O senhor Home (primeiro artigo)

Revista Espírita, fevereiro de 1858

Os fenômenos realizados pelo senhor Home produziram tanto mais sensações porque vieram confirmar as narrações maravilhosas chegadas de além-mar, e a cuja veracidade se ligou uma certa desconfiança. Ele nos mostrou que, deixando de lado a maior possibilidade ao exagero, deles restou o bastante para confirmar a realidade de fatos cumprindo-se fora de todas as leis conhecidas.

Tem-se falado do senhor Home em sentidos muito diversos, e confessamos que seria preciso muito para que todo o mundo lhe fosse simpático, uns por espírito de sistema, outros por ignorância.

Queremos mesmo admitir, nestes últimos, uma opinião conscienciosa, pela falta de terem podido constatar os fatos por si mesmos; mas se, nesse caso, a dúvida é permitida, uma hostilidade sistemática e apaixonada está sempre deslocada. Em todo o estado de processo, julgar o que não se conhece é uma falta de lógica, o de apreciar sem provas é um esquecimento das conveniências. Façamos, por um instante, abstração da intervenção dos Espíritos, e não vejamos, nos fatos narrados, senão simples fenômenos físicos. Quanto mais esses fatos sejam estranhos, mais merecem atenção. Explicai-os como quiserdes, mas não os contesteis a prior/, se não quiserdes fazer duvidar do vosso julgamento. O que deve espantar, e o que nos parece mais anormal ainda do que os fenômenos em questão, é de ver esses mesmos que debateram, sem cessar, contra a oposição de certos corpos sábios com relação às idéias novas, que lhes lançam, incessantemente, à face, e isso em termos os menos circunspectos, os dissabores suportados pelos autores das mais importantes descobertas, Fulton, Jenner e Galileu, que citam a toda hora, eles mesmos caírem num defeito semelhante, eles que dizem, com razão, que há poucos anos ainda, quem houvesse falado em se corresponder, em alguns segundos, de um canto do mundo ao outro, teria passado por insensato. Se crêem no progresso, do qual se dizem apóstolos, que sejam, pois, coerentes consigo mesmos, e não atraiam para si a censura que endereçam aos outros de negarem o que não compreendem.

Voltemos ao senhor Home. Chegado a Paris no mês de outubro de 1855, encontrou-se, desde o início, lançado no mundo mais elevado, circunstância que deveria ter imposto mais circunspeção no julgamento que se lhe fez, porque quanto mais o mundo é elevado e esclarecido, menos é suspeito de estar sendo benevolentemente enganado por um aventureiro. Mesmo essa posição tem suscitado comentários. Pergunta-se quem é o senhor Home. Para viver neste mundo, para fazer viagens custosas, diz-se, é necessário que se tenha fortuna. Se não a tem, é preciso que seja sustentado por pessoas poderosas. Alinhavaram-se, sobre esse tema, mil suposições, uma mais ridícula do que as outras. O que não se disse também de sua irmã que ele veio procurar, há um ano mais ou menos; era, dizia-se, um médium mais poderoso do que ele; os dois deveriam realizar prodígios de fazerem empalidecer os de Moisés. Mais de uma vez, perguntas nos foram dirigidas a esse respeito; eis a nossa resposta.

O senhor Home, vindo à França, não se dirigiu ao público; ele não ama e nem procura a publicidade. Se tivesse vindo com objetivo de especulação, teria corrido o país solicitando a propaganda em sua ajuda; teria procurado todas as ocasiões de se promover, ao passo que as evita; teria posto um preço às suas manifestações, ao passo que ele não pede nada a ninguém. Malgrado a sua reputação, o senhor Home não é, pois, o que se pode chamar um homem público, sua vida privada só pertence a ele. Do momento que nada pede, ninguém tem o direito de inquirir como vive, sem cometer uma indiscrição. É sustentado por pessoas poderosas? Isso não nos diz respeito; tudo o que podemos dizer é que, nessa sociedade de elite, conquistou simpatias reais e fez amigos devotados, ao passo que a um prestidigitador diverte-se se o paga, e tudo está dito. Não vemos no senhor Home senão uma coisa: um homem dotado de uma faculdade notável. O estudo dessa faculdade é tudo o que nos interessa, e tudo o que deve interessar a quem não esteja movido unicamente pelo sentimento da curiosidade. A história ainda não abriu, sobre ele, o livro dos seus segredos; até lá ele não pertence senão à ciência. Quanto à sua irmã, eis a verdade: é uma criança de onze anos, que foi conduzida a Paris para a sua educação, da qual está encarregada uma ilustre pessoa. Sabe com dificuldade em que consiste a faculdade do seu irmão. É bem simples, como se vê, bem prosaico para os apreciadores do maravilhoso.

Agora, por que o senhor Home veio à França? Não foi para procurar fortuna, como acabamos de provar. Foi para conhecer o país? Ele não o percorre; sai pouco, e não tem, de modo algum, os hábitos de um turista. O motivo patente foi o conselho dos médicos, que acreditaram o ar da Europa necessário à sua saúde, mas os fatos mais naturais, freqüentemente, são providenciais. Pensamos, pois, que se veio foi porque deveria para aqui vir. A França, ainda na dúvida no que concerne às manifestações espíritas, tinha necessidade de que um grande lance fosse cunhado; o senhor Home foi quem recebeu essa missão, e quanto mais o lance tocou alto, mais teve de ressonância. A posição, o crédito, as luzes daqueles que o acolheram, e que ficaram convencidos pela evidência dos fatos, abalaram as convicções de uma multidão de pessoas, mesmo entre aquelas que não puderam ser testemunhas oculares. A presença do senhor Home, pois, terá sido um poderoso auxiliar para a propagação das idéias espíritas; se não convenceu a todo o mundo, lançou sementes que frutificarão tanto mais quanto os próprios médiuns se multiplicarão. Essa faculdade, como, aliás, já o dissemos, não é um privilégio exclusivo; ela existe em estado latente, e em diversos graus, numa multidão de indivíduos, não esperando senão uma ocasião para se desenvolver; o princípio está em nós pelo próprio efeito da nossa organização; está na Natureza; todos nós temo-lo em germe, e não está longe o dia em que veremos os médiuns surgirem de todos os pontos, no nosso meio, em nossas famílias, no pobre como no rico, a fim de que a verdade seja conhecida por todos, porque, segundo o que nos está anunciado, é uma nova era, uma nova fase que começa para a Humanidade. A evidência e a vulgarização dos fenômenos espíritas darão um novo curso às idéias morais, como o vapor deu um novo curso à indústria.

Se a vida privada do senhor Home deve estar fechada às investigações de uma indiscreta curiosidade, há certos detalhes que podem, a justo título, interessar o público, e que é mesmo inútil conhecer pela apreciação dos fatos.

O senhor Daniel Dunglas Home nasceu em 15 de março de 1833, perto de Edimbourg. Tem, pois, hoje, 24 anos. Descende da antiga e nobre família dos Dunglas da Escócia, outrora soberana. É um jovem de talhe mediano, louro, cuja fisionomia melancólica nada tem de excêntrico; é de compleição muito delicada, de costumes simples e suaves, de um caráter afável e benevolente sobre o qual o contato das grandezas não lançou nem arrogância e nem ostentação. Dotado de uma excessiva modéstia, jamais exibiu a sua maravilhosa faculdade, jamais falou de si mesmo, e se, na expansão da intimidade, conta coisas que lhe são pessoais, é com simplicidade, e jamais com a ênfase própria das pessoas com as quais a malevolência procura compará-lo. Vários fatos íntimos, que são do nosso conhecimento pessoal, provam nele nobres sentimentos e uma grande elevação de alma; nós o constatamos com tanto maior prazer quanto se conhece a influência das disposições morais sobre a natureza das manifestações.

Os fenômenos maravilhosos dos quais o senhor Home é o instrumento involuntário, têm sido, por vezes, contados por amigos muito zelosos, com um entusiasmo exagerado, do qual se apodera a malevolência. Tais que sejam, não poderiam ter necessidade de uma amplificação, mais nociva do que útil à causa. Sendo o nosso objetivo o estudo sério de tudo o que se liga à ciência espírita, nos limitaremos na estrita realidade dos fatos constatados por nós mesmos ou pelas testemunhas oculares, mais dignas de fé. Poderemos, pois, comentá-los com a certeza de não raciocinar sobre coisas fantásticas.

