Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Revista Espírita, dezembro de 1859

Sexta-feira, 30 de setembro de 1859 (Sessão geral).

Leitura da ata da sessão do dia 23 de setembro.

Apresentação do senhor S…, negociante, cavaleiro da Legião de Honra, como membro titular.

Adiamento da admissão para a próxima sessão particular.

Comunicações diversas:

1º Leitura de uma comunicação espontânea feita ao senhor R…, pelo Espírito do doutor Olivier.

Esta comunicação notável sob um duplo ponto de vista o melhoramento moral do Espírito, que reconhece cada vez mais o erro de suas opiniões terrestres, e que agora compreende sua posição; em segundo lugar, o fato de sua reencarnação próxima, da qual começa a sentir os efeitos por uma primeira perturbação, o que confirma a teoria dada sobre a maneira pela qual se opera esse fenômeno, e a fase que precede a reencarna cão propriamente dita. Esta perturbação resulta do laço fluídico que começa a se estabelecer entre o Espírito e o corpo que deve animar, toma a comunicação mais difícil que no seu estado de completa liberdade; o médium escreve com mais lentidão, sua mão é pesada; as idéias dos Espíritos são menos límpidas. Esta perturbação, que vai sempre crescendo da concepção ao nascimento, é completa na aproximação do seu último momento, e não se dissipa senão gradualmente algum tempo depois. (Será publicada com as outras comunicações do mesmo Espírito.)

2º Fato de manifestação física espontânea, ocorrido recentemente em Paris, numa casa do bairro Saint-Germain, e narrada pelo senhor A… Um piano se fez ouvir, durante vários dias seguidos, sem que ninguém o tocasse. Todas as precauções foram tomadas para se assegurar que esse fato não era devido a uma causa acidental. Um sacerdote interrogado a este respeito, pensa que isto pode ser uma alma em pena que reclama assistência e deseja se comunicar.

3º Homicídio cometido por uma criança de sete anos e meio, com premeditação e todas as circunstâncias agravantes. Este fato, narrado por vários jornais, prova nessa criança um instinto assassino inato que não pôde nele se desenvolver pela educação, nem pelo meio onde se encontra, e que não pode se explicar senão por um estado anterior à existência atual. São Luís, interrogado a este respeito, respondeu: o Espírito desta criança está quase no início de seu período humano; não teve ainda senão duas encarnações na Terra, e antes de sua existência atual, pertencia às tribos mais atrasadas do mundo marítimo. Ele quis nascer num mundo mais avançado, na esperança dele mesmo avançar. À pergunta de saber se a educação poderia modificar essa natureza, respondeu: Isto é difícil, mas se pode; seria preciso grandes precauções, cercá-lo de boas influências, desenvolver a sua razão, mas há a temer que não faça tudo ao contrário.

4º Leitura de uma peça de versos escrita por uma jovem pessoa, como médium mecânico.

Esses versos foram reconhecidos por não serem inéditos e por terem sido feitos por um poeta morto há alguns anos. O estado de instrução do médium, que escreveu um grande número deste gênero, não permite supor que isso seja, de sua parte, um efeito de memória; de onde é necessário concluir que o Espírito que se manifestou, tomou ele mesmo nas produções prontas, e que lhe são todas estranhas. Vários fatos análogos provam que a coisa é possível, entre outras o de um médium da Sociedade a quem o Espírito ditou uma passagem escrita pelo senhor Allan Kardec, e que este não tinha ainda comunicado a ninguém.

Estudos. 1º Evocação do negro que serviu de alimento aos seus companheiros no naufrágio do navio te Constant.

2º Perguntas diversas e problemas morais dirigidos a São Luís sobre o fato precedente. Uma discussão se estabeleceu a este respeito, na qual tomaram parte vários membros da
Sociedade.

3º Três comunicações espontâneas são obtidas simultaneamente por intermédio de três médiuns diferentes: a primeira, pelo senhor R…, assinada por São Vicente de Paulo; a segunda, pelo senhor Ch…, assinada por Privat d’Anglemont; a terceira, pela senhorita H…, assinada por Charles IX.

4º Perguntas diversas feitas a Charles IX. Ele promete escrever a história de seu reino a exemplo de Louis XI. (Essas diversas comunicações serão publicadas.)

Sexta-feira, 7 de outubro de 1859. (Sessão particular.)

Leitura da ata e dos trabalhos da sessão de 30 de setembro.

Apresentações e admissões. Senhorita S…. e senhor o conde de R…, oficial da marinha, são apresentados como candidatos ao título de membros titulares.

Admissão de cinco candidatos apresentados na sessão de 23 de setembro, e da senhorita S….

O senhor presidente fez observar, a respeito dos novos membros presentes, que é muito importante, para a Sociedade, assegurar-se de suas disposições. Não basta, disse ele, que sejam partidários do Espiritismo em geral, é necessário que simpatizem com a sua maneira de ver. A homogeneidade de princípios é a condição sem a qual uma sociedade qualquer não poderia ter vitalidade. E, pois, necessário conhecer a opinião dos candidatos, a fim de não deixar introduzirem-se elementos de discussões ociosas, que fariam perder tempo, e poderiam degenerar em dissensões. A Sociedade não visa de nenhum modo o aumento indefinido de seus membros; ela quer, antes de tudo, prosseguir seus trabalhos com calma e recolhimento, e por isso deve evitar tudo o que poderia perturbá-la. Sendo seu objetivo o estudo da ciência, é evidente que cada um está perfeitamente livre para discutir os pontos controvertidos, e emitir sua opinião pessoal; mas outra coisa é dar seu conselho, ou chegar com idéias sistemáticas ou preconcebidas, em oposição com as bases fundamentais. Estamos reunidos para o estudo e a observação, e não para fazer de nossas sessões uma arena de controvérsias. Devemos, aliás, nos referir sobre esse ponto aos conselhos que nos foram dados, em muitas circunstâncias, pelos Espíritos que nos assistem, e que nos recomendam, sem cessar, a união como condição essencial para atingir o objetivo a que nos propusemos, e para obter seu concurso. “A união faz a força, nos dizem; sede, pois, unidos se quereis ser fortes; de outro modo corteis o risco de atrair os Espíritos levianos, que vos enganarão.” Eis porque não poderíamos dar mais atenção sobre os elementos que introduzimos entre nós.

Designação de três novos comissários para as três próximas reuniões seguintes.

Comunicações diversas: 1º O senhor Tug… transmitiu uma nota sobre um fato curioso de manifestação física, narrado pela senhora Ida Pfeiffer na descrição de sua viagem a Java.

2º O senhor Pêch… narrou o fato de comunicação espontânea, que lhe foi pessoal, da parte do Espírito de uma mulher que, quando viva, era lavadeira e do pior caráter. Seus sentimentos, como Espírito, não mudaram, e ela continua a mostrar um verdadeiro cinismo de maldade. Entretanto, os sábios conselhos do médium parecem exercer sobre ela uma feliz influência; suas idéias se modificam sensivelmente.

3º O senhor R… comunicou uma folha sobre a qual obteve a escrita direta, que foi produzida em sua casa, à noite, espontaneamente, depois de tê-la em vão solicitado durante o dia. A folha, de resto, não traz senão duas palavras: Deus, Fénelon.

Estudos: 1º Evocação da senhora Ida Pfeiffer, célebre viajante.

2º Os três cegos, parábola de São Lucas, dada em comunicação espontânea.

3º O senhor L… G. escreveu de Saint-Petersbourg que é médium intuitivo, e pede à Sociedade consentir em pedir a um Espírito superior alguns conselhos a seu respeito, a fim de esclarecer sobre a natureza e extensão de sua faculdade, para que possa dirigir-se em conseqüência. Um Espírito dá espontaneamente, e sem perguntas preliminares, os conselhos que deverão ser transmitidos ao senhor G.

O senhor presidente previne à Sociedade que, a pedido de vários membros que moram muito longe, as sessões começarão doravante às oito horas, a fim de poder terminá-las mais cedo.

Sexta-feira, 14 de outubro. (Sessão geral.)

Leitura da ata e dos trabalhos de 7 de outubro.

Apresentações: O senhor A…, livreiro, senhor de Ia R… proprietário, são apresentados como membros titulares. Adiamento para a próxima sessão particular.

O senhor J…, controlador das contribuições do departamento do Haut-Rhin, é apresentado e admitido como membro correspondente.

Comunicações diversas. 1o O senhor Col…, comunicou um extrato da obra intitulada Ciei et Terre, do senhor Jean Raynaud, onde o autor emite idéias inteiramente conformes com a Doutrina Espírita, e aquilo que um Espírito disse recentemente sobre o futuro papel da Franca.

2º O senhor, o conde de R…, deu parte de uma comunicação espontânea de Savonarole, monge dominicano, obtida numa sessão particular. Esta comunicação é notável pelo fato deste personagem, embora desconhecido dos assistentes, ter indicado com precisão a data de sua morte, ocorrida em 1498, sua idade e seu suplício. Pensou-se que poderia ser
instrutivo evocar esse Espírito.

3º A explicação dada, por um Espírito, sobre o papel dos médiuns, ao senhor P…, antigo reitor da Academia, e ele mesmo médium. Os Espíritos, para comunicarem-se entre si, não têm necessidade da palavra: o pensamento basta-lhes. Quando querem se comunicar com os homens, devem traduzir seu pensamento pelos sinais humanos, quer dizer, por palavras; eles tomam estas palavras no vocabulário do médium, do qual se servem, de algum modo, como de um dicionário; por isso é mais fácil ao Espírito se exprimir na língua familiar do médium, embora possa igualmente fazê-lo em uma outra língua que este não conheça; mas então é um trabalho mais difícil, e que evita quando não há necessidade. O senhor P… encontrou nesta teoria a explicação de vários fatos que lhe são pessoais, e relativos a comunicações que lhe fizeram diversos Espíritos em latim e em grego.

4º Fato narrado pelo mesmo, de um Espírito assistindo ao enterro de seu corpo, e que não se crendo morto, não pensava que o sepultamento lhe dizia respeito. Ele dizia: não fui eu quem morreu. Depois, quando viu seus parentes, acrescentou: começo a crer que poderíeis bem ter razão, e que pode que eu não seja mais deste mundo; mas isto me é muito indiferente.

