Índice Geral – Revista Espírita

Revue Spirit 1858

Revue Spirit 1859

 

Revue Spirit - Allan Kardec.jpg

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Aviso

Revista Espírita, abril de 1859

Recebemos, sem cessar, cartas de nossos correspondentes que nos pedem a História de Joana D’Arc e a de Luís XI, das quais publicamos extratos, assim como o álbum dos desenho do senhor Victorien Sardou.

Lembramos aos nossos leitores que a história de Joana D’Arc está completamente esgotada, agora; que a vida de Luís XI, assim como a de Luís IX, não foram ainda publicadas; esperamos que o serão um dia e nos faremos um dever anunciá-las em nossa coletânea. Até lá, todo pedido com o efeito de procurar essas obras não tem objeto.

Ocorre o mesmo com o álbum do senhor Sardou. O desenho que demos, da casa de Mozart, é o único que está a venda no senhor Ledoyen.

ALLAN KARDEC.

 

aviso espiritismo

Aforismos Espíritas e pensamentos destacados

Revista Espírita, abril de 1859

Os Espíritos se encarnam homens ou mulheres, porque eles não têm sexo. Como devem progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes oferece as provas e os deveres especiais, e a ocasião de adquirirem a experiência. Aquele que fosse sempre homem, não saberia senão o que sabem os homens.

Pela Doutrina Espírita, a solidariedade não está mais restrita à sociedade terrestre: ela abarca todos os mundos; pelas relações que os Espíritos estabelecem entre as diferentes esferas, a solidariedade é universal, porque de um mundo ao outro os seres vivos se prestam mutuo apoio.

aforismo espírita

Sonâmbulos remunerados

Revista Espírita, abril de 1859

Um dos nossos correspondentes nos escreveu a propósito de nosso último artigo sobre os médiuns mercenários, para nos perguntar se nossas observações se aplicam, igualmente, aos sonâmbulos remunerados.

Querendo-se remontar à fonte do fenômeno, ver-se-á que o sonâmbulo, se bem que se possa considerá-lo como uma variedade de médium, é um caso diferente do médium propriamente dito. Com efeito, este último recebe suas comunicações de Espíritos estranhos que podem vir, ou não, segundo as circunstâncias ou as simpatias que encontram. O sonâmbulo, ao contrário, age por si mesmo; é seu próprio Espírito que se desliga da matéria, e vê mais ou menos bem, segundo o desligamento seja mais ou menos completo. O sonâmbulo, é verdade, está em relação com outros Espíritos que o assistem mais ou menos de bom grado, em razão de suas simpatias; mas, em definitivo, é o seu que vê e que pode, até um certo ponto, dispor de si mesmo sem que outros encontrem nisso o que censurar, e sem que seu concurso seja indispensável. Disso resulta que o sonâmbulo que procura uma compensação material para a fadiga, freqüentemente muito grande, que para ele resulta do exercício de sua faculdade, não tem as mesmas suscetibilidades a vencer que o médium que não é senão um instrumento.

Sabe-se, além disso, que a lucidez sonambúlica se desenvolve pelo exercício; ora, aquele que disso faz a sua ocupação exclusiva, adquire uma facilidade tanto maior que está no caso de ver muitas coisas com as quais acaba por se identificar, assim que com certos termos especiais que lhe vêm à memória mais facilmente; em uma palavra, ele se familiariza com esse estado que se torna, por assim dizer, seu estado normal: nada mais o espanta. Aliás, os fatos aí estão para provarem com qual prontidão e qual clareza podem ver; de onde concluímos que a retribuição paga a certos sonâmbulos não é obstáculo ao desenvolvimento da lucidez.

