Índice Geral – Revista Espírita

Revue Spirit 1858

Revue Spirit 1859

 

Revue Spirit - Allan Kardec.jpg

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Variedades

Revista Espírita, junho de 1859 A princesa de Rebinine.

(Extraído do Courrier de Paris), de maio de 1859.)

Sabeis que todos os sonâmbulos, todas as mesas girantes, todos os pássaros magnetizados, todos os lápis simpáticos e todos os tiradores de cartas predisseram a guerra desde há muito tempo?… Profecias nesse sentido foram feitas a uma multidão de personagens importantes que, fingindo tratar muito ligeiramente essas supostas revelações do mundo sobrenatural, não deixaram de ficar muito preocupados com elas.

De nossa parte, sem decidir a questão num sentido nem no outro, e achando, aliás, que, ali onde o próprio François Arago duvidava, é menos permitido não se pronunciar, limitar-nos-emos a contar, sem comentários, alguns fatos dos quais fomos testemunhas.

Há oito dias, fomos convidados para uma noite espírita, na casa do barão G….

Na hora indicada, todos os convidados, em número de doze somente, se achavam ao redor da mesa…. milagrosa, uma simples mesa de mogno, de resto, e sobre a qual, no momento, servira-se o chá e os sanduíches de rigor.

Desses doze convivas, devemos nos apressar em proclamá-lo, nenhum poderia, razoavelmente, incorrer na censura de charlatanismo. O senhor da casa, que conta ministros em seus parentes próximos, pertence a uma grande família estrangeira.

Quanto aos seus fiéis, se compunham de dois distintos oficiais ingleses, um oficial da marinha francesa, um príncipe russo muito conhecido, um médico muito hábil, um milionário, um secretário de embaixada e dois ou três figurões do subúrbio Saint-Ger-main. Éramos o único profano entre esses ilustres do Espiritismo’, mas, em nossa qualidade de cronista parisiense, e cético por dever, não poderíamos ser acusado de credulidade…. exagerada. A reunião em questão não poderia ser considerada o jogo de uma comédia; e que comédia! Uma comédia inútil e ridícula, sem a qual cada um teria, voluntariamente, aceito, ao mesmo tempo, o papel de mistificador e de mistificado? Isso não é admissível. E, de resto, com que objetivo? Com qual interesse? Isso era o caso ou jamais se perguntar: Quem engana aqui?

Não, ali não havia nem má-fé, nem loucura…. Coloquemos, se quiserdes, que houvera acaso…. É tudo o que a nossa consciência nos permite conceder-vos.

Ora, heis o que se passou:

Depois de haver interrogado o Espírito sobre mil coisas, se lhe perguntou se as esperanças de paz, – que pareciam então muito fortes, – eram fundadas.

– Não, respondeu muito distintamente em duas vezes diferentes.

– Teremos, pois, a guerra? – Certamente!…

– Quando isso? – Em oito dias.

– Entretanto, o Congresso não se reúne senão no próximo mês…. Isso adia para muito longe as eventualidades de um começo de hostilidades. – Não haverá Congresso!

– Porquê? – A Áustria o recusará.

– E qual será a causa que triunfará? – A da justiça e do bom direito…. a da França.

– E a guerra, que será ela? – Curta e gloriosa.

Isso nos traz à memória um outro fato do mesmo gênero, que se passou igualmente sob os nossos olhos há alguns anos.

Recorda-se que, quando da guerra da Criméia, o imperador Nicolau chamou para a Rússia todos aqueles de seus súditos que habitavam a França, sob pena, para estes, de verem confiscados os seus bens, recusando-se a atender essa ordem.

Estávamos então em Saxe, em Leipzick, onde se tomava, como por toda parte, um vivo interesse pela campanha que vinha de começar. Um dia, recebemos o bilhete seguinte:

“Estou aqui por algumas horas somente; vinde ver-me, – hotel de Pologne, nº 13!”

“PRINCESA DE REBININE.”

Conhecêramos muito a princesa Sophie de Rebinine, uma mulher encantadora e distinta, cuja história era todo um romance (que escreveremos um dia), e que muito queria nos chamar seu amigo. Apressamo-nos, pois, em atender seu amável convite, tão agradavelmente surpreso quanto encantado pela sua passagem por Leipzick.

Era um domingo, um 13, e o tempo estava naturalmente cinza e triste, como ocorre sempre nessa parte da Saxe. Encontramos a princesa em sua casa, mais graciosa e mais espiritual que nunca, somente um pouco pálida, um pouco melancólica. Fizemos-lhe essa observação.

– De início, nos respondeu ela, parti como uma bomba. – Era o caso, uma vez que heis-nos em guerra, e estou um pouco cansada com o meu modo de viagem. Em seguida, se bem que sejamos agora inimigos, não vos esconderei que vou deixar Paris com pesar. Há muito que me considerava quase como francesa, e a ordem do imperador me faz romper com um velho e doce hábito.

– Por que não permanecestes tranqüilamente em vosso lindo apartamento da rua Rumfort?

– Porque me cortariam as mesadas.

– Pois bem! Não tendes, pois, entre nós, numerosos e bons amigos?

– Sim,… pelo menos o creio; mas, em minha idade, uma mulher não gosta de deixar tomar hipoteca sobre si…. Os interesses a pagar ultrapassam, freqüentemente, o valor do capital! Ah! se fora velha, seria outra coisa,… mas, então, não se me emprestaria mais.

E nessa altura a princesa mudou de conversação.

– Ora essa! disse-nos ela, sabeis que sou de uma natureza bastante absorvente…. Não conheço aqui vivalma…. Posso contar convosco para todo o dia?

A resposta que demos é fácil de adivinhar.

A uma hora, o sino se fez ouvir no pátio e descemos para jantar na mesa redonda do hotel. Todo o mundo falava, nesse momento, da guerra… e das mesas girantes.

No que concerne à guerra, a princesa estava segura de que a frota anglo-francesa seria destruída no mar Negro, e ela se encarregaria bravamente de ir incendiá-la, ela mesma, se o imperador Nicolau quisesse lhe confiar essa missão delicada e perigosa. No que concerne às mesas girantes, sua fé era menos robusta, e nos propôs fazer, com ela e outro dos nossos amigos, que lhe apresentáramos na sobremesa, algumas experiências. Remontamos, pois, ao seu quarto; se nos serviu o café, e, como chovesse, passamos nossa tarde interrogando uma mesinha de centro, que ainda vemos daqui.

– E a mim, perguntou de repente a princesa, nada tens a me dizer?

– Não.

– Porquê?

A mesa bateu treze pancadas. Ora, lembre-se que era um treze, e o quarto da senhora de Rebinini tinha o número treze.

– Isso quer dizer que o número treze me é fatal? Repetiu a princesa que tinha um pouco a superstição dessa cifra.

– Sim! Fez a mesa.

– Não importa!… Sou um Bayard do gênero feminino e tu podes falar, sem medo, o que possas ter o que anunciar.

Interrogamos a mesinha de centro, que persistia de início em sua prudente reserva, mas da qual, entretanto, acabamos por arrancar as palavras seguintes:

– Doente… oito dias… Paris… morte violenta!

A princesa se portou muito bem, ela acabava de deixar Paris e não esperava voltar, por muito tempo à Franca. A profecia da mesa era, pois, ao menos absurda sobre os três primeiros pontos… Quanto ao último, é inútil acrescentar que não quisemos mesmo nele nos deter.

A princesa deveria partir às oito horas da noite, pelo trem de Dresde, a fim de chegar, no segundo dia depois pela manhã, a Varsóvia; mas ela perdeu o trem.

Minha fé, disse-nos ela, vou deixar minhas bagagens aqui e tomarei o trem de 4 horas da manhã.

– Então, ides reentrar no hotel para dormir?

– Vou nele reentrar, mas não me deitarei… Assistirei do alto da loge dês étrangers ao baile dessa noite… Quereis servir-me de cavalheiro?

O hotel de Pologne, cujos vastos e magníficos salões não contêm menos de duas mil pessoas, dá quase cada dia, verão como inverno, um grande baile, organizado por qualquer sociedade da cidade, mas ao qual é reservado, para assistirem do alto de uma galeria particular, aqueles viajores desejosos de gozar de um golpe de vista que é muito animado, e da música, que é excelente.

