Escolhos dos médiuns

Revista Espírita, fevereiro de 1859

A mediunidade é uma faculdade multíplice, e que apresenta uma variedade infinita de nuanças em seus meios e em seus efeitos. Quem está apto para receber ou transmitir as comunicações dos Espíritos é, por isso mesmo, médium, qualquer que seja o modo empregado ou o grau de desenvolvimento da faculdade, desde a simples influência oculta até a produção dos mais insólitos fenômenos. Todavia, em seu uso ordinário, essa palavra tem uma acepção mais restrita, e se diz, geralmente, de pessoas dotadas de um poder mediúnico muito grande, seja para produzir efeitos físicos, seja para transmitir o pensamento dos Espíritos pela escrita ou pela palavra.

Embora essa faculdade não seja um privilégio exclusivo, é certo que encontra refratários, pelo menos no sentido que a isso se dá; é certo também que não é sem escolhos para aqueles que a possuem; e ela pode se alterar, mesmo perder-se, e, freqüentemente, ser uma fonte de graves decepções. Sobre esse ponto é que cremos ser útil chamar a atenção de todos aqueles que se ocupam com comunicações espíritas, seja diretamente, seja por intermediário. Dizemos por intermediário, porque incumbe também àqueles que se servem de médiuns poder apreciarem seu valor e a confiança que merecem suas comunicações.

O dom da mediunidade prende-se a causas que não são ainda perfeitamente conhecidas, e nas quais o físico parece ter uma grande parte. À primeira vista, pareceu que um dom tão precioso não teve ser o quinhão senão de almas de elite; ora, a experiência prova o contrário, porque se encontram poderosos médiuns entre as pessoas cuja moral deixa muito a desejar, ao passo que outras, estimáveis sob todos os aspectos, não a possuem.

Aquele que fracassa, apesar de seu desejo, seus esforços e sua perseverança, disso não deve concluir desfavoravelmente para si, e não se crer indigno da benevolência dos bons Espíritos; se esse favor não lhe foi concedido, sem dúvida, há outros que podem lhe oferecer uma ampla compensação. Pela mesma razão, aquele que a desfruta, dela não poderá se prevalecer, porque não é nele o sinal de nenhum mérito pessoal. O mérito não está, pois, na posse da faculdade medianímica, que pode ser dada a todo o mundo, mas no uso que dela se pode fazer; aí está uma distinção capital que é preciso jamais perder de vista: a bondade do médium não está na facilidade das comunicações, mas unicamente em sua aptidão em não recebê-las senão as boas; ora, é aí que as condições morais, nas quais se encontra, são onipotentes; também aí se encontram, para ele, os maiores escolhos.

Para se dar conta desse estado de coisas e compreender o que iremos dizer, é preciso se reportar a esse princípio fundamental, que entre os Espíritos os há de todos os graus em bem e em mal, em ciência e em ignorância; que os Espíritos pululam ao nosso redor, e quando cremos estar sós, estamos sem cessar cercados de seres que nos acotovelam, uns com indiferença como estranhos, os outros que nos observam com intenções mais ou menos benevolentes, segundo sua natureza.

O provérbio: Quem se parece se reúne, tem sua aplicação entre os Espíritos como entre nós, e mais ainda entre eles, se isso é possível, porque não estão, como nós, sob a influência de considerações sociais. Todavia, se, entre nós, essas considerações confundem, algumas vezes, os homens de costumes e de gostos muito diferentes, essa confusão não é, de alguma sorte, senão material e transitória; a semelhança ou a divergência de pensamentos será sempre a causa das atrações ou das repulsões.

Nossa alma que não é, em definitivo, senão um Espírito encarnado, não é menos Espírito; se está momentaneamente revestida de um envoltório material, suas relações com o mundo incorpóreo, embora menos fáceis que no estado de liberdade, não são interrompidas por isso de maneira absoluta; o pensamento é laço que nos une ao Espírito, e por esse pensamento atraímos aqueles que simpatizam com as nossas idéias e nossas tendências. Representemonos, pois, a massa dos Espíritos que nos cercam como a multidão que encontramos no mundo; por toda parte onde vamos de preferência, encontramos homens atraídos pelos mesmos gostos e os mesmos desejos; nas reuniões que têm um fim sério, vão os homens sérios; naquelas que têm um objetivo frívolo, vão os homens frívolos; por toda parte também se encontram Espíritos atraídos pelo pensamento dominante. Se lançarmos um golpe de vista sobre o estado moral da Humanidade em geral, conceberemos sem dificuldade que, nessa multidão oculta, os Espíritos elevados não devem estar em maioria; é uma das conseqüências do estado de inferioridade de nosso globo.

Os Espíritos que nos cercam não são passivos; é um povo essencialmente movimentado, que pensa e age sem cessar, que nos influencia com o nosso desconhecimento, que nos excita ou nos dissuade, que nos impele ao bem ou ao mal, o que não nos tira mais nosso livre arbítrio senão os conselhos bons ou maus que recebemos de nossos semelhantes. Mas quando os Espíritos imperfeitos solicitam alguém a fazer uma coisa má, sabem muito bem a quem se dirigem e não vão perder seu tempo onde vêem que serão mal recebidos; eles nos excitam segundo nossas tendência ou segundo os germes que vêem em nós e nossas disposições em escutá-los: eis porque o homem firme nos princípios do bem não lhes dá oportunidade.

