Fenômeno de transfiguração

Revista Espírita, março de 1859

Extraímos o fato seguinte de uma carta que nos escreveu, no mês de setembro de 1857, um de nossos correspondentes de St-Etienne. Depois de ter falado de diversas comunicações, das quais foi testemunha, acrescentou:

“Um fato mais espantoso se passa numa família de nossos vizinhos. Das mesas girantes passou-se à poltrona que fala; depois amarrou-se um lápis nessa poltrona e essa poltrona indicou a psicografia; foi praticada por muito tempo, antes como brinquedo do que como coisa séria. Então a escrita designou uma das filhas da casa, ordenou passar as mãos sobre sua cabeça depois de tê-la feito deitar; ela dormiu logo, e depois de um certo número de experiências, essa jovem se transfigurou: tomou os traços, a voz, os gestos de ascendentes mortos, de avós que jamais conheceram, de um irmão falecido há alguns meses; essas transfigurações eram feitas sucessivamente em uma mesma sessão. Ela falava um dialeto que não era mais o da época, disse-me, porque não conhecia nem um nem o outro; mas o que posso afirmar, é que em uma sessão onde tomara a aparência de seu irmão, vigoroso gaiato, essa jovem de treze anos deu-me um rude aperto de mão.

“Há dezoito meses, ou dois anos, esse fenômeno é constantemente repetido do mesmo modo, somente hoje produziu-se espontânea e naturalmente, sem imposição das mãos.”
Esse estranho fenômeno, se bem que bastante raro, não é excepcional; já se falou de vários fatos semelhantes, e nós mesmos, várias vezes, fomos testemunha de alguma coisa análoga entre os sonâmbulos em estado de êxtase, e mesmo entre os extáticos que não estavam em sonambulismo. É certo, além do mais, que emoções violentas operam, sobre a fisionomia, uma mudança que lhe dá um caráter diferente daquele do estado normal.

Não vemos, igualmente, pessoas cujos traços móveis se prestam, segundo sua vontade, a modificações que lhes permitem tomar as aparências de outras certas pessoas? Vê-se, pois, por aí, que a rigidez da face não é tal que não possa sujeitar-se a modificações passageiras, mais ou menos profundas, e nada há de espantoso em que um fato semelhante possa produzir-se, no caso em que se trata, embora, talvez, por um causa independente da vontade.

Eis as respostas que obtivemos de São Luís a esse respeito, na sessão da Sociedade, de 25 de fevereiro último.

1. O fato de transfiguração, do qual acabamos de falar, é real? -R. Sim.

2. Nesse fenômeno, há um efeito material? – R. O fenômeno de transfiguração pode ocorrer de modo material, a tal ponto que, nas diversas fases que apresenta, poder-se-ia reproduzilo em daguerreotipia.

3. Como esse efeito se produziu? – R. A transfiguração, como a entendeis, não é senão uma modificação da aparência, uma mudança, uma alteração nos traços que pode ser produzida pela ação do próprio Espírito sobre seu envoltório, ou por uma influência exterior. O corpo nunca muda, mas, em conseqüência de uma contração nervosa, ele submete-se a aparências diversas.

4. Pode ocorrer que os espectadores sejam enganados por uma falsa aparência? – R. Pode ocorrer também que o perispírito desempenhe o papel que conheceis. No fato citado, ocorreu contração nervosa, e a imaginação aumentou-a muito; de resto, esse fenômeno é bastante raro.

5. O papel do perispírito seria análogo ao que se passa no fenômeno de bicorporeidade? – R. Sim.

6. É preciso, então, que, no caso de transfiguração, haja de-saparição do corpo real, para os espectadores que não vêem mais que o perispírito sob uma forma diferente? – R. Desaparição, não física, mas oclusão. Entendei-vos sobre as palavras.

7. Parece resultar disso que acabais de dizer que, no fenômeno da transfiguração, pode haver dois efeitos: 15 Alteração dos traços do corpo real, em conseqüência de uma contração, nervosa. 2° Aparência variável do perispírito que se torna visível. É assim que devemos entender? – R. Certamente.

8. Qual é a causa primeira desse fenômeno? – R. A vontade do Espírito.

9. Todos os Espíritos podem produzi-lo? – R. Não: os Espíritos não podem sempre fazer o que querem.

10. Como explicar a força anormal dessa jovem transfigurada na pessoa de seu irmão? – R. O Espírito não possui uma grande força? De resto, é a do corpo em seu estado normal.
Nota. Esse fato nada tem de surpreendente; freqüentemente, vêem-se as pessoas mais fracas dotadas momentaneamente de uma força muscular prodigiosa, por uma causa superexcitante.

11. Uma vez que, no fenômeno da transfiguração, o olhar do observador pode ver uma imagem diferente da realidade, ocorre o mesmo em certas manifestações físicas? Quando por exemplo uma mesa se eleva sem o contato das mãos, e que é vista acima do solo, é verdadeiramente a mesa que se destacou? – R. Podeis perguntá-lo?

12. O que é que a ergue? – R. A força do Espírito.

Nota. Esse fenômeno já foi explicado por São Luís, e tratamos essa questão, de modo completo, nos números de maio e junho de 1858, a propósito da teoria das manifestações físicas. Foi-nos dito que, nesse caso, a mesa, ou o objeto qualquer que se mova, se anima de uma vida factícia, momentânea, que lhe permite obedecer à vontade do Espírito.
Certas pessoas quiseram ver, nesse fato, uma simples ilusão de ótica que faria ver, por uma espécie de miragem, a mesa no espaço, ao passo que ela estaria realmente sobre o solo. Ainda que a coisa fosse assim, ela não seria menos digna de atenção; é notável que aqueles que querem contestar ou denegrir os fenômenos espíritas, expliquem-nos por causas que seriam, elas mesmas, verdadeiros prodígios, e bem mais difíceis de compreender-se; ora, por que, pois, tratar isso com tanto desdém? Se a causa que assinalam é real, por que não aprofundá-la? O físico procura se render conta do menor movimento anormal da agulha imantada; o químico na mais leve mudança na atração muscular por que, pois, ver-se com indiferença fenômenos tão bizarros quanto aqueles dos quais falamos, fossem o resultado de um simples desvio do raio visual e uma nova aplicação de leis conhecidas? Isso não é lógico. Não seria certamente impossível que, por um efeito de ótica análogo àquele que nos faz ver um objeto na água mais alto do que está, em conseqüência da refração do raio luminoso, uma mesa nos aparecesse no espaço, enquanto estivesse sob o sol; mas, há um fato que resolve peremptoriamente a questão, é quando a mesa cai bruscamente sobre o solo e quando ela se quebra; isso não nos parece ser uma ilusão de ótica. Voltemos à transfiguração.

