Visões – O idiota de Lyon

Revista Espírita, janeiro de 1858

– Lê-se no Courrier de Lyon:

“Na noite de 27 para 28 de agosto de 1857, um caso singular de visão intuitiva, produziu-se na Croix-Rousse, nas circunstâncias seguintes:

“Há três meses mais ou menos, o casal B…., honestos operários tecelões, movidos por um sentimento de louvável comiseração, recolheram em sua casa, na qualidade de doméstica, uma jovem um pouco idiota e que habita os arredores de Bourgoing.

“No último domingo, entre duas e três horas da manhã, o casal B…. foi despertado em sobressalto pelos gritos agudos, produzidos pela sua doméstica, que dormia num sótão contíguo ao seu quarto.

“A senhora B…. acendendo uma lâmpada, sobe para o sótão e encontra a sua criada que, derretida em lágrimas, e” num estado de exaltação de espírito, difícil de descrever, chamava, contorcendo os braços em terríveis convulsões, sua mãe que ela acabava de ver morrer, dizia ela, diante de seus olhos.

“Depois de consolar a jovem, o melhor possível, a senhora B…. retorna ao seu quarto. Esse incidente estava quase esquecido quando, ontem, terça-feira, antes do meio-dia, um carteiro do correio entrega ao senhor B…. uma carta do tutor da jovem, que informava, a este último, que, na noite de domingo para segunda feira, entre duas e três horas da manhã, sua mãe tinha morrido em conseqüência de uma queda que sofreu, caindo do alto de uma escada.

“A pobre idiota partiu ontem mesmo, pela manhã, para Bourgoing, acompanhada pelo senhor B…..seu patrão, para ali recolher a parte de sucessão que lhe cabia na herança de sua mãe, da qual havia visto, tão tristemente, em sonho, o fim deplorável.”

Os fatos desta natureza não são raros, e, freqüentemente, tivemos ocasião de narrá-los, cuja autenticidade não poderia ser contestada. Eles se produzem, algumas vezes, durante o sono no estado de sonho; ora, como os sonhos não são outra coisa do que um estado de sonambulismo natural incompleto, designaremos as visões, que ocorrem nesse estado, sob o nome de visões sonambúlicas, para distingui-las das que ocorrem no estado de vigília e que chamaremos visões pela dupla vista. Chamaremos, enfim, visões extáticas, aquelas que ocorrem no êxtase; elas têm, geralmente, por objeto os seres e as coisas do mundo incorpóreo. O fato seguinte pertence à segunda categoria.

Um armador, nosso conhecido, morando em Paris, nos contou, há poucos dias, o que segue: “No último mês de abril, estando um pouco doente, fui passear em Tuileries com meu sócio. Fazia um tempo soberbo; o jardim estava cheio de gente. De repente, a multidão desapareceu aos meus olhos; não senti mais o meu corpo, fui como que transportado, e vi, distintamente, um navio entrando no porto de Havre. Eu o reconheci como sendo o Clémence, que esperávamos das Antilhas; eu o vi atracar no cais, distinguindo claramente os mastros, as velas, os marinheiros e todos os mais minuciosos detalhes, como se estivesse nesses lugares. Voltando para minha casa, me entregaram um telegrama. Antes de tomar conhecimento dele, disse: É o anúncio da chegada do Clémence, que entrou no Havre, às três horas. O telegrama confirmava, com efeito, essa entrada na hora em que eu a havia visto em Tuileries.”

Quando as visões têm por objeto os seres do mundo incorpóreo, poder-se-ia, com alguma aparência de razão, levá-las à conta da imaginação, e qualificá-las de alucinações. Porque nada pode demonstrar a sua exatidão; mas, nos dois fatos que acabamos de narrar, é a realidade, a mais material e a mais positiva, que se evidencia. Desafiamos todos os fisiologistas e todos os filósofos para explicá-los pelos sistemas ordinários. Só a Doutrina Espírita pode, deles, dar conta pelo fenômeno e a emancipação da alma que, escapando, momentaneamente de suas faixas materiais, se transporta para fora da esfera da atividade corporal. No primeiro fato acima, é provável que a alma da mãe veio procurar a filha para adverti-la da sua morte; mas, no segundo, é certo que não foi o navio que veio procurar o armador em Tuileries; é preciso, pois, que tenha sido a alma deste que foi procurá-lo em Havre.

Visões – O idiota de Lyon

Os médiuns julgados – Desafio proposto na América

Revista Espírita, janeiro de 1858

Os antagonistas da Doutrina Espírita se apossaram, zelosamente, de um artigo publicado pelo Scientific american, do dia 11 de julho último, sob o título: Os Médiuns julgados. Vários jornais franceses reproduziram-no como um argumento sem réplica; nós mesmos o reproduzimos, fazendo seguir de algumas observações, que lhe mostrarão o valor.

“Há algum tempo, uma oferta de quinhentos dólares (2,500 francos) foi feita, por intermédio do Boston Courier, a toda pessoa que, na presença e em satisfação de um certo número de professores, da Universidade de Cambridge, reproduzisse alguns desses fenômenos misteriosos que os espiritualistas dizem, comumente, terem sido produzidos por intermédio de agentes chamados médiuns.