5º O senhor S… comunicou um fato notável de advertência de além-túmulo, narrado por La Patrie, do dia 16 de dezembro de 1858.

6º Carta do senhor BI… de La… que depois do que leu na Revista sobre o fenômeno do desligamento da alma durante o sono, pergunta se a Sociedade teria a complacência de evocá-lo um dia, juntamente com sua filha, que perdeu há dois anos, a fim de ter com ela, como Espírito, uma conversa que ainda não pôde obter como médium.

Estudos. 1º Evocação de Savonarole, proposta pelo senhor o conde de R…

2º Evocação simultânea, por dois médiuns diferentes, do senhor BI… de La… (vivo) e de sua filha morta há dois anos. Conversa do pai e da filha.

3º Duas comunicações espontâneas foram obtidas simultaneamente, a primeira de São Luís, pelo senhor L…, a segunda da senhorita Clary, por seu irmão.

Sexta-feira, 21 de outubro de 1859.

(Sessão particular.)

Leitura da ata e dos trabalhos de 14 de outubro.

Apresentações e admissões. – O senhor Lem…, negociante, e o senhor Pâq…, doutor em direito, são apresentados como membros titulares. A senhorita H…..é apresentada como membro honorário, em razão do concurso que deu à Sociedade como médium, e que ela muito lhe promete dar para o futuro.

Admissão de dois candidatos apresentados na sessão do dia 14 de outubro, e da senhora
H…..

O senhor S…..propôs que, no futuro, as pessoas que desejarem fazer parte da Sociedade, devem fazer seu pedido por escrito, e que lhes seja endereçado um exemplar do regulamento.

Leitura de uma carta do senhor Th…..que faz uma proposição análoga, motivada na necessidade de não admitir na Sociedade senão pessoas já iniciadas no objeto de seus trabalhos, e professando os mesmos princípios. Ele pensa que um pedido feito por escrito, apoiado na assinatura de dois apresentadores, é uma garantia maior das intenções sérias do candidato, do que um simples pedido verbal.

Esta proposta foi adotada, por unanimidade, nos termos seguintes:

Toda pessoa que desejar fazer parte da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, deverá fazer o pedido por escrito ao Presidente. Esse pedido deverá estar assinado petos dois apresentadores, e relatar: 1º que o postulante tomou conhecimento do regulamento e se obriga a estar com ele conforme; 2º as obras que leu sobre o Espiritismo, e sua adesão aos princípios da Sociedade, que são os de O Livro dos Espíritos.

O senhor presidente mencionou a conduta pouco conveniente de dois auditores admitidos na última sessão geral, os quais perturbaram a tranqüilidade de seus vizinhos pelas suas conversas e suas palavras deslocadas. Lembrou, a este propósito, os artigos do regulamento relativos aos ouvintes e convidou de novo os Senhores membros da Sociedade a ter uma excessiva reserva sobre a escolha de pessoas às quais dão as cartas de introdução, e sobretudo se absterem, de modo mais absoluto, de dá-las a alguém que não fosse atraído senão por um simples motivo de curiosidade, e mesmo a quem, não tendo nenhuma noção preliminar do Espiritismo, estaria, por isso mesmo, na impossibilidade de compreender o que se faz na Sociedade. As sessões da Sociedade não são um espetáculo; deve-se assistir a elas com recolhimento; e aqueles que não querem senão distrações, não devem vir procurá-las numa reunião séria.

O senhor Th. propôs a nomeação de uma comissão de dois membros, encarregada de examinar a questão das entradas concedidas às pessoas estrangeiras, e de propor as medidas necessárias para prevenir o retorno dos abusos.

Os senhores Th. e Col. foram designados para fazerem parte dessa comissão.

Estudos: 1º Problemas morais e perguntas diversas dirigidas a São Luís;

2º O senhor de R… propôs a evocação de seu pai, por considerações de utilidade geral e não pessoais, presumindo que disto possa sair um ensinamento.

São Luís, interrogado sobre a possibilidade desta evocação, respondeu: Vós o podeis perfeitamente; entretanto, eu vos faria notar, meus amigos, que esta evocação requer uma grande tranqüilidade de espírito; esta noite, discutistes longamente assuntos administrativos, e creio que será bom remetê-la a uma outra sessão, tendo em vista que pode ser mais instrutiva.

3º O senhor Leid… propôs a evocação de um de seus amigos, sacerdote quando vivo. São Luís, interrogado, respondeu: Não; porque, primeiro, o tempo não nos permite; em seguida, eu, como presidente espiritual da Sociedade, nisto não vejo nenhum motivo de instrução.

Será preferível fazer esta evocação na Intimidade.

O senhor S… pediu que se mencione na ata o título de Presidente espiritual, que São Luís quis tomar.

Sexta-feira, 28 de outubro de 1859. (Sessão gera.)

Leitura da ata e dos trabalhos da sessão do dia 21 de outubro.

Apresentação de cinco novos candidatos como membros titulares, a saber: o senhor N…negociante, de Paris; a senhorita Emilie N…, mulher do precedente; a senhora viúva G…, de Paris; a senhorita de P…, de Estocolmo; a senhora de L…, de Estocolmo.

Leitura dos artigos do regulamento relativo aos ouvintes, e de uma notícia para instrução das pessoas estranhas à Sociedade, a fim de que elas não menosprezem o objeto de seus trabalhos.

Comunicações: 1º Leitura de um artigo do senhor Oscar Comettant sobre o mundo dos Espíritos, publicado no Siècle do dia 27 de outubro. Refutação de certas passagens deste artigo.

2º Leitura de um artigo de um jornal novo, intitulado Ia Girouette, e publicado em Saint- Etienne. Este artigo foi concebido num espírito benevolente para com o Espiritismo.

3º Doação de quatro poemas, do senhor de Porry, de Marseille, autor de a Uranie, dos quais foram lidos fragmentos; estes são: La captive chrétienne, lês bohémiens, Poltawa, Lê prisonnier du Cau-case.

Agradecimentos serão dirigidos ao senhor de Porry, e as supraditas obras serão depositadas na biblioteca da Sociedade.

4º – Leitura de uma carta do senhor Det…, membro titular, contendo diversas observações sobre o papel dos médiuns, a propósito da teoria exposta na sessão de 14 de outubro, e segundo a qual o Espírito tiraria as suas palavras no vocabulário do médium.

Ele combate essa teoria, pelo menos do ponto de vista absoluto, por fatos que vêm contradizê-la. Pede que a questão seja seriamente examinada Ela será remetida à ordem do dia.

5º Leitura de um artigo da Revue française do mês de abril de 1858, página 416, onde está narrada uma conversa de Bèranger, da qual resulta que quando vivo, suas opiniões eram favoráveis às idéias Espíritas.

6º O senhor presidente transmitiu à Sociedade os adeuses do senhor Br…, membro titular que partiu para a Havana.

Estudos: 1º Foi proposta a evocação da senhora Br…, que partiu para Havana, e que se
encontra no mar neste momento, a fim de ter dela mesma a suas novidades.

São Luís, interrogado a este respeito, respondeu: Seu Espírito está muito preocupado esta noite, porque o vento está soprando com violência (era o momento de grandes tempestades assinaladas pelos jornais), e o cuidado de sua conservação ocupa todo o seu pensamento.

Para o momento o perigo não é grande; mas o será? Só Deus o sabe.

2º Evocação do pai do senhor de R…, proposta na sessão do dia 21 de outubro. Resultou desta evocação que o cavaleiro de R…, seu tio, de quem não tinha notícias há cinqüenta anos, não estaria morto, e habitaria uma ilha da Oceania meridional, onde estaria identificado com os costumes dos habitantes, não tendo tido ocasião de dar suas novidades. (Será publicada.)

3º Evocação do rei de Kanala (Nova Caledônia), falecido em 24 de maio de 1858. Esta evocação revelou neste Espírito uma certa superioridade relativa, e apresentou isto de notável, uma grande dificuldade em escrever, apesar da aptidão do médium, anunciou que com o hábito escreverá mais facilmente, o que foi confirmado por São Luís.

4º Evocação de Mercure Jean, aventureiro, que partiu de Lyon em 1478 e foi apresentado a Louis XI. Deu esclarecimentos sobre as faculdades sobrenaturais das quais se acreditava dotado, e das notícias curiosas sobre o mundo que habita neste momento. (Será publicada.)

Sexta-feira, 4 de novembro de 1859.

(Sessão particular).

Leitura da ata e dos trabalhos do dia 28 de outubro.

Admissão de sete candidatos apresentados nas duas sessões precedentes.

Projeto apresentado pela Comissão encarregada de estudar as medidas a serem tomadas para a admissão de ouvintes.

Depois de uma discussão em que tomaram parte diversos membros, a Sociedade decidiu que a proposição será adiada, e que provisoriamente ter-se-ão em conta as disposições do regulamento; que os Senhores membros serão convidados a se conformarem rigorosamente com as disposições que regulam a admissão de ouvintes, e a se absterem, de modo absoluto, de dar cartas de introdução a quem não tenha em vista senão um objeto de curiosidade, e não possua nenhuma noção preliminar da ciência Espírita.

A Sociedade adotou em seguida as duas proposições seguintes:

1º Os ouvintes não serão admitidos às sessões passadas as oito horas e um quarto. As cartas de admissão disto farão menção.

Todos os anos, na renovação do ano social, os membros honorários serão submetidos a um novo voto de admissão, a fim de riscar aqueles que não estiverem mais nas condições requeridas, e que a Sociedade não julgar dever manter.

O senhor administrador tesoureiro da Sociedade apresentou a conta semestral, de 1º de abril a 1º de outubro, assim como as peças justificativas das despesas. Resulta desta conta que a Sociedade tem um saldo suficiente para fazer face às suas necessidades. A Sociedade aprovou as contas do tesoureiro e lhe deu quitação.