Se uma contração muscular pode modificar os traços do rosto, isso não pode ser senão em um certo limite; mas, seguramente, se uma jovem toma a aparência de um velho, nenhum efeito psicológico far-lhe-á produzir a barba; é preciso, pois, procurar-lhe a causa em outro lugar. Querendo-se reportar-se ao que dissemos precedentemente, sobre o papel do perispírito em todos os fatos de aparições, mesmo de pessoas vivas, compreender-se-á que lá está ainda a chave do fenômeno da transfiguração. Com efeito, uma vez que o perispírito pode se isolar do corpo, que pode tornar-se visível, que pela sua extrema sutilidade pode tomar diversas aparências à vontade do Espírito, conceber-se-á, sem dificuldade, que ele esteja assim numa pessoa transfigurada: o corpo fica o mesmo, só o perispírito muda de aspecto. Mas, então, dir-se-á, em que se torna o corpo? De um lado o corpo real e de outro o perispírito transfigurado? Fatos estranhos, dos quais iremos falar oportunamente, provam que, em conseqüência da fascinação que se opera nessa circunstância no observador, o corpo real pode estar, de alguma sorte, velado pelo perispírito.

O fenômeno objeto desse artigo nos foi transmitido já há muito tempo, e se não falamos dele ainda, foi porque não nos propusemos fazer de nossa Revista um simples catálogo de fatos próprios para alimentar a curiosidade, uma árida compilação sem apreciação e sem comentário; nossa tarefa seria muito fácil, e a tomamos mais a sério; dirigimo-nos, antes de tudo, aos homens de raciocínio, àqueles que, como nós, querem se render conta das coisas, tanto quanto isso seja possível. Ora, a experiência nos ensinou que os fatos, por estranhos e multiplicados que sejam, não são elementos de convicção; e o são tanto menos quanto sejam estranhos; quanto mais um fato é extraordinário, tanto mais parece anormal, menos se está disposto a crer nele; quer-se ver, e quando se viu, duvida-se ainda; desconfia-se de ilusões e conivências. Não ocorre assim quando se acha, nos fatos, uma razão de ser por uma causa plausível. Vemos todos os dias pessoas que rejeitaram outrora os fenômenos espíritas, à conta da imaginação e de uma cega credulidade, e que hoje são adeptos fervorosos, precisamente porque esses fenômenos não têm agora nada que repugne à sua razão; elas se os explicam, compreendem-lhes a possibilidade, e crêem neles mesmo sem terem visto. Antes de falarmos de certos fatos, temos, pois, que esperar que os princípios fundamentais estejam suficientemente desenvolvidos, para deles render-se conta; o da transfiguração está entre esse número. O Espiritismo é para nós mais que uma crença: é uma ciência, e estamos felizes em ver que os nossos leitores nos compreenderam.

 

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Médiuns interesseiros

Revista Espírita, março de 1859

Em nosso artigo sobre os escolhos dos médiuns, colocamos a cupidez entre os defeitos que podem tomá-los presa de Espíritos imperfeitos. Alguns desenvolvimentos sobre esse assunto não serão inúteis. É preciso colocar, em primeiro lugar, os médiuns interesseiros, aqueles que poderiam fazer um ofício de sua faculdade, dando as chamadas a consultas ou sessões retribuídas. Não os conhecemos, na França pelo menos, mas como tudo pode tornar-se objeto de exploração, não haveria nada de espantoso em que se quisesse, um dia, explorar os Espíritos; resta saber como fariam a coisa, se jamais um tal espetáculo tentou se introduzir. Sem ser completamente iniciado no Espiritismo, compreende-se o que teria de aviltante; mas quem quer que conheça um pouco quanto é difícil aos bons Espíritos vir comunicar-se conosco, e quão pouco é preciso para afastá-los, sua repulsa por tudo o que é de interesse egoístico, não poderá jamais admitir que Espíritos superiores estejam ao capricho de alguém que os fizessem vir a tanto por hora; o simples bom senso repele semelhante suposição. Não seria também uma profanação evocar seu pai, sua mãe, seu filho ou seu amigo por um semelhante meio? Sem dúvida pode-se ter assim comunicações, mas Deus sabe de que fonte! Os Espíritos levianos, mentirosos, traquinas, zombeteiros e toda a multidão de Espíritos inferiores, sempre vêm; e estão sempre prontos a responder a tudo; São Luís nos disse, outro dia, na Sociedade: Evocai um rochedo, ele vos responderá. Aquele que quer comunicações sérias, deve se edificar, antes de tudo, sobre a natureza da simpatia do médium com os seres de além-túmulo; ora, aqueles que podem se entregar à atração do ganho não podem inspirar senão uma medíocre confiança.

Os médiuns interesseiros não são unicamente aqueles que poderiam exigir uma retribuição fixa; o interesse não se traduz sempre na esperança de um ganho material, mas também pelas considerações ambiciosas de toda a natureza, sobre as quais podem fundar esperanças pessoais; está ainda aí um defeito de que sabem aproveitar, muito bem, os Espíritos zombadores, e os quais aproveitam com um jeito, uma astúcia verdadeiramente notável, embalando enganosas ilusões naqueles que se colocam, assim, sob sua dependência. Em resumo, a mediunidade é uma faculdade dada para o bem, e os bons Espíritos se afastam de quem pretenda fazer dela uma escada para chegar ao que quer que seja, que não responda aos objetivos da Providência. Ó egoísmo é a praga da sociedade; os bons Espíritos o combatem, não se pode supor que venham servi-lo. Isso é tão racional que seria inútil insistir muito sobre esse ponto.