“O desafio foi aceito pelo doutor Gardner, e por várias pessoas que se vangloriavam de estar em comunicação com os Espíritos. Os concorrentes se reuniram nos edifícios Albion, em Boston, na última semana de junho, dispostos a fazerem a prova da sua força sobrenatural. Entre eles, notavam-se as jovens Fox, que se tornaram tão célebres pela sua superioridade nesse gênero. A comissão, encarregada de examinar as pretensões dos aspirantes ao prêmio, se compunha dos professores Pierce, Agassiz, Gould e Horsford, de Cambridge, todos os quatro sábios muito distintos. As experiências espiritualistas duraram vários dias; jamais os médiuns encontraram mais bela ocasião de colocarem em evidência seu talento ou sua inspiração; mas, como os sacerdotes de Baal, ao tempo de Elias, invocaram em vão suas divindades, assim como o prova a passagem seguinte, do relatório da comissão:

“A comissão declara que o doutor Gardner não tendo se saído bem em lhe apresentar um agente, ou médium, que revelasse a palavra confiada aos Espíritos em um quarto vizinho; que lesse a palavra inglesa escrita no interior de um livro ou sobre uma folha de papel dobrada; que respondesse uma questão que só as inteligências superiores podem responder; que fizesse ressoar um piano sem tocá-lo, ou avançar uma mesa, em um pé, sem o impulso das mãos; mostrando-se impotente para dar, à comissão, testemunho de um fenômeno que se pudesse, mesmo usando uma interpretação larga e benevolente, considerar como o equivalente das provas propostas; de um fenômeno exigindo, para sua produção, a intervenção de um Espírito, supondo ou implicando, pelo menos, essa intervenção; de um fenômeno desconhecido, até hoje, à ciência, e cuja causa não fosse, imediatamente, assinalável para a comissão, palpável para ela, não tem nenhum título para exigir, do Courríer, de Boston, a entrega da soma proposta de 2,500 francos.”

A experiência, feita nos Estados Unidos, a propósito dos médiuns, lembra aquela que se fez, há uma dezena de anos, para ou contra os sonâmbulos lúcidos, quer dizer, magnetizados. A Academia de ciência recebeu a missão de conceder um prêmio de 2,500 francos ao sujet magnético que lesse de olhos fechados. Todos os sonâmbulos fazem, voluntariamente, esse exercício, em seus salões ou em público; lêem em livros fechados e decifram uma carta inteira, sentando-se em cima de onde a colocam, bem dobrada e fechada, ou sobre seu ventre; mas, diante da Academia não pôde nada ler de todo e o prêmio não foi ganho.”

Essa experiência prova, uma vez mais, da parte de nossos antagonistas, sua ignorância absoluta dos princípios sobre os quais repousam os fenômenos espíritas. Entre eles, há uma idéia fixa de que esses fenômenos devem obedecer à vontade, e se produzirem com a precisão de uma máquina. Esquecem, totalmente, ou, dizendo melhor, não sabem que a causa desses fenômenos é inteiramente moral, que as inteligências que lhes são os primeiros agentes, não estão ao capricho de quem quer que seja, nem mais de médiuns do que de outras pessoas. Os Espíritos agem quando lhes apraz, e diante de quem lhes apraz; freqüentemente, é quando menos se espera que a manifestação ocorre com maior energia, e quando é solicitada, ela não ocorre. Os Espíritos têm condições de ser que nos são desconhecidas; o que está fora da matéria não pode estar submetido ao cadinho da matéria. É, pois, equivocar-se, julgá-los do nosso ponto de vista. Se crêem útil se revelarem por sinais particulares, o fazem; mas, isso jamais à nossa vontade, nem para satisfazer uma vã curiosidade. É preciso, por outro lado, considerar uma causa bem conhecida que afasta os Espíritos: sua antipatia por certas pessoas, principalmente por aquelas que, através de perguntas sobre coisas conhecidas, querem pôr a sua perspicácia em prova. Quando uma coisa existe, diz-se, eles devem sabê-la; ora, é precisamente porque a coisa nos é conhecida, ou tendes os meios de verificá-la por vós mesmos, que eles não se dão ao trabalho de responder; essa suspeição os irrita e deles não se obtém nada de satisfatório; ela afasta, sempre, os Espíritos sérios que não falam, voluntariamente, senão às pessoas que a eles se dirigem com confiança e sem dissimulação. Disso não temos, todos os dias, exemplos entre nós? Homens superiores, e que têm consciência de seu valor, se alegrariam em responder a todas as tolas perguntas que tenderiam a lhes submeter a um exame, como escolares? Que diriam se se lhes dissessem: “Mas, se não respondeis, é porque não sabeis?” Eles vos voltariam as costas: é o que fazem os Espíritos.

