Índice Geral – Revista Espírita

Revue Spirit 1858

Revue Spirit 1859

 

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Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Revista Espírita, julho de 1859

 

Publicaremos no futuro o comentário regular das sessões da Sociedade.

Contávamos fazê-lo a partir deste número, mas a quantidade de matérias nos obrigou a adiá-lo para a próxima entrega. Os Sócios que não residem em Paris, e os membros correspondentes, poderão assim seguir os trabalhos da Sociedade.

Limitar-nos-emos a dizer hoje que, apesar da intenção do que o senhor Allan Kardec havia expressado em seu discurso de encerramento de renunciar à presidência, quando da renovação da secretaria, ele foi reeleito por unanimidade com uma abstenção e um voto em branco. Acreditaria mal responder a um testemunho assim elogioso persistindo em sua recusa. Ele não aceitou, todavia, senão condicionalmente e sob a reserva expressa de renunciar às suas funções no momento que a Sociedade se encontrasse em condições de oferecer a presidência a uma pessoa cujo nome e posição social fossem de natureza a dar-lhe um maior relevo; sendo seu desejo poder consagrar todo o seu tempo aos trabalhos e aos estudos que ela demanda.

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Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Discurso do encerramento do ano social 1858-1859

 

Revista Espírita, julho de 1859

 

Senhores,

 

No momento em que se expira vosso ano social, permiti-me vos apresentar um breve resumo da marcha e dos trabalhos da Sociedade.

Conheceis sua origem: ela se formou sem desígnio premeditado, sem projeto preconcebido. Alguns amigos se reuniam em minha casa num pequeno grupo; pouco a pouco, esses amigos pediram minha permissão para me apresentarem seus amigos. Não havia então presidente: eram reuniões íntimas de oito a dez pessoas, como existem centenas delas em Paris e alhures; mas era natural que, em minha casa, eu tivesse a direção do que ali se fazia, seja como dono da casa, seja também em razão dos estudos especiais que. eu havia feito, e que me davam uma certa experiência da matéria.

O interesse que se tomava por essas reuniões, era crescente, embora não se ocupasse senão de coisas muito sérias; pouco a pouco, de um e de outro, o número dos assistentes aumentava, e meu modesto salão, muito pouco propício para uma assembléia, tomou-se insuficiente. Foi então que, alguns dentre vós, propuseram se procurasse um lugar mais cômodo, e se cotizarem para subvencionar os gastos, não achando justo que eu os suportasse sozinho, como fizera até aquele momento. Mas, para se reunir regularmente, além de um certo número, e no local estranho, era necessário conformar-se às prescrições legais, era necessário um regulamento, e, conseqüentemente, um presidente como titular; enfim, era necessário constituir uma sociedade; o que ocorreu com o consentimento da autoridade, cuja benevolência não nos faltou. Era necessário também imprimir aos trabalhos uma direção metódica e uniforme, e consentistes em me encarregar de continuar o que fazia em minha casa, em nossas reuniões particulares.

Trouxe para minhas funções, que posso dizer laboriosas, toda a exatidão e todo o devotamento de que era capaz; do ponto de vista administrativo, esforcei-me por manter, nas sessões, uma ordem rigorosa, e dar-lhe um caráter de gravidade, sem o qual o prestígio de assembléia séria teria logo desaparecido. Agora que minha tarefa terminou, e que o impulso foi dado, devo vos participar a resolução que tomei de renunciar, para o futuro, a toda espécie de função na Sociedade, mesmo a de diretor dos estudos; não ambiciono senão um título, o de simples membro titular, com o qual estarei sempre feliz e honrado. O motivo de minha determinação está na multiplicidade dos meus trabalhos, que aumentam todos os dias em razão da extensão das minhas relações, porque além daqueles que conheceis, preparo outros mais consideráveis, que exigem longos e laboriosos estudos, e não absorverão menos de dez anos; ora, os da Sociedade não deixam de tomar muito tempo, seja para a preparação, seja para a coordenação e a cópia correta. Por outro lado, eles reclamam uma assiduidade freqüentemente prejudicial às minhas ocupações pessoais, e que tomam indispensável a iniciativa, quase exclusiva, que me deixastes. Foi por causa disso, Senhores, que tive que tomar tão freqüentemente a palavra, lamentando a miúdo que os membros eminentemente esclarecidos que possuímos nos privassem de suas luzes. Já há muito tempo tinha o desejo de demitir-me de minhas funções; eu o expressei, de um modo muito explícito, em diversas circunstâncias, seja aqui, seja em particular a vários de meus colegas, e notadamente ao senhor Ledoyen. Tê-lo-ia feito mais cedo sem o temor de trazer perturbação à Sociedade, retirando-me ao meio do ano, podendo se crer em uma defecção; e não era necessário dar essa satisfação aos nossos adversários. Portanto, deveria cumprir minha tarefa até o fim; mas hoje, quando esses motivos não mais existem, apresso-me em vos participar a minha resolução, a fim de não entravar a escolha que fareis. É justo que cada um tenha sua parte de encargos e de honras.

Depois de um ano, a Sociedade viu crescer rapidamente sua importância; o número de membros titulares triplicou em alguns meses; tendes numerosos correspondentes nos dois continentes, e os auditores ultrapassariam o limite do possível se não se pusesse um freio pela estrita execução do regulamento. Contastes, entre estes últimos, as mais altas notabilidades sociais e mais de uma ilustração. O zelo que se toma em solicitar admissão em vossas sessões testemunha o interesse que se tem por elas, não obstante a ausência de toda experimentação destinada a satisfazer a curiosidade, e talvez mesmo em razão de sua simplicidade.

” Se todos não saem dela convencidos, o que seria pedir o impossível, as pessoas sérias, aquelas que não vêm com uma intenção de difamação, levam da gravidade dos vossos trabalhos uma impressão que as dispõem a aprofundar essas questões. De resto, não temos senão que aplaudir as restrições que colocamos para a admissão de ouvintes estranhos: evitamos assim a massa de curiosos importunes. A medida com a qual limitastes essa admissão a certas sessões, reservando as outras unicamente para os membros da Sociedade, resultou por vos dar maior liberdade nos estudos, que a presença de pessoas ainda não iniciadas e cujas simpatias não estão asseguradas, poderiam entravar.

Essas restrições parecerão muito naturais para aqueles que conhecem o objetivo da nossa instituição, e que sabem, antes de tudo, que somos uma Sociedade de estudos e de pesquisas, antes que uma arena de propaganda; por essa razão não admitimos, em nossas fileiras, aqueles que, não tendo as primeiras noções da ciência, nos fariam perder nosso tempo em demonstrações elementares, renovadas incessantemente. Sem dúvida, todos nós desejamos a propagação das idéias que professamos, porque as julgamos úteis, e cada um de nós nisso contribui com a sua parte; mas sabemos que convicção não se adquire senão por observações continuadas, e não por alguns fatos isolados, sem seqüência e sem raciocínio, contra os quais a incredulidade sempre pode levantar objeções. Um fato, dir-se-á, é sempre um fato; é um argumento sem réplica. Sem dúvida, quando ele não é nem contestado e nem contestável.

Quando um fato sai do círculo das nossas idéias e dos nossos conhecimentos, à primeira vista parece impossível; quanto mais ele é extraordinário, mais objeções levanta, por isso é contestado; aquele que lhes sonda as causas, que se dá conta dele, encontra-lhe uma base, uma razão de ser; compreende-lhe a possibilidade, e, desde então, não o rejeita mais. Um fato, freqüentemente, não é inteligível senão pela sua ligação com outros fatos; tomado isoladamente, pode parecer estranho, incrível, absurdo mesmo; mas que seja um dos anéis da cadeia, que tenha uma base racional, que se possa explicá-lo, e toda a anomalia desaparece. Ora, para conceber esse encadeamento, para compreender esse conjunto ao qual se é conduzido de conseqüência em conseqüência,  é necessário em todas as coisas, e talvez ainda mais em Espiritismo, uma seqüência de observações racionais.

O raciocínio, portanto, é um poderoso elemento de convicção, hoje mais que nunca, quando as idéias positivas nos levam a saber o por quê e o como de cada coisa.

Espanta-se com a persistente incredulidade, em matéria de Espiritismo, da parte de pessoas que viram, ao passo que outras, que nada viram, são crentes firmes; quer dizer que estes últimos são pessoas superficiais que aceitam, sem exame, tudo o que se lhes diz? Não; pelo contrário: os primeiros viram, mas mas não compreendem; os segundos não viram, mas compreendem, e não compreendem senão pelo raciocínio.

