Um Espírito Servidor

Revista Espírita, agosto de 1859

Extraímos as passagens seguintes da carta de um de nossos correspondentes de Bordeaux:

“Eis, meu caro senhor Allan Kardec, um novo relato de fatos muito extraordinários, e que vos submeto com o pedido de consentir verificá-los, evocando o Espírito que é o seu autor.

“Uma jovem senhora, que chamaremos senhora Mally, foi a pessoa por cujo intermédio ocorreram as manifestações que formam o assunto desta carta: Essa senhora mora em Bordeaux e tem três filhos.

“Desde a sua tenra idade, em torno de nove anos, ela teve visões. Uma noite, entrando em sua casa com a sua família, viu no ângulo de uma escada a forma muito distinta de uma tia morta há quatro ou cinco anos. Ela soltou uma exclamação: Ah! minha tia! E a aparição desapareceu. Dois anos depois, ela ouviu ser chamada por uma voz que acreditou reconhecer pela de sua tia, e tão fortemente que não pôde deixar de dizer:

Entrai, minha tia! Não se abrindo a porta, ela mesma foi abrir, e não vendo ninguém, desceu para junto de sua mãe para informar-se se alguém havia subido.

“Depois de alguns anos, encontramos essa senhora de posse de um guia ou Espírito familiar, que parece encarregado de velar sobre sua pessoa e de seus filhos, e que faz uma multidão de pequenos serviços na casa, entre outros o de despertar os doentes, à hora fixada, para tomar a tizana, ou aqueles que querem partir; ou bem, para certas manifestações, ele realça o moral. Esse Espírito tem um caráter pouco sério; entretanto, ao lado de marcas de leviandade, ele deu provas de sensibilidade e afeição. A senhora Mally o vê comumente sob a forma de uma chama, ou de uma grande claridade; mas ele se manifesta aos seus filhos sob uma forma humana. Uma sonâmbula pretende ter-lhe dado esse guia, sobre o qual parece ter influência. Quando a senhora Mally fica algum tempo sem se ocupar de seu guia, ele toma o cuidado de se fazer lembrar a ela por algumas visões mais ou menos desagradáveis. Uma vez, por exemplo, quando ela descia sem luz, percebeu sobre o patamar um cadáver coberto com um lençol e luminoso. Essa senhora tem uma grande força de caráter, como veremos mais tarde; todavia, não pôde defender-se de uma impressão penosa com essa visão; e, fechando vivamente a porta de seu quarto, ela afastou-se para o de sua mãe. Outras vezes, sentia-se puxada pelo seu vestido, ou relada como por uma pessoa ou algum animal, oprimindo-a.. Essas impertinências cessavam desde que ela dirigisse um pensamento ao seu guia, e, de sua parte, a sonâmbula repreendia este último e proibia-o de atormentá-la.

“Em 1856, a terceira filha da senhora Mally, com a idade de quatro anos, caiu doente, no mês de agosto. A criança estava constantemente mergulhada num estado de sonolência, interrompido por crises de convulsões. Durante oito dias, eu mesmo vi a criança parecendo sair do seu acabrunhamento, tomar um rosto sorridente e feliz e os olhos semi-fechados, sem olhar para aqueles que a cercavam, estender sua mão, com um gesto gracioso, como para receber alguma coisa, levar à boca e comer; depois agradecer com um sorriso encantador. Durante oito dias, a criança foi sustentada por essa alimentação invisível, e seu corpo retomara sua aparência de frescor habitual. Quando ela pôde falar, pareceu que ela saiu de um longo sono, e contou maravilhosas visões.

“Durante a convalescença da criança, pelo dia 25 de agosto, ocorreu, nessa mesma casa, a aparição de um agênere. Pelas dez e meia da noite, a senhora Mally, levando a pequena pela mão, descia uma escada de serviço, quando ela percebeu um indivíduo que subia. A escada estava perfeitamente iluminada pela luz da cozinha, de modo que a senhora Mally pôde muito bem distinguir o indivíduo, que tinha todas as aparências de uma pessoa vigorosamente constituída. Ambos chegados ao patamar ao mesmo tempo, encontraram-se face a face; era um jovem de rosto agradável, bem vestido, a cabeça coberta com um boné, e tendo à mão um objeto que ela não pôde distinguir. A senhora Mally, surpresa com esse encontro inesperado, a essa hora e numa escada, oculta, considerou-o sem dizer uma palavra e sem mesmo perguntar-lhe a que veio. O desconhecido, de seu lado, considerou-a um momento em silêncio, depois girou nos calcanhares e desceu a escada esfregando as barras da rampa com o objeto que levava à mão e que fazia o mesmo ruído como se fora uma varinha. Apenas ele desapareceu e a senhora Mally se precipitou no quarto onde eu me encontrava nesse momento, e gritou que um ladrão estava na casa. Colocamo-nos à procura, ajudadas pelo meu cão; todos os cantos foram explorados; assegurou-se que a porta da rua estava fechada e que ninguém pôde se introduzir, e que, aliás, não se poderia fechar sem ruído; era pouco provável, de resto, que um malfeitor viesse numa escada iluminada e a uma hora na qual estava exposto a encontrar, a cada instante, as pessoas da casa; por outro lado, como o estranho se encontrara nesta escada que não serve ao público; e, em todos os casos, se se enganasse, teria dirigido a palavra à senhora Mally, ao passo que lhe voltou as costas e se foi tranqüilamente, como alguém que não tivesse pressa e nem estivesse embaraçado em seu caminho. Todas essas circunstâncias não puderam nos deixar dúvida sobre a natureza desse indivíduo.

“Esse Espírito se manifesta, freqüentemente, por ruídos tais como o de um tambor, golpes violentos no fogão da cozinha, golpes de pé nas portas que então se abrem sozinhas, ou um ruído semelhante ao de pedras que fossem lançadas contra as vidraças.

Um dia a senhora Mally estava na porta de sua cozinha, e viu a de um escritório em frente se abrir e se fechar, várias vezes, por uma mão invisível; outras vezes, estando ocupada em soprar o fogo, sentiuse puxada pelo seu vestido, ou quando subia a escada ou a agarrava pelo calcanhar. Várias vezes, escondeu suas tesouras e outros objetos de trabalho; depois, quando já tinha muito procurado, eram-lhe depositados sobre os joelhos. Um domingo, estava ocupada em introduzir um dente de alho numa perna de carneiro; de repente, ela sente arrancar-lho dos dedos; crendo haver deixado cair, procurou-o inutilmente; então, retomando a perna de carneiro, ela encontrou a casca picada em um buraco triangular, cuja pele estava rebaixada, como para mostrar que uma mão estranha a havia colocado ali, intencionalmente.

“A primogênita dos filhos da senhora Mally, com a idade de quatro anos, estando passeando com sua mãe, esta percebeu que sua filha conversava com um ser invisível, que parecia pedir-lhe bombons; a menina fechava a mão e dizia sempre:

– Eles são meus, compre-os se tu os queres.

A mãe admirada perguntou-lhe com quem falava.

– É, disse a criança, esse jovem que quer que lhe dê meus bombons.

– Quem é esse jovem? Perguntou a mãe.

– Esse jovem que está aqui, a meu lado.

– Mas eu não vejo ninguém.

– Ah! Ele partiu. Ele estava vestido de branco e todo frisado. “Uma outra vez, a pequena doente, de quem falei mais acima, divertia-se fazendo galinhas de papel. Mamãe! mamãe! disse ela, faça, pois, parar esse menino que quer pegar o meu papel.

– Quem? disse a mãe.

– Sim, esse menino que pegou o meu papel; e o menino se pôs a chorar.

– Mas onde está ele?

– Ah! Ei-lo que se foi para a esquina. Era um jovem todo negro. “Essa mesma jovem saltou um dia sobre a ponta dos pés e perdeu o fôlego, apesar da proibição de sua mãe, que temia que isso lhe fizesse mal. De repente, ela se deteve gritando: “Ah! o guia de mamãe!”

Perguntou-se-lhe o que isso significava; ela disse que viu um braço detê-la, quando ela saltava, e forçou-a a manter-se tranqüila. Acrescentou que não teve medo, e que em seguida pensou no guia de sua mãe. Os fatos desse gênero se renovam freqüentemente, mas tornaram-se familiares para as crianças, que não lhes concebem nenhum medo, porque o pensamento do guia de sua mãe lhes vem espontaneamente.

“A intervenção desse guia manifesta-se em circunstâncias mais sérias. A senhora Mally alugara uma casa com jardim na localidade de Caudéran. Essa casa estava isolada e cercada de vastas campinas; ela morava somente com seus três filhos e uma instrutora.

A comunidade, então, estava infestada de bandidos que cometiam depredações nas propriedades vizinhas, e tinham, naturalmente, manifestado preferência por uma casa que sabiam habitada por duas mulheres somente; assim, todas as noites, vinham pilhar e tentar forçar as portas e as janelas. Durante três anos, que a senhora Mally morou nessa casa, ela teve transes continuados mas, cada noite, ela se recomendava a Deus, e seu guia, depois de sua prece, manifestava-se sob a forma de uma centelha. Várias vezes, quando, durante a noite, os ladrões faziam suas tentativas de arrombamento, uma súbita claridade iluminava o quarto, e ela ouvia uma voz que lhe dizia: “Nada temais; eles não entrarão;” e, com efeito, jamais conseguiram penetrar. Contudo, para mais precaução ela munia-se de armas de fogo. Uma noite que os ouviu rondar, atirou sobre eles dois tiros de pistola que atingiram um deles, porque ela o ouviu gemer, mas no dia seguinte havia desaparecido. Esse fato foi contado nestes termos num jornal de Bordeaux:

“Foi-nos foi contado um fato que denota uma certa coragem da parte de uma jovem morando na comuna de Caudéran:

“Uma senhora que ocupa uma casa isolada nessa comuna tem com ela uma senhorita encarregada da educação de vários filhos.

