Um Espírito que não se acredita morto

Revista Espírita, dezembro de 1859

Um dos nossos assinantes, do departamento de Loiret, ótimo médium escrevente, escreveu o que se segue sobre vários fatos de aparição que lhe foram pessoais.

“Não querendo deixar no esquecimento nenhum dos fatos que vêm em apoio da Doutrina Espírita, venho comunicar-vos novos fenômenos, dos quais sou a testemunha e o médium, e que, como o reconhecereis, concordo perfeitamente com tudo o que publicastes em vossa Revista sobre os diversos estados dos Espíritos depois de sua separação do corpo.

“Há cerca de seis meses, ocupava-me de comunicações Espíritas com várias pessoas, quando me veio o pensamento de perguntar se, entre os assistentes, encontrava-se algum médium vidente. O Espírito respondeu afirmativamente e, designando-me, acrescentou: Tu já o és, mas num grau fraco, e somente durante teu sono; mais tarde teu temperamento se modificará de tal forma, que te tornarás um excelente médium vidente, mas pouco a pouco, e primeiro somente durante o sono.

“No curso deste ano, tivemos a dor de perder três de nossos parentes. Um deles, que era meu tio, apareceu-me, algum tempo depois de sua morte, durante meu sono; teve comigo uma longa conversa, e conduziu-me ao lugar que habita, e que me disse ser o último degrau conduzindo à morada da felicidade eterna. Tive a intenção de dar-vos a explicação do que admirei nessa morada incomparável, mas tendo consultado meu Espírito familiar a esse respeito, respondeu-me: A alegria e a felicidade que experimentastes poderiam influenciar o relato que farias das maravilhosas belezas que admiraste, e tua imaginação poderia criar coisas que não existem. Espera que teu Espírito esteja mais calmo. Detive-me, pois, para obedecer ao meu guia, e não me ocuparei senão de duas outras visões que são mais positivas. Reportar-vos-ei somente as últimas palavras de meu tio. Quando admirava aquilo que me era permitido ver, ele me disse: Vais agora retornar à Terra. Eu lhe supliquei conceder-me ainda alguns instantes.

-Não, disse, são cinco horas, e deves retomar o curso de tua existência. No mesmo instante despertei, e cinco horas soaram no meu relógio.

“Minha segunda visão foi a de um dos dois parentes falecidos este ano. Era um homem virtuoso, amável, bom pai de família, bom cristão, e, embora doente há muito tempo, morreu quase que subitamente, e talvez no momento em que menos nisso pensava. Seu rosto tinha uma expressão indefinível, sério, triste e feliz ao mesmo tempo. Ele me disse:

Expio minhas faltas; mas tenho uma consolação, continuo a viver no meio de minha mulher e de meus filhos, e lhes inspiro bons pensamentos; orai por mim.

“A terceira visão é mais característica, e me foi confirmada por um fato material; é a do terceiro parente. Era um excelente homem, mas vivo, violento, imperioso com os domésticos, e sobretudo dando outra medida aos bens deste mundo; demasiado cético, ocupava-se mais desta vida do que da futura. Algum tempo depois de sua morte, veio à noite e se pôs a sacudir minhas cortinas com impaciência, como para me despertar.

Como, disse-lhe, estás? – Sim; vim procurá-lo, porque és o único que pode responder-me.

Minha mulher e meus filhos partiram para Orléans; quis segui-los, mas ninguém quis me obedecer. Disse a Pierre para fazer meus pacotes, mas não me escutou; ninguém deu-me atenção. Se pudesses vir colocar os cavalos noutra viatura e fazer meus pacotes, me prestarias grande serviço, porque poderia ir reencontrar minha mulher em Orléans.

– Mas não pode fazê-lo tu mesmo? – Não, porque não sou nada elevado’, desde o sono que experimentei durante minha doença, mudei muito; não sei mais onde estou; tenho um pesadelo. – De onde vens? – De B… – É do castelo? – Não!

Respondeu-me com um grito de horror, e levando a mão sobre a fronte, é do cemitério! –

Depois de um gesto de desespero, acrescentou: Meu caro amigo, diga a todos os meus parentes para orarem por mim, porque sou muito infeliz! – A essas palavras foi-se, e o perdi de vista. Quando ele veio procurar-me e sacudir minhas cortinas com impaciência, sua figura exprimia uma horrível alucinação. Quando lhe perguntei o que fizera para agitar minhas cortinas, ele que nada podia levantar, respondeu-me bruscamente: Com o meu sopro!

“No dia seguinte soube que sua mulher e seus filhos, efetivamente, haviam partido para
Orléans.”

Esta última aparição é sobretudo notável naquilo que a ilusão, que leva certos Espíritos a se crerem ainda vivos, prolongou-se neste bem mais tempo do que em casos análogos. Muito comumente, ela não dura senão alguns dias, ao passo que aqui, depois de mais de três meses, ele não se acreditava ainda morto. De resto, a situação é perfeitamente idêntica à que observamos muitas vezes. Ele vê tudo como durante sua vida; quer falar, e fica surpreso por não ser escutado; ele vaga, ou crê vagar, em suas ocupações habituais.

A existência do perispírito está aqui demonstrada de um modo marcante, abstração feita da visão. Uma vez que se crê vivo, ele se vê, pois, um corpo semelhante ao que deixou; esse corpo age como o outro o faria; para ele nada parece mudado; somente ainda não estudou as propriedades de seu novo corpo; ele o crê denso e material como o primeiro, e se espanta por nada poder levantar. Encontra, todavia, na sua situação, alguma coisa estranha da qual não se dá conta: crê estar sob o império de um pesadelo; toma a morte por um sono; é um estado misto entre a vida corpórea e a vida Espírita, estado sempre penoso e cheio de ansiedade, e que tem de um e de outro. Como dissemos alhures, é a conseqüência, quase constante, de mortes instantâneas, tais como as que ocorrem por suicídio, apoplexia, suplício, combate, etc.

Sabemos que a separação do corpo e do perispírito se opera gradualmente, e não de modo brusco; começa antes da morte, quando esta chega pela extinção natural das forcas vitais, seja pela idade, seja pela doença, e sobretudo naqueles que, quando vivos, pressentem seu fim, e se identificam pelo pensamento com sua existência futura, de tal sorte que no instante do último suspiro ela está quase completa. Quando a morte surpreende, de improviso, um corpo cheio de vida, a separação não começa senão neste momento, e não acaba senão pouco a pouco. Enquanto existir um laço entre o corpo e o Espírito, este estará na perturbação, e se entra bruscamente no mundo dos Espíritos, sente um abalo que não lhe permite reconhecer desde logo sua situação, não mais que as propriedades de seu novo corpo; é preciso que ele tente de algum modo, e é isso que o faz crer-se ainda deste mundo.

