Aforismos Espíritas e pensamentos destacados

Revista Espírita, setembro de 1859

Quando se evoca um parente ou um amigo, qualquer afeição que ele vos tenha conservado, não é necessário esperar esses impulsos de ternura que vos pareceria natural depois de uma separação dolorosa; a afeição, por ser calma, não é por isso menos sentida, e pode ser mais real do que aquela que se traduz por grandes demonstrações. Os Espíritos pensam, mas eles não agem como os homens: dois Espíritos amigos se vêem, se amam, são felizes em se aproximarem, mas não têm necessidade de se lançarem um nos braços do outro. Quando se comunicam conosco pela escrita, uma boa palavra lhes basta e ela diz mais para eles do que as frases enfáticas.

 

ALLAN KARDEC.

 

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Interior de uma família Espírita

Revista Espírita, setembro de 1859

A senhora G… ficou viúva há três anos com quatro crianças; o primogênito é um amável jovem de dezessete anos, e a mais nova uma encantadora menina de seis anos. Há muito tempo, essa família, se ocupa do Espiritismo, e antes mesmo que essa crença estivesse popularizada como está hoje, o pai e a mãe deles tinham como uma espécie de intuição que diversas circunstâncias vieram desenvolver. O pai da senhora G… apareceu-lhe diversas vezes em sua juventude e cada vez lhe prevenira de coisas importantes, ou lhe dera conselhos úteis. Fatos do mesmo gênero se passavam igualmente entre seus amigos, de sorte que, para eles, a existência de além-túmulo não podia ser objeto de nenhuma dúvida, não mais que a possibilidade de se comunicar com os seres que nos são caros.

Quando veio o Espiritismo, isso não foi senão a confirmação de uma idéia bem sedimentada e santificada pelo sentimento de uma religião esclarecida, porque essa família é um modelo de piedade e de caridade evangélica. Eles tomaram da nova ciência os meios de comunicação mais diretos; a mãe e uma das crianças se tornaram excelentes médiuns; mas longe de empregarem essa faculdade para questões fúteis, todos a consideraram como um dom precioso da Providência, do qual não era permitido servir-se senão para coisas sérias; também não o usavam jamais senão com recolhimento e respeito, e longe dos olhares dos importunos e dos curiosos.

Neste meio tempo, o pai caiu doente, e, pressentindo seu fim próximo, reuniu os filhos e lhes disse: “Meus caros filhos, minha mulher bem amada, Deus me chama para si; sinto que vou deixar-vos dentro de pouco tempo; mas penso que haurireis em vossa fé na imortalidade a força necessária para suportarem com coragem essa separação, como eu levo a consolação que poderei sempre estar no vosso meio e vos ajudar com os meus conselhos. Chamai-me, pois, quando não estiver mais na Terra, e virei colocar-me ao vosso lado, conversar convosco, como fazem nossos avós; porque, em verdade, nós estaremos menos separados do que se eu partisse para um país longínquo. Minha cara mulher, eu te deixo uma grande tarefa; quanto mais pesada for, mais gloriosa será; e disso tenho a segurança de que nossos filhos ajudar-te-ão a suportar. Meus filhos, secundareis vossa mãe; e evitareis tudo o que poderia causar-lhe dificuldade; sereis sempre bons e benevolentes para todo o mundo; estendereis a mão aos vossos irmãos infelizes, porque não gostaríeis de vos expor a estendê-la um dia vós mesmos em vão.

Que a paz, a concórdia e a união reinem entre vós; que jamais o interesse vos divida, porque o interesse material é a maior barreira entre a Terra e o céu. Pensai que estarei sempre aqui, perto de vós, que vos verei como vos vejo neste momento, e melhor ainda, uma vez que verei o vosso pensamento; não quereis, pois, me entristecer depois de minha morte mais do que não fizestes durante a minha vida.”

É um espetáculo verdadeiramente edificante ver o interior desta piedosa família. Estas crianças, instruídas nas idéias espíritas, não se consideram como separadas de seu pai; para elas ele ali está, e temem fazer a menor ação que possa aborrecê-lo. Todas as semanas, uma noite é consagrada para conversar com ele, e algumas vezes com mais freqüência; mas há as necessidades da vida, que precisam ser providas, – a família não é rica – por isso um dia fixo está assinalado para essas piedosas conversas, e esse dia esperado com impaciência. A menina diz freqüentemente: É hoje que vem o meu pai?

Nesse dia que passa em conversas familiares, em instruções proporcionadas à inteligência, algumas vezes infantis, outras vezes sérias e sublimes; são conselhos dados oportunamente, por pequenos defeitos que assinala: se faz a parte dos elogios, a crítica não é poupada, e o culpado abaixa os olhos, como se tivesse seu pai diante dele; e lhe pede um perdão que algumas vezes não é concedido senão depois de várias semanas de prova: espera-se sua sentença com uma febril ansiedade. Então, que alegria! quando o pai diz: Estou contente contigo. Mas a ameaça mais terrível é dizer Não retomarei na semana próxima.

A festa anual não é esquecida. É sempre um dia solene para o qual se convidam todos os avós falecidos, sem esquecer um pequeno irmão morto há alguns anos. Os retratos são ornados com flores; cada criança prepara um pequeno trabalho, e até o discurso tradicional; o primogênito faz uma dissertação sobre um assunto sério; uma das jovens executa um trecho de música; a menor, enfim, recita uma fábula; é o dia das grandes comunicações, e cada convidado recebe uma lembrança dos amigos que deixou na Terra.