“Essa dama fora numa das noites precedentes, vítima de uma tentativa de roubo. No dia seguinte concordou-se que se vigiaria, e que, se necessário, velar-se-ia durante a noite.

“O que foi convencionado foi feito. Por isso, quando os ladrões se apresentaram para arrematar sua obra da véspera, encontraram quem os recebesse. Somente tiveram a precaução de não mais estabelecer conversação com os habitantes da casa sitiada. A senhorita, da qual falamos, tendo-os ouvido, apressou-se em abrir a porta e dar um tiro de pistola que deveu atingir um dos ladrões, porque, no dia seguinte, encontrou-se sangue no jardim.

“Até aqui não se descobriu os autores dessa segunda tentativa.” “Não falarei senão por memória de outras manifestações que ocorreram nessa mesma casa de Caudéran, durante a estada dessas senhoras. Durante a noite, freqüentemente, ouviam-se ruídos estranhos, semelhantes ao de bolas rolando sobre as tábuas, ou madeiras da cozinha lançadas por terra e, todavia, pela manhã tudo estava numa ordem perfeita.

“Podeis, senhor, se julgardes a propósito, evocar o guia da senhora Mally e interrogá-lo sobre as manifestações que acabo de vos fornecer. Podeis, notadamente, perguntar-lhe se a sonâmbula que pretendeu dar esse guia tinha o poder de retomá-lo, e se ele se retiraria no caso em que esta viesse a morrer………….”

Espirito servidor

Pneumatografia ou escrita direta

Revista Espírita, agosto de 1859

A Pneumatografia é a escrita produzida diretamente pelo Espírito, sem nenhum intermediário; ela difere da Psicografia no fato de que esta é a transmissão do pensamento do Espírito, por meio da escrita, pelas mãos de um médium. Demos essas duas palavras no Vocabulário Espírita colocado à entrada de nossa Instrução prática, com a indicação de sua diferença etimológica. Psicografia, do grego psuikê, borboleta, alma, e graphó, eu escrevo; pneumatografia, de pneuma, ar, sopro, vento, espírito. No médium escrevente, a mão é o instrumento; mas sua alma, ou Espírito encarnado nele, é o intermediário, o agente ou o intérprete do Espírito estranho que se comunica; na Pneumatografia, é o próprio Espírito estranho que escreve diretamente, sem intermediário.

O fenômeno da escrita direta, sem contradita, é um dos mais extraordinários do Espiritismo, por anormal que pareça à primeira vista, é hoje um fato averiguado e incontestável; se dele ainda não falamos, foi porque esperávamos poder dar-lhe a explicação, e nós mesmos podermos fazer todas as observações necessárias, para tratar a questão com conhecimento de causa. Se a teoria é necessária, para dar-se conta da possibilidade dos fenômenos espíritas em geral, ela o é mais ainda, talvez, neste caso, sem contradita, um dos mais estranhos que se apresentara, mas que deixa de ser sobrenatural desde que se lhe compreenda o princípio. À primeira revelação desse fenômeno, o sentimento dominante foi o de dúvida; a idéia de uma fraude veio logo ao pensamento; com efeito, todo o mundo conhecia a ação das tintas, ditas simpáticas, cujos traços, de início completamente invisíveis, apareciam ao cabo de algum tempo. Poderia, portanto, ocorrer que se abusasse da credulidade, e nós não afir remos que jamais se haja feito; estamos mesmo convencidos de que certas pessoas, não com um objetivo mercenário, mas unicamente por amor próprio e para fazer crer em seu poder, empregaram subterfúgios.

J.J. Rousseau narra o fato seguinte na terceira das cartas escritas da Montagne: “Eu vi em Veneza, em 1743, um modo de sorte bastante novo, e mais estranho que os de Prèneste; aquele que queria consultá-las, entrava num quarto, e aí permanecia, só se o desejasse.

Ali, de um livro cheio de folhas brancas, dele tirava uma à sua escolha; depois, segurando nessa folha, ele pedia não em voz alta mas mentalmente, o que queria saber; em seguida, ele dobrava a folha branca, a envelopava, escondia-a, colocava-a em um livro também oculto; enfim, depois de recitar certas fórmulas, muito barrocas, sem perder seu livro de vista, ia tirar-lhe o papel, reconhecer a marca, abri-lo, e encontrar sua resposta escrita.

“O mágico que fazia essas sortes era o primeiro secretário da embaixada de França, e ele se chamava J.J. Rousseau.”

Duvidamos que Rousseau haja conhecido a escrita direta, de outro modo saberia muitas outras coisas com respeito às manifestações espíritas, e não teria tratado a questão tão levianamente; é provável, como ele mesmo reconheceu quando o interrogamos sobre esse fato, que empregou um procedimento que lhe ensinara um charlatão italiano.

Mas pelo fato de que se pode imitar uma coisa, seria absurdo disso concluir que a coisa não existe. Não se encontrou, nos últimos tempos, um meio de imitar a lucidez sonambúlica ao ponto de iludir? E do fato que esse procedimento de saltimbanco correu todas as feiras, é necessário concluir que não haja verdadeiros sonâmbulos? Por que certos mercadores vendem vinho adulterado, isso é uma razão para que não haja vinho puro? Ocorre o mesmo com a escrita direta; as precauções para se assegurar da realidade do fato sendo, aliás, bem simples e bem fáceis e, graças a essas precauções, não se pode hoje objetar-lhe nenhuma dúvida.

Uma vez que a possibilidade de escrever sem intermediário é um dos atributos do Espírito, que os Espíritos existiram de todos os tempos, e de todos os tempos, também, produziram os diversos fenômenos que conhecemos, igualmente deveram produzir a escrita direta, na antigüidade tão bem quanto em nossos dias; assim é que se pode explicar a aparição de três palavras na sala do festim de Baltazar. A Idade Média, tão fecunda em prodígios ocultos, mas que foram abafados sob as fogueiras, deveu conhecer também a escrita direta, e talvez encontrou, na teoria das modificações que os Espíritos podem operar sobre a matéria, e que reportamos no nosso artigo precedente, o princípio da transmutação dos metais; é um ponto que trataremos algum dia.

Um de nossos assinantes dizia-nos recentemente que um de seus tios, cônego, que fora missionário no Paraguai durante muitos anos obtia, por volta do ano de 1800, a escrita direta conjuntamente com seu amigo, o célebre abade Faria. Seu procedimento, que nosso assinante jamais conheceu bem, e que, de alguma sorte, havia surpreendido furtivamente, consistia numa série de anéis suspensos, aos quais eram adaptados os lápis verticais, cuja ponta repousava sobre o papel. Esse procedimento ressente-se da infância da arte; fizemos progressos depois. Quaisquer que sejam os resultados obtidos em diversas épocas, não foi senão depois da vulgarização das manifestações espíritas, que é seriamente considerada a questão da escrita direta. O primeiro que parece tê-la feito conhecer em Paris, nos últimos anos, foi o senhor barão de Guldenstubbe, que publicou sobre esse assunto uma obra muito interessante, contendo um grande número de fac símiles de escritas que obteve (1). ((1) A realidade dos Espíritos e de suas manifestações, demonstrada pelo fenômeno da escrita direta. Pelo senhor barão de Guldenstubbe; 1 vol. – in 8, com 15 pranchas e 93 fac-similes. Preço 8 fr. casa Frank, Rua Richelieu. Encontra-se também na casa Dentu e Ledoyen. ) O fenômeno já era conhecido na América há algum tempo. A posição social do senhor de Guldenstubbe, sua independência, a consideração que gozava no mundo mais elevado, afastam incontestavelmente toda suspeição de fraude voluntária, porque ele não pôde moverse por algum motivo de interesse. Poder-se-ia, quando muito, crer que ele mesmo era o joguete de uma ilusão; mas a isso um fato responde peremptoriamente, que é a obtenção do mesmo fenômeno por outras pessoas, cercando-se de todas as precauções necessárias para evitar toda a fraude e toda causa de erro.

A escrita direta se obtém, como em geral a maioria das manifestações espíritas não espontâneas, pelo recolhimento, a prece e a evocação. Ela tem sido obtida, freqüentemente, nas igrejas, sobre os túmulos, ao pé das estátuas ou de imagens de personagens que são chamadas; mas é evidente que a localidade não tem outra influência senão a de provocar o maior recolhimento, e a maior concentração do pensamento; porque está provado que são obtidas, igualmente, sem esses acessórios, e nos lugares mais vulgares, sobre um simples móvel doméstico, encontrando-se nas condições morais desejadas, e se lhe une a faculdade medianímica necessária

No princípio, pretendia-se que era necessário depositar um lápis com o papel; os fatos, então, podiam se explicar até um certo ponto. Sabe-se que os Espíritos operam o movimento e o deslocamento de objetos; que eles os tomam e os lançam, algumas vezes, no espaço; poderiam, pois, muito bem tomar o lápis e dele se servirem para traçarem caracteres; uma vez que lhe dão o impulso por intermédio da mão do médium, de uma prancheta, etc., poderiam igualmente fazê-lo de um modo direto. Mas não se tardou a reconhecer que a presença do lápis não era necessária, e que bastava um pedaço de papel, dobrado ou não, sobre o qual se encontram, depois de alguns minutos, caracteres traçados. Aqui o fenômeno muda completamente de face e nos lança numa ordem de coisas inteiramente novas; esses caracteres foram traçados com uma substância qualquer; do momento, que não se forneceu essa substância ao Espírito, ele a fez, portanto, ele mesmo a criou; onde a hauriu? Aí estava o problema. O senhor general russo, conde de B…, mostrou-nos uma estrofe de dez versos alemães que obteve desse modo, por intermédio da irmã do barão de Guldenstubbe, colocando muito simplesmente uma folha de papel, destacada de sua própria caderneta, sob o pedestal da pêndula da chaminé. Tendo-o retirado, ao cabo de alguns minutos, encontrou esses versos em caracteres tipográficos alemães bastante finos e de uma perfeita pureza. Por intermédio de um médium escrevente, o Espírito disse-lhe para queimar esse papel; como ele hesitou, lamentando sacrificar esse precioso espécime, o Espírito acrescentou:

Nada tema, dar-te-ei um outro. Com esta segurança, ele lançou o papel ao fogo, depois colocou uma segunda folha igualmente tirada de sua caderneta, sobre a qual os versos se acharam reproduzidos exatamente do mesmo modo. Foi esta segunda edição, que vimos e examinamos com o maior cuidado, e, coisa bizarra, os caracteres apresentavam um relevo como se eles saíssem da imprensa. Não é, pois, somente com lápis que os Espíritos podem fazer, mas com tinta e caracteres de imprensa.

