O Espiritismo em 1860

Revista Espírita, janeiro de 1860

A Revista Espírita começa seu terceiro ano, e estamos felizes ao dizer que ela o faz sob os a mais favoráveis auspícios. Aproveitamos com zelo esta ocasião para testemunhar aos nossos leitores toda a nossa gratidão pelas provas de simpatia que deles recebemos diariamente. Só isto seria um encorajamento para nós, se não encontrássemos, na própria natureza e objetivo de nossos trabalhos, uma grande compensação moral pelas fadigas que lhes são conseqüência. A multiplicidade desses trabalhos, aos quais nos consagramos inteiramente, é tal que nos é materialmente impossível responder a todas as cartas de felicitações que nos chegam. Isso nos força, pois, endereçar aos seus autores um agradecimento coletivo, que rogamos aceitarem.

Estas cartas, e as numerosas pessoas que nos honram vindo conferenciar conosco sobre essas graves questões, nos convencem, cada vez mais, dos progressos do Espiritismo verdadeiro, e entendemos por isso o Espiritismo cumprido em todas as suas conseqüências morais. Sem nos iludirmos sobre a importância dos nossos trabalhos, o pensamento de havermos para ele contribuído, lançando alguns grãos na balança, é, para nós, uma doce satisfação, porque esses alguns grãos sempre servirão para fazer refletir.

A prosperidade crescente de nossa coletânea é um indício do carinho com que é acolhida; não temos, pois, senão que prosseguir nossa obra na mesma linha, uma vez que recebe a consagração do tempo, sem nos afastarmos da moderação, da prudência e da conveniência que nos guiaram sempre. Deixando aos nossos contraditores o triste privilégio das injúrias e das personalidades, não os seguiremos, não mais, no terreno de uma controvérsia sem objetivo; dizemos sem objetivo porque ela não poderia trazer a eles a convicção, e é perder seu tempo discutir com pessoas que não conhecem a primeira palavra daquilo que falam. Não temos senão uma coisa a dizer: Estudai primeiro e nos veremos em seguida; nós temos outra coisa a fazer senão falar àqueles que não querem ouvir. Que importa, aliás, em definitivo, a opinião contrária deste ou daquele? Essa opinião é de uma importância tão grande que possa entravar a marcha natural das coisas? As maiores descobertas encontraram os mais rudes adversários, o que não lhes fez soçobrarem. Deixamos, pois, à incredulidade murmurar ao nosso redor, e nada nos fará desviar do caminho que nos está traçado, pela própria gravidade do assunto que nos ocupa.

Dissemos que as idéias Espíritas progridem. Há algum tempo, com efeito, elas ganharam um terreno imenso; dir-se-ia que elas estão no ar, e certamente não é ao bombo da imprensa periódica, pequena ou grande, que elas são devedoras. Se elas progridem para com e contra tudo, e não obstante a má vontade que se encontram em certas regiões, é porque elas possuem bastante de vitalidade para se bastarem a si mesmas. Aquele que se dá ao trabalho de aprofundar esta questão do Espiritismo, nele encontra uma satisfação moral tão grande. A solução de tantos problemas dos quais em vão pedira a explicação às teorias vulgares; o futuro se abre diante dele de um modo tão claro, tão preciso, tão LÓGICO, que se diz, com efeito, que é impossível que as coisas não se passem assim, e que admira não se as tenham compreendido mais cedo; que um sentimento íntimo lhe dizia dever estar aí; a ciência Espírita, desenvolvida, não faz outra coisa senão formular, tirar do nevoeiro, as idéias já existentes no seu foro interior; desde então o futuro tem, para ele, um objetivo claro, preciso, limpidamente definido; não caminha mais no vago, vê seu caminho; não é mais esse futuro de felicidade ou de infelicidade que a razão não podia compreender, e que por isso mesmo ele repelia; é um futuro racional, conseqüência das próprias leis da Natureza, podendo suportar o exame mais severo; por isso ele é feliz, e como aliviado de um peso imenso: o da incerteza, porque a incerteza é um tormento. O homem, apesar de si, sonda as profundezas do futuro, e não pode impedir de vê-lo eterno; compara-o com a brevidade e a fragilidade da existência terrestre. Se o futuro não lhe oferece nenhuma certeza, ele se atordoa, se curva sobre o presente, e para torná-lo mais suportável, nada lhe importa; será em vão que sua consciência lhe fale do bem e do mal, ele se diz: O bem é o que me torna feliz. Que motivo teria, com efeito, em vero bem alhures? Por que suportar privações? Ele quer ser feliz, e para ser feliz, quer gozar; gozar daquilo que os outros possuem; quer o ouro, muito ouro; ele o tem como sua vida, porque o ouro é o veículo de lodosos gozos materiais; que lhe importa o bem-estar de seu semelhante! O seu antes de tudo; ele quer satisfazer-se no presente, não sabendo se o poderá mais tarde, num futuro em que não crê; torna-se, pois, ávido, ciumento, egoísta, e, com todos esses gozos, ele não é feliz, porque o presente lhe parece muito curto.

Com a certeza do futuro, tudo muda de aspecto para ele; o presente não é senão efêmero,
ele o vê escoar sem pesar; está menos ávido dos gozos terrestres, porque estes não lhe dão senão uma sensação passageira, fugidia, que deixa o vazio no seu coração; aspira a uma felicidade mais durável e, conseqüentemente, mais real; e onde poderá encontrá-la, se isso não estiver no futuro? O Espiritismo, mostrando-lhe, provando-lhe esse futuro, livra-o do suplício da incerteza, eis porque ele se torna feliz; ora, aquilo que traz felicidade, encontra sempre partidários.

Os adversários do Espiritismo atribuem sua rápida propagação a uma febre supersticiosa que se apodera da Humanidade, ao amor ao maravilhoso; mas é necessário, antes de tudo, ser lógico; aceitaremos seu raciocínio, se se pode chamar a isso de raciocínio, quando claramente explicarem porque essa febre atinge precisamente as classes esclarecidas da sociedade, antes que as classes ignorantes. Quanto a nós, dizemos que é porque o Espiritismo apela ao raciocínio e não a uma crença cega, que as classes esclarecidas examinam, refletem e compreendem; ora, as idéias supersticiosas não suportam o exame.

De resto, todos vós que combateis o Espiritismo, o compreendeis? Vós o estudastes, escrustaste-o em seus detalhes, pesando maduramente todas as suas conseqüências?

Não, mil vezes não. Falais de uma coisa que não conheceis; todas as vossas críticas, não falo das tolas, deselegantes e grosseiras diatribes, desprovidas de todo raciocínio e que não têm nenhum valor, falo daquelas que têm pelo menos a aparência do sério; todas as vossas críticas, digo eu, acusam a mais completa ignorância da coisa.

Para criticar é necessário opor um raciocínio a um raciocínio, uma prova a uma prova; isso é possível sem conhecimento profundo do assunto do qual se trata? Que pensaríeis daquele que pretendesse criticar um quadro sem possuir, ao menos em teoria, as regras do desenho e da pintura; discutir o mérito de uma ópera sem saber a música? Sabeis qual é a conseqüência de uma crítica ignorante? É ser ridículo e acusar uma falta de julgamento.

Quanto mais a posição crítica é elevada, mais estiver em evidência, tanto mais seu interesse lhe manda circunspecção, para não se expor a receber desmentidos, sempre fáceis a dar a quem fale daquilo que não conheça. É por isso que os ataques contra o Espiritismo têm tão pouca importância, e favorecem seu desenvolvimento em lugar de detê-lo. Esses ataques são da propaganda; provocam o exame, e o exame não pode senão nos ser favorável, porque nos dirigimos à razão. Não há um dos artigos publicados contra esta doutrina que houvesse não trazido um aumento de assinantes e que não tenha feito vender obras. O do senhor Oscar Comettant (ver o Siècle do dia 23 de outubro último e nossa resposta na Revista do mês de dezembro de 1859) fez vender em alguns dias, ao senhor Ledoyen, mais de cinqüenta exemplares da famosa sonata de Mozart (que se vende a 2 francos, preço líquido, segundo a importante e espiritual nota do senhor Comettant). Os artigo do Univers de 13 de abril e 28 de maio de 1859 (ver nossa resposta nos nu meros da Revista de maio e de julho de 1859) fizeram esgotar prontamente o que restava da primeira edição de O Livro dos Espíritos, e assim de outros. Mas voltemos às coisas menos materiais. Enquanto não opuserem ao Espiritismo senão argumentos dessa natureza, ele nada terá a temer.