Que belas são essas reuniões pela sua tocante simplicidade! Como tudo nela fala ao coração! Como se pode dela sair sem estar penetrado de amor ao bem? Mas ali nenhum olhar zombeteiro, nenhum riso cético vem perturbar o piedoso recolhimento; alguns amigos, partilhando as mesmas convicções e devotados à religião de família, são os únicos admitidos a tomarem parte deste banquete do sentimento. Ride se quiserdes, vós que zombais das coisas mais santas; por soberbos e endurecidos que sejais, não vos faço a injúria de crer que o vosso orgulho possa permanecer impassível e frio diante de um tal espetáculo. Um dia, todavia, foi um dia de luto para a família, um dia de verdadeiro desgosto: o pai havia anunciado que estaria algum tempo, muito tempo mesmo, sem poder vir; uma grande e importante missão o chamava longe da Terra. A festa anual não foi por isso menos celebrada; mas foi triste: o pai não estava nela. Ele dissera quando partiu: Meus filhos, que no meu retorno eu vos encontre todos dignos de mim, e que cada um se esforce por se tornar digno de si. Eles esperam ainda.

interior de uma familia espírita

As tempestades – Papel do Espíritos nos fenômenos naturais

(Sociedade, 22 de julho de 1859).

Revista Espírita, setembro de 1859

1. (A Fr. Arago.) Nos foi dito que a tempestade de Solferino tivera um objetivo providencial, e se nos assinala vários fatos desse gênero, notadamente em fevereiro e junho de 1848. Essas tempestades, durante os combates, tinham um fim análogo? – R. Quase todas.

2. O Espírito interrogado a esse respeito nos disse que só Deus agia, nessas circunstâncias, sem intermediários. Permiti-nos algumas perguntas a esse respeito, e rogamos consentirdes em resolver com a vossa clareza habitual.

Concebemos, perfeitamente, que a vontade de Deus seja a causa primeira, nisto como em todas as coisas, mas sabemos também que os Espíritos são seus agentes. Ora, uma vez que sabemos que os Espíritos têm uma ação sobre a matéria, não vemos porque, alguns dentre eles, não teriam uma ação sobre os elementos, para agitá-los, acalmá-los ou dirigi-los. – R. Mas é evidente; isso não pode ser de outro modo; Deus não se entrega a uma ação direta sobre a matéria; ele tem seus agentes devotados em todos os graus da escala dos mundos. O Espírito evocado não falou assim senão por um conhecimento menos perfeito dessas leis, como das da guerra.

Nota. A comunicação do oficial, narrada acima, foi obtida no dia 1º de julho; esta não ocorreu senão no dia 22 e por um outro médium; nada, na questão, indica a qualidade do primeiro Espírito evocado, qualidade que lembra espontaneamente aquele que acaba de responder. Esta circunstância é característica, e prova que o pensamento do médium nada tem com a resposta. Assim é que, numa multidão de circunstâncias fortuitas, o Espírito revela, seja sua identidade, seja sua independência. Por isso, dizemos que é necessário sempre ver, sempre observar; então se descobre uma multidão de nuanças que escapam ao observador superficial e de passagem. Sabe-se que é necessário agarrar os fatos quando eles se apresentem, e que não é provocando que eles serão obtidos. O observador atento e paciente encontra sempre alguma coisa para aproveitar.

3. Á mitologia está inteiramente fundada sobre as idéias espíritas; nela encontramos todas as propriedades dos Espíritos, com a diferença que os Antigos deles fizeram os deuses. Ora, a mitologia nos representa esses deuses, ou esses Espíritos, com atribuições especiais; assim, uns estão encarregados do vento, outros do raio, outros de presidir a vegetação, etc; essa crença está despida de fundamentos? – R. Ela está tão pouco despida de fundamento que ainda está bem abaixo da verdade.

4. Na origem das nossas comunicações, os Espíritos nos disseram coisas que parecem confirmar esse princípio. Disseram-no, por exemplo, que certos Espíritos habitam mais especialmente o interior da Terra, e presidem aos fenômenos geológicos. — R. Sim, e não tardareis muito para ver a explicação de tudo isso.

5. Esses Espíritos que habitam o interior da Terra, e presidem aos fenômenos geológicos, são de uma ordem inferior? – R. Esses Espíritos não habitam positivamente a Terra, mas presidem e dirigem; são de uma ordem muito diferente.

6. São Espíritos que estiveram encarnados em homens como nós? – R. Que o serão, e que foram. Disso vos direi mais, se quiserdes, dentro de pouco tempo.

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Morte de um Espírita.

(Sociedade, 8 de julho de 1859).

O senhor J…, negociante do departamento da Sarthe, que morreu em 15 de junho de 1859, era um homem de bem, sob todos os aspectos, e de uma caridade sem limites. Ele fizera um estudo sério do Espiritismo, do qual era um dos fervorosos adeptos. Como assinante da Revista Espírita, tinha relações indiretas conosco, sem que nos víssemos. Evocando-o, tivemos por objetivo não somente responder ao desejo de seus parentes e de seus amigos, mas de dar-lhe pessoalmente um testemunho de nossa simpatia, e agradecer-lhe pelas coisas corteses que havia dito e pensado de nós. Por outro lado, era para nós um objeto de estudo interessante do ponto de vista da influência que pode ter o conhecimento aprofundado do Espiritismo sobre o estado da alma depois da morte.

1. Evocação. – R. Estou aqui há algum tempo.

2. Não tive o prazer de vos ver; não obstante, me reconheceis? – R. Eu vos reconheço tanto melhor quanto se vos visitasse freqüentemente, e porque tive mais de uma conversa convosco, como Espírito, durante a minha vida.

Nota. – Isso confirma o fato muito importante e do qual tivemos numerosos exemplos, de comunicações que os homens têm entre si, com o seu desconhecimento durante a sua vida. Assim, durante o sono do corpo, os Espíritos viajam e se visitam reciprocamente.

Eles trazem, ao despertar, uma intuição das idéias que hauriram nessas conversas ocultas, mas das quais ignoram a fonte. Temos, dessa maneira, durante a vida, uma dupla existência: a existência corpórea que nos dá a vida de relação exterior, e a existência espírita, que nos dá a vida de relação oculta.