Um dos nossos honoráveis colegas da Sociedade, o senhor Didier, obteve estes dias os resultados seguintes, que nós mesmos constatamos, e dos quais podemos garantir a perfeita autenticidade. Tendo ido, com a senhora Hüet, que há pouco teve êxito em ensaios desse gênero, na igreja de Notre-Dame dês Victoires, tomou uma folha de papel de carta trazendo o cabeçalho de sua casa de comércio, dobrou em quatro e a depositou sobre os degraus de um altar, pedindo em nome de Deus a um bom Espírito qualquer que quisesse escrever alguma coisa; ao cabo de dez minutos de recolhimento, encontrou, no interior e sobre uma das folhas a palavra fé, e sobre uma outra folha a palavra Deus.

Tendo em seguida pedido ao Espírito consentir dizer por quem isso fora escrito, ele recolocou o papel, e depois de dez outros minutos, encontrou estas palavras: por Fénelon.

Oito dias mais tarde, em 12 de julho, ele quis renovar a experiência e foi, para esse efeito, ao Louvre na sala Coyzevox, situada sob o pavilhão do relógio. Sobre o pé do busto de Bossuet colocou uma folha de papel de carta dobrada como da primeira vez, mas não obteve nada. Um jovem de cinco anos acompanhava-o, e depositou-se o boné do menino sobre o pedestal da estátua de Luís XIV, que se encontra a alguns passos. Crendo a experiência falha, dispôsse a retirar, quando pegando o boné encontrou embaixo, e como escrito a lápis sobre o mármore, as palavras amai-Deus, acompanhadas da letra B.

O primeiro pensamento dos assistentes foi que estas palavras poderiam ter sido escritas anteriormente por uma mão estranha, e que nelas não havia nada de notável; não obstante, quis-se tentar a prova, colocou-se a folha dobrada sobre essas palavras, e o todo foi recoberto pelo boné. Ao cabo de alguns minutos, encontraram-se sobre uma das folhas estas três letras: a / m; recolocado o papel com o pedido de aperfeiçoar, obteve-se Amai-a-Deus, quer dizer o que fora escrito no mármore, menos o B. Ficou evidente, depois disso, que as primeiras palavras traçadas deveram-se à escrita direta. Disso ressaltou o fato curioso que as letras foram traçadas sucessivamente e não de um só golpe e que quando da primeira inspeção as palavras não tiveram tempo para serem acabadas. Saindo do Louvre, o senhor D… foi para Saint-Germain TAuxerrois onde obteve, pelo mesmo procedimento, as palavras: Sede humildes. Fénelon, escritas de um modo muito nítido e muito legível. Ainda se podem ver as palavras acima escritas sobre o mármore da estátua da qual acabamos de falar.

A substância, das quais esses caracteres estão formados, tem toda a aparência do grafite, e se apaga facilmente com a borracha; examinamo-la ao microscópio, e constatamos que ela não está incorporada ao papel, mas simplesmente depositada sobre a superfície, de modo irregular, sobre as asperezas, formando arborescências bastante semelhantes às de certas cristalizações. A parte apagada pela borracha deixa perceber camadas de matéria negra introduzidas nas pequenas cavidades das rugosidades do papel.

Destacadas estas camadas, e erguidas com cuidado, são a própria matéria que se produziu durante a operação. Lamentamos que a pequena quantidade recolhida não nos haja permitido fazer-lhe a análise química; mas não nos desesperamos de a isso chegar um dia.

Querendo-se agora reportar-se ao nosso artigo precedente, encontrar-se-á nele a explicação completa desse fenômeno. Nesse escrito, o Espírito não se serve de nossas substâncias, nem de nossos instrumentos; ele mesmo criou as substâncias e os instrumentos de que teve necessidade, tirando esses materiais do elemento primitivo universal ao qual fez sofrer, por sua vontade, as modificações necessárias ao efeito que quis produzir. Pode, portanto, tão bem fazer a tinta de impressão ou a tinta comum do lápis, até mesmo caracteres tipográficos bastante resistentes para dar um relevo à impressão.

Tal é o resultado ao qual nos conduziu o fenômeno da tabaqueira, reportado no nosso artigo precedente, e sobre o qual nos estendemos longamente, porque vimos aí a ocasião de sondar umas das leis mais importantes do Espiritismo, lei cujo conhecimento pode esclarecer mais de um mistério, mesmo do mundo visível. Foi assim que, de um fato vulgar em aparência, pôde jorrar a luz; tudo é observar com cuidado, e isso cada um pode fazer, como nós, quando não se limitar a ver efeitos sem procurar-lhes as causas. Se nossa fé se afirma, dia a dia, é porque compreendemos; fazei, pois, compreender, se desejais fazer prosélitos sérios. A inteligência das causas tem um outro resultado, que é o de traçar uma linha de demarcação entre a verdade e a superstição.

Se considerarmos a escrita direta do ponto de vista das vantagens que ela pode oferecer, diremos que, até o presente, sua principal utilidade foi a constatação material de um fato importante: a intervenção de uma força oculta que encontra aí um novo meio de se manifestar. Mas as comunicações assim obtidas raramente são de alguma extensão; geralmente são espontâneas e limitadas a palavras, sentenças, freqüentemente sinais ininteligíveis; foram obtidas em todas as línguas, em grego, em latim, em siríaco, em caracteres hiéroglifos, etc., mas ainda não se prestam a essas conversas seguidas e rápidas que permitem a psicografia ou escrita pelos médiuns.

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Mobiliário de além-túmulo

Revista Espírita, agosto de 1859

Extraímos a passagem seguinte de uma carta que nos foi endereçada do departamento do Jura, por um dos correspondentes da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

“… Eu vos disse, Senhor, que a nossa antiga habitação era amada pelos Espíritos. No mês de outubro último (1858), a senhora condessa de C., amiga íntima de minha filha, veio passar alguns dias em nosso solar com seu filhinho, de oito anos de idade. Deitou-se a criança no mesmo apartamento de sua mãe; a porta que dava de seu quarto para o de minha filha foi deixada aberta para poder prolongar as horas do dia e conversar. A criança não dormia, e dizia à sua mãe: “Que faz, pois, esse homem sentado ao pé de vossa cama? Ele fuma um grande cachimbo; vede como ele enche vosso quarto de fumaça; portanto, mandai-o embora; ele sacode vossas cortinas.” Essa visão durou toda a noite; a mãe não pôde fazer a criança calar, e ninguém pôde fechar os olhos. Essa circunstância não espantou nem a minha filha e nem a mim, que sabemos o que ocorre nas manifestações espíritas; quanto à sua mãe, ela acreditava que seu filho sonhava acordado, ou se divertia.

“Eis um outro fato, que me é pessoal, e que me ocorreu nesse mesmo apartamento, no mês de maio de 1858; foi a aparição do Espírito de um vivo, que ficou muito espantado depois de ter me visitado; eis em que circunstância: Eu estava muito doente e não dormia há muito tempo, quando vi, às dez horas da noite, um amigo de minha família sentado perto da minha cama. Testemunhei-lhe minha surpresa pela sua visita a essa hora. Ele me disse: Não faleis, vim velar-vos; não faleis, é necessário que possais dormir;” e estendeu a sua mão sobre a minha fronte. Várias vezes reabri os olhos para ver se estava ali ainda, e cada vez me fazia sinal para fechá-los e calar-me. Ele rolava sua tabaqueira em seus dedos e, de tempo em tempo, tomava uma pitada, como tinha hábito de fazê-lo. Adormeci, enfim, e no meu despertar a visão havia desaparecido. Diferentes circunstâncias me deram a prova de que, no momento dessa visita inesperada eu estava perfeitamente desperto e que isso não fora um sonho. Em sua primeira visita, apressei-me em agradecer-lhe; ele levava a mesma tabaqueira, e escutando-me, tinha o mesmo sorriso de bondade que eu notara nele enquanto me velava. Como ele me afirmou que não viera, o que de resto não tive dificuldade em crer, porque não houvera nenhum motivo que pudesse convidá-lo a vir em semelhante hora e a passar a noite junto a mim, compreendi que só seu Espírito não se dera conta da visita, enquanto seu corpo repousava tranqüilamente em sua casa.”

Os fatos de aparição são de tal modo numerosos, que nos seria impossível registrar todos aqueles que conhecemos e dos quais temos fontes perfeitamente autênticas. De resto, hoje quando esses fatos são explicados, quando se dá conta exatamente do modo que se produzem, sabe-se que entram nas leis da Natureza e, desde então, nada têm mais de maravilhosos. Já demos deles a teoria completa, não faremos senão lembrá-la, em poucas palavras, para compreensão do que vai seguir-se.