Os médiuns de efeitos físicos não estão na mesma categoria, esses efeitos são produzidos por Espíritos inferiores, pouco escrupulosos quanto aos sentimentos morais, um médium dessa categoria, que quisesse explorar sua faculdade, poderia, pois, ter quem se interessasse nisso, sem muita repugnância; mas aí, ainda, se apresenta um outro inconveniente. O médium de efeitos físicos, não mais que aquele de comunicações inteligentes, não recebeu sua faculdade para seu prazer foi-lhe dada com a condição de fazer, dela, um bom uso, e se dela abusa, pode lhe ser retirada, ou bem voltar-se em seu detrimento, porque, em definitivo, os Espíritos inferiores estão sob as ordens dos Espíritos superiores. Os Espíritos inferiores gostam muito de mistificar, mas não gostam de serem mistificados; prestando-se voluntariamente ao gracejo, às coisas curiosas, não gostam, mais que os outros, de serem explorados, e provam, a cada instante, que têm sua vontade, que agem quando e como lhes pareça, o que faz com que o médium de efeitos físicos esteja ainda menos seguro da regularidade das manifestações, que o médium escrevente. Pretender produzi-las a dias e horas fixas, seria dar prova da mais profunda ignorância. Que fazer, então, para ganhar seu dinheiro? Simular os fenômenos; é o que pode ocorrer não somente àqueles que disso fariam um ofício confessado, mas mesmo às pessoas simples em aparência, e que se limitam a receberem uma retribuição qualquer dos visitantes. Se o Espírito não dá, será suprido: a imaginação é fecunda quando se trata de ganhar dinheiro; é uma tese que desenvolveremos num artigo especial, a fim de colocar em guarda contra a fraude.

De tudo o que precede, concluímos que o desinteresse mais absoluto é a melhor garantia contra o charlatanismo, porque não há charlatães desinteressados; se não garante sempre a bondade das comunicações inteligentes, rouba aos maus Espíritos um poderoso meio de ação que fecha a boca de certos detratores.

 

 

Estudo sobre os médiuns

Revista Espírita, março de 1859

Sendo os médiuns os intérpretes das comunicações espíritas, seu papel é extremamente importante, e não se poderia dar mais atenção ao estudo de todas as causas que podem influenciá-los, não somente por si mesmos, mas, também, por aqueles que, não sendo médiuns, se servem de sua intermediação, a fim poderem julgar o grau de confiança que merecem as comunicações que possam receber.

Todo o mundo, dissemos, é mais ou menos médium; mas convencionou-se dar esse nome àqueles nos quais as manifestações são patentes, e, por assim dizer, facultativas. Ora, entre estes últimos, há aptidões muito diferentes: pode-se dizer que cada um tem a sua especialidade. Ao primeiro aspecto, se desenham duas categorias muito nitidamente talhadas: os médiuns de influências físicas, e aqueles das comunicações inteligentes. Estes últimos apresentam numerosas variedades, cujas principais são: os escreventes ou psicógrafos, os desenhistas, os falantes, os audientes e os videntes. Os médiuns poetas, músicos e poliglotas são variedades dos escreventes e dos falantes. Não voltaremos às definições que demos desses diferentes gêneros, mas não queremos lembrar, senão sucintamente, o conjunto, para maior clareza.

De todos os gêneros de médiuns, o mais comum é o dos escreventes; é aquele mais fácil de se adquirir pelo exercício; também é para esse lado que se dirigem, e com razão, os desejos e os esforços dos aspirantes. Eles mesmos apresentam duas variedades que, geralmente, são encontradas em várias outras categorias: os escreventes mecânicos e os escreventes intuitivos. Nos primeiros, o impulso da mão é independente da vontade; ela se move por si mesma, sem que o médium tenha alguma consciência do que escreve, podendo seu pensamento estar em qualquer outra coisa. No médium intuitivo, o Espírito atua sobre o cérebro; seu pensamento atravessa, por assim dizer, o pensamento do médium, sem que haja confusão. Disso resulta, nele, a consciência do que escreve, freqüentemente mesmo, uma consciência antecipada, porque a intuição antecede, algumas vezes, o movimento da mão e, todavia, o pensamento expresso não é o do médium. Uma comparação bem simples nos faz compreender o fenômeno. Quando queremos conversar com alguém cuja língua não conhecemos, nos servimos de um intérprete; o intérprete tem consciência do pensamento dos interlocutores, deve compreendê-lo para exprimi-lo, e, todavia, esse pensamento não é o seu. Pois bem! O papel de um médium intuitivo é o de um intérprete entre o Espírito e nós. A experiência nos ensinou que os médiuns mecânicos e os médiuns intuitivos são igualmente bons, igualmente aptos para receberem e transmitirem boas comunicações. Como meio de convicção, os primeiros valem mais, sem dúvida, mas quando se adquiriu a convicção, não há mais preferência útil; a atenção deve se dirigir inteiramente sobre a natureza das comunicações, quer dizer, sobre a aptidão do médium para receber as dos bons e as dos maus Espíritos, e sob esse aspecto diz-se que ele é bem ou mal assistido: aí está toda a questão, e essa questão é capital, porque só ela pode determinar o grau de confiança que ele merece; é um resultado do estudo e da observação para o qual remetemos ao nosso artigo precedente, sobre os escolhos dos médiuns.

A dificuldade, com um médium intuitivo, consiste em distinguir os pensamentos que lhe são próprios dos que lhe são sugeridos. Essa dificuldade existe para ele mesmo; o pensamento sugerido lhe parece tão natural que o toma, freqüentemente, pelo seu, e duvida de sua faculdade. O meio para convencê-lo, ele e os outros, é um exercício freqüente. Então, no número das evocações nas quais concorreu, apresentar-se-ão mil circunstâncias, uma multidão de comunicações íntimas, particularidades das quais não se poderia ter nenhum conhecimento prévio, e que constatarão, de modo irrecusável, a inteira independência de seu próprio Espírito.

As diferentes variedades de médiuns repousam sobre aptidões especiais, e até o presente não se sabe muito qual lhes é o seu princípio. À primeira vista, e para as pessoas que não fizeram desta ciência um estudo continuado, não parece mais difícil, para um médium, escrever versos que prosa; sobretudo se for mecânico, o Espírito, dir-se-á, pode tão bem fazê-lo escrever numa língua estrangeira, fazê-lo desenhar ou ditar-lhe a música.

Todavia, não é nada disso. Se bem que se vejam, a cada instante, desenhos, versos, música feitos por médiuns que, em seu estado normal, não são nem desenhistas, nem poetas, nem músicos, nem todos estão aptos para produzirem essas coisas. Apesar de sua ignorância, há neles uma faculdade intuitiva, uma flexibilidade que faz deles instrumentos mais dóceis. Foi o que bem expressou Bernard Palissy quando se lhe perguntou por que havia escolhido, para fazer os seus admiráveis desenhos, o senhor Victorien Sardou, que não sabe desenhar; é porque disse, acho-o mais flexível. Ocorre o mesmo com as outras aptidões; e, coisa bizarra, vimos Espíritos se recusarem a ditar versos a médiuns que conheciam a poesia, e dá-los agradável mente a pessoas que não lhe sabiam as primeiras regras; é o que prova, uma vez mais, que os Espíritos têm o seu livre arbítrio, e que é em vão que gostaríamos de submetê-los aos nossos caprichos.