3. Sois mais feliz do que na Terra? – R. Cabe a vós me perguntar isso?

4. Eu o concebo; entretanto, gozáveis de uma fortuna honrosamente adquirida, que vos proporcionava os gozos da vida; tínheis a estima e a consideração que mereceram vossa bondade e vossa beneficência, quereis dizer-nos em que consiste a superioridade de vossa felicidade atual? – R. Consiste naturalmente na satisfação que me proporciona a lembrança do pouco bem que fiz, e na certeza do futuro que me promete; e contais por nada a ausência das inquietações e das confusões da vida; dos sofrimentos corpóreos e de todos esses tormentos que nós criamos para satisfazer as necessidades do corpo?

Durante a vida, a agitação, a ansiedade, as angústias incessantes, mesmo no meio da fortuna; aqui, a tranqüilidade e o repouso: é a calma depois da tempestade.

5. Seis semanas antes de morrer, afirmáveis ter ainda cinco anos para viver; de onde vos chegava essa ilusão, quando tantas pessoas pressentiam sua morte próxima? – R. Um Espírito benevolente quis afastar do meu pensamento esse momento que eu tinha a fraqueza de temer sem confessá-lo, apesar do que eu sabia quanto ao futuro do Espírito.

6. Havíeis aprofundado seriamente a ciência Espírita; podeis dizer-nos se, na vossa entrada no mundo dos Espíritos, encontrastes as coisas tais como as tínheis figurado? – R. Quase tudo, a não ser questões de detalhes que havia compreendido mal.

7. A leitura atenta que fazíeis da Revista Espírita e de O Livro dos Espíritos, vos ajudou muito nisso? – R. Incontestavelmente; foi principalmente isso o que me preparou para a minha entrada na verdadeira vida.

8. Sentistes um espanto qualquer em vos encontrando no mundo dos Espíritos? – R. É impossível que seja de outro modo; mas espanto não é a palavra: antes admiração. Bem longe se pode fazer uma idéia do que ele é!

Nota. – Aquele que, antes de ir habitar um país, estuda-o nos livros, se identifica com os costumes de seus habitantes, sua configuração, seu aspecto, por meio de desenhos, de planos e de descrições, fica menos surpreso, sem dúvida, do que aquele que dele não tem nenhuma idéia; e, todavia, a realidade mostra-lhe uma multidão de detalhes que ele não havia previsto e que o impressiona. Deve ocorrer o mesmo no mundo dos Espíritos, do qual não podemos compreender todas as maravilhas, porque há coisas que ultrapassam o nosso entendimento.

10. Deixando o vosso corpo, vistes e reconhecestes imediatamente Espíritos ao vosso redor? – R. Sim, e Espíritos queridos.

11. Que pensais agora do futuro do Espiritismo? – R. Um futuro mais belo do que pensais ainda, apesar da vossa fé e do vosso desejo.

12. Vossos conhecimentos quanto às matérias espíritas vos permitiram, sem dúvida, nos responder com precisão sobre certas questões. Poderíeis descrever-nos claramente o que se passou em vós no instante em que o vosso corpo deu o último suspiro, e quando o vosso Espírito se achou livre? – R. É, eu creio, pessoalmente muito difícil encontrar um meio para vos fazer compreender de outro modo que não haja sido feito, comparando a sensação que se experimenta ao despertar que se segue a um sono profundo; esse despertar é mais ou menos lento e difícil em razão direta da situação moral do Espírito, e não deixa nunca de ser fortemente influenciado pelas circunstâncias que acompanham a morte.

Nota. – Isto está conforme todas as observações que se fizeram sobre o estado do Espírito no momento da sua separação do corpo; sempre vimos as circunstâncias morais e materiais, que acompanham a morte, reagirem poderosamente sobre o estado do Espírito nos primeiros momentos.

13. Vosso Espírito conservou a consciência de sua existência até o último momento, e a recobrou imediatamente? Houve um momento de ausência de lucidez, e qual foi a sua duração? – R. Houve um instante de perturbação, mas quase inapreciável para mim.

14. O instante do despertar teve alguma coisa de penoso? – R. Não, ao contrário; eu me sentia, se posso falar assim, alegre e disposto como se tivesse respirado um ar puro à saída de uma sala enfumaçada.

Nota. – Comparação engenhosa e que não pode ser senão a expressão da verdade.

15. Lembrai-vos da existência que tivestes antes da que acabais de deixar? Qual foi ela? – R. Eu me lembro como melhor se pode. Fui um bom servidor junto de um bom mestre, que me recebeu juntamente com outros na reentrada neste mundo feliz.

16. Vosso irmão, creio, se ocupa menos das questões espíritas do que não o fazíeis? – R. Sim, eu farei de modo que ele as tome mais no coração, se isso me for permitido. Se ele soubesse o que se ganha com isso, ligar-lhe-ia maior importância.

17. Vosso irmão encarregou o senhor B… de comunicar-me o vosso decesso; ambos esperam, com impaciência, o resultado de nossa conversa; mas ficarão ainda mais sensíveis com uma lembrança direta de vossa parte, se quiserdes encarregar-me de algumas palavras para eles, ou para outras pessoas que vos lamentam. – R. Eu lhes diria, por vosso intermédio, o que lhes diria eu mesmo, mas temo muito não ter mais influência junto de alguns entre eles do que tive outras vezes; entretanto, eu os conjuro, em meu nome e daqueles de seus amigos, que eu vejo, de refletirem, e de estudarem seriamente essa grave questão do Espiritismo, não fosse senão pelos recursos que ela dá para passar por esse momento tão temido da maioria, e tão pouco temível para aquele que se preparou para avançar pelo estudo do futuro e da prática do bem. Dizei-lhes que estou sempre com eles, no meio deles, que os vejo, e que ficaria feliz se suas disposições lhes assegurarem, no mundo que estou, um lugar do qual não terão senão que se felicitarem. Dizei-o, sobretudo ao meu irmão, cuja felicidade é meu voto mais caro, e de quem eu não me esqueço, embora eu esteja mais feliz.