Repetimos que a fonte principal do progresso das idéias Espíritas está na satisfação que ela proporciona a todos aqueles que as aprofundam, e que nelas vêm outra coisa senão um fútil passatempo; ora, como se quer ser feliz antes de tudo, não é de admirar que se prenda a uma idéia que torne feliz. Dissemos em alguma parte que, no caso do Espiritismo, o período de curiosidade passou, e que o do raciocínio e o da filosofia lhe sucederam. A curiosidade não tem senão um tempo: uma vez satisfeita, se lhe muda o objeto para passara um outro; e não ocorre o mesmo com aquele que se dirige ao pensamento sério e ao julgamento. O Espiritismo tem sobretudo progredido depois que foi melhor compreendido em sua essência íntima, depois que se viu a sua importância, porque ele toca a corda mais sensível do homem: a da sua felicidade, mesmo neste mundo; aí está a causa de sua propagação, o segredo da força que o fará triunfar. Vós todos que o atacais, quereis, pois, um meio certo de combatê-lo com sucesso? Vou vo-lo indicar. Substituí-o por uma coisa melhor; encontrai uma solução MAIS LÓGICA para todas as questões que ele resolve; dai ao homem uma OUTRA CERTEZA que o torne mais feliz, e compreendei bem a importância dessa palavra certeza, porque o homem não aceita como certo o que não lhe pareça lógico; não vos contenteis em não dizer que isso não é, o que é muito fácil; provai, não por u ma negação, mas por fatos, que isso não é, jamais foi e NÃO PODE SER; provai, enfim, que as conseqüências do Espiritismo não são as de tornar os homens melhores pela prática da mais pura moral evangélica, moral que se louva muito, mas que se pratica tão pouco. Quando tiverdes feito isso, serei o primeiro a me inclinar diante de vós. Até lá, permiti-me considerar vossas doutrinas, que são a negação de todo futuro, como a fonte do egoísmo, verme roedor da sociedade, e, por conseqüência, como um verdadeiro flagelo. Sim, o Espiritismo é forte, mais forte que vós, porque se apoia sobre as próprias bases da religião: Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras baseadas no bem e no mal que se fez, vós vos apoiais sobre a incredulidade; ele convida os homens à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade; vós, vós lhes ofereceis o NADA por perspectiva e o EGOÍSMO por consolação; ele explica tudo, vós não explicais nada; ele prova pelos fatos, e vós não provais nada; como quereis que se oscile entre as duas doutrinas?

Em resumo, constatamos, e cada um o vê e o sente como nós, que o Espiritismo deu um passo imenso durante o ano que acaba de se escoar, e esse passo é a garantia daquilo que não pode deixar de fazer durante o ano que começa; não somente o número de seus partidários está consideravelmente acrescido, mas operou uma mudança notável na opinião geral, mesmo entre os indiferentes; diz-se que no fundo de tudo isso poderia bem haver alguma coisa; que não é necessário apressar-se em julgar; aqueles que, a esse título, alteavam as espáduas, começam a temer o ridículo por si mesmos, ligando seu nome a um julgamento precipitado, que pode receber um desmentido; preferem pois calarem-se e esperarem. Sem dúvida, haverá por muito tempo ainda, pessoas que, nada tendo a perder na opinião da posteridade, procurarão denegri-lo, uns por caráter ou por estado, outros por cálculo; mas se familiarizam com a idéia de irem a Charenton desde que se veja em tão boa companhia , e esse mau prazer torna-se, como tantos outros, um lugar comum, o qual não abala mais de modo nenhum, porque no fundo desses ataques vê-se um vazio absoluto de raciocínio. A arma do ridículo, essa arma que se diz tão terrível, se enfraquece, evidentemente, e cai das mãos daqueles mesmos que a sustentavam; perdeu, pois, ela seu poder? Não, mas com a condição de não dar mais seus golpes em falso. O ridículo não prejudica senão aquele que é ridículo em si e de sério não tenha senão a aparência, porque ele fustiga o hipócrita e arranca sua máscara; mas aquele que é verdadeiramente sério não pode dele receber senão golpes passageiros e sai sempre triunfante da luta. Vede se uma única das grandes idéias que foram achincalhadas em sua origem pela turba ignorante e ciumenta caiu para não mais se levantar! Ora, o Espiritismo é uma das maiores idéias, porque ele toca a questão mais vital, a da felicidade do homem, e não se joga impunemente com semelhante questão; ele é forte, porque tem suas raízes nas próprias leis da Natureza, e responde aos seus inimigos fazendo desde seu início a volta ao mundo. Ainda há alguns anos e seus detratores, impossibilitados de combatê-los pelo raciocínio, encontrar-se-ão de tal modo transbordados pela opinião, de tal modo isolados, que será forçoso para eles ou se calarem, ou abrirem os olhos para a luz.

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Aforismos Espíritas e pensamentos destacados

 

Revista Espírita, dezembro de 1859

Os bons Espíritos aprovam o que eles acham bem, mas não dão elogios exagerados. Os elogios excessivos, como tudo o que denota a adulação, são sinais de inferioridade da parte dos Espíritos.

Os bons Espíritos não lisonjeiam os preconceitos de nenhuma natureza, nem políticos, nem religiosos; podem não feri-los bruscamente, porque sabem que isto seria aumentar a resistência; mas há uma grande diferença entre estes comedimentos, que se podem chamar de precauções oratórias, e a aprovação absoluta dada às idéias freqüentemente mais falsas, das quais se servem os Espíritos obsessores para captarem a confiança daqueles que querem subjugar, prendendo-os pela sua fraqueza.

Há pessoas que têm uma mania singular; acham uma idéia inteiramente elaborada por uma outra; ela lhes parece boa e sobretudo aproveitável; se apropriam, dão como vinda deles, e acabam por se iludir ao ponto de se crerem seus autores, e de declararem que ela lhes foi roubada.

Um homem viu, um dia, fazer uma experiência de eletricidade, e tentou reproduzi-la, mas não tendo os conhecimentos requeridos, nem os instrumentos necessários, fracassou; então, sem ir mais longe, e sem procurar se a causa de seu insucesso não podia vir dele mesmo, declarou que a eletricidade não existia, e que iria escrever para o demonstrar.

Que pensaríeis da lógica daquele que assim raciocinasse? Não parece um cego que, não podendo ver, se poria a escrever contra a luz e a faculdade da visão? É, portanto, o raciocínio que entendemos fazer a propósito dos Espíritos por um homem que passa por espirituoso; do espírito seja, do julgamento é uma outra coisa. Ele procura escrever como médium, e do fato de que não pode a isto chegar, conclui que a mediunidade não existe; ora, segundo ele, se a mediunidade é uma faculdade ilusória, os Espíritos não podem existir senão nos cérebros fendidos. Que sagacidade!

ALLAN KARDEC.

nota – Com o número do mês de janeiro de 1860, a Revista Espírita começará seu terceiro
ano.

AFORISMOS

Os convulsionários de Saint- Médard

Revista Espírita, dezembro de 1859

(Continuação – Ver edição de novembro)

1. (A São Vicente de Paulo). Na última sessão evocamos o diácono Paris, que consentiu- vir; desejávamos ter a vossa apreciação pessoal sobre ele, como Espírito. – R. É um Espírito cheio de boas intenções, mas mais elevado em moral que de outro modo.

2. É verdadeiramente estranho, como ele o disse, a aquilo que se fazia junto de seu túmulo? – R. Completamente.

3. Consentis em nos dizer como considerais o que se passou entre os Convulsionários; isso era um bem ou um mal? – R. Era um mal antes que um bem; e fácil de se dar conta disso pela impressão geral que esses fatos produziram sobre os contemporâneos esclarecidos e sobre seus sucessores.

4. A esta pergunta dirigida a Paris, a saber “Se a autoridade tivera mais poder que os Espíritos, uma vez que ela pôs termo a esses prodígios,” sua resposta não nos pareceu satisfatória; que pensais disto? – R. Ele deu uma resposta mais ou menos verdadeira; esses fatos sendo produzidos por Espíritos poucos elevados, a autoridade colocou-lhes um fim, interditando aos seus promotores a continuação de suas espécies de saturnais.

