Índice Geral – Revista Espírita

Revue Spirit 1858

Revue Spirit 1859

 

Revue Spirit - Allan Kardec.jpg

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A Indústria

Revista Espírita, abril de 1859

Comunicação espontânea do senhor Croz, médium escrevente, lida na Sociedade, em 21 de janeiro de 1859.

Os empreendimentos que cada dia despontam, são os atos providenciais e o desenvolvimento dos germes depositados pelos séculos. A Humanidade e o planeta que ela habita têm uma mesma existência, cujas fases se encadeiam e se respondem.
Logo que as grandes convulsões da Natureza se acalmaram, a febre que impelia às guerras de extermínio se apaziguaram, a filosofia apareceu, a escravidão desapareceu, e as ciências e as artes floresceram.

A perfeição divina pode se resumir pelo belo e o útil, e se Deus fez o homem à sua imagem foi porque quis que vivesse de sua inteligência, como ele mesmo vive no seio dos esplendores de sua criação.

Os empreendimentos que Deus abençoa, quaisquer que sejam as suas proporções, são, pois, aqueles que respondem aos seus desígnios, trazendo seu concurso à obra coletiva, cuja lei está escrita no Universo: o belo e o útil; a arte, filha do lazer e da inspiração, é o belo; a indústria, filha da ciência e do trabalho, é o útil.

Nota. Essa comunicação é quase o início de um médium que acaba de se formar com uma rapidez espantosa; convir-se-á que, por uma tentativa, isso promete. Desde a primeira sessão, escreveu, de um só traço, quatro páginas que não perdem em nada, ao que acabamos de ler, pela profundidade dos pensamentos, e que denotam, nele, uma aptidão notável para servir de intermediário a todos os Espíritos para as comunicações particulares. De resto, temos necessidade de estudá-lo antes sob esse aspecto, porque essa flexibilidade não é dada a todos; conhecemos os que não podem servir de intérpretes senão a certos Espíritos, e para uma certa ordem de idéias.

Desde que essa nota foi escrita, pudemos constatar o progresso desse médium, cuja faculdade oferece caracteres especiais e dignos de toda a atenção do observador.

 

Problema moral – Os canibais

Revista Espírita, abril de 1859

Um dos nossos assinantes nos dirigiu a pergunta seguinte, com o pedido de resolvê-la pelos Espíritos que nos assistem, se ainda não o fora resolvida.

“Os Espíritos errantes desejam, depois de um lapso de tempo mais ou menos longo, e pedem a Deus, sua encarnação como meio de adiantamento espiritual. Eles têm a escolha das provas e, usando nisso seu livre arbítrio, escolhem, naturalmente, aquelas que lhes parecem mais próprias para esse adiantamento, no mundo onde a reencarnação lhes é permitida. Ora, durante a sua existência errante, que empregam para se instruírem (são eles mesmos que nos dizem), devem aprender quais são as nações que melhor podem fazê-los alcançar o objetivo a que se propõem. Vêem tribos ferozes, de antropófagos, e têm a certeza que, encarnando-se entre eles, tornar-se-ão ferozes e comedores de carne humana. Não será aí, seguramente, que encontrarão seu progresso espiritual; seus instintos brutais, com isso, não terão adquirido senão mais consistência pela força do hábito. Eis, pois, seu objetivo falho quanto às encarnações entre tal ou tal povo.

“Ocorre o mesmo com certas posições sociais. Entre estas, há certamente as que apresentam obstáculos invencíveis ao adiantamento espiritual. Não citarei senão os matadores de animais nos matadouros, os carrascos, etc. Diz-se que essas pessoas são necessárias: uns porque não podemos passar sem alimento animal; os outros, porque é preciso executar as sentenças da justiça, nossa organização social assim querendo. Não é menos verdadeiro que o Espírito se encarnando no corpo de uma criança destinada a abraçar uma ou outra dessas profissões, deve saber que escolhe caminho falso e que se priva, voluntariamente, dos meios que podem conduzi-lo à perfeição. Não poderia ocorrer, com a permissão de Deus, que nenhum Espírito quisesse esses gêneros de existência e, nesse caso, em que se tornariam essas profissões, necessárias ao nosso estado social?”

A resposta a essa pergunta decorre de todos os ensinamentos que nos foram dados; nós podemos, pois, resolvê-la, sem necessidade de submetê-la de novo aos Espíritos.

 

Essas considerações se aplicam também às profissões das quais nosso correspondente fala; evidentemente, elas oferecem uma superioridade relativa para certos Espíritos, e é nesse sentido que se deve conceber a escolha que delas fazem. Posição igual pode mesmo ser escolhida como expiação ou como missão, porque não há onde não se possa encontrar ocasião de fazer o bem e de progredir, pela própria maneira que são exercidas.

Quanto à questão de se saber em que se tornariam essas profissões, no caso de que nenhum Espírito delas quisesse se encarregar, ela está resolvida pelos fatos; desde que os Espíritos que as alimentam partam de mais alto, não se deve temer vê-los sem trabalho. Quando o progresso social permitir suprimir o ofício de carrasco, é o lugar que faltará, e não os candidatos que irão se apresentar entre outros povos, ou em outros mundos menos avançados.

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Fraudes Espíritas

Revista Espírita, abril de 1859

Aqueles que não admitem a realidade das manifestações físicas, geralmente, atribuem à fraude os efeitos produzidos. Baseiam-se no fato de que os prestidigitadores hábeis fazem coisas que parecem prodígios quando não se conhece seus segredos; de onde concluem que os médiuns não são senão escamoteadores. Já refutamos esse argumento, ou antes, essa opinião, notadamente nos artigos sobre o senhor Home, e nos nos. da Revista de janeiro e fevereiro de 1858; sobre isso não diremos, pois, senão algumas palavras antes de falarmos de uma coisa mais séria.

Do fato de que há charlatães que vendem drogas nas praças públicas, de que há mesmo médicos que, sem irem à praça pública, enganam a confiança, segue-se que todos os médicos sejam charlatães, e o corpo médico, com isso, é atingido em sua consideração?

Do fato de que há pessoas que vendem tintura por vinho, segue-se que todos os vendedores de vinho são adulteradores e que não há vinho puro? Abusa-se de tudo, mesmo das coisas mais respeitáveis, e pode-se dizer que a fraude tem também seu gênio.

Mas a fraude tem sempre um objetivo, um interesse material qualquer; onde não haja nada a ganhar, não haverá nenhum interesse a enganar. Também dissemos, em nosso número precedente, a propósito dos médiuns mercenários, que a melhor de todas as garantias é um desinteresse absoluto.