18. A simpatia que quisestes me testemunhar durante a vossa vida, sem me ver, faz-me esperar que nos reconheceremos facilmente quando me encontrar entre vós; e até lá ficaria feliz se quisésseis me assistir nos trabalhos que me restam a fazer para cumprir a minha tarefa. – R. Vós me julgais muito favoravelmente; entretanto, convencei-vos de que, se vos posso ser de alguma utilidade, não deixarei de fazê-lo, talvez mesmo sem que disso suspeiteis.

19. Nós vos agradecemos em consentir vir ao nosso chamado, e pelas explicações instrutivas que nos destes. – R. Estou à vossa disposição; estarei freqüentemente convosco.

Nota. – Esta comunicação, sem contradita, é uma das que pintam a vida espírita com mais clareza; ela oferece um poderoso ensinamento quanto à influência que as idéias espíritas exercem sobre o nosso estado depois da morte.

Esta palestra pareceu deixar alguma coisa a desejar ao amigo que nos comunicou a morte do senhor J… “Este último, nos respondeu ele, não conservou em sua linguagem o cunho de originalidade que tinha conosco. Ele se prende numa reserva que não observava com ninguém; seu estilo incorreto, irregular, sem inspiração: ele ousava tudo; ele atacava vivamente quem formulasse uma objeção contra as suas crenças; ele nos desfazia inteiramente para nos converter. Na sua aparição psicológica, não deixa conhecer nenhuma particularidade das numerosas relações que tinha com uma multidão de pessoas que ele freqüentava. Gostaríamos muito ver-nos designados por ele, não para satisfazer a nossa curiosidade, mas para a nossa instrução. Gostaríamos que falasse claramente de algumas idéias emitidas por nós, em sua presença, nas nossas conversações. Poderia dizer-me, a mim pessoalmente, se estou errado em deter-me em tal ou tal consideração; se o que lhe disse é verdadeiro ou falso. Nada nos falou de sua irmã ainda viva e tão digna de interesse.”
Depois desta carta, evocamos de novo o senhor J… e lhe dirigimos as perguntas seguintes:

20. Tendes conhecimento da carta que recebi em resposta à enviada de vossa evocação. – R. Sim, eu o vi escrevê-la.

21. Teríeis a bondade de nos dar algumas explicações sobre certas passagens dessa carta, e isso, como bem o penseis, num objetivo de instrução, e unicamente para fornecer-me os elementos de uma resposta? – R. Se o considerais útil, sim.

22. Acham estranho que a vossa linguagem não conservou seu cunho de originalidade; parece que, quando vivo, éreis bastante intransigente na discussão. – R. Sim, mas o Céu e a Terra são bem diferentes, e aqui encontrei mestres. Que quereis? Eles me impacientavam com as suas objeções ridículas; eu lhes mostrava o Sol, e eles não queriam vê-lo; como guardar sangue frio? Aqui não tenho nada para discutir; todos nos compreendemos.

23. Esses senhores se admiram que não os interpelastes nominalmente para refutá-los, como o fazíeis quando vivo. – R. Que se admirem com isso! Eu os espero; quando vierem juntar-se a mim verão quem de nós tinha razão. É necessário que eles venham. bom grado ou malgrado eles, e uns antes do que o crêem; sua jactância cairá como a poeira abatida pela chuva; sua fanfarrice… (Aqui o Espírito se deteve e se recusou a acabar a frase).

24. Eles inferem com isso que não lhes destes todo o interesse a que tinham direito de esperar de vós? – R. Eu os quero bem, mas não o farei, apesar deles.

25. Eles se admiram igualmente de que nada dissestes sobre vossa irmã. – R. Estão, pois, entre mim e ela?

26. O senhor B… desejava que lhe dissésseis o que vos contou na intimidade; seria para ele, e para os outros, um meio de se esclarecerem. – R. Por que repetir-lhe o que ele sabe? Crê que eu não tenha o que fazer? Não têm todos os meios de se esclarecerem que tinha eu mesmo? Que os aproveitem! Que eles se sentirão bem, eu lhes garanto. Quanto a mim, bendigo o céu por ter me enviado a luz que me abriu a rota da felicidade.

27. Mas é esta luz que eles desejam e que ficariam felizes recebendo de vós. – R. A luz brilha para todo o mundo; cego quem não a vê; este cairá no precipício e amaldiçoará a sua cegueira.

28. Vossa linguagem me parece marcada por uma bem grande severidade. – R. Não me acharam muito afável?

29. Nós vos agradecemos por consentir em vir, e pelos esclarecimentos que nos destes. – R. Sempre ao vosso serviço, porque sei que é para o bem.

a morte de um espírita

O general Hoche.

(Sociedade; 22 de julho de 1859.]

1. Evocação. – R. Estou ao vosso dispor.

2. A senhora J… disse-nos que, espontaneamente, vos comunicastes com ela; com qual intenção fizestes, uma vez que não vos chamou? – R. Foi ela quem me conduziu aqui; eu desejava ser chamado por vós, e eu sabia que ficando junto dela, vós o saberíeis, e que, provavelmente, me evocaríeis.

3. Vós lhe dissestes que seguíeis as operações militares da Itália: isso nos parece natural; poderíeis nos dizer o que delas pensais? – R. Elas produziram grandes resultados; no meu tempo se lutava por mais tempo.

4. Assistindo a esta guerra, nela desempenháveis um papel ativo? – R. Não, simples espectador.

5. Outros generais, do vosso tempo, ali foram como vós? – R. Sim; podeis bem pensar.

6. Poderíeis nos designar alguns deles? – R. É inútil. Disseram-nos que Napoleão l assistiu a elas e não temos dificuldade em acreditar. Na época das primeiras guerras da Itália, ele não era senão general;

7. Nesta poderíeis nos dizer se ele via as coisas do ponto de vista do general ou do imperador? – R. Dos dois, e de um terceiro ainda: do diplomata.

8. Durante a vossa vida, vossa posição como militar era quase igual à dele; como depois de vossa morte ele subiu muito, poderíeis nos dizer se, como Espírito, vós o considerais como vosso superior? – R. Aqui reina a igualdade; que perguntastes?