O conjunto dos raciocínios sobre os quais se apóiam os fatos, constitui a ciência, ciência ainda muito imperfeita, é verdade, e da qual nenhum de nós pretende ver atingir o apogeu, mas, enfim, é uma ciência em seu início, e é na direção da pesquisa de tudo que pode ampliá-la e constituí-la que estão dirigidos vossos estudos. Eis o que importa se saiba bem fora desse recinto, a fim de que não se equivoque sobre os objetivos que nos propusemos; a fim de que não se creia, sobretudo, vindo aqui, encontrar uma exibição de Espíritos dando-se em espetáculos. A curiosidade tem um termo; quando está satisfeita, procura um novo objeto de distração; aquele que não se detém na superfície, que vê além do efeito material, encontra sempre alguma coisa para aprender; o raciocínio é para ele  uma  mina  inesgotável:  é sem  limite. Nossa linha de conduta, aliás, poderia ser melhor traçada pelas admiráveis palavras que o Espírito de São Luís nos dirigiu, e que não deveríamos jamais perder de vista: “Zombou-se das mesas girantes, não se zombará jamais da filosofia, da sabedoria e da caridade que brilham  nas comunicações sérias. Que alhures se veja, que em outro lugar se ouça, que entre vós se compreenda e se ame.”

Essas palavras: que entre vós se compreenda, são todo um ensinamento. Devemos compreender, e procuramos compreender, porque não queremos crer como cegos: o raciocínio é o facho que nos guia. Mas o raciocínio de um só pode se extraviar, por isso quisemos nos reunir em sociedade, a fim de nos esclarecermos mutuamente pelo concurso recíproco de nossas idéias e de nossas observações. Colocando-nos nesse terreno, assemelhamo-nos a todas as outras instituições científicas, e nossos trabalhos farão mais prosélitos sérios do que se passássemos nosso tempo fazendo girar e bater as mesas. Logo estaríamos saciados; queremos para o nosso pensamento um alimento mais sólido, eis porque procuramos penetrar os mistérios do mundo invisível, cujos fenômenos elementares não são senão os primeiros indícios. Aquele que que sabe ler, diverte-se repetindo, sem cessar, o alfabeto? Teríamos talvez um maior concurso de curiosos que se sucederiam em nossas sessões como os personagens de um panorama móvel, mas esses curiosos, que não poderiam levar uma convicção improvisada pela visão de um fenômeno inexplicável para eles, que o julgariam sem aprofundá-lo, seriam antes um obstáculo aos nossos trabalhos; eis porque, não querendo desviar de nosso caráter cientifico, afastamos quem não é atraído para nós por um objetivo sério. Ó Espiritismo tem conseqüências tão graves, e toca questões de uma tão grande importância, dá a chave de tantos problemas, nele haurimos, enfim, um tão profundo ensinamento filosófico, que ao lado disso, uma mesa girante é uma verdadeira infantilidade.

A observação dos fatos sem o raciocínio é insuficiente, dizemos, para conduzir a uma convicção completa, e é de preferência àquele  que  se  declarasse convencido por  um  fato que  não compreende, que se poderia taxar de leviandade; mas essa maneira de proceder tem um outro inconveniente, que é bom mencionar, e cada um de nós pôde testemunhar, é a mania da experimentação, que lhe é a conseqüência natural. Aquele vê um fato espírita sem dele ter estudado todas as circunstâncias, geralmente, não vê senão o fato material, e desde então o julga sob o ponto de vista de suas próprias idéias, sem pensar que fora das leis conhecidas pode, e deve, haver leis desconhecidas. Crê poder fazê-lo manobrar à sua vontade; impõe suas condições e não estará convencido, diz, senão quando se cumpre de tal modo e não de tal outro; ele imagina que se experimenta os Espíritos igual a uma pilha elétrica, não conhecendo nem sua natureza, nem sua maneira de ser que não estudou, crê poder impor-lhe sua vontade, e pensa que devem agir ao sinal dado pelo seu bom prazer de convencer-se; porque está disposto, por um quarto de hora, ouvi-los, se imagina que devem estar às suas ordens. São os erros nos quais não caem aqueles que se dão ao trabalho de se aprofundar; sabem render-se conta dos obstáculos e não pedem o impossível; em lugar de querem conduzir os Espíritos ao seu ponto de vista, ao que não se prestam de boa vontade, colocam-se no ponto de vista dos Espíritos, e para eles os fenômenos mudam de aspecto. Para isso são necessárias a paciência, a perseverança, e uma firme vontade, sem a qual não se chega a nada.

Quem quer realmente saber,  deve  submeter-se às  condições da coisa,  e  não querer submeter a coisa às suas próprias condições. Eis porque a Sociedade não se presta a experimentação que seriam sem resultados,   porque  sabe,  pela experiência,  que  o  Espiritismo, não mais que  toda ciência,  não se aprende em algumas horas e com presteza. Como ela é séria, não quer ter negócios senão com pessoas sérias, que compreendem as obrigações que um semelhante estudo impõe, quando se quer fazê-lo conscientemente. Ela não reconhece como sérios aqueles que dizem: Fazei-me ver um fato e estarei convencido.

Isso quer dizer que negligenciamos o fato? Muito ao contrário, uma vez que toda a nossa ciência está  baseada sobre os fatos; procuramos, pois, diligentemente todos aqueles que nos oferecem um objeto de estudo, ou que confirmam princípios admitidos; quero dizer somente que não perdemos nosso tempo reproduzindo aqueles que conhecemos, não mais do que o físico não se diverte se repetindo as experiências que nada lhe ensinam de novo. Centramos nossas investigações sobre tudo aquilo que pode esclarecer nossa marcha; ligando-nos de preferência às comunicações inteligentes, fontes da filosofia espirita, e cujo campo é sem limites, bem mais do que as manifestações puramente materiais, que não têm senão o interesse do momento.

Dois sistemas igualmente preconizados e praticados se apresentam no modo de se receberem as comunicações de além-túmulo; uns preferem esperar as comunicações espontâneas, os outros as provocam por uma chamada direta feita a tal ou tal Espírito. Os primeiros pretendem que na ausência de controle para constatar a identidade dos Espíritos, esperando sua boa vontade, se está menos exposto a ser induzido em erro, já que aquele que fala é porque quer falar, ao passo que não é certo que aquele que se chama possa vir ou responder. Objetam que deixar falar o primeiro que aparece, é abrir a porta aos maus tão bem quanto aos bons. A incerteza da identidade não é objeção séria, pois que, freqüentemente, existem meios de constatá-la, e que, aliás, essa constatação é o objeto de um estudo que se prende aos próprios princípios da ciência; o Espírito que fala espontaneamente se encerra, o mais ordinariamente, em generalidades, ao passo que as perguntas lhe traçam um quadro mais positivo e mais instrutivo. Quanto a nós, não condenamos senão os sistemas exclusivos; sabemos que se obtêm coisas muito boas por um e por outro modo, e se damos a preferência ao segundo, é porque a experiência nos ensinou que, nas comunicações espontâneas, os Espíritos enganadores não deixam de se ornamentar com nomes respeitáveis do que nas evocações; eles têm mesmo o campo mais livre, ao passo que pelas perguntas são dominados, são dirigidos mais facilmente, sem contar que as perguntas são de uma utilidade incontestável nos estudos. É a esse modo de investigações que devemos a multidão de observações que recolhemos, a cada dia, que nos fazem penetrar mais profundamente esses estranhos mistérios. Quanto mais nós avançamos, mais o horizonte aumenta diante de nós, e nos mostra o quanto é vasto o campo que temos a ceifar.

As numerosas observações que fizemos permitiram levar um olhar investigador sobre o mundo invisível, desde a base até o cume, quer dizer, no que He tem de mais ínfimo como no que tem de mais sublime. Ás inumeráveis variedades de fatos e de caracteres que saíram desses estudos, feitos com a calma profunda, a atenção sustentada e a prudente circunspeção de observadores sérios, nos abriram os arcanos desse mundo tão novo para nós; a ordem e o método que colocastes em vossas pesquisas foram os elementos indispensáveis para o sucesso. Com efeito, sabeis, pela experiência, que não basta chamar ao acaso o Espírito de tal ou tal pessoa; os Espíritos não vêm, assim, ao sabor de nosso capricho e não respondem a tudo aquilo que a fantasia nos leva a perguntar-lhes. É necessário, com os seres de além-túmulo, circunspeção, saber ter uma linguagem apropriada à sua natureza, às suas qualidades morais, ao grau de sua inteligência, à classe que eles ocupam; estar com eles, dominador ou submisso, segundo as circunstâncias, compadecente por aqueles que sofrem, humilde e respeitoso com os superiores, firme com os maus e os obstinados que não subjugam senão aqueles que os escutam com complacência; é necessário, enfim, saber formular e encadear, metodicamente, as perguntas para obter respostas mais explícitas, agarrar nas respostas as nuanças que são, freqüentemente, traços característicos, revelações importantes, que escapam ao observador superficial, sem experiência ou de passagem. A maneira de conversar com os Espíritos é, pois, uma verdadeira arte que exige tato ou conhecimento do terreno sobre o qual se caminha, e constitui, propriamente falando, o Espiritismo prático. Sabiamente dirigidas, as evocações podem ensinar grandes coisas; oferecem um poderoso elemento de interesse, de moralidade e de convicção: de interesse, porque elas nos dão a conhecer o estado do mundo que espera todos nós, e do qual se faz, algumas vezes, uma idéia tão bizarra; de moralidade, porque podemos ver aí, por analogia, nossa sorte futura; a convicção, porque se encontra nessas conversações íntimas a prova manifesta da existência e da individualidade dos Espíritos, que não são outros senão nossas almas desligadas da matéria terrestre. Estando formada, em geral, vossa opinião sobre o Espiritismo, não tendes necessidade de assentar vossas convicções sobre a prova material das manifestações físicas; também não quisestes, segundo o conselho dos Espíritos, encerrarvos nos estudos dos princípios e das questões morais, sem negligenciar, por isso, o exame dos fenômenos que podem ajudar na procura da verdade.