Resulta das observações precedentes, que um médium deve seguir o impulso que lhe é dado, segundo a sua aptidão; que deve tratar de aperfeiçoar essa aptidão pelo exercício, mas que procuraria inutilmente adquirir aquela que lhe falta, ou pelo menos que isso seria em prejuízo daquela que possui. Não forcemos nosso talento, não faríamos nada com graça, disse La Fontaine- podemos acrescentar, não faríamos nada de bom. Quando um médium possui uma faculdade preciosa, com a qual pode se tornar verdadeiramente útil, que se contente com ela, e não procure uma vã satisfação de seu amor-próprio numa variedade que seria o enfraquecimento da faculdade primordial; se esta deve ser transformada, o que freqüentemente acontece, ou se deve adquirir uma nova, isso ocorrerá espontaneamente, e não por um efeito de sua vontade.

A faculdade de produzir efeitos físicos forma uma categoria bem talhada, que se alia raramente com as comunicações inteligentes, sobretudo com as de alta importância.

Sabe-se que os efeitos físicos são obrigação dos Espíritos de baixo estágio, como entre nós os grandes esforços dos saltimbancos; ora, os Espíritos batedores pertencem a essa classe inferior; agem, o mais freqüentemente, para se divertirem ou vexarem, mas, algumas vezes, por ordem de Espíritos elevados que deles se servem, como nos servimos dos trabalhadores; seria absurdo crer que Espíritos superiores viessem divertir-se fazendo as mesas girarem ou baterem. Servem-se desses meios, dizemos nós, como intermediários, seja com o objetivo de convencerem, seja para se comunicarem conosco, quando não lhes oferecemos outros meios; mas o abandonam no momento que possam atuar por um meio mais rápido, mais cômodo e mais direto, como abandonamos o telégrafo aéreo, desde que tivemos o telégrafo elétrico. Não se devem desprezar os efeitos físicos, porque, para muita gente, são um meio de convicção; oferecem, aliás, um precioso objeto de estudo sobre as forças ocultas; mas é notável que os Espíritos os recusem, em geral, àqueles que que não têm mais necessidade, ou que, pelo menos, não aconselham se ocupar de modo especial. Eis o que escreveu, a esse respeito, o Espírito de São Luís, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

“Zombaram das mesas girantes, não zombarão jamais da filosofia, da sabedoria e da clareza que brilham nas comunicações sérias. Isso foi o vestíbulo da ciência; é aí que, ao entrar, devemos deixar os preconceitos, como se deixa o casaco. Não posso vos convidar muito a fazerem, de vossas reuniões, um centro sério: que em outro lugar façam demonstrações físicas, em outro veja-se, em outro ouça-se, que, entre vós, compreenda-se e se ame. Que pensais ser, aos olhos dos Espíritos superiores, quando fazeis girar uma mesa? Ignorantes. Os sábios passam seu tempo a repassar o a, b, c da ciência? Ao passo que vendo-vos procurarem as comunicações sérias, considerar-vos-ão como homens sérios em busca da verdade.”

É impossível resumir, de modo mais lógico e mais preciso, o caráter dos dois gêneros de manifestações. Aqueles que têm comunicações elevadas, deve-as à assistência dos bons Espíritos: é um sinal de sua simpatia por ele; renunciá-las para procurar os efeitos materiais, é deixar uma sociedade escolhida por outra mais baixa; querer aliar as duas coisas, é chamar, ao redor de si, seres antipáticos, e, nesse conflito, é provável que os bons se irão e os maus permanecerão. Longe de nós desprezar os médiuns de influências físicas; têm sua razão de ser, seu fim providencial; prestam incontestáveis serviços à ciência espírita; mas quando um médium possui uma faculdade que pode colocá-lo em relação com seres superiores, não compreendemos que dela abdique, ou mesmo que deseje outras, de outro modo que por ignorância; porque, freqüentemente, a ambição de querer ser tudo, faz que se acabe por não ser nada.

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Uma noite esquecida ou a feiticeira Manouza

Primeiro artigo

Segundo artigo

 

Milésima segunda noite dos contos árabes,

Ditada pelo Espírito de Frederíc Soulié.

(TERCEIRO E ÚLTIMO CAPÍTULO)

contos arabes revista espirita

VII

– Levantai-vos, disse-lhe Noureddin, e segui-me. Nazara, banhada em lágrimas, lançou-selhe aos pés e implorou sua graça. -Nada de piedade para uma tal falta, disse o pretenso sultão; preparai-vos para morrer. Noureddin sofria muito por ter para com ela semelhante linguagem, mas não julgou chegado o momento de se fazer conhecer.

Nazara, vendo que era impossível dobrá-lo, o seguiu tremente. Eles retornaram aos apartamentos; ali Noureddin disse a Nazara para ir vestir roupas mais convenientes; depois, terminada a toilete, sem outra explicação, disse-lhe que iriam, ele e Ozana (o anão) conduzila para um bairro de Bagdá onde teria o que ela merecia. Todos os três se cobriram com uma grande manta, para não serem reconhecidos, e saíram do palácio. Mas, ó terror! apenas passaram as portas, mudaram de aspecto aos olhos de Nazara; não eram mais o sultão e Ozana, nem os mercadores de roupas, mas o próprio Noureddin e Tanaple; eles ficaram tão amedrontados, sobretudo Nazara, ao se verem tão perto da morada do sultão, que aceleraram o passo com medo de serem reconhecidos.

Apenas entraram na casa de Noureddin, esta achou-se cercada por uma multidão de homens, escravos e de tropas, enviados pelo sultão para detê-los.

Ao primeiro ruído, Noureddin, Nazara e o anão se refugiaram no apartamento mais retirado do palácio. Ali, o anão lhes disse para não se amedrontarem; que não havia senão uma coisa a se fazer para não serem presos, que era colocar o pequeno dedo da mão esquerda na boca e assoviar três vezes; que Nazara deveria fazer o mesmo, e que, instantaneamente, tornarse-iam invisíveis para todos aqueles que quisessem se apoderar deles.