O senhor Home é um médium do gênero daqueles que produzem manifestações ostensivas, sem excluir, por isso, as comunicações inteligentes; mas as suas predisposições naturais lhe dão, para as primeiras, uma aptidão mais especial. Sob a sua influência, os mais estranhos ruídos se fazem ouvir, o ar se agita, os corpos sólidos se movem, se erguem, se transportam de um lugar a outro através do espaço, instrumentos de música fazem ouvir sons melodiosos, seres do mundo extra-corpóreo aparecem, falam, escrevem e, freqüentemente, vos abraçam até causar dor. Ele mesmo foi visto, várias vezes, em presença de testemunhas oculares, elevado sem sustentação a vários metros de altura.

Do que nos foi ensinado sobre a classe dos Espíritos que produzem, em geral, essas espécies de manifestações, não seria preciso disso concluir que o senhor Home não está em relação senão com a classe ínfima do mundo espírita. Seu caráter e as qualidades morais que o distinguem, devem, ao contrário, granjear-lhe a simpatia dos Espíritos superiores; ele não é, para estes últimos, senão um instrumento destinado a abrir os olhos dos cegos por meios enérgicos, sem estar, por isso, privado de comunicações de uma ordem mais elevada. É uma missão que aceitou; missão que não está isenta nem de tribulações e nem de perigos, mas que cumpre com resignação e perseverança, sob a égide do Espírito de sua mãe, seu verdadeiro anjo guardião.

A causa das manifestações do senhor Home é inata nele; sua alma, que parece não prenderse ao corpo senão por fracos laços, tem mais afinidade pelo mundo espírita do que pelo mundo corpóreo; por isso, ela se separa sem esforços, e entra, mais facilmente do que em outros, em comunicação com os seres invisíveis. Essa faculdade se revelou nele desde a mais tenra infância, Com a idade de seis meses, seu berço se balançava inteiramente sozinho, na ausência da sua babá, e mudava de lugar. Nos seus primeiros anos, era tão débil que tinha dificuldade para se sustentar; sentado sobre um tapete, os brinquedos que não podia alcançar, vinham, eles mesmos, colocar-se ao seu alcance.Com três anos teve as suas primeiras visões, mas não lhes conservou a lembrança. Tinha nove anos quando a sua família foi se fixar nos Estados Unidos; aí os mesmos fenômenos continuaram com uma intensidade crescente, à medida que avançava em idade, mas a sua reputação, como médium, não se estabeleceu senão em 1850, por volta da época em que as manifestações espíritas começaram a se tornar populares nesse país. Em 1854, veio para a Itália, nós o dissemos, por sua saúde; espanta Florença e Roma com verdadeiros prodígios. Convertido à fé católica, nessa última cidade, tomou a obrigação de romper as suas relações com o mundo dos Espíritos. Durante um ano, com efeito, seu poder oculto parece tê-lo abandonado; mas como esse poder estava acima da sua vontade, ao cabo desse tempo, assim como lhe havia anunciado o Espírito de sua mãe, as manifestações se reproduziram com uma nova energia. Sua missão estava traçada; deveria distinguir-se entre aqueles que a Providência escolheu para nos revelar, por sinais patentes, a força que domina todas as grandezas humanas.

Se o senhor Home não fora, como o pretendem certas pessoas que julgam sem ter visto, senão um hábil prestidigitador, teria sempre, sem nenhuma dúvida, à sua disposição peças
em sua sacola, ao passo que não é senhor de produzi-los à vontade. Ser-lhe-ia, pois, impossível ter sessões regulares, porque, freqüentemente, seria no momento em que teria necessidade que a sua faculdade lhe faltaria Os fenômenos se manifestam, algumas vezes, espontaneamente, no momento em que menos são esperados ao passo que, em outras, se é impotente para provocá-los, circunstância pouco favorável a quem quisesse fazer exibições em horas fixadas. O fato seguinte, tomado entre mil, disso é uma prova. Desde há mais de quinze dias, o senhor Home não tinha podido obter nenhuma manifestação, quando, estando a almoçar na casa de um dos seus amigos, com duas ou três outras pessoas do seu conhecimento, os golpes se fazem súbito ouvir nas paredes, nos móveis e no teto. Parece, disse, que voltam. O senhor Home, nesse momento, estava sentado no sofá com um amigo. Um doméstico traz a bandeja de chá e se apressa em colocá-la sobre a mesa situada no meio do salão; esta, embora fosse pesada, se eleva subitamente e se destaca do solo em 20 a 30 centímetros de altura, como se tivesse sido atraída pela bandeja; apavorado, o criado deixa-a escapar, e a mesa, de um pulo, se atira em direção do sofá e vem cair diante do senhor Home e seu amigo, sem que nada do que estava em cima tivesse se desarrumado. Esse fato, sem contradita, não é o mais curioso daqueles que teríamos a relatar, mas apresenta essa particularidade, digna de nota, de ter se produzido espontaneamente, sem provocação, num círculo íntimo, onde nenhum dos assistentes, cem vezes testemunhas de fatos semelhantes, tinha necessidade de novos testemunhos; seguramente, não era o caso para o senhor Home de mostrar as suas habilidades, se habilidades havia. Num próximo artigo, citaremos outras manifestações.

O senhor Home (primeiro artigo)

Palestras de além-túmulo – senhorita Clary D

Revista Espírita, fevereiro de 1858

SENHORITA CLARY D… – EVOCAÇÃO

Nota. A senhorita Clary D…, interessante criança, que morreu em 1850, com a idade de treze anos e, desde então, ficou como o gênio da sua família, onde é freqüentemente evocada, e à qual dá um grande número de comunicações do mais alto interesse. A palestra que relataremos a seguir, ocorreu entre ela e nós no dia 12 de janeiro de 1857, por intermédio de seu irmão médium.

1. P. Tendes uma lembrança precisa da vossa existência corporal? – R. O Espírito vê o presente, o passado e um pouco do futuro, segundo a sua perfeição e a sua aproximação de Deus.

2. P. Essa condição, a da perfeição, é relativa só ao futuro ou se relaciona, igualmente, com o presente e o passado? -R. O Espírito vê o futuro, mais claramente, à medida que se aproxima de Deus. Depois da morte, a alma vê e abarca com um golpe de vista, todas as suas migrações passadas, mas não pode ver o que Deus lhe prepara; é preciso, para isso, que ela esteja inteiramente em Deus, depois de muitas existências.

3. P. Sabeis em qual época sereis reencarnada? – fl. Em 10 ou 100 anos.

4. P. Será nesta Terra ou em um outro mundo? – R. Num outro mundo.

5. P. O mundo em que estareis, com relação à Terra, tem condições melhores, iguais ou inferiores? – R. Muito melhores do que na Terra. Nele se é feliz.

6. P. Uma vez que estais aqui entre nós, estais num lugar determinado, em que sítio? – R. Estou com aparência etérea; poderia dizer que o meu Espírito, propriamente dito, se estende para muito mais longe; vejo muitas coisas, e me transporto para bem longe daqui com a rapidez do pensamento; minha aparência está à direita do meu irmão e guia o seu braço.

7. P. O corpo etéreo, do qual estais revestida, vos permite sentir as sensações físicas, como, por exemplo, a do calor ou do frio? – R. Quando me lembro muito do meu corpo, sinto uma espécie de impressão, como quando se tira um casaco e se o crê ainda vesti-lo algum tempo depois.

8. P. Acabais de dizer que podeis vos transportar com a rapidez do pensamento; o pensamento não é a própria alma que se separa do seu envoltório? – R. Sim.

9. P. Quando o vosso pensamento se transporta para alguma parte, como se dá a separação da vossa alma? –R. A aparência se desvanece; 9 pensamento caminha sozinho.