A isso faz-se uma objeção. Como a lucidez é freqüentemente variável, depende de causas fortuitas, pergunta-se se o atrativo do ganho não poderia conduzir o sonâmbulo a fingir essa lucidez, mesmo quando ela lhe faltasse, por fadiga ou outra causa, inconveniente que não ocorre quando não há o interesse. Isso é muito verdadeiro, mas nós respondemos que toda coisa tem o seu lado mau. Pode-se abusar de tudo, e por toda parte onde se introduz a fraude é preciso invectivá-la. O sonâmbulo que assim agisse, faltaria com a lealdade, o que, infelizmente, se encontra também naqueles que não dormem. Com um pouco de hábito, pode-se facilmente se aperceber disso, e seria difícil enganar por muito tempo um observador experimentado. Nisso, como em todas as coisas, o essencial é assegurar-se do grau de confiança que merece a pessoa à qual se dirige. Se o sonâmbulo não remunerado não oferece esse inconveniente, não é preciso crer que sua lucidez seja infalível; ele pode se enganar tanto como um outro, se estiver em más condições; a esse respeito, a experiência é o melhor guia. Em resumo, não preconizamos ninguém; pudemos mesmo constatar serviços eminentes prestados por uns e pelos outros; nosso objetivo era provar que se pode encontrar bons sonâmbulos numa e na outra condição.

sonambulos espiritismo

Pensamentos Poéticos

Revista Espírita, abril de 1859

Ditados pelo Espírito de Alfred de Musset, para a senhora **

Se tu sofres na Terra,

Pobre coração aflito,

Se para ti a miséria

É um quinhão obrigado

Pense, em tua dor,

Que tu segues o caminho

Que conduz pelas lágrimas

Para um melhor destino.

Os pesares da vida

São pois muito grandes

Para que teu coração esqueça

Que um dia nas primeiras classes,

Por preço de teus sofrimentos,

Teu Espírito depurado Terá os prazeres

Do império etéreo?

________________________________

A vida é uma passagem

Da qual conheces o curso;

Age com sabedoria,

Terás mais felizes dias.

Nota. O médium que serviu de intérprete, não só é estranho às regras mais vulgares da poesia, mas jamais pode fazer um único verso por si mesmo. Escreve-os com uma facilidade extraordinária sob o ditado dos Espíritos, e embora seja médium há pouco tempo, delas já possui uma coletânea numerosa, das mais interessantes. Nós as vimos, entre outras, encantadoras e oportunas,”que lhe foram ditadas pelo Espírito de uma pessoa viva que evocou, e que habita a 200 léguas. Essa pessoa, quando está desperta, não é mais poeta que ele.

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Senhor Poitevin, aeronauta

Revista Espírita, abril de 1859

Morto há mais ou menos dois meses, de uma febre tifóide contraída em conseqüência de uma descida que fez em pleno mar.

Sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 11 de fevereiro de 1859.

1. Evocação. – R. Heis-me, falai.

2. Lamentais a vida terrestre? – R. Não.

3. Sois mais feliz que de quando vivo? – R. Muito.

4. Qual motivo pôde levar-vos às experiências aeronáuticas? – R. A necessidade.

5. Tínheis o pensamento de servir à ciência? – R. De nenhum modo.

6. Vedes hoje a ciência aeronáutica sob um outro ponto de vista do que de vossa vida? – R. Não; via-a como a vejo agora, porque a via bem. Vejo sempre aperfeiçoamentos a trazer que eu não poderia desenvolver por falta de ciência; mas esperai; homens virão que lhe darão o relevo que ela merece e que merecerá um dia.

7. Credes que a ciência aeronáutica se tomará um dia um objeto de utilidade pública? – R. Sim, certamente.

8. A grande preocupação daqueles que se ocupam dessa ciência, é a procura dos meios de dirigir os balões; pensais que a isso se chegará? – R. Sim, certamente.

9. Qual é, segundo vós, a maior dificuldade que apresenta a direção dos balões? – R. O vento, as tempestades.

10. Assim, não é a dificuldade de encontrar um ponto de apoio? — R. Se se conduzissem os ventos, conduzir-se-iam os balões.

11. Poderíeis assinalar o ponto para o qual conviria dirigir as pesquisas sob esse aspecto? – R. Deixai fazer.

12. Em vossa vida, estudastes os diferentes sistemas propostos? – R. Não.

13. Poderíeis dar conselhos àqueles que se ocupam dessas espécies de pesquisas? – R. Pensais que seguiriam vossos avisos?