Nota. – Por igualdade ele entende, sem dúvida, que os Espíritos não têm em nenhuma conta as distinções terrestres, com as quais, com efeito, eles pouco se importam, e que não têm nenhum peso entre eles; mas a igualdade moral está longe de aí reinar; há entre eles uma hierarquia e uma subordinação fundadas nas qualidades adquiridas, e ninguém pode subtrair-se à ascendência daqueles que estão mais elevados e mais puros.

9. Seguindo-se às peripécias da guerra, prevíeis a paz como tão próxima? – R. Sim.

10. Seria em vós uma simples previsão, ou disso tendes um conhecimento preliminar certo? – R. Não; tinham-mo dito.

11. Sois sensível à lembrança que se guarda de vós? – R. Sim; mas eu fiz tão pouco.

12. Vossa viúva acaba de morrer; vós a reencontrastes imediatamente? – R. Eu a esperava. Hoje vou deixá-la: a existência me chama.

13. Será na Terra que devereis tomar uma nova existência? -R. Não.

14. O mundo para onde devereis ir é nosso conhecido? – R. Sim; Mercúrio.

15. Esse mundo é moralmente superior ou inferior à Terra? – R. Inferior. Eu o elevarei; eu contribuirei para que evolua.

16. Conheceis agora esse mundo no qual ides entrar? – R. Sim, muito bem; melhor talvez do que o conhecerei quando nele habitar.

Nota. – Esta resposta é perfeitamente lógica; como Espírito, ele vê esse mundo em seu conjunto; quando estiver nele encarnado, não o verá senão do ponto de vista restrito de sua personalidade, e da posição social que ali ocupara.

17. Sob o aspecto físico, os habitantes desse mundo são tão materiais quanto os da Terra? – R. Sim, inteiramente; mais ainda.

18. Fostes vós quem escolhestes esse mundo para a vossa nova existência? – R. Não, não; eu teria preferido uma Terra calma e feliz; ali encontrarei torrentes de mal para combater, e os furores do crime para punir.

Nota. – Quando os nossos missionários cristãos vão aos povos bárbaros para tentarem fazer penetrar neles os germes da civilização, não cumprem uma missão análoga? Por que, pois, admirar-se que um Espírito elevado vá para um mundo atrasado com o objetivo de fazê-lo avançar?

19. Essa existência vos foi imposta por constrangimento? – R. Não, a ela me obriguei; compreendi que o destino, a Providência, se quiserdes, para ali me chamava; é como a morte antes de subir para o céu; é necessário sofrer e eu não sofrerá bastante, ai de mim!

20. Sois feliz como Espírito? – R. Sem penas, sim.

21. Quais foram, eu vos rogo, as vossas ocupações, como Espírito, desde o momento em que deixastes a Terra? – R. Eu visitei o mundo, a Terra inteiramente; isso me exigiu o espaço de vários anos; aprendi as leis que Deus emprega para conduzir todos os fenômenos que nela fazem a vida; depois, procedi do mesmo modo com várias esferas.

22. Nós vos agradecemos por consentir em vir ao nosso chamado. – R. Adeus; não me tomareis a ver.

 

 

mercurio espirita

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Um Oficial do Exército da Itália

Revista Espírita, setembro de 1859

Um Oficial do exército da Itália.

segunda conversa (Sociedade; 1o de julho de 1859. – Ver o número de Julho).

1. Evocação. – R. Eis-me; falai-me.

2. Prometestes voltar a nos ver, e disso nos aproveitamos para vos pedir dar-nos algumas explicações complementares. – R. De bom grado.

3. Depois da vossa morte, assististes a alguns combates que ocorreram? – R. Sim, o último.

4. Quando sois testemunha, como Espírito, de um combate e vedes os homens se massacrarem, isso vos faz experimentar o sentimento de horror que sentimos, nós mesmos, vendo semelhantes cenas? – R. Sim, eu o experimento mesmo sendo homem, mas então o respeito humano reprimia esse sentimento como sendo indigno de um soldado.

5. Há Espíritos que sentem prazer em ver essas cenas de carnificina? – R. Poucos.

6. Que sentimento experimentam, com essa visão, os Espíritos de uma ordem superior? – R. Grande compaixão; quase desprezo. O que vós mesmos experimentais quando vedes animais se dilacerarem entre si.

7. Assistindo a um combate, e vendo os homens morrerem, sois testemunha da separação da alma e do corpo? – R. Sim.

8. Nesse momento, vedes dois indivíduos: o Espírito e o corpo? – R. Não; que é, pois, o corpo? – Mas o corpo não está menos ali, e deve ser distinto do Espírito? – R. Um cadáver, sim; mas não é mais um ser.

9. Que aparência tem, para vós, o Espírito nesse momento? -R. Leve.

10. O Espírito se afasta imediatamente do corpo? – Consenti em nos descrever, eu vos peço, tão explicitamente quanto possível as coisas tais quais se passam, e que a vejamos como se lhes fôssemos testemunhas – R. Há poucas mortes inteiramente instantâneas; a maior parte do tempo o Espírito, cujo corpo acaba de ser ferido por uma bala comum ou uma bola de canhão, se diz: eu vou morrer, pensemos em Deus, sonhemos com o céu, adeus, Terra que eu amei. Depois desse primeiro sentimento, a dor vos arranca de vosso corpo, e é então que se pode distinguir o Espírito que se move ao lado do cadáver. Isso parece tão natural que a visão, do corpo morto, não produz nenhum efeito desagradável. Estando toda a vida transportada para o Espírito, só ele chama a atenção; é com ele que se conversa, ou a ele que se dirige.

Nota. – Poder-se-ia comparar esse efeito ao que produz um grupo de banhistas; o espectador não presta atenção às roupas que eles deixaram à beira d’água.

11. Geralmente, o homem surpreendido por uma morte violenta, durante algum tempo, não se crê morto. Como se explica sua situação, e como pode iludir-se, uma vez que deve bem sentir que seu corpo não é mais material, resistente? – R. Ele o sabe, e não tem ilusão.