10. P. É, pois, uma faculdade que se separa; o ser permanece onde está? – R. A forma não é o ser.

11. P. Mas como esse pensamento age? Não age, sempre, por intermédio da matéria? – R Não.

12. P. Quando a vossa faculdade de pensar se separa, não agis mais por intermédio da matéria? – R A sombra se esvanece; ela se reproduz onde o pensamento a guia.

13. P. Uma vez que não tínheis senão 13 anos quando vosso corpo morreu, como ocorre que possais nos dar, sobre questões tão abstratas, respostas que estão fora do entendimento de uma criança da vossa idade? – R Minha alma é tão antiga!

14. P. Podeis nos citar, entre as vossas existências anteriores, uma das que mais elevaram os vossos conhecimentos? – R Estive no corpo de um homem que tornei virtuoso; depois da sua morte, fui levada ao corpo de uma jovem cuja face era a marca da alma; Deus me recompensa.

15. P. Poderia nos ser dado vos ver assim tal como sois atualmente? – R A vós poderia.

16. P. Como poderíamos? Isso depende de nós, de vós ou de pessoas mais íntimas? – R De vós.

17. P. Quais condições deveriam se cumprir para isso? -R Recolher-vos por algum tempo, com fé e fervor, serem menos numerosos, vos isolar um pouco, e fazerdes vir um médium no gênero de Home.

Palestras de além-túmulo – senhorita Clary D

A avareza

Revista Espírita, fevereiro de 1858

DISSERTAÇÃO MORAL DITADA POR SÃO LUIS À SENHORITA HERMANCE DUFAUX

6 de janeiro de 1858

1.

Tu que possuis, escuta-me. Um dia, dois filhos de um mesmo pai receberam, cada um, um alqueire de trigo. O primogênito encerrou o seu num lugar oculto; o outro encontra, em seu caminho, um pobre que pede esmola; corre a ele, e vira, no pano do seu casaco, a metade do trigo que lhe foi dado, depois continuou sua rota, e foi semear o resto no campo paterno.

Ora, por esse tempo, veio uma grande fome, os pássaros do céu morriam ao lado do caminho. O irmão primogênito correu ao seu esconderijo, mas aí não encontra senão pó; o caçula, tristemente, ia contemplar o seu trigo, desanimado, quando encontra o pobre ao qual havia assistido. Irmão, disse-lhe o mendigo, ia morrer, tu me socorreste; agora, que a esperança secou em teu coração, segue-me. Teu meio alqueire quintuplicou em minhas mãos; apaziguarei a tua fome e viverás na abundância.

2.

Escuta-me, avaro! Conheces a felicidade? Sim, não é? Teu olhar brilha com um sombrio esplendor em tua órbita que a avareza cavou mais profundamente; os lábios se fecham; teu nariz treme e prestas atenção. Sim, ouço, é o ruído do ouro que a tua mão acaricia jogando-o em teu esconderijo. Tu dizes: É a volúpia suprema. Silêncio! Vem alguém. Fecha depressa. Bem! estás pálido! teu corpo estremece. Tranqüiliza-te; os passos se distanciam. Abre; olha, ainda, o teu ouro. Abre! não temas mais; estás bem sozinho. Ouves! não, nada; é o vento que geme passando sobre a soleira da porta.

Olha; quanto ouro! mergulha plenamente as mãos: faze soar o metal; tu és feliz.

Feliz, tu! mas a noite é sem repouso e o teu sono é atormentado por fantasmas.

Tens frio! Aproxima-te da chaminé; aquece-te nesse fogo que crepita tão alegremente. A neve cai; o viajor se envolve, friorento, em seu casaco, e o pobre tirita sob os seus andrajos. A chama do fogo se abranda; atire madeira. Mas não; pare! é o teu ouro que consomes com essa madeira; é o teu ouro que queima.

Tens fome! Tens, toma; sacia-te; tudo isso é teu, pagaste com o teu ouro. De teu ouro! Essa abundância te deixa indignado, esse supérfluo é necessário para sustentar a vida? Não, esse pequeno pedaço de pão basta; ainda é muito. Tuas vestes caem em farrapos; a casa fendese e ameaça ruir; tu sofres de frio e de fome; mas que importa! tens o ouro.

Infeliz! Esse ouro, a morte dele te separará. Tu o deixarás à beira do túmulo, como o pó que o viajor sacode no limiar da porta onde a sua família bem-amada o espera para festejar o seu regresso.

Teu sangue enfraquece, envelhecido pela tua miséria voluntária, está frio nas veias. Os herdeiros ávidos acabam de atirar o teu corpo num canto do cemitério; te vês face a face com a eternidade. Miserável! Que fizeste desse ouro que te foi confiado para soerguer o pobre? Ouves essas blasfêmias? Vês essas lágrimas? Vês esse sangue? Essas blasfêmias são as do sofrimento que terias podido acalmar; essas lágrimas, tu as fizeste correr; esse sangue, foste tu que o verteste. Tens horror de ti; gostarias de fugir e não o podes. Sofres, condenado! Tu te contorces em teu sofrimento. Sofres! nada de piedade para ti. Não tiveste entranhas para o teu irmão infeliz; quem as terá para ti? Sofre! Sofre sempre! Teu suplício não terá fim. Deus quer, para te punir, que o CREIAS assim.

Nota. Escutando o fim dessas eloqüentes e poéticas palavras, nos surpreendemos ouvindo São Luís falar da eternidade dos sofrimentos, quando todos os Espíritos superiores concordam no combate a essa crença, mas estas últimas palavras: Deus quer, para te punir, que o CREIAS assim vieram tudo explicar. Nós as reproduzimos nos caracteres gerais dos Espíritos da terceira ordem. Com efeito, quanto mais os Espíritos são imperfeitos, mais as suas idéias são restritas e circunscritas; o futuro, para eles, está no vago: não o compreendem. Sofrem; seus sofrimentos são longos; e, para os que sofrem por longo tempo, é sofrer sempre. Esse próprio pensamento é um castigo.

Em um próximo artigo, citaremos fatos de manifestações que poderão nos esclarecer sobre a natureza dos sofrimentos além-túmulo.

A avareza.jpg

A floresta de Dodone e a estátua de Memnon

Revista Espírita, fevereiro de 1858

Para chegarmos à floresta de Dodone, passamos pela rua Lamartine, e nos detemos um instante na casa do senhor B”*, onde vimos um móvel dócil nos colocar um novo problema de estática.

Os assistentes, em um número qualquer, estão colocados ao redor da mesa em questão, em uma ordem igualmente qualquer, porque não há, aí, nem números e nem lugares cabalísticos; têm as mãos pousadas sobre a beirada; fazem, seja mentalmente, seja em voz alta, apelos aos Espíritos que têm o hábito se atenderem o seu convite. Conhece-se a nossa opinião sobre esse gênero de Espíritos, por isso nós os tratamos um pouco sem cerimônia. Quatro ou cinco minutos apenas são decorridos, quando um ruído claro de toe, toe, se faz ouvir na mesa, freqüentemente, bastante forte para ser ouvido da peça vizinha, e se repete ainda por muito tempo, e ainda com a freqüência que seja desejada. A vibração se faz sentir nos dedos, e, aplicando-se o ouvido contra a mesa, reconhece-se, não ao ponto de se enganar, que o ruído tem a sua fonte na própria substância da madeira, porque toda a mesa vibra, desde os pés até a superfície.

Qual é a causa desse ruído? É a madeira que opera ou é como se disse, um Espírito? Descartemos, primeiro, toda idéia de fraude; estamos entre pessoas muito sérias, e de muito boa companhia, para se divertir às custas daqueles que, entre elas, querem muito admitir; aliás, essa casa não é privilegiada; os mesmos fatos se produzem em cem outras, também muito louváveis. Permita-nos, à espera da resposta, uma pequena digressão.