14. Não seriam os nossos mas os vossos. – R. Quereis um tratado? Eu o mandarei fazer.

15. Por quem? – R. Por amigos que me guiaram, a mim mesmo.

16. Há aqui dois inventores distintos em fatos aeronáuticos, o senhor Sanson e o senhor Ducroz que obtiveram rendimento científico muito honroso. Fazeis uma idéia do seu sistema? – R. Não; há muito a dizer; não os conheço.

17. Admitindo como resolvido o problema da navegação, credes na possibilidade de uma navegação aérea sobre uma grande escala, como sobre o mar? – R. Não, jamais como pelo telégrafo.

18. Não falo da rapidez das comunicações, que jamais podem ser comparadas às do telégrafo, mas do transporte de um grande número de pessoas e de objetos materiais. Quais resultados se podem esperar sob esse aspecto? – R. Pouco e prontidão.

19. Quando estáveis em um perigo iminente, pensáveis no que serieis depois da morte? – R. Não; estava inteiramente absorvido em minhas manobras.

20. Que impressão fazia sobre vós o pensamento do perigo que corríeis? – R. O hábito havia enfraquecido o medo.

21. Que sensação experimentáveis quando estáveis perdido no espaço? – R. Perturbação, mas feliz; meu espírito parecia escapar do vosso mundo; entretanto, as necessidades das manobras me tornavam a chamar sob o vento à realidade, e me faziam recair na fria e perigosa posição na qual me encontrava.

22. Vedes com prazer vossa mulher seguir a mesma carreira de aventura vossa? – R. Não.

23. Qual é a vossa situação como Espírito? – R. Vivo como vós, quer dizer, posso dominar a minha vida espiritual como dominais a vossa vida material.

Nota. As curiosas experiências do senhor Poitevin, sua intrepidez, sua notável habilidade na manobra dos balões, nos faziam esperar encontrar, nele, mais elevação e uma grandeza nas idéias. O resultado não respondeu às nossas expectativas; a aerostação não era para ele, como se pôde ver, senão uma indústria, um modo de viver por um gênero particular de espetáculo; todas as suas faculdades estavam concentradas sobre os meios de excitar a curiosidade pública. É assim que, nessas conversas de além-túmulo, as previsões, freqüentemente, se desenrolam; ora ultrapassam, ora acha-se menos do que se esperava, prova evidente da independência das comunicações.

Em uma sessão particular, e por intermédio do mesmo médium, Poitevin ditou os conselhos seguintes para realizar a promessa que vinha de fazer, cada um poderá apreciar-lhe o valor; nós os damos como objeto de estudo sobre a natureza dos Espíritos, e não por seu mérito científico mais que contestável.

“Para conduzir um balão cheio de gás, encontrareis sempre as maiores dificuldades: a imensa superfície que oferece exposta aos ventos, a pequenez do peso que o gás pode levar, a fraqueza do envoltório que reclama esse ar sutil; todas essas causas jamais permitirão dar, ao sistema aerostático, a grande extensão que gostaríeis de vê-lo tomar. Para que o aerostato tenha uma utilidade real, é preciso que seja um modo de comunicação poderoso e dotado de uma certa presteza, mas, sobretudo, poderoso. Dissemos que ele ocupava o meio entre a eletricidade e o vapor; sim, e em dois pontos de vista:

1º. Ele deve transportar os viajantes mais depressa do que as ferrovias, menos depressa do que o telégrafo as mensagens.
2º. Não está no meio desses dois sistemas, porque participa, ao mesmo tempo, do ar e da terra, todos os dois servindo-lhe de caminho: está entre o céu e o mundo.

“Não me perguntastes se chegaríeis a ir, por esse meio, visitar outros planetas.

Entretanto, esse pensamento é o que tem inquietado bem os cérebros, e cuja solução encheria de espanto todo o vosso mundo. Não, não chegareis. Considerai, pois, que para atravessar esses espaços desconhecidos para vós, de milhões, de milhões de léguas, a luz gasta anos; vede, portanto, quanto será preciso de tempo para atingi-los, mesmo levados pelo vapor e pelo vento.