Além das circunstâncias de morte violenta, há outras que tornam mais tenazes os laços do corpo e do Espírito, porque a ilusão, da qual falamos, se observa igualmente em certos casos de morte natural, e é quando o indivíduo viveu mais da vida material do que da vida moral.

Concebe-se que seu apego à matéria o retém ainda depois da morte, e prolonga assim a idéia de que nada tem a mudar para ele. Tal é o caso da pessoa que acabamos de falar.

Notemos a diferença que há entre a situação dessa pessoa e do segundo parente: um quer ainda comandar; crê ter necessidade de suas malas, de seus cavalos, de sua viatura, para ir reencontrar sua mulher; não sabe ainda que, como Espírito, pode fazê-lo instantaneamente, ou, melhor dizendo, seu perispírito é ainda tão material que ele o crê sujeito a todas as necessidades do corpo. O outro, que viveu a vida moral, que teve sentimentos religiosos, que se identificou com a vida futura, embora surpreendido com mais improviso que o primeiro, já está desligado; disse que vive no meio de sua família, mas sabe que é um Espírito; fala à sua mulher e aos seus filhos, mas sabe que é pelo pensamento; em uma palavra, não há mais ilusão, ao passo que o outro ainda está na perturbação e nas angústias. Ele tem de tal modo o sentimento da vida real, que viu sua mulher e seus filhos partirem, e que partiram com efeito no dia indicado, o que ignorava seu parente a quem apareceu. Por outro lado, notemos uma palavra muito característica de sua parte, e que pinta bem na sua posição. A esta pergunta: De onde vens? Respondeu primeiro pelo nome do lugar onde habitava; depois a esta É do castelo? Não! Disse com pavor, é do cemitério. Ora, isso prova uma coisa, é que, não estando completo o desligamento, uma espécie de atração existia, ainda, entre o Espírito e o corpo, o que fez dizer que veio do cemitério; mas nesse momento parece começar a compreender a verdade; a própria questão parece colocá-lo no caminho chamando sua atenção para os despejos, por isso pronunciou essa palavra com terror.

Os exemplos desta natureza são muito numerosos, e um dos mais tocantes é o do suicídio da Samaritana, que reportamos no nosso número de junho de 1858. Esse homem, evocado vários dias depois de sua morte, afirmava, também, estar ainda vivo, e dizia:

Entretanto, sinto os vermes me roerem, como fizemos observar na nossa relação, isso não era uma lembrança, uma vez que durante a vida não era roído pelos vermes; era, pois, o sentimento da atualidade, uma espécie de repercussão transmitida do corpo ao Espírito, pela comunicação fluídica que ainda existia entre eles. Esta comunicação não se traduz sempre do mesmo modo, mas é sempre mais ou menos penosa, e como um primeiro castigo para aquele que muito se identificou, durante sua vida, com a matéria.

Que diferença com a calma, a serenidade, a doce quietude daqueles que morrem sem remorso, com a consciência de haver bem empregado o tempo de sua estada neste mundo, daqueles que não se deixaram dominar por suas paixões! A passagem é curta e sem amargura, porque a morte é para eles o retomo do exílio para a sua verdadeira pátria. Está aí uma teoria, um sistema? Não, é o quadro que nos oferecem, todos os dias, nossas comunicações de além-túmulo, quadro cujos aspectos variam ao infinito, é onde cada um pode haurir um ensinamento útil, porque cada um nele encontra exemplos que pode aproveitar, se quer se dar ao trabalho de consultá-lo; é um espelho onde pode se reconhecer quem não está cego pelo orgulho.

um espirito que nao acredita estar morto

 

Dos efeitos da prece sobre os Espíritos sofredores

Revista Espírita, dezembro de 1859

Um dos nossos assinantes nos escreveu de Lausanne:

“Há mais de quinze anos professo uma grande parte daquilo que a vossa ciência Espírita ensina hoje. A leitura de vossas obras não fez senão me afirmar nesta crença; trouxe-me, por outro lado, uma grande consolação, e lança uma viva claridade sobre uma parte que não era senão trevas para mim. Embora bem convencido que minha existência deveria ser múltipla, não podia me explicar em que se tornava o meu Espírito durante o intervalo. Mil vezes obrigado, senhor, de haver-me iniciado nesses grandes mistérios, indicando-me um único caminho a seguir para ganhar um lugar melhor no outro mundo. Abristes meu coração à esperança e duplicastes minha coragem para suportar as provas deste mundo. Consenti, pois, senhor, vir em minha ajuda para reconhecer uma verdade que me interessa no mais alto grau. Eu sou protestante, e na nossa Igreja não se ora jamais pelos mortos, o evangelho não no-lo ensina. Os Espíritos que evocais, freqüentemente, dissestes, pedem os socorros de vossas preces. É, pois, porque estão ainda sob a influência das idéias adquiridas na Terra, ou é verdade que Deus leva em conta as preces dos vivos para abreviar o sofrimento dos mortos? Esta questão, senhor, é muito importante para mim e para outros de meus correligionários, que contrataram alianças católicas. Para terem respostas satisfatórias, seria necessário, eu o creio, que o Espírito de um protestante esclarecido, tal qual um dos nossos ministros, quisesse se manifestar a vós em companhia de um de vossos eclesiáticos.”

A questão é dupla: 1º A prece é agradável àqueles por quem se ora? 2°- É-lhes útil?

Escutemos, de início, sobre a primeira questão o Reverendo Pai Félix em uma introdução
notável de um pequeno livro intitulado: os Mortos sofredores e abandonados.

“A devoção aos mortos não é somente a expressão de um dogma e a manifestação de uma crença, é um encanto da vida, uma consolo do coração. Que há, com efeito de mais suave ao coração que esse culto piedoso que nos prende à memória e aos sofrimentos dos mortos?

Crer na eficácia da prece e nas boas obras para o alívio daqueles que perdemos, quando os choramos, que essas lágrimas derramadas sobre eles podem ainda ser-lhes de socorro; crer, enfim, que mesmo nesse mundo invisível que habitam nosso amor pode ainda visitá-los por seus benefícios: que doce, que amável crença! E, nessa crença, que consolação para aqueles que viram a morte entrar sob seu teto, e ferir junto de seu coração! Se essa crença e esse culto não existissem, o coração humano, pela voz dos seus mais nobres instintos, diz a todos aqueles que o compreendem que seria necessário inventá-los, não fora senão para colocar a doçura na morte e o encanto até nos seus funerais. Nada, com efeito, não transforma e não transfigura o amor que roga sobre uma tumba ou chora nos funerais, como essa devoção, à lembrança e aos sofrimentos dos mortos. Essa mistura da religião e da dor, da prece e do amor, tem não sei o que de delicado e de enternecedor tudo junto. A tristeza que chora aí se torna um auxiliar da piedade que roga; a piedade, por sua vez, aí se torna para a tristeza o mais delicioso aroma; e a fé, a esperança e a caridade não se encontram nunca melhor para honrar a Deus consolando os homens, e colocar no alívio dos mortos a consolação dos vivos!