Sabe-se que além do envoltório exterior, o Espírito tem um segundo, semi-material, que chamamos perispírito. A morte não é senão a destruição do primeiro. O Espírito, em seu estado errante, conserva o perispírito que constitui uma espécie de corpo etéreo, invisível para nós no estado normal. Os Espíritos povoam o espaço, e se, num momento dado, o véu que no-los oculta viesse a se levantar, veríamos uma inumerável população se agitar ao nosso redor e percorrer os ares; vê-la-íamos, sem cessar, aos nossos lados observando-nos e, freqüentemente, misturando-se às nossas ocupações e aos nossos prazeres, segundo o seu caráter. A invisibilidade não é uma propriedade absoluta dos Espíritos; a miúdo, se nos mostram sob a aparência que tiveram em sua vida, e existem poucas pessoas que, evocando suas lembranças, não têm o conhecimento de algum fato desse gênero. A teoria dessas aparições é muito simples e se explica por uma comparação que nos é muito familiar, a do vapor que, quanto está muito rarefeito, é completamente invisível; um primeiro grau de condensação torna-o enevoado; quanto mais condensado passa ao estado líquido, depois ao estado sólido. Opera-se alguma coisa análoga pela vontade do Espírito na substância do perispírito; isso não é, de resto, como dissemos, senão uma comparação e não uma assimilação que pretendêssemos estabelecer; servimo-nos do exemplo do vapor pata mostrar as mudanças de aspecto que pode sofrer um corpo invisível, mas com isso não inferimos que haja no perispírito uma condensação, no sentido próprio da palavra. Opera-se, em sua contextura, uma modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível, e pode dar-lhe, até um certo ponto, as propriedades dos corpos sólidos. Sabemos que corpos perfeitamente transparentes tornam-se opacos por uma simples mudança na posição das moléculas, ou pela adição de um outro corpo igualmente transparente. Não sabemos exatamente como opera o Espírito para tornar visível seu corpo etéreo; a maioria mesmo, entre eles, disso não se dá conta, mas, pelos exemplos que citamos, concebemos sua possibilidade física, e isso basta para tirar, desse fenômeno, o que haja de sobrenatural à primeira vista. O Espírito pode, pois, operá-lo, seja por uma simples modificação íntima, seja assimilando uma porção de fluido estranho que muda momentaneamente o aspecto de seu perispírito; essa última hipótese é mesmo a que ressalta das explicações que nos foram dadas, e que relatamos ao tratar desse assunto. (Maio, junho e dezembro.)

Até aqui não há nenhuma dificuldade no que concerne à personalidade do Espírito, mas sabemos que ele se apresenta com vestimentas das quais muda o aspecto à vontade; freqüentemente mesmo, têm certos acessórios de toucador, tais como jóias, etc. Nas duas aparições que citamos no começo, uma tinha um cachimbo e produzia a sua fumaça; a outra tinha uma tabaqueira e portava-a; e notai bem o fato que esse Espírito era o de uma pessoa viva, que sua tabaqueira era em tudo semelhante àquela da qual se servia habitualmente e que ficara em sua casa. O que são essa tabaqueira, esse cachimbo, essas vestimentas, essas jóias? Os objetos materiais que existem sobre a Terra teriam sua representação etérea no mundo invisível? A matéria condensada que forma esses objetos teria uma parte quintessenciada que escapa aos nossos sentidos? Aí está um imenso problema, cuja solução pode dar a chave de uma multidão de coisas até agora inexplicadas, e foi a tabaqueira em questão que nos colocou no caminho não só desse fato, mas do fenômeno mais extraordinário do Espiritismo: o da pneumatografia ou escrita direta, do qual falaremos a todo instante.

Se alguns críticos nos censuram ainda pelo fato de irmos muito antes na teoria, dir-lhes-emos que, quando encontramos uma ocasião de avançar, não vemos porque seríamos obrigados a permanecer atrás. Se estão ainda no ponto de ver girar as mesas sem saberem porque elas giram, isso não é uma razão para deter-nos no caminho. O Espiritismo é, sem dúvida, uma ciência de observação, mas é mais ainda, talvez, uma ciência de raciocínio; o raciocínio é o único meio de fazê-lo avançar e triunfar de certas resistências. Tal fato é contestado unicamente porque não é compreendido; a explicação lhe tira todo o caráter maravilhoso e o fato reentra nas leis gerais da Natureza Eis porque vemos, todos os dias, pessoas que nada viram e que crêem, unicamente porque compreendem; ao passo que outras viram e não crêem, porque não compreendem.

Fazendo o Espiritismo entrar na via do raciocínio, tornamo-lo aceitável para aqueles que querem dar-se conta do por quê e do como de cada coisa, e seu número é grande neste século, porque a crença cega não está mais nos nossos costumes; ora, não fizéssemos senão indicar o caminho, teríamos a consciência de haver contribuído para o progresso desta ciência nova, objeto de nossos estudos constantes. Voltemos à nossa tabaqueira.

Todas as teorias que demos, com relação ao Espiritismo, nos foram fornecidas pelos Espíritos, e, muito freqüentemente, contrariaram as nossas próprias idéias, como isso ocorreu no caso presente, prova que as respostas não eram o reflexo do nosso pensamento. Mas o meio de obter uma solução não é coisa indiferente; sabemos, por experiência, que não basta pedir bruscamente uma coisa para obtê-la; as respostas não são sempre suficientemente explícitas; é necessário pedir o desenvolvimento com certas precauções, chegar ao objetivo gradualmente e pelo encadeamento de deduções que necessitam um trabalho preliminar. Em princípio, o modo de formular as perguntas, a ordem, o método e a clareza são coisas que não se devem negligenciar, e que agradam aos Espíritos sérios, porque vêem nelas um objetivo sério.

Eis a conversa que tivemos com o Espírito de São Luís, a propósito da tabaqueira, e tendo em vista chegar à solução do problema da produção de certos objetos no mundo invisível.

(Sociedade, 24 de junho de 1859.)

1. No relato da senhora R…, há a questão de uma criança que viu, junto ao leito de sua mãe, um homem fumando num grande cachimbo. Concebe-se que esse Espírito poderia tomar a aparência de um fumante, mas parece que ele fumava realmente, uma vez que a criança viu o quarto cheio de fumaça. Que era essa fumaça? – R. Uma aparência produzida pela criança

2. A senhora R…, cita igualmente um caso de aparição, que lhe foi pessoal, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma tabaqueira e portava-a. Experimentava a sensação que se tem pegando-a? – R. Não.

3. Essa tabaqueira tinha a forma da que se serve habitualmente e que estava em sua casa. Que era essa tabaqueira entre as mãos desse Espírito? – R. Sempre aparência; foi porque a circunstância fez notar como ela era, e que a aparição não foi tomada por uma alucinação produzida pelo estado de saúde do vidente. O Espírito queria que essa senhora cresse na . realidade de sua presença; tomou todas as aparências da realidade.

4. Dissestes que foi uma aparência; mas uma aparência nada tem de real, é como uma ilusão de ótica Eu queria saber se essa tabaqueira não era senão uma imagem sem realidade, como aquela, por exemplo, de um objeto que se faz refletir numa vidraça?

(O senhor Sanson, um dos membros da Sociedade observou que, na imagem reproduzida pelo espelho, há alguma coisa de real; se ela ali não está, é porque ninguém a fixa; mas se ela se põe sobre a placa de daguerreotipia, aí deixa uma impressão, prova evidente que é produzida por uma substância qualquer, e que não é só uma ilusão de ótica.)

A observação do senhor Sanson é perfeitamente justa. Poderíeis ter a bondade de nos dizer se há alguma analogia com a tabaqueira quer dizer, se nessa tabaqueira há alguma coisa de material? – R. Certamente; é com a ajuda desse princípio material que o perispírito toma a aparência de vestimentas semelhantes àquelas que o Espírito usava em sua vida.

Nota. – Evidentemente, é necessário entender aqui a palavra aparência, no sentido de imagem, imitação. A tabaqueira real não estava ali; a que o Espírito portava não era senão a reprodução: Era, pois, uma aparência comparada à original, embora formada de um princípio material.

A experiência nos ensina que não é necessário tomar ao pé da letra certas expressões empregadas pelos Espíritos; interpretando-as segundo as nossas idéias, nos expomos a grandes equívocos, por isso é necessário aprofundar o sentido de suas palavras todas as vezes que apresentem a menor ambigüidade; é uma recomendação que nos fazem constantemente os Espíritos. Sem a explicação que provocamos, a palavra aparência, constantemente reproduzida em casos análogos, poderia dar lugar a uma falsa interpretação.

5. É que a matéria inerte se desdobraria? Haveria no mundo invisível uma matéria essencial que revestisse a forma dos objetos que vemos? Em uma palavra, esses objetos teriam seu duplo etéreo no mundo invisível, como os homens aí são representados em Espírito?

Nota. – Está aí uma teoria como uma outra, e era o nosso pensamento; mas o Espírito não a levou em conta, do que não estamos em nada humilhado, porque sua explicação nos pareceu muito lógica e porque ela repousa sobre um princípio mais geral, do qual encontramos muitas explicações.

– R. Não é assim que se passa. O Espírito tem sobre os elementos materiais espalhados por todo o espaço, em nossa atmosfera, um poder que estais longe de suspeitar. Ele pode, à sua vontade, concentrar esses elementos e dar-lhes a forma aparente própria desses objetos.

6. Coloco de novo a pergunta de um modo categórico, a fim de evitar qualquer equívoco: As vestimentas, com as quais se cobrem os Espíritos, são alguma coisa? – R. Parece-me que minha resposta precedente resolveu a questão. Não sabeis que o próprio perispírito é alguma coisa?

7. Resulta dessa explicação que os Espíritos fazem a matéria etérea sofrer transformações à sua vontade, e que, assim, por exemplo, para a tabaqueira, o Espírito não a encontrou toda feita, mas que a fez, ele mesmo para o momento no qual lhe era necessária, e que pôde desfazê-la; deve ocorrer o mesmo com todos os outros objetos, tais como vestimentas, jóias, etc. – R. Mas evidentemente.