A crítica demolidora nos censurou por aceitarmos, muito facilmente, as doutrinas de certos Espíritos, sobretudo naquilo que concerne às questões científicas. Essas pessoas mostram, por isso mesmo, que elas não conhecem nem o verdadeiro objetivo da ciência espírita, nem aquele que nos propusemos e se pode, com todo o direito, retornar-lhe a censura de leviandade em seu julgamento. Certamente não é a vós que é necessário ensinar a reserva com a qual se deve acolher o que vem dos Espíritos; e estamos longe de tomar todas as suas palavras por artigos de fé. Sabemos que entre eles existem os de todos os graus de saber e de moralidade; para nós é todo um povo que apresenta variedades cem vezes mais numerosas que aquelas que vemos entre os homens; é chegar a conhecê-lo e compreendêlo; por isso, estudamos as individualidades, observamos as nuanças, tratamos de compreender os traços distintivos de seus costumes, de seus hábitos, de seu caráter; queremos, enfim, tanto quanto possível, nos identificar com o estado desse mundo. Antes de ocupar uma residência, gostamos muito de saber como ela é, se estaremos ali comodamente, conhecer os hábitos dos vizinhos que teremos, o gênero de sociedade que ali poderemos freqüentar. Pois bem! É nossa residência futura, são os costumes do povo no meio do qual viveremos, que os Espíritos nos fazem conhecer. Mas, do mesmo modo que, entre nós, as pessoas ignorantes e de visão estreita se fazem uma idéia incompleta do nosso mundo material e do meio que não seja o seu, do mesmo modo os Espíritos cujo horizonte moral é limitado, não podem abarcar o conjunto, e estão ainda sob o império de preconceitos e de sistemas; não podem, pois, nos informar, sobre tudo o que concerne ao mundo espírita, mais do que um camponês poderia fazê-lo quanto ao estado da alta sociedade parisiense ou do mundo sábio. Seria, pois, ter de nosso julgamento uma bem pobre opinião, pensando-se que escutamos todos os Espíritos como oráculos. Os Espíritos são o que são, e não podemos mudar a ordem das coisas; não sendo todos perfeitos, não aceitamos suas palavras senão sob o benefício de inventário, e não com a credulidade de crianças; julgamos, comparamos, tiramos conseqüências de nossas observações, e seus próprios erros são para nós ensinamentos, porque não renunciamos ao nosso discernimento.

Essas observações se aplicam igualmente a todas as teorias científicas que os Espíritos possam dar. Seria muito cômodo não ter senão que interrogá-los para encontrar a ciência toda pronta, e para possuir os segredos da indústria: não adquiriremos a ciência senão ao preço de trabalho e de pesquisas; sua missão não é nos livrar dessa obrigação. Aliás, sabemos que não só nem todos sabem tudo, mas que há, entre eles, falsos sábios, como entre nós, que crêem saber o que não sabem, e falam daquilo que ignoram com o descaramento mais imperturbável. Um Espírito poderia dizer, pois, que é o Sol que gira e não a Terra, e sua teoria não seria mais verdadeira porque vinda de um Espírito. Que aqueles que nos supõem uma credulidade tão pueril, saibam, pois, que tomamos toda opinião manifestada por um Espírito por uma opinião individual; que não a aceitamos senão depois de tê-la submetido ao controle da lógica e dos meios de investigação que a própria ciência espírita nos fornece, meios que todos vós conheceis.

Tal é, senhores, o objetivo que a Sociedade se propõe; certamente, não me cabe vo-lo ensinar, mas alegro-me em lembrá-lo aqui, a fim de que, se minhas palavras ressoarem lá fora, não se equivoquem mais sobre o seu verdadeiro caráter. Estou feliz, de minha parte, por não haver senão que seguir-vos nesse caminho sério que eleva o Espiritismo à categoria de ciência filosófica. Vossos trabalhos já deram frutos, mas os que darão mais tarde são incalculáveis, se, como disso não duvido, permanecerdes nas condições propícias para atrair os bons Espíritos entre vós.

O concurso dos bons Espíritos, tal é, com efeito, a condição sem a qual ninguém pode esperar a verdade; ora, depende de nós obter esse concurso.

A primeira de todas as condições para conciliar sua simpatia, é o recolhimento e a pureza de intenções.

Os Espíritos sérios vão onde são chamados com seriedade, com fé, fervor e confiança; não gostam de servir para experiência, nem se darem em espetáculo; ao contrário, comprazem-se em instruir aqueles que os interrogam sem segunda intenção; os Espíritos leviamos, que zombam de tudo, vão por toda parte e de preferência onde encontram ocasião para mistificarem; os maus são atraídos pelos maus pensamentos, e por maus pensamentos é preciso entender todos aqueles que não estejam conforme os princípios da caridade evangélica. Portanto, em toda reunião, quem carregue consigo sentimentos contrários a esses preceitos, conduz consigo Espíritos desejosos de semearem a perturbação, a discórdia e a desafeição.

A comunhão de pensamentos e de sentimentos para o bem é, assim, uma coisa de primeira necessidade, e essa comunhão não pode encontrar-se num meio heterogêneo, onde teriam acesso as baixas paixões do orgulho, da inveja e do ciúme, paixões que sempre se trairiam pela malevolência e pela acrimônia da linguagem, por espesso que seja, aliás, o véu com o qual se procure cobri-las; é o a, b, c, da ciência espírita. Se quisermos fechar, aos maus Espíritos, as portas deste recinto fechado, cerremos-lhes primeiro a porta de nossos corações, e evitaremos tudo o que poderia dar-lhes presa sobre nós. Se alguma vez a Sociedade tornar-se o joguete de Espíritos enganadores, por quem seriam ali atraídos? Por aqueles em quem encontrassem eco, porque não vão senão aonde sabem ser escutados. Conhece-se o provérbio:

Dize-me com quem andas, dir-te-ei as manhas que tens; e que se pode indagar assim com respeito aos nossos Espíritos simpáticos: Dize-me o que pensas, e dir-te-ei com quem andas. Ora, os pensamentos se traduzem pelos atos; portanto, admitindose que a discórdia, o orgulho, a inveja e o ciúme não podem ser insuflados senão pelos maus Espíritos, quem trouxesse aqui esses elementos de desunião, suscitaria entraves, acusaria, por isso mesmo, a natureza de seus satélites ocultos, e não poderíamos senão lamentar sua presença no seio da Sociedade.

Queira Deus que ela jamais seja assim, eu o espero, e com a assistência dos bons Espíritos, se soubermos nos tornar favoráveis, a Sociedade se consolidará, tanto pela consideração que saberá merecer quanto pela utilidade de seus trabalhos. Se não tivéssemos em vista senão experiências de curiosidade, a natureza das comunicações seria quase indiferente, porque não as tomaríamos sempre senão por aquilo que seriam; mas como, em nossos estudos, não procuramos nem nossa diversão, nem a do público, o que queremos são comunicações verdadeiras; para isso ser-nos-á necessária a simpatia dos bons Espíritos, e essa simpatia não é adquirida senão por aqueles que afastam o mal na sinceridade de sua alma. Dizer que os Espíritos levianos jamais puderam se introduzir entre nós, favorecidos por algum ponto fraco, seria muita presunção e pretender a perfeição; os próprios Espíritos superiores poderiam permiti-lo para experimentarem nossa perspicácia e nosso zelo na procura da verdade; mas nosso julgamento deve manter-nos em guarda contra as armadilhas que podem nos ser estendidas, e nos dá, em todos os casos, os meios para evitá-las.

O objetivo da Sociedade não consiste somente na pesquisa dos princípios da ciência espírita; vai mais longe: ela estuda também suas conseqüências morais, porque aí sobretudo está a verdadeira utilidade.

Nossos estudos nos ensinam que o mundo invisível que nos cerca reage, constantemente, sobre o mundo visível; eles no-lo mostram como uma das forças da Natureza; conhecer os efeitos dessa força oculta que nos domina e nos subjuga com o nosso desconhecimento, não é ter a chave de mais de um problema, a explicação de uma multidão de fatos que passam despercebidos? Se esses efeitos forem funestos, conhecer a causa do mal não seria ter o meio de preservar-se deles, como o conhecimento das propriedades da eletricidade nos deu o meio de atenuar os efeitos desastrosos do raio? Se sucumbirmos, então, não nos poderemos queixar senão de nós mesmos, porque não mais teremos a ignorância por desculpa. O perigo está no império que os maus Espíritos tomam sobre os indivíduos, e esse império não é apenas funesto do ponto de vista dos erros de princípios que possam propagar, mas o é, ainda, do ponto de vista dos interesses da vida material.