“Esse encanto tão doce que encontramos no nosso comércio fraternal com os mortos, quanto se torna mais doce ainda quando chegamos a nos persuadir de que Deus, sem dúvida, não deixa esses defuntos queridos ignorantes completamente do bem que lhes fazemos. Quem não desejou, quando ora por um pai ou um irmão trespassado, que ele estivesse ali para escutar, e quando se consagra por ele, que estivesse ali para ver? Quem não se disse, enxugando suas lágrimas junto ao caixão de um parente ou de um amigo perdido: “Se, pelo menos, ele pudesse me ouvir! Quando meu amor lhe oferece, com lágrimas, a prece e a consagração, se eu estivesse seguro que ele o sabe e que seu amor compreende sempre o meu! Sim, se eu pudesse crer, não somente que o alívio que lhe envio chegue a ele, mas se eu pudesse me persuadir também que Deus se digna delegar um de seus anjos para lhe ensinar, levando-lhe meu benefício, que esse alívio vem de mim: oh! Deus bom para aqueles que choram, que bálsamo em minha ferida! Que consolação na minha dor!”

“A Igreja, é verdade, não nos obriga a crer que os nossos irmãos mortos sabem, com efeito, no Purgatório, o que fazemos por eles na Terra, mas também não o proíbe; ela o insinua, e parece persuadir-nos pelo conjunto de seu culto e de suas cerimônias’, e homens sérios e honrados na Igreja, não temem afirmá-lo. Qualquer que seja, de resto, se os mortos não têm o conhecimento presente e distinto das preces e das boas obras que fazemos por eles, é certo que lhes sentem os efeitos salutares; e essa firme crença não basta a um amor que quer se consolar da dor pelo benefício, e fecundar suas lágrimas pelos sacrifícios?”

O que o P. Félix admite como uma hipótese, a ciência Espírita admite como uma verdade incontestável, porque disso lhe dá a prova patente. Sabemos, com efeito, que o mundo invisível está composto daqueles que deixaram seu envoltório corporal, dito de outro modo, das almas daqueles que viveram na Terra; essas almas, ou esses Espíritos, o que é a mesma coisa, povoam o espaço; e estão por toda parte, aos nossos lados tão bem como nas regiões mais distantes; desembaraçados do pesado e incômodo fardo que os retinha na superfície do solo, não tendo mais que um envoltório etéreo, semi-material, eles se transportam com a rapidez do pensamento. A experiência prova que podem vir ao nosso chamado; mas vêm mais ou menos de bom grado, com mais ou menos prazer; segundo a intenção, isso se concebe; a prece é um pensamento, um laço que nos liga a eles: é um apelo, uma verdadeira evocação; ora, como a prece, que ela seja eficaz ou não, é sempre um pensamento benevolente, não pode, pois, ser senão agradável àqueles que lhes são o objeto. É-lhes útil?

É uma outra questão. Aqueles que contestam a eficácia da prece dizem: Os decretos de Deus são imutáveis, e não pode derrogá-los a pedido do homem. – Isso depende do objeto da prece, porque é bem certo que Deus não pode infringir suas leis para satisfazer a todos os pedidos inconsiderados que lhes são endereçados; consideremo-la somente do ponto de vista do alívio das almas sofredoras. Diremos primeiro que, admitindo que a duração efetiva dos sofrimentos não pode ser abreviada, a comiseração, a simpatia, são um adoçamento para aquele que sofre. Que um prisioneiro seja condenado a vinte anos de prisão, não sofrerá mil vezes mais se estiver só, isolado, abandonado? Mas que uma alma caridosa e compassiva venha visitá-lo, consolá-lo, encorajá-lo, não tivesse o poder de quebrar suas cadeias antes do tempo certo, ela lhe faria parecer menos pesadas, e os anos lhe pareceriam mais curtos. Qual é aquele que, na Terra, não encontrou na compaixão um alívio às suas misérias, uma consolação na expansão da amizade?

Podem as preces abreviarem os sofrimentos? O Espiritismo diz: Sim; e o prova pelo raciocínio e pela experiência: pela experiência, naquilo que são as próprias almas sofredoras que vêm confirmá-lo, e nos pintam a mudança de sua situação; pelo raciocínio, considerando-se seu modo de ação.

As comunicações incessantes que temos com os seres de além-túmulo fazem passar sob os nossos olhos todos os graus do sofrimento e da felicidade. Vemos, pois, seres infelizes, horrivelmente infelizes, e se o Espiritismo, de acordo nisso com um grande número de teólogos, não admite o fogo senão como uma figura, um emblema das maiores dores, em uma palavra, como um fogo moral, é preciso convir que a situação de alguns não vale muito mais que se estivessem no fogo material. O estado feliz, ou infeliz, depois da morte não é, pois, uma qui mera, um verdadeiro fantasma. Mas o Espiritismo nos ensina ainda, que a duração do sofrimento depende, até um certo ponto, da vontade do Espírito, e que ele pode abreviá-lo pelos esforços que faça para melhorar-se. A prece, eu entendo a prece real, a do coração, a que é ditada por uma verdadeira caridade, leva o Espírito ao arrependimento, desenvolve nele bons sentimentos; ela o esclarece, fá-lo compreender a felicidade daqueles que estão acima dele; leva-o a fazer o bem, a se tomar útil, porque os Espíritos podem fazer o bem e o mal; ela tira-o, de alguma forma, do desencorajamento no qual se entorpece; fá-lo entrever a luz. Pelos seus esforços, portanto, pode sair do lamaçal onde está mergulhado; assim é que a mão de socorro que se lhe estende pode abreviar-lhe os sofrimentos.

Nosso assinante nos pergunta se os Espíritos que solicitam prece não estariam ainda sob a influência das idéias terrestres: A isso respondemos que, entre os Espíritos que se comunicam conosco, há os que, quando vivos, professaram todos os cultos, e que todos, católicos, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas, a esta pergunta; Que podemos fazer para que vos seja útil? Respondem: Orai por mim. – Uma prece, segundo o rito que professastes, vos seria mais útil ou mais agradável? – O rito é a forma; a prece do coração não tem rito. – Nossos leitores se lembram, sem dúvida, da evocação de uma viúva de Malabar, inserta no número da Revista de dezembro de 1858. Quando se lhe disse: Vós nos pedis para orar por vós, mas somos cristãos; nossas preces poderiam vos ser agradáveis?

Ela respondeu: Não há senão um Deus para todos os homens.