Estas considerações nos conduzem naturalmente à questão dos médiuns. Estes últimos estão, como todo o mundo, submetidos à influência oculta de Espíritos bons ou maus; eles os atraem ou os repelem segundo as simpatias de seu espírito pessoal, e os Espíritos maus se aproveitam de todo defeito, como de uma falta de couraça para se introduzirem junto deles e se imiscuírem, com seu desconhecimento, em todos os atos de sua vida particular. Esses Espíritos encontrando, por outro lado, no médium um meio de exprimirem seu pensamento de maneira inteligível e de atestarem sua presença, se misturam às comunicações, provocamnas porque esperam ter maior influência por esse meio, e acabam por dominá-las. Se consideram como em sua casa, afastando os Espíritos que poderiam se lhes contrapor, e, se for preciso, tomam seus nomes e mesmo sua linguagem para enganarem; mas não podem sustentar por muito tempo, seu papel, e por poucas relações que tenham com um observador experimentado, e não prevenido, são bem depressa desmascarados. Se o médium se deixa levar por essa influência, os bons Espíritos dele se afastam, ou não vêm senão quando são chamados, ou não vêm senão com repugnância, porque vêem que o Espírito que está identificado com o médium, que de alguma sorte elegeu domicílio nele, pode alterar suas instruções. Se vamos escolher um intérprete, um secretário, um mandatário qualquer, é evidente que escolheremos não só um homem capaz, mas além disso digno de nossa estima, e que não confiaremos uma missão delicada e nossos interesses a um homem corrompido ou freqüentando uma sociedade suspeita. Ocorre o mesmo com os Espíritos; os Espíritos superiores não escolheriam, para transmitirem instruções sérias, um médium que tem freqüência com os Espíritos levianos, A MENOS QUE NÃO TENHAM NECESSIDADE E QUE NÃO TENHAM OUTROS, A SUA DISPOSIÇÃO PARA O MOMENTO, a menos ainda que queiram dar uma lição ao próprio médium, o que ocorre algumas vezes mas, então, não se servem dele senão acidentalmente, e o deixam desde que o encontrem melhor, deixando-o às suas simpatias se a elas se prendem. O médium perfeito seria, pois, aquele que não desse nenhum acesso aos maus Espíritos por um defeito qualquer. Essa condição é bem difícil de preencher; mas se a perfeição absoluta não é dada ao homem, lhe é sempre dado aproximarse dela pelos seus esforços, e os Espíritos levam em conta, sobretudo os esforços, a vontade e a perseverança.

O médium perfeito não teria, assim, senão comunicações perfeitas de verdade e de moralidade; não sendo possível a perfeição, o melhor será aquele que tiver as melhores comunicações: é pela obra que se pode julgá-los. Comunicações constantemente boas e elevadas, onde não se percebesse nenhum indício de inferioridade, seriam, incontestavelmente, uma prova da superioridade moral do médium, porque atestariam felizes simpatias. Por isso mesmo, porque o médium não poderia ser perfeito, os Espíritos levianos, trapaceiros e mentirosos, podem se misturar às suas comunicações, alterar-lhe a pureza e induzir em erro, ele e àqueles que se lhes dirigem. Aí está o maior escolho do Espiritismo, e não lhe dissimulamos a gravidade. Pode-se evitá-lo? Dizemos alto e bom som: sim, é possível; o meio não é difícil e não pede senão o julgamento.

As boas intenções, a moralidade mesma do médium, não bastam sempre para preservá-lo da intromissão de Espíritos levianos, mentirosos ou pseudo-sábios em suas comunicações; além dos defeitos de seu próprio Espírito, pode se expor a eles por outras causas, cuja principal é a fraqueza de seu caráter e uma excessiva confiança na invariável superioridade dos Espíritos que se comunicam por ele; essa confiança cega prende-se a uma causa que explicaremos dentro em pouco. Se não se quer ser vítimas desses Espíritos levianos, é preciso julgá-los, e para isso temos um critério infalível: o bom senso e a razão. Sabemos as qualidades da linguagem que caracterizam, entre nós, os homens verdadeiramente bons e superiores, essas qualidades são as mesmas para os Espíritos; devemos julgá-los por sua linguagem. Não poderíamos muito repetir o que caracteriza a dos Espíritos elevados: ela é constantemente digna, nobre, sem fanfarrice e contradição, pura de toda trivialidade, marcada por uma inalterável benevolência. Os bons Espíritos aconselham; eles não mandam; eles não se impõem; sobre o que ignoram, se calam. Os Espíritos levianos falam com a mesma segurança daquilo que sabem e daquilo que não sabem, respondem a tudo sem se importarem com a verdade. Nós os vimos, em um ditado supostamente sério, colocar, com uma imperturbável firmeza, César no tempo de Alexandre; outros afirmarem que não é a Terra que gira ao redor do Sol. Em resumo, toda expressão grosseira ou simplesmente inconveniente, toda marca de orgulho e de presunção, toda máxima contrária à sã moral, toda heresia científica notória, é, entre os Espíritos, como entre os homens, um sinal incontestável de má natureza, de ignorância ou pelo menos de leviandade. De onde se segue que é preciso pesar tudo o que dizem e fazê-los passar pelo crisol da lógica e do bom senso; é uma recomendação que nos fazem, sem cessar, os bons Espíritos. “Deus, nos dizem, não vos deu o julgamento para nada; servi-vos dele, pois, para saber com quem tendes relação.”

Os maus Espíritos temem o exame; eles dizem: “Aceitai nossas palavras e não as julgueis.” Se tivessem a consciência de estar com a verdade, não temeriam a luz.

O hábito de escrutar as menores palavras dos Espíritos, de pesar-lhes o valor, (do ponto de vista do pensamento, e não da forma gramatical, com a qual têm pouco cuidado,) distancia forçosamente os Espíritos mal intencionados, que não vêm, então, perder inutilmente seu tempo, uma vez que se rejeite tudo o que é mau ou de origem suspeita.