A experiência nos ensina que jamais é impunemente que se abandona à sua dominação; porque suas intenções nunca podem ser boas. Uma de suas táticas, para alcançar seus fins, é a desunião, porque sabem muito bem que dominarão facilmente aquele que estiver privado de apoio; também seu primeiro cuidado, quando querem se apossar de alguém, é o de sempre inspirar-lhe a desconfiança e o distanciamento de quem possa desmascará-los, esclarecendo-o com conselhos salutares; uma vez senhores do terreno, podem, à sua vontade, fasciná-lo com promessas sedutoras, subjugá-lo gabando suas inclinações, aproveitando, para isso, todos os lados fracos que encontram, para melhor fazê-lo sentir, em seguida, a amargura das decepções, feri-lo em suas afeições, humilhá-lo em seu orgulho, e, freqüentemente, não elevá-lo um instante senão para precipitá-lo de mais alto.

Eis, senhores, o que nos mostram os exemplos que, a cada instante, se desenrolam aos nossos olhos, tanto no mundo dos Espíritos quanto no mundo corpóreo, os quais podemos aproveitar para nós mesmos, ao mesmo tempo que procuramos aproveitá-los aos outros. Mas, dir-se-á, não atraireis os maus Espíritos evocando homens que foram a escória da sociedade? Não, porque não sofreremos jamais sua influência.

Não há perigo senão quando é o Espírito que se IMPÕE, ele jamais existe quando se IMPÕE ao Espírito.

Sabeis que esses Espíritos não vêm ao nosso chamado senão como constrangidos e forçados, e que, em geral, encontram tão pouco do seu meio entre nós, que sempre têm pressa de se irem. Sua presença é para nós um estudo, porque, para conhecer, é necessário ver tudo; o médico não chega ao apogeu do seu saber senão sondando as feridas mais hediondas; ora, essa comparação do médico é tanto mais justa quando sabeis quantas feridas cicatrizamos, quantos sofrimentos aliviamos; nosso dever é mostrar-nos caridosos e benevolentes para com os seres de além-túmulo, como para os nossos semelhantes.

Desfrutaria eu, pessoalmente, senhores, de um privilégio extraordinário se estivesse ao abrigo da crítica. Ninguém se coloca em evidência sem se expor aos dardos daqueles que não pensam como nós.

Mas há duas espécies de críticos:

uma que é malevolente, acerba, envenenada, onde o ciúme se trai a cada palavra; a que tem por objetivo a procura sincera da verdade, e comportamentos diferentes. A primeira não merece senão o desdém: com ela jamais me atormentei; só a segunda é discutível.

Algumas pessoas disseram que fui muito apressado nas teorias espíritas; que não chegara o tempo de estabelecê-las, que as observações não eram bastante completas. Permiti-me algumas palavras a esse respeito.

Duas coisas devem ser consideradas no Espiritismo: a parte experimental e a parte filosófica ou teórica. Fazendo-se abstração do ensinamento dado pelos Espíritos, pergunto se, em meu nome, não tenho o direito, como tantos outros, de elocubrar um sistema de filosofia? O campo das opiniões não está aberto a todo o mundo? Por que, pois, não faria conhecer a minha? Caberá ao público julgar se ela tem ou não o senso comum. Mas essa teoria, em lugar de fazer um mérito, se mérito há, eu declaro que ela emana inteiramente dos Espíritos. – Seja, diz-se, mas ides muito longe. – Aqueles que pretendem dar a chave dos mistérios da criação desvendaram o princípio das coisas e a natureza infinita de Deus, não vão mais longe que eu, que declaro, em nome dos Espíritos, que não é dado ao homem aprofundar essas coisas sobre as quais não se pode estabelecer senão conjecturas mais ou menos prováveis? – Ides muito depressa. – Seria um erro terem certas pessoas avançado? Aliás, quem as impede de caminhar? – Os fatos não estão ainda suficientemente observados. – Mas se eu, com ou sem razão, creio tê-los observado bastante, devo esperar o bom prazer daqueles que permanecem atrás? Minhas publicações não barram o caminho de ninguém. – Uma vez que os Espíritos estão sujeitos ao erro, quem vos disse que aqueles que vos informaram não estão enganados? – Com efeito, aí está toda a questão, porque a da precipitação é muito pueril. Pois bem!

Devo dizer sobre o que está fundada a minha confiança na veracidade e na superioridade dos Espíritos que me instruíram. Direi primeiro que, segundo o seu conselho, não aceito nada sem exame e sem controle; não adoto uma idéia senão se ela me parece racional, lógica e está de acordo com os fatos e as observações, se nada sério vem contradizê-la. Mas meu julgamento não poderia ser um critério infalível; o assentimento que encontrei numa multidão de pessoas mais esclarecidas do que eu, é para mim uma primeira garantia; encontro uma outra, não menos preponderante, no caráter das comunicações que me fizeram desde que me ocupo com o Espiritismo. Nunca, posso dizê-lo, escapou uma única dessas palavras, um único desses sinais pelos quais se traem sempre os Espíritos inferiores, mesmo os mais astuciosos; jamais dominação; jamais conselhos equivocados ou contrários à caridade e à benevolência, jamais   prescrições   ridículas;   longe   disso,   não   encontrei   neles senão pensamentos grandes, nobres, sublimes, isentos de pequenez e mesquinharia; em uma palavra, suas relações comigo, nas menores, como nas maiores coisas sempre foram tais que se fora um homem que houvesse falado, tê-lo-ia pelo melhor, o mais sábio, o mais prudente, o mais moral e o mais esclarecido. Eis, senhores, os motivos de minha confiança, corroborados pela identidade de ensinamentos dados a uma multidão de outras pessoas antes e depois da publicação de minhas obras. O futuro dirá .se estou ou não com a verdade; à espera, creio dever ajudar o progresso do Espiritismo trazendo algumas pedras ao edifício. Mostrando que os fatos podem se assentar sobre o raciocínio, terei contribuído para fazê-los sair do caminho frívolo da curiosidade, para fazê-los entrar na via séria da demonstração, a única que pode satisfazer os homens que pensam e não se detêm na superfície.

Termino, senhores, pelo curto exame de uma questão da atualidade. Fala-se de outras sociedades que querem se levantar rivalizando com a nossa.

Uma, diz-se, conta já com 300 membros e possui recursos financeiros importantes. Quero crer que isso não seja uma fanfarrice, que seria também pouco lisonjeira para os Espíritos que a houvessem suscitado, como para aqueles que deles se fazem os ecos. Se for uma realidade, nós a felicitaremos sinceramente, se ela obtiver a unidade de sentimentos necessária para frustrar a influência dos maus Espíritos e consolidar a sua existência.

Ignoro completamente quais são os elementos da sociedade, ou das sociedades, que se diz querer formar; não farei, pois, senão uma nota geral.

Há em Paris e alhures uma multidão de reuniões íntimas, como foi a nossa outrora, onde se ocupa, mais ou menos seriamente, das manifestações espíritas, sem falar dos Estados Unidos, onde elas se contam por milhares; conheço-as onde as evocações se fazem nas melhores condições e onde se obtêm coisas muito notáveis; é a conseqüência natural do número crescente de médiuns que se desenvolvem em todos os lados, apesar dos galhofeiros, e quanto mais avançarmos, mais esses centros se multiplicarão. Esses centros, formados espontaneamente de elementos muito pouco numerosos e variáveis, nada de têm de fixo ou de regular e, propriamente falando, não constituem sociedades. Para uma sociedade regularmente organizada, são necessárias condições de vitalidade muito diferentes, em razão mesmo do número de membros que a compõem, da estabilidade e da permanência. A primeira de todas é a homogeneidade nos princípios e na maneira de ver. Toda sociedade formada por elementos heterogêneos, carrega consigo o germe de sua dissolução; pode-se dize-la natimorta qualquer que lhe seja o objeto: político, religioso, científico ou econômico.

Uma sociedade espírita requer uma outra condição, que é a assistência dos bons Espíritos, querendo-se obter comunicações sérias, porque dos maus, deixando que tomem pé, não podemos esperar senão mentiras, decepções e mistificações; sua própria existência tem esse preço, uma vez que os maus serão os primeiros agentes de sua destruição; eles a minarão pouco a pouco, se não fizerem desabar tudo primeiro. Sem homogeneidade, nada de comunhão de pensamentos, e, portanto, nada de calma, nem de recolhimento possíveis; ora, os bons não vão senão ali onde encontram essas condições; e como encontrá-los numa reunião onde as crenças são divergentes, onde uns não crêem mesmo em tudo, e onde, conseqüentemente, domina sem cessar o espírito de oposição e de controvérsia? Eles não assistem senão aqueles que querem ardentemente se esclarecer, tendo em vista o bem, sem segunda intenção, e não para satisfazer uma vã curiosidade. Querer formar uma sociedade espírita fora dessas condições, seria dar prova de ignorância, a mais absoluta, dos princípios mais elementares do Espiritismo.