Um jovem candidato bacharel estava em seu quarto ocupado em decorar o seu exame de retórica; bate-se à sua porta. Admitis, penso, que se pode distinguir a natureza do ruído e, sobretudo, sua repetição, se é causado por um estalido da madeira, a agitação do vento ou uma outra causa toda fortuita, ou se é alguém que bate para pedir entrada. Neste último caso, o ruído tem um caráter intencional com o qual não se pode equivocar-se; é o que a si mesmo diz nosso estudante. Entretanto, para não se desviar do dever inutilmente, quis se assegurar pondo o visitante em prova. Se é alguém, disse, que bata uma, duas, três, quatro, cinco, seis pancadas; batei no alto, a em baixo, à direita, à esquerda; batei o compasso; batei a chamada, etc. e, a cada um desses comandos, o ruído obedece com a mais perfeita pontualidade. Certamente, pensa ele, não pode ser nem o jogo da madeira, nem o vento, nem mesmo um gato, por inteligente que se o suponha. Eis um fato, vejamos a quais conseqüências nos conduzirão os argumentos silogísticos. Fez, ainda, o seguinte raciocínio: Ouvi um ruído, portanto, alguma coisa o produziu; esse ruído obedece ao meu comando, pois a causa que o produziu me compreende; ora, quem compreende tem inteligência, portanto, a causa desse ruído é inteligente. Se ela é inteligente, não é nem a madeira e nem o vento, é, pois, alguém. Em razão disso, vai abrir a porta. Vê-se que não há necessidade de ser doutor para tirar essa conclusão, e nós cremos o nosso aprendiz bacharel bastante aterrado aos seus princípios para tirar a seguinte. Suponhamos que ele vá abrir a porta e não encontre ninguém, e que o ruído nem por isso continue exatamente do mesmo modo; perseguirá seu raciocínio: “Acabo de me provar, sem contestação, que o ruído foi produzido por um ser inteligente, uma vez que responde ao meu pensamento. Ouço sempre esse ruído diante de mim, e é certo que não sou eu quem bate, portanto, é um outro; ora, esse outro, eu não o vejo: pois é invisível. Os seres corpóreos, pertencendo à Humanidade, são perfeitamente visíveis; ora, o que bate, sendo invisível, não é um ser corpóreo humano. Ora, uma vez que chamamos Espíritos os seres incorpóreos, este que bate, não sendo um ser corpóreo, é, pois, um Espírito.”

Cremos: que as conclusões do nosso estudante, são rigorosamente lógicas; só que aquilo que demos como uma suposição é uma realidade, no que concerne às experiências feitas na casa do senhor B***. Acrescentaremos que não houve necessidade da imposição de mãos, todos os fenômenos se produziram igualmente bem quando a mesa estava isolada de todo contacto. Assim, segundo o desejo manifestado, os golpes eram batidos na mesa, na parede, na porta, e no lugar designado, verbal ou mentalmente; eles indicavam a hora, o número de pessoas presentes; batiam o tambor, a chamada, o ritmo de uma ária conhecida; imitavam o trabalho do tanoeiro, o rangido da serra, o eco, tiros seguidos ou de pelotões, e muitos outros efeitos, muito longos para serem descritos. Foi-nos dito terem ouvido, em certos círculos, imitar o assovio do vento, o sussurro das folhas, o ribombo do trovão, o marulho das ondas, o que nada tem de mais surpreendente. A inteligência da causa se torna mais patente quando, no meio desses mesmos golpes, obtém-se respostas categóricas a certas perguntas; ora, é a essa causa inteligente que nós chamamos, ou, para melhor dizer, que chamou a si mesma, Espírito. Quando esse Espírito quer dar uma comunicação mais longa, indica, por um sinal particular, que quer escrever; então, o médium escrevente toma o lápis e transmite o seu pensamento por escrito.

Entre os assistentes, não falamos daqueles que estavam ao redor da mesa, mas de todas as pessoas que enchiam o salão, havia incrédulos puro sangue, meio crentes e adeptos fervorosos, mistura pouco favorável como se sabe. Os primeiros, deixá-los-emos à vontade, esperando que a luz se faça para eles. Respeitamos todas as crenças, mesmo a incredulidade que é, também, uma espécie de crença, quando ela se respeita bastante a si mesma para não machucar as opiniões contrárias. Dela não falaríamos, pois, se não devesse nos fornecer uma observação útil. Seu raciocínio, muito menos prolixo do que o do nosso estudante, geralmente, se resume assim: Eu não creio nos Espíritos, portanto, não devem ser Espíritos. Uma vez que não são Espíritos, isso deve ser um malabarismo. Essa conclusão os conduz, naturalmente, a supor que a mesa esteja preparada ao modo de Robert Houdin. A isso, a nossa resposta é bem simples: seria preciso, primeiro, que todas as mesas e todos os móveis estivessem preparados, uma vez que, entre eles, não há privilegiados; somente não conhecemos mecanismo bastante engenhoso para produzir à vontade todos os efeitos que descrevemos; em terceiro lugar, seria preciso que o senhor B*** houvesse preparado as paredes e as portas do seu apartamento, o que é pouco provável; em quarto lugar, enfim, seria preciso que se tivesse preparado, do mesmo modo, as mesas, as portas e as paredes de todas as casas onde semelhantes fenômenos se produzem diariamente, o que não é presumível, porque se conheceria o hábil construtor de tantas maravilhas.

Os meio crentes admitem todos os fenômenos, mas ficam indecisos sobre a causa. Reenviamo-los aos argumentos do nosso futuro bacharel.

Os crentes apresentam três nuanças bem caracterizadas: os que não vêem nessas experiências, senão uma diversão, um passatempo, e cuja admiração se traduz por estas palavras, ou suas análogas: é espantoso! é singular! é bem engraçado! mas que não vão além. Há, em seguida, as pessoas sérias, instruídas, observadoras, às quais não escapa nenhum detalhe, e para as quais as menores coisas são objeto de estudo. Vêm, em seguida, os ultra-crentes, se assim podemos nos exprimir, ou, para dizer melhor, os crentes cegos, aos quais se pode censurar um excesso de credulidade; aos quais a fé, insuficientemente esclarecida, lhes dá uma tal confiança nos Espíritos, que lhes emprestam todos os
conhecimentos e, sobretudo, a presciênda; é, também, com a melhor fé do mundo que pedem notícias de todos os seus negócios, sem pensarem que deles teriam sabido tudo igualmente junto ao primeiro ledor de boa sorte. Para eles, a mesa falante não é um objeto de estudo e de observação, é um oráculo. Não têm contra ela senão a sua forma trivial e os usos muito vulgares, mas que a madeira, da qual está feita, em lugar de estar configurada para as necessidades domésticas, estivesse de pé, teríeis uma árvore falante ; se estivesse talhada numa estátua, teríeis um ídolo diante do qual os povos crédulos viriam se prosternar.

Agora, transponhamos os mares e vinte e cinco séculos, e transportando-nos ao pé do monte Tomarus, em Epire, aí encontraremos a floresta sagrada, cujos carvalhos representavam oráculos; acrescentai o prestígio do culto e a pompa das cerimônias religiosas, e explicar-voseis, facilmente, a veneração de um povo ignorante e crédulo que não podia ver a realidade através de tantos meios de fascinação.

A madeira não é a única substância que pode servir de veículo para a manifestação dos Espíritos batedores. Vimo-las se produzirem numa parede, por conseqüência, na pedra. Temos, pois, também pedras falantes. Que essas pedras representem um personagem sagrado, teremos a estátua de Memnon, ou a de Júpiter Ammon, representando oráculos como as árvores de Dodone.

A história, é verdade, não nos disse que esses oráculos eram representados por pancadas, como vemos em nossos dias. Era, na floresta de Dodone, pelo assovio do vento através das árvores, pelo sussurro das folhas, pelo murmúrio da fonte que jorra ,ao pé do carvalho consagrado a Júpiter. A estátua de Memnon, diz-se, produzia sons melodiosos aos primeiros raios do sol. Mas, a história nos disse, também, como tivemos ocasião de demonstrá-lo, que os antigos conheciam perfeitamente os fenômenos atribuídos aos Espíritos batedores. Ninguém duvide de que não esteja aí o princípio da sua crença na existência de seres animados nas árvores, nas pedras, nas águas, etc. Mas, desde que esse gênero de manifestações foi explorado, os golpes não bastavam mais; os visitantes eram muito numerosos para que se pudesse dar, a cada um, uma sessão particular; isso teria sido, aliás, coisa muito simples; seria preciso o prestígio e, no momento em que eles enriqueciam o templo com as suas oferendas, seria preciso dar-se-lhes pelo seu dinheiro. O essencial era que o objeto fosse olhado como sagrado e habitado por uma divindade; podia-se, desde então, fazê-lo dizer tudo o que se quisesse sem tomar muitas precauções.