Mas quando se aceita cegamente tudo o que dizem, que se coloca, por assim dizer, de joelhos diante de sua pretensa sabedoria, fazem o que fariam os homens – disso abusam.
Se o médium é senhor de si, se não se deixa dominar por um entusiasmo irrefletido, pode fazer o que aconselhamos; mas, freqüentemente, ocorre que o Espírito o subjuga a ponto de fasciná-lo e fazê-lo achar admiráveis as coisas mais ridículas, e se abandona tanto mais a essa perniciosa confiança que, fortificado em suas boas intenções e seus bons sentimentos, crê que isso basta para afastar os maus Espíritos; não, isso não basta, porque esses Espíritos ficam encantados em fazê-lo cair na armadilha, aproveitando-se de sua fraqueza e de sua credulidade. Que fazer então? Atribuir a um terceiro desinteressado que, julgando com sangue frio e sem prevenção, poderá ver uma palha aí onde ele não via uma trave.

A ciência espírita exige uma grande experiência que não se adquire, como em todas as ciências filosóficas e outras, senão por um estudo longo, assíduo e perseverante, e por numerosas observações. Ela não compreende somente o estudo dos fenômenos propriamente ditos, mas também, e sobretudo, o dos costumes, se podemos nos exprimir assim, do mundo oculto, desde o mais baixo até o mais alto degrau da escala. Seria muita presunção crer-se suficientemente esclarecido e passar a senhor depois de algumas experiências. Uma tal pretensão não seria de um homem sério; porque quem lança um olhar escrutador sobre esses mistérios estranhos, vê desdobrar-se diante de si um horizonte tão vasto que anos são suficientes apenas para alcançá-lo; há os que pretendem fazê-lo em alguns dias!

De todas as disposições morais, a que dá mais presa aos Espíritos imperfeitos, é o orgulho. O orgulho é para os médiuns um escolho tanto mais perigoso quando não o reconhecem. É o orgulho que lhes dá essa crença cega na superioridade dos Espíritos que se ligam a ele, porque se lisonjeiam com certos nomes que lhes impõem; desde que um Espírito lhes disse: Eu sou um tal, eles se inclinam e tratam de não duvidarem disso, porque seu amor próprio sofreria por encontrar sob essa máscara um Espírito de baixo estágio ou de má qualidade. O Espírito, que vê o lado fraco, dele se aproveita; gaba seu pretenso protegido, fala-lhe de origens ilustres que o incham mais, prometem-lhe um futuro brilhante, as honras, a fortuna, das quais ele parece ser o dispensador; se necessário afeta com ele uma ternura hipócrita; como resistir a tanta generosidade? Em uma palavra, engana-o e o conduz, como se diz vulgarmente, pela ponta do nariz; sua felicidade é ter um ser sob sua dependência. Interrogamos mais de um deles, sobre os motivos de sua obsessão; um deles nos respondeu isto: Eu quero ter um homem que faça a minha vontade; é o meu prazer. Quando lhes dissemos que íamos trabalhar para frustrar seus artifícios e abrir os olhos de seu oprimido, ele disse: Lutarei contra vós, e não vencereis, porque farei tanto quanto não credes. Com efeito, é uma tática desses Espíritos malfazejos; eles inspiram a desconfiança e o afastamento para as pessoas que possam desmascará-los e dar bons conselhos. Jamais semelhante coisa chega da parte dos bons Espíritos. Todo Espírito que sopra a discórdia, que excita a animosidade, entretém as dissidências, com isso revela sua natureza má; é preciso ser cego para não compreendê-lo e para crer que um bom Espírito possa compelir à desinteligência.

O orgulho, freqüentemente, se desenvolve no médium à medida que aumenta a sua faculdade; dá-lhe importância; é procurado, e acaba por se crer indispensável; daí, algumas vezes, nele, um tom de presunção e de pretensão, ou ares de suficiência e de desdém, incompatíveis com a influência de um bom Espírito. Aquele que cai nessa má direção está perdido, porque Deus lhe deu a faculdade para o bem, e não para satisfazer a sua vaidade ou dela fazer um degrau de sua ambição. Esquece que esse poder, no qual confia, pode lhe ser retirado e que, freqüentemente, não lhe foi dado senão como prova, do mesmo modo que a fortuna para certas pessoas. Se dela abusa, os bons Espíritos o abandonam pouco a pouco, e ele se torna o joguete dos Espíritos levianos que embalam suas ilusões, satisfeitos por terem vencido aquele que se acreditava forte. Foi assim que vimos se aniquilarem e se perderem as faculdades mais preciosas que, sem isso, poderiam tornar-se os mais poderosos e os mais úteis auxiliares. Isto se aplica a todo o gênero de médiuns, sejam para as comunicações físicas ou para as comunicações inteligentes. Infelizmente, o orgulho é um dos defeitos que a pessoa está menos disposta a confessar para si mesma e que menos se pode confessar aos outros, porque não o crêem. Ide, pois, dizer a um desses médiuns que ele se deixa levar como uma criança, e vos dará as costas dizendo que sabe se conduzir e que não vedes claro. Podeis dizer a um homem que ele é beberrão, debochado, preguiçoso, inábil, imbecil, e disso rirá ou consentirá; dizei-lhe que é orgulhoso, e se zangará: prova evidente de que dissestes a verdade. Os conselhos, nesse caso, são tanto mais difíceis quanto o médium evite as pessoas que poderiam dar-lhos, foge de uma intimidade que teme. Os Espíritos, que sentem que os conselhos são golpes dados em seu poder, ao contrário, compelem-no para aquelas que o entretém em suas ilusões. Preparam-se muitas decepções, nas quais seu amor próprio, mais uma vez, terá que sofrer; feliz, ainda, se disso não resultar nada de mais grave para ele.