“Para retornar ao assunto principal, começando vos direi que não é preciso esperar muito do vosso sistema atualmente empregado; mas obtereis sempre mais atuando sobre o ar por compressão forte e ampla; o ponto de apoio que procurais, está diante de vós, vos cerca por todos os lados, com ele vos chocais a cada um dos vossos movimentos, ele entrava todos os dias vosso caminho e influi, sobretudo, no que locais. Pensai bem nisso, tirai desta revelação tudo o que puderdes: suas deduções são enormes. Não podemos tomar-vos pelas mãos e vos fazer inventar as ferramentas necessárias a esse trabalho, não podemos vos dar, palavra por palavra, uma indução; é preciso que vosso Espírito trabalhe, que amadureça seus projetos, sem isso não compreenderíeis o que faríeis e não saberíeis manejar vossos instrumentos; seríamos obrigados a voltar e abrir, nós mesmos, todos os vossos empenhos, e as circunstâncias imprevistas que viriam um dia, ou outro, combater vossos esforços, vos reconduziriam a vossa ignorância primária

‘Trabalhai, pois, e encontrareis o que procurardes: conduzi vosso Espírito para o lado que- vos indicamos, e aprendei pela experiência que não vos induzimos ao erro.”

Nota. Esses conselhos, embora encerrando incontestáveis verdades, não deixam de denotar um Espírito pouco esclarecido em certos pontos de vista, uma vez que parece ignorar a verdadeira causa da impossibilidade de atingir outros planetas. É uma prova a mais da diversidade de aptidões e de luzes que se encontram no mundo dos Espíritos, como neste mundo. É pela multiplicidade das observações que se chega a conhecê-lo, a compreendê-lo e a julgá-lo. Por isso, damos espécimes de todos os gêneros de comunicações, tendo o cuidado de fazer ressaltar o forte e o fraco. A de Poitevin terminou por uma consideração muito justa que nos parece suscitada por um Espírito mais filosófico do que o seu; de resto, ele dissera que faria redigir seus conselhos por seus amigos que, em definitivo, não nos ensinam nada.
Nela encontramos ainda uma nova prova, que os homens que têm uma especialidade na

Terra não são, sempre, os mais apropriados a nos esclarecerem como Espíritos, se, sobretudo, não são bastante elevados para se desligarem da vida terrestre.
É deplorável, para o progresso da aeronáutica, que a maioria desses homens intrépidos não possa colocar sua experiência em proveito da ciência, ao passo que os teóricos são estranhos à prática, e são como marinheiros que jamais viram o mar.

Incontestavelmente, haverá um dia engenheiros em aerostática, como há engenheiros marítimos, mas isso não será senão quando terão visto e sondado, por eles mesmos, as profundezas do oceano aéreo. Quantas idéias não lhes dariam o contato real dos elementos, idéias que escapam às pessoas do
ofício! porque, qualquer que seja seu saber, não podem, do fundo de seus gabinetes, perceber todos os escolhos; e, todavia, se essa ciência deva ser um dia uma realidade, isso não será por eles. Aos olhos de muitas pessoas é ainda uma quimera, e eis porque os inventores, que não são, em geral, capitalistas, não encontram nem apoio nem encorajamentos necessários. Quando a aerostação der dividendos, mesmo uma esperança, poderá ser cotada, os capitais não lhe faltarão; até lá não é preciso contar senão com o devotamento daqueles que vêem o progresso antes da especulação. Enquanto houver parcimônia nos meios de execução, haverá reveses pela impossibilidade de ensaios sobre uma tão vasta escala, ou em condições convenientes. Seremos forçados a fazê-lo mesquinhamente, o que é um mal, nisto, como em toda coisa.

O sucesso não será senão ao preço de sacrifícios suficientes para entrar largamente no caminho da prática, e quem diz sacrifício diz exclusão de toda idéia de benefício.

Esperamos que o pensamento de dotar o mundo da solução de um grande problema, não o fosse senão sob o ponto de vista da ciência, inspire algum generoso desinteresse. Mas a primeira coisa a fazer seria fornecer aos teóricos os meios para adquirir a experiência do ar, mesmo pelos meios imperfeitos de que dispomos. Se Poitevin tivesse sido um homem de saber, e tivesse inventado um sistema de locomotiva aérea, teria inspirado, sem contradita, mais confiança que aqueles que jamais deixaram a terra, e teria, provavelmente, encontrado os recursos que se recusam aos outros.

