Conversas familiares de além túmulo

Revista Espírita, abril de 1858

Bernard Pallissy (9 de março de 1858).

DESCRIÇÃO DE JÚPITER

nota. – Sabíamos, por evocações anteriores, que Bernard Palissy, o célebre oleiro do sexto século, habita Júpiter. As respostas seguintes confirmam, em todos os pontos, o que nos foi dito, sobre esse planeta, em diversas épocas, por outros Espíritos, e por intermédio de diferentes médiuns. Pensamos que serão lidas com interesse, como complemento do quadro que traçamos em nosso último número. A identidade que elas apresentam com as descrições anteriores, é um fato notável que é, pelo menos, uma presunção de exatidão.

1. Onde te encontraste, deixando a Terra? – R. Nela ainda habitei.

2. Em que condições estavas? – R. Sob os traços de uma mulher, amante e devotada; não era senão uma missão.

3. Essa missão durou muito tempo? – R. Trinta anos.

4. Lembras do nome dessa mulher? – R. É obscuro.

5. A estima que se tem por tuas obras, te satisfaz, e isso compensa os sofrimentos que suportaste? – R. Que me importam as obras materiais de minhas mãos! O que me importa é o sofrimento que me elevou.

6. Com qual objetivo traçaste, pela mão do senhor Victorien Sardou, os admiráveis desenhos que nos deste sobre o planeta Júpiter, que tu habitas? – R. Com o objetivo de inspirar o desejo de vos tornardes melhores.

7. Uma vez que voltas sempre sobre a nossa Terra, que habitaste diversas vezes, deves conhecer bastante o seu estado físico e moral para estabelecer uma comparação entre ela e Júpiter; rogamos, pois, consentir em nos esclarecer sobre diversos pontos. – R. Sobre vosso globo, não venho senão em Espírito; o Espírito não tem mais sensações materiais.

ESTADO FÍSICO DO GLOBO

8. Pode-se comparar a temperatura de Júpiter com a de uma de nossas latitudes? – R. Não; ela é branda e temperada; sempre igual, e a vossa varia. Lembrai-vos os campos Elysées que vos foi descrito.

9. O quadro que os Antigos nos deram dos campos Elysées seria o resultado do conhecimento intuitivo que tinham de um mundo superior, tal qual Júpiter, por exemplo? – R. Do conhecimento positivo; a evocação permaneceu nas mãos dos sacerdotes.

10. A temperatura varia segundo as latitudes, como aqui? – R. Não.

11. Segundo os nossos cálculos, o Sol deve aparecer aos habitantes de Júpiter sob um ângulo muito pequeno, e dar-lhe, por conseqüência, pouca luz. Podes nos dizer se a intensidade da luz é igual a da Terra, ou se é menos forte? — R. Júpiter está cercado de uma espécie de luz espiritual, em relação com a essência dos seus habitantes. A luz grosseira do vosso Sol não foi feita para eles.

12. Há uma atmosfera? – R. Sim.

13. A atmosfera é formada dos mesmos elementos da atmosfera terrestre? – R. Não; os homens não são os mesmos; suas necessidades mudaram.

14. Há água e mares? – R. Sim.

15. A água é formada dos mesmos elementos da nossa? – R. Mais etéreos.

16. Há vulcões? – R. Não; nosso globo não é atormentado como o vosso; a natureza não teve suas grandes crises; é uma morada de bem-aventurados. A matéria nele mal se toca.

17. As plantas têm analogia com as nossas? – R. Sim, porém mais belas.

ESTADO FÍSICO DOS HABITANTES

18. A conformação do corpo dos habitantes tem relação com a nossa? – R. Sim, é a mesma.

19. Podes nos dar uma idéia do seu talhe, comparado ao dos habitantes da Terra? – R. Grandes e bem proporcionados. Maiores do que os maiores dos vossos homens. O corpo do homem é como a marca do seu espírito: belo onde ele é bom; o envoltório é digno dele; não é mais uma prisão.

20. Os corpos ali são opacos, diáfanos ou translúcidos? – R. Há de uns e de outros. Uns têm tal propriedade, os outros tal outra, segundo sua destinação.

21. Concebemos isso para os corpos inertes, mas nossa questão é relativa aos corpos humanos. – R. O corpo envolve o Espírito sem escondê-lo, como um véu leve lançado sobre uma estátua. Nos mundos inferiores, o envoltório grosseiro oculta o Espírito aos seus semelhantes; mas os bons nada têm a esconder: podem ler no coração uns dos outros. Que seria isso se fosse assim nesse mundo!

22. Há sexos diferentes? – R. Sim; há por toda parte onde a matéria exista; é uma lei da matéria.

23. Qual é a base da alimentação dos habitantes? É animal e vegetal como aqui? – R.
Puramente vegetal; o homem é o protetor dos animais.

24. Foi-nos dito que haurem uma parte da sua alimentação no meio ambiente, do qual aspiram as emanações; isso é exato? – R. Sim.

25. A duração da vida, comparada à nossa, é mais longa ou mais curta? – R. Mais longa.

26. De quanto tempo é a vida média? – R. Como medir o tempo?

27. Não podes tomar um dos nossos séculos por termo de comparação? – R. Creio que em torno de cinco séculos.

28. O desenvolvimento da infância é proporcionalmente mais rápido do que entre nós? – R. O homem conserva a sua superioridade; a infância não comprime a sua inteligência, a velhice não a extingue.