Essa garantia, dir-se-á, não é única, porque, em casos de prestidigitação, há amadores que não visam senão divertir uma sociedade e não fazem disso um ofício; não pode ocorrer o mesmo com os médiuns? Sem dúvida, pode-se divertir um instante divertindo os outros, mas para nisso passar horas inteiras, e isso durante semanas, meses e anos, seria preciso, verdadeiramente, estar possuído pelo demônio da mistificação, e o primeiro mistificado seria o mistificador. Não repetiremos aqui tudo o que se disse sobre a boa fé dos médiuns, e dos assistentes, que podem ser o joguete de uma ilusão ou de uma fascinação. Nós o respondemos vinte vezes, assim como quanto a todas as outras objeções para as quais reenviamos notadamente à nossa Instrução prática sobre as manifestações, e aos nossos artigos precedentes da Revista. Nosso objetivo aqui não é de converter os incrédulos; se não o foram pelos fatos, não serão mais pelo raciocínio: seria, pois, perder nosso tempo. Ao contrário, nos dirigimos aos adeptos para premuni-los contra os subterfúgios, dos quais poderiam ser vítimas da parte de pessoas interessadas, por um motivo qualquer, em simular certos fenômenos; dizemos certos fenômenos, porque os há que desafiam, evidentemente, toda a habilidade da prestidigitação, tais são, notadamente, o movimento dos objetos sem contato, a suspensão dos corpos pesados no espaço, as pancadas de diferentes lados, as aparições, etc., e ainda, para alguns desses fenômenos, poder-se-ia, até certo ponto, simulálos, tanto progrediu a arte da imitação. O que é preciso fazer, em semelhante caso, é observar atentamente as circunstâncias, e sobretudo levar em conta o caráter e a posição das pessoas, o objetivo e o interesse que elas poderiam ter em enganar: aí está o melhor de todos os controles, porque são tais circunstâncias que levantam todos os motivos para a suspeição. Colocamos, pois, em princípio, que é preciso desconfiar de quem faça desses fenômenos um espetáculo, ou um objeto de curiosidade e de divertimento, que deles tire um proveito, por mínimo que seja, e se vanglorie de produzi-los à vontade e a propósito. Não poderíamos repetir demais que as inteligências ocultas, que se manifestam a nós, têm suas suscetibilidades, e querem nos provar que também têm seu livre arbítrio, e não se submetem aos nossos caprichos.

De todos os fenômenos físicos, um dos mais comuns é o dos golpes íntimos batidos na própria substância da madeira, com ou sem movimento da mesa ou de outro objeto do qual se sirva. Ora, esse efeito é um dos mais fáceis de serem imitados, e como é também um dos que se produzem mais freqüentemente, cremos ser útil revelar a pequena astúcia com a qual se pode enganar. Basta, para isso, colocar as duas mãos espalmadas sobre a mesa, e bastante próximas para que as unhas dos dedos se apóiem firmemente uma contra a outra; então, por um movimento muscular inteiramente imperceptível, se as faz friccionar, o que dá um pequeno ruído seco, tendo uma grande analogia com aqueles da tiptologia íntima. Esse ruído repercute na madeira e produz uma ilusão completa. Nada é mais fácil que fazer ouvir a quantos golpes se peça, uma bateria de tambor, etc.; responder a certas perguntas, por sim ou por não, por números, ou mesmo pela indicação de letras do alfabeto.

Uma vez prevenido, o meio de se reconhecer a fraude é bem simples. Ela não é mais possível se as mãos forem afastadas uma da outra, e assegurando-se que nenhum outro contato pode produzir o ruído. Os golpes reais, aliás, oferecem de característico que mudam de lugar e de timbre à vontade, o que não pode ocorrer quando são devidos à causa que assinalamos, ou a qualquer outra análoga; que saia da mesa para se transportar sobre um móvel qualquer que ninguém toca, enfim, que responda a perguntas imprevistas.

Chamamos, pois, a atenção das pessoas de boa fé para esse pequeno estratagema e todos aqueles que poderiam reconhecer, a fim de assinalá-los sem circunspecção. À possibilidade da fraude e da imitação não impede a realidade dos fatos, e o Espiritismo não pode senão ganhar, desmascarando os impostores. Se alguém nos disser: Eu vi tal fenômeno, mas havia charlatanice, responderemos que isso é possível; nós vimos, nós mesmos, supostos sonâmbulos simularem o sonambulismo com muita destreza, o que não impede de o sonambulismo ser um fato; todo mundo viu mercadores venderem algodão por seda, o que não impede que hajam verdadeiros tecidos de seda. É preciso examinar todas as circunstâncias e ver se a dúvida tem fundamento; mas nisso, como em todas as coisas, é preciso ser perito; ora, não poderíamos reconhecer, por juiz de uma questão qualquer, aquele que dela nada conhecesse.

Diremos o mesmo quanto aos médiuns escreventes. Geralmente, pensa-se que aqueles que são mecânicos oferecem mais garantias, não só pela independência das idéias, mas também contra o charlatanismo. Pois bem! É um erro. A fraude se introduz por toda parte, e sabemos com quanta habilidade se pode dirigir, à vontade mesmo, uma cesta ou uma prancheta que escreve, e dar-lhes todas as aparências de movimentos espontâneos.

O que tira todas as dúvidas, são os pensamentos exprimidos, quer venham de um médium mecânico, intuitivo, audiente, falante ou vidente. Há comunicações que estão de tal modo fora das idéias, dos conhecimentos, e mesmo da capacidade intelectual do médium que é preciso enganar-se estranhamente para honrá-los. Nós reconhecemos, no charlatanismo, uma grande habilidade e fecundos recursos, mas não lhe conhecemos, ainda, o dom de dar saber a um ignorante, ou o espírito àquele que não o tem.

fraudes espíritas

Quadro da vida Espírita

Revista Espírita, abril de 1859

Todos nós, sem exceção, cedo ou tarde, atingiremos o termo fatal da vida; nenhum poder poderia nos subtrair a essa necessidade, eis o que é positivo. As preocupações do mundo, freqüentemente, nos desviam do pensamento do que ocorre além do túmulo, mas, quando chega o momento supremo, poucos são os que não se perguntam em que se tornarão, porque a idéia de deixar a existência sem retomo tem alguma coisa de pungente. Quem poderia, com efeito, encarar com indiferença uma separação absoluta, eterna, de tudo o que se amou? Quem poderia ver sem medo abrir-se, diante de si, o abismo imenso do nada, onde viriam desaparecer para sempre todas as nossas faculdades, todas as nossas esperanças? “O que! depois de mim, nada, nada mais que o vazio; tudo se acabou sem retorno; ainda alguns dias e a minha lembrança será apagada da memória daqueles que me sobreviveram; logo, não restará nenhum traço da minha passagem sobre a Terra; o próprio bem que fiz será esquecido pelos ingratos que obsequiei; e nada para compensar tudo isso, nenhuma outra perspectiva que a de meu corpo roído pelos vermes!” Esse quadro do fim do materialista, traçado por um Espírito que viveu nesses pensamentos, não tem alguma coisa de horrível, de glacial? A religião nos ensina que isso não pode ser assim, e a razão no-lo confirma; mas essa existência futura, vaga e indefinida, nada tem que satisfaça nosso amor ao positivo; é o que, em muitos, engendra a dúvida. Temos uma alma, seja; mas, o que é a nossa alma? Tem ela uma forma, uma aparência qualquer? É um ser limitado ou indefinido? Uns dizem que é um sopro de Deus, outros uma centelha, outros uma parte do grande todo, o princípio da vida e da inteligência; mas o que é que tudo isso nos ensina? Diz-se, ainda, que ela é imaterial; mas uma coisa imaterial não poderia ter proporções definidas; para nós isso não é nada. A religião nos ensina, ainda, que seremos felizes ou infelizes, segundo o bem ou o mal que fizermos; mas qual é essa felicidade que nos espera no seio de Deus? É uma beatitude, uma contemplação eterna, sem outro emprego que o de cantar os louvores do Criador? As chamas do inferno são uma realidade ou uma figura? A própria Igreja o entende nesta última acepção, mas, quais são esses sofrimentos? Onde está esse lugar de suplício? Em uma palavra, que se faz, que se vê, nesse mundo que a todos espera?