Senhor Girard de Codemberg

Revista Espírita, abril de 1859

Antigo aluno da Escola Politécnica, membro de várias sociedades de sábios, autor de um livro intitulado: O Mundo espiritual, ou ciência cristã de comunicar intimamente com as potências celestes e as almas felizes. Falecido em novembro de 1858; evocado na Sociedade, no dia 14 de janeiro seguinte.

1. Evocação. – R. Estou aqui; que quereis comigo?

2. Viestes de bom grado ao nosso chamado? – R. Sim.

3. Quereis nos dizer o que pensais, atualmente, do livro que publicastes? – R. Cometi alguns erros, mas há coisa boa, e sou levado a crer que vós mesmos aprovareis o que eu disse ali, sem lisonja.

4. Dissestes, notadamente, que tivestes comunicações com a mãe do Cristo: vedes hoje se era realmente ela? – R. Não, não era ela, mas um Espírito que tomava o seu nome.

5. Com qual objetivo esse Espírito lhe tomava o nome? – R. Ele me via tomar o caminho do erro, e disso se aproveitava para comprometer-me mais; era um Espírito perturbador, um Espírito leviano; mais próprio ao mal do que ao bem; era feliz em ver minha falsa alegria; eu era seu joguete como vós o sois, freqüentemente, de vossos semelhantes.

6. Como vós, dotado de uma inteligência superior, não vos apercebestes do ridículo de certas comunicações? – R. Estava fascinado, e achava bom tudo o que me diziam.

7. Não pensais que essa obra pode fazer o mal no sentido em que se presta ao ridículo quanto às comunicações de além-túmulo? – R. Nesse sentido, sim; mas eu disse, também, que há do bom e do verdadeiro; e, sob um outro ponto de vista, fere os olhos das massas; no que nos parece mau, freqüentemente, encontrais um bom germe.

8. Sois mais feliz agora do que de quando vivo? – R. Sim, mas tenho muita necessidade de me esclarecer, porque estou ainda nas brumas que se seguem à morte; sou como o escolar que começa a soletrar.

9. Em vossa vida, conhecestes O Livro dos Espíritos? – R. Jamais prestei-lhe atenção; tinha minhas idéias assentes; nisso pequei, porque não saberia muito aprofundar e estudar todas as coisas; mas o orgulho aí é que sempre nos ilude; de resto, é próprio dos ignorantes em geral; não querem estudar senão o que preferem, e não escutam senão aqueles que os lisonjeiam.

10. Não éreis um ignorante; vossos títulos disso são a prova? -R. O que é o sábio da Terra diante da ciência do céu? Aliás, não há sempre a influência de certos Espíritos interessados em afastar a luz de nós?

Nota. Isso corrobora o que já foi dito, que certos Espíritos inspiram o distanciamento para as pessoas das quais se pode receber conselhos úteis e que pode frustrá-los. Jamais essa influência é de um bom Espírito.

11. E agora, que pensais desse livro? – R. Não posso dizê-lo sem lisonja, porém, não nos lisonjeamos mais: deveis compreender-me.

12. Vossa opinião sobre as penas futuras modificou-se? – R. Sim; eu acreditava nas penas materiais; creio agora nas penas morais.

13. Podemos fazer alguma coisa que vos seja agradável? – R. Sempre; cada um dizei uma pequena prece esta noite em minha intenção; por isso vos serei reconhecido; sobretudo, não vos esqueçais.

Nota. O livro do senhor de Codemberg fez uma certa sensação, e devemos dizê-lo, uma sensação penosa entre os partidários esclarecidos do Espiritismo, por causa da estranheza de certas comunicações que se prestam muito ao ridículo. Sua intenção era louvável, porque era um homem sincero; mas é um exemplo do império que certos Espíritos podem tomar lisonjeando e exagerando as idéias e os preconceitos daqueles que não pesam, com bastante severidade, os prós e os contras das comunicações espíritas. Mostra-nos, sobretudo, o perigo de derramá-las, muito levianamente, ao público, porque podem ser um motivo de repulsa, fortificar certas pessoas em sua incredulidade, e fazerem, assim, mais mal que bem, dando armas aos inimigos da coisa Não se poderia, pois, ser mais circunspecto a esse respeito.