O ruído continuando a aumentar de modo alarmante, Nazara e Noureddin seguiram o conselho de Tanaple; quando os soldados entraram no apartamento, encontraram-no vazio, e se retiraram depois de fazerem as mais minuciosas buscas. Então, o anão disse a Noureddin para fazer ao contrário do que haviam feito, quer dizer, colocar o pequeno dedo da mão direita na boca e assoviar três vezes; fizeram-no e logo se acharam como eram antes.

O anão, em seguida, fez notar que, não estando em segurança na casa, deveriam deixá-la por algum tempo, a fim de que se apaziguasse a cólera do sultão. Ofereceu-lhes, em conseqüência, conduzi-los para seu palácio subterrâneo, onde estariam muito comodamente, enquanto se achassem os meios de tudo arranjar, a fim de que pudessem entrar sem medo em Bagdá, e nas melhores condições possíveis.

VIII

Noureddin hesitou, mas Nazara tanto lhe pediu, que acabou por consentir. O anão disse-lhes para irem ao jardim, comerem uma laranja com a cabeça voltada para o nascente, e que, então, seriam transportados sem o perceberem. Tiveram o ar de dúvida, mas Tanaple lhes disse que não compreendia sua dúvida depois do que fizera por eles.

Tendo descido ao jardim, e tendo comido a laranja do modo indicado, se acharam subitamente elevados a uma altura prodigiosa; depois, subitamente, sentiram um forte abalo e um grande frio, e se sentiram descendo com grande velocidade. Nada viram durante o trajeto, mas quando tiveram consciência da situação, se acharam sob a terra, num magnífico palácio iluminado por mais de vinte mil velas.

Deixemos nossos amantes em seu palácio subterrâneo e retornemos ao nosso pequeno anão, que deixamos na casa de Noureddin.

Sabeis que o sultão havia enviado soldados para se apoderarem dos fugitivos; depois de haverem explorado os mais retirados cantos da habitação, assim como os jardins, não encontrando nada, foram forçados a se retirarem, para informarem ao sultão de sua tentativa infrutífera.

Tanaple acompanhara a todos ao longo do caminho; olhava-os com ar astuto e, de tempo em tempo, lhes perguntava qual preço o sultão daria àquele que trouxesse de novo os dois fugitivos. – Se o sultão, acrescentava ele, estiver disposto a conceder-me uma hora de audiência, dir-lhe-ei alguma coisa que o apaziguará, e ficará encantado por se livrar de uma mulher como Nazara, que há nela um mau gênio, e que faria descer sobre ele todas as desgraças possíveis, se ela permanecesse algumas luas mais. O chefe dos Eunucos prometeulhe incumbir-se disso e transmitir-lhe a resposta do sultão.

Apenas entrados no palácio, o chefe dos negros veio dizer que seu senhor o esperava, prevenindo-lhe, todavia, que seria furado por uma lança se avançasse imposturas.

Nosso pequeno monstro se apressou em entrar na casa do sultão. Chegado diante desse homem duro e severo, inclinou-se três vezes como é habitual, diante dos príncipes de Bagdá.

– Que tens a me dizer? perguntou-lhe o sultão. Sabes o que te espera se não disseres a verdade. Fala; eu te escuto.

“Grande Espírito, celeste Lua, tríade de Sóis, não anuncio senão a verdade. Nazara é filha da fada Negra e do gênio a Grande Serpente dos Infernos. Sua presença, em tua casa, te traria todas as pragas inimagináveis: praga das serpentes, eclipse do sol, lua azul impedindo os amores da noite; todos os teus desejos, enfim, iriam ser contrariados, e tuas mulheres envelhecidas antes mesmo que uma lua haja passado. Poderia dar-te uma prova do que adianto; sei onde se encontra Nazara; se quiseres, irei procurá-la e poderás convencer-te por ti mesmo. Não há senão um meio de evitar-se essas desgraças, é dar-lha a Noureddin. Noureddin não é mais o que pensas; ele é filho da feiticeira Manouza e do gênio o Rochedo de Diamante. Se tu uni-los, em reconhecimento, Manouza te protegerá; se recusares…. Pobre príncipe! Eu te lamento. Faze a prova; depois disso decidirás.”

O sultão escutou com bastante calma o discurso de Tanaple; mas, logo depois, chamou uma tropa de homens armados, e ordenou-lhes aprisionarem o pequeno monstro, até que um acontecimento viesse convencê-lo daquilo que acabara de ouvir.

– Acreditava, disse Tanaple, fazer favor a um grande príncipe; mas vejo que me enganei e deixo aos gênios o cuidado de vingar seus filhos. Dito isso, seguiu aqueles que vieram para prendê-lo.

IX

Tanaple estava na prisão apenas há algumas horas, quando 9 Sol se cobriu com uma nuvem de cor sombria, como se um véu quisesse ocultá-lo à Terra; depois um grande ruído se fez ouvir, e de uma montanha, colocada à entrada da cidade, saiu um gigante armado que se dirigiu para o palácio do sultão.

Não vos direi que o sultão ficou muito calmo; longe disso; tremia como uma folha de laranjeira, que Éolo tivesse atormentado. A aproximação do gigante, ordenou fechar todas as portas, e todos os seus soldados estarem prontos, armas às mãos, para defenderem seu príncipe. Mas, ó estupefação! à aproximação do gigante, todas as portas se abriram, como impelidas por mão secreta; depois, gravemente, o gigante avançou até o sultão, sem dar um sinal, nem dizer uma palavra. À sua vista, o sultão se lançou de joelhos, pediu ao gigante poupá-lo e dizer o que exigia.

“Príncipe! disse o gigante, não digo grande coisa pela primeira vez; não faço mais que te advertir. Faça o que Tanaple te aconselhou, e nossa proteção ser-te-á assegurada; de outro modo, sofrerás a pena de tua obstinação.” Dito isso, retirou-se.

O sultão ficou primeiro muito amedrontado; mas, ao cabo de um quarto de hora, estando recomposto de sua perturbação, longe de seguir os conselhos de Tanaple, fez logo publicar um édito que prometia uma magnífica recompensa àquele que pudesse colocá-lo nas pegadas dos fugitivos; depois, tendo colocado guardas nas portas do palácio e da cidade, esperou pacientemente. Mas sua paciência não foi de longa duração, ou pelo menos não lhe deixou tempo para colocá-la à prova. A partir do segundo dia, apareceu às portas da cidade um exército que tinha o ar de ter saído de baixo da terra; os soldados estavam vestidos com peles de toupeiras, e tinham armaduras de carapuças de tartarugas; levavam clavas feitas com lascas de rocha.