Ninguém, diz-se, voltou para dele nos dar conta. É um erro, e a missão do Espiritismo é precisamente esclarecer-nos sobre esse futuro, de no-lo fazer, até um certo ponto, tocar pelo dedo e pelo olhar, não mais pelo raciocínio, mas pelos fatos. Graças às comunicações espíritas, isso não é mais uma presunção, uma probabilidade sobre a qual cada um borda à sua maneira, que os poetas embelezam com suas ficções, ou semeiam imagens alegóricas que nos enganam, é a própria realidade que nos aparece, porque são os próprios seres de além-túmulo que vêm nos pintar a sua situação, dizer-nos o que fazem, que nos permitem assistir, por assim dizer, a todas as peripécias de sua nova vida, e, por esse meio, nos mostram a sorte inevitável que nos espera, segundo nossos méritos e nossos defeitos. Há aí algo de anti-religioso? Bem ao contrário, uma vez que os incrédulos nisso encontram a fé, os tépidos uma renovação de fervor e de confiança. O Espiritismo é, pois, o mais poderoso auxiliar da religião. Uma vez que isso é, é que Deus o permite, e o permite para reanimar nossas esperanças vacilantes, e nos reconduzir ao caminho do bem pela perspectiva do futuro que nos espera.

As conversas familiares de além-túmulo que damos, os relatos que contêm da situação dos Espíritos que nos falam, nos iniciam em suas penas, em suas alegrias, em suas ocupações; é o quadro animado da vida espírita, e na própria variedade dos assuntos podemos encontrar as analogias que nos tocam. Vamos tentar resumir-lhe o conjunto.

Tomemos primeiro a alma, em sua saída deste mundo, e vejamos o que se passa nessa transmigração. Extinguindo-se as forças vitais, o Espírito se separa do corpo no momento em que se extingue a vida orgânica; mas essa separação não é brusca e instantânea. Ela começa, algumas vezes, antes da cessação completa da vida; não está sempre completa no instante da morte. Sabemos que, entre o Espírito e o corpo, há uma laço semi-material que constitui um primeiro envoltório; é esse laço que não é quebrado subitamente e, enquanto ele subsiste, o Espírito está num estado de perturbação que se pode comparar àquele que acompanha o despertar; freqüentemente mesmo, ele duvida de sua morte; sente que existe, vê-se, e não compreende que possa viver sem seu corpo, do qual se vê separado; os laços que o unem, ainda, à matéria, tornam-no mesmo acessível a certas sensações que toma por sensações físicas; não é senão quando está completamente livre que o Espírito se reconhece: até aí não se apercebe de sua situação. A duração desse estado de perturbação, como o dissemos em outras ocasiões, é muito variável; pode ser de várias horas, como de vários meses, mas é raro que, ao cabo de alguns dias, o Espírito não se reconheça mais ou menos bem. Entretanto, como tudo lhe é estranho e desconhecido, é preciso um certo tempo para se familiarizar com a sua nova maneira de perceber as coisas.

O instante em que um deles vê cessar sua escravidão, pela ruptura dos laços que o retêm ao corpo, é um instante solene; em sua reentrada no mundo dos Espíritos, é acolhido por seus amigos, que vêm recebê-lo como no retorno de uma penosa viagem; se a travessia foi feliz, quer dizer, se o tempo de exílio foi empregado de modo proveitoso, por ele, e o eleva na hierarquia do mundo dos Espíritos, felicitam-no; aí reencontra àqueles que conheceu, misturase àqueles que o amam e simpatizam com ele, e então começa, verdadeiramente, para ele, sua nova existência.

O envoltório semi-material do Espírito constitui uma espécie de corpo de forma definida, limitada e análoga à nossa; mas esse corpo não tem nossos órgãos e não pode sentir todas as nossas impressões. Percebe, entretanto, tudo o que nós percebemos: a luz, os sons, os odores, etc.; e essas sensações, por não terem nada de material, não são menos reais; têm mesmo alguma coisa de mais clara, de mais precisa, de mais sutil, porque chegam ao Espírito sem intermediário, sem passarem pela fieira dos órgãos que as enfraquecem. A faculdade de perceber é inerente ao Espírito: é um atributo de todo o seu ser; as sensações chegam-lhe de toda parte e não por canais circunscritos. Um deles nos disse, falando da visão: “É uma faculdade do Espírito e não do corpo; vedes pelos olhos, mas em vós não é o olho que vê, é o Espírito.”

Pela conformação dos nossos órgãos, temos necessidade de certos veículos para as nossas sensações; assim é que precisamos da luz para refletir os objetos, do ar para nos transmitir os sons; esses veículos tornam-se inúteis desde que não tenhamos mais os intermediários que os tomavam necessários; o Espírito vê, pois, sem o concurso de nossa luz, ouve sem ter necessidade das vibrações do ar; por isso, não há, para ele, a obscuridade. Mas sensações perpétuas e indefinidas, por agradáveis que sejam, tornar-se-iam fatigantes com o tempo se não se pudesse subtrair-se delas; o Espírito tem também a faculdade de suspendê-las; à vontade, pode cessar de ver, de ouvir, de sentir tais ou tais coisas, por conseguinte, não ver, não ouvir, não sentir o que não quer; esta faculdade está em razão de sua superioridade, porque há coisas que os Espíritos inferiores não podem evitar, e eis o que torna sua situação penosa.

É essa nova maneira de sentir que o Espírito não se explica tudo primeiro, e da qual não se apercebe senão pouco a pouco. Aqueles cuja inteligência está ainda atrasada, não a compreendem mesmo de todo, e teriam muita dificuldade para descrevê-la; absolutamente como, entre nós, os ignorantes vêem e se movem sem saberem por quê e como.

Essa impossibilidade de compreender o que está acima de sua capacidade, unida à fanfarrice, companheira comum da ignorância, é a fonte das teorias absurdas que dão certos Espíritos, e que nos induziriam em erro, nós mesmos, se as aceitássemos sem controle, e sem nos assegurarmos, pelos meios dados pela experiência e pelo hábito de conversar com eles, do grau de confiança que merecem.

Há sensações que têm sua fonte no próprio estado de nossos órgãos; ora, as necessidades inerentes ao nosso corpo não podem ocorrer do momento que nosso corpo não existe mais. O Espírito não sente, pois, nem a fadiga, nem a necessidade de repouso, nem a de alimentação, porque não tem nenhuma perda a reparar; não é afligido por nenhuma de nossas enfermidades. As necessidades do corpo ocasionam as necessidades sociais, que não existem mais para os Espíritos: assim, para eles, os cuidados dos negócios, os tormentos, as mil tribulações do mundo, as aflições que se dão para se proporcionar as necessidades ou as superfluidades da vida não existem mais; têm piedade do trabalho que nos damos por vãs futilidades; e, todavia, tanto os Espíritos elevados são felizes, quanto os Espíritos inferiores sofrem, mas esses sofrimentos são de preferência angústias, que por nada terem de físicas não são menos pungentes; eles têm todas as paixões, todos os desejos que tinham em sua vida (falamos dos Espíritos inferiores), e seu castigo é não poder satisfazê-los; para eles, é uma verdadeira tortura, que crêem perpétua, porque sua própria inferioridade não lhes permite ver o fim, e lhes é, ainda, um castigo.