Se assim é, direis, de qual meio dispomos para nos convencer? No próprio interesse da Doutrina dos Espíritos, não devem desejar fazer prosélitos? Responderemos que é ter bastante orgulho em crer-se alguém indispensável ao sucesso de uma causa; ora, os Espíritos não amam os orgulhosos. Eles convencem aqueles que o desejam; quanto aos que crêem na sua importância pessoal, provam o pouco caso que deles fazem, não os escutando. Eis, de resto, sua resposta a duas perguntas sobre esse assunto:

Podem pedir-se, aos Espíritos, sinais materiais como prova da sua existência e da sua força? Resp. “Pode-se, sem dúvida, provocar certas manifestações, mas nem todo o mundo está apto para isso, e, freqüentemente, o que perguntais não o obtendes; eles não estão ao capricho dos homens.”

Mas quando uma pessoa pede esses sinais para se convencer, não haveria utilidade em satisfazê-la, uma vez que seria um adepto a mais? Resp. “Os Espíritos não fazem senão aquilo que querem, e o que lhes é permitido. Falando-vos e respondendo as vossas perguntas, atestam a sua presença: isso deve bastar ao homem sério que procura a verdade na palavra.”

Escribas e fariseus disseram a Jesus: Mestre, muito gostaríamos que nos fizésseis ver algum prodígio. Jesus respondeu: “Esta raça má e adúltera pede um prodígio, e não se lhe dará outro senão aquele de Jonas (São Mateus).”

Acrescentaremos, ainda, que é conhecer bem pouco a natureza e a causa das manifestações para crer estimulá-las com um prêmio qualquer. Os Espíritos desprezam a cupidez, do mesmo modo que o orgulho e o egoísmo. E só essa condição pode ser, para eles, um motivo para se absterem de se comunicarem. Sabei, pois, que obtereis cem vezes mais de um médium desinteressado do que daquele que é movido pela atração do ganho, e que um
milhão não faria ocorrer o que não deve ser. Se nós nos espantamos com uma coisa, é que se tenha procurado médiuns capazes de se submeterem a uma prova que tinha por aposta uma soma de dinheiro.

Os médiuns julgados – Desafio proposto na América

Uma conversão

Revista Espírita, janeiro de 1858

A evocação seguinte não oferece um interesse menor, embora em um outro ponto de vista.

Um senhor, que designaremos sob o nome de Georges, farmacêutico de uma cidade do sul, tinha, há pouco, perdido seu pai, objeto de toda a sua ternura e de profunda veneração. O senhor Georges, pai, unia, a uma instrução muito extensa, todas as qualidades que fazem o homem de bem, embora professando opiniões muito materialistas. Seu filho partilhava, a esse respeito, e mesmo ultrapassava, as idéias de seu pai; duvidava de tudo: de Deus, da alma, da vida futura. O Espiritismo não poderia admitir com tais pensamentos. A leitura de O Livro dos Espíritos, entretanto, produziu nele uma certa reação, corroborada por uma conversa direta que tivemos com ele. Sim, disse ele, meu pai poderia responder, não duvido mais. Foi, então, que teve lugar a evocação que vamos narrar e na qual encontraremos mais de um ensinamento.

– Em nome do Todo-Poderoso, Espírito de meu pai, peço que vos manifesteis. Estais perto de mim?.” Sim.” – Por que não vos manifestais diretamente a mim, quando nos amamos tanto? “Mais tarde.” – Poderemos nos reencontrar um dia?>”Sim, logo.” – Amar-nos-emos como nessa vida?.. “Mais.” – Em qual meio estais?. “Eu sou feliz.” – Estais reencarnado ou errante?. “Errante, por pouco tempo.”

– Que sensação experimentastes quando deixastes vosso envoltório corporal? “De perturbação.” – Quanto tempo durou essa perturbação? “Pouco para mim, muito para ti.” – Podeis avaliar a duração dessa perturbação, segundo a nossa maneira de contar? “Dez anos para ti, dez minutos para mim.” – Mas não faz esse tempo que vos perdi, pois, não faz senão quatro meses! “Se tu, vivente, tivésseis se colocado em meu lugar, teria sentido esse tempo.”

– Credes, agora, em um Deus justo e bom? “Sim.” – Nele acreditáveis quando vivo na Terra? “Dele tinha a presciência, mas não acreditava nele.” Deus é Todo-Poderoso! “Não me elevei até ele para medir sua força; só ele conhece os limites da sua força, porque só ele é seu igual.” – Ocupas-te com os homens? “Sim.” -Seremos punidos ou recompensados segundo os nossos atos? “Se fazes o mal, sofrê-lo-ás.” – Serei recompensado se fizer o bem? “Avançarás em teu caminho.” – Estou no bom caminho? “Faze o bem, e nele estarás.” – Creio ser bom, mas seria melhor se devesse, um dia, vos encontrar como recompensa? “Que esse pensamento te sustente e encoraje.” – Meu filho será bom como seu avô? “Desenvolva suas virtudes, sufoque seus vícios.”

– Não podia crer que nos comunicássemos, assim, neste momento, tão maravilhoso isso me parecia. “De onde vem tua dúvida?” – De que, partilhando vossas opiniões filosóficas, fui levado a tudo atribuir à matéria. “Vês à noite, o que vês de dia?” – Estou, pois, na noite, ó meu pai! “Sim.” – Que vedes de mais maravilhoso? “Explique-se melhor.” – Haveis reencontrado minha mãe, minha irmã, e Anna, a boa Anna? “Eu as revi.” – Vede-as quando quereis? “Sim.”