De resto, na Alemanha, nunca esquecem os estrangeiros, por toda parte têm lugar reservado, o que explica porque os Alemães que vêm a Paris, pela primeira vez, perguntam sempre, nos teatros e nos concertos da loge dês étrangers,

O dia que se trata, o baile estava muito brilhante, e a princesa, se bem que uma simples expectadora, nele tomou um verdadeiro prazer. Também, ela havia esquecido a mesinha de centro e sua sinistra predição, quando um dos garçons do hotel levou-lhe um telegrama que acabara de chegar para ela. Este despacho estava concebido nestes termos:

“Senhora Rebinini, hotel de Pologne, Leipzig; presença indispensável, Paris, interesses graves! E trazia a assinatura do homem de negócios da princesa.

Algumas horas mais tarde, esta retomava o caminho de Pologne, em lugar de subir no trem de Dresde. Oito horas depois, soubemos que ela estava morta!

Paulin Niboyet.

 

O negro Pai César.

Pai César, homem livre de cor, morto em 8 de fevereiro de 1859, com a idade de 138 anos, perto de Covington, nos Estados Unidos. Era nascido na África e foi conduzido à Lousiana com a idade de cerca de 15 anos. Os restos mortais desse patriarca da raça negra foram acompanhados, ao campo de repouso, por um certo número de habitantes de Covington, e uma multidão de pessoas de cor.

Sociedade, 25 de março de 1859.

1. (A São Luís) Poderíeis nos dizer se podemos chamar o Pai César, de quem acabamos de falar? – R. Sim, eu o ajudarei a vos responder.

Nota. Esse início faz pressagiar o estado do Espírito que se desejava interrogar.

2. Evocação. – R. Que quereis de mim, e o que pode um pobre Espírito como eu em uma reunião como a vossa?

3. Sois mais feliz agora do que quando vivo? – R. Sim, porque minha condição não era boa na Terra.

4. Entretanto, éreis livre; em que sois mais feliz agora? – R. Porque meu Espírito não é mais negro.

Nota. Essa resposta é mais sensata do que parece à primeira vista. Seguramente, o Espírito jamais é negro; ele quis dizer que, como Espírito, não tem mais as humilhações das quais é alvo a raça negra.

5. Vivestes muito tempo; isso aproveitou para o vosso adiantamento? – R. Eu me desgostei na Terra, e não sofri bastante, em uma certa idade, para ter a felicidade de avançar.

6. Em que empregais vosso tempo agora? – R. Procuro esclarecer-me e em que corpo poderei fazê-lo.

7. Que pensáveis dos Brancos, quando vivo? – R. Eram bons, mas orgulhosos de uma brancura da qual não eram a causa.

8. Consideráveis a brancura como uma superioridade? – R. Sim, uma vez que eu era desprezado como negro.

9. (A São Luís). A raça negra é verdadeiramente uma raça inferior? – R. A raça negra desaparecerá da Terra. Ela foi feita para uma latitude diferente da vossa.

10. (A Pai César). Dissestes que procuráveis o corpo pelo qual poderíeis avançar; escolhereis um corpo branco ou um corpo negro? – R. Um branco, porque o desprezo me faria mal.

11. Vivestes realmente a idade que se vos atribui: 138 anos? -R. Não contei bem, pela razão que dissestes.

Nota. Vem-se de fazer a observação de que os negros, não tendo estado civil, sua idade não é julgada senão aproximadamente, sobretudo quando nasceram na África.

12. (A São Luís). Os Brancos se reencarnam, algumas vezes, em corpos negros? – R. Sim, quando, por exemplo, um senhor maltratou um escravo, ele pode pedir para si, por expiação, viver num corpo de negro para sofrer, a seu turno, todos os sofrimentos que fez sentir e, por esse meio, avançar e alcançar o perdão de Deus.

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Goéthe

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Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas; 25 de março de 1856.

1. Evocação. – R. Estou convosco.

2. Em que situação estais como Espírito: errante ou reencarnado? – R. Errante.

3. Estais mais feliz do que quando vivo? – R. Sim, porque estou livre do meu corpo grosseiro, e vejo o que não podia ver.

4. Parece-me que não Unheis uma situação infeliz quando vivo; em que consiste a superioridade de vossa situação atual? – R. Acabo de vos dizer; vós, adeptos do Espiritismo, deveis compreender essa situação.

5. Qual é a vossa opinião atual sobre Fausto! – R. É uma obra que tinha por objetivo mostrar a vaidade e o vazio da ciência humana, e, por outro lado, exaltar, no que tinha de bom e de puro, o sentimento do amor, e o castigo no que havia de imoral e de mau.

6. Foi por uma certa intuição do Espiritismo que pintastes a influência dos maus Espíritos sobre o homem? Como fostes conduzido a fazer essa pintura? – R. Eu tinha a lembrança quase exata de um mundo onde via agir a influência dos Espíritos sobre os seres materiais.

7. Tínheis, pois, a lembrança de uma existência precedente?
R. Sim, certamente.

8. Poderíeis dizer-nos se essa existência ocorreu na Terra? -R. Não, porque nesta não se via os Espíritos agirem; foi bem num outro.

9. Mas, então, uma vez que, nesse mundo, se podia ver os Espíritos agirem, ele deveria ser superior à Terra. Como ocorre que viestes de um mundo superior para um mundo inferior? Havia, pois, queda para vós? Quereis nos explicar isso? – R. Era superior até um certo ponto, mas não como entendeis. Os mundos não têm todos a mesma organização, sem serem, por isso, de uma grande superioridade. De resto, sabeis bem que cumpri, entre vós, uma missão que todos não podeis vos dissimular, uma vez que fazeis, ainda, representar minhas obras; não havia queda, uma vez que servi, e sirvo ainda, para a vossa moralização. Apliquei o que poderia ter de superior nesse mundo precedente para castigar as paixões dos meus heróis.

10. Sim, ainda se representam vossas obras. Vem-se mesmo de traduzir, em ópera, vosso drama o Fausto. Assististes a essa representação? – R. Sim.

11. Quereis nos dar a vossa opinião sobre a maneira pela qual o senhor Gounod interpretou o vosso pensamento por meio da música? – R. Gounod evocou-me sem sabê-lo. Ele me compreendeu muito bem; eu, músico alemão, não o teria feito melhor; ele pensa, talvez, em músico francês.

12. Que pensais de Werther? – R. Reprovo agora o desenlace.

13. Essa obra não fez muito mal exaltando as paixões? – R. Fez e causou infelicidades.

14. Ela foi a causa de muitos suicídios; deles sois responsável? – R. Se houve uma influência infeliz, difundida por mim, é bem disso que sofro agora e do que me arrependo.

15. Tínheis, quando vivo, creio, uma grande antipatia pelos Franceses; ocorre o mesmo atualmente? – R. Sou muito patriota.

16. Estais, ainda, antes ligado a um país do que a outro? – R. Amo a Alemanha em seus pensamentos e em seus costumes quase patriarcais.

17. Poderíes dar-nos a vossa opinião sobre Schiller? – R. Somos irmãos pelo Espírito e pelas missões. Schiller tinha uma alma grande e nobre: suas obras eram-lhe o reflexo; fez menos mal do que eu; é-me muito superior, porque era mais simples e mais verdadeiro.

18. Poderíeis dar-nos a vossa opinião sobre os poetas franceses em geral, comparados com os poetas alemães? Isso não é por um vão sentimento de curiosidade, mas para a nossa instrução. Cremos-vos de sentimentos muito elevados para que seja necessário vos pedir fazê-lo sem parcialidade, pondo de lado todo preconceito nacional. – R. Sois muito curiosos, mas vou satisfazer-vos:

Os Franceses novos fazem belos poemas, mas colocam mais belas palavras que bons pensamentos; eles deveriam se ligar mais ao coração e menos ao espírito. Falo de modo geral, mas faço algumas exceções em favor de alguns: um grande poeta pobre, entre outros.

19. Um nome circula em voz baixa na assembléia, foi desse que quisestes falar? – R. Pobre, ou que o fez.

20. Ficaríamos felizes tendo de vós uma dissertação, sobre assunto de vossa escolha, para nossa instrução. Estais bastante bom para nos ditar alguma coisa? – R. Fá-lo-ei mais tarde e por outros médiuns; evocai-me uma outra vez.

Goéthe

Conversas familiares de além túmulo – Senhor de Humboldt

Revista Espírita, junho de 1859

Senhor de Humboldt

Falecido em 6 de maio de 1859;

chamado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 13 e 20 do mesmo mês.

(A São Luís). Podemos chamar o Espírito do senhor Alexandre de Humboldt que acaba de morrer? – R. Se quiserdes, amigos.