8. Essa tabaqueira esteve visível para a senhora R… ao ponto de fazer-lhe ilusão. O Espírito poderia torná-la tangível para ela? -R. Poderia.

9. Na ocasião que foi apresentada, a senhora R… poderia tomá-la em suas mãos, crendo ter uma tabaqueira verdadeira? – R. Sim.

10. Se ela a tivesse aberto, teria provavelmente encontrado tabaco; se tomasse esse tabaco, fá-la-ia espirrar? – R. Sim.

11. O Espírito pode dar, portanto, não só a forma, mas propriedades especiais? – R. Se o quiser; não foi senão em virtude desse princípio que respondi afirmativamente às questões precedentes. Tendes provas do poder de ação que o Espírito exerce sobre a matéria, que estais longe de supor, como já vos disse.

12. Suponhamos, então, que ele quisesse fazer uma substância venenosa e que uma pessoa a tomasse, seria ela envenenada? – R. Poderia, mas não o teria feito; isso não lhe seria permitido.

13. Teria o poder de fazer uma substância salutar e própria a curar em caso de doença, e o caso se apresentou? – R. Sim, muito freqüentemente.

Nota. – Encontrar-se-á um fato desse gênero, seguido de uma interessante explicação teórica, no artigo que publicamos adiante sobre o título de Um Espírito servidor.

14. Poderia assim também fazer uma substância alimentar; suponhamos que fizesse uma fruta, uma iguaria qualquer, alguém poderia comê-la e sentir-se saciado? – R. Sim, sim. Mas não procureis, pois, tanto para provar o que é fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis, aos vossos olhos grosseiros, essas partículas materiais que encobrem o espaço no meio do qual viveis; não sabeis que o ar contém vapores d’água? Condensai-os, e conduzi-lo-eis ao estado normal; privai-os de calor, e eis que as moléculas impalpáveis e invisíveis tornam-se um corpo sólido e muito sólido, e muitas outras matérias das quais os químicos vos tirarão maravilhas mais admiráveis ainda; somente o Espírito possui instrumentos mais perfeitos do que os vossos: sua vontade e a permissão de Deus.

Nota. – A questão da saciedade é aqui muito importante. Como uma substância que não tem senão uma existência e propriedades temporárias, e de alguma sorte de convenção, pode produzir a saciedade? Essa substância, pelo seu contato com o estômago, produz a sensação da saciedade, mas não a saciedade resultante da plenitude. Se uma tal substância pode agir sobre a economia e modificar um estado mórbido, ela pode tão bem agir sobre o estômago e produzir o sentimento da saciedade. Todavia, pedimos aos senhores farmacêuticos e restauradores para não conceberem ciúme nisso, nem crerem que os Espíritos venham fazerlhes concorrência: Esses casos são raros, excepcionais, e não dependem jamais da vontade; de outro modo, nutrir-se-ia e curar-se-ia por muito bom preço.

15. O Espírito poderia, do mesmo modo, fazer a moeda? – R. Pela mesma razão.

16. Esses objetos, tomados tangíveis pela vontade dos Espíritos, poderiam ter um caráter de permanência e de estabilidade? – R. Poderiam, mas isto não se faz; está fora das leis.

17. Todos os Espíritos têm esse poder no mesmo grau? – R. Não, não!

18. Quais são aqueles que têm, mais particularmente, esse poder? – R. Aqueles aos quais Deus o concede quando é útil.

19. A elevação do Espírito nisso é alguma coisa? – R. É certo que quanto mais o Espírito é elevado, mais facilmente a obtém; mas ainda isso depende das circunstâncias: Espíritos inferiores podem ter esse poder.

20. A produção de objetos semi-materiais é sempre o fato de um ato de vontade de um Espírito, ou bem exerce, algumas vezes, esse poder com o seu desconhecimento? – R. Ele o exerce FREQÜENTEMENTE com o seu desconhecimento.

21. Esse poder seria, então, um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espíritos; seria, de alguma sorte, uma de suas propriedades, como a de ver e de ouvir? – R. Certamente; mas, freqüentemente, ele mesmo a ignora. É então que um outro a exerce para ele, com o seu desconhecimento, quando as circunstâncias o pedem.

O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito do qual acabo de falar, e ao qual ele fez alusão em sua linguagem alegre.

Nota. – Encontramos uma comparação dessa faculdade nas de certos animais, a raia-elétrica, por exemplo, que liberta eletricidade sem saber nem o que faz, nem o como o faz e que conhece menos ainda o mecanismo que ela faz funcionar. Não produzimos, freqüentemente, nós mesmos, certos efeitos por atos espontâneos dos quais não nos damos conta? Parecenos, portanto, muito natural que o Espírito agisse nessa circunstância por uma espécie de instinto; produz por sua vontade, sem saber como, como nós caminhamos sem calcularmos as forças que colocamos em jogo.

22. Concebemos que, nos dois casos citados pela senhora R…, um dos dois Espíritos quisera ter um cachimbo e o outro uma tabaqueira para impressionar os olhos de uma pessoa viva; mas pergunto se, não tendo nada para mostrar-lhe, o Espírito poderia crer ter esses objetos, e iludir-se a si mesmo? – R. Não, se ele tem uma certa superioridade, porque tem a perfeita consciência do que é; mas ocorre de outro modo para os Espíritos inferiores.

Nota. – Tal era por exemplo a rainha de Oude, cuja evocação foi narrada no número de março de 1858, e que se acreditava ainda coberta de diamantes.

23. Dois Espíritos podem se reconhecer entre si pela aparência material que tiveram quando vivos? – R. Não é por causa disso que se reconhecem, uma vez que não tomem essa aparência um para o outro; mas se, em certas circunstâncias, se encontram em presença, revestidos dessa aparência, por que não se reconheceriam?

24. Como podem os Espíritos se reconhecerem na multidão dos outros Espíritos, e como, sobretudo, podem fazê-lo quando um deles vai procurar ao longe, e, a miúdo, em outros mundos, aquele que se chama? – R. Esta é uma questão cuja solução se arrastaria para muito longe; é necessário esperar; não estais bastante avançados; contentai-vos, para o momento, com a certeza de que assim é, e tendes disso bastante provas.

25. Se o Espírito pode haurir no elemento universal os materiais para fazer todas essas coisas, dar a essas coisas uma realidade temporária com suas propriedades, pode muito bem ali haurir o que é necessário para escrever, e, conseqüentemente, isso parece dar-nos a chave do fenômenos da escrita direta? – R. Enfim, aí chegas-tes!

26. Se a matéria, da qual o Espírito se serve, não tem persistência, como ocorre que os traços da escrita direta não desaparecem? – R. Não concluais sobre as palavras; eu não disse no início: jamais; era questão de um objeto material volumoso; aqui, são sinais traçados que é útil conservar, e são conservados.

A teoria acima assim pode se resumir o Espírito age sobre a matéria; haure na matéria primitiva universal os elementos necessários para formar, à sua vontade, objetos com aparência de diversos corpos que existem na Terra, ele pode igualmente operar sobre a matéria elementar, por sua vontade, uma transformação íntima que lhe dá propriedades determinadas. Essa faculdade é inerente à natureza do Espírito, que a exerce, freqüentemente, como um ato instintivo quando isso é necessário, e sem se dar conta dele. Os objetos formados pelo Espírito têm uma existência temporária, subordinada à sua vontade ou à necessidade; podem fazê-los e desfazê-los à sua vontade. Esses objetos podem, em certos casos, terem, aos olhos das pessoas vivas, todas as aparências da realidade, quer dizer, tornarem-se momentaneamente visíveis e mesmo tangíveis. Há formação, mas não criação, tendo em vista que o Espírito nada pode tirar do nada.

Mobiliário de além-túmulo

 

O que é o Espiritismo?

Revista Espírita, julho de 1859

Nova obra do senhor Allan Kardec

PRODUÇÃO PARA O CONHECIMENTO DO MUNDO INVISÍVEL. OU DOS ESPÍRITOS. CONTENDO OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA DOUTRINA ESPÍRITA E A RESPOSTA A ALGUMAS OBJEÇÕES PREJUDICIAIS,

por ALLAN KARDEC

Autor do Livro dos Espíritos e diretor da Revista Espírita.

Grande in 18. Preço: 60 c. (1)

(1) Todas as obras do senhor Allan Kardec se encontram na casa dos senhores LEDOYEN, DENTU, e no escritório da Revista.

As pessoas que não têm do Espiritismo senão um conhecimento superficial, são naturalmente levadas a fazer certas perguntas que um estudo completo dar-lhes-ia a solução, mas o tempo e, freqüentemente, a vontade lhes faltam, para se entregarem a observações continuadas. Gostariam antes de empreender essa tarefa, saber ao menos do que se trata, e se vale a pena se ocupar disso. Portanto, pareceu-nos útil apresentar, em um quadro restrito, a resposta a algumas das questões fundamentais, que nos são diariamente dirigidas; isso será, para o leitor, uma primeira iniciação, e, para nós, tempo ganho com a dispensa de repetir constantemente a mesma coisa. A forma de conversação nos pareceu a mais conveniente, porque não tem a aridez da forma puramente dogmática.

Terminamos essa introdução por um resumo que permitirá apanhar, por uma leitura rápida, o conjunto dos princípios fundamentais da ciência. Aqueles que, depois dessa curta exposição, crerem a coisa digna de sua atenção, poderão aprofundá-la em conhecimento de causa. As objeções nascem, o mais freqüentemente, das idéias falsas que se faz, a priori, sobre o que não se conhece; retificar essas idéias é ir antes das objeções: tal é o objetivo que nos propusemos, publicando este pequeno escrito.

As pessoas estranhas ao Espiritismo nele encontrarão, pois, os meios de adquirirem, em pouco tempo e sem grande despesa, uma idéia da coisa, e as que estão já iniciadas, a maneira de resolverem as principais dificuldades que se lhes opõem. Contamos com o concurso de todos os amigos desta ciência para ajudarem a divulgar este curto resumo.