5. Entre os Convulsionários havia os que se submetiam a torturas atrozes; qual era o resultado disto depois da morte? – R. Quase nulo; não havia nenhum mérito em atos sem resultado útil.

6. Aqueles que sofriam essas torturas pareciam insensíveis à dor; havia neles simples resignação, ou insensibilidade real? – R. Insensibilidade completa

7. Qual era a causa desta insensibilidade? – R. Efeito magnético.

8. É que a superexcitação moral, chegada a um certo grau, podia aniquilar neles a sensibilidade física? – R. Isto contribuiu para alguns dentre eles, e os dispunha a sofrerem a comunicação de um estado provocado artificialmente em outros, porque o charlatanismo desempenha um grande papel nesses fatos estranhos.

9. Uma vez que estes Espíritos operavam curas, era dar serviço, e, então, como poderiam ser de uma ordem inferior? – R. Não vedes isto todos os dias? Não recebeis, algumas vezes, conselhos excelentes e úteis ensinamentos de certos Espíritos pouco elevados, levianos mesmo? Não podem eles procurar fazer alguma coisa de bem como resultado definitivo, tendo em vista um melhoramento moral?

 10. Nós vos agradecemos as explicações que consentistes em nos dar. – R. Ao vosso dispor.

saint medard

 

 

Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Revista Espírita, dezembro de 1859

Sexta-feira, 30 de setembro de 1859 (Sessão geral).

Leitura da ata da sessão do dia 23 de setembro.

Apresentação do senhor S…, negociante, cavaleiro da Legião de Honra, como membro titular.

Adiamento da admissão para a próxima sessão particular.

Comunicações diversas:

1º Leitura de uma comunicação espontânea feita ao senhor R…, pelo Espírito do doutor Olivier.

Esta comunicação notável sob um duplo ponto de vista o melhoramento moral do Espírito, que reconhece cada vez mais o erro de suas opiniões terrestres, e que agora compreende sua posição; em segundo lugar, o fato de sua reencarnação próxima, da qual começa a sentir os efeitos por uma primeira perturbação, o que confirma a teoria dada sobre a maneira pela qual se opera esse fenômeno, e a fase que precede a reencarna cão propriamente dita. Esta perturbação resulta do laço fluídico que começa a se estabelecer entre o Espírito e o corpo que deve animar, toma a comunicação mais difícil que no seu estado de completa liberdade; o médium escreve com mais lentidão, sua mão é pesada; as idéias dos Espíritos são menos límpidas. Esta perturbação, que vai sempre crescendo da concepção ao nascimento, é completa na aproximação do seu último momento, e não se dissipa senão gradualmente algum tempo depois. (Será publicada com as outras comunicações do mesmo Espírito.)

2º Fato de manifestação física espontânea, ocorrido recentemente em Paris, numa casa do bairro Saint-Germain, e narrada pelo senhor A… Um piano se fez ouvir, durante vários dias seguidos, sem que ninguém o tocasse. Todas as precauções foram tomadas para se assegurar que esse fato não era devido a uma causa acidental. Um sacerdote interrogado a este respeito, pensa que isto pode ser uma alma em pena que reclama assistência e deseja se comunicar.

3º Homicídio cometido por uma criança de sete anos e meio, com premeditação e todas as circunstâncias agravantes. Este fato, narrado por vários jornais, prova nessa criança um instinto assassino inato que não pôde nele se desenvolver pela educação, nem pelo meio onde se encontra, e que não pode se explicar senão por um estado anterior à existência atual. São Luís, interrogado a este respeito, respondeu: o Espírito desta criança está quase no início de seu período humano; não teve ainda senão duas encarnações na Terra, e antes de sua existência atual, pertencia às tribos mais atrasadas do mundo marítimo. Ele quis nascer num mundo mais avançado, na esperança dele mesmo avançar. À pergunta de saber se a educação poderia modificar essa natureza, respondeu: Isto é difícil, mas se pode; seria preciso grandes precauções, cercá-lo de boas influências, desenvolver a sua razão, mas há a temer que não faça tudo ao contrário.

4º Leitura de uma peça de versos escrita por uma jovem pessoa, como médium mecânico.

Esses versos foram reconhecidos por não serem inéditos e por terem sido feitos por um poeta morto há alguns anos. O estado de instrução do médium, que escreveu um grande número deste gênero, não permite supor que isso seja, de sua parte, um efeito de memória; de onde é necessário concluir que o Espírito que se manifestou, tomou ele mesmo nas produções prontas, e que lhe são todas estranhas. Vários fatos análogos provam que a coisa é possível, entre outras o de um médium da Sociedade a quem o Espírito ditou uma passagem escrita pelo senhor Allan Kardec, e que este não tinha ainda comunicado a ninguém.

Estudos. 1º Evocação do negro que serviu de alimento aos seus companheiros no naufrágio do navio te Constant.

2º Perguntas diversas e problemas morais dirigidos a São Luís sobre o fato precedente. Uma discussão se estabeleceu a este respeito, na qual tomaram parte vários membros da
Sociedade.

3º Três comunicações espontâneas são obtidas simultaneamente por intermédio de três médiuns diferentes: a primeira, pelo senhor R…, assinada por São Vicente de Paulo; a segunda, pelo senhor Ch…, assinada por Privat d’Anglemont; a terceira, pela senhorita H…, assinada por Charles IX.

4º Perguntas diversas feitas a Charles IX. Ele promete escrever a história de seu reino a exemplo de Louis XI. (Essas diversas comunicações serão publicadas.)

Sexta-feira, 7 de outubro de 1859. (Sessão particular.)

Leitura da ata e dos trabalhos da sessão de 30 de setembro.

Apresentações e admissões. Senhorita S…. e senhor o conde de R…, oficial da marinha, são apresentados como candidatos ao título de membros titulares.

Admissão de cinco candidatos apresentados na sessão de 23 de setembro, e da senhorita S….

O senhor presidente fez observar, a respeito dos novos membros presentes, que é muito importante, para a Sociedade, assegurar-se de suas disposições. Não basta, disse ele, que sejam partidários do Espiritismo em geral, é necessário que simpatizem com a sua maneira de ver. A homogeneidade de princípios é a condição sem a qual uma sociedade qualquer não poderia ter vitalidade. E, pois, necessário conhecer a opinião dos candidatos, a fim de não deixar introduzirem-se elementos de discussões ociosas, que fariam perder tempo, e poderiam degenerar em dissensões. A Sociedade não visa de nenhum modo o aumento indefinido de seus membros; ela quer, antes de tudo, prosseguir seus trabalhos com calma e recolhimento, e por isso deve evitar tudo o que poderia perturbá-la. Sendo seu objetivo o estudo da ciência, é evidente que cada um está perfeitamente livre para discutir os pontos controvertidos, e emitir sua opinião pessoal; mas outra coisa é dar seu conselho, ou chegar com idéias sistemáticas ou preconcebidas, em oposição com as bases fundamentais. Estamos reunidos para o estudo e a observação, e não para fazer de nossas sessões uma arena de controvérsias. Devemos, aliás, nos referir sobre esse ponto aos conselhos que nos foram dados, em muitas circunstâncias, pelos Espíritos que nos assistem, e que nos recomendam, sem cessar, a união como condição essencial para atingir o objetivo a que nos propusemos, e para obter seu concurso. “A união faz a força, nos dizem; sede, pois, unidos se quereis ser fortes; de outro modo corteis o risco de atrair os Espíritos levianos, que vos enganarão.” Eis porque não poderíamos dar mais atenção sobre os elementos que introduzimos entre nós.

Designação de três novos comissários para as três próximas reuniões seguintes.

Comunicações diversas: 1º O senhor Tug… transmitiu uma nota sobre um fato curioso de manifestação física, narrado pela senhora Ida Pfeiffer na descrição de sua viagem a Java.

2º O senhor Pêch… narrou o fato de comunicação espontânea, que lhe foi pessoal, da parte do Espírito de uma mulher que, quando viva, era lavadeira e do pior caráter. Seus sentimentos, como Espírito, não mudaram, e ela continua a mostrar um verdadeiro cinismo de maldade. Entretanto, os sábios conselhos do médium parecem exercer sobre ela uma feliz influência; suas idéias se modificam sensivelmente.