Os sacerdotes de Memnon, diz-se, usavam de fraude; a estátua era oca, e os sons que ela fornecia eram produzidos por algum meio acústico. Isso era possível e mesmo provável. Os Espíritos, mesmo os simples batedores, que são em geral menos escrupulosos do que os outros, não estão sempre, como dissemos, à disposição do primeiro que chegue; têm sua vontade, suas ocupações, suas suscetibilidades, e nem uns e nem outros gostam de ser explorados pela cupidez. Que descrédito, para os sacerdotes, se não tivessem podido fazer falar oportunamente seu ídolo! Seria preciso suprir o seu silêncio, e, se fosse necessário, dar um golpe de mão; aliás, seria bem mais cômodo do que se dar tanto trabalho, e se poderia formular as respostas segundo as circunstâncias. O que vemos em nossos dias, não prova menos que as crenças antigas tinham, por princípio, o conhecimento das manifestações espíritas, e foi com razão que dissemos que o Espiritismo moderno é o despertar da antigüidade, mas da antigüidade esclarecida pelas luzes da civilização e da realidade.

A floresta de Dodone e a estátua de Memnon

Isolamento dos corpos pesados

Revista Espírita, fevereiro de 1858

O movimento dado aos corpos inertes, pela vontade é, hoje, tão conhecido que seria quase pueril relatar fatos desse gênero; não ocorre o mesmo quando esse movimento é acompanhado de certos fenômenos menos vulgares, tais como, por exemplo, o da suspensão no espaço. Se bem que os anais do Espiritismo, deles, cita numerosos exemplos, esse fenômeno apresenta uma tal derrogação das leis da gravidade que a dúvida parece muito natural a quem dele não tenha sido testemunha. Nós mesmos, confessamos, por habituados que estamos com as coisas extraordinárias, ficamos bem contentes em constatar-lhe a realidade. Os fatos que vamos narrar se passaram várias vezes, sob os nossos olhos, nas reuniões que tiveram lugar outrora na casa do senhor B…, rua Lamartine, e sabemos que se produziram muitas vezes em outro lugar; podemos, pois, certificá-los como incontestáveis. Eis como as coisas se passaram:

Oito ou dez pessoas, entre as quais se encontravam algumas dotadas de uma força especial, sem serem, todavia, médiuns reconhecidos, colocavam-se ao redor de uma mesa de salão, pesada e maciça, as mãos pousadas sobre a borda e todas unidas em intenção e vontade. Ao cabo de um tempo mais ou menos longo, dez minutos ou um quarto de hora, segundo as disposições eram mais ou menos favoráveis, a mesa, malgrado o seu peso de quase 100 quilos, se punha em movimento, deitando à direita ou à esquerda, sobre o soalho, se transportando para diversas partes designadas do salão, depois se erguendo, tanto sobre um pé, quanto sobre o outro, até formar um ângulo de 45 graus, se balançando com rapidez, imitando os movimentos longitudinais e laterais de um navio. Se, nessa posição, os assistentes redobravam esforços por sua vontade, a mesa se destacava, inteiramente, do solo, a 10 ou 20 centímetros de elevação, sustentando-se, assim, no espaço, sem nenhum ponto de apoio, durante alguns segundos, para cair com todo o seu peso.

O movimento da mesa, seu erguimento sobre um pé, seu balanço, se produziam quase à vontade, freqüentemente, várias vezes na noite, e, freqüentemente também, sem nenhum contato das mãos; só a vontade bastava para que a mesa se dirigisse para o lado indicado. O isolamento completo era mais difícil de se obter, mas, se repetiu com bastante freqüência para que possa ser considerado como um fato excepcional. Ora, isso não se passou unicamente na presença de adeptos, os quais se poderia crer muito accessíveis à ilusão, mas, diante de vinte ou trinta pessoas, dentre as quais se encontravam, algumas vezes, as que lhe eram muito pouco simpáticas, que não deixavam de supor alguma preparação secreta, sem consideração para com os senhores da casa, cujo caráter honorável deveria afastar toda suspeição de fraude, e porque, aliás, teria sido um singular prazer o de passar, todas as semanas, várias horas a mistificar uma assembléia sem proveito.

Narramos o fato em toda a sua simplicidade, sem restrições e nem exageros. Não diremos, pois, que vimos a mesa voltear no ar como uma pluma; mas, tal como ele é, esse fato não deixa de demonstrar a possibilidade do isolamento dos corpos pesados sem apoio algum, por meio de uma força até agora desconhecida. Não diremos, do mesmo modo, que basta estender a mão, ou fazer um sinal qualquer, para que, no mesmo instante, a mesa se eleve como por encanto.

Diremos, ao contrário, por ser a verdade, que os primeiros movimentos se operam, sempre, com uma certa lentidão, e não adquirem, senão gradualmente, a sua máxima intensidade. O erguimento completo não ocorria senão depois de vários movimentos preparatórios, que eram espécie de ensaio, um tipo de impulso. A força atuante parecia redobrar esforços pelo encorajamento dos assistentes, como um homem, ou um cavalo, que cumpre pesada tarefa, e que se anima com a voz e com o gesto. Uma vez produzido o efeito, tudo retornava à calma, e, por alguns instantes, nada se obtinha, como se essa mesma força tivesse necessidade de retomar fôlego.

Tivemos, com freqüência, oportunidade de citar fenômenos desse gênero, sejam espontâneos, sejam provocados, e realizados em proporções e com circunstâncias bem mais extraordinárias; mas, quando deles somos testemunhas, os relatamos, sempre, de modo a evitar toda interpretação falsa ou exagerada. Se, no fato acima relatado, tivéssemos nos contentado em dizer que vimos uma mesa de 100 quilos se elevar com o único contato das mãos, ninguém duvide que, muitas pessoas, se figurariam que se havia elevado até o teto e com a rapidez de um golpe de vista. É assim que as coisas, as mais simples, tornam-se prodígios pelas proporções que lhes empresta a imaginação. O que isso deve ser quando os fatos atravessaram os séculos e passaram pela boca dos poetas! Se se dissesse que a superstição é a filha da realidade, ter-se-ia o ar de expor um paradoxo, e, todavia, nada é mais verdadeiro; não há superstição que não repouse sobre um fundo real; tudo está em discernir onde termina uma e começa a outra. O verdadeiro meio de combater as superstições, não é o de contestá-las de modo absoluto; no espírito de certas pessoas, há idéias que não se desarraigam mais facilmente, porque têm, sempre, fatos a citar em apoio da sua opinião; ao contrário, é preciso demonstrar o que há de real; então, não resta senão o exagero ridículo, para o qual o bom senso faz justiça.

Isolamento dos corpos pesados

O fantasma da senhorita Clairon

Revista Espírita, fevereiro de 1858

(A senhorita Clairon, nascida em 1723, morreu em 1803. Estreou na companhia italiana com a idade de 13 anos, e na Comédia francesa em 1743. Retirou-se do teatro em 1765, com a idade de 42 anos.)

Esta história produziu muito ruído em seu tempo, pela posição da heroína e pelo grande número de pessoas que lhe foram testemunhas. Malgrado sua singularidade, ela seria provavelmente esquecida se a senhorita Clairon não a houvesse consignado em suas Memórias, de onde extraímos a narração que dela vamos fazer. A analogia que ela apresenta com alguns fatos que se passam em nossos dias, lhe dá um lugar natural nesta Coletânea.