A palavra articulada é também uma necessidade da nossa organização; não tendo os Espíritos necessidade de sons vibrantes para ferirem seus ouvidos, compreendem-se tão-só pela transmissão do pensamento, como nos ocorre, freqüentemente, a nós mesmos, nos compreendermos por um único olhar. Os Espíritos, entretanto, fazem barulho; sabemos que podem agir sobre a matéria, e essa matéria nos transmite o som; é assim que fazem ouvir sejam pancadas, sejam gritos no vago do ar, mas, então, é por nós que o fazem, e não por eles. Voltaremos sobre este assunto num artigo especial, onde trataremos da faculdade de médiuns audientes. Ao passo que arrastamos penosamente nosso corpo pesado e material sobre a Terra, como o condenado sua bola de ferro, o dos Espíritos, vaporoso, etéreo, transporta-se, sem fadiga, de um lugar para outro, transpõe o espaço com a rapidez do pensamento; penetra por toda parte e nenhuma matéria lhe é obstáculo.

O Espírito vê tudo o que vemos, e mais claramente do que podemos fazê-lo; além disso, vê o que os nossos sentidos limitados não nos permite ver; ele mesmo penetrando a matéria, descobre o que a matéria oculta aos nossos olhos.

Os Espíritos não são, pois, seres vagos, indefinidos, segundo as definições abstratas da alma que reportamos mais acima; são seres reais, determinados, circunscritos, gozando de todas as nossas faculdades e de muitas outras que nos são desconhecidas, porque elas são inerentes à sua natureza; têm as qualidades da matéria que lhes é própria e compõem o mundo invisível que povoa o espaço, nos cercam, nos acotovelam sem cessar. Suponhamos, por um instante, que o véu material que os oculta à nossa visão seja rasgado, ver-nos-íamos cercados de uma multidão de seres que vão, vêm, se agitam ao nosso redor, nos observam, como nós mesmos o somos quando nos encontramos em uma assembléia de cegos. Para os Espíritos, somos cegos, e eles são os videntes.

Dissemos que, entrando em sua nova vida, o Espírito leva algum tempo para se reconhecer, que tudo lhe é estranho e desconhecido. Perguntar-se-á, sem dúvida, como pode ser assim se já teve outras existências corpóreas; essas existências foram separadas por intervalos durante os quais habitaram o mundo dos Espíritos; esse mundo, portanto, não lhe deve ser desconhecido, uma vez que não o vê pela primeira vez.

Várias causas contribuem para tornar, essas percepções, novas para ele, embora já as tenha experimentado. A morte, dissemos, é sempre seguida de um instante de perturbação, mas que pode ser de curta duração. Nesse estado, suas idéias são sempre vagas e confusas: a vida corpórea se confunde, de alguma sorte, com a vida espírita, e não pode, ainda, separálas em seu pensamento. Dissipada essa primeira perturbação, as idéias se elucidam pouco a pouco e, com elas, a lembrança do passado que não lhe chega senão gradualmente à memória, porque jamais essa memória nele se irrompe bruscamente. Não é senão quando está inteiramente desmaterializado que o passado se desenrola diante dele, como uma perspectiva saindo de um nevoeiro. Só então se lembra de todos os atos de sua última existência, depois de suas existências anteriores e suas diversas passagens pelo mundo dos Espíritos. Concebe-se, pois, depois disso, que, durante um certo tempo, esse mundo deve parecer-lhe novo, até que o reconheça completamente, e que as lembranças das sensações que nele experimentou lhe retornem de maneira precisa.

Mas, a essa causa, é preciso acrescentar uma outra não menos preponderante.

O estado do Espírito, como Espírito, varia extraordinariamente em razão do grau de sua elevação e de sua pureza. À medida que se eleva e se depura, suas percepções e suas sensações são menos grosseiras; adquirem mais finura, sutileza, delicadeza; ele vê, sente e compreende coisas que não podia nem ver, nem sentir e nem compreender em uma condição inferior. Ora, sendo cada existência corpórea, para ele, uma oportunidade de progresso, o conduz para um meio novo, porque se encontra, se progrediu, entre Espíritos de uma outra ordem cujos pensamentos e todos os hábitos são diferentes. Acrescentemos a isso que essa depuração permite-lhe penetrar, sempre como Espírito, em mundos inacessíveis aos Espíritos inferiores, como, entre nós, os salões da sociedade são interditados às pessoas mal educadas. Quanto menos está esclarecido, mais o horizonte lhe é limitado; à medida que se eleva e se depura, esse horizonte cresce e, com ele, o círculo de suas idéias e de suas percepções. A comparação seguinte pode no-lo fazer compreender. Suponhamos um camponês, rude e ignorante, vindo a Paris pela primeira vez; conhecerá e compreenderá ele a Paris do mundo elegante e do mundo sábio? Não, porque não freqüentará senão as pessoas de sua classe e os bairros que elas habitam. Mas que, no intervalo de uma segunda viagem, esse camponês se esclareça, haja adquirido instrução e maneiras polidas, seus hábitos e suas relações serão diferentes; então, verá um mundo novo para ele, que não se parecerá com a sua Paris de outrora. Ocorre o mesmo com os Espíritos; mas nem todos experimentam essa incerteza no mesmo grau. À medida que progridem, suas idéias se desenvolvem, a memória é mais rápida; estão previamente familiarizados com a sua nova situação; seu retorno, entre os outros Espíritos, nada mais tem que os espante: reencontram-se em seu meio normal, e, passado o primeiro momento de perturbação, se reconhecem quase que imediatamente.

Tal é a situação geral dos Espíritos, no estado que se chama errante; mas, nesse estado, que fazem? Como passam seu tempo? Essa questão é, para nós, de um interesse fundamental. Eles mesmos irão respondê-las, como foram eles que nos forneceram as explicações que acabamos de dar, porque, em tudo isto, nada saiu de nossa imaginação; isso não é um sistema despontado em nosso cérebro: nós julgamos segundo o que vemos e ouvimos. À parte toda opinião sobre o Espiritismo, convir-se-á que essa teoria da vida de além-túmulo nada tem de irracional; ela apresenta uma seqüência, um encadeamento perfeitamente lógicos, e que fariam honra a mais de um filósofo.