3º O senhor R… comunicou uma folha sobre a qual obteve a escrita direta, que foi produzida em sua casa, à noite, espontaneamente, depois de tê-la em vão solicitado durante o dia. A folha, de resto, não traz senão duas palavras: Deus, Fénelon.

Estudos: 1º Evocação da senhora Ida Pfeiffer, célebre viajante.

2º Os três cegos, parábola de São Lucas, dada em comunicação espontânea.

3º O senhor L… G. escreveu de Saint-Petersbourg que é médium intuitivo, e pede à Sociedade consentir em pedir a um Espírito superior alguns conselhos a seu respeito, a fim de esclarecer sobre a natureza e extensão de sua faculdade, para que possa dirigir-se em conseqüência. Um Espírito dá espontaneamente, e sem perguntas preliminares, os conselhos que deverão ser transmitidos ao senhor G.

O senhor presidente previne à Sociedade que, a pedido de vários membros que moram muito longe, as sessões começarão doravante às oito horas, a fim de poder terminá-las mais cedo.

Sexta-feira, 14 de outubro. (Sessão geral.)

Leitura da ata e dos trabalhos de 7 de outubro.

Apresentações: O senhor A…, livreiro, senhor de Ia R… proprietário, são apresentados como membros titulares. Adiamento para a próxima sessão particular.

O senhor J…, controlador das contribuições do departamento do Haut-Rhin, é apresentado e admitido como membro correspondente.

Comunicações diversas. 1o O senhor Col…, comunicou um extrato da obra intitulada Ciei et Terre, do senhor Jean Raynaud, onde o autor emite idéias inteiramente conformes com a Doutrina Espírita, e aquilo que um Espírito disse recentemente sobre o futuro papel da Franca.

2º O senhor, o conde de R…, deu parte de uma comunicação espontânea de Savonarole, monge dominicano, obtida numa sessão particular. Esta comunicação é notável pelo fato deste personagem, embora desconhecido dos assistentes, ter indicado com precisão a data de sua morte, ocorrida em 1498, sua idade e seu suplício. Pensou-se que poderia ser
instrutivo evocar esse Espírito.

3º A explicação dada, por um Espírito, sobre o papel dos médiuns, ao senhor P…, antigo reitor da Academia, e ele mesmo médium. Os Espíritos, para comunicarem-se entre si, não têm necessidade da palavra: o pensamento basta-lhes. Quando querem se comunicar com os homens, devem traduzir seu pensamento pelos sinais humanos, quer dizer, por palavras; eles tomam estas palavras no vocabulário do médium, do qual se servem, de algum modo, como de um dicionário; por isso é mais fácil ao Espírito se exprimir na língua familiar do médium, embora possa igualmente fazê-lo em uma outra língua que este não conheça; mas então é um trabalho mais difícil, e que evita quando não há necessidade. O senhor P… encontrou nesta teoria a explicação de vários fatos que lhe são pessoais, e relativos a comunicações que lhe fizeram diversos Espíritos em latim e em grego.

4º Fato narrado pelo mesmo, de um Espírito assistindo ao enterro de seu corpo, e que não se crendo morto, não pensava que o sepultamento lhe dizia respeito. Ele dizia: não fui eu quem morreu. Depois, quando viu seus parentes, acrescentou: começo a crer que poderíeis bem ter razão, e que pode que eu não seja mais deste mundo; mas isto me é muito indiferente.

5º O senhor S… comunicou um fato notável de advertência de além-túmulo, narrado por La Patrie, do dia 16 de dezembro de 1858.

6º Carta do senhor BI… de La… que depois do que leu na Revista sobre o fenômeno do desligamento da alma durante o sono, pergunta se a Sociedade teria a complacência de evocá-lo um dia, juntamente com sua filha, que perdeu há dois anos, a fim de ter com ela, como Espírito, uma conversa que ainda não pôde obter como médium.

Estudos. 1º Evocação de Savonarole, proposta pelo senhor o conde de R…

2º Evocação simultânea, por dois médiuns diferentes, do senhor BI… de La… (vivo) e de sua filha morta há dois anos. Conversa do pai e da filha.

3º Duas comunicações espontâneas foram obtidas simultaneamente, a primeira de São Luís, pelo senhor L…, a segunda da senhorita Clary, por seu irmão.

Sexta-feira, 21 de outubro de 1859.

(Sessão particular.)

Leitura da ata e dos trabalhos de 14 de outubro.

Apresentações e admissões. – O senhor Lem…, negociante, e o senhor Pâq…, doutor em direito, são apresentados como membros titulares. A senhorita H…..é apresentada como membro honorário, em razão do concurso que deu à Sociedade como médium, e que ela muito lhe promete dar para o futuro.

Admissão de dois candidatos apresentados na sessão do dia 14 de outubro, e da senhora
H…..

O senhor S…..propôs que, no futuro, as pessoas que desejarem fazer parte da Sociedade, devem fazer seu pedido por escrito, e que lhes seja endereçado um exemplar do regulamento.

Leitura de uma carta do senhor Th…..que faz uma proposição análoga, motivada na necessidade de não admitir na Sociedade senão pessoas já iniciadas no objeto de seus trabalhos, e professando os mesmos princípios. Ele pensa que um pedido feito por escrito, apoiado na assinatura de dois apresentadores, é uma garantia maior das intenções sérias do candidato, do que um simples pedido verbal.

Esta proposta foi adotada, por unanimidade, nos termos seguintes:

Toda pessoa que desejar fazer parte da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, deverá fazer o pedido por escrito ao Presidente. Esse pedido deverá estar assinado petos dois apresentadores, e relatar: 1º que o postulante tomou conhecimento do regulamento e se obriga a estar com ele conforme; 2º as obras que leu sobre o Espiritismo, e sua adesão aos princípios da Sociedade, que são os de O Livro dos Espíritos.

O senhor presidente mencionou a conduta pouco conveniente de dois auditores admitidos na última sessão geral, os quais perturbaram a tranqüilidade de seus vizinhos pelas suas conversas e suas palavras deslocadas. Lembrou, a este propósito, os artigos do regulamento relativos aos ouvintes e convidou de novo os Senhores membros da Sociedade a ter uma excessiva reserva sobre a escolha de pessoas às quais dão as cartas de introdução, e sobretudo se absterem, de modo mais absoluto, de dá-las a alguém que não fosse atraído senão por um simples motivo de curiosidade, e mesmo a quem, não tendo nenhuma noção preliminar do Espiritismo, estaria, por isso mesmo, na impossibilidade de compreender o que se faz na Sociedade. As sessões da Sociedade não são um espetáculo; deve-se assistir a elas com recolhimento; e aqueles que não querem senão distrações, não devem vir procurá-las numa reunião séria.

O senhor Th. propôs a nomeação de uma comissão de dois membros, encarregada de examinar a questão das entradas concedidas às pessoas estrangeiras, e de propor as medidas necessárias para prevenir o retorno dos abusos.

Os senhores Th. e Col. foram designados para fazerem parte dessa comissão.

Estudos: 1º Problemas morais e perguntas diversas dirigidas a São Luís;

2º O senhor de R… propôs a evocação de seu pai, por considerações de utilidade geral e não pessoais, presumindo que disto possa sair um ensinamento.

São Luís, interrogado sobre a possibilidade desta evocação, respondeu: Vós o podeis perfeitamente; entretanto, eu vos faria notar, meus amigos, que esta evocação requer uma grande tranqüilidade de espírito; esta noite, discutistes longamente assuntos administrativos, e creio que será bom remetê-la a uma outra sessão, tendo em vista que pode ser mais instrutiva.

3º O senhor Leid… propôs a evocação de um de seus amigos, sacerdote quando vivo. São Luís, interrogado, respondeu: Não; porque, primeiro, o tempo não nos permite; em seguida, eu, como presidente espiritual da Sociedade, nisto não vejo nenhum motivo de instrução.

Será preferível fazer esta evocação na Intimidade.

O senhor S… pediu que se mencione na ata o título de Presidente espiritual, que São Luís quis tomar.

Sexta-feira, 28 de outubro de 1859. (Sessão gera.)

Leitura da ata e dos trabalhos da sessão do dia 21 de outubro.

Apresentação de cinco novos candidatos como membros titulares, a saber: o senhor N…negociante, de Paris; a senhorita Emilie N…, mulher do precedente; a senhora viúva G…, de Paris; a senhorita de P…, de Estocolmo; a senhora de L…, de Estocolmo.