A senhorita Clairon, como se sabe, era mais notável pela sua beleza do que pelo seu talento como cantora e atriz trágica; tinha inspirado, a um jovem bretão, senhor de S…, uma dessas paixões que, freqüentemente, decidem da vida, quando não se tem bastante força de caráter para dela triunfar. A ela, a senhorita Clairon, não respondia senão pela amizade; todavia, as assiduidades do senhor de S… se lhe tornaram de tal modo importunas, que resolveu romper tudo com relação a ele. O desgosto que disso ele sentiu lhe causou uma longa enfermidade da qual morreu. A coisa se passou em 1743. Deixemos a senhorita Clairon falar:

“Dois anos e meio haviam decorrido entre o nosso conhecimento e a sua morte. Ele me rogou conceder, aos seus últimos momentos, a doçura de me ver ainda; os que me rodeavam, me impediram de fazer essa visita. Ele morreu não tendo, perto de si, senão os seus domésticos e uma velha dama, única sociedade que teve, desde há muito tempo. Habitava, então, a Rempart, perto da Chaussée-d’Antin, onde se começava a construir; eu, à rua Bussy, perto da rua Seine e abadia Saint-Germain. Tinha minha mãe, e vários amigos vieram jantar comigo… Vinha de cantar muito lindas canções de pastores, com as quais meus amigos estavam no arrebatamento, quando, pelas onze horas sucedeu o grito, o mais agudo. Sua sombria modulação e sua duração, espantaram todo o mundo; senti-me desfalecer, e estive, quase um quarto de hora, desacordada…

Todos os meus, meus amigos, meus vizinhos, a própria polícia, ouviam o mesmo grito, sempre à mesma hora, sempre partindo de sob a minha janela, e não parecendo sair senão do vago do ar… Raramente jantava na cidade, mas, nos dias que jantava, não se ouvia nada, e, várias vezes, perguntando por suas novidades, à minha mãe, quando reentrava no meu quarto, partia do meio de nós. Uma vez, o presidente de B…, com o qual havia jantado, quis me reconduzir para se assegurar de que nada me tinha acontecido no caminho. Como me desejasse boa-noite na minha porta, o grito partiu entre ele e mim. Assim como toda Paris, ele sabia essa história: todavia, refugiou-se em sua carruagem, mais morto do que vivo.

“Uma outra vez, pedi ao meu camarada Rosely para me acompanhar à rua Saint-Honoré para escolher tecidos. O único assunto da nossa conversa foi o meu fantasma (era assim que o chamava). Esse jovem, cheio de espírito, não crendo em nada, entretanto, estava tocado pela minha aventura; instou-me a evocar o fantasma, prometendo-me que nele creria, se me respondesse. Seja por fraqueza, seja por audácia, fiz o que me pedia: o grito saiu em três reprises, terríveis pelo seu estrondo e sua rapidez. No nosso retorno, foi preciso o socorro de toda a casa para nos tirar da carruagem, onde estivemos sem conhecimento um do outro. Depois desta cena, fiquei alguns meses sem nada ouvir. Acreditava-me livre para sempre, e me enganava.

“Todos os espetáculos haviam sido mandados para Versailes, para o casamento do Delfim. Havia-me arrumado, na avenida de Saint-Cloud, um quarto que ocupava com a senhora Grandval. Às três horas da manhã, eu lhe disse: Estamos no fim do mundo; ao grito seria embaraçoso ter que nos procurar aqui… Ele saiu! A senhora Grandval acreditou que o inferno todo estivesse no quarto: ela correu, de camisa, de alto a baixo a casa, onde ninguém pôde fechar o olho durante a noite; mas, ao menos, foi a última vez que se fez ouvir.

“Sete ou oito dias depois, conversando com a minha roda costumeira, o sino de onze horas foi seguido de um tiro de fuzil, dado em uma das minhas janelas. Todos nós ouvimos o tiro; todos vimos o fogo; a janela não tinha nenhum tipo de dano. Concluímos, todos, que queriam a minha vida, que haviam errado o alvo e que seria preciso tomar precauções para o futuro. O senhor de Marville, então tenente de polícia, foi visitar as casas defronte a minha; a rua foi repleta de todos os espiões possíveis; mas, quaisquer cuidados que se tivessem tomado, o tiro, durante três meses inteiros, foi ouvido, visto, dado sempre à mesma hora, na mesma vidraça, sem que ninguém tivesse jamais podido ver de que sítio partia. Esse fato foi constatado nos registros da polícia.

“Acostumada com o meu fantasma, que achava um rapaz bastante bom, uma vez que se conservava em enganos sagazes, não tomando consciência da hora que era, fazendo muito calor, abri a janela eleita e, o intendente e eu nos apoiamos sobre o balcão. Soam onze horas, o tiro parte e nos lança, todos os dois, no meio do quarto, onde caímos como mortos. Retornando a nós mesmos, sentindo que não tínhamos nada, reconhecendo que havíamos recebido, ele sobre a face esquerda, eu sobre a face direita, a mais terrível bofetada que se tenha jamais aplicado, nos pusemos a rir como dois loucos.

“Dois dias depois, convidada pela senhorita Dumesnil para estar numa pequena festa noturna, que dava na sua casa da Barrière Blanche, tomei um carro de praça, às onze horas, com minha aia. Fazia o mais belo luar, e fomos conduzidas pelos bulevares que começavam a se encher de casas. Minha aia me disse: Não foi aqui que morreu o senhor de S…? – Segundo as notícias que me deram, deve ser, disse-lhe, designando com meu dedo, uma das duas casas ali diante de nós. De uma delas partiu esse mesmo tiro de fuzil que me perseguia: atravessa a nossa viatura; o cocheiro dobra sua marcha, crendo-se atacado por ladrões. Chegamos ao encontro, fazendo força para refrear nossos sentidos, e, de minha parte, penetrada de um terror que conservei por muito tempo, o confesso; mas, essa explosão foi a última, das armas de fogo.

À sua explosão, sucedeu um estalar de mãos, com certo compasso e redobros. Esse ruído, ao qual a bondade do público me havia acostumado, não me deixou fazer nenhuma observação . durante muito tempo; meus amigos a fizeram por mim. Nós espreitamos, disseram-me: é às onze horas, quase sob vossa porta que ele ocorre; nós o ouvimos, não vimos ninguém; isso não pode ser senão uma conseqüência daquilo que haveis experimentado. Como esse ruído não tinha nada de terrível, não conservei a data da sua duração. Não prestei mais atenção aos sons melodiosos que se fizeram ouvir depois; parecia que uma voz celeste dava o esboço da ária nobre e tocante que ela ia cantar; essa voz começava na esquina de Bussy e terminava na minha porta; e, como ocorreu com todos os outros sons precedentes, ouvia-se e não se via nada. Enfim, tudo cessou depois de um pouco mais de dois anos e meio.”

Daí a algum tempo, a senhorita Clairon recebe, da senhora idosa que tinha sido a amiga devotada do senhor S…, o relato dos seus últimos momentos. “Ele contava, disse-lhe, todos os minutos, até as dez horas e meia, quando seu lacaio veio dizer que, decididamente, não vinheis. Depois de um momento de silêncio, ele aperta-me a mão com um redobramento de desespero que me assusta. A bárbara! … com isso não ganhará nada; eu a perseguira! tanto depois da minha morte como a persegui durante a minha w’da/…Quis tratar de acalmá-lo, mas, estava morto.”

Na edição que temos sob os olhos, o relato está precedido da nota seguinte, sem assinatura:

“Eis uma anedota bem singular da qual se fez, e se fará, sem dúvida, muitos juízos diferentes. Ama-se o maravilhoso, mesmo sem nele crer: a senhorita Clairon parecia convencida da realidade dos fatos que ela conta. Contentar-nos-emos em anotar que, no tempo em que ela foi ou se acreditou atormentada por seu fantasma, tinha de vinte e dois anos e meio a vinte e cinco anos; que é a idade da imaginação, e que essa faculdade era continuamente exercida e exaltada, nela, pelo gênero de vida que levava no teatro e fora do teatro. Pode-se lembrar, ainda, que ela disse, no início das suas Memórias, que, em sua infância, não se entrelinha senão com aventuras de fantasmas e de feiticeiros, que se lhe disse serem histórias verdadeiras.”