A sua aproximação, os guardas quiseram resistir, mas o aspecto formidável do exército logo fê-los abaixarem as armas; abriram as portas sem falarem, sem quebrar suas fileiras, e a tropa inimiga foi gravemente até o palácio. O sultão quis se mostrar à porta de seus apartamentos; mas, para sua grande surpresa, seus guardas adormeceram e as portas se abriram por si mesmas; depois o chefe da armada avançou com passo grave até o sultão e lhe disse:

“Venho dizer-te que Tanaple, vendo tua obstinação, nos enviou para te procurar; em lugar de ser o sultão de um povo que não sabes governar, vamos conduzir-te às toupeiras; tu mesmo torna-te-ás toupeira e serás sultão aveludado. Vê se isso te convém antes que fazer o que Tanaple te ordenou; dou-te dez minutos para refletir.

O sultão gostaria de resistir; mas, para sua felicidade, após alguns momentos de reflexão, consentiu naquilo que se lhe exigiam; não quis colocar senão uma condição, de que os fugitivos não habitassem seu reino. Foi-lhe prometido e, no mesmo instante, sem saber de que lado e como, o exército desapareceu aos seus olhos.

Agora que a sorte de nossos amantes estava completamente assegurada, voltemos para junto deles. Sabeis que os deixamos no palácio subterrâneo.

Depois de alguns minutos, ofuscados e arrebatados pelo aspecto das maravilhas que os cercavam, quiseram visitar o palácio e seus arredores. Viram jardins encantadores. Coisa estranha! via-se tão claro quanto a céu descoberto. Aproximaram-se do palácio: todas as suas portas estavam abertas, e havia preparativos como para uma grande festa. À porta estava uma dama em magnífico vestido. Nossos fugitivos não a reconheceram de início; mas, aproximando-se mais, viram Manouza, a feiticeira, Manouza toda transformada; não era mais aquela velha mulher, feia e decrépita, era uma mulher já de uma certa idade, mas ainda bela, e com um grande ar.

“Noureddin, disse-lhe ela, te prometi ajuda e assistência. Hoje vais receber minha promessa; estás no fim de teus males e vais receber o prêmio de tua constância: Nazara vai ser tua mulher; além disso dou-te este palácio; habitá-lo-ás e serás o rei de um povo de bravos e reconhecidos súditos; são dignos de ti, como és digno de reinar sobre eles.”

A essas palavras, música harmoniosa fez-se ouvir, de todos os lados, apareceu uma multidão inumerável de homens e de mulheres em roupas de festa; à sua frente estavam os grandes senhores e as grandes senhoras que vieram se prosternar aos pés de Noureddin; ofereceramlhe uma coroa de ouro, enriquecida com diamantes, dizendo que o reconheciam por seu rei; que esse trono lhe pertencia como herança de seu pai; que foram encantados, há 400 anos pela vontade de mágicos maus, que esse encanto não deveria acabar senão com a presença de Noureddin. Em seguida, fizeram longo discurso pelas suas virtudes e as de Nazara.

Então, Manouza disse-lhe: Sois felizes, nada mais tenho a fazer aqui. Se tiverdes necessidade de mim, batei sobre a estátua que está no meio de vosso jardim e, no mesmo instante, eu virei. Depois ela desapareceu.

Noureddin e Nazara gostariam de retê-la por mais tempo, para lhe agradecer todas as suas bondades para com eles. Depois de alguns momentos, passados conversando, retornaram aos seus súditos; as festas e as alegrias duraram oito dias. Seu reinado foi longo e feliz; viveram milhares de anos, e posso dizer mesmo que vivem ainda; somente o país não foi reencontrado, ou, por melhor dizer, jamais foi muito conhecido.

Fim.

Nota. Chamamos a atenção dos nossos leitores sobre as observações com as quais precedemos o conto, em nossos números de novembro de 1858 e janeiro de 1859.

ALLAN KARDEC.

 

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Carta do doutor Morhéry

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Loudéac, 20 de dezembro de 1858.

robin de morhery

Senhor Allan Kardec,

Eu me felicito por colocar-me em relação convosco, para o gênero de estudo que nos entregamos mutuamente. Há mais de vinte anos que me ocupo com uma obra que devia intitular-se: Estudo sobre os germes. Essa obra devia ser especialmente fisiológica; entretanto, minha intenção era demonstrar a insuficiência do sistema de Bichat, que não admite senão a vida orgânica e a vida de relação. Queria provar que existe um terceiro modo de existência, que sobrevive aos dois outros em estado inorgânico. Esse terceiro modo, não é outra coisa que a vida anímica, ou espírita, como a chamais. Em uma palavra, é o germe primitivo que engendra os dois outros modos de existência, orgânica e de relação. Queria demonstrar, também, que os germes são de natureza fluídica, que são bidinâmicos, atrativos, indestrutíveis, autógenos e em número definido, sobre o nosso planeta como em todos os meios circunscritos. Quando apareceu Céu e Terra, de Jean Reynaud, fui obrigado a modificar minhas convicções. Reconheci que meu sistema era muito estreito, e admiti, com ele, que os astros, pela troca de eletricidade, que podem se enviar reciprocamente, necessariamente, por essas diversas correntes elétricas, devem favorecer a transmigração dos germes, ou Espíritos, que são da mesma natureza fluídica.