Seria erro crer que a vida espírita é uma vida ociosa; ao contrário, ela é essencialmente ativa, e todos nos falam de suas ocupações; essas ocupações diferem, necessariamente, segundo esteja o Espírito errante ou encarnado. No estado de encarnação, são relativas à natureza do globo que habitam, às necessidades que dependem do estado físico e moral desses globos, assim como da organização dos seres vivos. Não é disso que vamos nos ocupar aqui; não falaremos senão dos Espíritos errantes. Entre aqueles que alcançaram um certo grau de elevação, uns velam pelo cumprimento dos desígnios de Deus nos grandes destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos e concorrem para o progresso de cada mundo; outros tomam os indivíduos sob sua proteção e se constituem seus gênios tutelares, os anjos guardiães, seguindo-os desde o nascimento até a morte, buscando dirigilos no caminho do bem: é uma felicidade, para eles, quando seus esforços são coroados de sucesso. Alguns se encarnam em mundos inferiores para aí cumprirem missões de progresso; buscam pelo seu trabalho, seus exemplos, seus conselhos, seus ensinamentos, avançar estes nas ciências ou nas artes, aqueles na moral. Submetem-se, então, voluntariamente, às vicissitudes de uma vida corpórea, freqüentemente penosa, com o objetivo de fazerem o bem, e o bem que fazem lhes é contado. Muitos, enfim, não têm atribuições especiais; vão por toda parte onde sua presença possa ser útil, dar conselhos, inspirar boas idéias, sustentar os de coragem desfalecente, dar força aos fracos e castigo aos presunçosos.

Considerando-se o número infinito de mundos que povoam o Universo e o número incalculável de seres que os habitam, conceber-se-á que os Espíritos têm com que se ocuparem; mas essas ocupações não lhes são penosas; cumprem-nas com alegria, voluntariamente e não por constrangimento, e sua felicidade está em triunfarem naquilo que empreendem; ninguém sonha com uma ociosidade eterna que seria um verdadeiro suplício. Quando as circunstâncias o exigem, reúnem-se em conselho, deliberam sobre o caminho a seguir, segundo os acontecimentos, dão ordens aos Espíritos que lhes são subordinados, e, em seguida, vão para onde o dever os chama. Essas assembléias são mais ou menos gerais ou particulares, segundo a importância do assunto; nenhum lugar especial e circunscrito está destinado a essas reuniões: o espaço é o domínio dos Espíritos; todavia, de preferência, dirigem-se aos globos onde estão os seus objetivos. Os Espíritos encarnados que aí estão em missão, nelas tomam parte segundo sua elevação; enquanto seus corpos repousam, vão haurir conselhos entre os outros Espíritos, freqüentemente, receber ordens sobre a conduta que devem ter como homens. Em seu despertar, não têm, é verdade, uma lembrança precisa do que se passou, mas têm a intuição, que os faz agirem como por sua própria iniciativa.

Descendo na hierarquia, encontramos os Espíritos menos elevados, menos depurados, e, por conseqüência, menos esclarecidos, mas que não são menos bons, e que, numa esfera de atividade mais restrita, cumprem funções análogas. Sua ação, em lugar de se estender aos diferentes mundos, se exerce, mais especialmente, sobre um globo determinado, em relação com o grau de seu adiantamento; sua influência é mais individual e tem por objeto coisas de menor importância.

Em seguida, vem a multidão de Espíritos, mais ou menos bons ou maus, que pululam ao nosso redor; elevam-se pouco acima da Humanidade, da qual representam todas as nuanças e são como o reflexo, porque têm todos os vícios e todas as virtudes; num grande número, encontram-se os gostos, as idéias e as tendências que tinham quando em vida; suas faculdades são limitadas, seu julgamento falível como o dos homens, freqüentemente errado e imbuído de preconceitos.

Em outros o sentido moral é mais desenvolvido; sem terem nem grande superioridade, nem grande profundidade, julgam mais sadiamente, e, com freqüência, condenam o que fizeram, disseram ou pensaram durante a vida. De resto, há isto de notável, que mesmo entre os Espíritos mais comuns, a maioria tem sentimentos mais puros como Espíritos do que como homens, a vida espírita esclarece-os quanto aos seus defeitos; e, com bem poucas exceções, se arrependem amargamente, e lamentam o mal que fizeram, porque o sofrem mais ou menos cruelmente. Algumas vezes, vimo-los como não sendo melhores, mas jamais sendo piores do que eram quando vivos. O endurecimento absoluto é muito raro e não é senão temporário, porque, cedo ou tarde, acabam por sofrer em sua posição, e pode-se dizer que todos aspiram a se aperfeiçoarem, porque todos compreendem que é o único meio de saírem de sua inferioridade; instruírem-se, esclarecerem-se, aí está sua grande preocupação, e ficam felizes quando lhe podem juntar algumas pequenas missões de confiança que os revelam aos seus próprios olhos.

Têm também suas assembléias, mais ou menos serias segundo os seus pensamentos.

Falam conosco, vêem e observam o que se passa; misturam-se às nossas reuniões, aos nossos jogos, às nossas festas, aos nossos espetáculos, como aos nossos negócios sérios; escutam nossas conversas: os mais levianos para se divertirem e, freqüentemente, rirem às nossas custas e, se podem, agirem com malícia, os outros para se instruírem; observam os homens, seu caráter, e fazem o que chamam de estudos dos costumes, tendo em vista se fixarem sobre a escolha de sua existência futura.

Vimos o Espírito no momento em que, deixando seu corpo, entra em sua nova vida; analisamos suas sensações, seguimos o desenvolvimento gradual de suas idéias. Os primeiros momentos são empregados em se reconhecer, e se inteirar do que se passa com ele; em uma palavra, ensaia, por assim dizer, suas faculdades, como a criança que, pouco a pouco, vê aumentar suas forças e seus pensamentos. Falamos de Espíritos vulgares porque os outros, como dissemos, estão de alguma sorte identificados previamente com o estado espírita que não lhes causa nenhuma surpresa, mas unicamente a alegria de estarem livres dos entraves e dos sofrimentos corpóreos. Entre os Espíritos inferiores, muitos lamentam a vida terrestre, porque sua situação como Espírito é cem vezes pior, e é por isso que procuram uma distração na visão do que fazia outrora suas delícias, mas essa própria visão é, para eles, um suplício, porque têm o desejo e não podem satisfazê-lo.

A necessidade de progredir é geral entre os Espíritos, e é o que os excita a trabalharem pelo seu adiantamento, porque compreendem que a sua felicidade tem esse preço; mas nem todos sentem essa necessidade no mesmo grau, sobretudo em começando; alguns se comprazem mesmo numa espécie de vadiagem, mas que não tem senão um tempo; cedo a atividade torna-se-lhes uma necessidade imperiosa, à qual, aliás, são impelidos por outros Espíritos que lhes estimulam o sentimento do bem.

Em seguida, vem o que se pode chamar a escória do mundo espírita, composta de todos os Espíritos impuros, nos quais o mal é a única preocupação. Sofrem e gostariam de ver todos os outros sofrerem como eles. O ciúme toma-lhes odiosa toda superioridade; o ódio é sua essência; não podendo prenderem-se aos Espíritos, prendem-se aos homens e atacam aqueles que lhes parecem mais fracos. Excitar as más paixões, insuflar a discórdia, separar os amigos, provocar as rixas, inchar o orgulho dos ambiciosos para se dar o prazer de abatêlos em seguida, espalhar o erro e a mentira, em uma palavra, desviar do bem, tais são os seus pensamentos dominantes.