Nota. – Isso não é perfeitamente exato; sabemos que os Espíritos se iludem em certos casos, e que não se crêem mortos.

12. Uma violenta tempestade manifestou-se no fim da batalha de Solferino; foi por uma circunstância fortuita ou por um fim providencial? – R. Toda circunstância fortuita é o fato da vontade de Deus.

13. Essa tempestade tinha um objetivo, e qual era ele? – R. Sim, certamente: parar o combate.

14. Foi provocado no interesse de uma das partes beligerantes e qual? – R. Sim, sobretudo para os nossos inimigos.

– Por que isso? Podeis nos explicar mais claramente? – R. Perguntais-me por quê? Mas não sabeis que, sem essa tempestade, nossa artilharia não deixaria escapar um Austríaco?

15. Se essa tempestade foi provocada, deveu ter agentes; quais eram esses agentes? – R. A eletricidade.

16. É o agente material; mas há Espíritos tendo em suas atribuições a condução dos elementos? – R. Não, a vontade de Deus basta; não há necessidade de ajudas assim comuns.

(Ver mais adiante o artigo sobre as tempestades.)
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exercito italiano

Confissão de Voltaire

Revista Espírita, setembro de 1859

Um dos nossos correspondentes de Boulogne, a propósito da entrevista de Voltaire e Frédéric, que publicamos no último número da Revista, nos dirige a seguinte, comunicação que aqui inserimos com tanto maior bom grado porque ela apresenta um lado eminentemente instrutivo do ponto de vista espírita. Nosso correspondente fá-la preceder de algumas reflexões que nossos leitores ficarão contentes por não omiti-las.

“Se jamais um homem, mais que um outro, deve sofrer os castigos eternos, esse homem é Voltaire. A cólera, a vingança de Deus persegui-lo-ão para sempre. Eis o que nos dizem os teólogos da velha escola.

“Agora que dizem os mestres da teologia moderna? Pode ocorrer, dizem, que desconheçais o homem, não menos que o Deus do qual falais; guardai para vós vossas baixas paixões de ódio e de vingança e não enlameais com elas vosso Deus. Se Deus se inquieta por esse pobre pecador, se toca o inseto, isso será para arrancar seu ferrão, para reconduzir a ele uma cabeça exaltada, um coração extraviado. Dizemos, além disso, que Deus sabe ler nos corações, de outro modo que vós, encontra ali o bem onde não encontrais senão o mal. Se dotou esse homem de um grande gênio, foi para o bem da raça, não para a sua infelicidade. Que importam, pois, essas primeiras extravagâncias, esses passos de livre condutor entre vós? Uma alma dessa tempera não poderia, em quase nada, fazer outras: a mediocridade serlhe-ia impossível no que quer que fosse.

Agora que está orientado, qual um potro indomável e jogou as patas e os dentes na sua pastagem terrestre, que vem a Deus como corcel dócil, mas sempre grande, soberbo para o bem tanto quanto fora para o mau. No artigo que segue, veremos por quais meios operou-se essa transformação; veremos nosso garanhão do deserto, a crina ainda alta, as narinas ao vento, fazer sua corrida através dos espaços do Universo. Foi que ali, ele, o pensamento soerguido, encontrou essa liberdade que era sua essência, e se deu a plenos pulmões dessa respiração de onde tirava sua vida! Que lhe aconteceu? Ele se perdeu, ele se confundiu; o grande pregador do nada enfim encontrou o nada, mas não como ele o compreendia; humilhado, decaído por si mesmo, ferido em sua pequenez, ele que se acreditava tão grande foi aniquilado diante de seu Deus; ei-lo com a face ao chão; espera sua sentença; essa sentença é:

Reabilita-te, meu filho, ou vai-te, miserável! Encontrar-se-á o veredito na comunicação que se segue.

“Esta confissão de Voltaire terá maior valor na Revista Espírita porque ela o mostra sob seu duplo aspecto. Vimos alguns Espíritos naturalistas e materialistas que, de cabeça alterada, tanto quanto seu mestre, mas sem ter seu coração, persistiam em glorificar-se em seu cinismo. Que estes permaneçam no inferno tanto quanto lhes agrada desafiar o céu, a zombar de tudo o que faz a felicidade do homem, é lógico, é seu lugar próprio; mas encontramos lógica também em que aqueles que reconhecem seus erros lhes recolham o fruto. Também, ter-se-á a bondade de crer que não nos pomos como apologistas do velho Voltaire; aceitamo-lo somente em seu novo papel e nos regozijamos com a sua conversão, a qual glorifica a Deus, e não pode deixar de impressionar profundamente aqueles que, hoje ainda, se deixam arrastar por seus escritos. Ali está o veneno, aqui está o antídoto.

“Esta comunicação, traduzida do inglês, foi extraída da obra do juiz Edmonds, publicada nos Estados Unidos. Ela toma a forma de uma conversação entre Voltaire e Wolsey, o célebre cardeal inglês do tempo de Henrique VIII. Dois médiuns foram impressionados separadamente para transmitirem esse diálogo.”

Voltaire. – Que imensa revolução no pensamento humano ocorreu desde que deixei a Terra!

Wolsey. – Com efeito, essa infidelidade que censuráveis então, aumentou desmesuradamente desde aquela época. Não é que ela tenha maiores pretensões hoje, mas é mais profunda e mais universal, e ao menos que seja detida, ela ameaça tragar a Humanidade no materialismo, mais do que o fez durante séculos.

Voltaire. – Infidelidade em quê e contra quem? Está na lei de Deus e do homem? Pretendes me acusar de infidelidade porque não me submeti aos estreitos preconceitos de seitas que me rodeavam? É que minha alma estava a pedir uma amplidão de pensamento, um raio de luz, além das doutrinas humanas. Sim, minha alma nas trevas tinha sede de luz.