Não conhecendo o fato senão pelo relato da senhorita Clairon, não podemos julgá-lo senão por indução; ora, eis o nosso raciocínio. Esse acontecimento, descrito em seus mais minuciosos detalhes pela própria senhorita Clairon, tem mais autenticidade do que se tivesse sido narrado por um terceiro. Acrescentemos que, quando ela escreveu a carta, na qual ele se acha relatado, tinha ao redor de sessenta anos, e passada a idade da credulidade, da qual fala o autor da nota. Esse autor não põe em dúvida a boa-fé, da senhorita Clairon, sobre a sua aventura, unicamente pensa que ela pode ter sido o joguete de uma ilusão. Que o fosse uma vez, isso não seria nada espantoso, mas, que tenha sido durante dois anos e meio, isso nos parece mais difícil; parece-nos mais difícil ainda supor que essa ilusão foi partilhada por tantas pessoas, testemunhas oculares e auriculares dos fatos, e pela própria polícia. Para nós, que conhecemos o que pode se passar nas manifestações espíritas, a aventura nada tem que possa nos surpreender, e a temos por provável. Nesta hipótese, não hesitamos em pensar que o autor, de todas essas más ações, não era outro senão a alma, ou espírito, do senhor de S…, se anotarmos, sobretudo, a coincidência das suas últimas palavras com a duração dos fenômenos. Ele havia dito: Eu a perseguirei tanto depois da minha morte, como durante a minha vida. Ora, suas relações com a senhorita Clairon duraram dois anos e meio, justo tanto tempo quanto o das manifestações que seguiram a sua morte.

Algumas palavras, ainda, sobre a natureza desse Espírito. Não era mau, e é com razão que a senhorita Clairon o qualifica como bastante bom rapaz, mas, não se pode dizer, no entanto, que foi a própria bondade. A paixão violenta, à qual sucumbiu, como homem, prova que, nele, as idéias terrestres eram dominantes. Os traços profundos dessa paixão, que sobreviveu à destruição do corpo, prova que, como Espírito, estava, ainda, sob a influência da matéria. Sua vingança, por inofensiva que fosse, denota sentimentos pouco elevados. Se, pois, se se quiser reportar ao nosso quadro da classificação dos Espíritos, não será difícil assinalar a sua classe; a ausência de maldade real, naturalmente, descarta a última classe, a dos Espíritos impuros; mas, evidentemente, ligava-se a outras classes da mesma ordem; nada, nele, poderia justificar-lhe uma classe superior.

Uma coisa digna de nota é a sucessão dos diferentes modos pelos quais manifestou a sua presença. Foi no mesmo dia e no momento da sua morte que ele se fez ouvir pela primeira vez, e isso no meio de um alegre jantar. Quando vivo, via a senhorita Clairon pelo pensamento, rodeada da auréola que a imaginação empresta ao objeto de uma paixão ardente; mas, uma vez a alma desembaraçada do seu véu material, a ilusão dá lugar à realidade. Ele está aí, ao seu lado, e a vê rodeada de amigos, tudo devendo aumentar seu ciúme; ela parece, pela sua jovialidade e pelos seus cantos, insultar o seu desespero, e o seu desespero se traduz por um grito de raiva que repete, cada dia, à mesma hora, como para lhe reprovar sua recusa em ir consolá-lo em seus últimos momentos. Aos gritos, sucedem os tiros de fuzil, inofensivos, é verdade, mas, que não denotam menos uma raiva impotente e a vontade de perturbar o seu repouso. Mais tarde, o seu desespero toma um caráter mais calmo; retorna, sem dúvida, a idéias mais sadias, e parece haver tomado partido; resta-lhe a lembrança dos aplausos dos quais ela era objeto, e os repete. Mais tarde, enfim, lhe diz adeus, fazendo-a ouvir sons que pareciam eco dessa voz melodiosa que o havia fascinado tanto em sua vida.

O fantasma da senhorita Clairon.jpg

Escala espírita

Revista Espírita, fevereiro de 1858

TERCEIRA ORDEM – ESPÍRITOS IMPERFEITOS

Caracteres gerais. – Predominância da matéria sobre o Espírito. Propensão ao mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as más paixões que lhes são a conseqüência.

Têm intuição de Deus, mas não o compreendem.

Nem todos são essencialmente maus; em alguns, há mais de leviandade, de inconseqüência e de malícia do que de verdadeira maldade. Uns não fazem nem o bem e nem o mal; mas, somente por isso, que não fazem o bem, denotam a sua inferioridade. Outros, ao contrário, se comprazem no mal, e ficam satisfeitos quando encontram oportunidade de fazê-lo.

Podem aliar a inteligência à maldade ou à malícia; mas, qualquer que seja o seu desenvolvimento intelectual, suas idéias são pouco elevadas e seus sentimentos mais ou menos abjetos.

Seus conhecimentos, sobre as coisas do mundo espírita, são limitados, e o pouco que sabem se confunde com as idéias e os preconceitos da vida corporal. Não podem, dela, nos dar senão noções falsas e incompletas; mas, o observador atento, freqüentemente, encontra em suas comunicações, mesmo imperfeitas, a confirmação de grandes verdades ensinadas pelos Espíritos superiores.

Seu caráter se revela pela sua linguagem. Todo Espírito que, em suas comunicações, revela um mau pensamento, pode ser classificado na terceira ordem; conseqüentemente, todo mau pensamento que nos é sugerido vem dum Espírito dessa ordem.

Vêem a felicidade dos bons, e essa visão, para eles, é um tormento incessante, porque experimentam todas as angústias que, a inveja e o ciúme podem produzir.

Conservam a lembrança e a percepção dos sofrimentos da vida corporal e essa impressão, freqüentemente, é mais penosa do que a realidade. Sofrem, pois, verdadeiramente, pelos mates que sofreram e pelos que fizeram os outros sofrer; e, como sofrem por longo tempo, crêem sofrer sempre; Deus, para puni-los, quer que assim creiam.

Podem ser divididos em quatro grupos principais.

Nona classe. ESPÍRITOS IMPUROS. – São inclinados ao mal e dele fazem o objeto das suas preocupações. Como Espíritos, dão conselhos pérfidos, insuflam a discórdia e a desconfiança, e tomam todas as máscaras para melhor enganarem. Ligam-se aos caracteres bastante fracos para ceder às suas sugestões, a fim de compeli-los à sua perdição, satisfeitos em poderem retardar o seu adiantamento, fazendo-os sucumbir nas provas que suportam.

Nas manifestações, são reconhecidos pela sua linguagem; a trivialidade e a grosseria das expressões, nos Espíritos como nos homens, é sempre um indício de inferioridade moral, senão intelectual. Suas comunicações revelam a baixeza das suas inclinações, e se querem fazer que se enganem, falando de modo sensato, não podem sustentar o seu papel por muito tempo e acabam, sempre, por trair a sua origem.

Certos povos fazem deles divindades malfazejas, outros os designam sob o nome de demônios, maus gênios, Espíritos do mal.

Os seres vivos que animam, quando estão encarnados, são inclinados a todos os vícios que engendram as paixões vis e degradantes: a sensualidade, a crueldade, o embuste, a hipocrisia, a cupidez, a sórdida avareza.

Fazem o mal pelo prazer de fazê-lo, o mais freqüentemente, sem motivos, e, pelo ódio ao bem, quase sempre, escolhem as suas vítimas entre as pessoas honestas. São flagelos para a Humanidade, a qualquer classe da sociedade a que pertençam, e o verniz da civilização não os garante do opróbrio e da ignomínia.

Oitava classe. ESPÍRITOS LEVIANOS. – São ignorantes, malignos, inconseqüentes e zombeteiros. Imiscuem-se em tudo, respondem a tudo, sem se importarem com a verdade. Comprazem-se em causar pequenos aborrecimentos, pequenas alegrias, em atormentar, em induzir maliciosamente ao erro através de mistificações e travessuras. A essa classe pertencem os Espíritos vulgarmente designados sob os nomes de duendes, gnomos. Estão sob a dependência de Espíritos superiores, que os empregam, freqüentemente, como o fazemos com os serviçais e operários.