29. Os homens estão sujeitos a doenças? – R. Não estão sujeitos aos vossos males.

30. A vida se divide entre a vigília e o sono? – R. Entre a ação e o repouso.

31. Poderias nos dar uma idéia das diversas ocupações dos homens? – R. Seria preciso dizer muito. Sua principal ocupação é encorajar os Espíritos que habitam os mundos inferiores a perseverarem no bom caminho. Não tendo infortúnio a aliviar entre eles, vão procurar onde se sofre; são os bons Espíritos que vos sustentam e vos atraem ao bom caminho.

32. Ali se cultivam certas artes? – R. São inúteis. Vossas artes são futilidades que distraem vossas dores.

33. A densidade específica do corpo do homem, lhe permite transportar-se, de um lugar ao outro, sem permanecer, como aqui, atado ao solo? – R. Sim.

34. Experimenta-se o dissabor e o desgosto da vida? – R. Não; o desgosto da vida não vem senão do desprezo de si mesmo.

35. Sendo os corpos dos habitantes de Júpiter menos densos do que os nossos, são formado de matéria compactada e condensada ou vaporosa? – R. Compacta para nós; mas para vós ela não o seria; é menos condensada.

36. O corpo, considerado como forma de matéria, é impenetrável? – R. Sim.

37. Os habitantes têm uma linguagem articulada como nós? -R. Não; há, entre eles, comunicação de pensamentos.

38. A segunda vista é, como se nos disse, uma faculdade normal e permanente entre vós? – R. Sim; o Espírito não tem mais entraves; nada está oculto para ele.

39. Se nada está oculto para o Espírito, conhece, pois, o futuro? (queremos falar dos Espíritos encarnados em Júpiter) – R. O conhecimento do futuro depende da perfeição do Espírito; tem menos inconvenientes para nós do que para vós; é-nos mesmo necessário, até um certo ponto, para o cumprimento de missões que temos a cumprir; mas dizer que conhecemos o futuro sem restrições, seria nos colocar na mesma posição que Deus.

40. Podeis revelar tudo o que sabeis do futuro? – R. Não; esperai até que tenhais merecido sabê-lo.

41. Comunicai-vos mais facilmente do que nós com os outros Espíritos? – R. Sim! sempre: a matéria não está mais entre eles e nós.

42. A morte inspira o horror e o pavor que causa entre nós? – R. Por que seria ela apavorante? O mal não existe mais entre nós. Só o mau vê o seu último momento com pavor; ele teme seu juiz.

43. Em que se tomam os habitantes de Júpiter depois da morte? – R. Crescem sempre em perfeição sem mais suportar provas.

44. Não há, em Júpiter, Espíritos que se submetem a provas para cumprirem uma missão? – R. Sim, mas isso não é mais uma prova; só o amor ao bem leva-os a sofrer.

45. Podem falir em sua missão? – R. Não, uma vez que são bons; não há fraqueza senão onde há defeito.

46. Poderias nomear-nos alguns Espíritos, habitantes de Júpiter, que cumpriram uma grande missão na Terra? – R. São Luís.

47. Poderias nomear-nos outros? – R. Que vos importa! Há missões desconhecidas que não têm por objetivo senão a felicidade de um só; estas são, por vezes, maiores: são as mais dolorosas.

OS ANIMAIS

48. Os corpos dos animais são mais materiais do que os dos homens? – R. Sim; o homem é o rei, o deus terrestre.

49. Entre os animais há os carniceiros? – R. Os animais não se despedaçam entre si; todos vivem submissos ao homem, amando-se mutuamente.

50. Mas há animais que escapam à ação do homem, como os insetos, os peixes, os pássaros? – R. Não; todos lhe são úteis.

51. Foi-nos dito que os animais são os servidores e operários que executam os trabalhos materiais, construindo as casas, etc.; isso é verdade? – R. Sim; o homem não se rebaixa mais servindo seu semelhante.

52. Os animais servidores são ligados a uma pessoa ou a uma família, ou são tomados e trocados à vontade, como aqui? -R. Todos são ligados a uma família particular; mudais por achar melhor.

53. Os animais servidores, ali, estão num estado de escravidão ou de liberdade; são uma propriedade, ou podem mudar de senhor à vontade? – R. Estão no estado de submissão.

54. Os animais trabalhadores recebem uma remuneração qualquer por seus esforços? – R. Não.

55. Desenvolvem-se as faculdades dos animais por uma espécie de educação? – R. Eles o fazem por si mesmos.

56. Os animais têm uma linguagem mais precisa e mais caracterizada do que a dos animais terrestres? – R. Certamente.

ESTADO MORAL DOS HABITANTES

57. As casas, das quais nos deste uma amostra por seus desenhos, estão reunidas em cidades, como aqui? – R. Sim; os que se amam se reúnem; só as paixões fazem solidão ao redor do homem. Se o homem, ainda que mau, procura seu semelhante, que não é para ele senão um instrumento de dor, por que o homem puro e virtuoso fugiria do seu irmão?