1. Evocação. – R. Heis-me; isso me espanta!

2. Por que isso vos espanta? – R. Estou longe do que era, há apenas alguns dias.

3. Se nós vos pudéssemos ver, como vos veríamos? – R. Como homem.

4. Nosso chamado vos contraria? – R. Não, não.

5. Tivestes consciência de vosso novo estado logo depois de vossa morte? – R. Eu a esperava há muito tempo.

Nota. Nos homens que, como o senhor de Humboldt, morrem de morte natural e pela extinção gradual das forças vitais, o Espírito se reconhece bem mais prontamente do que naqueles em que a vida é bruscamente interrompida por acidente ou morte violenta, tendo em vista que já há um começo de desligamento antes da cessação da vida orgânica. No senhor de Humboldt a superioridade do Espírito e a elevação dos pensamentos facilitaram esse desligamento, sempre mais lento e mais penoso naqueles cuja vida é toda material.

6. Lamentais a vida terrestre? – R, Não, de modo algum; sinto-me feliz; não tenho mais prisão; meu Espírito está livre… Que felicidade mesmo! E que doce momento aquele que me trouxe esta nova graça de Deus!

7. Que pensais da estátua que se vos levantará em França, embora sejais estrangeiro? – R. Meus agradecimentos pessoais pela honra que se me faz; o que estimo, sobretudo, nisso é o sentimento de união que esse fato revela, o desejo de ver se acabarem todos os ódios.

8. Vossas crenças mudaram? – R. Sim, muito; mas ainda não revi tudo; esperai ainda para me falar mais profundamente.

Nota. Essa resposta, e essa palavra revi são características do estado em que se encontra; apesar do pronto desligamento do seu Espírito, há ainda alguma confusão em suas idéias; não tendo deixado seu corpo senão há oito dias, não teve ainda o tempo para comparar sua idéias terrestres com aquelas que ele pode ter agora.

9. Estais satisfeito com o emprego de vossa existência terrestre? – R. Sim; cumpri (quase) o objetivo que me havia proposto. Servi à Humanidade, por isso hoje sou feliz.

10. Quando vos propusestes esse objetivo? – R. Vindo na Terra.

Nota. Uma vez que se propusera um objetivo vindo na Terra, é, pois, porque havia nele um progresso anterior, e que a sua alma não nasceu ao mesmo tempo que o seu corpo. Esta resposta espontânea não pode ter sido provocada pela natureza da pergunta ou o pensamento do interrogador.

11. Escolhestes essa existência terrestre? – R. Havia numerosos candidatos para essa obra; eu pedi ao Ser por excelência para me conceder, e a obtive.

12. Lembrai-vos da existência que precedeu aquela que vindes de deixar? – R. Sim; ela ocorreu longe de vós e em um outro mundo bem diferente do vosso.

13. Esse mundo é igual, inferior ou superior à Terra? – R. Superior; perdoai-me.

14. Sabemos que o nosso mundo está longe da perfeição e, em conseqüência, não ficamos humilhados por existirem acima de nós; mas, então, como viestes a um mundo inferior ao que estáveis? – R. Dais aos ricos? Eu quis dar: desci à cabana do pobre.

15. Podeis nos dar uma descrição dos seres animados do mundo em que estais? – R. Eu tinha esse desejo em vos falando mesmo agora; mas compreendi a tempo que teria dificuldade para vos explicar isso perfeitamente. – Ali os seres são bons, muito bons; compreendei já esse ponto, que é a base de todo o resto do sistema moral nesses mundos: nada ali entrava o vôo dos bons pensamentos; nada lembra os maus; tudo é felicidade porque cada um está contente consigo mesmo e com todos aqueles que o cercam. -Como matéria, como sentido, toda descrição é inútil. – Que simplificação no organismo de uma sociedade! Hoje que estou em condições de comparar as duas, estou espantado com a distância. Não penseis que vos digo isso para vos desencorajar; não, muito ao contrário.

É necessário que o vosso Espírito esteja bem convencido da existência desses mundos; então tereis um ardente desejo de atingi-los, e o vosso trabalho vos abrirá a sua rota.

16. Esse mundo faz parte do nosso sistema planetário? – R. Sim, está muito perto de vós. Entretanto, não se pode vê-lo, porque ele não tem o próprio foco de luz, e não recebe e não reflete a luz dos sóis que o cercam.

17. Dissestes agora mesmo que a vossa precedente existência ocorreu longe de nós, e agora dizeis que esse mundo está muito perto; como conciliar essas duas coisas? – R. Está longe de vós se consultardes as vossas distâncias, vossas medidas terrestres; mas estará próximo se tomardes o compasso de Deus, e se tentardes abarcar, com um golpe de vista, toda a criação.

Nota. É evidente que pode ser considerado como longe se tomarmos como termo de comparação as dimensões do nosso globo; mas está perto com relação aos mundos que estão a distâncias incalculáveis.

18. Poderíeis precisar-nos a região do céu onde ele se encontra? – R. É inútil;” os astrônomos não a conhecerão jamais.

19. A densidade desse mundo é a mesma do nosso globo? – R. É necessária de mil para dez.

20. Seria um mundo da natureza dos cometas? – R. Não, de modo algum.

21. Se ele não tem foco de luz, e se não recebe e nem reflete a luz solar, reina ali, portanto, uma obscuridade perpétua? – R. Os seres que ali vivem não têm nenhuma necessidade de luz: a obscuridade não existe para eles; não a compreendem. Pensais, porque sois cegos, que ninguém pode ter o sentido da visão.

22. O planeta Júpiter, no dizer de certos Espíritos, é bem superior à Terra; isso é exato? – R. Sim; tudo o que vos disseram é verdadeiro.

23. Vistes de novo Arago desde a vossa reentrada no mundo dos Espíritos? – R. Foi ele quem me estendeu a mão quando deixei o vosso.

24. Conhecíeis o Espiritismo quando vivente? – R. O Espiritismo não; o magnetismo, sim.

25. Qual é a vossa opinião sobre o futuro do Espiritismo entre as corporações de sábios? – R. Grande; mas seu caminho será penoso.

26. Pensais que um dia ele será aceito pelas corporações de sábios? – R. Certamente; mas, credes que isso seja indispensável? Ocupai-vos antes em colocar os primeiros preceitos no coração dos infelizes, que embaraçam vosso mundo: é o bálsamo que acalma os desesperos e dá a esperança.

Nota. François Arago, tendo sido chamado na sessão de 27 de maio, por intermédio de um outro médium, assim respondeu a perguntas análogas:
Qual era, quando vivente, vossa opinião sobre o Espiritismo? -R. Eu o conhecia muito pouco, e não lhe ligava, em conseqüência, senão uma pouca importância; deixo-vos pensando se mudei de opinião.

Pensais que ele será um dia aceito e reconhecido pelas corporações sábias? Entendo a ciência oficial, porque pelos sábios há muitos que, individualmente, o reconhecem. – R. Não somente penso, mas estou disso seguro; sofrerá a sorte de todas as descobertas úteis à Humanidade; ridicularizado de início pelos sábios orgulhosos e os tolos ignorantes, acabará por ser reconhecido por todos.

27. Qual é a vossa opinião sobre o sol que nos ilumina? – R. Ainda nada aprendi aqui como ciência; entretanto, creio sempre que o sol é um vasto centro elétrico.

28. Essa opinião reflete a que tínheis como homem, ou a vossa como Espírito? – R. Minha opinião de quando vivia, corroborada pelo que sei agora.

29. Uma vez que vindes de um mundo superior à Terra, como ocorre que não tivestes conhecimentos precisos sobre essas coisas antes da vossa última existência, e da qual vos lembrais hoje? – Eu os tinha certamente, mas o que me perguntais não tem nenhuma relação com tudo o que pude aprender em preexistências de tal modo diferentes daquela que deixei; a astronomia, por exemplo, foi para mim uma ciência toda nova.

30. Vimos muitos Espíritos nos dizerem que habitavam outros planetas, mas nenhum nos disse habitar o sol; por que isso? – R. É um centro elétrico, e não um mundo; é um instrumento e não uma morada. – Portanto, não há habitantes? – R. Habitantes fixos, não; visitantes, sim.

31. Pensais que, dentro de algum tempo, quando fizerdes novas observações, podereis nos informar melhor sobre a natureza do sol? – R. Sim, talvez e de bom grado; entretanto, não conteis muito comigo, não estarei muito tempo errante.