Leitura dos artigos do regulamento relativo aos ouvintes, e de uma notícia para instrução das pessoas estranhas à Sociedade, a fim de que elas não menosprezem o objeto de seus trabalhos.

Comunicações: 1º Leitura de um artigo do senhor Oscar Comettant sobre o mundo dos Espíritos, publicado no Siècle do dia 27 de outubro. Refutação de certas passagens deste artigo.

2º Leitura de um artigo de um jornal novo, intitulado Ia Girouette, e publicado em Saint- Etienne. Este artigo foi concebido num espírito benevolente para com o Espiritismo.

3º Doação de quatro poemas, do senhor de Porry, de Marseille, autor de a Uranie, dos quais foram lidos fragmentos; estes são: La captive chrétienne, lês bohémiens, Poltawa, Lê prisonnier du Cau-case.

Agradecimentos serão dirigidos ao senhor de Porry, e as supraditas obras serão depositadas na biblioteca da Sociedade.

4º – Leitura de uma carta do senhor Det…, membro titular, contendo diversas observações sobre o papel dos médiuns, a propósito da teoria exposta na sessão de 14 de outubro, e segundo a qual o Espírito tiraria as suas palavras no vocabulário do médium.

Ele combate essa teoria, pelo menos do ponto de vista absoluto, por fatos que vêm contradizê-la. Pede que a questão seja seriamente examinada Ela será remetida à ordem do dia.

5º Leitura de um artigo da Revue française do mês de abril de 1858, página 416, onde está narrada uma conversa de Bèranger, da qual resulta que quando vivo, suas opiniões eram favoráveis às idéias Espíritas.

6º O senhor presidente transmitiu à Sociedade os adeuses do senhor Br…, membro titular que partiu para a Havana.

Estudos: 1º Foi proposta a evocação da senhora Br…, que partiu para Havana, e que se
encontra no mar neste momento, a fim de ter dela mesma a suas novidades.

São Luís, interrogado a este respeito, respondeu: Seu Espírito está muito preocupado esta noite, porque o vento está soprando com violência (era o momento de grandes tempestades assinaladas pelos jornais), e o cuidado de sua conservação ocupa todo o seu pensamento.

Para o momento o perigo não é grande; mas o será? Só Deus o sabe.

2º Evocação do pai do senhor de R…, proposta na sessão do dia 21 de outubro. Resultou desta evocação que o cavaleiro de R…, seu tio, de quem não tinha notícias há cinqüenta anos, não estaria morto, e habitaria uma ilha da Oceania meridional, onde estaria identificado com os costumes dos habitantes, não tendo tido ocasião de dar suas novidades. (Será publicada.)

3º Evocação do rei de Kanala (Nova Caledônia), falecido em 24 de maio de 1858. Esta evocação revelou neste Espírito uma certa superioridade relativa, e apresentou isto de notável, uma grande dificuldade em escrever, apesar da aptidão do médium, anunciou que com o hábito escreverá mais facilmente, o que foi confirmado por São Luís.

4º Evocação de Mercure Jean, aventureiro, que partiu de Lyon em 1478 e foi apresentado a Louis XI. Deu esclarecimentos sobre as faculdades sobrenaturais das quais se acreditava dotado, e das notícias curiosas sobre o mundo que habita neste momento. (Será publicada.)

Sexta-feira, 4 de novembro de 1859.

(Sessão particular).

Leitura da ata e dos trabalhos do dia 28 de outubro.

Admissão de sete candidatos apresentados nas duas sessões precedentes.

Projeto apresentado pela Comissão encarregada de estudar as medidas a serem tomadas para a admissão de ouvintes.

Depois de uma discussão em que tomaram parte diversos membros, a Sociedade decidiu que a proposição será adiada, e que provisoriamente ter-se-ão em conta as disposições do regulamento; que os Senhores membros serão convidados a se conformarem rigorosamente com as disposições que regulam a admissão de ouvintes, e a se absterem, de modo absoluto, de dar cartas de introdução a quem não tenha em vista senão um objeto de curiosidade, e não possua nenhuma noção preliminar da ciência Espírita.

A Sociedade adotou em seguida as duas proposições seguintes:

1º Os ouvintes não serão admitidos às sessões passadas as oito horas e um quarto. As cartas de admissão disto farão menção.

Todos os anos, na renovação do ano social, os membros honorários serão submetidos a um novo voto de admissão, a fim de riscar aqueles que não estiverem mais nas condições requeridas, e que a Sociedade não julgar dever manter.

O senhor administrador tesoureiro da Sociedade apresentou a conta semestral, de 1º de abril a 1º de outubro, assim como as peças justificativas das despesas. Resulta desta conta que a Sociedade tem um saldo suficiente para fazer face às suas necessidades. A Sociedade aprovou as contas do tesoureiro e lhe deu quitação.

Comunicações diversas. Carta do senhor BI. de La… em resposta ao envio feito de sua evocação e da de sua filha. Ele constatou um fato que confirma uma das circunstâncias da evocação.

Carta do senhor Dumas, de Sétif (Algéria), membro titular, que transmite à Sociedade um certo número de comunicações que obteve.

Estudos. 1º Os Senhores P… e de R… chamam a atenção sobre uma nova narração do naufrágio do navio lê Constant, e publicada pelo Siècle. Disto resultaria que o negro morto para ser comido não teria se oferecido voluntariamente, assim como se disse na primeira narração, e que, assim, haveria contradição com as palavras do Espírito do negro. – O senhor Col… não vê contradição, uma vez que o mérito atribuído ao negro foi contestado por São Luís, e que o próprio negro disto não procurou se prevalecer.

2º Exame de uma questão proposta pelo senhor Lês… sobre o espanto dos Espíritos depois da morte. Ele pensa que o Espírito, tendo já vivido o estado de Espírito, não deveria espantar-se. Ele respondeu: Este espanto não é senão temporário; prende-se ao estado de perturbação que se segue à morte; cessa à medida que o Espírito se desliga da matéria e recobra as suas faculdades de Espírito.

3º Pergunta sobre os sonâmbulos lúcidos que tomam os Espíritos por seres corpóreos. Este fato foi confirmado e explicado por São Luís.

Evocação de Urbain Grandier. As respostas, sendo muito lacônicas, em conseqüência da falta de hábito do médium, e o Espírito tendo dito que seria mais explícito com um outro médium, esta evocação será reprisada em uma outra sessão.

Sexta-feira, 11 de novembro de 1854.

(sessão geral.)

Leitura da ata.

Apresentação. O senhor Pierre D…, escultor em Paris, é apresentado como membro titular.

Comunicações diversas. 1º Carta do senhor de T… contendo fatos muito interessantes de manifestações visuais e verbais que confirmam o estado no qual se encontram certos Espíritos que duvidam de sua morte. Um dos fatos narrados oferece esta particularidade que, no Espírito em questão, esta ilusão persistia ainda mais de três meses depois da morte. (Esta narração será publicada.)

2º Fatos curiosos de precisão narrados pelo senhor Van Br…, de La Haye, e que lhe são pessoais. Ele jamais ouvira falar dos Espíritos e de suas comunicações, quando se achou, por acaso e inopinadamente, conduzido a uma reunião Espírita em Dordrecht. As comunicações, obtidas em sua presença, o surpreenderam tanto mais quanto era estranho à cidade, e desconhecido dos membros da reunião; foram-lhe ditas sobre ele, sua posição e sua família uma multidão de particularidades das quais só ele tinha conhecimento. Tendo evocado sua mãe e lhe perguntado, como prova de identidade, se tivera vários filhos, ela respondeu: Não sabes tu, meu filho, que tive onze filhos, e o Espírito designou todos pelos seus prenomes e a época de seu nascimento. Desde então, este senhor é um adepto fervoroso, e sua filha, jovem pessoa de catorze anos, tornou-se muito boa médium, mas sua mediunidade apresenta particularidades bizarras; na maior parte do tempo ela escreve de trás para adiante, de tal sorte que, para ler o que ela obtém, é preciso apresentá-lo diante de um espelho. Muito freqüentemente, também a mesa sobre a qual ela se coloca para escrever, se inclina por si mesma em forma de carteira, e fica nesta posição, em equilíbrio e sem sustentação, até que ela acabe de escrever.