Comunicações diversas. Carta do senhor BI. de La… em resposta ao envio feito de sua evocação e da de sua filha. Ele constatou um fato que confirma uma das circunstâncias da evocação.

Carta do senhor Dumas, de Sétif (Algéria), membro titular, que transmite à Sociedade um certo número de comunicações que obteve.

Estudos. 1º Os Senhores P… e de R… chamam a atenção sobre uma nova narração do naufrágio do navio lê Constant, e publicada pelo Siècle. Disto resultaria que o negro morto para ser comido não teria se oferecido voluntariamente, assim como se disse na primeira narração, e que, assim, haveria contradição com as palavras do Espírito do negro. – O senhor Col… não vê contradição, uma vez que o mérito atribuído ao negro foi contestado por São Luís, e que o próprio negro disto não procurou se prevalecer.

2º Exame de uma questão proposta pelo senhor Lês… sobre o espanto dos Espíritos depois da morte. Ele pensa que o Espírito, tendo já vivido o estado de Espírito, não deveria espantar-se. Ele respondeu: Este espanto não é senão temporário; prende-se ao estado de perturbação que se segue à morte; cessa à medida que o Espírito se desliga da matéria e recobra as suas faculdades de Espírito.

3º Pergunta sobre os sonâmbulos lúcidos que tomam os Espíritos por seres corpóreos. Este fato foi confirmado e explicado por São Luís.

Evocação de Urbain Grandier. As respostas, sendo muito lacônicas, em conseqüência da falta de hábito do médium, e o Espírito tendo dito que seria mais explícito com um outro médium, esta evocação será reprisada em uma outra sessão.

Sexta-feira, 11 de novembro de 1854.

(sessão geral.)

Leitura da ata.

Apresentação. O senhor Pierre D…, escultor em Paris, é apresentado como membro titular.

Comunicações diversas. 1º Carta do senhor de T… contendo fatos muito interessantes de manifestações visuais e verbais que confirmam o estado no qual se encontram certos Espíritos que duvidam de sua morte. Um dos fatos narrados oferece esta particularidade que, no Espírito em questão, esta ilusão persistia ainda mais de três meses depois da morte. (Esta narração será publicada.)

2º Fatos curiosos de precisão narrados pelo senhor Van Br…, de La Haye, e que lhe são pessoais. Ele jamais ouvira falar dos Espíritos e de suas comunicações, quando se achou, por acaso e inopinadamente, conduzido a uma reunião Espírita em Dordrecht. As comunicações, obtidas em sua presença, o surpreenderam tanto mais quanto era estranho à cidade, e desconhecido dos membros da reunião; foram-lhe ditas sobre ele, sua posição e sua família uma multidão de particularidades das quais só ele tinha conhecimento. Tendo evocado sua mãe e lhe perguntado, como prova de identidade, se tivera vários filhos, ela respondeu: Não sabes tu, meu filho, que tive onze filhos, e o Espírito designou todos pelos seus prenomes e a época de seu nascimento. Desde então, este senhor é um adepto fervoroso, e sua filha, jovem pessoa de catorze anos, tornou-se muito boa médium, mas sua mediunidade apresenta particularidades bizarras; na maior parte do tempo ela escreve de trás para adiante, de tal sorte que, para ler o que ela obtém, é preciso apresentá-lo diante de um espelho. Muito freqüentemente, também a mesa sobre a qual ela se coloca para escrever, se inclina por si mesma em forma de carteira, e fica nesta posição, em equilíbrio e sem sustentação, até que ela acabe de escrever.

O senhor Van Br… narrou outro fato curioso de precisão por um Espírito que se lhe comunicou espontaneamente, sob o nome de Dirkse Lammers, e que foi enforcado sobre o próprio lugar onde se fazia a comunicação, e em circunstâncias cuja exatidão foi verificada.

(Esta narração será publicada, assim como a evocação a qual deu lugar.)

Estudos. 1º – Exame da questão proposta pelo senhor Det…, sobre a fonte onde os Espíritos tiram seu vocabulário.

2º-Perguntas sobre a obsessão de certos médiuns.

3º Evocação de Michel François, ferrador que fez uma revelação a Louis XIV.

4º Evocação de Dirkse Lammers, cuja história foi contada precedentemente.

5º Três comunicações espontâneas foram obtidas simultaneamente: a primeira pelo senhor R…, assinada por Lamennais, a segunda pelo senhor D… filho; a criança e o riacho, parábola assinada por São Basílio; a terceira pela senhorita L. J…, assinada por Orígenes.

6º A senhorita J…, médium desenhista, traçou espontaneamente um grupo notável, assinado pelo Espírito de Lebrun.

(Todas as questões e comunicações acima serão publicadas.)

Sexta-feira, 18 de novembro de 1859.

(Sessão particular.)

Leitura da ata.

Admissão do senhor Pierre D…, apresentado na última sessão.

Comunicações diversas. 1º Leitura de uma comunicação espontânea, obtida pelo senhor P…, membro da Sociedade, e ditada pelo Espírito de sua filha.

2º Detalhes sobre a senhorita Désiré Godu, residente em Hennebont (Morbihan), e que  stá dotada de uma faculdade mediatriz extraodinária. Ela passou por todas as fases da mediunidade; primeiro teve as manifestações físicas mais estranhas; depois se tornou sucessivamente médium audiente falante, vidente e escrevente. Hoje, todas as suas faculdades estão concentradas nas curas das doenças, que ela cuida pelos conselhos dos Espíritos; ela opera curas que foram consideradas como miraculosas em outros tempos. Os Espíritos anunciam que sua faculdade se desenvolverá ainda mais; ela começa a ver as doenças internas, por um efeito de segunda vista, sem estar em sonambulismo.

(Uma notícia será publicada sobre este assunto notável.)

Estudos. 1º Perguntas sobre as faculdades da senhorita Désiré Godu.

2º Evocação de Lemettrie.

3º Quatro comunicações espontâneas foram obtidas simultaneamente, a primeira pelo senhor R…, assinada por São Vicente de Paulo, a segunda pelo senhor Col…, assinada por Platão; a terceira pelo senhor D… filho, assinada por Lamennais; a quarta pela senhorita H…, assinada por Marguerite, dita a rainha Margot.

25 de novembro de 1859.

(Sessão geral)

Leitura da ata

Comunicações diversas. O senhor doutor Morhéry doou à Sociedade uma brochura intitulada Sistema prático de organização agrícola. Embora essa obra seja estranha ao objeto dos trabalhos da Sociedade, será depositada na biblioteca, e agradecimentos são endereçados ao autor.

Carta do senhor de T…, completando os fatos de visões e aparições dos quais deu conta na sessão do dia 11 de novembro.

Carta do senhor o conde de R…, membro titular, retido em casa por uma indisposição, e que se coloca à disposição da Sociedade para que façam sobre ele todas as experiência que julgarem convenientes, relativamente à evocação de pessoas vivas.

Estudos. 1ª Evocação de Jardin, falecido em Nevers, e que conservara os restos de sua mulher num genuflexório. (Será publicada.)

3º Evocação do senhor o conde de R… Esta evocação excessivamente notável pela extensão dos desenvolvimentos dados com uma perfeita precisão e uma grande limpidez de idéias, lança uma luz muito grande sobre o estado do Espírito separado do corpo, e resolve numerosos problemas psicológicos. Ela será publicada no número da Revista de janeiro de 1860.

4º Quatro comunicações espontâneas foram obtidas simultaneamente, a saber a primeira de uma alma sofredora, pela senhorita de B…; a segunda o Espírito de Verdade, pelo senhor R…; a terceira de Paulo, o apóstolo, pelo senhor Col…. Esta comunicação foi assinada em grego; a quarta, pelo senhor Did… filho, assinou Charlet (o pintor), que anunciou uma série de comunicações, devendo formar um conjunto.

boletim de estudos

Um antigo charreteiro

 

Revista Espírita, dezembro de 1859

O senhor V… é um jovem, excelente médium, e que se distingue geralmente pela bondade de suas revelações com o mundo Espírita Todavia, desde que ocupa o quarto em que habita, um Espírito inferior se mistura à suas comunicações, e se interpõe mesmo em seus trabalhos pessoais. Encontrando-se uma noite (6 de setembro de 1859), na casa do senhor Allan Kardec, com quem devia trabalhar, foi entravado por esse Espírito que, ou fazia-o traçar coisas incoerentes, ou impedia-o de escrever. O senhor Allan Kardec, dirigindo-se, então, a esse Espírito, teve com ele a seguinte conversa:

1. Por que vens aqui quando não és chamado? – R. Eu quero atormentá-lo.

2. Quem és tu? Diga teu nome? – R. Não o direi, eu.

3. Qual é o teu objetivo vindo assim misturar-se com aquilo que não te diz respeito? Isto não te aproveita em nada. – R. Não, mas o impeço de ter boas comunicações, e sei que isto o entristece muito.

4. Tu és um mau Espírito, uma vez que te alegras em fazer o mal. Em nome de Deus, eu te intimo a retirar-te e nos deixar trabalhar tranqüilamente. – É que crês meter-me medo com tua voz grossa?

5. Se não é de mim que tens medo, terás, sem dúvida, medo de Deus, em nome de quem te falo, e que bem te poderá fazer se arrepender da maldade. – R. Não nos irritemos, burguês.

6. Eu repito que tu és um mau Espírito, e te peço, ainda uma vez, não nos impedir de trabalhar. – R. Eu sou o que sou, é minha natureza.

Tendo sido chamado um Espírito superior, e pedido para afastar este intruso, a fim de não interromper o trabalho, provavelmente o mau Espírito se foi, porque durante todo o resto da noite, não houve mais nenhuma interrupção. Interrogado sobre a natureza desse Espírito, respondeu:

Esse Espírito, que é da mais baixa classe, é um antigo charreteiro que morreu não longe da casa onde mora V… (o médium). Ele elegeu por domicílio seu próprio quarto, e há longo tempo é ele que o obsidia, sem cessar, o atormenta continuamente. Agora que sabe que V… deve deixar seu alojamento por ordem de Espíritos superiores, ele o atormenta mais que nunca. É ainda uma prova de que, o que o médium escreve, não é o seu pensamento. Tu vês assim que há boas coisas mesmo nas mais desagradáveis aventuras da vida. Deus faz ver o seu poder por todos os meios possíveis.

