O fantasma da senhorita Clairon

Revista Espírita, fevereiro de 1858

(A senhorita Clairon, nascida em 1723, morreu em 1803. Estreou na companhia italiana com a idade de 13 anos, e na Comédia francesa em 1743. Retirou-se do teatro em 1765, com a idade de 42 anos.)

Esta história produziu muito ruído em seu tempo, pela posição da heroína e pelo grande número de pessoas que lhe foram testemunhas. Malgrado sua singularidade, ela seria provavelmente esquecida se a senhorita Clairon não a houvesse consignado em suas Memórias, de onde extraímos a narração que dela vamos fazer. A analogia que ela apresenta com alguns fatos que se passam em nossos dias, lhe dá um lugar natural nesta Coletânea.

A senhorita Clairon, como se sabe, era mais notável pela sua beleza do que pelo seu talento como cantora e atriz trágica; tinha inspirado, a um jovem bretão, senhor de S…, uma dessas paixões que, freqüentemente, decidem da vida, quando não se tem bastante força de caráter para dela triunfar. A ela, a senhorita Clairon, não respondia senão pela amizade; todavia, as assiduidades do senhor de S… se lhe tornaram de tal modo importunas, que resolveu romper tudo com relação a ele. O desgosto que disso ele sentiu lhe causou uma longa enfermidade da qual morreu. A coisa se passou em 1743. Deixemos a senhorita Clairon falar:

“Dois anos e meio haviam decorrido entre o nosso conhecimento e a sua morte. Ele me rogou conceder, aos seus últimos momentos, a doçura de me ver ainda; os que me rodeavam, me impediram de fazer essa visita. Ele morreu não tendo, perto de si, senão os seus domésticos e uma velha dama, única sociedade que teve, desde há muito tempo. Habitava, então, a Rempart, perto da Chaussée-d’Antin, onde se começava a construir; eu, à rua Bussy, perto da rua Seine e abadia Saint-Germain. Tinha minha mãe, e vários amigos vieram jantar comigo… Vinha de cantar muito lindas canções de pastores, com as quais meus amigos estavam no arrebatamento, quando, pelas onze horas sucedeu o grito, o mais agudo. Sua sombria modulação e sua duração, espantaram todo o mundo; senti-me desfalecer, e estive, quase um quarto de hora, desacordada…

Todos os meus, meus amigos, meus vizinhos, a própria polícia, ouviam o mesmo grito, sempre à mesma hora, sempre partindo de sob a minha janela, e não parecendo sair senão do vago do ar… Raramente jantava na cidade, mas, nos dias que jantava, não se ouvia nada, e, várias vezes, perguntando por suas novidades, à minha mãe, quando reentrava no meu quarto, partia do meio de nós. Uma vez, o presidente de B…, com o qual havia jantado, quis me reconduzir para se assegurar de que nada me tinha acontecido no caminho. Como me desejasse boa-noite na minha porta, o grito partiu entre ele e mim. Assim como toda Paris, ele sabia essa história: todavia, refugiou-se em sua carruagem, mais morto do que vivo.

“Uma outra vez, pedi ao meu camarada Rosely para me acompanhar à rua Saint-Honoré para escolher tecidos. O único assunto da nossa conversa foi o meu fantasma (era assim que o chamava). Esse jovem, cheio de espírito, não crendo em nada, entretanto, estava tocado pela minha aventura; instou-me a evocar o fantasma, prometendo-me que nele creria, se me respondesse. Seja por fraqueza, seja por audácia, fiz o que me pedia: o grito saiu em três reprises, terríveis pelo seu estrondo e sua rapidez. No nosso retorno, foi preciso o socorro de toda a casa para nos tirar da carruagem, onde estivemos sem conhecimento um do outro. Depois desta cena, fiquei alguns meses sem nada ouvir. Acreditava-me livre para sempre, e me enganava.

“Todos os espetáculos haviam sido mandados para Versailes, para o casamento do Delfim. Havia-me arrumado, na avenida de Saint-Cloud, um quarto que ocupava com a senhora Grandval. Às três horas da manhã, eu lhe disse: Estamos no fim do mundo; ao grito seria embaraçoso ter que nos procurar aqui… Ele saiu! A senhora Grandval acreditou que o inferno todo estivesse no quarto: ela correu, de camisa, de alto a baixo a casa, onde ninguém pôde fechar o olho durante a noite; mas, ao menos, foi a última vez que se fez ouvir.