Se insistimos longamente sobre esse ponto, foi porque a experiência nos demonstrou, em muitas ocasiões, que aí está uma das grandes dificuldades para a pureza e a sinceridade das comunicações dos médiuns. É quase inútil, depois disso, falar de outras imperfeições morais, tais como o egoísmo, a inveja, o ciúme, a ambição, a cupidez, a dureza de coração, a ingratidão, a sensualidade, etc. Cada um compreende que elas são tantas portas abertas aos Espíritos imperfeitos, ou pelo menos causas de fraqueza. Para afastar estes últimos, não basta dizer-lhes que se vão; não basta mesmo o querer e ainda menos conjurá-los: é preciso lhes fechar a sua porta e os ouvidos, provar-lhes que se é mais forte do que eles, e, incontestável mente, pelo amor ao bem, a caridade, a doçura, a simplicidade, a modéstia e o desinteresse, qualidades que nos conciliam com a benevolência dos bons Espíritos; é seu apoio que faz a nossa força, e se eles nos deixam, algumas vezes, presa dos maus, é uma prova para a nossa fé e o nosso caráter.

Que os médiuns não se assustem muito, entretanto, com a severidade das condições que acabamos de falar; elas são lógicas, convir-se-á, mas se erraria rejeitando-as. As comunicações más que se podem ter, em verdade, são bem o índice de alguma fraqueza, mas nem sempre um sinal de indignidade; pode-se ser fraco e bom. Em todos os casos, é um meio de reconhecer suas próprias imperfeições. Nós o dissemos, em um outro artigo, que não há necessidade de ser médium para estar sob a influência de maus Espíritos, que agem nas sombras; com a faculdade mediúnica, o inimigo se mostra e se trai; sabe-se com quem se relaciona e pode-se combatê-lo; assim é que uma má comunicação pode tornar-se útil lição, sabendo-se aproveitá-la.

De resto, seria injusto colocar todas as más comunicações à conta do médium; falamos daquelas que obtêm por si mesmos, fora de toda outra influência, e não daquelas que se produzem em um meio qualquer, ora, todo o mundo sabe que os Espíritos, atraídos por esse meio, podem prejudicar as manifestações, seja pela diversidade de caracteres, seja pela falta de recolhimento. E uma regra geral que as melhores comunicações ocorrem na intimidade, e em um círculo reduzido e homogêneo. Em toda comunicação, várias influências estão em jogo; a do médium, a do meio, e a da pessoa que interroga. Essas influências podem reagir umas sobre as outras, se neutralizarem ou se corroborarem: isso depende do objetivo que se propõe, e do pensamento dominante. Vimos excelentes comunicações obtidas em círculos, e com médiuns que não reuniam todas as condições desejáveis; nesse caso, os bons Espíritos vieram por uma pessoa em particular, porque isso era útil; vimos comunicações más obtidas por bons médiuns, unicamente porque o interrogador não tinha intenções sérias e atraía os Espíritos levianos que zombavam dele. Tudo isso pede tato e observação, e concebe-se, facilmente, a preponderância que devem ter todas as condições reunidas.

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Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Revista Espírita, janeiro de 1859

Aviso. As sessões que ocorriam às terças-feiras, ocorrem agora nas sextas-feiras, no novo local da Sociedade, rua Montpensier, 12, no Palais-Royal, às 8 horas da noite. Os estranhos nelas não são admitidos senão na segunda e na quarta sextas-feiras, a menos com cartas pessoais de entrada. – Dirigir-se, para tudo o que concerne à Sociedade, ao senhor Allan Kardec, rua dos Martyrs, 8, ou ao senhor Lê Doyen, livreiro, galeria de Orléans, 31, no PalaisRoyal.

ALLAN KARDEC.

 

sociedade espirita parisiense

Aforismos Espíritas

Revista Espírita, janeiro de 1859

Sob esse título, daremos, de tempos em tempos, pensamentos destacados que resumirão, em poucas palavras, certos princípios essenciais do Espiritismo.

I. Aqueles que crêem se preservar da ação dos maus Espíritos abstendo-se de comunicações espíritas, são como essas crianças que crêem evitar um perigo vendando os olhos. Igualmente valeria dizer que é preferível não saber ler nem escrever, porque não se estaria exposto a ler maus livros ou escrever tolices.

II. Quem tem más comunicações espíritas, verbais ou por escritas, está sob má influência; essa influência se exerce sobre ele, que escreva ou que não escreva. A escrita lhe dá um meio de se assegurar da natureza dos Espíritos que atuam sobre ele. Se está bastante fascinado para não compreendê-los, outros podem lhe abrir os olhos.

III. Há necessidade de ser médium para escrever absurdos? Quem diz que, entre todas as coisas ridículas ou más que se imprimem, não ocorre que o escrevente, levado por algum Espírito zombeteiro ou malevolente desempenhe o papel de médium obsidiado sem sabê-lo?

IV. Os Espíritos bons, mas ignorantes, confessam sua insuficiência sobre as coisas que não sabem; os maus dizem tudo saber.

V. Os Espíritos elevados provam sua superioridade por suas palavras e a constante sublimidade de seus pensamentos, mas deles não se gabam. Desconfiai daqueles que dizem, com ênfase, estarem no mais alto degrau de perfeição, e entre os eleitos; a fanfarrice, entre os Espíritos, como entre os homens, é sempre um sinal de mediocridade.

aforismo espírita

Uma noite esquecida ou a feiticeira Manouza

Revista Espírita, janeiro de 1859

Milésima segunda noite de contos árabes,

Ditada pelo Espírito de Frédéric Soulié.

(SEGUNDO ARTIGO.)