– Qual era o caráter desse homem, em sua vida? – R. Tudo o que mais se aproxima do animal. Creio que seus cavalos tinham’ mais inteligência e mais sentimento do que ele.

– Qual é o meio, para o senhor V…, se desembaraçar dele?

– R. Há dois; o meio espiritual, é pedir a Deus; o meio material, é deixar a casa onde está.

– Há, pois, verdadeiramente, lugares assombrados por certos Espíritos? – R. Sim, Espíritos que estão ainda sob a influência da matéria se prendem a certos lugares.

– Os Espíritos que assombram certos lugares podem torná-los fatalmente funestos ou propícios para as pessoas que o habitam? — R. Sim, poderiam impedi-los disso? Mortos, exercem sua influência como Espíritos; vivos, a exercem como homens.

– Alguém que não fosse médium, que jamais tivesse mesmo ouvido falar de Espíritos, ou que não acreditasse neles, poderia sofrer essa influência, e ser alvo dos vexames desses
Espíritos? – R. Indubitavelmente; isto ocorre mais freqüentemente do que pensais, e explica muitas coisas.

– Há algum fundamento nesta crença de que os Espíritos freqüentam de preferência as ruínas ou as casas abandonadas?

– R. Superstição.

– Assim, os Espíritos assombrarão tanto uma casa nova da rua de Rivoli quanto um velho pardieiro? – R. Certamente, porque eles podem ser atraídos para um lugar antes que para um outro, pela disposição de espírito de seus habitantes.

O Espírito do precedentemente citado charreteiro, tendo sido evocado na Sociedade, por intermédio do senhor R…, manifestou-se por sinais de violência, quebrando os lápis, que forçava contra o papel com força, e por uma escrita grossa, tremida, irregular e pouco legível.

1. Evocação. – R. Estou aqui.

2. Reconheceis o poder de Deus sobre vós? – R. Sim, contra?

3. Por que escolhestes o quarto do senhor V… antes que um outro? – R. Isto me satisfaz.

4. Permanecereis ali por muito tempo? – R. Tanto quanto me sinta bem.

5. Não tendes, pois, intenção de se melhorar? – R. Isto veremos, tenho o tempo.

6. Estais contrariado por termos vos evocado? – R. Sim.

7. Que fazíeis quando vos chamamos? – R. Estava na casa do negociante de vinhos.

8. O que bebíeis? – R. Que asneira! Posso eu beber!

9. O que quisestes dizer falando do negociante de vinho? – R. Quis dizer o que disse.

10. Quando vivo, maltratáveis os vossos cavalos? – R. Sois guardiães da paz? k 11. Queres que se ore por vós? – R. É que faríeis isto?

12. Certamente, oramos por todos aqueles que sofrem, porque temos piedade dos infelizes, e sabemos que a misericórdia de Deus é grande. – R. Oh! Bem, sois bons tipos assim mesmo; gostaria de vos apertar a mão; vou tratar de merecê-lo. Obrigado!

Nota. Esta conversa confirma o que a experiência já provou muitas vezes, no que diz respeito à influência que os homens podem exercer sobre os Espíritos, e por meio da qual podem contribuir para o seu melhoramento. Mostra a influência da prece. Assim, essa natureza bruta e quase bravia, e selvagem, se acha como domesticada pelo pensamento do interesse que se lhe pode ter. Temos numerosos exemplos de criminosos que vieram espontaneamente se comunicar a médiuns que tinham orado por eles, e testemunharem seu arrependimento.

Às observações acima, acrescentaremos as considerações seguintes, sobre a evocação de Espíritos inferiores.

Vimos médiuns, ciumentos a justo título de conservar suas boas relações de além-túmulo, repugnar-se em servirem de intérpretes aos Espíritos inferiores que se podem chamar; é de sua parte uma suscetibilidade mal entendida. Do fato de que se evoque um Espírito vulgar, mesmo mau, não se está sob a sua dependência; longe disso, sois vós, ao contrário, quem o dominais: não é ele que vem se impor apesar de vós, como nas obsessões, vós que vos impondes a ele; ele não comanda, obedece; sois seu juiz e não sua presa. Além do mais, podeis ser-lhe útil pelos vossos conselhos e vossas preces, e vos é reconhecido pelo interesse que tomais por ele. Estender-lhe uma mão segura, é fazer uma boa ação; repelindo, é faltar com a caridade; é mais ainda, é do egoísmo e do orgulho. Estes seres inferiores são, aliás, para nós um poderoso ensinamento; foi por eles que aprendemos a conhecer a classe baixa da população do mundo Espírita e a sorte que espera aqueles que fazem, neste mundo, um mau uso de sua vida. Por outro lado, notai que é quase sempre tremendo que vêm às reuniões sérias, onde os bons Espíritos dominam; são acanhados e se mantêm à parte, escutando para se instruírem.

Freqüentemente, vêm com esse objetivo sem serem chamados; por que, pois, recusar-se ouvi-los quando, freqüentemente, seu arrependimento e seu sofrimento são um objeto de edificação, ou pelo menos de instrução? Nada se tem a temer de suas comunicações, do momento em que elas ocorrem com o objetivo do bem. Em que se tornariam os pobres feridos, se os médicos se recusassem a tocar suas feridas?

um antigo charreteiro

Comunicações espontâneas obtidas nas sessões da Sociedade.

Revista Espírita, dezembro de 1859

30 de setembro de 1859. (Méd. Sr. R…)

Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei: lei divina, pela qual Deus cria sem descanso e governa os mundos. O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados; a atração é ba lei de amor para a matéria inorgânica.

Não esqueçais jamais que o Espírito, qualquer que seja seu grau de adiantamento, sua situação, como reencarnação ou erraticidade, está sempre colocado entre um superior que o guia e aperfeiçoa, e o inferior perante o qual tem os mesmos deveres a cumprir.

Sede, pois, caridosos, não só desta caridade que vos leva a tirar de vossa bolsa o óbolo que dais friamente àquele que ousa vos pedir, mas ide ao encontro das misérias ocultas.

Sede indulgentes com os defeitos de vossos semelhantes; em lugar de desprezar a ignorância e o vício, instruí-os e moralizai-os; sede-o, mesmo, diante dos seres mais ínfimos da criação, e tereis obedecido à lei de Deus.

VICENTE DE PAULO.

Nota. Os Espíritos considerados pelos homens como santos, não tomam geralmente essa qualidade; assim São Vicente de Paulo assina simplesmente Vicente de Paulo; São Luís assina Louis, e aqueles, ao contrário, que usurpam nomes e qualidades que não lhes pertencem, comumente, ostentam seus falsos títulos, crendo, sem dúvida, com isso se impor mais facilmente; mas essa máscara não pode enganar a quem se dê ao trabalho de lhes estudar a linguagem; a dos Espíritos realmente superiores tem uma marca com a qual não se pode equivocar.

18 de novembro de 1859. (Méd. Sr. R…)

A união faz a força; sede unidos para serdes fortes. O Espiritismo germinou, lançou raízes profundas; vai estender sobre a Terra seus ramos benfazejos. É necessário tomar- vos invulneráveis contra as flechas envenenadas da calúnia e da negra falange dos ignorantes, dos egoístas e dos hipócritas. Para aí chegar, que uma indulgência e uma benevolência recíprocas presidam as vossas relações; que vossos defeitos passem desapercebidos, que somente as vossas qualidades sejam notadas; que a luz da santa amizade reúna, esclareça e reanime os vossos corações, e resistireis aos ataques impotentes do mal como a rocha inquebrantável à vaga furiosa.

VICENTE DE PAULO.

23 de setembro de 1859. (Méd. Sr. R…)

Até o momento não considerastes a guerra senão sob o ponto de vista material; guerras intestinas, guerras de povos a povos; não tendes jamais visto nisso senão conquistas, escravidão, sangue, morte e ruínas; é tempo de considerá-la sob o ponto de vista moralizador e progressista. A guerra semeia, em sua passagem, a morte e as idéias; as idéias germinam e se engrandecem; o Espírito, depois de se fortalecer na vida Espírita, vem fazê-las frutificar. Não sobrecarregueis, pois, com as vossas maldições, o diplomata que preparou a luta, nem o capitão que conduziu seus soldados à vitória; grandes lutas se preparam: lutas do bem contra o mal, das trevas contra a luz, lutas do espírito de progresso contra a ignorância estacionaria. Esperai com paciência, porque nem vossas maldições, nem vossos louvores, em nada poderiam mudar quanto à vontade de Deus; ele saberá sempre manter ou afastar seus instrumentos do teatro dos acontecimentos, segundo tenham cumprido sua missão, ou que tenham abusado, para servir seus objetivos pessoais, do poder que terão adquirido pelo seu sucesso. Tendes o exemplo do César moderno e do meu. Devi, por várias existências miseráveis e obscuras, expiar minhas faltas, e vivi, pela última vez, na Terra, sob o nome de Louis IX.

JÚLIO CÉSAR.

A Infância e o Riacho; parábola

11 de novembro de 1859. (Méd. Sr. Did…)

Um dia, uma criança chegou junto de um riacho bastante rápido que tinha quase a impetuosidade de uma torrente; a água lançava-se de uma colina vizinha, e engrossava à medida que avançava na província. A criança se pôs a examinar a torrente, depois amontoou toda espécie de pedras que pegava em seus pequenos braços; resolveu construir um dique; cega presunção! Apesar de todos os seus esforços e sua pequena cólera, não pôde a isso chegar. Refletindo, então, mais seriamente, se fosse preciso empregar essa palavra a uma criança, ela subiu mais alto, abandonou sua primeira tentativa, e quis fazer seu dique mais perto da própria fonte do riacho; mai ai! Seus esforços foram ainda impotentes; desencorajou-se e daí se foi chorando. Ainda estava na bela estação, e o riacho não estava mais rápido em comparação com que estivera no inverno; ele cresceu, e a criança viu seus progressos; a água, engrossando-se lançava-se com mais fúria, derrubando tudo em sua passagem, e a infeliz criança, ela mesma, teria sido arrastada se tivesse ousado aproximar-se dele como da primeira vez.