ALLAN KARDEC.

 

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Variedades – Lorde Castlereagh e Bemadotte

Revista Espírita, julho de 1859

Há quase quarenta anos, a aventura seguinte chegou ao marquês de Londonderry, depois lorde Castlereagh. Ia ele visitar um gentil-homem de seus amigos, que morava ao norte da Irlanda, um desses castelos que os romancistas escolhem, de preferência, para teatro de aparições. O aspecto do apartamento do marquês estava em harmonia perfeita com o edifício. Com efeito, as paredes de madeira, ricamente esculpidas e escurecidas pelo tempo, a imensa abóbada da chaminé, semelhante à entrada de um túmulo, as cortinas apodrecidas e pesadas, que ocultavam os cruzeiros e cercavam o leito, eram de natureza a darem uma direção melancólica aos pensamentos.

Lorde Londonderry examinou o seu quarto e tomou conhecimento com os antigos senhores do castelo, que, de pé em seus quadros, pareciam esperar a sua saudação. Depois de haver despedido seu criado, deitou-se. Vinha de apagar sua vela, quando percebeu um raio de luz que clareou o dossel de seu leito. Convencido de que não havia fogo na grade, e as cortinas estavam fechadas, e que o quarto se encontrava, alguns minutos antes, mergulhado numa obscuridade completa, supôs que um intruso se introduziu no quarto. Virando-se, então, rapidamente para o lado de onde vinha a luz, ele viu, com grande espanto, a figura de uma bela criança, cercada de um limbo.

Persuadido da integridade de suas faculdades, mas supondo uma mistificação de um dos numerosos hóspedes do castelo, lorde Londonderry avançou para a aparição, que se retraiu diante dele. À medida que ele se aproximava, ela recuava, até que, enfim, chegada sob a sombria abóbada da imensa chaminé, ela submergiu na Terra.

Lorde Londonderry não dormiu a noite inteira.

Determinou-se em não fazer-se nenhuma alusão ao que lhe acontecera a até que tivesse examinado, com cuidado, todas as pessoas da casa. No almoço, procurou em vão compreender alguns sorrisos ocultos, olhares de conivências, piscadelas de olhos pelas quais se traem, geralmente, os autores dessas conspirações domésticas.

A conversação seguiu seu curso normal; estava animada, e nada revelava uma mistificação. Afinal, o marquês não pôde resistir ao desejo de contar o que vira. O senhor do castelo fez observar que o relato de lorde Londonderry deveria parecer muito extraordinário àqueles que não habitavam, a muito tempo, o solar, e que não conheciam as lendas da família. Então, voltando-se para lorde Londonderry:

“Vós vistes a criança brilhante, disse-lhe; ficais satisfeito, é o presságio de uma grande fortuna; mas preferiria que não fosse a questão dessa aparição.”

Em uma outra circunstância, lorde Castlereagh viu a criança brilhante na câmara dos comuns. No dia de seu suicídio, teve uma aparição semelhante (1)((1)Fontes Winslow.

Anatomyotsuicide, 1 vol. in-8-, p. 242. Londres, 1840. ). Sabe-se que esse lorde, um dos principais membros do ministério Harrowby e o mais encarnecido perseguidor de Napoleão, durante seus reveses, se cortou a artéria carótica no dia 22 de agosto de 1823, e morreu no mesmo instante. A espantosa fortuna de Bernadotte, diz-se, fora-lhe predita por uma famosa necromante .jue anunciara também a de Napoleão l, e que tinha a confiança da imperatriz Josephine.

Bernadotte estava convencido de que uma espécie de divindade tutelar ligava-se a ele para protegê-lo. Talvez as tradições maravilhosas que cercaram seu berço, não eram estranhas a esse pensamento, que jamais o abandonou. Conta-se, com efeito, na sua família, uma antiga crônica que pretendia que uma fada, mulher de um dos seus ancestrais, predissera que um rei ilustraria sua posteridade.

Eis um fato que prova quanto maravilhoso conservara de império sobre o Espírito do rei da Suécia. Ele queria cortar pela espada as dificuldades que a Noruega lhe opusera, e enviar seu filhos Oscar à frente de uma armada para subjugar os rebeldes. O conselho de Estado fez uma viva oposição a esse projeto. Um dia, quando Bernadotte acabara de ter uma discussão animada sobre esse assunto, ele montou a cavalo e se distanciou da capital em grande galope. Depois de ter vencido um longo espaço, chegou aos limites de uma sombria floresta. De repente, apresentou-se-lhe aos olhos uma velha mulher bizarramente vestida e com seus cabelos em desordem: “Que quereis?” Perguntou bruscamente o rei. A feiticeira respondeu sem se desconcertar:

– Se Oscar combater nessa guerra que tu me dizes, ele não dará os primeiros golpes, mas recebê-los-á.

Bernadotte, atingido por essa aparição e essas palavras, retornou a seu palácio. No dia seguinte, trazendo ainda no rosto os traços de uma longa vigília cheia de agitação, ele se apresentou ao conselho: “Mudei de opinião, disse; negociaremos a paz, mas quero-a em condições honrosas.”

O senhor de Chateaubriand conta, em sua Vie de M. de Rance, fundador da Trappe, que um dia esse homem célebre, passeando na avenida do palácio de Veretz, acreditou ver um grande fogo que havia tomado as construções do galinheiro. Para Ia voou: o fogo diminuía à medida que dele se aproximava. A uma certa distância, o grande incêndio se muda em um lago de fogo, no meio do qual se elevava, a meio corpo, uma mulher devorada pelas chamas. Ó medo o tomou, e retomou correndo o caminho da casa. Ao chegar, as forças lhe faltavam, e ele se lançou morrendo sobre um leito. Não foi senão muito tempo depois, que ele contou essa visão, cuja única lembrança lhe fazia empalidecer.

Esses mistérios pertencem à loucura? O senhor Bière de Boismont parece atribuí-los a uma ordem de coisas mais elevada, e sou de sua opinião. Isso não desagrada meu amigo, o doutor Lélute: prefiro crer melhor no gênero familiar de Sócrates e na voz de Jeanne d’Arc que na demência do filósofo e da virgem de Domrémy.

Há fenômenos que ultrapassam a inteligência, que desconcertam as idéias recebidas, mas diante da evidência dos quais é preciso que a lógica humana se incline humildemente. Nada é brutal e, sobretudo, irrecusável como um fato. Tal é a nossa opinião, e sobretudo a do senhor Guizot:

“Qual é a grande questão, a questão suprema que preocupa hoje os Espíritos? É a questão posta entre aqueles que reconhecem e aqueles que não reconhecem uma ordem sobrenatural, certa e soberana, embora impenetrável à razão humana; a questão posta, para chamar as coisas pelo seu nome, entre o supernaturalismo e o racionalismo.

De um lado, os incrédulos, os panteístas, os céticos de toda sorte, os puros racionalistas; do outro os cristãos.

“É necessário, para a nossa salvação presente e futura, que a fé na ordem sobrenatural, que o respeito e a submissão à ordem sobrenatural reentrem no mundo e na alma humana, nos grandes espíritos como nos espíritos simples, nas regiões mais elevadas como nas regiões mais modestas. A influência real, verdadeiramente eficaz e regeneradora das crenças religiosas, está nessa condição; fora disso, são superficiais e bem perto de serem vãs.” (Guizot.)

Não, a morte não separa para sempre, mesmo neste mundo, os eleitos que Deus recebeu em seu seio e os exilados que permanecem neste vaie de lágrimas, in hac lacrymarum valle, para empregar as melancólicas palavras do Salve regina. Há horas misteriosas e abençoadas onde os mortos bem amados se inclinam para aqueles que os choram e murmuram, em seus ouvidos, palavras de consolação e de esperança. O senhor Guizot, esse espírito severo e metódico, tem razão em professar: “Fora daí, as crenças religiosas são superficiais e bem perto de serem vãs.”

SAM. (Extraído de La Párie, em 5 de junho de 1859.)

 

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Resposta à réplica do senhor abade Chesnel, em l’Univers

Revista Espírita, julho de 1859

O jornal L’Univers inseriu, em seu número do dia 28 de maio último, a resposta que demos ao artigo do senhor abade Chesnel sobre o Espiritismo, e fê-la seguir de uma réplica deste último. Esse segundo artigo, reproduzindo todos os argumentos do primeiro, menos a urbanidade das formas a qual todo o mundo estava pronto a render justiça, não poderíamos respondê-la senão repetindo o que já dissemos, o que nos parece completamente inútil. O senhor abade Chesnel se esforça sempre por provar que o Espiritismo é, deve ser e não pode ser senão uma religião nova, porque dele decorre uma filosofia, e que se ocupa da constituição física e moral dos mundos. Nessa conta, todas as filosofias seriam religiões. Ora, como os sistemas são muitos e todos têm partidários mais ou menos numerosos, estreitaria singularmente o círculo do catolicismo. Não sabemos até que ponto é imprudente e perigoso emitir uma tal doutrina; porque é proclamar uma cisão que não existe; ao menos dar-lhe a idéia. Vede um pouco a que conseqüência chegaríeis. Quando a ciência veio contestar o sentido do texto bíblico dos seis dias da criação, criou-se-lhe o anátema, disse-se que era atacar a religião; hoje, quando os fatos deram razão à ciência, quando não há mais meios de contestá-los senão negando a luz, a Igreja se pôs de acordo com a ciência. Suponhamos que então se dissesse que essa teoria científica era uma religião nova, uma seita, que ela apareceu em contradição com os livros sacros, que ela derrubava uma interpretação dada há séculos, disso resultaria que não se poderia ser católico e adotar essas idéias novas. Pensai, pois, a que se reduziria o número dos católicos, se fossem suprimidos todos aqueles que não crêem que Deus fez a Terra em seis vezes vinte e quatro horas!