Wolsey. – Também eu não quis falar senão da infidelidade que se vos imputava, e, ah! não sabeis que muito essa imputação vos pesa ainda. Eu me permito não vos censurar, mas vos dirigir as queixas, porque vosso desprezo pelas doutrinas de hoje, em tanto que estas não eram senão materiais e inventadas pelos homens, não poderiam lesar Espíritos semelhantes ao vosso. Mas essa mesma causa que agia sobre o vosso Espírito, operava igualmente sobre outros, os quais eram muito fracos e muito pequenos para alcançarem os mesmos resultados que vós. Eis, portanto, como aquilo que, em vós, não era senão uma negação dos dogmas dos homens, se traduzia nos outros em reino de Deus. Foi dessa fonte que se espalhou, com uma rapidez assustadora, a dúvida sobre o futuro do homem. Eis também porque o homem, limitando as suas aspirações a este único mundo, caiu cada vez mais no egoísmo e no ódio ao próximo. É a causa, sim, a causa desse estado de coisas que importa procurar porque uma vez encontrada, o remédio será comparativamente fácil. Dizei-me: conheceis essa causa?

Voltaire.- Minhas opiniões, tais como foram dadas ao mundo, foram marcadas, é verdade, por um sentimento de amargura e de sátira; mas, notai bem, quando eu tinha o Espírito importunado, por assim dizer, por uma luta interior. Eu olhava a Humanidade como me sendo inferior em inteligência e em penetração; não a via senão como marionetes que poderiam ser conduzidas por todo homem dotado de uma vontade forte, e me indignava por ver essa Humanidade que se arrogava uma existência imortal, estar repleta de elementos ignóbeis. Era necessário, portanto, crer que um ser dessa espécie partira da Divindade, e que poderia, por sua medíocre mão, assenhorar-se da imortalidade? Essa lacuna entre duas existências tão desproporcionadas me chocava, e eu não podia preenchê-la. Eu não via senão o animal no homem, não o Deus.

Reconheço que, em alguns casos, minhas opiniões tiveram tendências deploráveis; mas tenho a convicção de que, em outros aspectos, tiveram o seu lado bom. Elas chegaram a reerguer várias almas que estavam degradadas na escravidão; elas quebraram as cadeias do pensamento e deram asas às grandes aspirações. Mas, ah! eu também, que planava tão alto, perdi-me como os outros.

Se em mim a parte espiritual estivesse tão desenvolvida quanto a parte material, raciocinaria com mais discernimento; mas confundindo-as, perdi de vista essa imortalidade da alma que eu procurava, e que não pedia mais do que encontrar; também, dominado que estava com a minha luta com o mundo, com isso cheguei, quase apesar de mim, a negar a existência de um futuro. A oposição que eu fazia às tolas opiniões e à cega credulidade dos homens, impeliam-me a negá-lo ao mesmo tempo, e a contrapor todo o bem que a religião cristã poderia fazer. Entretanto, por infiel que fosse, sentia que era superior aos meus adversários; sim, bem além da importância de sua inteligência; a bela face da Natureza revelava-me o Universo, inspirava-me o sentimento de uma vaga veneração, misturado ao desejo de uma liberdade ilimitada, sentimento que jamais estes experimentaram, agachados que estavam nas trevas da escravidão.

Minhas obras têm, portanto, seu lado bom, porque sem elas o mal que viria para a Humanidade poderia ser pior, sem oposição nenhuma. Vários homens não quiseram mais a sua subjugação; muitos deles se libertaram, e se o que eu preguei lhes deu um único pensamento elevado, ou lhes fez dar um único passo no caminho da ciência, não foi abrirlhes os olhos quanto à sua verdadeira condição? O que eu lamento é ter vivido tanto tempo na Terra sem saber o que poderia ser, e o que poderia fazer. O que eu não faria, se fosse abençoado com as luzes do Espiritismo, que despertam hoje no Espírito dos homens!

Incrédulo e incerto entrei no mundo dos Espíritos. Só minha presença bastava para banir todo vislumbre de luz que pudesse esclarecer minha alma obscurecida; fora a parte material de meu ser que se desenvolveu na Terra; quanto à parte espiritual, ela se perdera no meio de meus descaminhos procurando a luz; ela se achava presa como numa jaula de ferro. Altivo e zombador, eu aí iniciava, não conhecendo, nem me importando em conhecer, esse futuro que tanto combatera quando no corpo. Mas fazemos aqui esta confissão: sempre encontrei, em minha alma, uma pequena voz que se fazia ouvir através das barreiras materiais, e que pedia a luz. Era uma luta incessante entre o desejo de saber e uma obstinação em não saber. Assim, pois, minha entrada ficou longe de ser agradável, não vinha descobrir a falsidade, a coisa nenhuma das opiniões que sustentara com toda a força de minhas faculdades? O homem se achava imortal, afinal de contas, eu não poderia deixar de ver e deveria existir um Deus, um Espírito imortal, que estava acima e que governava esse espaço ilimitado que me rodeava.

Como eu viajasse sem cessar, sem me conceder nenhum repouso, a fim de me convencer que isso poderia muito bem, ainda, ser um mundo material, ali onde eu estava, minha alma lutou contra a verdade que me esmagava! Não pude me realizar como Espírito que acabara de deixar sua morada mortal! Não tive aí ninguém com quem pudesse entabular relações, porque recusara a imortalidade a todos. Não existia repouso para mim: eu estava sempre errante e incerto; o Espírito em mim, tenebroso e amargo, talhado do maníaco, impossibilitado de seguir alguma coisa ou deter-se.

Foi, eu o digo, zombador e desconfiado que abordei o mundo espírita. Primeiro fui conduzido para longe das habitações dos Espíritos, e percorri o espaço imenso. Em seguida, me foi permitido lançar os olhos sobre as construções maravilhosas das moradas espíritas e, com efeito, elas me pareceram surpreendentes; fui impelido, aqui e ali, por uma força irresistível; tive que ver, e ver até que minha alma transbordasse pelos esplendores, e derrotada diante do poder que controlava tais maravilhas. Enfim, quis me esconder e me agachar no oco das rochas, mas não pude.