Os Espíritos sofredores se prendem àqueles que oram por eles, como o ser reconhecido àquele que lhe faz o bem. Essa mesma viúva de Malabar veio várias vezes às nossas reuniões sem ser chamada; aí vinha, dizia, para se instruir; seguia-nos mesmo na rua, como constatamos com a ajuda de um médium vidente. O assassino Lemaire, cuja evocação narramos no número de março de 1858, evocação que, entre parêntese, havia excitado a verve zombeteira de alguns céticos, esse mesmo assassino, infeliz, abandonado, encontrou, num dos nossos leitores, um coração compassivo que dele teve piedade; vem, freqüentemente, visitá-lo, e tratou de se manifestar por todas as espécies de meios, até que essa mesma pessoa, tendo a ocasião de se esclarecer sobre essas manifestações, soube que era Lemaire que queria testemunhar-lhe seu reconhecimento.

Quando teve a oportunidade de exprimir seu pensamento, disse-lhe: Agradeço-vos, alma caridosa! Eu estava só com o remorso da minha vida passada, e tivestes piedade de mim; eu estava abandonado, e pensastes em mim; eu estava no abismo, e me estendestes a mão! Vossas preces foram para mim como um bálsamo consolador; compreendi a enormidade dos meus crimes, e pedi a Deus conceder-me a graça de repará-los por uma nova existência, quando poderia fazer tanto bem quanto mal eu fiz. Obrigado ainda, ó obrigado!

Eis, de resto, sobre os efeitos da prece, a opinião atual de um ilustre ministro protestante, o senhor Adolphe Monod, falecido no mês de abri l de 1856.

“O Cristo disse aos homens: Amai-vos uns aos outros. Esta recomendação encerra a de empregar todos os meios possíveis para testemunhe/ a afeição aos seus semelhantes, sem entrar, para isso, em nenhum detalhe sobre a maneira de atingir esse objetivo. Se é verdade que nada pode desviar o Criador de aplicar a justiça da qual ele é o tipo, a todas as ações do Espírito, não é menos verdadeiro que a prece que lhe endereçais por aquele por quem vos interessais, é para este último um testemunho de lembrança que não pode senão contribuir para lhe aliviar os sofrimentos e consolá-lo; desde que testemunhe o menor arrependimento, e então somente, ele é socorrido, mas não ignora jamais que uma alma simpática se ocupou dele; esse pensamento leva-o ao arrependimento, e deixa-o na doce persuasão de que sua intercessão lhe foi útil. Disso resulta, necessariamente, de sua parte, um sentimento de reconhecimento e de afeição por aquele que lhe deu essa prova de amizade ou de piedade; conseqüentemente, o amor que o Cristo recomenda aos homens não faz senão aumentar entre eles; eles têm, pois, ambos que obedecer à lei de amor e união de todos os seres, lei de Deus, que deve levar à unidade, que é o fim do Espírito.”

– Não tendes nada a acrescentar a essas explicações? – R. Não, elas encerram tudo.

– Eu vos agradeço por consentir em no-las dar. – R. É uma felicidade, para mim, contribuir para a união das almas, união que os bons Espíritos procuram fazer prevalecer sobre todas as questões de dogma que os dividem.

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Resposta ao Senhor Oscar Comettant

Revista Espírita, dezembro de 1859

Senhor,

Consagrastes o folhetim do Siècle do dia 27 de outubro último aos Espíritos e aos seus partidários. Apesar do ridículo que lançastes sobre uma questão muito mais grave do que pensais, apraz-me reconhecer que, atacando o Espiritismo, salvaguardais as conveniências pela urbanidade das formas, e que é impossível dizer às pessoas, com mais polidez, que elas não têm o senso comum; também guardo-me de confundir o vosso espiritual artigo com essas diatribes grosseiras que dão uma tão triste idéia do bom gosto de seus autores, e aos quais todas as pessoas que conhecem as regras da civilidade, partidárias ou não, fazem justiça.

Não tenho por hábito responder à crítica; portanto, teria deixado passar o vosso artigo, como tantos outros, se não fora encarregado pelos Espíritos, primeiro de vos agradecer por querer vos ocupar deles, em seguida para dar-vos um pequeno aviso. Concebei, senhor, que de mim mesmo, eu não mo permitiria; cumpro sua incumbência, eis tudo. – Como! Direis, os Espíritos se ocupam, pois, com o folhetim que escrevi sobre eles? São muito bondosos. -Seguramente, uma vez que estavam ao vosso lado quando escrevíeis. Um deles, que vos quer bem, procurou mesmo impedir-vos de colocar certas reflexões que não se acham à altura da vossa sagacidade, temendo a crítica para vós, não dos Espíritas, com os quais pouco vos importais, mas daqueles que conhecem a importância do vosso julgamento. Sabei bem que eles estão por toda parte, sabem tudo o que se diz e o que se faz e neste momento, em que ledes estas linhas, estão aí, ao vosso lado, observando-vos. Em vão vos esforçaríeis em dizer: Não posso crer na existência desses seres que povoam o espaço e que não são vistos. Credes no ar que não vedes e que, entretanto, vos envolve? Isto é bem diferente; creio no ar, porque, se não o vejo, eu o sinto, eu o ouço ribombar na tempestade e no tubo de minha chaminé; vejo os objetos que ele derruba. – Pois bem! Os Espíritos também se fazem ouvir; também eles fazem mover os corpos pesados, erguem-nos, transportam-nos, quebram-nos. – Apelemos, pois, Senhor Allan Kardec, à vossa razão; como quereis que seres impalpáveis, supondo que existam, o que não admitirei senão quando os veja, tenham esse poder? Como seres imateriais podem agir sobre a matéria? Isso não é racional. – Credes nas existências dessas miríades de animálculos que estão na vossa mão e dos quais a ponta de uma agulha pode cobrir milhares? – Sim, porque se não os vejo com os olhos, o microscópio faz-me vê-los.

– Mas, antes da invenção do microscópio, se alguém vos dissesse que tendes sobre a vossa pele bilhões de insetos que aí pululam; que uma gota d’água límpida encerra toda uma população; que deles absorveis massas com o ar mais puro que respirais, que diríeis? Ao absurdo, teríeis gritado, e se, então, fosseis folhetinista não deixaríeis de escrever um belo artigo sobre os animálculos, o que não impedira que existissem. Hoje o admitis porque o fato é patente; mas antes, declararíeis a coisa impossível. O que há, pois, de irracional em crer que o espaço esteja povoado por seres inteligentes, que, embora invisíveis, não estejam em todos os microscópios? Quanto a mim, confesso que a idéia de seres pequenos, como uma parcela homeopática, e todavia providos de órgãos visuais, sensuais, circulatórios, respiratórios, etc., me parece ainda mais extraordinária. – Convenho com isso, mas ainda uma vez são seres materiais, são alguma coisa, ao passo que os vossos Espíritos o que são?

Nada, seres abstratos, imateriais. – Primeiro, quem vos disse que são imateriais?