– É a vós penoso ou agradável que me comunique, assim, convosco? “É uma felicidade, para mim, se posso levar-te ao bem.”

– Como poderia fazer, voltando para casa, para comunicar convosco, o que me faz tão feliz? Isso serviria para melhor me conduzir, me ajudaria melhor a elevar meus filhos. “Cada vez que um movimento levar-te ao bem, sou eu: serei eu que te inspirarei.”

– Tenho medo de vos importunar. “Fale, ainda, sé queres.” -Uma vez que mo permitis, vos endereçarei, ainda, algumas perguntas. De qual doença morrestes? “Minha prova estava em seu final.”

– Onde contraístes o depósito pulmonar que se formou? “Pouco importa; o corpo não é nada, o Espírito é tudo.” – De qual natureza é a enfermidade que me desperta, tão freqüentemente, à noite? “Sabê-lo-ás mais tarde.” – Creio que minha doença é grave, e queria, ainda, viver para os meus filhos. “Ela não o é; o coração do homem é uma máquina para a vida: deixe a Natureza operar.”

– Uma vez que estais presente, sob que forma estais? “Sob a aparência da minha forma corporal.” – Estais em um lugar determinado? “Sim, atrás de Ermance” (o médium). – Poderíeis nos aparecer visivelmente? “Para quê! Teríeis medo.”

– Vede-nos, todos, aqui reunidos? “Sim.” – Tendes uma opinião sobre cada um de nós, aqui presentes? “Sim.” – Gostaria de dizer-nos alguma coisa, a cada um de nós? “Em que sentido me fazes essa pergunta?” – Quero dizer no ponto de vista moral. “Em outra ocasião; basta por hoje.”

O efeito produzido, sobre o senhor Georges, por essa comunicação, foi imenso, e uma luz inteiramente nova parecia já iluminar suas idéias; uma sessão que teve, no dia seguinte, com a senhora Roger, sonâmbula, acabou por dissipar o pouco de dúvidas que poderia lhe restar. Eis um extrato a carta que nos escreveu, a esse respeito. “Essa senhora, espontaneamente, entrou em detalhes comigo, bastante precisos, com respeito ao meu pai, minha mãe, meus filhos, minha saúde, descreveu com uma tal exatidão todas as circunstâncias da minha vida, lembrando mesmo de fatos que, desde há muito tempo, haviam escapado da minha memória; deu-me, em uma palavra, provas tão patentes dessa maravilhosa faculdade, da qual são dotados os sonâmbulos lúcidos, que a reação de idéias se completou, em mim, desde esse momento. Na evocação, meu pai revelou-me sua presença; na sessão sonambúlica, eu era, por assim dizer, testemunha ocular da vida extra-corpórea, da vida da alma. Para descrever com tanta minúcia e exatidão, e a duzentas léguas de distância, o que não era conhecido senão por mim, era preciso vê-lo; ora, uma vez que não podia ser com os olhos do corpo, haveria, pois, um laço misterioso, invisível, que ligava a sonâmbula às pessoas e às coisas ausentes, e que ela não havia jamais visto; haveria, pois, alguma coisa fora da matéria; que poderia ser essa alguma coisa, senão o que se chama a alma, o ser inteligente, cujo corpo não é senão o envoltório, mas, cuja ação se estende muito mais além da nossa esfera de atividade?” Hoje, o senhor Georges, não somente não é mais materialista, mas é um dos mais fervorosos e mais zelosos adeptos do Espiritismo, onde está duplamente feliz, pela confiança que lhe inspira, agora, o futuro e pelo prazer motivado que encontra para fazer o bem.

Essa evocação, muito simples ao primeiro contato, não é menos notável com mais algumas apreciações. O caráter do senhor Georges, pai, se reflete em suas respostas breves e sentenciosas, que eram de seus hábitos; falava pouco, não dizia, nunca, uma palavra inútil; mas, não é mais o cético quem fala; reconhece seu erro; seu Espírito é mais livre, mais clarividente, que pinta a unidade e o poder de Deus por estas admiráveis palavras: Só ele é seu igual’, é aquele que, em vida, atribuía tudo a matéria, e que diz, agora: O corpo não é
nada, o Espírito é tudo; e esta outra frase sublime: Vês à noite o que vês de dia? Para o observador atento, tudo tem uma importância, e é assim que encontra, a cada passo, a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos.

Uma conversão

Evocações particulares – Mãe, estou aqui!