Somos nós, pois, os únicos capazes de reuni-los? Seria bem deplorável, e além do mais, bem ridículo para nós assim crer. O que fizemos, seguramente, outros podem fazê-lo.

Que outras Sociedades se ocupem, pois, dos mesmos trabalhos nossos, que prosperem, que se multipliquem, tanto melhor, mil vezes tanto melhor, porque será um sinal de progresso nas idéias morais; tanto melhor, sobretudo, se forem bem assistidas e tiverem boas comunicações, porque não temos a pretensão de um privilégio a esse respeito; como não temos em vista senão nossa instrução pessoal e o interesse da ciência, que nossa sociedade não oculta nenhum pensamento de especulação nem direto e nem indireto, nenhuma via ambiciosa, que sua existência não repousa sobre uma questão de dinheiro, as outras Sociedades serão para nós irmãs, mas não podem ser concorrentes; se delas tivermos ciúmes, provaremos que estamos assistidos por maus Espíritos. Se uma delas se formasse tendo em vista criar-nos uma rivalidade, com a segunda intenção de nos suplantar, ela revelaria por seu próprio objetivo à natureza dos Espíritos que presidiram sua formação, porque esse pensamento não seria nem bom nem caridoso, e os bons Espíritos não simpatizam com os sentimentos de ódio, de ciúmes e de ambição.

Temos, de resto, um meio infalível de não temer nenhuma rivalidade; foi São Luís quem nolo deu: Que entre vós vos compreendais e vos ameis, disse-nos. Trabalhemos, pois, para compreender; lutemos com os outros, mas lutemos com caridade e abnegação. Que o amor ao próximo esteja inscrito em nossa bandeira e seja a nossa divisa; com isso afrontaremos o escárnio e a influência dos maus Espíritos. Nesse terreno, podem nos igualar, e tanto melhor, porque serão irmãos que nos chegarão, mas depende de nós não estarmos nunca ultrapassados.

Mas, dir-se-á, tendes uma maneira de ver que não é a nossa; não podemos simpatizar com princípios que não admitimos, porque nada prova que estais com a verdade. A isso eu respondo: Nada prova que estejais mais do que nós na verdade, porque duvidais ainda, e a dúvida não é uma doutrina. Pode-se diferir de opinião sobre pontos da ciência, sem se morder e se atirar a pedra; é mesmo muito pouco digno e muito pouco científico fazê-lo. Procurai, pois, de vossa parte como procuramos da nossa; o futuro dará razão a quem tem direito. Se nos enganamos, não teremos o tolo amor próprio de nos obstinar em idéias falsas; mas há princípios sobre os quais se está certo de não se enganar: são o amor ao bem, a abnegação, a abjuração de todo sentimento de inveja e de ciúme; esses princípios são os nossos, e com esses princípios pode-se simpatizar sempre sem se comprometer; é o laço que deve unir todos os homens de bem, qualquer que seja a divergência de suas opiniões: só o egoísmo coloca entre eles uma barreira intransponível.

Tais são, Senhores, as observações que acreditei dever vos apresentar, deixando as funções que me confiastes; agradeço do fundo do coração todos aqueles que consentiram em me darem testemunhos de sua simpatia. Chegue onde chegar, minha vida está consagrada à obra que empreendemos, e ficarei feliz se meus esforços puderem ajudar a fazê-la entrar no caminho sério que é a sua essência, o único que poderá assegurar seu futuro. O objetivo do Espiritismo é de tornar melhores aqueles que o compreendem; tratemos de dar o exemplo e de mostrar que, para nós, a doutrina não é letra morta; em uma palavra, sejamos dignos dos bons Espíritos, se quisermos que os bons Espíritos nos assistam. O bem é uma couraça contra a qual virão sempre se quebrar as armas da malevolência.

 

ALLAN KARDEC.Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

O major Georges Sydenham

Encontramos o relato seguinte de uma coleção notável de histórias autênticas de aparições e outros fenômenos espíritas, publicados em Londres em 1682, pelo reverendo J. Granville e o doutor H. More. Está intitulado: Aparição do Espírito do major Georges Sydenham ao capitão V. Dyke, extraída de uma carta do senhor Jacques Douge, de Mongton, ao senhor J. Granville.

— Pouco tempo depois da morte do major Georges, o doutor Th. Dyke, parente próximo do capitão, foi chamado para cuidar de uma criança doente. O doutor e o capitão deitaram-se na mesma cama. Quando tinham dormido um pouco, o capitão bateu e ordenou às suas domésticas para levar-lhe duas velas acesas, as maiores e as mais grossas que pudessem encontrar. O doutor lhe perguntou o que isso significava. “Conheceis, disse o capitão, minhas discussões com o major, no que se refere à existência de Deus e à imortalidade da alma: não pudemos nos esclarecer sobre esse dois pontos, e embora o tivéssemos sempre desejado.

“Ficou, pois, convencionado que aquele que de nós dois que morresse primeiro, viria, na
terceira noite depois de seus funerais, entre minuto e uma hora, no jardim desta pequena casa, e aí esclarecesse a sobrevivência a esse respeito. Será hoje mesmo, acrescentou o capitão, que o major deverá cumprir sua promessa.” Em conseqüência, colocou seu relógio de bolso junto dele, e às onze e meia levantou-se, tomou uma vela em cada mão, saiu por uma porta do fundo, da qual levou a chave, e assim passeou no jardim durante duas horas e meia. No seu retorno, declarou ao doutor que nada viu, nem nada ouviu que não fosse muito natural; mas, acrescentou-me, sei que meu major viria se pudesse.

Seis semanas depois, seguiu para Eaton para ali colocar seu filho na escola, e o doutor foi
com ele. Alojaram-se no albergue com a insígnia de São Cristóvão, e permaneceram dois ou três dias, mas não deitaram juntos como em Dulversan; estavam em dois quartos separados.

Uma manhã, o capitão ficou mais tempo, do que de costume, em seu quarto, antes de chamar o doutor. Enfim, ele entrou no quarto desse último, o rosto todo transtornado, os
cabelos eriçados, os olhos desvairados e o corpo todo tremente. – Que houve, pois, primo capitão? Disse o doutor. O capitão respondeu: Eu o vi meu major. – O doutor pareceu sorrir. Eu vos afirmo que jamais o vi na minha vida ou vi-o hoje. Fez-me, então, a seguinte narração: “Esta manhã, ao romper do dia, alguém veio ao lado de minha cama, arrancou as cobertas, gritando: cap, cap (era o termo familar do major, para chamar o capitão.) – Eu respondi: O que! meu major? – Ele respondeu: Não pude vir no dia dito; mas agora heis-me e vos digo: Há um Deus, e um muito justo e terrível; se não mudardes de pele, vereis quando aí estiverdes! – Sobre a mesa havia uma espada que o major me havia dado; quando este deu duas ou três voltas no quarto, pegou a espada, tirou-a da bainha, e não a encontrando tão brilhante como deveria estar: Cap, cap, disse ele, esta espada estava melhor cuidada quando era minha. – Com essas palavras, ele desapareceu de repente.”

O capitão não somente ficou perfeitamente persuadido da realidade do que havia visto e
ouvido, mas ainda ficou, depois desse tempo, muito mais sério. Seu caráter, outrora leviano e jovial, foi notavelmente modificado. Quando ele convidava seus amigos, tratava-os com nobreza, mas mostrava-se forte sobre si mesmo. As pessoas que o conheciam asseguram que ele acreditava ouvir, freqüentemente, em seus ouvidos, as palavras do major, durante os dois anos que viveu depois dessa aventura.

ALLAN KARDEC.

 

 

Variedades

Revista Espírita, junho de 1859 A princesa de Rebinine.

(Extraído do Courrier de Paris), de maio de 1859.)

Sabeis que todos os sonâmbulos, todas as mesas girantes, todos os pássaros magnetizados, todos os lápis simpáticos e todos os tiradores de cartas predisseram a guerra desde há muito tempo?… Profecias nesse sentido foram feitas a uma multidão de personagens importantes que, fingindo tratar muito ligeiramente essas supostas revelações do mundo sobrenatural, não deixaram de ficar muito preocupados com elas.

De nossa parte, sem decidir a questão num sentido nem no outro, e achando, aliás, que, ali onde o próprio François Arago duvidava, é menos permitido não se pronunciar, limitar-nos-emos a contar, sem comentários, alguns fatos dos quais fomos testemunhas.

Há oito dias, fomos convidados para uma noite espírita, na casa do barão G….

Na hora indicada, todos os convidados, em número de doze somente, se achavam ao redor da mesa…. milagrosa, uma simples mesa de mogno, de resto, e sobre a qual, no momento, servira-se o chá e os sanduíches de rigor.

Desses doze convivas, devemos nos apressar em proclamá-lo, nenhum poderia, razoavelmente, incorrer na censura de charlatanismo. O senhor da casa, que conta ministros em seus parentes próximos, pertence a uma grande família estrangeira.