A observação, pesai bem, eu vos peço, essa palavra observação não quer dizer sistema; a observação, digo eu, demonstra que essas inteligências ocultas têm um corpo, um envoltório, invisível, é verdade, mas que não é por isso menos real; ora, é por esse intermediário semi material que eles agem sobre a matéria. Não há senão os corpos sólidos que tenham uma força motriz? Ao contrário, não são os corpos rarefeitos que possuem essa força em mais alto grau: o ar, o vapor, todos os gases, a eletricidade?

Por que, pois, a recusais à substância que compõe o envoltório dos Espíritos? – De acordo; mas se essas substâncias são invisíveis e impalpáveis em certos casos, a condensação pode tomá-las visíveis e mesmo sólidas; pode se agarrá-las, encerrá-las, analisá-las, e por aí sua existência é demonstrada de modo irrecusável.

– Ah! Aí chegamos! Negais os Espíritos porque não podeis colocá-los num cornífero, saber se são compostos de oxigênio, de hidrogênio ou nitrogênio. Dizei-me, eu vos peço, se antes das descobertas da química moderna conhecia-se a composição do ar, da água, e as propriedades dessa multidão de corpos invisíveis, dos quais não supúnhamos a existência? O que se teria dito, então, àquele que anunciasse todas as maravilhas que hoje admiramos? Seria tratado de charlatão, de visionário. Supondo que vos caia nas mãos um livro de um sábio daquele tempo, que tivesse negado todas essas coisas, e que, além do mais, procurasse demonstrar-lhes a impossibilidade, diríeis: Eis um sábio bem presunçoso, que se pronunciou muito levianamente tratando sobre o que não sabia; melhor seria para sua reputação que se abstivesse; em uma palavra, não teríeis uma alta opinião de seu julgamento. Pois bem! Veremos em alguns anos o que se pensará daqueles que, hoje, procuram demonstrar que o Espiritismo é uma quimera.

É lamentável, sem dúvida, para certas pessoas, e os apreciadores de coleções, que não se possa colocar os Espíritos dentro de um frasco para observá-los à vontade; mas não credes, entretanto, que eles escapem aos nossos sentidos de um modo absoluto. Se a substância que compõe seu envoltório é invisível em seu estado normal, ela pode também, em certos casos, como o vapor, mas por uma outra causa, sofrer uma espécie de condensação, ou, para ser exato, uma modificação molecular que a torna momentaneamente visível e mesmo tangível; então, podem ser vistos, como nós nos vemos, tocá-los, apalpá-los; eles podem nos agarrar, impressionar sobre nossos membros; somente esse estado não é senão temporário; podem deixá-lo tão prontamente como o tomaram, e isso, não em virtude de uma rarefação mecânica, mas pelo efeito de sua vontade, tendo em vista que são seres inteligentes, e não corpos inertes. Se a existência dos seres inteligentes que povoam o espaço está provada; se têm, como acabamos de ver, uma ação sobre a matéria, o que há de espantoso em que possam se comunicar conosco, e transmitir-nos os seus pensamentos através de meios materiais? – Se a existência desses seres está provada, seja; mas aí está a questão. – O importante, primeiro, é provar sua possibilidade: a experiência fará o resto. Se essa existência não está provada para vós, o está para mim. Eu vos entendo aqui dizer para vós mesmos: Eis um argumento muito pobre.

Convenho que minha opinião pessoal é de um peso muito fraco, mas não estou só; muitos outros, antes de mim, pensaram do mesmo modo, porque nem inventei, nem descobri os Espíritos; e essa crença conta milhões de adeptos que têm tanta ou mais inteligência do que eu; entre aqueles que crêem e aqueles que não crêem, o que decidirá? – O bom senso, direis. – Seja; eu acrescento: O tempo que, cada dia, vem em nossa ajuda. Mas com qual direito aqueles que não crêem se arrogam o privilégio do bom senso quando, sobretudo, aqueles que crêem se recrutam precisa mente, não entre os ignorantes, mas entre as pessoas esclarecidas; quando, todos os dias, o número deles cresce? Eu o julgo pela minha correspondência, pelo número de estrangeiros que vêm me ver, pela extensão do meu jornal, que cumpre seu segundo ano, e conta com assinantes das cinco partes do mundo, nas classes mais elevadas da sociedade, e até nos tronos. Dizei-me, conscientemente, se é a marcha de uma idéia oca, de uma utopia?

Constatando esse fato capital em vosso artigo, dissestes que ele ameaça tomar proporções de um flagelo, e acrescentais: “A espécie humana não tinha bastante, bom Deus! De todas as coisas vãs que perturbam sua razão, sem que uma nova doutrina viesse agora se apossar de nosso pobre cérebro!” Parece que não amais as doutrinas; cada um com seu gosto; todo o mundo não gosta da mesma coisa; somente direi que não sei muito a qual papel intelectual o homem seria reduzido se, desde que está sobre a Terra, não tivesse doutrinas que, fazendo-o refletir, o tirasse do estado passivo da brutalidade. Sem dúvida, há as boas e más, justas e falsas, mas é para discerni-las que Deus lhe deu o julgamento. Esquecestes uma coisa, a definição clara e categórica do que alinhais entre as coisas vãs. Há pessoas que assim qualificam todas as idéias que não partilham; mas tendes muito espírito para crer que está condensada só em vós. Há outros que dão esse nome a toda opinião religiosa, e que consideram a crença em Deus, na alma e na sua imortalidade, nas penas e nas recompensas futuras, no máximo, como úteis para se ocuparem as velhas e meter medo às crianças. Não conheço a vossa opinião a esse respeito; mas do sentido do vosso artigo algumas pessoas poderiam inferir que estais um pouco nessas idéias. Que as partilhais ou não, eu me permitiria dizer-vos, com muitas outras, que aí estaria o verdadeiro flagelo se elas se propagassem. Com o materialismo, com a crença que morremos como os animais, que depois de nós será o nada, o bem não teria nenhuma razão de ser, os laços sociais não têm nenhuma consistência- é a sanção do egoísmo; a lei penal é o único freio que impede o homem de viver às expensas de outrem. Se assim fora, com que direito punir aquele que mata seu semelhante por se apoderar de seu bem? Porque é mal, direis; mas por que é mal?