“Sete ou oito dias depois, conversando com a minha roda costumeira, o sino de onze horas foi seguido de um tiro de fuzil, dado em uma das minhas janelas. Todos nós ouvimos o tiro; todos vimos o fogo; a janela não tinha nenhum tipo de dano. Concluímos, todos, que queriam a minha vida, que haviam errado o alvo e que seria preciso tomar precauções para o futuro. O senhor de Marville, então tenente de polícia, foi visitar as casas defronte a minha; a rua foi repleta de todos os espiões possíveis; mas, quaisquer cuidados que se tivessem tomado, o tiro, durante três meses inteiros, foi ouvido, visto, dado sempre à mesma hora, na mesma vidraça, sem que ninguém tivesse jamais podido ver de que sítio partia. Esse fato foi constatado nos registros da polícia.

“Acostumada com o meu fantasma, que achava um rapaz bastante bom, uma vez que se conservava em enganos sagazes, não tomando consciência da hora que era, fazendo muito calor, abri a janela eleita e, o intendente e eu nos apoiamos sobre o balcão. Soam onze horas, o tiro parte e nos lança, todos os dois, no meio do quarto, onde caímos como mortos. Retornando a nós mesmos, sentindo que não tínhamos nada, reconhecendo que havíamos recebido, ele sobre a face esquerda, eu sobre a face direita, a mais terrível bofetada que se tenha jamais aplicado, nos pusemos a rir como dois loucos.

“Dois dias depois, convidada pela senhorita Dumesnil para estar numa pequena festa noturna, que dava na sua casa da Barrière Blanche, tomei um carro de praça, às onze horas, com minha aia. Fazia o mais belo luar, e fomos conduzidas pelos bulevares que começavam a se encher de casas. Minha aia me disse: Não foi aqui que morreu o senhor de S…? – Segundo as notícias que me deram, deve ser, disse-lhe, designando com meu dedo, uma das duas casas ali diante de nós. De uma delas partiu esse mesmo tiro de fuzil que me perseguia: atravessa a nossa viatura; o cocheiro dobra sua marcha, crendo-se atacado por ladrões. Chegamos ao encontro, fazendo força para refrear nossos sentidos, e, de minha parte, penetrada de um terror que conservei por muito tempo, o confesso; mas, essa explosão foi a última, das armas de fogo.

À sua explosão, sucedeu um estalar de mãos, com certo compasso e redobros. Esse ruído, ao qual a bondade do público me havia acostumado, não me deixou fazer nenhuma observação . durante muito tempo; meus amigos a fizeram por mim. Nós espreitamos, disseram-me: é às onze horas, quase sob vossa porta que ele ocorre; nós o ouvimos, não vimos ninguém; isso não pode ser senão uma conseqüência daquilo que haveis experimentado. Como esse ruído não tinha nada de terrível, não conservei a data da sua duração. Não prestei mais atenção aos sons melodiosos que se fizeram ouvir depois; parecia que uma voz celeste dava o esboço da ária nobre e tocante que ela ia cantar; essa voz começava na esquina de Bussy e terminava na minha porta; e, como ocorreu com todos os outros sons precedentes, ouvia-se e não se via nada. Enfim, tudo cessou depois de um pouco mais de dois anos e meio.”

Daí a algum tempo, a senhorita Clairon recebe, da senhora idosa que tinha sido a amiga devotada do senhor S…, o relato dos seus últimos momentos. “Ele contava, disse-lhe, todos os minutos, até as dez horas e meia, quando seu lacaio veio dizer que, decididamente, não vinheis. Depois de um momento de silêncio, ele aperta-me a mão com um redobramento de desespero que me assusta. A bárbara! … com isso não ganhará nada; eu a perseguira! tanto depois da minha morte como a persegui durante a minha w’da/…Quis tratar de acalmá-lo, mas, estava morto.”

Na edição que temos sob os olhos, o relato está precedido da nota seguinte, sem assinatura:

“Eis uma anedota bem singular da qual se fez, e se fará, sem dúvida, muitos juízos diferentes. Ama-se o maravilhoso, mesmo sem nele crer: a senhorita Clairon parecia convencida da realidade dos fatos que ela conta. Contentar-nos-emos em anotar que, no tempo em que ela foi ou se acreditou atormentada por seu fantasma, tinha de vinte e dois anos e meio a vinte e cinco anos; que é a idade da imaginação, e que essa faculdade era continuamente exercida e exaltada, nela, pelo gênero de vida que levava no teatro e fora do teatro. Pode-se lembrar, ainda, que ela disse, no início das suas Memórias, que, em sua infância, não se entrelinha senão com aventuras de fantasmas e de feiticeiros, que se lhe disse serem histórias verdadeiras.”