58. Os Espíritos são iguais ou de diferentes graus? – R. De diferentes graus, mas de uma mesma ordem.

59. Rogamos consentir reportar-te à escala espírita que demos no segundo número da Revista, e nos dizer a qual ordem pertencem os Espíritos encarnados em Júpiter? – R. Todos bons, todos superiores; o bem desce, algumas vezes, no mal; mas o mal jamais se mistura ao bem.

60. Os habitantes formam diferentes povos, como na Terra? -R. Sim; mas todos unidos entre si por laços de amor.

61. Assim sendo, as guerras ali são desconhecidas? – R. Pergunta inútil.

62. O homem poderá chegar, na Terra, a um bastante grande grau de perfeição, para absterse de guerras? – R. Seguramente chegará; a guerra desaparece com o egoísmo dos povos e à medida que compreendem melhor a fraternidade.

63. Os povos são governados por chefes? – R. Sim.

64. Em que consiste a autoridade dos chefes? – R. No grau superior de perfeição.

65. Em que consistem a superioridade e a inferioridade dos Espíritos em Júpiter, uma vez que são todos bons? – R. Têm mais ou menos de conhecimentos e de experiência; se depuram em se esclarecendo.

66. Há, como na Terra, povos mais avançados do que os outros? – R. Não; mas nos povos há
diferentes graus.

67. Se o povo mais avançado da Terra se visse transportado para Júpiter, que categoria nele ocuparia? – R. A classe dos macacos entre vós.

68. Os povos são governados por leis? – R. Sim.

69. Há leis penais? – R. Não há mais crime.

70. Quem faz as leis? – R. Deus as fez.

71. Há ricos e pobres, quer dizer, homens que têm abundância e o supérfluo, e outros a quem falta o necessário? – R. Não; todos são irmãos; se um tiver mais do que outro, ele partilhará; mas não se alegraria quando seu irmão desejasse.

72. Segundo isso, as fortunas ali seriam iguais para todos? – R. Eu não disse que todos eram ricos no mesmo grau; perguntastes se há os que têm o supérfluo e outros a quem falta o necessário.

73. Essas duas respostas nos parecem contraditórias; rogamos concordá-las. – R. A ninguém falta o necessário; ninguém tem o supérfluo, quer dizer que a fortuna de cada um está em relação com a sua condição. Estais satisfeitos?

74. Compreendemos agora; mas perguntaremos, ainda, se aquele que tem o menos não é infeliz relativamente àquele que tem o mais? – R. Não pode ser infeliz, desde que não é nem invejoso, nem ciumento. A inveja e o ciúme fazem mais infelizes do que a miséria.

75. Em que consiste a riqueza em Júpiter? – R. Que vos importa!

76. Há desigualdades de posições sociais? – R. Sim.

77. Em que são fundadas? – R. Nas leis da sociedade. Uns são mais ou menos avançados na perfeição. Aqueles que são superiores têm, sobre os outros, uma espécie de autoridade, como um pai sobre os filhos.

78. Desenvolvem-se as faculdades do homem pela educação? – R. Sim.

79. O homem pode adquirir bastante perfeição na Terra, para merecer passar imediatamente para Júpiter? – R. Sim, mas o homem, na Terra, está submetido a imperfeições para que esteja em relação com seus semelhantes.

80. Quando um Espírito que deixa a Terra deve ser reencarnado em Júpiter, fica errante durante algum tempo antes de ter achado o corpo ao qual deve se unir? – R. Fica durante um certo tempo, até que esteja liberto de suas imperfeições terrestres.

81. Há várias religiões? – R. Não; todos professam o bem, e todos adoram um único Deus.

82. Há templos e um culto? – R. Por templo há o coração do homem; por culto o bem que ele faz.

A evocação de Espíritos na Abissínia

Revista Espírita, abril de 1858

James Bruce, em seu Voyage aux sources du Nil, em 1768, conta o que segue a respeito de Gingiro, pequeno reino situado na parte meridional da Abissínia, a leste do reino de Adel. Trata-se de dois embaixadores que Socinios, rei da Abissínia, envia ao papa, por volta de 1625, e que deviam atravessar o Gingiro.

“Foi, então, necessário, diz Bruce, advertir o rei de Gingiro da chegada da caravana e lhe pedir audiência; mas ele se encontrava, nesse momento, ocupado com uma operação de magia, sem a qual esse soberano não ousa jamais começar nada.

“O reino de Gingiro pode ser considerado como o primeiro, dessa parte da África, onde foi estabelecida a estranha prática de predizer o futuro pela evocação de Espíritos, e por uma comunicação direta com o diabo.

“O rei de Gingiro acha que devia deixar decorrer oito dias antes de admitir, em audiência, o embaixador e seu acompanhante, o jesuíta Fernandez. Em conseqüência, no nono dia, estes receberam a permissão de irem à corte, onde chegam na mesma tarde.

“Nada se faz, no país de Gingiro, sem o socorro da magia. Vê-se, por aí, o quanto a razão humana se encontra degradada, a algumas léguas de distância. Que não venham mais nos dizer que se deve atribuir essa fraqueza à ignorância ou ao calor do clima. Por que um clima quente induziria os homens a se tornarem mágicos antes que não o faria um clima frio? Por que a ignorância aumentaria o poder do homem ao ponto de fazê-lo transpor os limites da inteligência comum, e lhe dar a faculdade de corresponder com uma nova ordem de seres, habitantes de um outro mundo? Os Etíopes, que cercam quase toda a Abissínia, são mais negros do que os Gingiranos; seu país é mais quente, e são, como eles, indígenas no lugar que habitam desde o começo dos séculos; entretanto, não adoram o diabo, nem pretendem ter nenhuma comunicação com ele; não sacrificam homens em seus altares; enfim, não se encontra, entre eles, nenhum traço dessa revoltante atrocidade.