Foi nesse momento que meu coração começou a sentir a necessidade de se expandir; uma associação qualquer tornou-se urgente, porque eu queimava para dizer o quanto fora induzido ao erro, não por outros, mas pelos meus próprios sonhos. Não me restava mais a ilusão quanto à minha importância pessoal, porque eu não sentia senão muito o quanto era pouca coisa nesse grande mundo dos Espíritos. Estava, enfim, de tal modo caído de desgosto e de humilhação, que me foi permitido juntar-me a alguns dos habitantes. Foi dali que pude contemplar a posição que me fizera na Terra, e o que disso resultou, para mim no mundo espírita. Eu vos deixo o acreditar se essa apreciação foi-me risonha.

Uma revolução completa, um transtorno total ocorreu no meu organismo espírita, e professor que fora, tornei-me o mais ardente aluno. Com a expansão intelectual que trazia comigo, quanto progresso fiz! Minha alma se sentia iluminada e abraçada pelo amor divino; suas aspirações rumo à imortalidade, de comprimidas que estavam, tomaram impulsos gigantescos. Eu via o quanto meus erros foram grandes, e o quanto a reparação a fazer deveria ser grande para expiar tudo o que fizera ou dissera, que pudera seduzir e enganar a Humanidade. Como são magníficas essas lições da sabedoria e da beleza celestes! Elas ultrapassam tudo o que imaginara na Terra.

Em resumo, vivi bastante para reconhecer, na minha existência terrestre, uma guerra encarniçada entre o mundo e a minha natureza espiritual. Lamentei profundamente as opiniões que promulguei e que deveram desencaminhar muitos do mundo; mas, ao mesmo tempo, foi penetrado de gratidão pelo Criador, o infinitamente sábio, que eu me sinto haver sido um instrumento com ajuda do qual os Espíritos dos homens puderam se portar na direção do exame e do progresso.

Nota. Não acrescentaremos nenhuma reflexão nesta comunicação, da qual cada um apreciará a profundeza e alta importância e onde se encontra toda a superioridade do gênio. Nunca talvez um quadro mais grandioso e mais impressionante foi dado do mundo espírita, e da influência das idéias terrestres sobre as idéias de além-túmulo. Na conversa que publicamos no nosso último número, encontramos o mesmo fundo de pensamentos, embora menos desenvolvidos e, sobretudo, menos poeticamente exprimidos. Aqueles que não se apegam senão à forma dirão, sem dúvida, que não reconhecem o mesmo Espírito nessas duas comunicações, e que a última, sobretudo, não lhes pareça à altura de Voltaire; de onde concluirão que uma das duas não é dele.

Seguramente, quando nós o chamamos, ele não nos trouxe sua certidão de nascimento, mas quem veja abaixo da superfície, será tocado pela identidade de vistas e de princípios que existe entre essas duas comunicações, obtidas em épocas diversas, a uma tão grande distância, e em línguas diferentes. Se o estilo não for o mesmo, não há contradição no pensamento, e é o essencial. Mas se foi o mesmo Espírito que falou nessas duas comunicações, por que foi tão explícito, tão poético numa, ao passo que foi tão lacônico, tão vulgar na outra? Fora preciso não estudar os fenômenos espíritas para disso não se dar conta. Isso prende-se à mesma causa que faz que o mesmo Espírito dê formosas poesias por um médium, e não possa ditar um único verso por um outro. Conhecemos médiuns que não são poetas, pelo menos do mundo, e que obtêm versos admiráveis, como há outros que jamais aprenderam a desenhar e que fazem em desenho coisas maravilhosas. É necessário, pois, reconhecer que, abstração feita das qualidades intelectuais, há nos médiuns aptidões especiais que os tornam, para certos Espíritos, instrumentos mais ou menos flexíveis, mais ou menos cômodos. Dizemos para certos Espíritos, porque os Espíritos têm também suas preferências, fundadas sobre razões que nem sempre conhecemos; assim, o mesmo Espírito será mais ou menos explícito, segundo o médium que lhe sirva de intérprete, e sobretudo segundo o hábito que tem dele servir-se; porque é certo, por outro lado, que um Espírito que se comunica freqüentemente pela mesma pessoa o faz com maior facilidade que aquele que vem pela primeira vez. O impulso do pensamento, portanto, pode ser entravado por uma multidão de causas, mas quando é o mesmo Espírito, o fundo do pensamento é o mesmo, embora a forma seja diferente, e o observador um pouco atento reconhece-lo-á facilmente em certos traços característicos. Narraremos, a esse respeito, o fato seguinte:

O Espírito de um soberano, que desempenhou no mundo um papel importante, chamado em uma de nossas reuniões, iniciou por ato de cólera rasgando o papel e quebrando o lápis. Sua linguagem esteve longe de ser benevolente, porque se achava humilhado por vir entre nós, e perguntou se acreditávamos que ele deveria se abaixar para nos responder. Conviu, entretanto, que, se o fazia, era como constrangido e forçado por uma força superior à sua; mas se isso dependesse dele não o faria. Um dos nossos correspondentes da África, que não tinha nenhum conhecimento do fato, escreveu-nos que, em uma reunião da qual fazia parte, quiseram evocar o mesmo Espírito. Sua linguagem foi sob todos os pontos idêntica: “Credes, disse ele, que se fosse voluntariamente, viria aqui, nesta casa de negociantes, que talvez um dos meus súditos não gostaria de morar? Eu não vos respondo; isso me lembra meu reino onde era tão feliz; eu tinha autoridade sobre todas as minhas gentes, agora é necessário que eu seja submisso.” O Espírito de uma rainha que, durante sua vida, não se distinguiu pela bondade, respondeu no mesmo círculo: “Não me interrogueis mais, pois me aborreceis; se tivesse ainda o poder que tive na Terra, vos faria muito se arrependerem, mas zombais de mim, da minha miséria, agora que não posso nada sobre vós; sou bem infeliz!” – Não está aí um curioso estudo de costumes espíritas?

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