O senhor Van Br… narrou outro fato curioso de precisão por um Espírito que se lhe comunicou espontaneamente, sob o nome de Dirkse Lammers, e que foi enforcado sobre o próprio lugar onde se fazia a comunicação, e em circunstâncias cuja exatidão foi verificada.

(Esta narração será publicada, assim como a evocação a qual deu lugar.)

Estudos. 1º – Exame da questão proposta pelo senhor Det…, sobre a fonte onde os Espíritos tiram seu vocabulário.

2º-Perguntas sobre a obsessão de certos médiuns.

3º Evocação de Michel François, ferrador que fez uma revelação a Louis XIV.

4º Evocação de Dirkse Lammers, cuja história foi contada precedentemente.

5º Três comunicações espontâneas foram obtidas simultaneamente: a primeira pelo senhor R…, assinada por Lamennais, a segunda pelo senhor D… filho; a criança e o riacho, parábola assinada por São Basílio; a terceira pela senhorita L. J…, assinada por Orígenes.

6º A senhorita J…, médium desenhista, traçou espontaneamente um grupo notável, assinado pelo Espírito de Lebrun.

(Todas as questões e comunicações acima serão publicadas.)

Sexta-feira, 18 de novembro de 1859.

(Sessão particular.)

Leitura da ata.

Admissão do senhor Pierre D…, apresentado na última sessão.

Comunicações diversas. 1º Leitura de uma comunicação espontânea, obtida pelo senhor P…, membro da Sociedade, e ditada pelo Espírito de sua filha.

2º Detalhes sobre a senhorita Désiré Godu, residente em Hennebont (Morbihan), e que  stá dotada de uma faculdade mediatriz extraodinária. Ela passou por todas as fases da mediunidade; primeiro teve as manifestações físicas mais estranhas; depois se tornou sucessivamente médium audiente falante, vidente e escrevente. Hoje, todas as suas faculdades estão concentradas nas curas das doenças, que ela cuida pelos conselhos dos Espíritos; ela opera curas que foram consideradas como miraculosas em outros tempos. Os Espíritos anunciam que sua faculdade se desenvolverá ainda mais; ela começa a ver as doenças internas, por um efeito de segunda vista, sem estar em sonambulismo.

(Uma notícia será publicada sobre este assunto notável.)

Estudos. 1º Perguntas sobre as faculdades da senhorita Désiré Godu.

2º Evocação de Lemettrie.

3º Quatro comunicações espontâneas foram obtidas simultaneamente, a primeira pelo senhor R…, assinada por São Vicente de Paulo, a segunda pelo senhor Col…, assinada por Platão; a terceira pelo senhor D… filho, assinada por Lamennais; a quarta pela senhorita H…, assinada por Marguerite, dita a rainha Margot.

25 de novembro de 1859.

(Sessão geral)

Leitura da ata

Comunicações diversas. O senhor doutor Morhéry doou à Sociedade uma brochura intitulada Sistema prático de organização agrícola. Embora essa obra seja estranha ao objeto dos trabalhos da Sociedade, será depositada na biblioteca, e agradecimentos são endereçados ao autor.

Carta do senhor de T…, completando os fatos de visões e aparições dos quais deu conta na sessão do dia 11 de novembro.

Carta do senhor o conde de R…, membro titular, retido em casa por uma indisposição, e que se coloca à disposição da Sociedade para que façam sobre ele todas as experiência que julgarem convenientes, relativamente à evocação de pessoas vivas.

Estudos. 1ª Evocação de Jardin, falecido em Nevers, e que conservara os restos de sua mulher num genuflexório. (Será publicada.)

3º Evocação do senhor o conde de R… Esta evocação excessivamente notável pela extensão dos desenvolvimentos dados com uma perfeita precisão e uma grande limpidez de idéias, lança uma luz muito grande sobre o estado do Espírito separado do corpo, e resolve numerosos problemas psicológicos. Ela será publicada no número da Revista de janeiro de 1860.

4º Quatro comunicações espontâneas foram obtidas simultaneamente, a saber a primeira de uma alma sofredora, pela senhorita de B…; a segunda o Espírito de Verdade, pelo senhor R…; a terceira de Paulo, o apóstolo, pelo senhor Col…. Esta comunicação foi assinada em grego; a quarta, pelo senhor Did… filho, assinou Charlet (o pintor), que anunciou uma série de comunicações, devendo formar um conjunto.

boletim de estudos

Um antigo charreteiro

 

Revista Espírita, dezembro de 1859

O senhor V… é um jovem, excelente médium, e que se distingue geralmente pela bondade de suas revelações com o mundo Espírita Todavia, desde que ocupa o quarto em que habita, um Espírito inferior se mistura à suas comunicações, e se interpõe mesmo em seus trabalhos pessoais. Encontrando-se uma noite (6 de setembro de 1859), na casa do senhor Allan Kardec, com quem devia trabalhar, foi entravado por esse Espírito que, ou fazia-o traçar coisas incoerentes, ou impedia-o de escrever. O senhor Allan Kardec, dirigindo-se, então, a esse Espírito, teve com ele a seguinte conversa:

1. Por que vens aqui quando não és chamado? – R. Eu quero atormentá-lo.

2. Quem és tu? Diga teu nome? – R. Não o direi, eu.

3. Qual é o teu objetivo vindo assim misturar-se com aquilo que não te diz respeito? Isto não te aproveita em nada. – R. Não, mas o impeço de ter boas comunicações, e sei que isto o entristece muito.

4. Tu és um mau Espírito, uma vez que te alegras em fazer o mal. Em nome de Deus, eu te intimo a retirar-te e nos deixar trabalhar tranqüilamente. – É que crês meter-me medo com tua voz grossa?

5. Se não é de mim que tens medo, terás, sem dúvida, medo de Deus, em nome de quem te falo, e que bem te poderá fazer se arrepender da maldade. – R. Não nos irritemos, burguês.

6. Eu repito que tu és um mau Espírito, e te peço, ainda uma vez, não nos impedir de trabalhar. – R. Eu sou o que sou, é minha natureza.

Tendo sido chamado um Espírito superior, e pedido para afastar este intruso, a fim de não interromper o trabalho, provavelmente o mau Espírito se foi, porque durante todo o resto da noite, não houve mais nenhuma interrupção. Interrogado sobre a natureza desse Espírito, respondeu:

Esse Espírito, que é da mais baixa classe, é um antigo charreteiro que morreu não longe da casa onde mora V… (o médium). Ele elegeu por domicílio seu próprio quarto, e há longo tempo é ele que o obsidia, sem cessar, o atormenta continuamente. Agora que sabe que V… deve deixar seu alojamento por ordem de Espíritos superiores, ele o atormenta mais que nunca. É ainda uma prova de que, o que o médium escreve, não é o seu pensamento. Tu vês assim que há boas coisas mesmo nas mais desagradáveis aventuras da vida. Deus faz ver o seu poder por todos os meios possíveis.

– Qual era o caráter desse homem, em sua vida? – R. Tudo o que mais se aproxima do animal. Creio que seus cavalos tinham’ mais inteligência e mais sentimento do que ele.

– Qual é o meio, para o senhor V…, se desembaraçar dele?

– R. Há dois; o meio espiritual, é pedir a Deus; o meio material, é deixar a casa onde está.

– Há, pois, verdadeiramente, lugares assombrados por certos Espíritos? – R. Sim, Espíritos que estão ainda sob a influência da matéria se prendem a certos lugares.

– Os Espíritos que assombram certos lugares podem torná-los fatalmente funestos ou propícios para as pessoas que o habitam? — R. Sim, poderiam impedi-los disso? Mortos, exercem sua influência como Espíritos; vivos, a exercem como homens.

– Alguém que não fosse médium, que jamais tivesse mesmo ouvido falar de Espíritos, ou que não acreditasse neles, poderia sofrer essa influência, e ser alvo dos vexames desses
Espíritos? – R. Indubitavelmente; isto ocorre mais freqüentemente do que pensais, e explica muitas coisas.

– Há algum fundamento nesta crença de que os Espíritos freqüentam de preferência as ruínas ou as casas abandonadas?

– R. Superstição.

– Assim, os Espíritos assombrarão tanto uma casa nova da rua de Rivoli quanto um velho pardieiro? – R. Certamente, porque eles podem ser atraídos para um lugar antes que para um outro, pela disposição de espírito de seus habitantes.