32. Onde credes ir quando não estiverdes mais errante? – R. Deus me permite repousar alguns momentos; vou gozar dessa liberdade para encontrar amigos queridos que me esperavam. Em seguida, não sei ainda.

33. Pedimo-vos a permissão para vos dirigir ainda algumas perguntas as quais os vossos conhecimentos em história natural vos colocam, sem dúvida, em condições de responder.

A sensitiva e a dionéia têm movimentos que acusam uma grande sensibilidade e, em certos caso, uma espécie de vontade, como a última, por exemplo, cujos lóbulos agarram a mosca que vem pousar sobre ela para tomar seu suco, e à qual ela parece estender uma armadilha para, em seguida, matá-la. Perguntamos se essas plantas são dotadas da faculdade de pensar, se têm uma vontade, e se formam uma classe intermediária entre a natureza vegetal e a natureza animal; em uma palavra, são uma transição de uma para a outra? – R. Tudo é transição na Natureza, pelo fato mesmo de que nada se assemelha, e que, portanto, tudo se liga. Essas plantas não pensam e, conseqüentemente, não têm vontade. A ostra que se abre e todos os zoófitos não têm o pensamento; não há senão um instinto natural.

34. As plantas experimentam sensações dolorosas quando são mutiladas? – R. Não.

Nota. Um membro da Sociedade expressou a opinião de que o movimento das plantas sensitivas são análogos àqueles que se produzem nas funções digestivas e circulatórias do organismo animal, e que ocorrem sem a participação da vontade. Não se vê, com efeito, o piloro contrair-se, ao contato de certos corpos, para recusar a passagem? Deve ocorrer o mesmo com a sensitiva e a dionéia, nas quais os movimentos não implicam, de nenhum modo, a necessidade de uma percepção e ainda menos de uma vontade.

35. Há homens fósseis? – R. O tempo os consumiu.

36. Admitis que tenha havido homens na Terra, antes do cataclisma geológico? – R. Melhor farás explicando-te mais claramente sobre esse ponto antes de colocar a pergunta. O homem estava na Terra bem antes do cataclisma.

37. Adão não foi, pois, o primeiro homem? – R. Adão foi um mito, onde colocas Adão?

38. Mito ou não, falo da época que a história lhe assinala. – R. É pouco calculável para vós; é mesmo impossível calcular o número de anos que os primeiros homens permaneceram em estado selvagem e bestial, que não cessou senão muito tempo depois de sua primeira aparição no globo.

39. A geologia fará encontrar, um dia, traços materiais da existência do homem na Terra antes do período adâmico? – R. A geologia, não; o bom senso, sim.

40. O progresso do reino orgânico na Terra está marcado pela aparição sucessiva dos acotiledônios, dos monocotiledôneos e os dicotiledôneos; o homem existia antes dos dicotiledôneos? – R. Não; sua fase segue aquela.

41. Agradecemo-vos por consentir em vir ao nosso chamado, e pelas informações que nos fornecestes. – R. Foi um prazer. Adeus; até logo.

Nota. Essa comunicação se distingue por um caráter geral de bondade, de benevolência, e uma grande modéstia, sinal incontestável de superioridade no Espírito; ali, com efeito, nenhum traço da jactância, da fanfarrice, da inveja de dominar e de se impor, que se notam naqueles que pertencem à classe dos falsos sábios. Espíritos sempre mais ou menos imbuídos de sistemas e de preconceitos que procuram fazer prevalecer; tudo, no Espírito de Humboldt, mesmo os mais belos pensamentos, respira a simplicidade e denota a ausência de pretensão.

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Intervenção da ciência no Espiritismo

Revista Espírita, junho de 1859

A oposição das corporações de sábios é um dos argumentos que os adversários do Espiritismo invocam sem cessar. Por que não se apossaram do fenômeno das mesas girantes? Se eles tivessem alguma coisa de séria, diz-se, não teriam vigiado em negligenciar fatos tão extraordinários, e ainda menos tratá-los com desdém, ao passo que estão todos contra vós. Os sábios não são os archotes das nações, e seu dever não é espargir a luz? Por que quereríeis que eles a sufocassem, então que uma bela ocasião se lhes apresentava para revelar ao mundo uma força nova? – De início, é um grande erro dizer que todos os sábios estão contra nós, uma vez que o Espiritismo se propaga precisamente na classe esclarecida. Não há sábios senão na ciência oficial e nos corpos constituídos. Do fato de que o Espiritismo não tem ainda direito de cidadania na ciência oficial, isso prejulga a questão? Conhece-se a circunspecção daquela a respeito de idéias novas. Se a ciência jamais houvesse se enganado, sua opinião poderia aqui pesar na balança; infelizmente, a experiência prova o contrário. Ela não repudiou como quimeras uma multidão de descobertas que, mais tarde, ilustraram a memória de seus autores? Isso quer dizer que os sábios são ignorantes? Isso justifica os epítetos triviais, muito de mau gosto, que certas pessoas se comprazem em lhes prodigalizar? Seguramente não; não há pessoa sensata que não renda justiça ao seu saber, embora reconhecendo que não são infalíveis, e que seu julgamento não é em última instância. Seu erro é o de resolver certas questões um pouco levianamente, fiando-se muito em suas luzes, antes que o tempo tenha dito sua palavra, e expor-se, assim, a receber desmentidos da experiência.

Cada um não é bom juiz senão naquilo que é da sua competência. Se quereis edificar uma casa, pegais um músico? Se estais doente, vos fareis tratar por um arquiteto? Se tendes um processo, tomais os conselhos de um dançarino? Enfim, tratando-se de uma questão teológica, a resolvereis com um químico ou um astrônomo? Não, cada um em seu ofício. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode manipular à vontade; os fenômenos que ela produz têm por agentes as forças materiais.

Os do Espiritismo têm por agentes inteligências que têm sua independência, seu livre arbítrio, e não estão submissas aos nossos caprichos; eles escapam, assim, aos procedimentos anatômicos ou de laboratórios, e aos nossos cálculos, e desde então não são da alçada da ciência propriamente dita. A ciência estava, pois, afastada do bom caminho quando quis experimentar os Espíritos como uma pilha voltaica; ela partiu de uma idéia fixa, na qual se aferra e quer forçosamente ligar a idéia nova; fracassou e assim deveria ser, porque operou tendo em vista uma analogia que não existe; depois, sem ir mais longe, concluiu pela negativa: julgamento temerário que o tempo se encarrega, todos os dias, de reformar, como reformou muitos outros, e aqueles que o pronunciaram o serão pela vergonha de estarem inscritos, muito levianamente, em falso contra o poder infinito do Criador. As corporações sábias não têm, pois, e não terão jamais, que se pronunciarem sobre a questão; ela não é mais da sua competência do que aquela de decretar se Deus existe; é, pois, um erro julgálas. Mas quem, pois, será o juiz?

Os Espíritas não se crêem no direito de impor suas idéias? Não, o grande juiz, o soberano juiz será a opinião pública; quando essa opinião estiver formada pelo assentimento das massas e dos homens esclarecidos, os sábios oficiais a aceitarão como indivíduos e suportarão a força das coisas. Deixai passar uma geração, e com ela os preconceitos do amor próprio que apaixona, e vereis que assim será com o Espiritismo, como com tantas verdades que se combateu, e seria ridículo agora pôr em dúvida. Hoje, os crentes são os tratados de loucos; amanhã, será a vez daqueles que não crerem, absolutamente como se chamou outrora de loucos aqueles que criam que a Terra gira, o que não a impediu de girar.

Mas nem todos os sábios julgaram do mesmo modo; ocorre que se fez o raciocínio seguinte:

Não há efeitos sem causa, e os mais vulgares efeitos podem colocar no caminho dos maiores problemas. Se Newton tivesse desprezado a queda de uma maçã, se Galvaní houvesse repelido sua serva, tratando-a de louca e visionária, quando ela lhe falou das rãs que dançam no prato, talvez estivéssemos ainda procurando a admirável lei da gravidade e as fecundas propriedades da pilha. O fenômeno que se designa sob o nome burlesco de dança das mesas, não é mais ridículo do que o da dança das rãs, e ele encerra, talvez, também alguns desses segredos da Natureza que revolucionam a Humanidade, quando se lhes tem a chave. Além disso, eles se disseram: Uma vez que tantas pessoas dele se ocupam, uma vez que homens sérios dele fizeram um estudo, ó necessário que haja alguma coisa; uma ilusão, uma mania querendo-se, não pode ter esse caráter de generalidade; ela pode seduzir um círculo, uma sociedade, mas não faz a volta ao mundo.

