco cansada com o meu modo de viagem. Em seguida, se bem que sejamos agora inimigos, não vos esconderei que vou deixar Paris com pesar. Há muito que me considerava quase como francesa, e a ordem do imperador me faz romper com um velho e doce hábito.

– Por que não permanecestes tranqüilamente em vosso lindo apartamento da rua Rumfort?

– Porque me cortariam as mesadas.

– Pois bem! Não tendes, pois, entre nós, numerosos e bons amigos?

– Sim,… pelo menos o creio; mas, em minha idade, uma mulher não gosta de deixar tomar hipoteca sobre si…. Os interesses a pagar ultrapassam, freqüentemente, o valor do capital! Ah! se fora velha, seria outra coisa,… mas, então, não se me emprestaria mais.

E nessa altura a princesa mudou de conversação.

– Ora essa! disse-nos ela, sabeis que sou de uma natureza bastante absorvente…. Não conheço aqui vivalma…. Posso contar convosco para todo o dia?

A resposta que demos é fácil de adivinhar.

A uma hora, o sino se fez ouvir no pátio e descemos para jantar na mesa redonda do hotel. Todo o mundo falava, nesse momento, da guerra… e das mesas girantes.

No que concerne à guerra, a princesa estava segura de que a frota anglo-francesa seria destruída no mar Negro, e ela se encarregaria bravamente de ir incendiá-la, ela mesma, se o imperador Nicolau quisesse lhe confiar essa missão delicada e perigosa. No que concerne às mesas girantes, sua fé era menos robusta, e nos propôs fazer, com ela e outro dos nossos amigos, que lhe apresentáramos na sobremesa, algumas experiências. Remontamos, pois, ao seu quarto; se nos serviu o café, e, como chovesse, passamos nossa tarde interrogando uma mesinha de centro, que ainda vemos daqui.

– E a mim, perguntou de repente a princesa, nada tens a me dizer?

– Não.

– Porquê?

A mesa bateu treze pancadas. Ora, lembre-se que era um treze, e o quarto da senhora de Rebinini tinha o número treze.

– Isso quer dizer que o número treze me é fatal? Repetiu a princesa que tinha um pouco a superstição dessa cifra.

– Sim! Fez a mesa.

– Não importa!… Sou um Bayard do gênero feminino e tu podes falar, sem medo, o que possas ter o que anunciar.

Interrogamos a mesinha de centro, que persistia de início em sua prudente reserva, mas da qual, entretanto, acabamos por arrancar as palavras seguintes:

– Doente… oito dias… Paris… morte violenta!

A princesa se portou muito bem, ela acabava de deixar Paris e não esperava voltar, por muito tempo à Franca. A profecia da mesa era, pois, ao menos absurda sobre os três primeiros pontos… Quanto ao último, é inútil acrescentar que não quisemos mesmo nele nos deter.

A princesa deveria partir às oito horas da noite, pelo trem de Dresde, a fim de chegar, no segundo dia depois pela manhã, a Varsóvia; mas ela perdeu o trem.

Minha fé, disse-nos ela, vou deixar minhas bagagens aqui e tomarei o trem de 4 horas da manhã.

– Então, ides reentrar no hotel para dormir?

– Vou nele reentrar, mas não me deitarei… Assistirei do alto da loge dês étrangers ao baile dessa noite… Quereis servir-me de cavalheiro?

O hotel de Pologne, cujos vastos e magníficos salões não contêm menos de duas mil pessoas, dá quase cada dia, verão como inverno, um grande baile, organizado por qualquer sociedade da cidade, mas ao qual é reservado, para assistirem do alto de uma galeria particular, aqueles viajores desejosos de gozar de um golpe de vista que é muito animado, e da música, que é excelente.

De resto, na Alemanha, nunca esquecem os estrangeiros, por toda parte têm lugar reservado, o que explica porque os Alemães que vêm a Paris, pela primeira vez, perguntam sempre, nos teatros e nos concertos da loge dês étrangers,

O dia que se trata, o baile estava muito brilhante, e a princesa, se bem que uma simples expectadora, nele tomou um verdadeiro prazer. Também, ela havia esquecido a mesinha de centro e sua sinistra predição, quando um dos garçons do hotel levou-lhe um telegrama que acabara de chegar para ela. Este despacho estava concebido nestes termos:

“Senhora Rebinini, hotel de Pologne, Leipzig; presença indispensável, Paris, interesses graves! E trazia a assinatura do homem de negócios da princesa.

Algumas horas mais tarde, esta retomava o caminho de Pologne, em lugar de subir no trem de Dresde. Oito horas depois, soubemos que ela estava morta!

Paulin Niboyet.

 

O negro Pai César.

Pai César, homem livre de cor, morto em 8 de fevereiro de 1859, com a idade de 138 anos, perto de Covington, nos Estados Unidos. Era nascido na África e foi conduzido à Lousiana com a idade de cerca de 15 anos. Os restos mortais desse patriarca da raça negra foram acompanhados, ao campo de repouso, por um certo número de habitantes de Covington, e uma multidão de pessoas de cor.

Sociedade, 25 de março de 1859.

1. (A São Luís) Poderíeis nos dizer se podemos chamar o Pai César, de quem acabamos de falar? – R. Sim, eu o ajudarei a vos responder.

Nota. Esse início faz pressagiar o estado do Espírito que se desejava interrogar.

2. Evocação. – R. Que quereis de mim, e o que pode um pobre Espírito como eu em uma reunião como a vossa?

3. Sois mais feliz agora do que quando vivo? – R. Sim, porque minha condição não era boa na Terra.

4. Entretanto, éreis livre; em que sois mais feliz agora? – R. Porque meu Espírito não é mais negro.

Nota. Essa resposta é mais sensata do que parece à primeira vista. Seguramente, o Espírito jamais é negro; ele quis dizer que, como Espírito, não tem mais as humilhações das quais é alvo a raça negra.

5. Vivestes muito tempo; isso aproveitou para o vosso adiantamento? – R. Eu me desgostei na Terra, e não sofri bastante, em uma certa idade, para ter a felicidade de avançar.

6. Em que empregais vosso tempo agora? – R. Procuro esclarecer-me e em que corpo poderei fazê-lo.

7. Que pensáveis dos Brancos, quando vivo? – R. Eram bons, mas orgulhosos de uma brancura da qual não eram a causa.

8. Consideráveis a brancura como uma superioridade? – R. Sim, uma vez que eu era desprezado como negro.

9. (A São Luís). A raça negra é verdadeiramente uma raça inferior? – R. A raça negra desaparecerá da Terra. Ela foi feita para uma latitude diferente da vossa.

10. (A Pai César). Dissestes que procuráveis o corpo pelo qual poderíeis avançar; escolhereis um corpo branco ou um corpo negro? – R. Um branco, porque o desprezo me faria mal.

11. Vivestes realmente a idade que se vos atribui: 138 anos? -R. Não contei bem, pela razão que dissestes.

Nota. Vem-se de fazer a observação de que os negros, não tendo estado civil, sua idade não é julgada senão aproximadamente, sobretudo quando nasceram na África.

12. (A São Luís). Os Brancos se reencarnam, algumas vezes, em corpos negros? – R. Sim, quando, por exemplo, um senhor maltratou um escravo, ele pode pedir para si, por expiação, viver num corpo de negro para sofrer, a seu turno, todos os sofrimentos que fez sentir e, por esse meio, avançar e alcançar o perdão de Deus.

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