Ocorre o mesmo com o Espiritismo; se o olhais como uma religião nova, é porque aos vossos olhos ele não é católico. Ora, segui bem o meu raciocínio: De duas coisas uma: ou é uma realidade, ou é uma utopia. Se for uma utopia, não há com que preocupar-se com ele, porque cairá por si mesmo; se for uma realidade, todos os raios não impedi-lo-ão de sê-lo, tanto quanto não impediram outrora à Terra de girar. Se há verdadeiramente um mundo invisível que nos cerca, se se pode comunicar com esse mundo e dele obter notícias sobre o estado daqueles que o habitam, e todo o Espiritismo está aí dentro, logo isso parecerá tão natural quanto ver o Sol em pleno meio-dia ou encontrar milhares de seres vivos e invisíveis em uma límpida gota d’água; essa crença se tornará tão vulgar, que vós mesmos sereis forçados em vos render à evidência. Se, aos vossos olhos, essa crença é uma religião nova, ela está fora do catolicismo; porque não pode ser, ao mesmo tempo, a religião católica e uma religião nova. Se, pela força das coisas e da evidência, ela se tornar geral, e não poderá ser de outro modo se for uma das leis da Natureza, do vosso ponto de vista não haverá mais católicos, e vós mesmos não sereis mais católicos, porque sereis forçados a fazê-lo como todo o mundo. Eis, senhor abade, o terreno sobre o qual nos arrasta a vossa doutrina, e ela é tão absoluta que me agraciais já com o título de grande sacerdote dessa religião, honra da qual, verdadeiramente, pouco desconfiava. Mas ides mais longe: segundo vós, todos os médiuns são os sacerdotes dessa religião. Aqui vos detenho em nome da lógica. Até o presente, pareceu-me que as funções sacerdotais eram facultativas, que não se era sacerdote senão por um ato de própria vontade, que se não o era, apesar dela e em virtude de uma faculdade natural. Ora, a faculdade dos médiuns é uma faculdade natural que se prende à organização, como a faculdade sonambúlica; que não requer nem sexo, nem idade, nem instrução, uma vez que é encontrada nas crianças, nas mulheres e nos velhos, entre os sábios como entre os ignorantes. Compreender-se-ia que moços e jovens fossem sacerdotes e sacerdotisas sem o querer e sem o saber? Em verdade, senhor abade, é abusar do direito de interpretar as palavras. O Espiritismo, como eu disse, está fora de todas as crenças dogmáticas, com as quais não se preocupa; não o consideramos senão como uma ciência filosófica, que nos explica uma multidão de coisas que não compreendemos, e, por isso mesmo, em lugar de abafar em nós as idéias religiosas, como certas filosofias, fá-las nascer naqueles em que elas não existem; mas se quereis, por toda a força, elevá-lo à categoria de uma religião, vós mesmos o empurrais para um caminho novo. É o que compreendem perfeitamente muitos eclesiásticos que, longe de produzir o cisma, se esforçam em conciliar as coisas, em virtude desse raciocínio: se as manifestações do mundo invisível ocorrem, isso não pode ser senão pela vontade de Deus, e não podemos ir contra a sua vontade, a menos que digamos que, no mundo, qualquer coisa pode ocorrer sem a sua permissão, o que seria uma impiedade. Se tivesse a honra de ser sacerdote, disso me serviria em favor da religião; faria dela uma arma contra a incredulidade, e diria aos materialistas e aos ateus: Pedis prova? Essas provas, heis-las aqui: é Deus que as envia.

 

abade Chesnel, em l'Univers

 

Conversas familiares de além túmulo

Revista Espírita, julho de 1859

NOVIDADES DA GUERRA

O governo permitiu aos jornais, apolíticos darem notícias da guerra, mas como as relações são muitas sob todas as formas, seria ao menos inútil repeti-las aqui. O que talvez fosse mais novo para os nossos leitores é uma narração chegada do outro mundo; embora não seja tirada da fonte oficial do Moniteur, não deixa de oferecer interesse do ponto de vista dos nossos estudos. Pensamos, pois, interrogar algumas das gloriosas vítimas da vitória, presumindo que poderíamos encontrar nisso alguma instrução útil; tais objetos de observação e sobretudo da atualidade não se apresentam todos os dias.

Não conhecendo, pessoalmente, nenhum daqueles que tomaram parte na última batalha, pedimos aos Espíritos que consentem em nos assistir, se gostariam de nos enviar um deles; pensamos mesmo encontrar, num estranho, mais liberdade e facilidade do que se fora em presença de amigos ou de parentes, dominados pela emoção. Com a resposta afirmativa, tivemos as entrevistas seguintes.

 

O Soldado Argelino de Magenta.

PRIMEIRA ENTREVISTA.

(Sociedade, 10 de junho de 1859.)

 

1. Rogamos a Deus Todo-poderoso permitir ao Espírito de um dos militares mortos na batalha de Magenta comunicar-se conosco. – R. Que quereis saber?

2. Onde estáveis quando vos chamamos? – R. Não sei dize-lo.

3. Quem vos preveniu que desejávamos conversar convosco? – R. Um que é mais esperto do que eu.

4. Em vossa vida duvidáveis que os mortos poderiam vir conversar com os vivos? – R. Oh! disso, não.

5. Que efeito isso produziu sobre vós ao vos encontrardes aqui? – R. Deu-me prazer; deveis, pelo que me dizem, fazer grandes coisas.

6. A qual corpo da armada pertencíeis? (Alguém disse em voz baixa: Pela sua linguagem deve ser um zuavo.) – R. Ah! Vós o dissestes.

7. Que grau tínheis? – R. O de todo mundo.

8. Como vos chamáveis? – R. Joseph Midard.

9. Como morrestes? – R. Gostaríeis de tudo saber e de nada pagar.

10. Vamos! Perdestes vossa alegria; dizei sempre, nós pagaremos depois. Como morrestes? – R. Por uma ameixa carregada.

11. Ereis contrário a ser morto? – R. Minha fé! Não; estou bem aqui.

12. No momento em que morrestes, imediatamente vos reconhecestes? – R. Não, estava tão atordoado que não o acreditava.

Nota. Isto está conforme tudo o que observamos nos casos de morte violenta; o Espírito, não se rendendo conta de sua situação, não crê imediatamente estar morto. Esse fenômeno se explica muito facilmente; ele é análogo ao do sonâmbulo que não crê dormir. Com efeito, para o sonâmbulo, a idéia do sono é sinônimo de suspensão das faculdades intelectuais; ora, como pensa, para ele não dorme; disso não se convence senão mais tarde, quando estiver familiarizado com o sentido ligado a essa palavra. Ocorre o mesmo com o Espírito surpreendido por uma morte súbita, quando nada havia preparado sua separação do corpo; para ele a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento; ora, como vê, sente-se, tem suas idéias, para ele não está morto; é necessário algum tempo para se reconhecer.

13. No momento que morrestes, a batalha não tinha terminado; seguistes suas peripécias? – R. Sim, uma vez que disse que não me acreditava estar morto; eu queria sempre ir de encontro aos outros cães.

14. Que sensação experimentastes nesse momento? – R. Estava encantado, achava-me muito leve.

15. Víeis os Espíritos de vossos companheiros deixarem seus corpos? – R. Não me ocupava disso, uma vez que eu não acreditava na morte.

16. Em que se tornava nesse momento essa multidão de Espíritos deixando a vida no tumulto da refrega? – R. Creio que faziam como eu.

17. Os Espíritos daqueles que se batiam com mais ardor, uns contra os outros, que pensavam encontrando-se juntos nesse mundo dos Espíritos? Estavam ainda animados uns contra os outros? -R. Sim, durante algum tempo e segundo o seu caráter.

18. Reconheceis-vos melhor agora? – R. Sem isso não me teriam enviado aqui.

19. Poderíeis dizer-nos se entre os Espíritos mortos há muito tempo, encontravam-se ali os que se interessavam pela sorte da batalha? (Pedimos a São Luís consentir ajudá-lo em suas respostas, a fim de que sejam tão explícitas quanto possível para a nossa instrução). – R. Em uma grande quantidade, porque é bom que sabeis que esses combates e suas conseqüências estão preparados de longa data, e que nossos adversários não estão enlameados de crimes, como o fizeram sem serem impelidos tendo em vista conseqüências futuras, que não tardareis a saber.

20. Deveria haver aí quem se interessasse pelo sucesso dos Austríacos; isso formava dois campos entre eles? – R. Evidentemente.

Nota. – Não nos parece ver aqui os deuses de Homero tomando partido uns pelos Gregos, e os outros pelos Troianos? Quem eram, com efeito os deuses do paganismo, senão Espíritos dos quais os Antigos fizeram divindades? Não tínhamos razão em dizer que o Espiritismo é uma luz que iluminará mais de um mistério, a chave de mais de um problema?

21. Eles exerciam uma influência qualquer sobre os combatentes? – R. Uma muito considerável.

22. Poderíeis descrever-nos a maneira pela qual exerciam essa influência? – R. Do mesmo modo que todas as outras influências produzidas pelos Espíritos sobre os homens.

23. Que pensais fazer agora? – R. Estudar mais do que o fiz durante a minha última etapa.

24. Ides retornar para assistir, como espectador, aos combates que ainda se travam? – R. Não sei ainda; tenho afeições que me retêm neste momento; entretanto, conto escapar um pouco, de tempo ao outro, para me divertir vendo as brigas subseqüentes.

25. Qual gênero de afeições vos retêm? – R. Uma velha mãe enferma e sofredora, que me chora.

26. Peço perdão pelo mau pensamento que passou pelo meu espírito a respeito da afeição que vos retém. – R. Não o quero mais assim; disse-vos bobagens para vos fazer rir um pouco; é natural que não me tomeis por uma grande coisa, tendo em vista o honorável corpo ao qual pertenceis; mas tranqüilizai-vos: eu não me empenhei senão por essa pobre mãe; mereço um pouco que me tenham mandado para junto de vós.