Heis, notadamente, o que nos disse um sábio doutor médico, há pouco incrédulo, e hoje adepto fervoroso:

“Diz-se que seres invisíveis se comunicam; e por que não? An tes da invenção do microscópio, supunha-se a existência desses milhões de animálculos que causam tanto estrago na economia? Onde está a impossibilidade material de que há, no espaço, seres que escapam aos nossos sentidos? Teríamos por acaso a ridícula pretensão de tudo saber e dizer a Deus que não pode mais nos ensinar? Se esses seres invisíveis que nos cercam são inteligentes, por que não se comunicariam conosco? Se estão em relação com os homens, devem desempenhar um papel na destinação, nos acontecimentos; quem sabe?

Talvez sejam uma das potências da Natureza, uma dessas forças ocultas que não supúnhamos. Que horizonte novo isso abre ao pensamento! Que vasto campo de observação! A descoberta do mundo dos invisíveis seria bem outra coisa que a dos infinitamente pequenos; isso seria mais do que uma descoberta, seria toda uma revolução nas idéias. Que luz pode dela jorrar! Quantas coisas misteriosas explicadas!

Aqueles que nisso crêem são lançados ao ridículo; mas o que isso prova? Não ocorreu o mesmo com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi repelido, cumulado de desgostos, tratado de insensato? Essas idéias, diz-se, são tão estranhas, que a razão a elas se recusa; mas àquele que se houvesse dito, há apenas meio século, que em alguns minutos corresponder-se-ia de um lado do mundo ao outro; que em algumas horas atravessar-se-ia a França; que com a fumaça de um pouco de água fervente um navio caminharia com vento contrário; que se extrairia da água os meios de se iluminar e de se aquecer; ter-se-lhe-ia rido ao nariz. Que um homem viesse propor um meio de iluminar toda Paris num ápice, com um único reservatório de uma substância invisível, terse-ia enviado-o a Charenton. É, pois, uma coisa mais prodigiosa que o espaço esteja povoado por seres pensantes que, depois de viverem na Terra, deixaram seu envoltório material? Não se encontra, nesse fato, a explicação de uma multidão de crenças que remontam à mais alta antigüidade? Não é a confirmação da existência da alma, de sua individualidade depois da morte? Não é a prova da própria base da religião? Somente a religião não nos diz senão vagamente em que se tornam as almas; o Espiritismo o define.

Que podem a isso dizer os materialistas e os ateus? Que semelhantes coisas valem bem a pena de serem aprofundadas.”

Eis as reflexões de um sábio; mas de um sábio sem pretensões; são assim também as de uma multidão de homens esclarecidos; eles refletiram, estudaram seriamente e sem tomar partido; tiveram a modéstia de não dizerem: Eu não compreendo, portanto, isso não é; sua convicção se formou pela observação e pelo recolhimento. Se essas idéias fossem quimeras, pensa-se que tantas pessoas de elite as aceitariam? Que foram por muito tempo vítimas de uma ilusão? Não há, pois, impossibilidade material para que existam seres invisíveis para nós e povoando o espaço, e apenas essa consideração deveria conduzir a maior circunspecção. Recentemente, quem houvera pensado que uma límpida gota d’água pudesse encerrar milhares de seres vivos, de uma pequenez que confunde a nossa imaginação? Ora, era mais difícil, à razão, conceber seres de uma tal tenuidade, providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós, do que admitir aqueles que chamamos Espíritos?

Os adversários perguntam por que os Espíritos, que devem ter ardor em fazer prosélitos, não se prestam, melhor do que o fazem, aos meios para convencer certas pessoas, cuja opinião seria de uma grande influência. Acrescentam que se lhes opõem uma falta de fé; a isso eles respondem com razão que não podem ter uma fé antecipada.

É um erro crer que a fé seja necessária, mas a boa fé, é outra coisa. Há céticos que negam até a evidência, e que milagres não poderiam convencer. Há-os mesmo que ficariam muito irritados sendo forçados a crer, porque seu amor próprio sofreria em convir que estão enganados. Que responder a essas pessoas que não vêem, por toda parte, senão ilusão e charlatanismo? Nada; é necessário deixá-las tranqüilas, e dizerem enquanto quiserem que nada viram, e mesmo que nada pôde fazê-las ver. Ao lado desses céticos endurecidos, há aqueles que querem ver à sua maneira; que, tendo-se formado uma opinião, a ela querem tudo relacionar, não compreendem que os fenômenos não possam obedecer à sua vontade; não sabem e não querem se colocar nas condições necessárias.

Se os Espíritos não se empenham em convencê-los com prodígios, é porque aparentemente eles têm pouco, no momento, para convencerem certas pessoas das quais não medem a importância como elas mesmas o fazem; é pouco lisonjeiro, é necessário convir, mas não comandamos sua opinião; os Espíritos têm um modo de julgar as coisas que nem sempre é o nosso; eles vêem, pensam e agem segundo outros elementos; ao passo que nossa visão está circunscrita pela matéria, limitada pelo círculo estreito no meio do qual nos encontramos, eles abarcam o conjunto; o tempo, que nos parece tão longo, ó para eles um instante, a distância não é senão um passo; certos detalhes, que nos parecem de uma importância extrema, aos seus olhos, são infantilidades, e, ao contrário, julgam importantes coisas das quais não percebemos a importância. Para compreendê-los, é necessário se elevar, pelo pensamento, acima do nosso horizonte material e moral, e nos colocar em seu ponto de vista; não cabe a eles descerem até nós, mas a nós de subirmos até eles, e é ao que nos conduzem o estudo e a observação. Os Espíritos amam os observadores assíduos e conscienciosos; para eles multiplicam as fontes de luz; o que os afasta, não é a dúvida da ignorância, é a fatuidade desses pretensos observadores que nada observam, que pretendem metê-los no banco dos réus e manobrá-los como marionetes. Sobretudo é o sentimento de hostilidade e de difamação que eles carregam, sentimento que está em seus pensamentos, se não está em suas palavras, apesar de seus protestos em contrário. Para aqueles, os Espíritos nada fazem, e se inquietam muito pouco pelo que possam dizer ou fazer, porque sua vez virá. Por isso, dissemos que não é a fé que é necessária, mas a boa fé; ora, perguntamos se nossos sábios adversários estão sempre nessas condições. Eles querem os fenômenos ao seu comando, e os Espíritos não obedecem ao comando: é necessário esperar seu bom querer. Não basta dizer: mostrai-me tal fato e crerei; é necessário ter a vontade da perseverança, deixar os fatos se produzirem espontaneamente, sem pretender forçá-los ou dirigi-los; aquele que desejardes será precisamente o que não obtereis, mas se apresentarão outros, e aquele que quereis virá talvez no momento em menos o esperais. Aos olhos do observador atento e assíduo, eles surgem das quantidades que se corroboram umas com as outras; mas aquele que crê que basta girar uma manivela para fazer a máquina andar, se engana estranhamente. Que faz o naturalista que quer estudar os costumes de um animal? Manda-o fazer tal ou tal coisa para ter o entretenimento de observá-lo à sua vontade e com sua conveniência? Não; porque bem sabe que não lhe obedecerá; ele espia as manifestações espontâneas de seu instinto; espera-as e as agarra de passagem. O simples bom senso nos mostra que, por mais fortes razões, deve ocorrer o mesmo com os Espíritos, que são inteligências bem mais independentes que a dos animais.

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O músculo fanfarrão

Revista Espírita, junho de 1859

Os adversários do Espiritismo acabam de fazer uma descoberta que deverá contrariar muito os Espíritos batedores; é para eles um golpe, do qual terão muita dificuldade para se levantarem. Que devem pensar, com efeito, da terrível estocada que acabam de lhes dar o senhor Schiff, e depois o senhor Jobert (de Lamballe), e depois o senhor Velpeau?

Parece-me vê-los todos envergonhados com mais ou menos esta linguagem: “Pois bem!

Meu caro, estamos em maus lençóis! Heis-nos derrotados; não contávamos com a anatomia que descobriu as nossas artimanhas. Decididamente, não há meios para se viver num país onde há pessoas que vêem tão claro.” – Vamos, senhores palermas, que crestes ingenuamente em todos esses contos de velhas; impostores que quisestes crêssemos que podem existir seres que não vemos. Ignorantes que credes que alguma coisa possa escapar ao escalpelo, mesmo a vossa alma e vós todos, escritores espíritas ou espiritualistas, mais ou menos espirituais, inclinai-vos e reconhecei que fostes todos enganadores, charlatães, até mesmo velhacos ou imbecis: esses senhores vos deixam a escolha, porque heis a luz, a verdade pura.