Ele vos responderá: depois de mim nada mais haverá; tudo estará terminado; nada tenho a temer; quero viver aqui o melhor possível, e para isso eu tomo daqueles que têm; quem me acusa? A vossa lei? A vossa lei terá razão se ela for mais forte, quer dizer, se ela me apanhar; mas se eu for o mais astuto, e se lhe escapo, a razão estará comigo. Qual é, vos pergunto, a sociedade que poderia subsistir com semelhantes princípios? Isso me lembra o fato seguinte: Um senhor que, como se diz vulgarmente, não acreditava nem Deus e nem no diabo, e não o escondia, percebeu que, há algum tempo, era roubado por seu empregado doméstico; um dia surpreendeu-o em flagrante delito. – Como, infeliz! disse-lhe, ousas tomar o que não te pertence? Tu não crês em Deus? – O doméstico se pôs a rir e respondeu:

Por que eu creria, uma vez que vós mesmo não credes? Por que tendes mais do que eu? Se eu fosse rico e vós pobre, quem vos impediria de fazer o que fiz? Fui inábil esta vez, eis tudo, numa outra vez tratarei de fazer melhor. – Esse senhor ficou muito contente que seu doméstico não tomou a crença em Deus por uma coisa vã. É a essa crença, e àquelas que dela decorrem, que o homem deve sua verdadeira segurança social, bem mais que à severidade da lei, porque a lei não pode tudo alcançar; se estivesse enraizada no coração de todos, uns dos outros nada teriam a temer; atacá-la vivamente, seria abandonar-se a todas as paixões, aniquilar todo escrúpulo. Foi o que, recentemente, levou um sacerdote a dizer, consultado sobre sua opinião a respeito do Espiritismo, essas palavras cheias de sentido: O Espiritismo conduz a crer em alguma coisa; ora, gosto mais daqueles que crêem em alguma coisa do que daqueles que não crêem em nada, porque as pessoas que não crêem em nada não crêem mesmo na necessidade do bem.

O Espiritismo, com efeito, é a destruição do materialismo; é prova patente, irrecusável, do que certas pessoas chamam de coisas vãs, a saber Deus, a alma, a vida futura feliz ou infeliz.

Esse flagelo, pois assim o chamais, tem outras conseqüências práticas. Se soubesses, como eu, quantas vezes fez voltar a calma nos corações ulcerados pelos desgostos; que doce consolação derrama sobre as misérias da vida; quanto acalmou de ódios, impediu de suicídios, deles zombaríeis menos. Suponde que um de vossos amigos venha vos dizer Estava desesperado; ia estourar os miolos; mas hoje que, graças ao Espiritismo, sei o que isso custa, renuncio; que um outro indivíduo vos diga: Tinha inveja de vosso mérito, de vossa superioridade; vossos sucessos me impediam de dormir; queria vingar-me, vos oprimir, vos arruinar, matar-vos mesmo, vos confesso que correstes grandes perigos; mas hoje que sou Espírita, compreendo o quanto esses sentimentos são ignóbeis, eu os abjuro; e, em lugar de vos fazer mal, eu venho para vos prestar serviço; dir-vos-ia provavelmente: Pois bem! Ainda há algo de bom nessa loucura.

O que vos digo, senhor, não é para vos convencer nem para vos conduzir às minhas idéias; tendes convicções que vos satisfazem, que para vós resolvem todas as questões do futuro: é muito natural que vós as guardeis; mas me apresentais, aos vossos leitores, como o propagador de um flagelo, e devo mostrar-lhes que seria desejável que todos os flagelos não acabassem mais mal, a começar do materialismo, e conto com a vossa imparcialidade para transmitir-lhes a minha resposta.

Mas, direis, não sou materialista’ pode-se muito bem não ser dessa opinião sem crer nas manifestações dos Espíritos. – Sou da vossa opinião; então, ou se é Espiritualista, se não Espírita. Se me enganei sobre a vossa maneira de ver, é que tomei ao pé da letra a vossa profissão de fé, colocada no fim do vosso artigo. Dissestes: creio em duas coisas, no amor, no homem, em tudo que é maravilhoso, fosse esse maravilhoso absurdo, e no editor que me vendeu o fragmento de sonata ditado pelo Espírito de Mozart, por dois francos, preço liquido.

Se aí se limita toda a vossa crença, ela é bem, isso me parece, a prima germânica do ceticismo. Mas aposto que credes em alguma coisa a mais que no senhor Ledoyen, que vos vendeu por dois francos um fragmento de sonata: é ao produto de vossos artigos, porque presumo, e talvez me engane, que não lhes dais mais por amor a Deus que o senhor Ledoyen não dá a seus livros. Cada um no seu ofício: o senhor Ledoyen vende seus livros, o literato vende sua prosa e seus versos. Nosso pobre mundo não está ainda bastante avançado para que não se possa morar, alimentar-se e vestir-se por nada. Talvez, um dia, os proprietários, os alfaiates, os açougueiros e os padeiros estarão bastante esclarecidos para compreender que é ignóbil a eles pedir o dinheiro: então os livreiros e os literatos serão arrastados pelo exemplo.

– Com tudo isso, não me dissestes o conselho que dão os Espíritos. – Ei-lo: Que é prudente não se pronunciar, muito levianamente, sobre as coisas que não se conhece, e imitar a sábia reserva do prudente Arago, que dizia, a propósito do magnetismo animal: “Eu não poderia aprovar o mistério com o qual se envolvem os sábios sérios que hoje vão assistir às experiências de sonambulismo. A dúvida é uma prova de modéstia, e raramente prejudicou o progresso das ciências. Não se poderia dizer outro tanto da incredulidade. Aquele que, fora das matemáticas puras, pronuncia a palavra IMPOSSÍVEL, não é prudente. A reserva é, sobretudo, um dever quando se trata da organização animal. (Notícia sobre Bailly.)

Aceitai, etc. Allan Kardec.

 

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Aviso

Revista Espírita, novembro de 1859

A grande quantidade de matéria não nos tendo permitido inserir, neste número, o Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, dá-to-emos com o do mês de dezembro, num Suplemento, assim como várias outras comunicações que a falta de espaço nos fez adiar.

ALLAN KARDEC.

 

aviso

Reclamação do senhor Mathieu a propósito da palavra milagre

Revista Espírita, novembro de 1859

O senhor Mathieu, que citamos em nosso artigo do mês de outubro, sobre os milagres, nos dirige a reclamação seguinte, à qual nos empenhamos em fazer direito.

“Senhor, “Se não tenho a vantagem de estar de acordo convosco em todos os pontos, o estou pelo menos sobre aquele que vos deu oportunidade de falar de mim, no último número do vosso jornal. Assim, eu aprovo perfeitamente vossa observação relativamente à palavra milagre. Se dela me servi em meu opúsculo, foi tendo o cuidado de dizer ao mesmo tempo (página 4):

“Estando convencionado de que essa palavra milagre exprime um fato que se produziu fora das leis conhecidas da Natureza; um fato que escapa a toda explicação humana, a toda interpretação científica. “Eu creio indicar suficientemente, por aí, que rio ou a esta palavra milagre senão um valor relativo e de convenção; parece, uma vez que tomastes o trabalho de me combater, que me enganei.

“Conto, em todos os casos, com a vossa imparcialidade, Senhor, para que estas linhas, que tenho a honra de vos dirigir, encontrem lugar em vosso próximo número. Não estou descontente que vossos leitores saibam que não quis dar ao nome em questão o sentido que reprovais, e que houve imperícia de minha parte, ou mal-entendido da vossa, talvez um pouco de um e um pouco de outro.