Quando se falou das mesas girantes, entreguei-me em seguida a essa prática, e obtive resultados tais que não tive mais nenhuma dúvida sobre essas manifestações. Depois compreendi que tocáramos o momento em que o mundo invisível iria tornar-se visível e tangível, e que, desde então, caminharíamos para uma revolução sem precedente nas ciências e na filosofia. Estava longe de esperar, entretanto, que um jornal espírita pudesse se estabelecer tão cedo, e se manter em França. Hoje, senhor, graças à vossa perseverança, é um fato adquirido, e esse fato é de uma grande importância. Estou longe de julgar as dificuldades vencidas; experimentareis muitos obstáculos, suportareis muitas piadas, mas, afinal de contas, a verdade mostrar-se-á; chegar-se-á a reconhecer a observação do célebre professor Gay-Lussac, que nos disse, em seu curso, a propósito dos corpos imponderáveis e invisíveis, que essas expressões eram inexatas, e, constantemente, apenas nossa impossibilidade no estado atual da ciência; acrescentava que seria mais lógico chamá-los imponderados. Ocorre o mesmo com a visibilidade e a tangibilidade; o que não é visível para um, o é para outro, mesmo a olho nu; exemplo, os sensitivos; enfim, a audição, o odor e o gosto, que não são senão modificações da propriedade tangível, são nulos no homem, com relação ao cão, à águia e a diversos animais. Portanto, não há nada de absoluto nessas propriedades que se multiplicam segundo a organização. Não há nada de invisível, de intangível, de imponderável: tudo pode ser visto, tocado, ou pesado quando nossos órgãos, que são nossos primeiros e nossos mais preciosos instrumentos, tornarem-se mais sutis.

gay lussac

A tantas experiências, com as quais tendes já recursos para constatar nosso terceiro modo de existência (vida espírita), peco-vos acrescentar a seguinte: Queria muito magnetizar um cego de nascença e, nesse estado sonambúlico, dirigir-lhe uma série de perguntas sobre as formas e as cores. Se o sujeito for lúcido, provará, de modo peremptório, que tem, sobre essas coisas, conhecimentos que não pôde adquirir senão em uma ou várias existências anteriores.

Termino, senhor, rogando-vos receber minhas muito sinceras felicitações sobre o gênero de estudos a que vos consagrais. Como nunca tive medo de manifestar as minhas opiniões, podeis inserir minha carta na vossa Revista, se julgardes que isso seja útil.
Vosso todo devotado servidor, Morhéry, doutor em medicina.

Nota. Estamos muito felizes com a autorização que o senhor doutor Morhéry quis nos dar para publicarmos, nomeando-o, a notável carta que acabamos de ler. Ela prova nele, ao lado do homem de ciência, o homem judicioso que vê alguma coisa além das nossas sensações, e que sabe fazer o sacrifício de suas opiniões pessoais em presença da evidência. Nele a convicção não é uma fé cega, mas raciocinada; é a dedução lógica do sábio que não crê tudo saber.

A infância

DISSERTAÇÃO DE ALÉM-TÚMULO

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Comunicação espontânea do senhor Nélo, médium, lida na Sociedade em 14 de janeiro de 1859.

Não conheceis o segredo que as crianças escondem em sua inocência; não sabeis o que são, o que foram, nem o que serão; todavia, as amais, as quereis bem como se fossem uma parte de vós mesmos, de tal modo que o amor de mãe por seus filhos é reputado o maior que um ser possa ter por um outro ser. De onde provém essa doce afeição, essa terna benevolência que os próprios estranhos sentem para com uma criança? Sabei-o?

Não; é isso que vou explicar-vos.

As crianças são os seres que Deus envia em novas existências; e para que não possam lançar-lhes em rosto uma severidade muito grande, deu-lhes todas as aparências da inocência; mesmo numa criança de uma maldade natural, são cobertos seus defeitos com a não-consciência de seus atos. Essa inocência não é uma superioridade real sobre o que eram antes; é a imagem do que deveriam ser, e se não o são, é unicamente sobre elas que disso recai a pena.

Mas não foi somente por elas que Deus lhes deu esse aspecto, foi também, e sobretudo, pelos seus pais, cujo amor é necessário à sua fraqueza, e esse amor seria singularmente enfraquecido pela visão de um caráter colérico e rude, ao passo que crendo seus filhos bons e dóceis, dão-lhes toda a sua afeição, e os cercam com os mais delicados cuidados. Mas quando as crianças não têm mais necessidade dessa proteção, dessa assistência que lhes foi dada durante quinze a vinte anos, seu caráter real e individual reaparece em toda a sua nudez: permanece bom se era fundamentalmente bom, mas se irisa sempre de nuanças que estavam escondidas pela primeira infância.

Vedes que os caminhos de Deus são sempre os melhores, e que, quando se tem o coração puro, é fácil conceber sua explicação.

Com efeito, pensai bem que o Espírito, das crianças que nascem entre vós, pode vir de um mundo onde tomou hábitos muito diferentes; como quereríeis que fosse ao vosso meio, esse novo ser, que vem com paixões diferentes daquelas que possuis, com inclinações, gostos inteiramente opostos aos vossos; como quereríeis que se incorporasse em vossas fileiras de outro modo do que Deus quis, quer dizer, pela peneira da infância?

Ali se confundem todos os pensamentos, todos os caracteres, todas as variedades de seres engendrados por essa multidão de mundos nos quais crescem as cri aturas. Vós mesmos, em morrendo, vos encontrareis em uma espécie de infância, no meio de novos irmãos; e na vossa nova existência não terrestre, ignorais os hábitos, os costumes, as relações desse mundo, novo para vós; manejareis com dificuldade uma língua que não estais habituado a falar, língua mais viva do que não é hoje vosso pensamento.

A infância tem, ainda, uma outra utilidade; os Espíritos não entram na vida corpórea senão para se aperfeiçoarem, se melhorarem; a fraqueza da juventude toma-os flexíveis, acessíveis aos conselhos da experiência, e daqueles que devem fazê-los progredir; é, então, que se pode reformar seu caráter e reprimir seus maus pendores; tal é o dever que Deus confiou aos seus pais, missão sagrada pela qual terão que responder.

É assim que a infância é, não somente útil, necessária, indispensável, mas, ainda, a conseqüência natural das leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo.

Nota. Chamamos a atenção dos nossos leitores sobre essa notável dissertação, cuja alta importância filosófica será facilmente compreendida. Que de mais belo, de mais grandioso, que essa solidariedade que existe entre todos os mundos! Que de mais próprio para nos dar uma idéia da bondade e da majestade de Deus! A Humanidade cresce com tais pensamentos, ao passo que nós a explicamos reduzindo-a às mesquinhas proporções de nossa vida efêmera e de nosso mundo, imperceptível entre os mundos.