O Espírito do precedentemente citado charreteiro, tendo sido evocado na Sociedade, por intermédio do senhor R…, manifestou-se por sinais de violência, quebrando os lápis, que forçava contra o papel com força, e por uma escrita grossa, tremida, irregular e pouco legível.

1. Evocação. – R. Estou aqui.

2. Reconheceis o poder de Deus sobre vós? – R. Sim, contra?

3. Por que escolhestes o quarto do senhor V… antes que um outro? – R. Isto me satisfaz.

4. Permanecereis ali por muito tempo? – R. Tanto quanto me sinta bem.

5. Não tendes, pois, intenção de se melhorar? – R. Isto veremos, tenho o tempo.

6. Estais contrariado por termos vos evocado? – R. Sim.

7. Que fazíeis quando vos chamamos? – R. Estava na casa do negociante de vinhos.

8. O que bebíeis? – R. Que asneira! Posso eu beber!

9. O que quisestes dizer falando do negociante de vinho? – R. Quis dizer o que disse.

10. Quando vivo, maltratáveis os vossos cavalos? – R. Sois guardiães da paz? k 11. Queres que se ore por vós? – R. É que faríeis isto?

12. Certamente, oramos por todos aqueles que sofrem, porque temos piedade dos infelizes, e sabemos que a misericórdia de Deus é grande. – R. Oh! Bem, sois bons tipos assim mesmo; gostaria de vos apertar a mão; vou tratar de merecê-lo. Obrigado!

Nota. Esta conversa confirma o que a experiência já provou muitas vezes, no que diz respeito à influência que os homens podem exercer sobre os Espíritos, e por meio da qual podem contribuir para o seu melhoramento. Mostra a influência da prece. Assim, essa natureza bruta e quase bravia, e selvagem, se acha como domesticada pelo pensamento do interesse que se lhe pode ter. Temos numerosos exemplos de criminosos que vieram espontaneamente se comunicar a médiuns que tinham orado por eles, e testemunharem seu arrependimento.

Às observações acima, acrescentaremos as considerações seguintes, sobre a evocação de Espíritos inferiores.

Vimos médiuns, ciumentos a justo título de conservar suas boas relações de além-túmulo, repugnar-se em servirem de intérpretes aos Espíritos inferiores que se podem chamar; é de sua parte uma suscetibilidade mal entendida. Do fato de que se evoque um Espírito vulgar, mesmo mau, não se está sob a sua dependência; longe disso, sois vós, ao contrário, quem o dominais: não é ele que vem se impor apesar de vós, como nas obsessões, vós que vos impondes a ele; ele não comanda, obedece; sois seu juiz e não sua presa. Além do mais, podeis ser-lhe útil pelos vossos conselhos e vossas preces, e vos é reconhecido pelo interesse que tomais por ele. Estender-lhe uma mão segura, é fazer uma boa ação; repelindo, é faltar com a caridade; é mais ainda, é do egoísmo e do orgulho. Estes seres inferiores são, aliás, para nós um poderoso ensinamento; foi por eles que aprendemos a conhecer a classe baixa da população do mundo Espírita e a sorte que espera aqueles que fazem, neste mundo, um mau uso de sua vida. Por outro lado, notai que é quase sempre tremendo que vêm às reuniões sérias, onde os bons Espíritos dominam; são acanhados e se mantêm à parte, escutando para se instruírem.

Freqüentemente, vêm com esse objetivo sem serem chamados; por que, pois, recusar-se ouvi-los quando, freqüentemente, seu arrependimento e seu sofrimento são um objeto de edificação, ou pelo menos de instrução? Nada se tem a temer de suas comunicações, do momento em que elas ocorrem com o objetivo do bem. Em que se tornariam os pobres feridos, se os médicos se recusassem a tocar suas feridas?

um antigo charreteiro

Comunicações espontâneas obtidas nas sessões da Sociedade.

Revista Espírita, dezembro de 1859

30 de setembro de 1859. (Méd. Sr. R…)

Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei: lei divina, pela qual Deus cria sem descanso e governa os mundos. O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados; a atração é ba lei de amor para a matéria inorgânica.

Não esqueçais jamais que o Espírito, qualquer que seja seu grau de adiantamento, sua situação, como reencarnação ou erraticidade, está sempre colocado entre um superior que o guia e aperfeiçoa, e o inferior perante o qual tem os mesmos deveres a cumprir.

Sede, pois, caridosos, não só desta caridade que vos leva a tirar de vossa bolsa o óbolo que dais friamente àquele que ousa vos pedir, mas ide ao encontro das misérias ocultas.

Sede indulgentes com os defeitos de vossos semelhantes; em lugar de desprezar a ignorância e o vício, instruí-os e moralizai-os; sede-o, mesmo, diante dos seres mais ínfimos da criação, e tereis obedecido à lei de Deus.

VICENTE DE PAULO.

Nota. Os Espíritos considerados pelos homens como santos, não tomam geralmente essa qualidade; assim São Vicente de Paulo assina simplesmente Vicente de Paulo; São Luís assina Louis, e aqueles, ao contrário, que usurpam nomes e qualidades que não lhes pertencem, comumente, ostentam seus falsos títulos, crendo, sem dúvida, com isso se impor mais facilmente; mas essa máscara não pode enganar a quem se dê ao trabalho de lhes estudar a linguagem; a dos Espíritos realmente superiores tem uma marca com a qual não se pode equivocar.

18 de novembro de 1859. (Méd. Sr. R…)

A união faz a força; sede unidos para serdes fortes. O Espiritismo germinou, lançou raízes profundas; vai estender sobre a Terra seus ramos benfazejos. É necessário tomar- vos invulneráveis contra as flechas envenenadas da calúnia e da negra falange dos ignorantes, dos egoístas e dos hipócritas. Para aí chegar, que uma indulgência e uma benevolência recíprocas presidam as vossas relações; que vossos defeitos passem desapercebidos, que somente as vossas qualidades sejam notadas; que a luz da santa amizade reúna, esclareça e reanime os vossos corações, e resistireis aos ataques impotentes do mal como a rocha inquebrantável à vaga furiosa.

VICENTE DE PAULO.

23 de setembro de 1859. (Méd. Sr. R…)

Até o momento não considerastes a guerra senão sob o ponto de vista material; guerras intestinas, guerras de povos a povos; não tendes jamais visto nisso senão conquistas, escravidão, sangue, morte e ruínas; é tempo de considerá-la sob o ponto de vista moralizador e progressista. A guerra semeia, em sua passagem, a morte e as idéias; as idéias germinam e se engrandecem; o Espírito, depois de se fortalecer na vida Espírita, vem fazê-las frutificar. Não sobrecarregueis, pois, com as vossas maldições, o diplomata que preparou a luta, nem o capitão que conduziu seus soldados à vitória; grandes lutas se preparam: lutas do bem contra o mal, das trevas contra a luz, lutas do espírito de progresso contra a ignorância estacionaria. Esperai com paciência, porque nem vossas maldições, nem vossos louvores, em nada poderiam mudar quanto à vontade de Deus; ele saberá sempre manter ou afastar seus instrumentos do teatro dos acontecimentos, segundo tenham cumprido sua missão, ou que tenham abusado, para servir seus objetivos pessoais, do poder que terão adquirido pelo seu sucesso. Tendes o exemplo do César moderno e do meu. Devi, por várias existências miseráveis e obscuras, expiar minhas faltas, e vivi, pela última vez, na Terra, sob o nome de Louis IX.

JÚLIO CÉSAR.

A Infância e o Riacho; parábola

11 de novembro de 1859. (Méd. Sr. Did…)

Um dia, uma criança chegou junto de um riacho bastante rápido que tinha quase a impetuosidade de uma torrente; a água lançava-se de uma colina vizinha, e engrossava à medida que avançava na província. A criança se pôs a examinar a torrente, depois amontoou toda espécie de pedras que pegava em seus pequenos braços; resolveu construir um dique; cega presunção! Apesar de todos os seus esforços e sua pequena cólera, não pôde a isso chegar. Refletindo, então, mais seriamente, se fosse preciso empregar essa palavra a uma criança, ela subiu mais alto, abandonou sua primeira tentativa, e quis fazer seu dique mais perto da própria fonte do riacho; mai ai! Seus esforços foram ainda impotentes; desencorajou-se e daí se foi chorando. Ainda estava na bela estação, e o riacho não estava mais rápido em comparação com que estivera no inverno; ele cresceu, e a criança viu seus progressos; a água, engrossando-se lançava-se com mais fúria, derrubando tudo em sua passagem, e a infeliz criança, ela mesma, teria sido arrastada se tivesse ousado aproximar-se dele como da primeira vez.