Primeiro artigo

Nota. – Os algarismos romanos indicam as suspensões que ocorreram no ditado. Freqüentemente, não era retomada senão depois de uma interrupção de duas ou três semanas, e, apesar disso, assim como o observamos, o relato se seguiu como se fora escrito de um só jato; e esse não é um dos caracteres os menos curiosos dessa produção de alémtúmulo. O estilo nela é correto e perfeitamente apropriado ao assunto. Nós o repetimos, para aqueles que não veriam ali senão uma coisa fútil, não a damos como uma obra filosófica, mas como um estudo. Para o observador, nada é inútil: ele sabe aproveitar de tudo para aprofundar a ciência que estuda.

III

Nada, entretanto, parecia dever perturbar nossa felicidade; tudo era calma ao nosso redor: vivíamos em uma perfeita segurança, quando uma tarde, no momento em que nos críamos na maior segurança, de repente, apareceu ao nosso lado (posso dizer assim, porque estávamos numa praça circular onde chegavam várias alamedas), de repente, pois, e ao nosso lado, apareceu o sultão acompanhado de seu grão-vizir. Todos os dois tinham um semblante assustador a cólera havia transtornado seus traços; estavam, o sultão sobretudo, em uma exasperação fácil de compreender. O primeiro pensamento do sultão foi de me fazer perecer, mas sabendo a qual família eu pertencia, e a sorte que o esperaria se ousasse tirar um só cabelo de minha cabeça, ele disfarçou (como em sua chegada eu me coloquei à parte), ele disfarçou não me perceber, e se precipitou como um furioso sobre Nazara, a quem prometeu não fazer esperar o castigo que ela merecia. Ele a carregou consigo, sempre acompanhado do vizir. Para mim, o primeiro momento de temor passou e me apressei em retornar para o meu palácio, para procurar um meio de subtrair o astro de minha vida das mão desse bárbaro, que provavelmente iria cortar essa querida existência.

– E depois, que fizeste? perguntou Manouza; porque enfim, em tudo isso não vejo em que estás tanto atormentado para tirar tua amante do mau onde a colocaste por tua falta. Tu me dás o efeito de um pobre homem que não tem nem coragem, nem vontade, quando se trata de coisas difíceis.

– Manouza, antes de condenar, é preciso escutar. Não vim atrás de ti sem antes experimentar de todos os meios em meu poder. Fiz ofertas ao sultão; prometi-lhe ouro, jóias, camelos, palácios mesmo, se me entregasse minha doce gazela; a tudo desdenhou.

Vendo meus sacrifícios repelidos, fiz ameaças; as ameaças foram desprezadas como o resto: a tudo ele riu e zombou de mim. Também experimentei introduzir-me no palácio; corrompi escravos, cheguei ao interior dos apartamentos; apesar de todos os meus esforços, não consegui chegar até a minha bem-amada.

– Tu és franco, Noureddin; tua sinceridade merece uma recompensa, e terás o que vieste procurar. Vou te fazer ver uma coisa terrível: se tendes a força de suportar a prova pela qual te farei passar, podes estar seguro que reencontrarás a tua felicidade de outro-ra.

Dou-te cinco minutos para te decidir.

Decorrido esse tempo, Noureddin disse à Manouza que ele estava pronto para fazer tudo aquilo que ela quisesse para salvar Nazara. Então, a feiticeira se levantando, disse-lhe: Pois bem! Caminhe. Depois, abrindo uma porta colocada no fundo do apartamento, fê-lo passar diante dela. Eles atravessaram um pátio sombrio, repleto de objetos horrendos: serpentes, sapos que passeavam gravemente em companhia de gatos pretos, com o ar de pavonear entre esses animais imundos.

IV

Na extremidade desse pátio, encontrava-se outra porta que Manouza igualmente abriu; e, tendo feito passar Noureddin, entraram em uma sala baixa, clareada somente pelo alto: a luz vinha de uma cúpula muito alta guarnecida de vidros coloridos, que formavam toda espécie de arabescos. No meio dessa sala se encontrava um fogareiro aceso, e sobre um tripé colocado sobre esse fogareiro, um grande vaso de bronze no qual ferviam todas espécies de ervas aromáticas, cujo odor era tão forte que se podia com dificuldade suportar. Ao lado desse vaso se encontrava uma espécie de poltrona em veludo negro, de uma forma extraordinária. Quando se sentou em cima, no instante, desapareceu inteiramente; porque Manouza não estava nela colocada, Noureddin a procurou alguns instantes sem poder percebê-la. De repente, ela reapareceu e lhe disse: estás sempre disposto? “- Sim, repetiu Noureddin. – Pois bem! Vai sentar-te nessa poltrona e espera.” Antes que Noureddin fosse para a poltrona, tudo mudou de aspecto, e a sala se povoou de uma grande multidão de figuras brancas que primeiro apenas visíveis, pareceram em seguida de um vermelho de sangue, dir-se-ia-se de homens cobertos de chagas sangrentas, dançando rondas infernais, e no meio delas Manouza, cabelos esparsos, olhos chamejantes, as roupas em farrapos, e sobre a cabeça uma coroa de serpentes. Na mão, à guisa de cetro, ela brandia uma tocha acesa, lançando chamas cujo odor atacava a garganta. Depois de terem dançado um quarto de hora, detiveram-se, de repente, sob um sinal de sua rainha que, para esse efeito, havia lançado sua tocha na caldeira em ebulição. Quando todas essas figuras foram se alinhando ao redor da caldeira, Manouza fez se aproximarem os mais velhos, que se reconhecia pela sua longa barba branca, e lhes disse: “vem aqui, tu o segundo do diabo; vou te encarregar de uma missão muito delicada. Noureddin quer Nazara, eu prometi entregar-lha; é coisa difícil; eu conto, Tanaple, com teu concurso em tudo. Noureddin suportará todas as provas necessárias; agi em conseqüência. Sabes o que quero, faze o que quiseres, mas alcance; trema se fracassares. Recompenso quem me obedece, mas infeliz daquele que não faz a minha vontade. – Tu serás satisfeita, disse Tanaple, e tu podes contar comigo. – Pois bem, vai e age.”