Girard

Conversas familiares de além túmulo – Benvenuto Cellinl

Revista Espírita, abril de 1859

(Sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas de 11 de março de 1859.)

1. Evocação. – R. Interrogai-me, estou pronto; sede tão extensos quanto o desejais: tenho tempo para vos dar.

2. Lembrai-vos da existência que vivestes na Terra, no século XVI, de 1500 a 1570? – R. Sim, sim.

3. Qual é, atualmente, a vossa situação como Espírito? – R. Vivi em vários outros mundos, e estou bastante contente com a classe que hoje ocupo; não é um trono, mas estou sobre os degraus.

4. Tivestes outras existências corpóreas, na Terra, depois daquela que conhecemos? – R. Corpóreas, sim; na Terra, não.

5. Quanto tempo permanecestes errante? – R. Não posso calcular: alguns anos.

6. Quais eram as vossas ocupações no estado errante? – R. Eu me trabalhava.

7. Retomastes algumas vezes na Terra? – Pouco.

8. Assististes ao drama em que estais representado, e que pensais dele? – R. Fui vê-lo várias vezes; enquanto Celini, fiquei lisongeado, mas pouco como Espírito que progrediu.

9. Além da existência que conhecemos, tivestes outras na Terra? – R. Não, nenhuma.

10. Poderíeis dizer-nos o que éreis em vossa existência precedente? – R. Minhas ocupações eram bem diferentes das que tive em vossa Terra.

11. Qual mundo habitais? – R. Não o conheceis e não o vedes.

12. Poderíeis dar-nos uma descrição dele, quanto ao físico e ao moral? – R. Sim, facilmente.

Quanto ao aspecto físico, meus caros amigos, ali encontrei meu contentamento em beleza plástica: nada choca aos olhos; todas as linhas se harmonizam perfeitamente; a mímica é um estado constante; os perfumes nos cercam, e não poderíamos senão desejar o nosso bemestar físico, porque as necessidades, pouco numerosas, às quais estamos submetidos, são logo satisfeitas.

Pelo moral, a perfeição é menor, porque ali ainda se podem ver consciências perturbadas e Espíritos levados ao mal; não é a perfeição, longe disso, mas, como vos disse, é dela o caminho, e todos esperamos alcançá-la um dia.

13. Quais são as vossas ocupações no mundo que habitais? -R. Trabalhamos as artes. Sou artista.

14. Em vossas memórias, relatais uma cena de feitiçaria e de sortilégio que teria se passado no Coliseu, em Roma, na qual tomastes parte; lembrai-vos dela? – R. Pouco claramente.

15. Se a lêssemos para vós, isso evocaria as vossas lembranças? – R. Sim, dar-me-ia o conhecimento dela.

(Leitura feita do fragmento abaixo, de suas memórias.) “No meio dessa vida estranha, ligueime a um padre Siciliano, de espírito muito distinto, e que era profundamente versado nas letras gregas e latinas. Um dia, quando com ele conversava, a conversação caiu sobre a necromancia e disse-lhe que, em toda a minha vida, desejei ardentemente ver e aprender alguma coisa dessa arte. Para abordar semelhante empresa, é preciso uma alma firme e intrépida, respondeu-me o padre…

“Uma noite, pois, o padre fez os seus preparativos e disse-me para procurar um companheiro ou dois. Juntou-se a um homem de Pistóia, que também se ocupava de necromancia. Seguimos para o Coliseu. Ali o sacerdote se vestiu à maneira dos necromantes, depois pôs-se a desenhar no solo círculos, com as mais belas cerimônias que se possam imaginar. Havia trazido perfumes preciosos, drogas fétidas e fogo.