Ó homem fraco! Criança! Tu queres elevar uma muralha, um obstáculo intransponível à marcha da verdade, não és mais forte que essa criança, e tua pequena vontade não é mais forte que seus pequenos braços; quando mesmo quiseres esperá-la em sua fonte, a verdade, estejas disso seguro, te arrastará infalivelmente.

BASILE.

Os três Cegos; parábola

7 de outubro de 1859. (Méd. Sr. Did…)

Um homem rico e generoso, o que é raro, encontrou em seu caminho três infelizes cegos consumidos pela fome e pela fadiga; apresentou a cada um uma peça de ouro. O primeiro, cego de nascença, irritado pela miséria, sequer abriu a mão; jamais vira, dizia, quem ofertasse ouro a um mendigo: a coisa era impossível. O segundo estendeu maquinalmente a mão, mas rejeitou logo a oferenda que se lhe fizera; como o seu amigo, ele a considerava qual uma ilusão ou uma obra de mau gosto: em uma palavra, segundo ele, a peça era falsa.

O terceiro, ao contrário, cheio de fé em Deus e inteligência, no qual a fineza do tato havia em parte substituído o sentido que lhe faltava, pegou a peça, apalpou-a, e levantando-se,
bendizendo seu benfeitor, partiu para a cidade vizinha para se proporcionar o que faltava à sua existência.

Os homens são os cegos; o Espiritismo é o ouro; julgai a árvore pelos seus frutos.

30 de setembro de 1859. (Méd. Srta. H…)

Pedi a Deus deixar-me vir um instante entre vós, para dar-vos o conselho de não terem jamais querelas religiosas; não digo guerras religiosas, porque hoje o século é muito avançado para isso, mas, naquele em que vivi, era uma infelicidade geral, e não pude evitá-lo, a fatalidade arrebatou-me, e compeli os outros, eu que deveria moderá-los. Assim tive a minha punição, primeiro da Terra, depois por três séculos expiei cruelmente meu crime. Sede dóceis e pacientes para aqueles que ensinais; se não querem vir a vós no início, que venham mais tarde, quando verão a vossa abnegação e o vosso devotamento.

Meus amigos, meus irmãos, eu não saberia mais vos recomendar, o que de mais horrível, com efeito, que se degolar mutuamente em nome de um Deus clemente, em nome de uma religião tão santa que não prega senão a misericórdia, a bondade e a caridade! Em lugar disso, mata-se, ou se massacra para forçar as pessoas que se quer converter a um Deus bom, diz-se; mas em lugar de crer em vossa palavra, aqueles que sobrevivem apressam-se em vos deixar e se afastarem de vós como bestas ferozes. Sede, pois, bons, eu o repito, e sobretudo cheios de amenidades para aqueles que não crêem como vós.

CHARLES IX

1. Teria a complacência de responder a algumas perguntas que desejaríamos vos dirigir? – R. Eu o quero muito.

2. Como expiastes as vossas faltas? – R. Pelo remorso.

3. Tivestes outras existências corporais depois daquela que nós vos conhecemos? – R. Tive uma; estive encarnado num escravo das duas Américas; sofri muito; isso me avançou na minha purificação.

4. Em que se tornou vossa mãe, Catherine de Médicis? – R. Ela sofreu também; está num outro planeta, onde cumpre uma vida de devotamento.

5. Poderíeis escrever a história do vosso reinado, como o fizeram Louis XI, e outros? – R. Eu o poderia também…

6. Quereis fazê-lo por intermédio do médium que vos serve neste momento de intérprete? – Sim, este médium pode servir-me; mas não começarei esta noite; não Vim para isso.

7. Também, não pedimos para começar hoje; pedimos fazê-lo no vosso lazer e no do médium; este será um trabalho de fôlego que exigirá um certo lapso de tempo, e contamos com a vossa promessa? – R. Eu o farei. Adeus.

Comunicações estrangeiras lidas na Sociedade

(Comunicação obtida pela Senhorita de P…)

A bondade do Senhor é eterna. Ele não quer a morte de seus filhos queridos; mas, ó homens!

Refleti que depende de vós apressar o reino de Deus na Terra ou afastá-lo; que sois responsáveis uns pelos outros; que em vos melhorando vós mesmos, trabalhais pela regeneração da Humanidade; a tarefa é grande; a responsabilidade pesa sobre cada um, e ninguém pode recusar-se. Abraçai com fervor a gloriosa tarefa que o Senhor vos impõe, mas pedi-lhe que envie trabalhadores para os seus campos, porque a colheita é grande, e os trabalhadores pouco numerosos, como vos disse o Cristo.

Mas eis nós vos fomos enviados como os trabalhadores de nossos corações; nele semeamos o bom grão; cuidai de não sufocá-lo; irrigai-o com as lágrimas do arrependimento e da alegria; do arrependimento por ter vivido tanto tempo numa terra maldita pelos pecados do gênero humano, distante do único Deus verdadeiro, adorando falsos gozos do mundo, que não deixam no fundo da forma senão remorsos e tristeza.

Chorai de alegria, porque o Senhor vos considerou em graça; porque quer apressar a chegada de seus filhos bem amados ao seu seio paternal; porque quer que todos vós estejais ornamentados com a inocência dos anjos, como se não fósseis jamais vos afastar dele.

O único que vos mostrou o caminho para alcançar essa glória primitiva; o único ao qual não podereis censurar por estar enganado em seus ensinamentos; o único justo perante Deus; o único, enfim, que deveríeis seguir para serdes agradáveis a Deus, é o Cristo: sim, o Cristo, vosso divino mestre, que esquecestes e menosprezastes durante séculos. Amai-o, porque ele pede sem cessar por vós, ele quer vir em vosso socorro. Como! A incredulidade ainda resiste!

As maravilhas do Cristo não podem abatê-la! As maravilhas de toda a criação permanecem impotentes sobre esses Espíritos zombeteiros, sobre esta poeira que não pode prolongar por um único minuto sua miserável existência! Estes sábios que crêem só eles possuírem todos os segredos da criação, não sabem de onde vêm, nem para onde vão, e, todavia, negam tudo, duvidam de tudo; porque conhecem algumas das mais vulgares leis do mundo material, crêem poder julgar o mundo imaterial, ou antes dizem que nada há de imaterial, que tudo deve obedecer a essas mesmas leis materiais que conseguiram descobrir.

Mas vós, cristãos! Sabeis que não podeis negar a nossa intervenção sem negar, ao mesmo tempo, o Cristo, sem negar toda a Bíblia, porque não há nela uma página onde não encontreis os traços do mundo visível em relação com o mundo invisível. Pois bem!

Dizei, sois cristãos ou não o sois?

RAMBRAND.

(Outra obtida pelo Sr. Pêc.)

Cada homem tem nele o que chamais uma voz interior, é o que o Espírito chama a consciência, juiz severo, que preside a todas as ações da vossa vida. Quando o homem está só, ele escuta essa voz da consciência e se pesa em seu justo valor; freqüentemente, tem vergonha de si mesmo: neste momento reconhece Deus; mas a ignorância, fatal conselheira, impele-o e lhe coloca a máscara; ele se apresenta a vós todo inchado com o seu vazio; procura vos enganar pela altivez que se dá. Mas o homem de coração reto não tem a cabeça arrogante; escuta com proveito as palavras do sábio; sente que não é nada e que Deus é tudo; procura se instruir no livro da Natureza, escrito pela mão do Criador; eleva seu Espírito, expulsa de seu envoltório as paixões materiais que, muito freqüentemente, vos desviam. É um guia perigoso, senão uma paixão que vos conduz; reprima isto, amigo; deixai rir o cético, seu riso se extinguira; em sua hora derradeira o homem se torna crente. Assim, pensai sempre em Deus, só ele não engana; lembrai-vos de que não há senão um caminho que conduz a ele: a fé, e o amor de seus semelhantes.

UM MEMBRO DA FAMÍLIA.

 

comunicações espontaneas

Michel François

(Sociedade, 11 de novembro de 1859.)

Michel François, ferrador, que viveu no fim do século XVII, tendo se dirigido ao administrador de Provence, disse-lhe que um espectro lhe tinha aparecido, e lhe ordenara ir revelar ao rei Louis XIV as coisas mais importantes e mais secretas. Fê-lo partir para a Corte, no mês de abril de 1697. Uns dizem que ele falou com o rei, outros dizem que o rei se recusou ouvi-lo.

O que há de verdadeiro, acrescente-se, é que em lugar de enviá-lo ao hospício, ele obteve dinheiro para a sua viagem, e a isenção de impostos e outras imposições reais.

1. Evocação. – R. Estou aqui.

2. Como soubestes que desejávamos vos falar? – R. Como me fazeis esta pergunta? Não sabeis que estais cercados de Espíritos que advertem aqueles com os quais desejais vos comunicar?

3. Onde estáveis quando vos chamamos? – R. No espaço, porque ainda estou errante.

4. Estais surpreso por vos encontrar no meio de pessoas vivas? – R. Não pelo menos do mundo; com elas me encontro freqüentemente.

5. Lembrai-vos de vossa existência, em 1697, sob Louis XIV, quando éreis ferrador? – R. Muito confusamente.

6. Lembrai-vos da revelação que queríeis fazer ao rei? – R. Lembro-me que tinha de fazer-lhe uma revelação.

7. Essa revelação, a fizestes? – R. Sim.

8. Dissestes que um espectro vos aparecera e vos ordenara ir revelar certas coisas ao rei; quem era esse espectro? – R. Era o de seu irmão.

9. Podeis nomeá-lo? – R. Não; vós me compreendeis.

10. Esse homem era designado sob o nome de Máscara de ferro? – R. Sim.

11. Agora que estamos bem longe daquele tempo, poderíeis dizer-nos qual era o assunto dessa revelação? – R. Era justamente de informar-lhe sua morte.