V

Apenas terminara essas palavras e tudo mudou aos olhos de Noureddin; os objetos tornaramse o que eram antes, e Manouza se encontrou sozinha com ele. “Agora, disse ela, retoma à tua casa e espera; enviar-te-ei um dos meus gnomos, e te dirá o que tem a fazer, obedece e tudo irá bem.”

Noureddin ficou muito feliz com essas palavras, e mais feliz ainda por deixar o antro da feiticeira. Atravessou de novo o pátio e o quarto por onde entrara, depois ela o reconduziu até à porta exterior. Ali, Noureddin tendo-lhe perguntado se deveria retornar, ela respondeu: “Não; para o momento, é inútil; se isso se tornar necessário, far-te-ei saber.”

Noureddin se apressou em retornar ao seu palácio; estava impaciente por saber se se passara alguma coisa nova desde a sua saída. Encontrou tudo no mesmo estado; somente, na sala de mármore, sala de repouso no verão entre os habitantes de Bagdá, ele viu perto da bacia colocada no meio dessa sala, uma espécie de anão de uma fealdade repelente. Seu vestuário era de cor amarela, bordado de vermelho e azul; tinha uma bossa monstruosa, pernas pequenas, o rosto gordo, com olhos verdes e vesgos, uma boca fendida até as orelhas, e os cabelos de um ruivo podendo rivalizar com o sol.

Noureddin lhe perguntou como se encontrava ali, e o que viera fazer. “Eu sou enviado de Manouza, disse, para te entregar a tua amante; eu me chamo Tanaple. – Se tu és, realmente, o enviado de Manouza, estou pronto para obedecer suas ordens, mas despacha-te, aquela que amo está a ferros e tenho pressa dela dali sair. – Se estás pronto, conduze-me em seguida para o teu apartamento, e dir-te-ei o que é preciso fazer. – Segue-me, pois, disse Noureddin.”

VI

Depois de atravessar vários pátios e jardins, Tanaple se encontrou no apartamento do jovem; fechou-lhe todas as portas, e disse: “Tu sabes que deves fazer tudo o que eu te disser, sem objeção. Vais vestir essas roupas de negociante. Levarás sobre teu dorso esse pacote que encerra os objetos que nos são necessários; eu, vou me vestir de escravo e levarei um outro pacote.”

Para sua grande estupefação, Noureddin viu dois enormes pacotes ao lado do anão, e todavia não vira e nem ouvira ninguém traze-los. “Em seguida, continuou Tanaple, iremos à casa do sultão. Dir-lhe-ás que tens objetos raros e curiosos; e que se quiser oferecê-los à sultana favorita, nenhuma huri terá semelhantes. Tu conheces sua curiosidade; terá o desejo de nos ver. Uma vez admitidos à sua presença, não terás dificuldade em desdobrar tua mercadoria e lhe venderás tudo o que levamos: são roupas maravilhosas que mudam as pessoas que as colocam. Logo que o sultão e a sultana deles se revestirem, todo o palácio os tomará por nós e nós por eles: tu pelo sultão, e eu por Ozara, a nova sultana. Operada essa metamorfose, estaremos livres para agir à nossa maneira e tu libertarás Nazara.”

Tudo se passou como Tanaple havia anunciado; a venda ao sultão e a transformação. Depois de alguns minutos de horrível furor da parte do sultão, que queria caçar esses importunes e fazia um ruído espantoso, Noureddin tendo, segundo a ordem de Tanaple, chamado vários escravos, fez prender o sultão e Ozara como sendo escravos rebeldes, e ordenou que fossem o conduzidos, em seguida, para junto da prisioneira Nazara. Ele queria, dizia, saber se ela estava disposta a confessar seu crime, e se ela estava pronta para morrer. Quis também que a favorita Ozara fosse com ele, para ver o suplício que infligia às mulheres infiéis. Dito isso, ele caminhou, precedido do chefe dos eunucos, durante um quarto de hora em um sombrio corredor, ao cabo do qual havia uma porta de ferro pesada e maciça. Tendo o escravo tomado uma chave, abriu três fechaduras, e eles entraram em um gabinete grande, longo e alto de três ou quatro côvados; ali, sobre uma esteira de palha, estava sentada Nazara, um cântaro com água e algumas tâmaras ao seu lado. Não era mais a brilhante Nazara de outrora; ela estava bela, mas pálida e magra. À vista daquele que ela tomou por seu senhor, estremeceu de medo, porque ela pensava que sua hora havia chegado.

(a continuação no próximo número).

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Os anjos guardiães

Revista Espírita, janeiro de 1859

Comunicação espontânea obtida pelo senhor L.., um dos médiuns da Sociedade.

É uma doutrina que deveria converter os mais incrédulos pelo seu encanto e pela sua doçura: a dos anjos guardiães. Pensar que se tem, junto de si, seres que vos são superiores, que estão sempre aí para vos aconselhar, vos sustentar, para vos ajudar a escalar a áspera montanha do bem, que são amigos mais seguros e mais devotados que as mais íntimas ligações que se possa contrair nesta Terra, não é uma idéia bem consoladora? Esses seres estão aí por ordem de Deus; foi ele quem os colocou junto de nós, e estão aí pelo amor dele, e cumprem, junto de nós, uma bela mas penosa missão. Sim, em qualquer parte que estejais, ele estará convosco: os calabouços, os hospitais, os lugares de deboche, a solidão, nada vos separa desse amigo que não podeis ver, mas do qual vossa alma sente os mais doces impulsos e ouve os sábios conselhos.