“Nas partes da África que têm uma comunicação aberta com o mar, o comércio de escravos é um uso desde os mais recuados séculos; mas o rei de Gingiro, cujos Estados se acham situados quase no centro do continente, sacrifica ao diabo os escravos que não pode vender ao homem. É aí que começa esse horrível costume de derramar o sangue humano em todas as solenidades. Ignoro, disse o senhor Bruce, até onde se estende no meio da África, mas olho Gingiro como o limite geográfico do reino do diabo do canto setentrional da Península.”

Se o senhor Bruce tivesse visto isso do qual somos testemunhas hoje, não acharia nada espantoso na prática de evocações em uso em Gingiro. Não vê senão uma crença supersticiosa, ao passo que nós nisso encontramos a causa de fatos de manifestações, falsamente interpretadas, que puderam se produzir lá como alhures. O papel que a credulidade fez o diabo desempenhar aqui, nada tem de surpreendente. Primeiro, há que se anotar que, todos os povos bárbaros atribuem, à uma força malfazeja, os fenômenos que não podem explicar. Em segundo lugar, um povo bastante atrasado para sacrificar seres humanos, não pode muito atrair para si Espíritos superiores. A natureza dos que o visitam não pode, pois, senão confirmá-lo em sua crença. É preciso considerar, por outro lado, que os povos dessa parte da África conservaram um grande número de tradições judaicas misturadas, mais tarde, com algumas idéias informes do Cristianismo, fonte da qual, em conseqüência da sua ignorância, não hauriram senão a doutrina do diabo e dos demônios.

Abyssinia map
Old map of Abyssinia with Red Sea region map insert. Created by Kautx and Gillot, published on L’Illustration, Journal Universel, Paris, 1868

O Espiritismo entre os Druidas

Revista Espírita, abril de 1858

Sob esse título: O velho novo, o senhor Edouard Fournier publicou, no Século, há uns dez anos, uma série de artigos tão notáveis, do ponto de vista da erudição, quanto interessantes sob o aspecto histórico. O autor, passando em revista todas as invenções e descobertas modernas, prova que se nosso século tem o mérito da aplicação e do desenvolvimento, não tem, pelo menos para a maioria, o da prioridade. À época em que o senhor Edouard Fournier escrevia o seu folhetim, não havia, ainda, a questão dos Espíritos, sem o que não teria deixado de nos mostrar que tudo o que se passa hoje não é senão uma repetição do que os Antigos sabiam muito bem, e talvez melhor do que nós. E o lastimamos por nossa conta, porque as suas profundas investigações lhe teriam permitido pesquisar a antigüidade mística, como pesquisouse a antigüidade industrial; fazemos coro para que um dia dirija para esse lado suas laboriosas pesquisas. Quanto a nós, nossas observações pessoais não nos deixam nenhuma dúvida sobre a antigüidade e a universalidade da doutrina que os Espíritos nos ensinam. Essa coincidência entre o que nos dizem hoje e as crenças dos mais recuados tempos, é um fato significativo da mais alta importância. Faremos notar, todavia, que, se encontramos por toda parte traços da Doutrina Espírita, em nenhuma parte a vemos completa: parece haver sido reservado à nossa época coordenar esses fragmentos esparsos entre todos os povos, para chegar à unidade de princípios, no meio de um conjunto mais completo e, sobretudo, mais geral de manifestações, que parecem dar razão ao autor do artigo que citamos mais acima, sobre o período psicológico no qual a Humanidade parece entrar.

A ignorância e os preconceitos, quase por toda parte, desfiguraram essa doutrina, cujos princípios fundamentais estão misturados a práticas supersticiosas de todos os tempos, exploradas para sufocar a razão. Mas sob esse montão de absurdos, germinam as mais sublimes idéias, como sementes preciosas ocultas sob os estorvos, e não esperando senão a luz vivificante do Sol para alçar seu vôo. Nossa geração, mais universalmente esclarecida, descarta os estorvos, mas um tal cultivo não pode se cumprir sem transição. Deixemos, pois, às boas sementes, o tempo de se desenvolverem, e às más ervas o de desaparecerem. A doutrina druídica nos oferece um curioso exemplo do que acabamos de dizer. Essa doutrina, da qual conhecemos somente as práticas exteriores, se elevava, sob certos aspectos, até as mais sublimes verdades; mas essas verdades eram apenas para os seus iniciados: o vulgo, terrificado pelos sangrentos sacrifícios, colhia com um santo respeito o visgo sagrado do carvalho, e não via senão a fantasmagoria. Isso se poderá julgar pela citação seguinte, extraída de um documento tanto mais precioso quanto é pouco conhecido, e que lança uma luz inteiramente nova sobre a verdadeira teologia de nossos pais.