Não conhecendo o fato senão pelo relato da senhorita Clairon, não podemos julgá-lo senão por indução; ora, eis o nosso raciocínio. Esse acontecimento, descrito em seus mais minuciosos detalhes pela própria senhorita Clairon, tem mais autenticidade do que se tivesse sido narrado por um terceiro. Acrescentemos que, quando ela escreveu a carta, na qual ele se acha relatado, tinha ao redor de sessenta anos, e passada a idade da credulidade, da qual fala o autor da nota. Esse autor não põe em dúvida a boa-fé, da senhorita Clairon, sobre a sua aventura, unicamente pensa que ela pode ter sido o joguete de uma ilusão. Que o fosse uma vez, isso não seria nada espantoso, mas, que tenha sido durante dois anos e meio, isso nos parece mais difícil; parece-nos mais difícil ainda supor que essa ilusão foi partilhada por tantas pessoas, testemunhas oculares e auriculares dos fatos, e pela própria polícia. Para nós, que conhecemos o que pode se passar nas manifestações espíritas, a aventura nada tem que possa nos surpreender, e a temos por provável. Nesta hipótese, não hesitamos em pensar que o autor, de todas essas más ações, não era outro senão a alma, ou espírito, do senhor de S…, se anotarmos, sobretudo, a coincidência das suas últimas palavras com a duração dos fenômenos. Ele havia dito: Eu a perseguirei tanto depois da minha morte, como durante a minha vida. Ora, suas relações com a senhorita Clairon duraram dois anos e meio, justo tanto tempo quanto o das manifestações que seguiram a sua morte.

Algumas palavras, ainda, sobre a natureza desse Espírito. Não era mau, e é com razão que a senhorita Clairon o qualifica como bastante bom rapaz, mas, não se pode dizer, no entanto, que foi a própria bondade. A paixão violenta, à qual sucumbiu, como homem, prova que, nele, as idéias terrestres eram dominantes. Os traços profundos dessa paixão, que sobreviveu à destruição do corpo, prova que, como Espírito, estava, ainda, sob a influência da matéria. Sua vingança, por inofensiva que fosse, denota sentimentos pouco elevados. Se, pois, se se quiser reportar ao nosso quadro da classificação dos Espíritos, não será difícil assinalar a sua classe; a ausência de maldade real, naturalmente, descarta a última classe, a dos Espíritos impuros; mas, evidentemente, ligava-se a outras classes da mesma ordem; nada, nele, poderia justificar-lhe uma classe superior.

Uma coisa digna de nota é a sucessão dos diferentes modos pelos quais manifestou a sua presença. Foi no mesmo dia e no momento da sua morte que ele se fez ouvir pela primeira vez, e isso no meio de um alegre jantar. Quando vivo, via a senhorita Clairon pelo pensamento, rodeada da auréola que a imaginação empresta ao objeto de uma paixão ardente; mas, uma vez a alma desembaraçada do seu véu material, a ilusão dá lugar à realidade. Ele está aí, ao seu lado, e a vê rodeada de amigos, tudo devendo aumentar seu ciúme; ela parece, pela sua jovialidade e pelos seus cantos, insultar o seu desespero, e o seu desespero se traduz por um grito de raiva que repete, cada dia, à mesma hora, como para lhe reprovar sua recusa em ir consolá-lo em seus últimos momentos. Aos gritos, sucedem os tiros de fuzil, inofensivos, é verdade, mas, que não denotam menos uma raiva impotente e a vontade de perturbar o seu repouso. Mais tarde, o seu desespero toma um caráter mais calmo; retorna, sem dúvida, a idéias mais sadias, e parece haver tomado partido; resta-lhe a lembrança dos aplausos dos quais ela era objeto, e os repete. Mais tarde, enfim, lhe diz adeus, fazendo-a ouvir sons que pareciam eco dessa voz melodiosa que o havia fascinado tanto em sua vida.

O fantasma da senhorita Clairon.jpg

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