Mas, por que Deus permite que seja assim? Deus não tem contas a nos prestar. Os Espíritos superiores nos dizem que os maus são provas para os bons, e que não há virtude onde não há vitória a se alcançar. De resto, se esses Espíritos malfazejos se encontram em nossa Terra, é porque aqui encontram ecos e simpatias. Consolemo-nos pensando que, acima desse lodo que nos cerca, há seres puros e benevolentes que nos amam, nos sustentam, nos encorajam, e nos estendem os braços para nos levar até eles, e nos conduzir a mundos melhores, onde o mal não tem acesso, se soubermos fazer o que é preciso para merecê-lo.quadro espírita

Plínio, o moço

Revista Espírita, março de 1859

Carta de Plínio, o Moço a Sura.

(Livro VII.-Carta271)

“O ócio que desfrutamos vos permite ensinar e me permite aprender. Gostaria, pois, muito de saber se os fantasmas têm alguma coisa de real, se têm uma verdadeira aparência, se são gênios, ou se não são senão vãs imagens que se traçam numa imaginação perturbada pelo medo. O que me inclina a crer que há verdadeiros espectros, é o que se me disse haver ocorrido a Curtius Rufus. No tempo em que ainda estava sem fortuna e sem nome, seguira na África aquele que o governo lhe havia escolhido. No declínio do dia, passeava sob um pórtico, quando uma mulher, de um talhe e de uma beleza mais do que humanas apresentouse-lhe: “Eu sou a África, disse ela. Venho predizer-te o que te deve acontecer. Tu irás a Roma, exercerás os maiores cargos, e retornarás, em seguida, para governar esta província, onde morrerás.”

Tudo aconteceu como ela havia predito. Conta-se mesmo que, ancorando em Cartago, e saindo de sua nave, a mesma figura se apresentou diante dele, e veio ao seu encontro sobre a margem.

“O que há de verdade, é que caiu doente, e que, julgando o futuro pelo passado, a infelicidade que o ameaçava pela boa fortuna que havia provado, desesperou-se primeiro de sua cura, apesar da boa opinião que os seus dele conceberam.

“Mas eis uma outra história, que não vos parecerá menos surpreendente, e que é bem mais horrível. Eu lha darei tal como a recebi.

– Havia em Atenas uma casa muito grande e muito habitável, mas desacreditada e deserta. No profundo silêncio da noite, ouvia-se um ruído de ferros, e, se se aplicasse o ouvido com mais atenção, um ruído de correntes, que parecia primeiro vir de longe e, em seguida, se aproximar. Logo via-se um espectro parecido com um velho, muito magro, muito abatido, que tinha uma longa barba, cabelos eriçados, ferros nos pés e nas mãos, que sacudia horrivelmente. Daí, noites horríveis e sem sono para aqueles que habitavam essa casa. A insônia, com o tempo, trazia a doença, e a doença aumentando o medo, era seguida da morte. Porque durante o dia, embora o espectro não aparecesse mais, a impressão que dera o remetia sempre diante dos olhos e o medo passado gerava um novo. Por fim, a casa foi abandonada, e deixada inteiramente ao fantasma. Colocou-se-lhe, todavia, uma placa para advertir que estava para alugar ou à venda, no pensamento de que alguém, pouco instruído de um desconforto tão terrível, poderia ser enganado.

O filósofo Atenodoro veio a Atenas. Percebendo a placa, perguntou o preço. A modicidade colocou-o em desconfiança, e se informou. Foi-lhe contada a história, e longe de fazê-lo romper sua compra, a contratou sem demora. Ali se alojou, e à tarde ordenou que levantassem sua cama no quarto da frente, que trouxessem suas tabuinhas, sua pena e a luz, e que as pessoas se retirassem para o fundo da casa. Ele, com medo que sua imaginação não fosse ao sabor de um medo frívolo se figurar fantasmas, aplicou seu espírito, seus olhos e sua mão em escrever. No começo da noite um profundo silêncio reinava nessa casa, como por toda parte alhures. Em seguida, ouviu ferros se entrechocarem, correntes se chocarem; não levantou os olhos, não deixou sua pena; firmou-se e se esforçou em impor-se aos seus ouvidos. O ruído aumentou, aproximou-se; parecia que estava perto da porta do quarto. Ele olhou e percebeu o espectro, tal como lhe haviam pintado. Esse espectro estava de pé e o chamava com o dedo. Atenodoro fez-lhe sinal com a mão para esperar um pouco, e continuou a escrever como se nada houvesse. O espectro recomeçou seu tumulto com suas correntes, que fazia soar nos ouvidos do filósofo. Este olhou ainda uma vez, e viu que ele continuava a chamá-lo com o dedo. Então, sem mais tardar, levantou-se, tomou a luz e seguiu. O fantasma caminhou com passo lento, como se o peso das correntes o sobrecarregasse. Chegados ao pátio da casa, ele desapareceu de repente, e deixou nosso filósofo, que recolheu ervas e folhas, e as colocou no lugar onde ele o havia deixado, para poder reconhecê-lo. No dia seguinte, foi procurar os magistrados e suplicou-lhes ordenar que se escavasse naquele lugar. Foi feito; encontraram-se ossos ainda envolvidos em correntes; o tempo havia consumido as carnes. Depois que foram reunidos cuidadosamente, foram sepultados publicamente e, depois que se deu ao morto os últimos deveres, ele não perturbou mais o repouso dessa casa.

“O que acabo de contar, eu o creio sobre a fé de outro. Mas, eis o que posso assegurar aos outros sobre a minha. – Tenho um liberto chamado Marcus, que não é sem saber. Havia deitado com seu irmão mais novo. Pareceu-lhe ver alguém sentado sobre sua cama, e que aproximava a tesoura de sua cabeça e mesmo lhe cortava cabelos acima de sua fronte. Quando fez luz, percebeu que tinha o alto da testa liso, e seus cabelos foram encontrados esparramados perto dele. Pouco depois, semelhante aventura tendo ocorrido com um dos meus criados, não me permite mais duvidar da verdade do outro.

Um dos meus jovens escravos dormia com os companheiros, no lugar que lhes está destinado. Dois homens vestidos de branco (foi assim que contou) vieram pelas janelas, rasparam-lhe a cabeça enquanto dormia, e retornaram como tinham chegado. No dia seguinte, quando chegou o dia, encontrou-se raspado, como se encontrara o outro, e os cabelos que lhe foram cortados, esparsos sobre o soalho.

“Essas aventuras não teriam nenhuma conseqüência, se eu não fora acusado, diante de Domitien, sob cujo reinado elas ocorreram. Eu não teria escapado, se ele vivesse, porque se encontrou, em sua pasta para papéis, um requerimento contra mim, feito por Carus. Daí pode-se conjecturar que, como o costume dos acusados é negligenciar seus cabelos, e deixálos crescer, aqueles que o haviam cortado aos meus criados, assinalavam que eu estava fora de perigo. Suplico-vos, pois, colocar toda a vossa erudição em ação. O assunto é digno de uma meditação profunda e, talvez, não seja indigno de que me partilheis vossas luzes. Se, segundo vosso costume, balançardes as duas opiniões contrárias, fazei, todavia, com que a balança penda de algum lado, para tirar-me da inquietação na qual estou, porque não vos consulto senão para nela não mais estar. -Adeus.”

Resposta de Plínio, o Moço, às perguntas que lhe foram endereçadas, na sessão da Sociedade de 28 de janeiro de 1859.