Quando tudo estava em ordem, fez uma porta no círculo e nele nos introduziu, tomando-nos, um após o outro, pela mão. Em seguida, distribuiu as funções. Depositou o talismã nas mãos do seu amigo, o necromante, encarregou os outros de velarem pelo fogo e pelos perfumes e, enfim, começou as suas conjurações. Essa cerimônia durou mais de uma hora e meia. O Coliseu se encheu de legiões de espíritos infernais. Quando o padre viu que eram bastante numerosos, voltou-se para mim, que cuidava dos perfumes, e disse-me: Benvenuto, peca-lhes alguma coisa. Respondi que desejava que eles se reunissem comigo em minha Siciliana Angélica. Nessa noite, não obtivemos resposta; todavia, fiquei encantado com o que vira. O necromante disse-me que seria preciso retornar uma segunda vez, que eu obteria tudo o que pedira, uma vez que trouxesse um jovem rapaz que tivesse ainda a sua virgindade. Escolhi um dos meus aprendizes e levei comigo ainda dois de meus amigos…

“Ele colocou-me nas mãos o talismã, dizendo-me para girá-lo para os lugares que ele designasse. Meu aprendiz estava colocado sob o talismã. O necromante começou as suas terríveis evocações, chamou pelo seu nome uma multidão de chefes de legiões infernais, e lhes deu ordens em hebreu, em grego e em latim, em nome do Deus incriado, vivo e eterno. Logo o Coliseu encheu-se de um número de demônios cem vezes mais considerável do que a primeira vez. Aconselhado pelo necromante, pedi de novo para achar-me com Angélica. Ele voltou-se para mim e disse-me: Não os ouviste anunciar que em um mês estarias com ela? E pediu-me para ter firmeza, porque ali havia mil legiões a mais, que ele não havia chamado. Acrescentou que elas eram as mais perigosas, e que, desde que respondessem às minhas perguntas, seria preciso tratá-las com doçura e despedi-las tranqüilamente. De outro lado, o jovem gritava apavorado que percebia um milhão de homens terríveis que nos ameaçavam, e quatro enormes gigantes, armados dos pés à cabeça, que pareciam querer entrar em nosso círculo. Durante esse tempo, o necromante, tremendo de medo, tentava conjurá-los, tomando a voz mais doce. O jovem enfiou a cabeça entre os joelhos e gritava: Quero morrer assim! Estamos mortos! Então lhe disse: “Essas criaturas estão todas abaixo de nós, e o que vês não é senão fumaça e sombra; assim, ergue os olhos.” Apenas me obedeceu, curvou-se de novo: Todo o Coliseu queima e o fogo vem sobre nós. O necromante ordenou fosse queimada assa fétida. Agnolo, encarregado dos perfumes, estava semimorto de medo.

A esse ruído, e a esse terrível fedor, o jovem se arriscou levantar a cabeça. Ouvindo-me rir, tranqüilizou-se um pouco, e disse que os demônios começavam a operar sua retirada. Permanecemos assim até o momento em que as matinas soaram. O jovem nos disse que não percebia mais do que alguns demônios, e a uma grande distância. Enfim, desde que o necromante cumpriu o resto de suas cerimônias e tirou sua roupa, saímos todos do círculo. Enquanto caminhávamos para a rua de Banchi para retornarmos às nossas casas, ele assegurava que dois dos demônios pulavam diante de nós, e corriam ora sobre os telhados, ora sobre o solo.

“O necromante jurava que, desde que colocara os pés num círculo mágico, nunca lhe aconteceu nada de tão extraordinário. Em seguida, tentou determinar-me para juntar-me a ele, para consagrar um livro que deveria nos proporcionar riquezas incalculáveis, e fornecernos os meios para forçarmos os demônios a nos indicarem os lugares onde estavam ocultos os tesouros que a terra esconde em seu seio…
“Depois de diferentes relatos que tinham mais ou menos relação com o que precede, Benvenuto contou como, ao cabo de trinta dias, quer dizer, no prazo fixado pelos demônios, ele reencontrou sua Angélica.”

16. Poderíeis dizer-nos o que há de verdadeiro nessa cena? -R. O necromante era um charlatão, eu era um romancista e Angélica era minha senhora.

17. Revistes François l, vosso protetor? – R. Certamente, ele reviu muitos outros que não foram seus protegidos.

18. Como o julgastes quando vivo e como o julgais agora? – R. Dir-vos-ei como julguei: como um príncipe e, nessa qualidade, cego pela sua educação e sua sociedade.