Ó homem fraco! Criança! Tu queres elevar uma muralha, um obstáculo intransponível à marcha da verdade, não és mais forte que essa criança, e tua pequena vontade não é mais forte que seus pequenos braços; quando mesmo quiseres esperá-la em sua fonte, a verdade, estejas disso seguro, te arrastará infalivelmente.

BASILE.

Os três Cegos; parábola

7 de outubro de 1859. (Méd. Sr. Did…)

Um homem rico e generoso, o que é raro, encontrou em seu caminho três infelizes cegos consumidos pela fome e pela fadiga; apresentou a cada um uma peça de ouro. O primeiro, cego de nascença, irritado pela miséria, sequer abriu a mão; jamais vira, dizia, quem ofertasse ouro a um mendigo: a coisa era impossível. O segundo estendeu maquinalmente a mão, mas rejeitou logo a oferenda que se lhe fizera; como o seu amigo, ele a considerava qual uma ilusão ou uma obra de mau gosto: em uma palavra, segundo ele, a peça era falsa.

O terceiro, ao contrário, cheio de fé em Deus e inteligência, no qual a fineza do tato havia em parte substituído o sentido que lhe faltava, pegou a peça, apalpou-a, e levantando-se,
bendizendo seu benfeitor, partiu para a cidade vizinha para se proporcionar o que faltava à sua existência.

Os homens são os cegos; o Espiritismo é o ouro; julgai a árvore pelos seus frutos.

30 de setembro de 1859. (Méd. Srta. H…)

Pedi a Deus deixar-me vir um instante entre vós, para dar-vos o conselho de não terem jamais querelas religiosas; não digo guerras religiosas, porque hoje o século é muito avançado para isso, mas, naquele em que vivi, era uma infelicidade geral, e não pude evitá-lo, a fatalidade arrebatou-me, e compeli os outros, eu que deveria moderá-los. Assim tive a minha punição, primeiro da Terra, depois por três séculos expiei cruelmente meu crime. Sede dóceis e pacientes para aqueles que ensinais; se não querem vir a vós no início, que venham mais tarde, quando verão a vossa abnegação e o vosso devotamento.

Meus amigos, meus irmãos, eu não saberia mais vos recomendar, o que de mais horrível, com efeito, que se degolar mutuamente em nome de um Deus clemente, em nome de uma religião tão santa que não prega senão a misericórdia, a bondade e a caridade! Em lugar disso, mata-se, ou se massacra para forçar as pessoas que se quer converter a um Deus bom, diz-se; mas em lugar de crer em vossa palavra, aqueles que sobrevivem apressam-se em vos deixar e se afastarem de vós como bestas ferozes. Sede, pois, bons, eu o repito, e sobretudo cheios de amenidades para aqueles que não crêem como vós.

CHARLES IX

1. Teria a complacência de responder a algumas perguntas que desejaríamos vos dirigir? – R. Eu o quero muito.

2. Como expiastes as vossas faltas? – R. Pelo remorso.

3. Tivestes outras existências corporais depois daquela que nós vos conhecemos? – R. Tive uma; estive encarnado num escravo das duas Américas; sofri muito; isso me avançou na minha purificação.

4. Em que se tornou vossa mãe, Catherine de Médicis? – R. Ela sofreu também; está num outro planeta, onde cumpre uma vida de devotamento.

5. Poderíeis escrever a história do vosso reinado, como o fizeram Louis XI, e outros? – R. Eu o poderia também…

6. Quereis fazê-lo por intermédio do médium que vos serve neste momento de intérprete? – Sim, este médium pode servir-me; mas não começarei esta noite; não Vim para isso.

7. Também, não pedimos para começar hoje; pedimos fazê-lo no vosso lazer e no do médium; este será um trabalho de fôlego que exigirá um certo lapso de tempo, e contamos com a vossa promessa? – R. Eu o farei. Adeus.

Comunicações estrangeiras lidas na Sociedade

(Comunicação obtida pela Senhorita de P…)

A bondade do Senhor é eterna. Ele não quer a morte de seus filhos queridos; mas, ó homens!

Refleti que depende de vós apressar o reino de Deus na Terra ou afastá-lo; que sois responsáveis uns pelos outros; que em vos melhorando vós mesmos, trabalhais pela regeneração da Humanidade; a tarefa é grande; a responsabilidade pesa sobre cada um, e ninguém pode recusar-se. Abraçai com fervor a gloriosa tarefa que o Senhor vos impõe, mas pedi-lhe que envie trabalhadores para os seus campos, porque a colheita é grande, e os trabalhadores pouco numerosos, como vos disse o Cristo.

Mas eis nós vos fomos enviados como os trabalhadores de nossos corações; nele semeamos o bom grão; cuidai de não sufocá-lo; irrigai-o com as lágrimas do arrependimento e da alegria; do arrependimento por ter vivido tanto tempo numa terra maldita pelos pecados do gênero humano, distante do único Deus verdadeiro, adorando falsos gozos do mundo, que não deixam no fundo da forma senão remorsos e tristeza.

Chorai de alegria, porque o Senhor vos considerou em graça; porque quer apressar a chegada de seus filhos bem amados ao seu seio paternal; porque quer que todos vós estejais ornamentados com a inocência dos anjos, como se não fósseis jamais vos afastar dele.

O único que vos mostrou o caminho para alcançar essa glória primitiva; o único ao qual não podereis censurar por estar enganado em seus ensinamentos; o único justo perante Deus; o único, enfim, que deveríeis seguir para serdes agradáveis a Deus, é o Cristo: sim, o Cristo, vosso divino mestre, que esquecestes e menosprezastes durante séculos. Amai-o, porque ele pede sem cessar por vós, ele quer vir em vosso socorro. Como! A incredulidade ainda resiste!

As maravilhas do Cristo não podem abatê-la! As maravilhas de toda a criação permanecem impotentes sobre esses Espíritos zombeteiros, sobre esta poeira que não pode prolongar por um único minuto sua miserável existência! Estes sábios que crêem só eles possuírem todos os segredos da criação, não sabem de onde vêm, nem para onde vão, e, todavia, negam tudo, duvidam de tudo; porque conhecem algumas das mais vulgares leis do mundo material, crêem poder julgar o mundo imaterial, ou antes dizem que nada há de imaterial, que tudo deve obedecer a essas mesmas leis materiais que conseguiram descobrir.

Mas vós, cristãos! Sabeis que não podeis negar a nossa intervenção sem negar, ao mesmo tempo, o Cristo, sem negar toda a Bíblia, porque não há nela uma página onde não encontreis os traços do mundo visível em relação com o mundo invisível. Pois bem!

Dizei, sois cristãos ou não o sois?

RAMBRAND.

(Outra obtida pelo Sr. Pêc.)

Cada homem tem nele o que chamais uma voz interior, é o que o Espírito chama a consciência, juiz severo, que preside a todas as ações da vossa vida. Quando o homem está só, ele escuta essa voz da consciência e se pesa em seu justo valor; freqüentemente, tem vergonha de si mesmo: neste momento reconhece Deus; mas a ignorância, fatal conselheira, impele-o e lhe coloca a máscara; ele se apresenta a vós todo inchado com o seu vazio; procura vos enganar pela altivez que se dá. Mas o homem de coração reto não tem a cabeça arrogante; escuta com proveito as palavras do sábio; sente que não é nada e que Deus é tudo; procura se instruir no livro da Natureza, escrito pela mão do Criador; eleva seu Espírito, expulsa de seu envoltório as paixões materiais que, muito freqüentemente, vos desviam. É um guia perigoso, senão uma paixão que vos conduz; reprima isto, amigo; deixai rir o cético, seu riso se extinguira; em sua hora derradeira o homem se torna crente. Assim, pensai sempre em Deus, só ele não engana; lembrai-vos de que não há senão um caminho que conduz a ele: a fé, e o amor de seus semelhantes.

UM MEMBRO DA FAMÍLIA.

 

comunicações espontaneas