Revista Espírita, janeiro de 1858

A senhora X havia perdido, há alguns meses, sua filha única, de catorze anos de idade, objeto de toda a sua ternura, e muito digna de seus lamentos pelas qualidades que prometiam fazer, dela, uma mulher perfeita. Essa jovem pessoa havia sucumbido a uma longa e dolorosa doença. A mãe, inconsolável com essa perda, via, dia a dia, sua saúde alterar-se, e repetia, sem cessar, que iria logo juntar-se com sua filha. Instruída quanto à possibilidade de se comunicar com os seres de além-túmulo, a senhora X resolveu procurar, em uma conversa com a sua criança, um alívio para sua pena. Uma dama de seu conhecimento era médium, mas, pouco experimentadas, uma e outra, para semelhantes evocações, sobretudo, em uma circunstância tão solene, me convida para assistir. Não éramos senão três: A mãe, a médium e eu. Eis o resultado dessa primeira sessão.

a mãe. Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito de Julie X, minha filha querida, eu te peço vir se Deus o permite.

julie. Mãe! Eu estou aqui.

a mãe. É mesmo tu, minha criança, quem me responde? Como posso saber que és tu?
julie. Lili.

(Era um pequeno nome familiar dado à jovem, em sua infância; não era conhecido nem pelo médium nem por mim, já que, desde vários anos, não a chamava senão pelo seu nome de Julie. A esse sinal, a identidade era evidente; a mãe, não podendo dominar sua emoção, explode em soluços).

julie. Mãe! Por que se afligir? Sou feliz; bem feliz; não sofro mais e te vejo sempre.

a mãe. Mas eu não te vejo. Onde estás?

julie. Aí; ao lado de ti, minha mão sobre a senhora Y (a médium) para fazer com que escreva, o que te digo. Veja minha escrita. (A escrita era, com efeito, a da sua filha.)

a mãe. Tu dizes: minha mão; tens, pois, um corpo?

julie. Não tenho mais esse corpo que me fazia sofrer; mas tenho dele a aparência. Não estás contente, que eu não sofra mais, uma vez que posso conversar contigo?

a mãe. Se eu te visse, pois, te reconheceria?

julie. Sim, sem dúvida, e tu já me tens visto, freqüentemente, em teus sonhos.

a mãe. Eu te revi, com efeito, em meus sonhos, mas, acreditei que era um efeito da minha imaginação, uma lembrança.

julie. Não; sou eu que estou sempre contigo, e que procura te consolar; fui eu quem te inspirou a idéia de me evocar. Tenho muitas coisas a dizer-te. Desconfie do senhor F, ele não é franco.

(Esse senhor, só conhecido de minha mãe, e assim nomeado espontaneamente, era uma nova prova da identidade do Espírito que se manifestava.)

a mãe. Que pode, pois, fazer contra mim o senhor F?

julie. Não posso dizer-te; isso me é proibido. Não posso mais que advertir-te para dele desconfiar.

a mãe. Estás entre os anjos!

julie. Oh! não ainda; não sou bastante perfeita.

a mãe. Não te reconheço, no entanto, nenhum defeito; tu eras boa, doce, amorosa e benevolente para todo o mundo; será que isso não basta?

julie. Para ti, mãe querida, eu não tinha nenhum defeito; eu acreditava nisso; tu me dizias, muito freqüentemente! Mas, no presente, vejo o que me falta para ser perfeita.

a mãe. Como adquirires as qualidades que te faltam?

julie. Em novas existências, que serão mais e mais felizes.

a mãe. Será na Terra que terás essas novas existências?

julie. Disso não sei nada.

a mãe. Uma vez que não havias feito mal durante tua vida, porque tanto sofreste?

julie. Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, pela minha confiança em Deus; por isso, sou bem feliz hoje. Até breve, mãe querida!

Em presença de semelhantes fatos, quem ousaria falar do nada do túmulo, quando a vida futura se nos revela, por assim dizer, palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, goza, hoje, de uma felicidade inefável por poder conversar com sua criança; não há mais, entre elas, separação; suas almas se confundem e se expandem, no seio uma da outra, pela permuta dos seus pensamentos.

Malgrado o véu do qual cercamos essa relação, não nos permitiríamos publicá-la, se para isso não estivéssemos formalmente autorizados. Pudessem, disse-nos essa mãe, todos aqueles que perderam suas afeições na Terra, experimentar a minha mesma consolação!

Não acrescentaremos senão uma palavra endereçada àqueles que negam a existência dos bons Espíritos; nós lhes perguntaremos como poderiam provar que o Espírito dessa jovem era um demônio malfazejo.

Evocações particulares – Mãe, estou aqui!

Os Gobelins – Lendas

Revista Espírita, janeiro de 1858

A intervenção de seres incorpóreos nas minúcias da vida privada, faz parte das crenças populares de todos os tempos. Não pode, sem dúvida, caber no pensamento de uma pessoa sensata tomar ao pé da letra todas as lendas, todas as histórias diabólicas e todos os contos ridículos, que se gosta de contar ao lado do fogo. Entretanto, os fenômenos, dos quais somos testemunhas, provam que esses próprios contos repousam sobre alguma coisa, porque o que se passa em nossos dias, pôde e deveu se passar em outras épocas. Que se aparte, desses contos, o maravilhoso e o fantástico dos quais a superstição os vestiu ridiculamente, e se encontrarão todos os caracteres, fatos e gestos dos nossos Espíritos modernos; uns bons, benevolentes, prestativos em servir, como os bons Brownies’, outros mais ou menos traquinas, espertos, caprichosos e mesmo maus, como os Gobelins da Normândia, que se encontra sob os nomes de Bogles na Escócia, de Bogharts na Inglaterra, de Cluricaunes na Irlanda, de Puckas na Alemanha. Segundo a tradição popular, esses duendes se introduzem nas casas, onde procuram todas as ocasiões de brincar maldosamente: “Eles batem nas portas, deslocam os móveis, dão golpes sobre os barris, batem no teto e no assoalho, assoviam baixinho, produzem suspiros lamentosos, tiram as cobertas e as cortinas dos que estão deitados, etc.”