Por que não conheceis melhor essa verdade! Quantas vezes ele vos ajudou nos momentos de crise, quantas vezes vos salvou das mãos de maus Espíritos! Mas, no grande dia, esse anjo do bem terá, freqüentemente, a vos dizer: “Não te disse isso? E tu não o fizeste. Não te mostrei o abismo, e tu nele te precipitaste; não te fiz ouvir na consciência a voz da verdade, e não seguiste os conselhos da mentira?” Ah! questionai vossos anjos guardiães; estabelecei, entre ele e vós, essa ternura íntima que reina entre os melhores amigos. Não penseis em não lhes ocultar nada, porque são o olho de Deus, e não podeis enganá-los. Sonhai com o futuro, procurai avançar nesse caminho, vossas provas nele serão mais curtas, vossas existências mais felizes. Ide! homens de coragem; lançai longe de vós, uma vez por todas, preconceitos e dissimulações; entrai no novo caminho que se abre diante de vós; caminhai, caminhai, tendes guias, segui-os: o objetivo não pode vos faltar, porque esse objetivo é o próprio Deus.

Àqueles que pensam que é impossível a Espíritos verdadeiramente elevados se sujeitarem a uma tarefa tão laboriosa e de todos os instantes, diremos que influenciamos vossas almas estando a vários milhões de léguas de vós: para nós o espaço não é nada, e mesmo vivendo em um outro mundo, nossos espíritos conservam sua ligação com o vosso. Gozamos de qualidades que não podeis compreender, mas estejais seguros que Deus não nos impôs uma tarefa acima de nossas forças, e que não vos abandonou sozinhos na Terra, sem amigos e sem sustentação. Cada anjo guardião tem o seu protegido, sobre o qual ele vela, como um pai vela sobre seu filho; ele é feliz quando o vê seguir o bom caminho, e geme quando seus conselhos são desprezados.

Não temais nos cansar com vossas perguntas; ficai, ao contrário, em relação conosco: sereis mais fortes e mais felizes. São essas comunicações, de cada homem com seu Espírito familiar, que fazem todos os homens médiuns, médium ignorados hoje mas que se manifestarão mais tarde, e que se espalharão como um oceano sem limites para refluir a incredulidade e a ignorância. Homens instruídos, instruí; homens de talento, elevai vossos irmãos. Não sabeis que obra cumpris assim: é a do Cristo, aquela que Deus vos impôs. Por que Deus vos deu a inteligência e a ciência, se não para partilhá-las com vossos irmãos, certamente para avançá-los no caminho da alegria e da felicidade eterna.

São Luís, Santo Agostinho.

Nota. – A doutrina dos anjos guardiães, velando sobre seus protegidos, apesar da distância que separa os mundos, nada tem que deva surpreender; ela é, ao contrário, grande e sublime. Não vedes sobre a Terra, um pai velar sobre seu filho, embora dele esteja distante, ajudar com seus conselhos por correspondência? Que haveria, pois, de espantoso que os Espíritos possam guiar aqueles que tomam sobre sua proteção, de um mundo ao outro, uma vez que, para eles, a distância que separa os mundos é menor que aquela que, na Terra, separa os continentes?

anjos guardia~es

Diógenes.

1. Evocação. – R. Ah! Venho de longe!

2. Podeis aparecer ao senhor Adrien, nosso médium vidente, tal qual éreis na existência que vos conhecemos? – R. Sim, e mesmo vir com minha lanterna, se o desejais.
Retrato.

Testa larga e as bossas laterais muito ossudas, nariz delgado e curvado; boca grande e séria; olhos negros e cravados na órbita; olhar penetrante e zombeteiro. Talhe um pouco alongado, magro e enrugado, tez amarela; bigode e barba incultos; cabelos grisalhos e dispersos.

Roupagens brancas e muito sujas; os braços nus, assim como as pernas; o corpo magro, ossudo. Más sandálias amarradas às pernas por cordas.

3. Dissestes que vínheis de longe: de qual mundo vindes? – R. Vós não o conheceis.

4. Teríeis a bondade de responder a algumas perguntas? – R. Com prazer.

5. A existência que vos conhecemos sob o nome de Diógenes o Cínico, vos foi proveitosa para a vossa felicidade futura? – R. Muito; errastes em torná-la em zombaria, como fizeram meus contemporâneos; espanto-me mesmo que a história haja pouco esclarecido minha existência, e que a posteridade, pode-se dize-lo, foi injusta a meu respeito.

6. Que bem fizestes, porque vossa existência era bastante pessoal? – R. Trabalhei por mim, mas pôde-se aprender muito em me vendo.

7. Quais são as qualidades que queríeis encontrar nos homens e que procuráveis com a vossa lanterna? – R. Da energia.

8. Se tivésseis encontrado, em vosso caminho, o homem que acabamos de evocar, Chaudruc Duelos, encontraríeis nele o homem que procuráveis, porque ele também se abstinha voluntariamente de todo o supérfluo? – R. Não.

9. Que pensais dele? – R. Sua alma extraviou-se na Terra; quantos são como ele e não o sabem; ele ao menos o sabia.

10. As qualidades que procuráveis no homem, segundo vós, credes havê-las possuído? – R. Sem dúvida: eu era meu critério.

11. Qual é dos filósofos de vosso tempo o que preferis? – R. Sócrates.

12. Qual é o que preferis agora? – R. Sócrates.

13. E Platão, que dizeis dele? – R. Muito duro; sua filosofia é muito severa: eu admitia os poetas, e ele não.

14. O que se conta de vossa entrevista com Alexandre é real? – R. Muito real; a história mesma a mutilou.

15. Em que a história a mutilou? – R. Entendo falar de outras conversas que tivemos juntos: credes que veio ver-me para não dizer-me senão uma palavra?