Aceitai, etc. “MATHIEU.”

Estávamos perfeitamente convencidos assim como dissemos em nosso artigo, do sentido no qual o senhor Mathieu empregou a palavra milagre; também nossa crítica não se dirigia, de nenhum modo, sobre a sua opinião, mas sobre o emprego da palavra, mesmo na sua acepção mais racional. Há tantas pessoas que não vêem senão a superfície das coisas, sem se darem ao trabalho de irem ao fundo, o que não as impede de julgarem como se as conhecessem, que um tal título dado a um fato Espírita poderia ser tomado ao pé da letra, de boa fé por alguns, por malevolência para a maioria. Nossa observação, a esse respeito, é tanto mais fundada, que nos lembramos haver lido em alguma parte de um jornal, cujo nome nos escapa, um artigo onde aqueles que gozam da faculdade de provocarem os fenômenos Espíritas eram qualificados, por zombaria, de fazedores de milagres, e isso a propósito de um adepto muito zeloso, que ele mesmo se empenhou em produzi-los. Não está aqui o caso de lembrar que: nada é mais perigoso do que um amigo imprudente. Nossos adversários são bastante ardentes em nos emprestar ridículos, sem que lhes forneçamos, para isso, o pretexto.

milagre

Os Convulsionários de Saint-Médard

Revista Espírita, novembro de 1859

(Sociedade, 15 de julho de 1859.)

Notícia. François Paris, famoso diácono de Paris, morto em 1727, com a idade de 37 anos, era filho mais velho de um conselheiro do parlamento; deveria, naturalmente, suceder ao seu cargo, mas queria muito abraçar o estado eclesiástico. Depois da morte de seu pai, abandonou os bens para o seu irmão. Durante algum tempo, fez catecismo na paróquia de Saint-Côme, se encarregou da conduta dos clérigos e lhes fez conferências. O cardeal de Noailles, a cuja causa estava ligado, quis nomeá-lo cura dessa paróquia, mas um obstáculo imprevisto a isso se opôs. O abade Paris se consagrou então ao retiro. Depois de haver tentado várias solidões, confinou-se numa casa do bairro Saint-Marcel; ali se entregou, sem reservas, à prece , às práticas mais rigorosa da penitência, e ao trabalho manual: fazia meias por ofício para os pobres, que considerava seus irmãos; morreu nesse asilo. O abade Paris aderira ao apelo da bula Unigenitus, interposta pelos quatro bispos; renovara seu apelo em 1720. Assim, deveu ser pintado diversamente pelos partidos opostos. Antes de fazer meias, havia produzido livros bastante medíocres. Tem-se dele explicações sobre a epístola de São Paulo aos Romanos, sobre a dos Gaiatas, uma análise sobre a epístola aos Hebreus, que poucas pessoas lêem. Seu irmão, mandando erigir-lhe um túmulo no pequeno cemitério de Saint-Médard, os pobres que o piedoso diácono havia socorrido, alguns ricos que edificara, várias mulheres que havia instruído, ali iam fazer suas preces; houve curas que pareceram maravilhosas, convulsões que foram consideradas perigosas e ridículas. A corte foi, enfim, obrigada a fazer cessar esse espetáculo, ordenando o fechamento do cemitério, em 27 de janeiro de 1752. Então os mesmos entusiastas foram fazer suas convulsões nas casas particulares. O túmulo do diácono Paris foi, no espírito de muita gente, o túmulo do jansenismo; mas algumas outras pessoas aí acreditaram ver o dedo de Deus, e não foram senão mais ligadas a um partido que produzia tais maravilhas. Há diferentes práticas na vida desse diácono, das quais talvez jamais se falasse, se não se quisesse dele fazer um taumaturgo.

Entre os fenômenos estranhos que os Convulsionários de Saint-Médard apresentavam, citam se; A faculdade de resistir a golpes tão terríveis, que parecia que seus corpos deveriam ser esmagados;

A de falar línguas ignoradas ou esquecidas por eles; Um deslocamento extraordinário da inteligência; os mais ignorantes entre eles, improvisavam discursos sobre as graças, os males da Igreja, o fim do mundo, etc.

A faculdade de ler no pensamento;

Colocados em relação com os doentes, sentiam as dores nos mesmos lugares que aqueles que os consultavam; nada era mais freqüente que ouvi-los predizer, eles mesmos, os diferentes fenômenos anormais que deveriam sobrevir no curso de suas doenças.

A insensibilidade física, produzida pelo êxtase, deu lugar a cenas atrozes. A loucura chegou até a crucificar verdadeiramente infelizes vítimas, fazendo-as sofrer, em todos os seus detalhes, a Paixão do Cristo, e essas vítimas, o fato é atestado pelos testemunhos mais autênticos, solicitavam as terríveis torturas designadas entre os Convulsionários pelo nome de grande socorro.

A cura das doenças se operava seja pelo simples toque da pedra tumular, seja pela poeira que se encontrava ao redor, e que se tomava em certas bebidas, ou que se aplicava sobre as úlceras. Essas curas, que foram muito numerosas, são atestadas por mil testemunhas, e várias dessas testemunhas, homens de ciência, incrédulos no fundo, registraram o fato sem saberem a que atribuí-los.

(PAULINE ROLAND.)

1. Evocação do diácono Paris. – R. Estou às ordens.

2. Qual é o vosso estado atual como Espírito? – R. Errante e feliz.

3. Tivestes outras existências corporais depois daquela que conhecemos? – R. Não; estou constantemente ocupado em fazer o bem aos homens.

4. Qual foi a causa dos fenômenos estranhos que se passaram entre os visitantes de vosso túmulo? – R. Intriga e magnetismo.

Nota. Entre as faculdades das quais eram dotados os Convulsionários, encontram-se sem dificuldade as quais o sonambulismo e o magnetismo oferecem numerosos exemplos; tais são entre outras: a insensibilidade física, o conhecimento do pensamento, a transmissão simpática das dores, etc. Não se pode, pois, duvidar que esses crisíacos não estivessem numa espécie de sonambulismo desperto, provocado pela influência que exerciam uns sobre os outros, com o seu desconhecimento. Eram ao mesmo tempo magnetizadores e magnetizados.

5. Por qual causa toda uma população foi dotada, subitamente, dessas faculdades estranhas?

– R. Elas se comunicam muito facilmente em certos casos, e não sois bastante estranhos às faculdades dos Espíritos para não compreenderem que nisso tomaram uma grande parte, por simpatia por aqueles que os provocavam.

7. E tomastes, como Espírito, um parte direta? – R. Não a menor.

8. Outros Espíritos nisso concorreram? – R. Muitos.

9. De que natureza eram em geral? – R. Pouco elevados.

10. Por que essas curas e esses fenômenos cessaram quando a autoridade a eles se opuseram, fazendo fechar o cemitério? A autoridade tinha, pois, mais força que os Espíritos?  – R. Deus quis fazer cessar a coisa, porque degenerou em abuso e em escândalo; era-lhe necessário um meio, e empregou a autoridade dos homens.