“Entregamos, à reflexão dos nossos leitores, um texto céltico publicado há pouco e cuja aparição causou uma certa emoção no mundo sábio. É impossível saber, ao certo, quem lhe foi o autor, nem mesmo a que século remonta. Mas, o que é incontestável, é que pertence à tradição dos bardos do país de Galles, e essa origem basta para lhe conferir um valor de primeira ordem.

“Sabe-se, com efeito, que o país de Galles se constitui, ainda em nossos dias, no mais fiel abrigo da nacionalidade gaulesa, que, entre nós, experimentou modificações tão profundas. Apenas roçado pela dominação romana, que aí não toca senão por pouco tempo e fracamente; preservado da invasão dos bárbaros pela energia dos seus habitantes e pelas dificuldades do seu território; submetido, mais tarde, pela dinastia normanda, que deveu, todavia, lhe deixar um certo grau de independência, o nome de Galles, Gallia, que sempre ostentou, é um traço distintivo pelo qual ele se prende, sem descontinuidade, ao período antigo. A língua kymrique, falada outrora em toda a parte setentrional da Gaule, jamais cessou de aí estar em uso, e muitos dos costumes são igualmente gauleses. De todas as influências estrangeiras, a do Cristianismo foi a única que encontrou meio de aí triunfar plenamente; mas não o foi sem muitas dificuldades relativamente à supremacia da Igreja romana, cuja reforma do décimosexto século não fez mais do que determinar a queda, desde há muito tempo preparada, nessas regiões cheias de um sentimento indefectível de independência.

“Pode-se mesmo dizer que os druidas, convertendo-se inteiramente ao Cristianismo, não se extinguiram totalmente no país de Galles, como na nossa Bretagne, e em outros países de sangue gaulês. Tiveram, por conseqüência imediata, uma sociedade muito solidamente constituída, votada principalmente, em aparência, ao culto da poesia nacional, mas que, sob o manto poético, conservou com fidelidade notável a herança intelectual da antiga Gaule: foi a Sociedade bárdica do país de Galles, que, depois de se manter como sociedade secreta durante toda a duração da Idade Média, por uma transmissão oral dos seus monumentos literários e da sua doutrina, à imitação das práticas dos druidas, decidiu, entre o décimo-sexto e o décimosétimo século, confiar à escrita as partes mais essenciais dessa herança. Desse fundo, cuja autenticidade está assim atestada por uma cadeia tradicional ininterrupta, procede o texto do qual falamos; e seu valor, em razão dessas circunstâncias, não depende, como se vê, nem da mão que teve o mérito de colocá-lo por escrito, nem da época na qual a sua redação pôde ter adquirido sua última forma. O que nele respira, acima de tudo, é o espírito dos bardos da Idade Média, que, eles mesmos, eram os últimos discípulos dessa corporação sábia e religiosa que, sob o nome de druidas, dominou a Gaule, durante o primeiro período da sua história, quase do mesmo modo que o clero latino durante o da Idade Média.

“Estar-se-ia mesmo privado de toda luz sobre a origem do texto, do qual se trata, se não se o tivesse colocado, bastante claramente, no caminho, em face do seu acordo com as informações que os autores, gregos e latinos, nos deixaram relativamente à doutrina religiosa dos druidas. Esse acordo constitui pontos de solidariedade que não sofrem nenhuma dúvida, porque se apóiam sobre as razões tiradas da própria substância do escrito; e a solidariedade assim demonstrada pelos artigos capitais, os únicos dos quais os Antigos nos falaram, se estende, naturalmente, aos desenvolvimentos secundários. Com efeito, esses desenvolvimentos, penetrados do mesmo espírito, derivam necessariamente da mesma fonte; fazem corpo com o fundo e não podem se explicar senão por ele. E, ao mesmo tempo que remontam, por uma geração tão lógica, aos depositários primitivos da religião druídica, é impossível lhes assinalar algum outro ponto de partida; porque, fora da influência druídica, o país do qual provêm não conheceu senão a influência cristã, que é inteiramente estranha a tais doutrinas.

“Os desenvolvimentos contidos nas tríades, estão mesmo tão perfeitamente fora do Cristianismo que o pouco de emoções cristãs, que escapam aqui e ali, em seu conjunto se distinguem do fundo primitivo à primeira vista. Essas emanações, ingenuamente saídas da consciência dos bardos cristãos, puderam, se assim se pode dizer, se intercalar nos interstícios da tradição, mas não puderam nela se fundir. A análise do texto é, pois, tão simples quanto rigorosa, uma vez que pode se reduzir em se apartar tudo o que traz a marca do Cristianismo, e, uma vez operada a triagem, deve-se considerar como de origem druídica tudo o que ficar visivelmente caracterizado por uma religião diferente da do Evangelho e dos concilies. Assim, para não citar senão o essencial, partindo desse princípio bastante conhecido de que o dogma da caridade, em Deus e nos homens, é tão especial ao Cristianismo quanto o da migração das almas o é ao antigo druidismo, um certo número de tríades, nas quais respire um espírito de amor que a Gaule primitiva jamais conheceu, se trairiam imediatamente como sinais de um caráter comparativamente moderno; ao passo que as outras, animadas por um sopro diferente, deixam ver tanto melhor a marca da alta antigüidade que as distingue.