Parecem, mais do que outros, apegados à matéria, e representam ser os agentes principais das vicissitudes dos elementos do globo, seja porque habitam o ar, a água, o fogo, os corpos duros ou as entranhas da Terra. Manifestam, freqüentemente, sua presença por efeitos sensíveis tais como os golpes, o movimento e deslocamento anormal dos corpos sólidos, a agitação do ar, etc., o que se lhes faz dar o nome de Espíritos batedores ou perturbadores. Reconhece-se que, esses fenômenos, não são devidos a uma causa fortuita e natural, quando têm um caráter intencional e inteligente. Todos os Espíritos podem produzir esses fenômenos, mas os Espíritos elevados os deixam, em geral, nas atribuições de Espíritos inferiores, mais aptos às coisas materiais do que às coisas inteligentes.

Em suas comunicações com os homens, sua linguagem, algumas vezes, é espirituosa e engraçada, mas, quase sempre, sem profundidade; ligam as bizarrices e os ridículos que exprimem em tiradas mordazes e satíricas. Se ostentam nomes supostos, mais freqüentemente, é por malícia do que por maldade.

Sétima classe. ESPÍRITOS pseudo-sábios. – Seus conhecimentos são bastante extensos, mas, crêem saber mais do que sabem em realidade. Tendo alcançado algum progresso em diversos pontos de vista, sua linguagem tem um caráter sério que pode enganar sobre as suas capacidades e as suas luzes; mas, o mais freqüentemente, não é senão um reflexo dos preconceitos e das idéias sistemáticas da vida terrestre; é uma mistura de algumas verdades ao lado dos mais absurdos erros, no meio dos quais descobrem a presunção, o orgulho, o ciúme e a teimosia dos quais não puderam se despojar.

Sexta classe. ESPÍRITOS neutros. – Não são nem bastante bons para fazerem o bem e nem bastante maus para fazerem o mal; pendem tanto para um quanto para o outro, e não se elevam acima da condição vulgar da humanidade, tanto pelo moral quanto pela inteligência. Participam das coisas deste mundo, das quais lamentam as alegrias grosseiras.

SEGUNDA ORDEM – BONS ESPÍRITOS

Caracteres gerais. – Predominância do Espírito sobre a matéria; desejo do bem. Suas qualidades e o seu poder para fazerem o bem estão em razão do grau que alcançaram: uns têm a ciência, os outros a sabedoria e a bondade; os mais avançados unem o saber às qualidades morais. Não estando, ainda, completamente desmaterializados, conservam, mais ou menos, segundo sua classe, os traços da existência corporal, seja na forma da linguagem, seja em seus hábitos, onde se encontram mesmo algumas das sua manias; de outro modo, seriam Espíritos perfeitos.

Compreendem Deus e o Infinito, e já gozam da felicidade dos bons. São felizes pelo bem que fazem e pelo mal que impedem. O amor que os une é, para eles, a fonte de uma felicidade inefável que não é alterada nem pela inveja, nem pelos desgostos, nem pelos remorsos, nem por nenhuma das más paixões que fazem o tormento dos Espíritos imperfeitos; mas todos têm, ainda, provas a suportar até que tenham atingido a perfeição absoluta.

Como Espíritos, suscitam bons pensamentos, desviam os homens do caminho do mal, protegem, na vida, aqueles que disso se tornam dignos, e neutralizam a influência dos Espíritos imperfeitos naqueles que não se comprazem em suportá-la.

Aqueles em quem estão encarnados, são bons e benevolentes para com os seus semelhantes; não são movidos nem pelo orgulho, nem pelo egoísmo, nem pela ambição; não sentem nem ódio, nem rancor, nem inveja, nem ciúme, e fazem o bem pelo bem.

A essa ordem pertencem os Espíritos designados, nas crenças vulgares, sob os nomes de bons gênios, gênios protetores, Espíritos do bem. Nos tempos de superstição e de ignorância, deles fizeram divindades benfazejas.

Podem, igualmente, ser divididos em quatro grupos principais.

Quinta classe. ESPÍRITOS BENEVOLENTES. – Sua .qualidade dominante é a bondade; comprazem-se em servir aos homens e protegê-los, mas seu saber é limitado: seu progresso se cumpriu mais no sentido moral do que no sentido intelectual.

Quarta classe. ESPÍRITOS SÁBIOS.- O que os distingue, especialmente, é a extensão dos seus conhecimentos. Preocupam-se menos com questões morais do que com questões científicas, para as quais têm mais aptidão; mas, não encaram a ciência senão sob o ponto de vista da utilidade, e nisso não misturam nenhuma das paixões que são próprias dos Espíritos imperfeitos.

Terceira classe. ESPÍRITOS SENSATOS. – Suas qualidades morais, da mais elevada ordem, formam seu caráter distintivo. Sem terem os conhecimentos ilimitados, são dotados de uma capacidade intelectual que lhes proporciona um julgamento sadio sobre os homens e sobre as coisas.

Segunda classe. ESPÍRITOS superiores.- Reúnem a ciência, a sabedoria e a bondade. Sua linguagem não respira senão a benevolência; é constantemente digna, elevada, freqüentemente sublime. Sua superioridade torna-os, mais do que aos outros, aptos a nos darem as mais justas noções sobre as coisas do mundo in-corpóreo, nos limites do que é permitido ao homem conhecer. Comunicam-se, voluntariamente, com aqueles que procuram a verdade de boa-fé, e cuja alma esteja bastante liberta dos laços terrestres para compreendê-la, mas se afastam daqueles que se animam unicamente pela curiosidade, ou que a influência da matéria afasta da prática do bem.

Quando, por exceção, se encarnam na Terra, é para nela cumprirem uma missão de progresso, e nos oferecem, então, o modelo da perfeição, à qual a Humanidade pode aspirar neste mundo.

PRIMEIRA ORDEM – PUROS ESPÍRITOS

Caracteres gerais. – Influência da matéria nula. Superioridade intelectual e moral absoluta com relação aos Espíritos de outras ordens.

Primeira classe. Classe única. – Percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Tendo alcançado a soma de perfeição, da qual a criatura é suscetível, não têm mais a suportar nem provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos à encarnação em corpos perecíveis, para eles, é a vida eterna que cumprem no seio de Deus.

Gozam de uma felicidade inalterável, porque não estão sujeitos nem às necessidades, nem às vicissitudes da vida material; mas essa felicidade não é a de uma ociosidade monótona passada numa contemplação perpétua. São os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens executam para a manutenção da harmonia universal. Comandam a todos os Espíritos que lhes são inferiores, os ajudam a se aperfeiçoarem e lhes assinalam a sua missão. Assistir os homens em sua aflição, excitá-los ao bem, ou à expiação das faltas que os distanciam da felicidade suprema, para eles, é uma doce ocupação. São designados, algumas vezes, sob o nome de anjos, arcanjos ou serafins.

Os homens podem entrar em comunicação com eles, mas bem presunçoso seria aquele que pretendesse tê-los, constantemente, às suas ordens.

ESPÍRITOS ERRANTES OU ENCARNADOS

Sob o aspecto das qualidades íntimas, os Espíritos são de diferentes ordens, que percorrem, sucessivamente, à medida que se depuram. Como estado, podem estar encarnados, quer dizer, unidos a um corpo, num mundo qualquer; ou errantes, quer dizer, desligados do corpo material e esperando uma nova encarnação para se melhorarem.

Os Espíritos errantes não formam uma categoria especial; é um dos estados em que podem se encontrar.

O estado errante ou erraticidade, não constitui uma inferioridade para os Espíritos, uma vez que, nele, podem ser encontrados de todos os graus. Todo Espírito que não esteja encarnado, está, por isso mesmo, errante, com exceção dos Puros Espíritos que, não tendo mais encarnação a suportarem, estão no seu estado definitivo.

A encarnação, não sendo senão um estado transitório, a erraticidade é, na realidade, o estado normal dos Espíritos, e esse estado não é, forçosamente, uma expiação para eles; são felizes ou infelizes segundo o grau de sua elevação, e segundo o bem ou o mal que fizeram.

Escala espírita