27. Quando estáveis entre os Espíritos, ouvíeis o ruído da batalha; víeis as coisas tão claramente quanto durante a vossa vida? -R. Primeiro perdi a visão, mas depois de algum tempo já via muito melhor, porque via todas as astúcias.

28. Pergunto se percebíeis o ruído do canhão. – R. Sim.

29. No momento da ação, pensáveis na morte e no que vos tornaríeis se fosses morto? – R. Pensava no que se tornaria minha mãe.

30. Era a primeira vez que íeis ao fogo? – R. Não, não; e a África?

31. Vistes a entrada dos Franceses em Milão? – R. Não.

32. Sois o único que morreu na Itália? – R. Sim.

33. Pensais que a guerra durará muito tempo? – R. Não; é fácil, e pouco meritório, de resto, predizê-lo.

34. Quando vedes, entre os Espíritos, um de vossos chefes, o reconheceis ainda como vosso superior? – R. Se o é, sim; se não, não.

Nota. – Na sua simplicidade e seu laconismo, essa resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita, a superioridade moral é a única que se reconhece; aquele que não a tinha na Terra, qualquer que fosse sua classe, não tem nenhuma superioridade; ali, o chefe pode estar abaixo do soldado, o senhor abaixo do servidor. Que lição para o nosso orgulho!

35. Pensais na justiça de Deus, e vos inquietais com ela? – R. Quem não pensaria nela? Mas, felizmente, não tenho que temê-la sempre; resgatei, por algumas ações que Deus achou boas, algumas escapadelas que fiz na qualidade de zuavo, como dissestes.

36. Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de vossos companheiros e afastar dele um golpe fatal? – R. Não; isso não está em nosso poder; a hora da morte é marcada por Deus; se deve passar por ela, nada pode impedi-la; como nada pode atingi-lo se a aposentadoria não soou para ele.

37. Vedes o general Espinasse? – R. Não o vi ainda, mas espero muito ainda vê-lo.

SEGUNDA ENTREVISTA.

(17 de junho de 1859.)

38. Evocação – R. Presente! Coragem! Avante!

39. Lembrai-vos de ter vindo aqui há oito horas? – R. Mas!

40. Dissestes-nos que não tínheis revisto ainda o general Espinasse; como poderíeis reconhecê-lo, uma vez que já não carrega sua farda de general? – R. Não, mas conheço-o de vista; ademais não temos uma multidão de amigos prontos a nos dar a palavra. Aqui não é como no grande círculo; não se tem medo de se consentir em auxiliar e vos respondo que não há senão os maus velhacos, os únicos que não se vêem.

41. Sob qual aparência estais aqui? – R. Zuavo.

42. Se pudéssemos ver-vos, como vos veríamos? – R. Com turbante e calção.

43. Pois bem! Suponho que nos aparecesse com turbante e calção, onde apanhastes essa roupa, uma vez que deixastes a vossa no campo de batalha! – R. Ah! Eis! Nada sei; tenho um alfaiate que me arranjou esta.

44. De que são feitos o turbante e o calção que levais? Rendei-vos conta disso? – R. Não; isso diz respeito ao algibebe.

Nota. – Essa questão da roupa dos Espíritos, e várias outras não menos interessantes que se ligam ao mesmo princípio, estão completamente elucidadas pelas novas observações feitas no seio da sociedade; disso daremos conta no nosso próximo número. Nosso bravo zuavo não é bastante adiantado para resolvê-las por si mesmo; ser-nos-ia preciso, para isso, o concurso de circunstâncias que se apresentam fortuitamente, e que não colocamos no caminho.

45. Dai-vos conta da razão pela qual nos vedes, ao passo que não podemos ver-vos? – R. Creio compreender que vossos óculos são muito fracos.

46. É pela mesma razão que não poderíeis ver o general sem uniforme? – R. Sim, ele não o usa todos os dias.

47. Quais dias ele o usa? – R. Sim! Quando é chamado ao palácio.

48. Por que estais aqui em zuavo, se não podemos ver-vos? — R. Muito naturalmente porque sou zuavo ainda, desde há oito anos, e que no meio dos Espíritos, guardamos por muito tempo essa forma, mas isso não é senão entre nós, compreendeis que quando vamos para um mundo muito estranho, a Lua ou Júpiter, não nos damos ao trabalho de fazer tanto preparo pessoal.

49. Falais da Lua, de Júpiter, é que para aí fostes depois de vossa morte? – R. Não, não me compreendeis. Corremos muito o universo desde a nossa morte; não explicamos uma multidão de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhores que nós como não o fazíamos há quinze dias? Passa-se na morte uma metamorfose no Espírito, que não podeis compreender.

50. Tornastes a ver o corpo que deixastes no campo de batalha? – R. Sim, não é mais belo.

51. Que impressão essa visão deixou em vós? – R. Tristeza.

52. Tendes conhecimento de vossa existência precedente? -R Sim, mas não foi bastante gloriosa para que dela me vanglorie.

53. Dizei-nos somente o gênero de existência que tivestes? -R. Simples comerciante de peles indígenas.

54. Nós vos agradecemos por consentir em retornar uma segunda vez. – R. Até breve; isso me alegra e me instrui; desde que me toleram aqui, voltarei de bom grado. Um Oficial

Superior Morto em Magenta

(Sociedade. 10 de junho de 1859.)

1. Evocação. – R. Heis-me aqui.

2. Poderíeis dizer-nos como viestes tão prontamente ao nosso chamado? – R. Fui prevenido de vosso desejo.

3. Por quem fostes prevenido? – R. Por um emissário de Luís.

4. Tínheis conhecimento da existência da nossa sociedade? -R. Vós o sabeis.

Nota. – O oficial, do qual se trata, com efeito, concorreu para que a Sociedade obtivesse autorização para se constituir.

5. Sob qual ponto de vista consideráveis nossa sociedade, quando ajudastes a sua formação?
– R. Eu não estava ainda inteiramente fixado, mas me inclinava muito em crer, e sem os acontecimentos que sobrevieram, iria certamente instruir-me em vosso círculo.

6. Há muitas notabilidades que partilham as idéias espíritas, mas que não a confessam abertamente; seria desejável que as pessoas influentes na opinião desfraldassem abertamente essa bandeira. – R. Paciência; Deus o quer e esta vez a palavra é verdadeira.

7. Em qual classe influente da sociedade pensais que o exemplo será dado em primeiro lugar? – R. Por toda parte um pouco no início, inteiramente em seguida.

8. Poderíeis dizer-nos, do ponto de vista do estudo, se, embora morto quase no mesmo momento do zuavo que acabou de vir, vossas idéias estão mais lúcidas que as dele? – R. Muito; o que pôde dizer que testemunhava uma certa elevação de pensamentos, era-lhe soprado, porque ele é muito bom, mas muito ignorante e um pouco leviano.

9. Interessai-vos ainda pelo sucesso de nossas armas? – R. Muito, mais que nunca, porque lhe conheço hoje o objetivo.

10. Poderíeis definir o vosso pensamento; o objetivo sempre foi altamente confessado, e na vossa posição sobretudo, devíeis conhecê-lo? – R. O objetivo que Deus se propôs, o conheceis?

Nota. – Ninguém menosprezará a gravidade e a profundidade desta resposta. Assim vivendo, conhecia o objetivo dos homens: como Espírito, ele via o que havia de providencial nos acontecimentos.

11. Que pensais da guerra em geral? – R. Minha opinião é que vos desejo que progridais bastante rapidamente para que ela se torne impossível, tanto quanto inútil.

12. Credes que virá um dia em que ela será impossível e inútil? – R. Penso-o, e disso não duvido, posso dizer-vos que o momento não está assim tão longe como podeis crer, sem, entretanto, dar-vos a esperança de vê-lo vós mesmos.

13. Vós vos reconhecestes imediatamente no momento de vossa morte? – R. Reconheci-me quase em seguida, e isso graças às vagas noções que tinha do Espiritismo.

14. Poderíeis dizer-nos alguma coisa do Senhor***, morto igualmente na última batalha? – R. Ele está ainda nas redes da matéria; tem mais dificuldade para dela sair; seus pensamentos não estavam dirigidos desse lado.

Nota. – Assim o conhecimento do Espiritismo ajuda o desligamento da alma depois da morte; abrevia a duração da perturbação que acompanha a separação; isso se concebe; conhecia de antemão o mundo onde se encontra.

15. Assististes à entrada de nossas tropas em Milão? – R. Sim, e com alegria; estava arrebatado pela ovação que acolheu nossas armas, primeiro por patriotismo, depois por causa do futuro que as espera.

16. Podeis, como Espírito, exercer uma influência qualquer sobre as disposições estratégicas? – R. Credes que isso não foi feito desde o princípio, e tendes dificuldade de adivinhar por quê?

17. Como ocorre que os Austríacos tenham abandonado, tão prontamente, uma praça forte como Pavie? – R. O medo.

18. Portanto, estão desmoralizados? – R. Completamente, e depois agindo-se sobre os nossos num sentido, deveis pensar que uma influência de uma outra natureza agia sobre eles.

Nota. – Esta intervenção dos Espíritos nos acontecimentos não é equivocada; eles preparam os caminhos para o cumprimento dos desígnios da Providência. Os Antigos teriam dito que isso foi a obra dos Deuses’, nós dizemos que foi a dos Espíritos por ordem de Deus.

19. Podeis dar-nos a vossa apreciação sobre o general Giulay, como militar, e todo sentimento de nacionalidade à parte? – R. Pobre, pobre general.

20. Voltaríeis com prazer se vos chamássemos? – R. Estou à vossa disposição, e prometo mesmo retornar sem ser chamado; a simpatia que tenho por vós não pode senão aumentar, deveis assim pensar. Adeus.

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