“Enfim, não é inútil fazer observar que a própria forma do ensinamento contido nas tríades é de origem druídica. Sabe-se que os druidas tinham uma predileção particular pelo número três, e o empregavam especialmente, assim como no-lo mostram a maioria dos monumentos gauleses, para a transmissão de suas lições que, mediante essa forma precisa, se gravavam mais facilmente na memória. Diogène Laérce nos conservou uma dessas tríades que resume, sucintamente, o conjunto dos deveres do homem para com a Divindade, para com seus semelhantes e para consigo mesmo: “Honrar os seres superiores, não cometer injustiça, e cultivar em si a virtude viril.” A literatura dos bardos propagou, até nós, uma multidão de aforismos do mesmo gênero, tocando todos os ramos do saber humano: ciência, história, moral, direito, poesia. Não há de mais interessantes nem de mais próprias para inspirarem grandes reflexões do que aquelas das quais aqui publicamos o texto, segundo a tradução que foi feita pelo senhor Adolphe Pictet.

“Dessa série de tríades, as onze primeiras estão consagradas à exposição dos atributos característicos da Divindade. Foi nessa seção que as influências cristãs, como era fácil de se prever, tiveram maior ação. Se não se pode negar que o druidismo tenha conhecido o princípio da unidade de Deus, pode ser mesmo que, em conseqüência de sua predileção pelo número ternário, pôde se elevar a conceber, confusamente, alguma coisa da divina triplicidade; todavia, é incontestável de que o que completa essa alta concepção teológica – saber a distinção das pessoas e particularmente da terceira – deveu restar perfeitamente estranho a essa antiga religião. Tudo concorda em provar que os seus sectários estavam muito mais preocupados em estabelecer a liberdade do homem, do que em estabelecer a caridade; e foi mesmo em conseqüência dessa falsa posição de seu ponto de partida que pereceu. Também parece permitido se relacionar a uma influência cristã, mais ou menos determinada, todo esse início, principalmente a partir da quinta tríade.

“Em seguida aos princípios gerais, relativos à natureza de Deus, o texto passa a expor a constituição do Universo. O conjunto dessa constituição está superiormente formulado em três tríades que, mostrando os seres particulares em uma ordem absolutamente diferente da de Deus, completam a idéia que se deve formar do Ser único e imutável. Sob formas mais explícitas, essas tríades não fazem, de resto, senão o que já se sabia pelos testemunhos dos Antigos, da doutrina sobre a circulação das almas passando, alternativamente, da vida para a morte e da morte para a vida. Pode-se considerá-las como o comentário de um verso célebre da Pharsale, na qual o poeta se exclama, dirigindo-se aos sacerdotes da Gaule, que, se o que ensinam é verdadeiro, a morte não é senão o meio de uma longa vida: Longae vitae mors media est.

DEUS E O UNIVERSO

I. – Há três unidades primitivas, e de cada uma delas não se poderia ter senão uma só: um Deus, uma verdade, um ponto de liberdade, quer dizer, o ponto onde se encontra o equilíbrio de toda a oposição.

II. – Três coisas procedem de três unidades primitivas: toda vida, todo bem e todo poder.

III. – Deus é, necessariamente, três coisas, a saber: a maior parte da vida, a maior parte da ciência, e a maior parte do poder; e não poderia ter uma maior parte de cada coisa.

IV. – Três coisas que Deus não pode não ser: o que deve constituir o bem perfeito, o que deve querer o bem perfeito, e o que deve cumprir o bem perfeito.

V. – Três garantias daquilo que Deus fez e fará: seu poder infinito, sua sabedoria infinita, seu amor infinito; porque não há nada que não possa ser efetuado, que não possa se tornar
verdadeiro, e que não possa ser desejado por um atributo.

VI. – Três fins principais da obra de Deus, como criador de todas as coisas: diminuir o mal, reforçar o bem, e pôr em evidência toda diferença; de tal sorte que se possa saber o que deve ser, ou, ao contrário, o que não deve ser.

VII. – Três coisas que Deus não pode não conceder: o que há de mais vantajoso, o que há de mais necessário, e o que há de mais belo para cada coisa.

VIII. – Três poderes da existência: não poder ser de outro modo, não ser necessariamente outro, não poder ser melhor pela concepção; e é nisso que está a perfeição de toda coisa.

IX. – Três coisas prevalecerão necessariamente: o supremo poder, a suprema inteligência, e o supremo amor de Deus.

X. – As três grandezas de Deus: vida perfeita, ciência perfeita, poder perfeito.

XI. – Três causas originais dos seres vivos: o amor divino de acordo com a suprema inteligência, a sabedoria suprema pelo conhecimento perfeito de todos os meios, e o poder divino de acordo com a vontade, o amor e a sabedoria de Deus.

OS TRÊS CÍRCULOS

XII. – Há três círculos da existência: o círculo da região vazia (ceugant), onde, exceto Deus, não há nada de vivo, nem de morto, e nenhum ser que Deus não possa atravessá-lo; o círculo da migração (abred), onde todo ser animado procede da morte, e o homem o atravessou; e o círculo da felicidade (gwynfyd), onde todo ser animado procede da vida, e o homem o atravessará no céu.

XIII. – Três estados sucessivos de seres animados: o estado de descida no abismo (annoufn), o estado de liberdade na humanidade, e o estado de felicidade no céu.