“Academia de ciências (sessão de 18 de abril de 1859.) – DA CONTRAÇÃO RÍTMICA MUSCULAR INVOLUNTÁRIA. – O senhor Jobert (de Lamballe) comunica um fato curioso de contrações musculares involuntárias rítmicas do curto perônio lateral direito, que confirma a opinião do senhor Schiff, relativamente ao fenômeno oculto dos Espíritos batedores.

A senhorita X…, com a idade de quatorze anos, bem constituída, desde os seis anos ostentando movimentos involuntários regulares do músculo curto perônio lateral direito, e batimentos que se fazem ouvir atrás do maléolo externo direito, oferecendo a regularidade do pulso. Declararam-se, pela primeira vez, na perna direita, durante a noite, ao mesmo tempo que uma dor muito viva. Pouco tempo depois, o curto perônio lateral esquerdo foi atingido por uma afecção da mesma natureza, mas de menor intensidade.

O efeito desses batimentos é o de provocar a dor, produzir hesitações no caminhar e mesmo determinar quedas. A jovem enferma declarou-nos que a extensão do pé e a compressão exercida sobre certos pontos do pé e da perna bastam para detê-los, mas que, então, continua a sentir a dor e a fadiga no membro.

Quando essa interessante pessoa se nos apresentou, heis em que estado a encontramos:

Ao nível do maléolo externo direito, foi fácil constatar, perto dessa saliência óssea, um batimento regular, acompanhado de uma saliência passageira e de um levantamento das partes moles dessa região, que eram seguidas de um ruído seco sucedendo a cada contração muscular. Esse ruído se fazia ouvir na cama, fora da cama e a uma distância bastante considerável do lugar onde a jovem repousava. Notável pela sua regularidade e seu estrépito, esse ruído a acompanhava por toda parte. Aplicando-se o ouvido sobre a perna, o pé ou sobre o maléolo, distinguia-se um choque incômodo que ganhava toda a largura do trajeto percorrido pelo músculo, absolutamente como um golpe transmitido de uma extremidade à outra de um madeiro. Algumas vezes, esse ruído parecia uma fricção, uma arranhadura, e isso quando as contrações tinham menor intensidade. Esses mesmos fenômenos sempre se reproduziram, quer a doente estivesse de pé, sentada ou deitada, qualquer que fosse a hora do dia ou da noite, quando nós a examinávamos.

Se estudarmos os batimentos produzidos, e se, para maior clareza, decompusermos cada batimento em dois tempos, veremos:

Que, no primeiro tempo, o tendão do curto perônio se desloca saindo da goleira e, necessariamente, levantando o longo perônio lateral e a pele;

Que, no segundo tempo, tendo se cumprido o fenômeno de contração, seu tendão se relaxa, se repõe na goleira, e produz, batendo contra esta, o ruído seco e sonoro do qual falamos.

Ele se renovava, por assim dizer, a cada segundo, e cada vez o pequeno dedo do pé sofria um impulso e a pele que recobria o quinto metatársico era levantada pelo tendão. Ele cessava quando o pé era fortemente estendido. Cessava, ainda, quando era exercida uma pressão sobre o músculo ou a bainha dos perônios.

Nestes últimos anos, os jornais franceses e estrangeiros têm falado muito de ruídos semelhantes a golpes de martelo, ora se sucedendo regularmente, ora tomando um ritmo particular, que se produziam ao redor de certas pessoas deitadas em seu leito.

Os charlatães se apossaram desses fenômenos singulares, cuja realidade, aliás, foi atestada por testemunhas dignas de fé. Tentou-se reportá-los a uma causa sobrenatural, e deles se serviram para explorar a credulidade pública.

A observação da senhorita X… mostra como, sob a influência da contração muscular, os tendões deslocados podem, no momento em que caem em suas goleiras ósseas, produzir batimentos que, para certas pessoas, anunciam a presença de Espíritos batedores.

Com o exercício, todo homem pode adquirir a faculdade de produzir, à vontade, semelhantes deslocamentos dos tendões e batimentos secos que são ouvidos à distância.

Repelindo toda idéia de intervenção sobrenatural e notando que esses batimentos, e esses ruídos se passavam sempre ao pé do leito dos indivíduos agitados pelos Espíritos, o senhor Schiff perguntou-se se a sede desses ruídos não estava neles, antes que fora deles.

Seus conhecimentos anatômicos levaram-no a pensar que poderia bem estar na perna, na região peroneal, onde se acham colocados uma superfície óssea, tendões e uma corrediça comum.

Com essa maneira de ver, estando bem arraigada em seu espírito, fez experiências e ensaios sobre si mesmo, que não lhe permitiram duvidar que o ruído tinha a sua sede atrás do maléolo externo e na corrediça dos tendões peroneais.

Logo o senhor Schiff chegou mesmo a executar ruídos voluntários, regulares, harmoniosos, e pôde, diante de um grande número de pessoas (cerca de cinqüenta ouvintes), imitar os prodígios dos Espíritos batedores com ou sem sapato, de pé ou deitado.

O senhor Schiff estabeleceu que todos esses ruídos têm por origem o tendão do longo perônio, quando passa na goleira peroneal, e acrescentou que coexiste com um adelgaçamento, ou a ausência, da bainha comum ao longo e ao curto perônio. Quanto a nós, admitindo primeiro que todos esses batimentos são produzidos pela queda do tendão contra a superfície óssea peroneal, pensamos, entretanto, que não há necessidade de uma anomalia da bainha para deles se render conta. Bastam a contração do músculo, o deslocamento do tendão e seu retorno à goleira para que o ruído ocorra. Além disso, só o curto perônio é o agente do ruído em questão. Com efeito, ele assume uma direção mais direita que o longo perônio, que sofre vários desvios em seu trajeto; ele está profundamente situado na goteira; recobre inteiramente a goteira óssea, de onde é natural concluir que o ruído é produzido pelo choque desse tendão sobre as partes sólidas da goteira; apresenta fibras musculares até a entrada do tendão na goteira comum, ao passo que, para o longo perônio, é tudo ao contrário.

O ruído é variável em sua intensidade e pode-se, com efeito, distinguir-lhe diversas nuanças. Assim é que, depois do ruído estrepitoso e que se distingue ao longe, encontram-se variedades de ruído, de fricção, de serra, etc.

Pelo método subcutâneo, sucessivamente, fizemos incisão através do corpo do curto perônio lateral direito e do corpo, do mesmo músculo, do lado esquerdo em nossa doente, e mantivemos os membros na imobilidade com a ajuda de um aparelho. Fez-se a reunião e a função dos dois membros foi recuperada, sem nenhum sinal dessa singular e RARA afecção.

SENHOR VELPEAU. Os ruídos, dos quais o senhor Jobert acaba de tratar em sua interessante notícia, me parecem prenderem-se a uma questão bastante vasta.

Observam-se, com efeito, esses ruídos, em grande quantidade de regiões. O quadril, a espádua, o lado interno do pé, muito freqüentemente, tornam-se sua sede. Eu vi, entre outras, uma senhora que, com a ajuda de certos movimentos de rotação da coxa, assim produzia uma espécie de música bastante manifesta para ser ouvida de um canto ao outro do salão. O tendão da parte longa do bíceps braquial engendra-o facilmente saindo de sua corrediça, quando os freios fibrosos, que o retêm naturalmente, venham a se relaxar ou romper-se. Ocorre o mesmo com o músculo superior da perna ou o flexor do grosso dedo do pé, atrás do maléolo interno. Tais ruídos se explicam, assim como o entenderam os senhores Schiff e Jobert, pela fricção ou os sobressaltos dos tendões nas ranhuras ou contra as bordas nas superfícies sinoviais. Conseqüentemente, são possíveis em uma infinidade de regiões ou na vizinhança de uma multidão de órgãos. Ora claros ou ruidosos, ora surdos ou obscuros, por vezes úmidos e de outras secos, variam, aliás, extremamente de intensidade.

Esperamos que o exemplo dado, a esse respeito, pelos senhores Schiff e Jobert venha a levar os fisiologistas a se ocuparem seriamente com esses diversos ruídos, e que darão, um dia, a explicação racional de fenômenos incompreendidos ou atribuídos, até aqui, a causas ocultas e sobrenaturais.