12. A morte de quem? Era a de seu irmão? – R. Mas sim.

13. Que impressão vossa revelação teve sobre o rei? – R. Uma impressão misturada com desgosto e satisfação: de resto, isso está bem provado pelo modo pelo qual ele me tratou.

14. Como vos tratou? – R. Com bondade e afabilidade.

15. Diz-se que coisa semelhante aconteceu com Louis XVIII. Sabeis se isso é verdade? – R. Creio que houve alguma coisa como isso, mas não estou bem instruído a respeito.

16. Por que esse Espírito vos escolheu para essa missão, vós, um homem obscuro, antes que um personagem da corte que se aproximasse do rei mais facilmente? – R. Eu me encontrei em seu caminho, dotado da faculdade que ele desejava encontrar, e que era necessária, e também porque um personagem da corte não poderia fazer aceitar a revelação: crer-se-ia instruído por outros meios.

17. Qual foi o objetivo dessa revelação, uma vez que o rei seria necessariamente informado da morte de seu irmão, antes de informado por vós? – R. Era para fazê-lo refletir sobre a vida futura e sobre a sorte à qual poderia se expor, e com efeito se expôs: seu fim foi manchado por ações pelas quais ele acreditava assegurar-se um futuro que essa revelação poderia tomar melhor.

Michel François

Dirkse Lammers

(Sociedade, 11 de novembro de 1859.)

O senhor Van B…, de La Haye, presente à sessão, deu conta do fato seguinte, que lhe foi
pessoal.

Numa reunião Espírita, à qual assistia, em La Haye, um Espírito, que se designou sob o nome de Dirkse Lammers, se manifestou espontaneamente. Interrogado sobre as particularidades que lhe concernem, e sobre o motivo de sua visita no meio de pessoas que não o conheciam, e que não o chamaram, contou assim a sua história:

“Eu vivia em 1592, e fui enforcado no lugar onde estais neste momento, numa estrebaria de vacas, que existia então sobre o local da casa atual. Eis em quais circunstâncias: eu tinha um cão, e minha vizinha tinha galinhas. Meu cão estrangulou suas galinhas, e a vizinha, para disso se vingar, envenenou meu cão. Na minha cólera, bati e feri essa mulher; ela atacou-me na justiça, e fui condenado a três meses de prisão e a 25 florins de multa. Se bem que a condenação fosse bastante leve por isso não foi menor meu ódio contra o advogado X…..que a havia provocado, e resolvi me vingar dele. Em conseqüência, esperei num caminho abandonado que ele tomava todas as tardes para ir a Loosduinen, perto de La Haye; estrangulei-o e pendurei-o numa árvore. Para fazer crer num suicídio, coloquei no seu bolso um papel preparado de antemão, como sendo escrito por ele, e pelo qual dizia não acusar ninguém de sua morte, visto que ele mesmo tirara sua vida. Desde esse momento, o remorso perseguiu-me, e três meses depois me enforquei, como disse, no lugar onde estais. Vim, impelido por uma força à qual não pude resistir, confessar meu crime, na esperança que isso poderá, talvez, trazer algum alívio à pena que suporto desde então.”

Esse relato feito com detalhes tão circunstanciais, tendo espantado a assembléia, tomaramse informações e soube-se, pelas pesquisas feitas no estado civil, que, com efeito, em 1592, um advogado, de nome X…… enforcou-se no caminho de Loosduinen.

Tendo sido evocado, na sessão da Sociedade do dia 11 de novembro de 1859, o Espírito de
Dirksen Lammers se manifestou por atos de violência, quebrando os lápis. Sua escrita era irregular, grossa, quase ilegível, e o médium experimentou uma dificuldade extrema para traçar os caracteres.

1. Evocação. Eis-me. Por que fazer?

2. Reconheceis aqui uma pessoa com a qual recentemente vos comunicastes? – R. Dei
bastante provas de minha lucidez e de minha boa vontade: isso deveria bastar.

3. Com qual objetivo vos comunicastes, espontaneamente, na casa do senhor Van D…..? – R. Eu não o sei; fui enviado para lá; e não tinha, por mim mesmo, grande vontade para contar o que fui forçado a dizer.

4. Quem vos obrigou a fazê-lo? – R. A força que nos conduz: disso não sei nada mais; fui
arrastado, apesar de mim, e forçado a obedecer aos Espíritos que tinham direito de se
fazerem obedecer.

5. Fostes constrangido a atender ao nosso apelo? – R. Muito: aqui não estou no meu lugar.

6. Sois feliz como Espírito? – R. Bela pergunta!

7. Que podemos fazer para vos ser agradável? – R. É que desejais fazer alguma coisa que me seja agradável!

8. Certamente: a caridade nos ordena ser útil, quando o podemos, tanto para os Espíritos quanto para os homens. Uma vez que sois infeliz, chamaremos sobre vós a misericórdia de Deus: nós nos empenharemos em pedir por vós. – R. Eis, há séculos, as primeiras palavras desta natureza que me são dirigidas. Oh! Obrigado! Obrigado! Por Deus! Que isso não seja uma vã promessa, eu vos peço.

Dirkse Lammers.jpg

 

Privat d’Anglemont

(Primeira conversa – 2 de setembro de 1859)

No jornal Pays, de 15 de agosto de 1859, lê-se o seguinte necrológio de Privat d’Anglemont, homem de letras, falecido no Hospício Dubois.

“Suas extravagâncias jamais fizeram mal a ninguém; só a última foi má e voltou-se contra ele. Ao entrar na casa de saúde em que acaba de morrer, Privat d’Anglemont cometeu a imprudência de dizer que era anabatista e adepto da doutrina de Swedenborg. Havia dito tantas coisas semelhantes em sua vida! Mas desta vez a morte o surpreendeu sem que tivesse tempo de desmentir-se. Em represália, foi-lhe negada a suprema consolação da cruz em sua cabeceira; seu cortejo fúnebre defrontou-se com uma igreja mas teve que passar ao largo; a cruz não veio recebê-lo à porta do cemitério.

Quando o esquife desceu ao túmulo, Édouard Fournier, ao pronunciar tocantes palavras sobre esse corpo, não ousou desejar-lhe mais do que o sono eterno. Todos os seus amigos se afastaram, admirados de não o terem saudado, um por um, com aquela água que se parece com as lágrimas, e que tudo purifica.

Fazei, pois, uma subscrição e tentai edificar alguma coisa sobre uma sepultura sem esperança! Pobre Privat! Eu não o confio menos àquele que conhece todas as misérias de nossa alma e que pôs o perdão como lei na efusão de um coração afetuoso.”

Faremos uma nota preliminar sobre esta notícia. Não haverá algo de atroz na idéia de uma sepultura sem esperança, não merecendo sequer a honra de um monumento?

Certamente a vida de Privat poderia ter sido mais meritória. É incontestável que cometeu erros. Mas ninguém poderá dizer que foi um homem mau que, como tantos outros, fazia o mal a bel-prazer, sob o manto da hipocrisia. Pelo fato de em seus últimos momentos na Terra ter sido privado das preces dedicadas aos crentes, preces que seus amigos pouco caridosos igualmente lhe negaram, haverá Deus de o condenar para sempre, não lhe deixando senão o sono eterno como suprema esperança? Em outras palavras, aos olhos de Deus ele não passaria de um animal, logo ele, homem de inteligência, indiferente, é verdade, aos bens e favores do mundo, vivendo despreocupado com o amanhã, mas, incontestavelmente, homem de pensamento, para não dizer um gênio transcendente? A ser correto esse raciocínio, quanto deve ser assustador o número dos que mergulham no nada! Convenhamos que os Espíritos nos dão de Deus uma idéia muito mais sublime, de ordinário no-lo apresentando sempre disposto a estender a mão em socorro daquele que reconhece seus erros, ao qual sempre deixa uma âncora de salvação.

1. Evocação Resp. – Eis-me aqui. Que desejais, meus amigos?

2. Tendes consciência clara de vossa situação atual? Resp. – Não; não totalmente, mas espero tê-la sem tardança, porque, felizmente para mim, Deus não me parece querer afastar dele, malgrado a vida quase inútil que levei na Terra; mais tarde terei uma posição bastante feliz no mundo dos Espíritos.

3. Reconhecestes imediatamente a vossa situação no momento da morte? Resp. – Fiquei perturbado, o que é compreensível, mas não tanto quanto se poderia supor, pois sempre gostei do que era etéreo, poético, sonhador.

4. Podeis descrever o que convosco se passou naquele momento? Resp. – Nada se passou de extraordinário e diferente daquilo que já sabeis. Inútil, pois, falar ainda disso.

5. Vedes as coisas tão claramente como no tempo em que vivíeis? Resp. – Não; ainda não, mas as verei.

6. Que impressão vos causa a visão atual dos homens e das coisas? Resp. – Eu vos disse que estou limitado quanto ao espaço. Infelizmente eu, que sempre tive uma imaginação viva, estou também limitado quanto ao pensamento. Responderei mais tarde.

12. Quando vivo, qual era a vossa opinião sobre o estado da alma após a morte? Resp. – Eu a supunha imortal, isto é evidente. Confesso, porém, para minha vergonha, que não acreditava ou, pelo menos, não tinha uma opinião segura sobre a reencarnação.

13. Qual era a fonte do caráter original que vos distinguia? Resp. – Não havia uma causa direta; alguns são profundos, sérios, filósofos; eu era alegre, vivo, original. É uma variedade de caráter, eis tudo.

14. Não teríeis podido, pelo vosso talento, libertar-vos dessa vida boêmia que vos deixava à mercê das necessidades materiais, pois creio que muitas vezes vos faltava o necessário? Resp. – Muito freqüentemente. Mas, que quereis? Eu vivia como ordenava o meu caráter. Depois, jamais me dobrei às tolas convenções do mundo. Eu não sabia o que era ir mendigar proteção; a arte pela arte, eis o meu princípio.