1. Evocação. – Resp. Falai; eu responderei.

2. Embora estejais morto há 1743 anos, tendes a lembrança de vossa existência em Roma, ao tempo de Trajano? – R. Por que, pois, nós Espíritos não poderíamos nos lembrar? Lembrai-vos bem dos atos de vossa infância. O que é, pois, para o Espírito, uma existência passada, senão a infância das existências pelas quais deveremos passar, antes de atingirmos o fim de nossas provas. Toda existência terrestre, ou envolvida no véu material, é uma aproximação com o éter, e, ao mesmo tempo, uma infância espiritual e material; espiritual, porque o Espírito está, ainda, no início das provas; material, porque ele não faz senão entrar nas fases grosseiras pelas quais deve passar para se depurar e se instruir.

3. Poderíeis dizer-nos o que fizestes desde essa época? – R. O que fiz, seria bem longo; procurei fazer o bem; não quereis, sem dúvida, passar horas inteiras à espera que eu termine; contentai-vos, pois, com uma resposta; eu o repito, procurei fazer o bem, instruirme, conduzir criaturas terrestres e errantes a se aproximarem do Criador de todas as coisas; daquilo que nos dá o pão da vida espiritual e material.

4. Que mundo habitais? – R. Pouco importa; estou um pouco por toda parte: o espaço é o meu domínio, e o de muitos outros. Essas são perguntas às quais um Espírito, sábio e esclarecido da luz santa e divina, não deve responder, ou somente em ocasiões muito raras.

5. Em uma carta que escrevestes a Sura, narrastes três fatos de aparições; lembrai-vos delas? – R. Eu as sustento porque foram verdadeiras; todos os dias, tendes fatos semelhantes aos quais não prestais atenção; são muito simples mas, na época em que vivi, tê-lo-íamos achado surpreendentes; vós, vós não deveis vos espantar com isso; deixai, pois, de lado essas coisas, tende-as mais extraordinárias.

6. Temos, todavia, o desejo de dirigir-vos algumas perguntas a esse respeito. – R. Uma vez que vos responda de maneira geral, isso deverá vos bastar; entretanto, fazei-as, se o desejais absolutamente; serei lacônico em minhas respostas.

7. No primeiro fato,, uma mulher apareceu a Curtius Rufus e disse-lhe que ela era a África. Quem era essa mulher? – R. Uma grande figura; parece-me que era muito simples para homens esclarecidos, tais como aqueles do século XIX.

8. Qual motivo fazia agir o Espírito que apareceu a Atenodoro, e por que esse ruído de correntes? – R. Figura da escravidão, manifestação; meio de convencer os homens, de chamar sua atenção fazendo falar da coisa, e de provar a existência do mundo espiritual.

9. Defendestes, diante de Trajano, a causa dos cristãos perseguidos; foi por um simples motivo de humanidade ou por convicção da verdade de sua doutrina? – R. Eu tinha os dois motivos; a humanidade não caminhava senão em segunda linha.

10. Que pensais de vosso panegírico de Trajano? – R. Haveria necessidade de ser refeito.

11. Escrevestes uma história de vosso tempo, ela perdeu-se; ser-vos-ia possível reparar essa perda no-la ditando? – R. O mundo dos Espíritos não se manifesta especialmente para estas coisas; tendes essas espécies de manifestações e elas têm seu objetivo; são tantas estacas semeadas à direita e à esquerda sobre o grande caminho da verdade, mas deixai fazer e não vos ocupeis disso consagrando-vos aos vossos estudos; cabe a nós o cuidado de ver e de julgar o que importa que saibais; cada coisa tem seu tempo; não vos desvieis, pois, da linha que vos traçamos.

12. É aprazível fazer justiça às vossas boas qualidades e, sobretudo, ao vosso desinteresse. Diz-se que não exigíeis nada de vossos clientes pelos vossos discursos; esse desinteresse era tão raro em Roma quanto o é entre nós? – R. Não bajuleis minhas qualidades passadas: não as tenho mais. O desinteresse não é quase nada de vosso século; em duzentos homens tendes apenas um ou dois verdadeiramente desinteressados; sabeis que o século está para o egoísmo e o dinheiro. Os homens do presente são edificados com a lama e se revestem de metal. Antigamente havia coração, valor pessoal entre os Antigos, agora não há senão o lugar.

13. Sem absolver nosso século, parece-nos, entretanto, que vale ainda mais que aquele em que vivestes, aquele onde a corrupção estava em seu auge, e onde a delação nada conhecia de sagrado. – R. Faço uma generalidade que é bem verdadeira; sei que, na época em que vivi, não havia muito maior desinteresse; mas, entretanto, havia o que não possuis, eu o repito, ou pelo menos em dose muito fraca: o amor ao belo, ao nobre e ao grande. Falo por todo o mundo; o homem do presente, sobretudo os povos do Ocidente, particularmente o Francês, tem o coração pronto para fazer grandes coisas, mas isso não é senão o brilho que passa; depois vem a reflexão, e a reflexão olha e diz: o positivo, o positivo antes de tudo; e o dinheiro, e o egoísmo a ocupar-se de estar por cima. Nós nos manifestamos justamente porque vos desviastes dos grandes princípios dados por Jesus. Adeus, vós não o compreendeis.

Nota. Compreendemos muito bem que o nosso século ainda deixa muito a desejar, sua praga é o egoísmo, e o egoísmo engendra a cupidez e a sede de riquezas. Sob esse aspecto, está longe do desinteresse do qual o povo romano deu tantos exemplos sublimes numa certa época, mas que não foi a de Plínio. Seria injusto, todavia, menosprezar sua superioridade em mais de um aspecto, mesmo nos mais belos tempos de Roma, que também tiveram seus exemplos de barbárie. Havia, então, ferocidade até na grandeza e no desinteresse; ao passo que nosso século se marcará pelo abrandamento dos costumes, os sentimentos de justiça e de humanidade que presidem a todas as instituições que vê nascer, e até mesmo nas querelas dos povos.

ALLAN KARDEC.

 

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Um Espírito estouvado

Revista Espírita, março de 1859

O senhor J., um de nossos colegas da Sociedade, vira, diversas vezes, chamas azuis passearem sobre sua cama. Convicto de que era uma manifestação, tivemos a idéia, no dia 20 de janeiro último, de evocar um desses Espíritos, a fim de nos edificar sobre a sua natureza.

1. Evocação. – R. E que me queres?

2. Com qual objetivo te manifestaste na casa do senhor J……? – R. Que te importa?

3. A mim, isso pouco importa, é verdade; mas isso não é indiferente ao senhor J… – R. Ah! a bela razão!

Nota. Essas primeiras perguntas foram feitas pelo senhor Kardec. O senhor J… prosseguiu no interrogatório.

4. É que não recebo todo o mundo de bom grado em minha casa. – R. Estás errado; sou muito bom.

5. Dá-me, pois, o prazer de dizer-me o que fazias em minha casa? – R. Crês, por acaso, que, porque sou bom, devo obedecer-te?