O senhor JULES CLOQUET, com o apoio das observações do senhor Velpeau sobre os ruídos anormais que os tendões podem produzir em diversas regiões do corpo, cita o exemplo de uma jovem de dezesseis a dezoito anos, que lhe foi apresentada no hospital Saint-Louis, numa época na qual os senhores Velpeau e Jobert estavam ligados a esse mesmo estabelecimento. O pai dessa jovem, que se intitulava pai de um fenômeno, espécie de saltimbanco, pretendia tirar proveito de sua filha entregando-a numa exibição pública; ele anunciou que sua filha tinha no ventre um movimento de pêndulo.

Essa jovem estava perfeitamente conformada. Por um ligeiro movimento de rotação na região lombar da coluna vertebral, ela produzia estalidos muito fortes, mais ou menos regulares, segundo o ritmo dos ágeis movimentos que imprimia à parte inferior de seu busto. Esses ruídos anormais podiam ser ouvidos, muito distintamente, a mais de vinte e cinco pés de distância, e se assemelhavam ao ruído de um velho espeto de manivela; eram suspensos à vontade da jovem, e pareciam ter sua sede nos músculos da região lombo-dorsal da coluna vertebral.” .

Esse artigo, tirado de a L’Abeille médicale, e que cremos dever transcrever na íntegra, para a edificação de nossos leitores, e a fim de que não nos acusassem de querer evitar alguns argumentos, foi reproduzido com variantes por diferentes jornais, com epítetos forçados. Não temos o hábito de revelar grosserias; deixamo-las à sua conta, dizendo-nos nosso vulgar bom senso que nada se prova com asneiras e injúrias, por sábio que se seja.

Se o artigo em questão se limitasse a essas banalidades, que nem sempre são marcadas com o cunho da urbanidade e da civilidade, não as teríamos revelado; mas ele trata da questão do ponto de vista científico; ele nos acabrunha por demonstrações com as quais pretende nos pulverizar; vejamos, pois, decididamente, se estamos mortos com o decreto da Academia de ciências, ou bem se temos alguma chance de vivermos como esse pobre louco Fulton, cujo sistema foi declarado, pelo Instituto, um sonho oco, impraticável, o que muito simplesmente privou a França da iniciativa da marinha a vapor; e quem sabe quais as conseqüências que essa força, nas mãos de Napoleon l, poderia ter sobre os acontecimentos ulteriores!

Não faremos senão uma curtíssima nota a respeito da qualificação de charlatão dada aos partidários de idéias novas; parece-nos um tanto arriscada, quando se aplica a milhões de indivíduos que dela não tiram nenhum proveito* e quando ela alcança os cumes mais elevados das regiões sociais. Esquece-se que o Espiritismo fez, em alguns anos, progressos incríveis em todas as partes do mundo; que ele se propaga, não entre os ignorantes, mas nas classes esclarecidas; que conta, em suas fileiras, um número muito grande de médicos, de magistrados, de eclesiásticos, de artistas, de homens de letras, de altos funcionários: pessoas às quais, geralmente, se atribuem algumas luzes e um pouco de bom senso. Ora, confundi-las no mesmo anátema, e enviá-las sem cerimônia às Petites-Maisons, é agir muito insolentemente.

Mas, direis, aquelas pessoas são de boa fé; são vítimas de uma ilusão; não negamos o efeito, não contestamos senão a causa que lhe atribuís, a ciência vem de descobrir a verdadeira causa, fê-la conhecer e, por isso mesmo, fez desabar esse alicerce místico de um mundo invisível que pode seduzir imaginações exaltadas, mas fiéis.

Não nos apontamos como sábios, e ainda menos ousaríamos nos colocar ao nível de nossos honrosos adversários; diremos apenas que os nossos estudos em anatomia, e as ciências físicas e naturais que tivemos a honra de professar, nos permitem compreendermos sua teoria, e que de modo algum estamos aturdidos por essa avalanche de termos técnicos; os fenômenos dos quais eles falam nos são perfeitamente conhecidos.

Nas nossas observações sobre os efeitos atribuídos aos seres invisíveis, não tivemos cautela de negligenciar uma causa tão patente de equívoco. Quando um fato se apresenta, não nos contentamos com uma única observação; queremos vê-lo de todos os lados, sob todas as faces, e antes de aceitarmos uma teoria, examinamos se ela rende conta de todas as circunstâncias, se algum fato desconhecido não vem contradizê-la, em uma palavra, se ela resolve todas as questões: a verdade tem esse preço. Admitis, senhores, que essa maneira de proceder é bastante lógica. Pois bem! Apesar de todo o respeito que impõe o vosso saber, ele apresenta algumas dificuldades na aplicação de vosso sistema a isso que se chama os Espíritos batedores. A primeira é que é ao menos singular que essa faculdade, que o senhor Jobert (de Lamballe) qualifica de rara e singular afecção, tenha se tornado de repente tão comum. O senhor Lamballe disse, é verdade, que todo homem pode adquiri-la pelo exercício; mas como ele disse também que ela é acompanhada de dor e de fadiga, o que é bastante natural, convir-seá que seria necessário ter uma firme vontade de mistificar para fazer estalar seu músculo, durante duas ou três horas seguidas, quando isso não acrescenta nada, e pelo único prazer de divertir uma sociedade.

Mas falemos seriamente; isso é mais grave porque vem da ciência. Esses senhores que descobriram essa maravilhosa propriedade do músculo longo perônio, não desconfiam de tudo o que esse músculo pode fazer; ora, heis um belo problema para resolver. Os tendões deslocados não batem somente nas goleiras ósseas; por um efeito verdadeiramente bizarro, vão bater contra as portas, as paredes, os tetos, e isso à vontade, em tal lugar designado. Mas heis o que é mais forte, e vede quanto a ciência está longe de desconfiar de todas as virtudes desse músculo estalador: ele tem o poder de levantar uma mesa sem tocá-la, de fazê-la bater os pés, passear num aposento, manter-se no espaço sem ponto de apoio; de abri-la e de fechá-la, e avaliai sua a força! de fazê-la quebrar ao cair. Credes que se trata de uma mesa frágil e leve como uma pluma, e que se ergue soprando em cima? Desenganai-vos, trata-se de mesas pesadas e maciças, pesando cinqüenta a sessenta quilos, que obedecem às mocinhas, às crianças. Mas, dirá o senhor Schiff, jamais vi esses prodígios. Isso é fácil de conceber, ele não quis ver senão as pernas.

Em suas observações, o senhor Schif empregou a necessária independência de idéias?

Estava livre de toda prevenção? Disso é permitido duvidar, não somos nós que o dizemos, é senhor Jobert. Segundo ele, o senhor Schif perguntou-se, falando dos médiuns, se a sede desses ruídos não estava antes neles do que fora deles; seus conhecimentos anatômicos levaram-no a pensar que bem poderia estar na perna. Essa maneira de ver estava bem assentada em seu espírito, etc. Assim, da declaração do senhor Jobert, o senhor Schiff tomou por ponto de partida, não os fatos, mas sua própria idéia, sua idéia preconcebida bem assentada; daí as pesquisas em um sentido exclusivo e, por conseqüência, uma teoria exclusiva que explica perfeitamente o fato que ele viu, mas não aqueles que não viu. – E por que não viu? -Porque, em seu pensamento, ele não tinha senão um ponto de partida verdadeiro, e uma explicação verdadeira; partindo daí, todo o resto deveria ser falso e não mereceria exame; disso resultou que, em seu ardor de rachar os médiuns ao meio, ele a feriu de lado.

Credes, Senhores, conhecer todas as virtudes do longo perônio, porque o surprendestes tocando guitarra em sua corrediça? Ah! bem que sim, heis outra coisa a ser registrada nos anais anatômicos. Crestes que o cérebro era a sede do pensamento; errado! Pode-se pensar pela cravelha. As pancadas dão provas de inteligência, portanto, se esses golpes vêm exclusivamente do perônio, que seja o longo, segundo o senhor Schiff, ou o curto, segundo o senhor Jobert, (seria preciso, portanto, entender-se bem a esse respeito): é porque o perônio é inteligente. – Isso nada tem de espantoso; o médium, fazendo estalar seu músculo à vontade, executará o que quiserdes: ele imitará a serra, o martelo, baterá o toque de reunir, o ritmo de uma música pedida. – Seja; mas quando o ruído responde a uma coisa que o médium desconhece inteiramente, que não pode saber; quando vos diz esses pequenos segredos que só vós sabeis, desses segredos que se gostaria de esconder no gorro de dormir, é preciso convir que o pensamento vem de outra parte que não o seu cérebro. De onde vem ele? Por Deus! Do longo perônio. Isso não é tudo, ele é também poeta, esse longo perônio, porque pode compor versos encantadores, embora o médium jamais soubesse fazê-los em sua vida; ele é poliglota, porque dita coisas verdadeiramente muito sensatas em línguas das quais o médium não sabe a primeira palavra; ele é músico… nós o sabemos, o senhor Schiff fez o seu executar sons harmoniosos, com ou sem sapato, diante de cinqüenta pessoas. Sim; mas ele compõe. Vós, senhor Dorgeval, que nos destes recentemente uma encantadora sonata, credes ingenuamente que foi o Espírito de Mozart que vo-la ditou? Em verdade, senhores médiuns, não desconfiáveis de terem tanto espírito em vosso calcanhar. Honra, pois, àqueles que fizeram essa descoberta; que seus nomes sejam escritos em letras grandes para a edificação da posteridade, e a honra de sua memória!