Quanto aos seus fiéis, se compunham de dois distintos oficiais ingleses, um oficial da marinha francesa, um príncipe russo muito conhecido, um médico muito hábil, um milionário, um secretário de embaixada e dois ou três figurões do subúrbio Saint-Ger-main. Éramos o único profano entre esses ilustres do Espiritismo’, mas, em nossa qualidade de cronista parisiense, e cético por dever, não poderíamos ser acusado de credulidade…. exagerada. A reunião em questão não poderia ser considerada o jogo de uma comédia; e que comédia! Uma comédia inútil e ridícula, sem a qual cada um teria, voluntariamente, aceito, ao mesmo tempo, o papel de mistificador e de mistificado? Isso não é admissível. E, de resto, com que objetivo? Com qual interesse? Isso era o caso ou jamais se perguntar: Quem engana aqui?

Não, ali não havia nem má-fé, nem loucura…. Coloquemos, se quiserdes, que houvera acaso…. É tudo o que a nossa consciência nos permite conceder-vos.

Ora, heis o que se passou:

Depois de haver interrogado o Espírito sobre mil coisas, se lhe perguntou se as esperanças de paz, – que pareciam então muito fortes, – eram fundadas.

– Não, respondeu muito distintamente em duas vezes diferentes.

– Teremos, pois, a guerra? – Certamente!…

– Quando isso? – Em oito dias.

– Entretanto, o Congresso não se reúne senão no próximo mês…. Isso adia para muito longe as eventualidades de um começo de hostilidades. – Não haverá Congresso!

– Porquê? – A Áustria o recusará.

– E qual será a causa que triunfará? – A da justiça e do bom direito…. a da França.

– E a guerra, que será ela? – Curta e gloriosa.

Isso nos traz à memória um outro fato do mesmo gênero, que se passou igualmente sob os nossos olhos há alguns anos.

Recorda-se que, quando da guerra da Criméia, o imperador Nicolau chamou para a Rússia todos aqueles de seus súditos que habitavam a França, sob pena, para estes, de verem confiscados os seus bens, recusando-se a atender essa ordem.

Estávamos então em Saxe, em Leipzick, onde se tomava, como por toda parte, um vivo interesse pela campanha que vinha de começar. Um dia, recebemos o bilhete seguinte:

“Estou aqui por algumas horas somente; vinde ver-me, – hotel de Pologne, nº 13!”

“PRINCESA DE REBININE.”

Conhecêramos muito a princesa Sophie de Rebinine, uma mulher encantadora e distinta, cuja história era todo um romance (que escreveremos um dia), e que muito queria nos chamar seu amigo. Apressamo-nos, pois, em atender seu amável convite, tão agradavelmente surpreso quanto encantado pela sua passagem por Leipzick.

Era um domingo, um 13, e o tempo estava naturalmente cinza e triste, como ocorre sempre nessa parte da Saxe. Encontramos a princesa em sua casa, mais graciosa e mais espiritual que nunca, somente um pouco pálida, um pouco melancólica. Fizemos-lhe essa observação.

– De início, nos respondeu ela, parti como uma bomba. – Era o caso, uma vez que heis-nos em guerra, e estou um pouco cansada com o meu modo de viagem. Em seguida, se bem que sejamos agora inimigos, não vos esconderei que vou deixar Paris com pesar. Há muito que me considerava quase como francesa, e a ordem do imperador me faz romper com um velho e doce hábito.

– Por que não permanecestes tranqüilamente em vosso lindo apartamento da rua Rumfort?

– Porque me cortariam as mesadas.

– Pois bem! Não tendes, pois, entre nós, numerosos e bons amigos?

– Sim,… pelo menos o creio; mas, em minha idade, uma mulher não gosta de deixar tomar hipoteca sobre si…. Os interesses a pagar ultrapassam, freqüentemente, o valor do capital! Ah! se fora velha, seria outra coisa,… mas, então, não se me emprestaria mais.

E nessa altura a princesa mudou de conversação.

– Ora essa! disse-nos ela, sabeis que sou de uma natureza bastante absorvente…. Não conheço aqui vivalma…. Posso contar convosco para todo o dia?

A resposta que demos é fácil de adivinhar.

A uma hora, o sino se fez ouvir no pátio e descemos para jantar na mesa redonda do hotel. Todo o mundo falava, nesse momento, da guerra… e das mesas girantes.

No que concerne à guerra, a princesa estava segura de que a frota anglo-francesa seria destruída no mar Negro, e ela se encarregaria bravamente de ir incendiá-la, ela mesma, se o imperador Nicolau quisesse lhe confiar essa missão delicada e perigosa. No que concerne às mesas girantes, sua fé era menos robusta, e nos propôs fazer, com ela e outro dos nossos amigos, que lhe apresentáramos na sobremesa, algumas experiências. Remontamos, pois, ao seu quarto; se nos serviu o café, e, como chovesse, passamos nossa tarde interrogando uma mesinha de centro, que ainda vemos daqui.

– E a mim, perguntou de repente a princesa, nada tens a me dizer?

– Não.

– Porquê?

A mesa bateu treze pancadas. Ora, lembre-se que era um treze, e o quarto da senhora de Rebinini tinha o número treze.

– Isso quer dizer que o número treze me é fatal? Repetiu a princesa que tinha um pouco a superstição dessa cifra.

– Sim! Fez a mesa.

– Não importa!… Sou um Bayard do gênero feminino e tu podes falar, sem medo, o que possas ter o que anunciar.

Interrogamos a mesinha de centro, que persistia de início em sua prudente reserva, mas da qual, entretanto, acabamos por arrancar as palavras seguintes:

– Doente… oito dias… Paris… morte violenta!

A princesa se portou muito bem, ela acabava de deixar Paris e não esperava voltar, por muito tempo à Franca. A profecia da mesa era, pois, ao menos absurda sobre os três primeiros pontos… Quanto ao último, é inútil acrescentar que não quisemos mesmo nele nos deter.

A princesa deveria partir às oito horas da noite, pelo trem de Dresde, a fim de chegar, no segundo dia depois pela manhã, a Varsóvia; mas ela perdeu o trem.

Minha fé, disse-nos ela, vou deixar minhas bagagens aqui e tomarei o trem de 4 horas da manhã.

– Então, ides reentrar no hotel para dormir?

– Vou nele reentrar, mas não me deitarei… Assistirei do alto da loge dês étrangers ao baile dessa noite… Quereis servir-me de cavalheiro?

O hotel de Pologne, cujos vastos e magníficos salões não contêm menos de duas mil pessoas, dá quase cada dia, verão como inverno, um grande baile, organizado por qualquer sociedade da cidade, mas ao qual é reservado, para assistirem do alto de uma galeria particular, aqueles viajores desejosos de gozar de um golpe de vista que é muito animado, e da música, que é excelente.

De resto, na Alemanha, nunca esquecem os estrangeiros, por toda parte têm lugar reservado, o que explica porque os Alemães que vêm a Paris, pela primeira vez, perguntam sempre, nos teatros e nos concertos da loge dês étrangers,

O dia que se trata, o baile estava muito brilhante, e a princesa, se bem que uma simples expectadora, nele tomou um verdadeiro prazer. Também, ela havia esquecido a mesinha de centro e sua sinistra predição, quando um dos garçons do hotel levou-lhe um telegrama que acabara de chegar para ela. Este despacho estava concebido nestes termos:

“Senhora Rebinini, hotel de Pologne, Leipzig; presença indispensável, Paris, interesses graves! E trazia a assinatura do homem de negócios da princesa.

Algumas horas mais tarde, esta retomava o caminho de Pologne, em lugar de subir no trem de Dresde. Oito horas depois, soubemos que ela estava morta!

Paulin Niboyet.

 

O negro Pai César.

Pai César, homem livre de cor, morto em 8 de fevereiro de 1859, com a idade de 138 anos, perto de Covington, nos Estados Unidos. Era nascido na África e foi conduzido à Lousiana com a idade de cerca de 15 anos. Os restos mortais desse patriarca da raça negra foram acompanhados, ao campo de repouso, por um certo número de habitantes de Covington, e uma multidão de pessoas de cor.

Sociedade, 25 de março de 1859.

1. (A São Luís) Poderíeis nos dizer se podemos chamar o Pai César, de quem acabamos de falar? – R. Sim, eu o ajudarei a vos responder.

Nota. Esse início faz pressagiar o estado do Espírito que se desejava interrogar.

2. Evocação. – R. Que quereis de mim, e o que pode um pobre Espírito como eu em uma reunião como a vossa?

3. Sois mais feliz agora do que quando vivo? – R. Sim, porque minha condição não era boa na Terra.

4. Entretanto, éreis livre; em que sois mais feliz agora? – R. Porque meu Espírito não é mais negro.

Nota. Essa resposta é mais sensata do que parece à primeira vista. Seguramente, o Espírito jamais é negro; ele quis dizer que, como Espírito, não tem mais as humilhações das quais é alvo a raça negra.

5. Vivestes muito tempo; isso aproveitou para o vosso adiantamento? – R. Eu me desgostei na Terra, e não sofri bastante, em uma certa idade, para ter a felicidade de avançar.