O Boghart dos Ingleses exerce particularmente suas malícias contra as crianças, às quais parece ter aversão: “Arranca, freqüentemente, sua fatia de pão com manteiga e sua tigela de leite, agita, durante a noite, as cortinas de seu leito; sobe e desce as escadas com grande ruído, joga sobre o assoalho as baixelas e os pratos, e causa muitos outros estragos nas casas.”

Em alguns lugares da França, os Gobelins são considerados como uma espécie de fantasmas domésticos, que se tem o cuidado de nutrir com iguarias, as mais delicadas, porque eles trazem, aos seus senhores, o trigo que furtam dos celeiros de outrem. É verdadeiramente curioso encontrar essa velha superstição, da antiga Gália e entre os Borussianos do século X (os Prussianos de hoje). Seus Koltkys, ou gênios domésticos, vinham também roubar trigo dos celeiros para levarem à aqueles de quem gostavam.

Quem não reconhece, nessas traquinagens, – à parte da indelicadeza do trigo roubado, do qual é provável que os autores se desculpavam em detrimento da reputação dos Espíritos – quem, dizemos, não reconhecerá nossos Espíritos batedores e aqueles que podem, sem lhes injuriar, ser chamados de perturbadores? Que um fato semelhante àquele que nos reportamos, mais acima, dessa jovem de Panoramas, tivesse se passado no campo, teria sido, sem nenhuma dúvida, levado à conta do Gobelin do lugar, depois de amplificado pela imaginação fecunda das comadres; não faltará ter visto o pequeno demônio pendurado na campainha, zombando e fazendo caretas aos tolos que iam abrir a porta.

Os Gobelins – Lendas

Manifestações físicas – Fenômeno de passagem dos Panoramas

Revista Espírita, janeiro de 1858

Lemos o que se segue, em le Spiritualiste de Ia Nouvelle-Orléans, do mês de fevereiro de 1857:

– “Recentemente, nos perguntamos se todos os Espíritos, indistintamente, fazem mover as mesas, produzem ruídos, etc., e logo a mão de uma dama, muito séria para brincar com essas coisas, traça, violentamente estas palavras:

– “Quem faz os macacos dançarem em vossas ruas? São os homens superiores?”

“Um amigo, espanhol de nascimento, que era espiritualista, e que morreu no verão passado, nos deu diversas comunicações; numa delas, acha-se esta passagem:

“As manifestações que procurais não estão entre aquelas que agradam mais aos Espíritos sérios e elevados. Confessamos, todavia, que elas têm sua utilidade, porque, mais que nenhuma outra, talvez, elas podem servir para convencer os homens de hoje.

“Para obter essas manifestações, é preciso, necessariamente, que se desenvolvam certos médiuns, cuja constituição física esteja em harmonia com os Espíritos que podem produzi-las. Ninguém duvida que não os vereis, mais tarde, se desenvolverem entre vós; e, então, não serão mais pequenos golpes que ouvireis, mas, ruídos semelhantes a um fogo circulante de fuzilaria entremeado de tiros de canhão.

“Em uma parte recuada da cidade, se acha uma casa habitada por uma família alemã; aí se ouvem ruídos estranhos, ao mesmo tempo certos objetos são deslocados; pelo menos, nos asseguram, porque não o verificamos; mas, pensando que o chefe dessa família poderia nos ser útil, convidamo-lo a algumas sessões que têm por objetivo esse gênero de manifestações, e, mais tarde, a mulher desse bravo homem não quis que continuasse a ser dos nossos, porque, nos disse esse último, o barulho aumentou entre eles. A esse propósito, eis o que nos foi escrito pela mão da Senhora…….

“Não podemos impedir os Espíritos imperfeitos de fazerem barulho, ou outras coisas aborrecidas e mesmo apavorantes; mas o fato de estarem em relação conosco, que somos bem intencionados, não pode senão diminuir a influência que exercem sobre o médium em questão.”

Faremos notar a concordância perfeita que existe entre o que os Espíritos disseram em Nova Orleans, com respeito à fonte das manifestações físicas, e o que foi dito a nós mesmos. Nada poderia, com efeito, pintar essa origem com mais energia do que esta resposta, ao mesmo tempo, tão espiritual e tão profunda: “quem faz dançar os macacos nas nossas ruas? São os homens superiores?”