XIV. – Três fases necessárias de toda existência com relação à vida: o começo em annoufn, a transmigração em abred, e a plenitude em gwynfyd; e sem essas três coisas ninguém pode existir, exceto Deus.

“Assim, em resumo, sobre esse ponto capital da teologia cristã, de que Deus, pelo seu poder criador, tira as almas do nada, as tríades não se pronunciam de modo preciso. Depois de mostrarem Deus em sua esfera eterna e inacessível, mostram simplesmente as almas nascendo no fundo do Universo, no abismo (annoufn); daí, essas almas passam no círculo de migrações (abred), onde seu destino se determina através de uma série de existências, conforme o uso bom ou mau que fizerem da sua liberdade; enfim, elas se elevam ao círculo supremo (gwynfyd), onde as migrações cessam, onde não se morre mais, onde a vida se passa doravante na felicidade, conservando em tudo sua atividade perpétua e a plena consciência da sua individualidade. É preciso, para isso, com efeito, que o druidismo caia no erro das teologias orientais, que conduzem o homem a se absorverem finalmente no seio imutável da Divindade; porque distingue, ao contrário, um círculo especial, o círculo do vazio ou do infinito (ceugant), que forma o privilégio incomunicável do Ser supremo, e no qual nenhum ser, qualquer que seja o seu grau de santidade, jamais é admitido penetrar. É o ponto mais elevado da religião, porque marca o limite colocado ao vôo das criaturas.

“O traço mais característico dessa teologia, se bem que seja um traço puramente negativo, consiste na ausência de um círculo particular, tal qual o Tártaro da antigüidade paga, destinado à punição sem fim das almas criminosas. Entre os druidas, o inferno propriamente dito não existe. A distribuição dos castigos se efetua, aos seus olhos, no círculo das migrações pelo compromisso das almas em condições de existência mais ou menos infelizes, onde, sempre senhoras da sua liberdade, expiam suas faltas pelo sofrimento, e se dispõem, pela reforma dos seus vícios, a um futuro melhor. Em certos casos, pode mesmo ocorrer que as almas retrocedam até aquela região de annoufn, onde tomam nascimento, e à qual não parece muito possível dar outra significação que a da animalidade. Por esse lado perigoso (a retrogradação), e que nada justifica, uma vez que a diversidade das condições de existência no círculo da humanidade, basta perfeitamente à penalidade de todos os graus, o druidismo teria, pois, chegado a deslizar até à metempsicose. Mas esse extremismo deplorável, ao qual não conduz nenhuma necessidade da doutrina do desenvolvimento das almas pelo caminho de migrações, parece, como se julgará pela seqüência das tríades relativas ao regime do círculo de abred, não ter ocupado, no sistema da religião, senão um lugar secundário.

“À parte algumas obscuridades, que se prendem talvez às dificuldades de uma língua cujas profundezas metafísicas não nos são ainda bem conhecidas, as declarações das tríades, tocando as condições inerentes ao círculo de abred, derramam as mais vivas luzes sobre o conjunto da religião druídica. Nela se sente respirar o sopro de uma originalidade superior. O mistério que oferece à nossa inteligência o espetáculo da nossa existência presente, nela toma um jeito singular que não se vê em nenhuma parte, e se diria que um grande véu se rasgando, adiante e atrás da vida, a alma se sente, de repente, nadar, com uma força inesperada, através de uma extensão indefinida que, em seu cativeiro entre as portas espessas do nascimento e da morte, ela não era capaz de supor por si mesma. A qualquer julgamento que se detenha, sobre a verdade dessa doutrina, não se pode deixar de convir que não seja uma doutrina poderosa; e, refletindo no efeito que devia, inevitavelmente, produzir sobre as almas inocentes tais aberturas sobre a sua origem e o seu destino, é fácil se dar conta da imensa influência que os druidas, naturalmente, haviam adquirido sobre os espíritos de nossos pais. No meio das trevas da antigüidade, esses ministros sacros não podiam deixar de aparecer, aos olhos das populações, como os reveladores do céu e da terra.

“Eis o texto notável, do qual se trata:

O CÍRCULO DE ABRED

XV. – Três coisas necessárias no círculo de abred: o menor grau possível de toda a vida, e daí seu começo; a matéria de todas as coisas, e daí o crescimento progressivo, o qual não pode se operar senão no estado de necessidade; e a formação de todas as coisas da morte, e daí a debilidade das existências.

XVI. – Três coisas nas quais todo ser vivo participa, necessariamente, pela justiça de Deus: o socorro de Deus em abred, porque sem isso ninguém não poderia conhecer nenhuma coisa; o privilégio de ter parte no amor de Deus; e o acordo com Deus quanto ao cumprimento pelo poder de Deus, tanto quanto for justo e misericordioso.

XVII. – Três causas da necessidade do círculo de abred: o desenvolvimento da substância material de todo ser animado; o desenvolvimento do conhecimento de toda coisa; e o desenvolvimento da força moral .para superar todo contrário e Cythraul (o mau Espírito) e para se livrar de Droug (o mal). E sem essa transição de cada estado de vida, não poderia isso ter cumprimento por nenhum ser.

XVIII. – Três calamidades primitivas de abred: a necessidade, a ausência de memória, e a morte.

XIX. – Três condições necessárias para se chegar à plenitude da ciência: transmigrar em abred, transmigrar em gwynfyd, e recordar-se de todas as coisas passadas, até em annoufn.