15. Qual a vossa esperança para o futuro? Resp. – Ainda não sei.

16. Recordais a existência que precedeu a que acabais de deixar? Resp. – Foi boa.

Observação – Alguém observou que estas últimas palavras poderiam ser tomadas como uma exclamação irônica, o que seria próprio do caráter de Privat. Ele respondeu espontaneamente:

– Peço-vos mil desculpas. Eu não estava gracejando. É verdade que para vós sou um Espírito pouco instrutivo. Mas, enfim, não quero brincar com coisas sérias. Terminemos; não desejo falar mais. Até logo.

(Segunda conversa – 9 de setembro de 1859)31

1. Evocação Resp. – Vamos, meus amigos! Então ainda não acabastes de fazer-me perguntas, bem sensatas, aliás, mas às quais não posso responder?

2. Sem dúvida é por modéstia que falais assim, porquanto a inteligência que revelastes em vida e a maneira pela qual respondestes provam que o vosso Espírito se encontra acima do vulgo. Resp. – Lisonjeador!

3. Não; não lisonjeamos. Dizemos o que pensamos. Aliás, sabemos que a lisonja seria um despropósito para com os Espíritos. Por ocasião de vossa última conversa, deixastes-nos bruscamente. Poderíeis dizer-nos a razão? Resp. – Eis a razão, em toda a sua simplicidade: fazeis perguntas tão fora de minhas idéias que me sinto embaraçado em respondê-las. Havereis de compreender, portanto, o natural impulso de orgulho que experimentei ao ficar calado.

4. Vedes outros Espíritos ao vosso lado? Resp. – Vejo-os em quantidade: aqui, ali, por toda parte.

5. Refletistes sobre a pergunta que vos fizemos e que prometestes respondê-la em outra ocasião? Eu a repito: Quando vivo, constatáveis vossa individualidade por intermédio do corpo. Agora, porém, que não mais o possuís, como a comprovais? Numa palavra: como vos distinguis dos outros seres espirituais, que vedes à vossa volta? Resp. – Se posso exprimir o que sinto, dir-vos-ei que ainda conservo uma espécie de essência, dada por minha individualidade, e que não me deixa nenhuma dúvida de que realmente eu sou eu mesmo, embora morto para a Terra.

Encontro-me ainda num mundo novo, muito novo para mim… (Após alguma hesitação). Enfim, constato a minha individualidade por meu perispírito, que é a forma que possuía neste mundo.

Observação – Pensamos que esta última resposta lhe foi soprada por outro Espírito, porque sua precisão contrasta com o embaraço que no início parecia demonstrar.

6. Assististes aos vossos funerais? Resp. – Sim, mas não atino por quê.

7. Que sensação experimentastes? Resp. – Vi com prazer, com muita satisfação, que deixando a Terra, nela deixava muitas mágoas.

8. De onde vos surgiu a idéia de passar por anabatista e swedenborguiano? Havíeis estudado a doutrina de Swedenborg? Resp. – É mais uma de minhas idéias excêntricas, em meio a tantas outras.

9. Que pensais do pequeno necrológio publicado a vosso respeito no jornal Pays? Resp. – Deixais-me embaraçado, pois se publicardes essas comunicações na Revista por certo dareis prazer a quem as escreveu; quanto a mim, para quem elas foram feitas, direi o quê? Que são frases bonitas, nada mais que frases bonitas.

10. Ides algumas vezes rever os locais que freqüentáveis em vida, e os amigos que deixastes? Resp. – Sim, e ouso dizer que ainda encontro nisso uma certa satisfação.

Quanto aos amigos, eram pouco sinceros; muitos me apertavam a mão sem ter coragem de dizer que eu era excêntrico e, por detrás, me criticavam e me tratavam de louco.

11. Aonde pretendeis ir ao deixar-nos? Isto não é uma pergunta indiscreta, mas para nossa instrução. Resp. – Aonde irei?… Vejamos… Ah! uma excelente idéia… Vou me conceder uma pequena alegria… uma vez apenas não cria hábito… Farei um pequeno passeio; visitarei um quartinho que me deixou em vida lembranças muito agradáveis… Sim, é uma boa idéia; ali passarei a noite à cabeceira de um pobre coitado, um escultor que esta noite não jantou e que pediu ao sono o alívio para sua fome… Quem dorme janta… Pobre rapaz! Fica tranqüilo; irei proporcionar-te sonhos magníficos.

12. Não poderíamos saber o endereço desse escultor, a fim de o auxiliarmos? Resp. – Eis uma pergunta que poderia ser indiscreta, se eu não conhecesse o louvável sentimento que a ditou… Não posso respondê-la.

13. Poderíeis ditar-nos alguma coisa sobre um assunto de vossa escolha? Vosso talento de literato deve tornar fácil a tarefa. Resp. – Ainda não. Entretanto, pareceis tão afáveis, tão compassivos, que prometo escrever alguma coisa. Agora, talvez, eu fosse muito eloqüente; mas temo que minhas comunicações sejam ainda muito terrestres; deixai que minha alma se depure um pouco; aguardai que ela abandone esse invólucro grosseiro que ainda a retém, para então vos prometer uma comunicação. Só vos peço uma coisa: rogai a Deus, nosso soberano Senhor, que me conceda o perdão e o olvido de minha inutilidade na Terra, tendo em vista que cada homem tem a sua missão aqui. Infeliz daquele que não a desempenha com fé e religiosidade. Orai! Orai! Adeus.

(Terceira conversa)

Há muito tempo estou aqui. Prometi dizer alguma coisa e direi. Sabeis, amigos, que nada é mais embaraçoso do que falar assim, sem preâmbulo, e atacar um assunto sério. Um sábio não prepara suas obras senão depois de longa reflexão, após haver amadurecido longamente o que vai dizer, aquilo que vai empreender. Quanto a mim, lamento bastante não ter ainda encontrado um assunto que seja digno de vós. Só vos posso dizer puerilidades. Prefiro, pois, pedir-vos um adiamento de oito dias, como se diz no tribunal. Talvez, então, eu tenha encontrado alguma coisa que vos possa interessar e instruir.

Tendo o médium insistido mentalmente para que ele dissesse alguma coisa, acrescentou:

– Mas meu caro, eu te acho admirável! Não; prefiro ficar como ouvinte. Então não sabes que há tanta instrução para mim quanto para vós em ouvir o que aqui se discute? Não; insisto que ficarei apenas como ouvinte; no meu caso é um papel muito mais instrutivo. Apesar da tua insistência, não desejo responder. Crês, por acaso, que me seria muito mais agradável dizer: Ah! esta noite evocaram Privat d’Anglemont? – É verdade? Que disse ele? – Nada, absolutamente nada. – Obrigado!

Prefiro que conservem de mim uma boa impressão. A cada um as suas idéias.

Comunicação espontânea de Privat D’Anglemont

(Quarta conversa – 30 de setembro de 1859)

“Eis que finalmente o Espiritismo faz um grande barulho por toda parte; e eis que os jornais dele se ocupam, de maneira indireta, é verdade, citando fatos extraordinários de
aparições, de batidas, etc. Meus ex-confrades citam os fatos sem comentários, no que dão provas de inteligência, porquanto jamais a Doutrina Espírita deve ser mal discutida ou tomada como coisa má. Entretanto, eles ainda não admitiram a veracidade do papel do médium. Duvidam. Mas eu lhes refuto as objeções, dizendo que eles mesmos são médiuns. Todos os escritores, grandes e pequenos, o são em maior ou menor grau. E o são no sentido de que os Espíritos que se acham à sua volta atuam sobre o seu sistema mental e muitas vezes lhes inspiram pensamentos que eles se vangloriam de os ter concebido. Certamente jamais acreditariam que Privat d’Anglemont, Espírito leviano por excelência, tivesse resolvido esta questão. No entanto, não digo senão a verdade e, como prova, dou uma mostra muito simples: Como é que depois de haverem escrito durante algum tempo, eles se acham numa espécie de superexcitação e num estado febril pouco comum?

Direis que é o esforço da atenção. Mas quando estais muito atentos numa coisa, contemplando um quadro, por exemplo, sentis febre?

Não, não é mesmo? É necessário, pois, que haja outra causa. Muito bem! Repito que a causa está na modalidade de comunicação existente entre o cérebro do escritor e os Espíritos que o rodeiam.

Agora, meus caros confrades, chicoteai o Espiritismo, se isso vos parece correto. Ridicularizai-o, ride; seguramente não estareis zombando senão de vós mesmos, nem dando bordoadas a não ser em vós próprios… Compreendeis?

Privat d’Anglemont”

 

O médium que na Sociedade servira de intérprete a Privat d’Anglemont teve a idéia de evocá-lo particularmente, dele obtendo a conversa que se segue. Parece que o Espírito sentiu por ele uma certa afeição, seja porque nele encontrasse um instrumento fácil, seja por que entre eles houvesse simpatia. Este médium é um jovem estreante na carreira literária e seus promissores ensaios prenunciam disposições que por certo Privat terá prazer em encorajar.

1. Evocação – Eis-me aqui. Já estou contigo há algum tempo. Esperava essa evocação de tua parte. Fui eu que, há pouco tempo, te inspirei alguns bons pensamentos. Isto era, meu caro amigo, para te consolar um pouco e fazer-te suportar com mais coragem as penas deste mundo. Pensais, então, que eu também não tenha sofrido muito mais do que imaginais, vós que sorríeis de minhas excentricidades? Debaixo dessa couraça de indiferença que eu sempre afetava, quantas mágoas, quantas dores não ocultei! Mas eu tinha uma qualidade muito preciosa para um homem de letras ou para um artista: não importa em que situação, sempre temperei meus sofrimentos com a alegria. Quando sofria muito, fazia gracejos, trocadilhos e brincadeiras de mau gosto. Quantas vezes a fome, a sede, e o frio não me bateram à porta! E quantas vezes não lhes respondi com uma longa e alegre gargalhada! Gargalhada fingida, dirás. Ah! Não, meu amigo, confesso-te que eu era sincero.

Que queres? Sempre tive o mais indiferente caráter que se possa ter.

Jamais me preocupei com o futuro, com o passado e com o presente. Sempre vivi como verdadeiro boêmio, ao Deus dará, gastando cinco francos quando os tinha, e mesmo que não os tivesse; e não era mais rico, quatro dias depois de ter recebido o salário, do que o havia sido na véspera.