6. Em que empregais vosso tempo agora? – R. Procuro esclarecer-me e em que corpo poderei fazê-lo.

7. Que pensáveis dos Brancos, quando vivo? – R. Eram bons, mas orgulhosos de uma brancura da qual não eram a causa.

8. Consideráveis a brancura como uma superioridade? – R. Sim, uma vez que eu era desprezado como negro.

9. (A São Luís). A raça negra é verdadeiramente uma raça inferior? – R. A raça negra desaparecerá da Terra. Ela foi feita para uma latitude diferente da vossa.

10. (A Pai César). Dissestes que procuráveis o corpo pelo qual poderíeis avançar; escolhereis um corpo branco ou um corpo negro? – R. Um branco, porque o desprezo me faria mal.

11. Vivestes realmente a idade que se vos atribui: 138 anos? -R. Não contei bem, pela razão que dissestes.

Nota. Vem-se de fazer a observação de que os negros, não tendo estado civil, sua idade não é julgada senão aproximadamente, sobretudo quando nasceram na África.

12. (A São Luís). Os Brancos se reencarnam, algumas vezes, em corpos negros? – R. Sim, quando, por exemplo, um senhor maltratou um escravo, ele pode pedir para si, por expiação, viver num corpo de negro para sofrer, a seu turno, todos os sofrimentos que fez sentir e, por esse meio, avançar e alcançar o perdão de Deus.

O negro Pai César..jpg

Goéthe

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Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas; 25 de março de 1856.

1. Evocação. – R. Estou convosco.

2. Em que situação estais como Espírito: errante ou reencarnado? – R. Errante.

3. Estais mais feliz do que quando vivo? – R. Sim, porque estou livre do meu corpo grosseiro, e vejo o que não podia ver.

4. Parece-me que não Unheis uma situação infeliz quando vivo; em que consiste a superioridade de vossa situação atual? – R. Acabo de vos dizer; vós, adeptos do Espiritismo, deveis compreender essa situação.

5. Qual é a vossa opinião atual sobre Fausto! – R. É uma obra que tinha por objetivo mostrar a vaidade e o vazio da ciência humana, e, por outro lado, exaltar, no que tinha de bom e de puro, o sentimento do amor, e o castigo no que havia de imoral e de mau.

6. Foi por uma certa intuição do Espiritismo que pintastes a influência dos maus Espíritos sobre o homem? Como fostes conduzido a fazer essa pintura? – R. Eu tinha a lembrança quase exata de um mundo onde via agir a influência dos Espíritos sobre os seres materiais.

7. Tínheis, pois, a lembrança de uma existência precedente?
R. Sim, certamente.

8. Poderíeis dizer-nos se essa existência ocorreu na Terra? -R. Não, porque nesta não se via os Espíritos agirem; foi bem num outro.

9. Mas, então, uma vez que, nesse mundo, se podia ver os Espíritos agirem, ele deveria ser superior à Terra. Como ocorre que viestes de um mundo superior para um mundo inferior? Havia, pois, queda para vós? Quereis nos explicar isso? – R. Era superior até um certo ponto, mas não como entendeis. Os mundos não têm todos a mesma organização, sem serem, por isso, de uma grande superioridade. De resto, sabeis bem que cumpri, entre vós, uma missão que todos não podeis vos dissimular, uma vez que fazeis, ainda, representar minhas obras; não havia queda, uma vez que servi, e sirvo ainda, para a vossa moralização. Apliquei o que poderia ter de superior nesse mundo precedente para castigar as paixões dos meus heróis.

10. Sim, ainda se representam vossas obras. Vem-se mesmo de traduzir, em ópera, vosso drama o Fausto. Assististes a essa representação? – R. Sim.

11. Quereis nos dar a vossa opinião sobre a maneira pela qual o senhor Gounod interpretou o vosso pensamento por meio da música? – R. Gounod evocou-me sem sabê-lo. Ele me compreendeu muito bem; eu, músico alemão, não o teria feito melhor; ele pensa, talvez, em músico francês.

12. Que pensais de Werther? – R. Reprovo agora o desenlace.

13. Essa obra não fez muito mal exaltando as paixões? – R. Fez e causou infelicidades.

14. Ela foi a causa de muitos suicídios; deles sois responsável? – R. Se houve uma influência infeliz, difundida por mim, é bem disso que sofro agora e do que me arrependo.

15. Tínheis, quando vivo, creio, uma grande antipatia pelos Franceses; ocorre o mesmo atualmente? – R. Sou muito patriota.

16. Estais, ainda, antes ligado a um país do que a outro? – R. Amo a Alemanha em seus pensamentos e em seus costumes quase patriarcais.

17. Poderíes dar-nos a vossa opinião sobre Schiller? – R. Somos irmãos pelo Espírito e pelas missões. Schiller tinha uma alma grande e nobre: suas obras eram-lhe o reflexo; fez menos mal do que eu; é-me muito superior, porque era mais simples e mais verdadeiro.

18. Poderíeis dar-nos a vossa opinião sobre os poetas franceses em geral, comparados com os poetas alemães? Isso não é por um vão sentimento de curiosidade, mas para a nossa instrução. Cremos-vos de sentimentos muito elevados para que seja necessário vos pedir fazê-lo sem parcialidade, pondo de lado todo preconceito nacional. – R. Sois muito curiosos, mas vou satisfazer-vos:

Os Franceses novos fazem belos poemas, mas colocam mais belas palavras que bons pensamentos; eles deveriam se ligar mais ao coração e menos ao espírito. Falo de modo geral, mas faço algumas exceções em favor de alguns: um grande poeta pobre, entre outros.

19. Um nome circula em voz baixa na assembléia, foi desse que quisestes falar? – R. Pobre, ou que o fez.

20. Ficaríamos felizes tendo de vós uma dissertação, sobre assunto de vossa escolha, para nossa instrução. Estais bastante bom para nos ditar alguma coisa? – R. Fá-lo-ei mais tarde e por outros médiuns; evocai-me uma outra vez.

Goéthe

Conversas familiares de além túmulo – Senhor de Humboldt

Revista Espírita, junho de 1859

Senhor de Humboldt

Falecido em 6 de maio de 1859;

chamado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas em 13 e 20 do mesmo mês.

(A São Luís). Podemos chamar o Espírito do senhor Alexandre de Humboldt que acaba de morrer? – R. Se quiserdes, amigos.

1. Evocação. – R. Heis-me; isso me espanta!

2. Por que isso vos espanta? – R. Estou longe do que era, há apenas alguns dias.

3. Se nós vos pudéssemos ver, como vos veríamos? – R. Como homem.

4. Nosso chamado vos contraria? – R. Não, não.

5. Tivestes consciência de vosso novo estado logo depois de vossa morte? – R. Eu a esperava há muito tempo.

Nota. Nos homens que, como o senhor de Humboldt, morrem de morte natural e pela extinção gradual das forças vitais, o Espírito se reconhece bem mais prontamente do que naqueles em que a vida é bruscamente interrompida por acidente ou morte violenta, tendo em vista que já há um começo de desligamento antes da cessação da vida orgânica. No senhor de Humboldt a superioridade do Espírito e a elevação dos pensamentos facilitaram esse desligamento, sempre mais lento e mais penoso naqueles cuja vida é toda material.

6. Lamentais a vida terrestre? – R, Não, de modo algum; sinto-me feliz; não tenho mais prisão; meu Espírito está livre… Que felicidade mesmo! E que doce momento aquele que me trouxe esta nova graça de Deus!

7. Que pensais da estátua que se vos levantará em França, embora sejais estrangeiro? – R. Meus agradecimentos pessoais pela honra que se me faz; o que estimo, sobretudo, nisso é o sentimento de união que esse fato revela, o desejo de ver se acabarem todos os ódios.

8. Vossas crenças mudaram? – R. Sim, muito; mas ainda não revi tudo; esperai ainda para me falar mais profundamente.

Nota. Essa resposta, e essa palavra revi são características do estado em que se encontra; apesar do pronto desligamento do seu Espírito, há ainda alguma confusão em suas idéias; não tendo deixado seu corpo senão há oito dias, não teve ainda o tempo para comparar sua idéias terrestres com aquelas que ele pode ter agora.

9. Estais satisfeito com o emprego de vossa existência terrestre? – R. Sim; cumpri (quase) o objetivo que me havia proposto. Servi à Humanidade, por isso hoje sou feliz.

10. Quando vos propusestes esse objetivo? – R. Vindo na Terra.

Nota. Uma vez que se propusera um objetivo vindo na Terra, é, pois, porque havia nele um progresso anterior, e que a sua alma não nasceu ao mesmo tempo que o seu corpo. Esta resposta espontânea não pode ter sido provocada pela natureza da pergunta ou o pensamento do interrogador.

11. Escolhestes essa existência terrestre? – R. Havia numerosos candidatos para essa obra; eu pedi ao Ser por excelência para me conceder, e a obtive.

12. Lembrai-vos da existência que precedeu aquela que vindes de deixar? – R. Sim; ela ocorreu longe de vós e em um outro mundo bem diferente do vosso.