19. E agora, que dizeis dele? – R. Progrediu.

20. Foi por amor sincero às artes que ele protegeu os artistas? – R. Sim, e por prazer e vaidade.

21. Onde está agora? – R. Ele vive.

22. Na Terra? – R. Não.

23. Se o evocássemos neste momento, poderia vir e conversar conosco? – R. Sim, mas não forceis assim os Espíritos; que vossas evocações sejam preparadas de longa data e, então, tereis pouca coisa a perguntar ao Espírito. Assim, vos arriscais muito menos de serem enganados, porque o são algumas vezes. (São Luís).

24. (a São Luís): Poderíeis fazer com que viessem dois Espíritos que se falassem? – R. Sim.

25. Nesse caso, seria útil ter dois médiuns? – R. Sim, necessário.

Nota. Esse diálogo ocorreu em uma outra sessão; nós a relataremos em nosso próximo número.

26. (A Cellini): De onde vos veio o sentimento da arte, que estava em vós; tinha um desenvolvimento especial anterior? – R. Sim; por muito tempo estive ligado à poesia e à beleza da linguagem. Na Terra, liguei-me à beleza como reprodução, hoje me ocupo da beleza como invenção.

27. Tínheis também talentos militares, uma vez que o papa Clemente VII vos confiou a defesa do castelo Santo Ângelo. Todavia, vosso talento de artista não deveria vos dar muito mais aptidão para a guerra? – R. Eu tinha talento e sabia aplicá-lo. Em tudo, é preciso julgar, sobretudo para a arte militar de então.

28. Poderíeis ditar alguns conselhos aos artistas que procuram caminhar sobre os vossos passos? – R. Sim; dir-lhes-ia simplesmente para se ligarem mais do que não o fazem, e que eu mesmo não o fiz, à pureza e à verdadeira beleza; eles me compreenderão.

29. A beleza não é relativa e de convenção? O Europeu se crê mais belo que o negro.e o negro mais belo que o branco. Se há uma beleza absoluta, qual lhe é o tipo? Poderíeis darnos a vossa opinião a esse respeito? – R. De bom grado. Não tencionei fazer alusão a uma beleza de convenção: muito ao contrário; o belo está por toda parte, é o reflexo do Espírito sobre o corpo, e não somente a forma corporal. Como vo-lo disse, um negro pode ser belo, de uma beleza que será apreciada somente por seus semelhantes. Do mesmo modo, nossa beleza terrestre é disformidade para o Céu, como para vós, Brancos, o belo negro vos parece quase disforme. A beleza, para o artista, é a vida, o sentimento que sabe dar à sua obra; com isso dará beleza às coisas mais vulgares.

30. Poderíeis guiar um médium na execução de uma modelagem, como Bernard de Palissy guiou para os desenhos? – R. Sim.

31. Poderíeis mandar fazer alguma coisa pelo médium que vos serve atualmente de intérprete? – R. Como outros; mas preferiria um artista que conhecesse os truques.

Nota. A experiência prova que a aptidão de um médium por tal ou tal gênero de execução, prende-se à flexibilidade que apresente ao Espírito, e isso abstração feita do talento. Os conhecimentos do ofício e dos meios materiais de execução não são o talento, mas concebese que o Espírito que dirige o médium nele encontra uma dificuldade mecânica a menos para vencer. Vêem-se, pois, médiuns fazendo coisas admiráveis das quais não têm as primeiras noções, tais como da poesia, dos desenhos, das gravuras, da música etc.; mas é que, então, ha neles uma aptidão inata, ligando-se, sem dúvida, a um desenvolvimento anterior do qual não conservaram senão a intuição.

31. Poderíeis dirigir a senhora G.S., aqui presente, que ela mesma é artista, mas jamais conseguiu produzir alguma coisa como médium? – R. Tentarei, se ela quer.

32. (Senhora G.S.) Quando queres começar? – R. Quando o quiseres, a partir de amanhã.

33. Mas como saberei que a inspiração virá de ti? – R. A convicção vem com as provas: deixaia vir lentamente.

34. Por que não consegui até o presente? – R. Pouca persistência e boa vontade no Espírito chamado.

35. Agradeço a assistência que tu me prometes. – R. Adeus; até logo à minha companheira de trabalho.

Nota. A senhora G.S. deve ter posto mãos à obra, mas não sabemos, ainda, o que ela obteve.

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