6. Foi-me dito que és um Espírito muito leviano. – R. Fazem de mim uma bem má reputação, fora de propósito.

7. Se é uma calúnia, prove-o. – R. Isso não desejo mais.

8. Eu poderia bem empregar um meio para conhecer-te. – R. Isso não poderia senão divertirme, com efeito, um pouco.

9. Eu te intimo a dizer-me o que vieste fazer em minha casa. – R. Não tinha senão um objetivo, o de divertir-me.

10. Isso não está de acordo com o que me foi dito por Espíritos superiores. – R. Fui enviado à tua casa, disso conheces a razão. Estás contente?

11. Pois mentiste? – R. Não.

12. Não tinhas, portanto, más intenções? – R. Não; disseram-te o mesmo que eu.

13. Poderias dizer-me qual a tua classe entre os Espíritos? – R. Tua curiosidade me apraz.

14. Uma vez que pretendes ser bom, por que me respondes de modo tão pouco conveniente? – R. É que te insultei?

15. Não; mas, por que respondes de modo evasivo e te recusas a dar-me as informações que te peço? – R. Sou livre para fazer o que quero, entretanto, sob o comando de certos Espíritos.

16. Então, vejo, com prazer, que começas a ser mais conveniente, e auguro que terei contigo relações mais amáveis. – R. Coloque tuas frases de lado, farás muito melhor.

17. Sob qual forma estás aqui? – R. De forma, não a tenho.

18. Sabes o que é o perispírito? – R. Não; a menos que isso seja do vento.

19. O que eu poderia fazer-te que te seja agradável? – R. Já o disse: cala-te.

20. A missão que vieste cumprir em minha casa te fará avançar como Espírito? – R. Isso é um outro assunto; não me dirijas mais tais perguntas. Sabes que obedeço a certos Espíritos; dirige-te a eles; quanto a mim, não peço senão para ir-me.

21. Tivemos más relações, em uma outra existência, e isso seria a causa de teu mau humor? – R. Não lembras mais o mal que disseste de mim, e isso a quem queria ouvi-lo. Cala-te, digote.

22. Não te disse senão o que me foi dito pelos Espíritos superiores a ti. – R. Disseste também que eu te havia obsediado.

23. Ficastes satisfeito com o resultado que obtiveste? – R. Isso é assunto meu.

24. Sempre queres, pois, que conserve de ti má opinião? – R. É possível! Eu me vou.

Nota: Pode-se ver, pelas conversas que relatamos, a extrema diversidade que há na linguagem dos Espíritos, segundo o grau de sua elevação. A dos Espíritos dessa natureza é quase sempre caracterizada pela rudeza e pela impaciência; quando são chamados nas reuniões sérias, sente-se que não vêm de bom grado; têm pressa de se irem, e isso porque não estão cômodos, em meio de seus superiores e de pessoas que os colocam, de algum modo, na berlinda. Não ocorre o mesmo nas reuniões frívolas, onde se diverte com seus gracejos; estão, em seu centro, e se entregam de coração alegre.

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Hitoti, chefe taitiano

Revista Espírita, março de 1859

Um oficial da marinha, presente na sessão da Sociedade, de 4 de fevereiro último, testemunhou o desejo de evocar um chefe taitiano, de nome Hitoti, que havia conhecido pessoalmente durante sua estada na Oceania.

1. Evocação. – R. Que desejais?

2. Poderíeis dizer-nos por que abraçastes, de preferência, a causa francesa na Oceania? – R. Eu amava essa nação; de resto, meu interesse mo mandava.

3. Ficastes satisfeito com a viagem que mandamos fazer à França o vosso neto, e com os cuidados que lhe proporcionamos? – R. Sim, e não. Essa viagem, talvez muito aperfeiçoou seu espírito, mas isso o tornou completamente estranho à sua pátria, dando-lhe idéias que jamais deveriam nele nascer.

4 . Das recompensas que recebestes do governo francês, quais foram as que mais vos satisfizeram? – R. As condecorações.

5. E, entre as condecorações, qual preferis? – R. A Legião de Honra.

Nota. Essa circunstância era ignorada pelo médium e por todos os assistentes; foi confirmada pela pessoa que fez a evocação. Embora o médium que servia de intermediário fosse intuitivo, e não mecânico, como esse pensamento poderia ser o seu próprio? Poder-se-ia conceber para uma questão banal, mas isso não seria admissível quando se trata de um fato positivo, do qual nada podia dar-lhe a idéia.

6. Estais mais feliz agora do que quando vivo? – R. Sim, muito mais.

7. Em que estado está vosso Espírito? – R. Errante, devendo me reencarnar logo.

8. Quais são as vossas ocupações em vossa vida errante? – R. Instruir-me.

Nota. Essa resposta é quase geral entre todos os Espíritos errantes; aqueles que estão mais avançados moralmente, acrescentam que se ocupam em fazer o bem, e assistem aqueles que têm necessidade de conselhos.

9. De que maneira vos instruís, por que não deveis fazê-lo do mesmo modo que durante a sua vida? – R. Não; trabalho meu espírito; eu viajo. Compreendo que isso é pouco inteligível para vós; sabereis, com efeito, mais tarde.

10. Quais são os continentes que freqüentais com mais bom grado? – R. Continentes? Não viajo mais sobre vossa Terra, estejais bem persuadidos disso; vou mais alto, mais baixo, acima, abaixo, moral e fisicamente. Vi e examinei, com o maior cuidado, mundos ao vosso oriente e ao vosso poente, que ainda estão num estado de barbárie terrível, e outros que estão poderosamente elevados acima de vós.

11. Dissestes que estaríeis logo reencarnado, sabeis em qual mundo? – R. Sim, estou ali freqüentemente.

12. Poder-nos-ia designá-lo? – R. Não.

13. Por que, em vossas viagens, negligenciais vossa Terra? -R. Eu a conheço.

14. Embora não viajais mais sobre esta Terra, pensais ainda em algumas pessoas que aqui pudestes amar? – R. Pouco.

15. Não vos ocupais mais, pois, com aqueles que vos testemunharam afeição? – R. Pouco.

16. Lembrai-vos deles? – R. Muito bem; mas nos reveremos e espero pagar tudo isso. Perguntam-me se deles me ocupo? Não, mas não os esqueço por isso.

17. Não revistes esse amigo do qual faço alusão a toda hora e que, como vós, está morto? – R. Sim, porém nos reveremos mais materialmente; estaremos encarnados em uma mesma esfera, e nossas existências se tocarão.

18. Agradecemo-vos por consentir em responder ao nosso chamado. – R. Adeus; trabalhai e pensai.

Nota. A pessoa que fez a evocação, e que conhece os costumes desses povos, declarou que essa última frase está conforme seus hábitos; entre eles, é uma locução de uso de alguma sorte banal, o que o médium não poderia adivinhar. Igualmente, reconhece que toda a conversa está em relação com o caráter do Espírito evocado, e que, para ele, sua identidade está evidenciada.

A resposta à questão 17 oferece uma particularidade notável. Estaremos encarnados em uma mesma esfera, e nossas existências se tocarão. Está confirmado que os seres que se amaram se reencontram no mundo dos Espíritos, mas parece, além do mais, segundo muitas respostas análogas, que podem seguirem-se, algumas vezes, numa outra existência corporal onde as circunstâncias os aproximam sem que disso suspeitem, seja pelos laços de parentesco, seja pelas relações amigáveis. Isso nos dá a razão de certas simpatias.

chefe taitiano