Teremos ocasião de narrar, segundo os jornais da América, numerosos exemplos dessas espécies de manifestações, bem mais extraordinárias do que aquelas que acabamos de citar. Responder-nos-ão, sem dúvida, com este provérbio: tem belo mentir que vem de longe. Quando coisas tão maravilhosas nos chegam de duas mil léguas, e quando não se pode verificá-las, concebe-se a dúvida; mas esses fenômenos atravessaram os mares com o senhor Home, que dele nos deu amostras. É verdade que o senhor Home não se colocou num teatro para operar seus prodígios, e que todo o mundo, pagando um preço de entrada, não pôde vê-los; por isso, muitas pessoas o tratam de hábil prestidigitador, sem refletir que a elite da sociedade, que foi testemunha desses fenômenos, não se prestaria, benevolentemente, a lhes servir de parceiro. Se o senhor Home tivesse sido um charlatão, não. estaria precavido em recusar as ofertas brilhantes de muitos estabelecimentos públicos, e teria recolhido o ouro a mãos cheias. Seu desinteresse é a resposta, a mais peremptória, que se possa dar aos seus detratores. Um charlatanismo desinteressado seria sem sentido e uma monstruosidade. Falaremos, mais tarde e com mais detalhes, do senhor Home e da missão que o levou à França. Eis, à espera disso, um fato de manifestação espontânea que distinto médico, digno de toda confiança, nos relatou, e que é tão mais autêntico quanto as coisas se passaram entre seus conhecidos pessoais.

Uma família respeitável tinha por empregada doméstica uma jovem órfã de catorze anos, cuja bondade natural e a doçura de caráter lhe haviam granjeado a afeição dos seus senhores. No mesmo quarteirão, habitava uma outra família cuja mulher tinha, não se sabe porque, tomado essa jovem em antipatia, de tal modo que supunha espécie de mau proceder, do qual ela não fora causa. Um dia, quando voltava, a vizinha saiu furiosa, armada de uma vassoura, e quis atingi-la. Assustada, ela se precipita contra a porta, quer tocar, infelizmente o cordão se encontra cortado, e ela não pode alcançá-lo; mas, eis que a campainha se agita por si mesma, e se lhe vem abrir. Em sua perturbação, ela não se inteirou do que havia se passado; mas, desde então, a campainha continuou a tocar, de tempo em tempo, sem motivo conhecido, tanto de dia quanto à noite, e quando se ia ver à porta, não se encontrava ninguém. Os vizinhos do quarteirão foram acusados de pregar essa má peça; foi dada queixa perante o comissário de polícia, que fez uma investigação, procurou se algum cordão secreto comunicava fora, e não pôde nada descobrir; entretanto, a coisa persistia, cada vez mais, em detrimento do repouso de todo o mundo, e, sobretudo, da pequena pajem, acusada de ser a causa desse barulho. Segundo o conselho que lhes foi dado, os senhores da jovem decidiram afastá-la deles, e a colocaram com amigos no campo. Desde então, a campainha permaneceu tranqüila, e nada de semelhante se produziu no novo domicílio da órfã.

Esse fato, como muitos outros que vamos relatar, não se passou nas margens do Missouri ou do Ohio, mas, em Paris, Passagem dos Panoramas. Resta, agora, explicá-lo. A jovem não tocou a campainha, isso é positivo; ela estava muito terrificada com o que se passara para pensar em uma travessura da qual fora a primeira vítima.

Uma coisa não menos positiva, era que a agitação da campainha se devia à sua presença, uma vez que o efeito cessou quando ela partiu. O médico, que testemunhou o fato, explica-o por uma possante ação magnética, exercida pela jovem, inconscientemente. Essa razão não nos parece concludente, pois, por que teria ela perdido essa força depois da sua partida? A isso, disse que o terror inspirado pela presença da vizinha deveu produzir, na jovem, uma superexcitação de maneira a desenvolver a ação magnética, e que o efeito cessou com a causa. Confessamos não estar convencidos com esse raciocínio. Se a intervenção de uma força oculta não está aqui demonstrada de maneira peremptória, é ao menos provável, segundo os fatos análogos que conhecemos. Admitindo, pois, essa intervenção, diremos que, na circunstância em que o fato se produziu na primeira vez, um Espírito protetor, provavelmente, quis que a jovem escapasse do perigo que corria; que, malgrado a afeição que seus senhores tinham por ela, talvez, era do seu interesse que ela saísse daquela casa, eis porque o ruído continuou até que tivesse partido.

Manifestações físicas – Fenômeno de passagem dos Panoramas

Respostas dos Espíritos a algumas perguntas sobre as manifestações

Revista Espírita, janeiro de 1858

P. Como os Espíritos podem agir sobre a matéria? Isso parece contrário a todas as idéias, que fazemos, da natureza dos Espíritos.

R. “Segundo vós, o Espírito não é nada, é um erro; já o dissemos, o Espírito é alguma coisa, e é por isso que ele pode agir por si mesmo; mas vosso mundo é muito grosseiro para que possa fazê-lo sem intermediário, quer dizer, sem o laço que une o Espírito à matéria.”