16. A palavra que se lhe imputa, a saber, de que se não fosse Alexandre gostaria de ser Diógenes, é real? – R. Ele disse, talvez, mas não diante de mim. Alexandre era um jovem louco, vão e confiado; eu era, aos seus olhos, um mendigo: como o tirano ousaria se mostrar instruído pelo miserável?

17. Depois de vossa existência em Atenas, reencarnastes sobre a Terra? – R. Não, mas em outros mundos. Atualmente, pertenço a um mundo onde não somos escravos: isso quer dizer que se vos evocassem acordado, não faríeis o que fiz essa noite.

18. Poderíeis nos traçar o quadro das qualidades que procurareis no homem, tais como as concebíeis então, e tais como as concebeis agora? – R. Então. Coragem, audácia, segurança de si mesmo e poder sobre os homens pelo Espírito.

Agora. Abnegação, doçura, poder sobre os homens pelo coração.

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Conversas familiares de além túmulo

Revista Espírita, janeiro de 1859

Chaudruc Duelos e Diógenes.

Duelos.

1. Evocação. – R. Estou aqui.

 

O senhor Adrien, médium vidente, que não o vira jamais em sua vida, dele fez o retrato seguinte, achado muito exato pelas pessoas presentes que o conheceram.
Rosto comprido; bochechas ocas; testa convexa e enrugada. Nariz um pouco longo e ligeiramente curvado; olhos cinzentos e um pouco à flor da cabeça; boca média, zombeteira; tez um pouco amarela; cabelos grisalhos, e longa barba. Talhe antes grande que pequeno.

Paletó de lã azul, todo ralado e furado; calça negra, gasta e em farrapos; colete de cor clara, lenço de pescoço amarrado em gravata, de uma cor sem nome.

2. Lembrai-vos de vossa última existência terrestre? – R. Perfeitamente.

3. Que motivo vos levou ao gênero de vida excêntrica que adotastes? – R. Estava cansado da vida e tive pena dos homens e dos motivos de suas ações.

4. Diz-se que era uma vingança e para humilhar um parente educado; é verdade? – R. Não só por isso; humilhando esse homem, humilhava muitos outros com isso.

5. Se era uma vingança, ela vos custou caro, porque vos privastes, durante longos anos, de todos os gozos sociais para satisfazê-la. Não acháveis isso um pouco duro? – R. Eu gozava de um outro modo.

6. Havia, ao lado disso, um pensamento filosófico e foi por essa razão que se vos comparou a Diógenes? – R. Havia alguma relação com a parte menos sadia da filosofia desse homem.

7. Que pensais de Diógenes? – R. Pouca coisa; é um pouco o que penso de mim. Diógenes tinha sobre nós a vantagem de ter feito alguns anos mais cedo o que fiz, e no meio de homens menos civilizados que aqueles no meio dos quais vivi.

8. Há, entretanto, uma diferença entre Diógenes e vós: nele, sua conduta era uma conseqüência de seu sistema filosófico; ao passo que em vós ela tinha seu princípio na vingança! – R. A vingança em mim conduziu à filosofia.

9. Sofríeis por vos ver assim isolado, e ser um objeto de desprezo e de desgosto; porque vossa educação vos distanciava da sociedade dos mendigos e dos vagabundos, e éreis repelido pelas pessoas bem educadas? – R. Sabia que não se tem amigos na Terra; eu o havia experimentado muito, ai de mim!

10. Quais são as vossas ocupações atuais e onde passais vosso tempo? – R. Percorro mundos melhores e me instruo… Ali há muitas boas almas que nos revelam a ciência celeste dos Espíritos.

11. Retornastes, alguma vez, ao Palais-Royal, desde vossa morte? – R. Que me importa o Palais-Royal!

12. Entre as pessoas que estão aqui, reconheceis as que conhecestes nas vossas peregrinações ao Palais-Royal? – R. Como não o faria?

13. Reviste-as com prazer? – R. Com prazer; mesmo com o maior prazer foram boas para mim.

14. Revistes vosso amigo Charles Nodier? – R. Sim, sobretudo depois de sua morte.

15. Ele está errante ou reencarnado? – R. Errante como eu.

16. Por que escolhestes o Palais-Royal, o lugar mais freqüentado em Paris, para os vossos passeios; isso não está de acordo com o vosso gosto misantropo? – R. Lá eu via todo mundo, todas as tardes.

17. Não havia, talvez, um sentimento de orgulho de vossa parte? – R. Sim, infelizmente; o orgulho teve uma boa parte em minha vida.

18. Sois mais feliz agora?- R. Oh! sim.

19. Entretanto, vosso gênero de existência não deveu contribuir para o vosso aperfeiçoamento? – R. Essa existência terrestre! Mais que pensais, todavia: eu não tinha momentos sombrios, quando reentrei sozinho e abandonado em minha casa? Ali, tive o tempo de amadurecer bem os pensamentos.

20. Se tivesses a escolher uma outra existência, como a escolheríeis? – R. Não mais sobre vossa Terra; posso esperar melhor hoje.

21. Lembrai-vos de vossa penúltima existência? – R. Sim, e de outras também.

22. Onde tivestes essas existências? – R. Na Terra e em outros mundos.

23. E a penúltima?- R. Na Terra.

24. Podeis no-la fazer conhecer? – R. Não o posso; era uma existência obscura e oculta.

25. Sem nos revelar essa existência, poderíeis dizer-nos qual relação havia com a que conhecemos, porque esta deve ser uma conseqüência da outra? – R. Uma conseqüência, positivamente, mas um complemento: vivi infeliz por vícios e faltas que se modificaram bem antes que viesse a habitar o corpo que conhecestes.

26. Podemos fazer alguma coisa que vos seja útil, ou agradável? – R. Ai de mim! Pouco; estou bem acima da Terra, hoje.

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