13. Esse mundo é igual, inferior ou superior à Terra? – R. Superior; perdoai-me.

14. Sabemos que o nosso mundo está longe da perfeição e, em conseqüência, não ficamos humilhados por existirem acima de nós; mas, então, como viestes a um mundo inferior ao que estáveis? – R. Dais aos ricos? Eu quis dar: desci à cabana do pobre.

15. Podeis nos dar uma descrição dos seres animados do mundo em que estais? – R. Eu tinha esse desejo em vos falando mesmo agora; mas compreendi a tempo que teria dificuldade para vos explicar isso perfeitamente. – Ali os seres são bons, muito bons; compreendei já esse ponto, que é a base de todo o resto do sistema moral nesses mundos: nada ali entrava o vôo dos bons pensamentos; nada lembra os maus; tudo é felicidade porque cada um está contente consigo mesmo e com todos aqueles que o cercam. -Como matéria, como sentido, toda descrição é inútil. – Que simplificação no organismo de uma sociedade! Hoje que estou em condições de comparar as duas, estou espantado com a distância. Não penseis que vos digo isso para vos desencorajar; não, muito ao contrário.

É necessário que o vosso Espírito esteja bem convencido da existência desses mundos; então tereis um ardente desejo de atingi-los, e o vosso trabalho vos abrirá a sua rota.

16. Esse mundo faz parte do nosso sistema planetário? – R. Sim, está muito perto de vós. Entretanto, não se pode vê-lo, porque ele não tem o próprio foco de luz, e não recebe e não reflete a luz dos sóis que o cercam.

17. Dissestes agora mesmo que a vossa precedente existência ocorreu longe de nós, e agora dizeis que esse mundo está muito perto; como conciliar essas duas coisas? – R. Está longe de vós se consultardes as vossas distâncias, vossas medidas terrestres; mas estará próximo se tomardes o compasso de Deus, e se tentardes abarcar, com um golpe de vista, toda a criação.

Nota. É evidente que pode ser considerado como longe se tomarmos como termo de comparação as dimensões do nosso globo; mas está perto com relação aos mundos que estão a distâncias incalculáveis.

18. Poderíeis precisar-nos a região do céu onde ele se encontra? – R. É inútil;” os astrônomos não a conhecerão jamais.

19. A densidade desse mundo é a mesma do nosso globo? – R. É necessária de mil para dez.

20. Seria um mundo da natureza dos cometas? – R. Não, de modo algum.

21. Se ele não tem foco de luz, e se não recebe e nem reflete a luz solar, reina ali, portanto, uma obscuridade perpétua? – R. Os seres que ali vivem não têm nenhuma necessidade de luz: a obscuridade não existe para eles; não a compreendem. Pensais, porque sois cegos, que ninguém pode ter o sentido da visão.

22. O planeta Júpiter, no dizer de certos Espíritos, é bem superior à Terra; isso é exato? – R. Sim; tudo o que vos disseram é verdadeiro.

23. Vistes de novo Arago desde a vossa reentrada no mundo dos Espíritos? – R. Foi ele quem me estendeu a mão quando deixei o vosso.

24. Conhecíeis o Espiritismo quando vivente? – R. O Espiritismo não; o magnetismo, sim.

25. Qual é a vossa opinião sobre o futuro do Espiritismo entre as corporações de sábios? – R. Grande; mas seu caminho será penoso.

26. Pensais que um dia ele será aceito pelas corporações de sábios? – R. Certamente; mas, credes que isso seja indispensável? Ocupai-vos antes em colocar os primeiros preceitos no coração dos infelizes, que embaraçam vosso mundo: é o bálsamo que acalma os desesperos e dá a esperança.

Nota. François Arago, tendo sido chamado na sessão de 27 de maio, por intermédio de um outro médium, assim respondeu a perguntas análogas:
Qual era, quando vivente, vossa opinião sobre o Espiritismo? -R. Eu o conhecia muito pouco, e não lhe ligava, em conseqüência, senão uma pouca importância; deixo-vos pensando se mudei de opinião.

Pensais que ele será um dia aceito e reconhecido pelas corporações sábias? Entendo a ciência oficial, porque pelos sábios há muitos que, individualmente, o reconhecem. – R. Não somente penso, mas estou disso seguro; sofrerá a sorte de todas as descobertas úteis à Humanidade; ridicularizado de início pelos sábios orgulhosos e os tolos ignorantes, acabará por ser reconhecido por todos.

27. Qual é a vossa opinião sobre o sol que nos ilumina? – R. Ainda nada aprendi aqui como ciência; entretanto, creio sempre que o sol é um vasto centro elétrico.

28. Essa opinião reflete a que tínheis como homem, ou a vossa como Espírito? – R. Minha opinião de quando vivia, corroborada pelo que sei agora.

29. Uma vez que vindes de um mundo superior à Terra, como ocorre que não tivestes conhecimentos precisos sobre essas coisas antes da vossa última existência, e da qual vos lembrais hoje? – Eu os tinha certamente, mas o que me perguntais não tem nenhuma relação com tudo o que pude aprender em preexistências de tal modo diferentes daquela que deixei; a astronomia, por exemplo, foi para mim uma ciência toda nova.

30. Vimos muitos Espíritos nos dizerem que habitavam outros planetas, mas nenhum nos disse habitar o sol; por que isso? – R. É um centro elétrico, e não um mundo; é um instrumento e não uma morada. – Portanto, não há habitantes? – R. Habitantes fixos, não; visitantes, sim.

31. Pensais que, dentro de algum tempo, quando fizerdes novas observações, podereis nos informar melhor sobre a natureza do sol? – R. Sim, talvez e de bom grado; entretanto, não conteis muito comigo, não estarei muito tempo errante.

32. Onde credes ir quando não estiverdes mais errante? – R. Deus me permite repousar alguns momentos; vou gozar dessa liberdade para encontrar amigos queridos que me esperavam. Em seguida, não sei ainda.

33. Pedimo-vos a permissão para vos dirigir ainda algumas perguntas as quais os vossos conhecimentos em história natural vos colocam, sem dúvida, em condições de responder.

A sensitiva e a dionéia têm movimentos que acusam uma grande sensibilidade e, em certos caso, uma espécie de vontade, como a última, por exemplo, cujos lóbulos agarram a mosca que vem pousar sobre ela para tomar seu suco, e à qual ela parece estender uma armadilha para, em seguida, matá-la. Perguntamos se essas plantas são dotadas da faculdade de pensar, se têm uma vontade, e se formam uma classe intermediária entre a natureza vegetal e a natureza animal; em uma palavra, são uma transição de uma para a outra? – R. Tudo é transição na Natureza, pelo fato mesmo de que nada se assemelha, e que, portanto, tudo se liga. Essas plantas não pensam e, conseqüentemente, não têm vontade. A ostra que se abre e todos os zoófitos não têm o pensamento; não há senão um instinto natural.

34. As plantas experimentam sensações dolorosas quando são mutiladas? – R. Não.

Nota. Um membro da Sociedade expressou a opinião de que o movimento das plantas sensitivas são análogos àqueles que se produzem nas funções digestivas e circulatórias do organismo animal, e que ocorrem sem a participação da vontade. Não se vê, com efeito, o piloro contrair-se, ao contato de certos corpos, para recusar a passagem? Deve ocorrer o mesmo com a sensitiva e a dionéia, nas quais os movimentos não implicam, de nenhum modo, a necessidade de uma percepção e ainda menos de uma vontade.

35. Há homens fósseis? – R. O tempo os consumiu.

36. Admitis que tenha havido homens na Terra, antes do cataclisma geológico? – R. Melhor farás explicando-te mais claramente sobre esse ponto antes de colocar a pergunta. O homem estava na Terra bem antes do cataclisma.

37. Adão não foi, pois, o primeiro homem? – R. Adão foi um mito, onde colocas Adão?

38. Mito ou não, falo da época que a história lhe assinala. – R. É pouco calculável para vós; é mesmo impossível calcular o número de anos que os primeiros homens permaneceram em estado selvagem e bestial, que não cessou senão muito tempo depois de sua primeira aparição no globo.

39. A geologia fará encontrar, um dia, traços materiais da existência do homem na Terra antes do período adâmico? – R. A geologia, não; o bom senso, sim.

40. O progresso do reino orgânico na Terra está marcado pela aparição sucessiva dos acotiledônios, dos monocotiledôneos e os dicotiledôneos; o homem existia antes dos dicotiledôneos? – R. Não; sua fase segue aquela.

41. Agradecemo-vos por consentir em vir ao nosso chamado, e pelas informações que nos fornecestes. – R. Foi um prazer. Adeus; até logo.

Nota. Essa comunicação se distingue por um caráter geral de bondade, de benevolência, e uma grande modéstia, sinal incontestável de superioridade no Espírito; ali, com efeito, nenhum traço da jactância, da fanfarrice, da inveja de dominar e de se impor, que se notam naqueles que pertencem à classe dos falsos sábios. Espíritos sempre mais ou menos imbuídos de sistemas e de preconceitos que procuram fazer prevalecer; tudo, no Espírito de Humboldt, mesmo os mais belos pensamentos, respira a simplicidade e denota a ausência de pretensão.

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