Certamente não desejo a ninguém esta vida inútil que levei, incoerente e irracional. As excentricidades não são mais do nosso tempo. As idéias novas, por isso mesmo, fizeram rápidos progressos. É uma vida de que absolutamente não me vanglorio e da qual por vezes me envergonho. A juventude deve ser estudiosa: deve, pelo trabalho, fortalecer a inteligência, a fim de melhor conhecer e apreciar os homens e as coisas.

Desiludi-vos, jovens, se pensais que ao sair do colégio já sois homens completos, ou sábios. Tendes a chave para tudo saber. Compete-vos agora trabalhar e estudar, entrando mais resolutamente no vasto campo que vos é oferecido, cujos caminhos foram aplanados por vossos estudos no colégio. Sei que a juventude necessita de distrações: o contrário seria um atentado à Natureza; entretanto, não deveis buscá-las em excesso, porquanto aquele que na primavera da vida só pensou no prazer, prepara mais tarde penosos remorsos. É então que a experiência e as necessidades deste mundo lhe ensinam que os momentos perdidos jamais se recuperam. Os moços necessitam de leituras sérias.

Muitas vezes os autores antigos são os melhores, porque seus bons pensamentos sugerem outros. Eles devem evitar principalmente os romances, que apenas excitam a imaginação e deixam vazio o coração. Os romances não deveriam ser tolerados senão como distração, uma vez ou outra, e para certas senhoras que não têm algo melhor a fazer. Instrui-vos! Instrui-vos! Aperfeiçoai a inteligência de que Deus vos dotou. Só a este preço seremos dignos de viver.

– Tua linguagem me espanta, caro Privat. Tu te apresentaste sob aparências muito espirituosas, não resta dúvida, mas não como um Espírito profundo, e agora… – R. Alto lá, rapaz! paremos com isso. Apareci, ou melhor, comuniquei-me convosco como um Espírito um tanto superficial, é verdade, porque ainda não me encontrava totalmente desprendido de meu invólucro terrestre e a condição de Espírito não se havia ainda apresentado em toda a sua realidade. Agora, amigo, sou um Espírito, nada mais que um Espírito. Vejo, sinto e experimento tudo como os outros, e minha vida na Terra não me parece mais que um sonho. E que sonho! Estou parcialmente habituado a este mundo novo, que deve ser minha morada por algum tempo.

– Quanto tempo imaginas ficar como Espírito, e o que fazes em tua nova existência? Quais são as tuas ocupações? – R. O tempo que devo permanecer como Espírito está nas mãos de Deus e haverá de durar, tanto quando posso conceber, até que Deus julgue minha alma bastante depurada para encarnar numa região superior. Quanto às minhas ocupações, são quase nulas. Ainda estou errante, como conseqüência da vida que levei na Terra. É assim que aquilo que me parecia um prazer no vosso mundo é agora uma lástima para mim. Sim, é verdade, eu gostaria de ter uma ocupação séria, interessar-me por alguém que merecesse a minha simpatia, inspirar-lhe bons pensamentos. Mas meu caro amigo, já conversamos bastante e, se me permitires, vou retirar-me. Adeus.

Se necessitares de mim, não receies chamar-me: acorrerei com prazer. Coragem! Sê feliz!

 

Privat d'Anglemont

Senhora Ida Pfeiffer

Revista Espírita, dezembro de 1859

A senhora Ida Pfeiffer, célebre viajante

(Sociedade; 7 de setembro de 1859.)

O relato seguinte foi extraído da segunda Viagem, ao redor do mundo, da senhora Ida
Pfeiffer, página 345.

Uma vez que me ocupo em falar de coisas tão estranhas, é necessário que mencione um acontecimento enigmático que se passou, há vários anos, em Java, e que fez tanta sensação que provocou mesmo a atenção do governo.

“Havia, na residência de Chéribon, uma casinhola na qual, no dizer do povo, ocupava-se dos Espíritos. Na caída do dia, as pedras começavam a chover de todos os lados na sala, e por toda parte onde se escarrava siri (1). (1-Preparado que os Javaneses mascam continuamente, e que dá à boca e à saliva uma cor de sangue. ) As pedras, assim como os
escarros, caíam perto das pessoas que se encontravam no recinto, mas sem atingi-las nem feri-las. Parecia que era sobretudo contra uma pequena criança que isso estava dirigido.

Falou-se tanto desse assunto inexplicável, que por fim o governo holandês encarregou um oficial superior, que .merecia sua confiança, de examiná-lo. Este fez postar, ao redor da casa, homens seguros e fiéis, com proibição de deixar entrar e sair quem quer que fosse. Examinou tudo escrupulosamente, e pondo sobre os joelhos a criança designada, sentou-se na peça fatal. À tarde a chuva de pedras e de siri começou a cair como de costume: tudo caiu perto do oficial e da criança, sem atingir nem um e nem o outro.

Examinou-se de novo cada canto, cada buraco; mas não se descobriu nada: o oficial nada pôde ali compreender. Fez recolher as pedras, fez marcá-las e escondê-las num lugar bem afastado; isso foi em vão: as mesmas pedras caíram de novo na peça, na mesma hora. Enfim, para pôr termo a essa história inconcebível, o governo fez demolir a casa”

A pessoa que obteve este fato, em 1853, era uma mulher verdadeiramente superior, menos pela sua instrução e seu gênio que pela incrível energia de seu caráter. A parte essa ardente curiosidade e essa coragem indomável, que dela fizeram a mais espantosa viajante que jamais existiu, a senhora Pfeiffer não tinha em seu caráter nada de excêntrico. Era uma mulher de uma piedade doce e esclarecida, e que provou muitas vezes que estava longe de ser supersticiosa: tinha por lei não contar senão o que vira por si mesma, ou aquilo que tinha por fonte certa. (Ver a Revue de Paris, do dia 1º de setembro de 1856, e o Dictionnarie dês contemporains, de Vapereau.)

1. Evocação da senhora Pfeiffer. – Estou aqui.

2. Estais surpresa pelo nosso chamado e por vos encontrardes entre nós? – R. Estou surpresa pela rapidez da minha viagem.

3. Como fostes prevenida que desejávamos falar-vos? – R. Fui conduzida aqui sem disso suspeitar.

4. Todavia, recebestes um aviso qualquer. – R. Um arrebatamento irresistível.

5. Onde estáveis, quando do nosso chamado? – R. Estava perto de um Espírito que tenho a missão de guiar.

6. Tivestes consciência dos lugares que atravessastes para vir aqui, ou bem aqui vos encontrastes subitamente, sem transição? -R. Subitamente.

7. Sois feliz, como Espírito? – R. Sim, não se pode ser mais feliz.

8. De onde vos veio esse gosto pronunciado pelas viagens? -R. Fui marinheiro numa vida precedente, e o gosto que tinha, nessa vida, pelas viagens refletiu sobre esta, apesar do sexo que escolhi para disso me subtrair.

9. Vossas viagens contribuíram para o vosso adiantamento, como Espírito? – R. Sim, porque as fiz com espírito de observação, que me faltou na existência precedente, quando não me ocupei senão de comércio e de interesses materiais: foi por isso que acreditei avançar mais numa vida sedentária; mas Deus, tão bom e tão sábio em seus decretos que não podemos penetrar, fez-me utilizar minhas tendências para fazê-las servir ao adiantamento que eu solicitei.

10. Qual das nações que visitastes pareceu a mais avançada e que preferistes? Não dissestes, quando viva, que vos agradavam certas populações da Oceania acima das nações civilizadas? – R. Era um sistema errôneo. Prefiro hoje a França, porque compreendo sua missão e prevejo seus destinos.

11. Qual o destino que prevês para a França? – R. Não posso dizer-vos sua destinação; mas sua missão é espalhar o progresso, as luzes, e portanto o Espiritismo VERDADEIRO.

12. Em que os selvagens da Oceania vos pareciam mais avançados que os Americanos? – R. Neles encontrei, à parte os vícios concernentes ao estado selvagem, qualidades sérias e
sólidas que não encontrei alhures.

13. Confirmais o fato que teria se passado em Java, e que é narrado em vossas obras? – R. Eu o confirmo em parte; o fato das pedras marcadas e lançadas de novo merece explicação: eram pedras semelhantes, mas não as mesmas.

14. A que atribuís esse fenômeno? – R. Eu não sabia a que atribuí-lo: perguntava-me se, com efeito, o diabo existia; e me respondia: Não, e nisso ficava.

15. Agora que podeis disso vos dar conta, podeis nos dizer de onde vinham essas pedras? Eram transportadas ou fabricadas de propósito pelos Espíritos? – R. Pedras transportadas. Era mais fácil, para eles, conduzi-las do que aglomerá-las.

16. E esse siri, de onde vinha? Era fabricado por eles? – R. Sim: era mais fácil, e, por outro lado, inevitável, uma vez que era impossível encontrá-lo inteiramente preparado.

17. Qual era o objetivo dessas manifestações? – R. Como sempre, para chamar a atenção e
fazer constatar um fato do qual se falou e do qual se procurou a explicação.

Nota. Alguém pode observar que essa constatação não poderia conduzir a nenhum resultado sério entre tais povos; mas responde-se que há um resultado real, uma vez que, pelo relato e o testemunho da senhora Pfeiffer, chegou ao conhecimento dos povos civilizados, que o comentam e dele tiram conseqüências: esses são, aliás, os Holandeses que foram chamados a constatá-los.

18. Deveria haver aí um motivo especial, sobretudo quanto à criança atormentada por esses Espíritos? – R. A criança tinha uma influência favorável, eis tudo, uma vez que não lhe fizeram pessoalmente nenhum toque.

19. Uma vez que esses fenômenos eram produzidos pelos Espíritos, por que cessaram quando a casa foi demolida? – R. Cessaram porque se julgou inútil continuar; mas não deveríeis perguntar se teriam podido continuar.

20. Nós vos agradecemos por terdes vindo e terdes consentido em responder às nossas perguntas. – R. Estou ao vosso dispor.

conversas alem tumulo