 

infancia espiritual

Os Espíritos barulhentos – Meios para se livrar deles

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Escrevem-nos de Gramat (Lot):

“Em uma casa do lugarejo de Coujet, comuna de Bastat (Lot), ruídos extraordinários se fazem ouvir desde uns dois meses. Eram primeiro golpes secos, e muito semelhantes ao choque de uma clava sobre as tábuas, que se ouviam de todos os lados: sob os pés, sobre a cabeça, nas portas, através dos móveis; depois logo os passos de um homem que caminhava de pés nus, o tamborilar de dedos sobre as vidraças. Os habitantes da casa se amedrontaram e mandaram dizer missas; a população inquieta dirigiu-se para o lugarejo e ouviu; a polícia interveio, fez várias investigações, e o ruído aumentou. Logo, foram portas abertas, objetos transtornados, cadeiras projetadas pela escada, móveis transportados do térreo para o sótão. Tudo o que vos conto, atestado por um grande número de pessoas, passa-se em pleno dia. A casa não é um antigo casebre sombrio e negro, do qual só o aspecto faz cogitar fantasmas; é uma casa recentemente construída, que é agradável; os proprietários são pessoas boas, incapazes de quererem enganar alguém, e doentes de medo. Entretanto, muitas pessoas não pensam que nada há de sobrenatural, e tratam de explicar, seja pela física, seja por más intenções que emprestam aos habitantes da casa, tudo que ali se passa de extraordinário. Por mim, que vi e creio, resolvi dirigir-me a vós para saber quais são os Espíritos que fazem esse barulho, e conhecer o meio, se houver um, de fazê-los calarem-se. É um serviço que prestais a essas boas pessoas, etc….” Os fatos dessa natureza não são raros; eles se assemelham quase todos e não diferem, em geral, senão pela sua intensidade e sua maior ou menor tenacidade. Pouco se inquieta com eles quando se limitam a alguns ruídos sem conseqüência, mas se tomam uma verdadeira calamidade quando adquirem certas proporções. Nosso honorável correspondente nos pergunta quais são os Espíritos que fazem esse barulho. A resposta não é incerta: sabe-se que Espíritos de uma ordem muito inferior são os únicos deles capazes.

Os Espíritos superiores, tanto quanto entre os homens graves e sérios, não se divertem fazendo algazarra. Freqüentemente, os chamamos para perguntarmos o motivo que os levam a perturbarem assim o repouso. A maioria não tem outro objetivo senão o de se divertir; esses são Espíritos antes levianos que maus, que se riem do pavor que ocasionam, e das buscas inúteis que se fazem para descobrir a causa do tumulto.

Freqüentemente, se aferram junto a um indivíduo, que se alegram em vexar, e que perseguem de morada em morada; outras vezes se ligam a um local sem outro motivo que seu capricho. Algumas vezes, é uma vingança que exercem, como teremos ocasião de ver. Em certos casos, sua intenção é mais louvável; querem chamar a atenção e se porem em comunicação, seja para darem uma advertência útil à pessoa à qual se dirigem, seja para pedirem alguma coisa para eles mesmos. Vimo-los, freqüentemente, pedirem preces, outras vezes solicitarem o cumprimento, em seu nome, de um voto que não puderam cumprir, outras vezes, enfim, querer, no interesse de seu próprio repouso, repararem uma ação má cometida por eles quando viviam. Em geral, comete-se o erro de com eles se amedrontar; sua presença pode ser importuna, mas não perigosa. Concebe-se, de resto, o desejo que se tem de livrar-se deles e se faz, geralmente, para isso, tudo ao contrário do que seria preciso. Se são Espíritos que se divertem, quanto mais se toma a coisa a sério, mais persistem, como crianças traquinas que aborrecem mais aqueles que vêem se impacientarem, e que metem medo aos covardes. Se se tomasse o sábio partido de rir por si mesmo, de seus maus rodeios, acabariam por se cansarem e por ficarem tranqüilos. Conhecemos alguém que, longe de se irritar, os excitava, desafiava-os para fazerem tal ou tal coisa, tão bem que, ao cabo de alguns dias, não retomavam mais. Mas, como dissemos, existem alguns cujo motivo é o mais frívolo. Por isso, é sempre útil saber o que querem. Se pedem alguma coisa, pode-se estar certo que cessarão suas visitas, desde que seu desejo seja satisfeito. O melhor meio de estar informado a esse respeito é o de evocar o Espírito, por intermédio de um bom médium escrevente; pelas suas respostas, ver-se-á o que disputam, e se agirá em conseqüência; se for um Espírito infeliz, a caridade manda tratá-lo com as considerações que merece. Se for um mau brincalhão, pode-se agir para com ele sem cerimônia; se for malevolente, é preciso pedir a Deus para torná-lo melhor. Em todo estado de defesa, a prece não pode sempre ter senão um bom resultado. Mas a gravidade das fórmulas de exorcismo fá-los rirem e não as têm em nenhuma conta Podendo-se entrar em comunicação com eles, é preciso desconfiar das qualificações burlescas ou apavorantes que se dão, algumas vezes, para se divertirem com a credulidade.

A dificuldade, em muitos casos, é ter um médium à disposição. É preciso, então, procurar tornar-se a si mesmo, ou interrogar diretamente o Espírito, conformando-se com os preceitos que demos, a esse respeito, em nossa Instrução prática sobre as manifestações.
Esses fenômenos, embora executados por Espíritos inferiores, freqüentemente, são provocados por Espíritos de uma ordem mais elevada, com a finalidade de convencer quanto à existência de seres incorpóreos e de um poder superior ao homem. A ressonância que deles resulta, o medo mesmo que eles causam, chamam a atenção, e acabarão por abrir os olhos dos mais incrédulos. Estes acham mais simples colocar esses fenômenos à conta da imaginação, explicação muito cômoda e que dispensa dar-lhes outras; todavia, quando objetos são postos em desordem ou vos são lançados à cabeça, seria preciso uma imaginação bem complacente para se figurar que semelhantes coisas são quando não o são. Nota-se um efeito qualquer, esse efeito tem necessariamente uma causa; se uma fria e calma observação nos demonstra que esse efeito é independente de toda vontade humana e de toda causa material, se, além disso, nos dá sinais evidentes de inteligência e de livre vontade, o que é o sinal mais característico, somos forçados a atribuí-lo a uma inteligência oculta. Quais são esses seres misteriosos? É o que os estudos espíritas nos ensinam, do modo o menos contestável, pelos meios que nos dá para se comunicar com eles. Esses fenômenos nos ensinam, além do mais, a separar o que há de real, de falso ou exagerado nos fenômenos dos quais não nos damos conta. Se um efeito insólito se produziu: ruído, movimento, mesmo aparição, o primeiro pensamento que se deve ter é que foi devido a uma causa toda natural, porque é a mais provável; é preciso, então, procurar essa causa com o maior cuidado, e não admitir a intervenção dos Espíritos senão conscientemente; é o meio de não se iludir.

Espíritos barulhentos