Gracejais com uma coisa séria, dir-se-á; mas os gracejos não são razões. Não, não mais que as asneiras e as grosserias.

Confessando nossa ignorância junto desses senhores, aceitamos sua sábia demonstração e a tomamos muito seriamente. Acreditávamos que certos fenômenos eram produzidos por seres invisíveis que se deram o nome de Espíritos: enganamo-nos, seja; como procuramos a verdade, não teremos a tola pretensão de nos apaixonar por uma idéia que nos é demonstrada falsa, de modo tão peremptório. Desde o momento em que o senha Jobert, por uma incisão subcutânea, pôs termo aos Espíritos, é porque não há Espíritos. Uma vez que ele disse que todos os ruídos vêm do perônio, é necessário crê-lo e admiti-lo em todas as suas conseqüências; assim, quando os golpes se fazem ouvir na parede ou no teto, é porque o perônio aí corresponde, ou que a parede tem um perônio; quando esses golpes ditam versos por uma mesa que bate o pé, de duas coisas uma, ou a mesa é poeta ou bem o perônio; isso nos parece lógico. Vamos mesmo mais longe: um oficial, dos nossos conhecidos, recebeu um dia, fazendo experiências espíritas, e por mão invisível, um par de bofetadas tão bem aplicadas que as sentia ainda duas horas depois.

Ora, o meio de provocar uma reparação? Se semelhante coisa ocorresse com o senhor Jobert, ele não se inquietaria, porque diria que foi fustigado pelo longo perônio.

Eis o que lemos, a esse respeito, no jornal La Mode de 19 de maio de 1859.

“A Academia de medicina continua a cruzada de espíritos positivos contra o maravilhoso em todo gênero. Depois de ter, com justiça, mas talvez um pouco desastradamente, fulminado o famoso doutor negro, pelo órgão do senhor Velpeau, heis agora que acaba de ouvir o senhor Jobert (de Lamballe) declarar, em pleno Instituto, o segredo do que ele chama a grande comédia dos Espíritos batedores, que é representada com tanto sucesso nos dois hemisférios.

“Segundo o célebre cirurgião, todos os toe toe, todos os pan pan fazendo vibrar de boa fé as pessoas que os ouvem; esses ruídos singulares, esses golpes secos batidos sucessivamente e como em cadência, precursores da chegada, sinais certos da presença de habitantes do outro mundo, são muito simplesmente o resultado de um movimento dado a um músculo, a um nervo, a um tendão! Trata-se de uma bizarrice da natureza, habilmente explorada, para produzir, sem que seja possível notá-la, essa música misteriosa que tem encantado, seduzido tanta gente.

“A sede da orquestra está colocada na perna, É o tendão do perônio, jogando em sua corrediça, que faz todos esses ruídos que são ouvidos sob as mesas, ou à distância, à vontade do prestidigitador. .

“Duvido muito, de minha parte, que o senhor Jobert tenha colocado a mão, como ele crê, no segredo do que chama “uma comédia”, e os artigos publicados nesse próprio jornal, pelo nosso confrade senhor Escander, sobre os mistérios do mundo oculto, parece-me colocar a questão com uma amplitude bem mais sincera e filosófica, no bom sentido da palavra.

“Mas se os chariatães de todas as cores são irritantes com seus golpes de bombo, é preciso convir que os senhores sábios, algumas vezes, não o são menos, com o apagador que pretendem pôr sobre tudo o que brilha fora das luzes oficiais.

“Eles não compreendem que a sede do maravilhoso, que devora nossa época, tem justamente por causa os excessos de positivismo onde certos espíritos quiseram empolgar. A alma humana tem necessidade de crer, admirar e ter visto sobre o infinito.

Tem-se trabalhado para tapar as janelas que o catolicismo lhe abriu, ela olha não importa por quais frestas.”

HENRYDEPÈNE.

“Nosso excelente amigo, senhor Henry de Pene, permita-nos uma observação. Ignoramos
quando o senhor Jobert fez essa imortal descoberta, e qual foi o dia memorável no qual comunicou-a ao Instituto. O que sabemos é que essa original explicação já fora dada por outros. Em 1854, o senhor doutor Rayer, um prático célebre, que lá não fez nesse dia a prova de uma rara perspicácia, também ele apresentou, ao Instituto, um Alemão cuja habilidade, segundo ele, daria a chave de todos os knokings e rappings dos dois mundos.

Tratava-se, como hoje, do deslocamento de um dos tendões musculares da perna, chamado o longo perônio. Sua demonstração foi dada em sessão, e a Academia expressou seu reconhecimento por essa interessante comunicação. Alguns dias depois, um professor agregado da Faculdade de medicina consignou o fato no Contitutionnel, e teve a coragem de acrescentar que “os sábios, enfim, tendo se pronunciado, o mistério estava enfim esclarecido.” O que não impediu o mistério de persistir e de aumentar, apesar da ciência que, se recusando experimentá-lo, se contenta em atacá-lo com explicações ridículas e burlescas, como essas das quais acabamos de falar. Por respeito ao senhor Jobert (de Lamballe), nos apraz crer que se lhe emprestou uma experiência que nunca lhe pertenceu. Algum jornal, com fito de novidade, encontrou em algum canto esquecido de sua pasta, a antiga comunicação do senhor Rayer, e a ressuscitou, colocando-a sob seu patrocínio, a fim de variar um pouco. Mutato nomine, de te fábula narratur. É deplorável, sem dúvida, mas isso é melhor do que se o jornal houvesse dito a verdade.”

A. ESCANDE

 

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Aforismos Espíritas e pensamentos destacados

Revista Espírita, maio de 1859

Quando quiserdes estudar a aptidão de um médium, não evoqueis à primeira vista, por seu intermédio, qualquer Espírito, porque não foi dito que o médium esteja apto a servir de intérprete a todos os Espíritos, e que os Espíritos levianos podem usurpar o nome daquele que chamais. Evocai de preferência seu Espírito familiar, porque este virá sempre; então o julgareis por sua linguagem e estareis em melhor condição de apreciar a natureza das comunicações que o médium recebe.

Os Espíritos encarnados agem por si mesmos, segundo sejam bons ou maus; podem agir também sob o impulso de Espíritos não encarnados, dos quais são os instrumentos para o bem ou o mal, ou para o cumprimento de acontecimentos. Assim, com o nosso desconhecimento, somos os agentes da vontade dos Espíritos por aquilo que se passa no mundo, ora num interesse geral, ora num interesse individual. Assim, encontramos alguém que é causa para que façamos ou não façamos alguma coisa; cremos que seja o acaso que no-lo envia, ao passo que, o mais freqüentemente, são os Espíritos que nos impelem um contra o outro, porque esse reencontro deve conduzir a um resultado determinado.

Os Espíritos, encarnando-se em diferentes posições sociais, são como atores que, fora da cena, se vestem como todo o mundo, e na cena, revestem todas as roupas e desempenham todos os papéis, desde rei ao de trapeiro.

Há pessoas que não temem a morte, que a afrontam cem vezes, e que experimentam um certo medo da obscuridade; não têm medo de ladrões e, todavia, no isolamento, no cemitério, na noite, têm medo de qualquer coisa. São os Espíritos que estão perto deles, e cujo contato produz sobre eles uma impressão, e, por conseqüência, um medo do qual não se rendem conta.

As origens que certos Espíritos nos dão pela revelação de pretensas existências anteriores, freqüentemente, são um meio de sedução e uma tentação para o nosso orgulho, que se vangloria por ter sido tal ou qual personagem.

ALLAN KARDEC

 

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