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Advertências de além-túmulo. O oficial da Criméia

Revista Espírita, novembro de 1859

O Independência belga, que não nos acusará de um excesso de benevolência a respeito das crenças Espíritas, narrou o fato seguinte, que vários outros jornais repetiram, e que reproduzimos, por nossa vez, com todas as reservas, não tendo ocasião para constatar-lhe a realidade.

“Seja porque nossa imaginação inventa e habita um mundo de almas ao lado e acima de nós, seja porque o mundo no qual estamos, vivemos e nos movemos, existe realmente, é fora de dúvida, para mim pelo menos, que inexplicáveis acidentes se produzem, os quais provocam a ciência e desafiam a razão.

“Na guerra da Criméia, durante uma dessas noites tristes e lentas, que se prestam maravilhosamente à melancolia, ao pesadelo, a todas as nostalgias do céu e da Terra, um jovem oficial, de repente, se levantou, saiu de sua tenda, foi procurar um dos seus camaradas e lhe disse:

– Acabo de receber a visita de minha prima, da senhorita T…

– Tu sonhas.

– Não. Ela entrou, pálida, sorridente e roçando apenas o solo muito duro, muito grosseiro para seus pés delicados. Olhou-me, depois que sua voz doce bruscamente me despertou, e ela me disse: “Tu tardas muito! Preste atenção! Algumas vezes se morre da guerra sem ir à guerra!” Quis falar-lhe, erguer-me, correr para ela; ela recuou! E colocando um dedo sobre os lábios: “Silêncio, disse-me, tenha coragem e paciência, nós nos reveremos.” Ah! meu amigo, ela estava muito pálida, e estou certo de que está doente, que me chama.

– Tu dormes todo desperto, és louco, replicou o amigo.

– É possível, mas, então, o que é esse movimento do meu coração que a evoca e que me faz vê-la?

“Os dois jovens conversaram, e, pela madrugada, o amigo reconduziu à sua tenda o oficial visionário, quando este estremeceu de repente.

– Ei-la, meu amigo; ei-la, disse, ela está diante de minha tenda.. Ela me faz sinal de que me falta fé e confiança.

“O amigo, evidentemente, não via nada. Fez o melhor para consolar seu camarada. O dia apareceu, e com o dia as ocupações bastante sérias para que não fosse mais questão os fantasmas da noite. Mas, por uma precaução muito razoável, no dia seguinte, uma carta partiu para a Franca, pedindo, instantaneamente, novidades da senhorita T… Alguns dias depois, respondia-se que a senhorita T… estava bastante e seriamente doente, e que se o jovem oficial pudesse obter uma licença, pensava-se que a sua visão teria o melhor efeito.

“Pedir uma licença no momento das mais rudes fadigas, talvez à véspera de um ataque decisivo, e fazer valer medos sentimentais, não era preciso sonhar muito com isso. Todavia, creio lembrar-me que a licença foi pedida e obtida, e que o jovem oficial ia partir para a França, quando teve ainda uma visão. Aquela era assustadora. A senhorita de T… veio, pálida e muda, insinuar-se uma noite em sua tenda e lhe mostrou o longo vestido branco que trajava. O jovem oficial não duvidou, um só instante, que sua noiva não estivesse morta; ele estendeu a mão, tomou uma de suas pistolas e fez saltar os miolos.

“Com efeito, na mesma noite, à mesma hora, a senhorita de T… dera o último suspiro.

“Essa visão era o resultado do magnetismo? Disso nada sei. Era da loucura? Eu o quero muito. Mas era alguma coisa que escapa aos gracejos dos ignorantes, e aos escárnios, mais malsãos ainda, dos sábios.

“Quanto à autenticidade desse fato, eu a garanto. Interrogai os oficiais que passaram esse longo inverno na Criméia, e não serão poucos os que vos contarão fenômenos de pressentimento, de visão, de miragem da pátria e de parentes, análogos ao que acabo de dizer-vos.

“Que é necessário disso concluir? Nada A não ser que termine minha correspondência de um modo lúgubre, e que saiba talvez o meio de dormir sem saber magnetizar.

“THÉCEL.”

Assim como dissemos no começo, não pudemos constatar a autenticidade do fato; mas o que podemos garantir é a sua possibilidade. Os exemplos averiguados, antigos e recentes, de advertências de além-túmulo, são tão numerosos, que este nada tem de mais extraordinário que aqueles dos quais muitas pessoas, dignas de fé, foram testemunhas. Puderam parecer sobrenaturais em outros tempos; mas hoje que sua causa é conhecida, e psicologicamente explicada, graças à teoria Espírita, nada têm que escape às leis da Natureza Não lhe acrescentaremos senão uma só nota, é que, se esse oficial conhecesse o Espiritismo, saberia que o meio de reencontrar sua noiva não era o de se mata, porque essa ação pode dela distanciá-lo por um tempo bem mais longo do que aquele que tivesse passado na Terra. O Espiritismo ter-lhe-ia dito, por outro lado, que uma morte gloriosa, no campo de batalha, ser-lhe-ia mais proveitosa do que a que se deu voluntariamente, por um ato de fraqueza.

Eis um outro fato de advertência de além-túmulo, reportado pela Gazefte d’Arad (Hungria), do mês de novembro de 1858.

“Dois irmãos israelitas, de Gyek (Hungria), foram a Grosswardien, conduzirem, num pensionato, suas duas filhas com a idade de 14 anos. Durante a noite que seguiu à sua partida, uma outra filha de um deles, com a idade de 10 anos, e que ficara na casa, despertou em sobressalto, e contou, chorando, à sua mãe, que viu em sonho seu pai e seu tio, cercados de vários camponeses, que queriam fazer-lhes mal.

“De início, sua mãe não teve em nenhuma conta as suas palavras; mas vendo que não conseguiu acalmar a sua criança, levou-a à casa do chefe do lugar; esta contou-lhe de novo seu sonho, acrescentando que havia reconhecido dois de seus vizinhos entre os camponeses, e que o acontecimento se passara na orla de uma floresta.

“O chefe do lugar enviou imediatamente ao domicílio dos dois camponeses que, com efeito, estavam ausentes; depois, a fim de se assegurar da verdade, expediu na direção indicada outros emissários, que encontraram cinco cadáveres nos confins de um bosque. Eram os dois pais, com as duas filhas e o cocheiro que os conduzira; os cadáveres foram lançados num braseiro para torná-los irreconhecíveis. Logo a polícia começou as investigações; ela deteve os dois camponeses designados no momento em que procuravam trocar várias cédulas sujas de sangue. Uma vez na prisão, confessaram seu crime, dizendo que reconheciam o dedo de Deus na pronta descoberta do crime.

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