Observações. O laço que une o Espírito à matéria, não sendo, ele mesmo, senão imaterial, pelo menos impalpável, essa resposta não resolveria a questão, se não tivéssemos exemplo de forças igualmente inapreciáveis agindo sobre a matéria: é assim que o pensamento é a causa primeira de todos os nossos movimentos voluntários; que a eletricidade tomba, eleva e transporta massas inertes. Do fato de que se conheça o motor, seria ilógico concluir que ele não existe. O Espírito pode, pois, ter alavancas que nos são desconhecidas; a Natureza nos prova, todos os dias, que sua força não se detém no testemunho dos sentidos. Nos fenômenos espíritas, a causa imediata é, sem contradição, um agente físico; mas, a causa primeira é uma inteligência que age sobre esse agente, como nosso pensamento age sobre os nossos membros. Quando queremos bater, é nosso braço que age, não é o pensamento que bate: ele dirige o braço.

P. Entre os Espíritos que produzem efeitos materiais, os que se chamam de batedores formam uma categoria especial, ou são os mesmos que produzem os movimentos e os ruídos?

R. “O mesmo Espírito pode, certamente, produzir efeitos muito diferentes, mas há os que se ocupam, mais particularmente, de certas coisas, como, entre vós, tendes os ferreiros e os que fazem trabalhos pesados.”

P. O Espírito que age sobre os corpos sólidos, seja para movê-los, seja para bater, está na própria substância do corpo, ou fora dessa substância?

R. “Um e outro; dissemos que a matéria não é um obstáculo para os Espíritos; eles penetram tudo.”

P. As manifestações materiais, tais como os ruídos, o movimento dos objetos e todos esses fenômenos que, freqüentemente, se compraz provocar, são produzidos, indistintamente, por Espíritos superiores e por Espíritos inferiores?

R. “Não são senão Espíritos inferiores que se ocupam dessas coisas. Os Espíritos superiores, algumas vezes, deles se servem como tu farias com um carregador, a fim de levar a escutálos. Podes crer que os Espíritos, de uma ordem superior, estejam às vossas ordens para vos divertir com pasquinagens? É como se perguntásseis se, em todo mundo, os homens sábios e sérios são os malabaristas e os bufões.”

Nota. Os Espíritos que se revelam por efeitos materiais são, em geral, de ordem inferior. Eles divertem ou assustam aqueles para quem o espetáculo dos olhos tem mais atrativos do que o exercício da inteligência; são, de alguma sorte, os saltimbancos do mundo espírita. Agem, algumas vezes, espontaneamente; outras vezes, por ordem de Espíritos superiores.

Se as comunicações dos Espíritos superiores oferecem um interesse mais sério, as manifestações físicas têm, igualmente, sua utilidade para o observador; elas nos revelam forças desconhecidas na Natureza, e nos dão o meio de estudar o caráter, e, se podemos assim nos exprimir, os costumes de todas as classes da população espírita.

P. Como provar que a força oculta, que age nas manifestações espíritas, está fora do homem? Não se poderia pensar que ela reside nele mesmo, quer dizer, que age sob o impulso do seu próprio Espírito?

R. .”Quando uma coisa ocorre contra a tua vontade e teu desejo, é certo que não fostes tu quem a produziu; mas, freqüentemente, és a alavanca da qual o Espírito se serve para agir, e tua vontade lhe vem em ajuda: podes ser um instrumento mais ou menos cômodo para ele.”

Nota. É, sobretudo, nas comunicações inteligentes que a intervenção de uma força estranha se torna patente. Quando essas comunicações são espontâneas e fora do nosso pensamento e do nosso controle, quando respondem a perguntas cuja solução é desconhecida dos assistentes, é preciso procurar-lhe a causa fora de nós. Isso se torna evidente para quem observe os fatos com atenção e perseverança; as nuanças de detalhes escapam ao observador superficial.

P. Todos os Espíritos estão aptos para dar manifestações inteligentes?

R. “Sim, uma vez que todos os Espíritos são inteligências; mas, como os há de todas as categorias, tal como entre vós, uns dizem coisas insignificantes ou estúpidas, os outros coisas sensatas.”

P. Todos os Espíritos estão aptos a compreender as questões que se lhes coloquem?

R. “Não; os Espíritos inferiores são incapazes de compreender certas questões, o que não lhes impede de responderem bem ou mal; é ainda como entre vós.”

Nota. Vê-se, por aí, o quanto é essencial colocar-se em guarda contra a crença no saber indefinido dos Espíritos. Ocorre, com eles, como com os homens; não basta interrogar ao primeiro que se encontra para ter uma resposta sensata, é preciso saber a quem se dirige.

Quem quer conhecer os costumes de um povo, deve estudá-lo desde o baixo até o ápice da escala; não ver senão uma classe, é fazer dele uma idéia falsa, se se julga o todo pela parte. O povo dos Espíritos é como os nossos, há de tudo, do bom, do mau, do sublime, do trivial, do saber e da ignorância. Quem não o observou, como filósofo, em todos os graus não pode se gabar de conhecê-lo. As manifestações físicas nos fazem conhecer os Espíritos de baixo estágio; é a rua e a cabana. As comunicações instrutivas e sábias nos colocam em relação com os Espíritos elevados; é a elite da sociedade: o castelo, o instituto.

Respostas dos Espíritos a algumas perguntas sobre as manifestações