XX. – Três coisas indispensáveis no círculo de abred: a transgressão da lei, porque isso não pode ser de outro modo; libertação pela morte, diante de Droug e Cythraul; o crescimento da vida e do bem pelo afastamento de Droug na libertação da morte; e isso pelo amor de Deus que abarca todas as coisas.

XXI. – Três meios eficazes de Deus em abred, para dominar Droug e Cythraul e superar sua oposição com relação ao círculo de gwynfyd: a necessidade, a perda da memória e a morte.

XXII. – Três coisas são primitivamente contemporâneas: o homem, a liberdade e a luz.

XXIII. – Três coisas necessárias para o triunfo do homem sobre o mal: a firmeza contra a dor, a transformação, a liberdade de escolher; e com o poder que tem o homem de escolher, não se pode saber, antecipadamente, com certeza onde irá.

XXIV. – Três alternativas oferecidas ao homem: abred e gwynfyd, necessidade e liberdade, mal e bem; o todo em equilíbrio, o homem pode, à vontade, se ligar a um ou ao outro.

XXV. – Por três coisas o homem cai sob a necessidade de abred: pela ausência de esforço até o conhecimento, pelo desapego ao bem, pelo apego ao mal. Em conseqüência dessas coisas, desce em abred até seu análogo, e recomeça o curso da sua transmigração.

XXVI. – Por três coisas o homem desce de novo, necessariamente, em abred, se bem que, a todo outro respeito esteja ligado ao que é bom: pelo orgulho, cai até annoufn: pela falsidade, até o ponto de demérito equivalente, e pela crueldade, até o grau correspondente de animalidade. Daí transmigra de novo para a humanidade, como antes.

XXVII. – As três coisas principais para se obter no estado de humanidade: a ciência, o amor, a força moral, no mais alto grau possível de desenvolvimento, antes que sobrevenha a morte. Isso não pode ser obtido anteriormente ao estado de humanidade, e não pode ser senão pelo privilégio da liberdade e da escolha. Essas três coisas são chamadas de três vitórias.

XXVIII. – Há três vitórias sobre Croug e Cythraul: a ciência, o amor, e a força moral; porque o saber, o querer e o poder, cumprem o que quer que seja em sua conexão com as coisas. Essas três vitórias começam na condição de humanidade e continuam eternamente.

XXIX. – Três privilégios da condição do homem: o equilíbrio do bem e do mal, e daí a faculdade de comparar; a liberdade na escolha, e daí o julgamento e a preferência; e o desenvolvimento da força moral, em conseqüência do julgamento, e daí a preferência. Essas três coisas são necessárias para cumprir o que quer que seja.

“Assim, em resumo, o início dos seres no seio do Universo ocorre no ponto mais baixo da escala da vida; e se não é levar muito longe as conseqüências da declaração contida na vigésima-sexta tríada, pode-se conjecturar que, na doutrina druídica, esse ponto inicial está considerado como situado no abismo confuso e misterioso da animalidade. Daí, por conseqüência, desde a própria origem da história da alma, há necessidade lógica do progresso, uma vez que os seres não estão destinados por Deus para demorarem numa condição tão baixa e tão obscura. Entretanto, nos estágios inferiores do Universo, esse progresso não se desenrola seguindo uma linha contínua; essa longa existência, nascida tão baixo para se elevar tão alto, se quebra em fragmentos, solidários no fundo da sua sucessão, mas do qual, graças ao defeito de memória, a misteriosa solidariedade escapa, ao menos por um tempo, à consciência do indivíduo. São as interrupções periódicas no curso secular da vida, que constituem o que chamamos a morte; de sorte que a morte e o nascimento que, por uma consideração superficial, formam acontecimentos tão diferentes, não são, em realidade, senão as duas faces do mesmo fenômeno, uma voltando para o período que se acaba, a outra para o período que se segue.

“Desde então a morte, considerada em si mesma, não é, pois, uma calamidade verdadeira, mas um benefício de Deus, que, rompendo os hábitos muito estreitos que havíamos contraído com nossa vida presente, nos transporta em novas condições e dá lugar, por aí, para nos elevarmos mais livremente a novos progressos.

“Do mesmo modo que a morte, a perda de memória que a acompanha não deve ser tomada não mais que por um benefício. É uma conseqüência do primeiro ponto; porque se a alma, no curso dessa longa vida, conservasse claramente essas lembranças de um período a outro, a interrupção não seria mais do que acidental, e não haveria, propriamente dito, nem morte, nem nascimento, uma vez que esses dois acontecimentos perderiam, desde então, o cará ter absoluto que os distingue e faz a sua força. E mesmo, não parece difícil perceber diretamente, tomando o ponto de vista dessa teologia, em que a perda da memória, no que toca aos períodos passados, pode ser considerada como um benefício relativamente ao homem, em sua condição presente; porque se esses períodos passados, como a posição atual do homem em um mundo de sofrimento se lhe torna a prova, foram infelizmente manchados de erros e de crimes, causa primeira das misérias e das expiações de hoje, é, evidentemente, uma vantagem para a alma de se encontrar descarregada da visão duma tão grande multidão de faltas e, ao mesmo tempo, de ‘remorsos muito acabrunhantes que delas se originam. Não o obrigando a um arrependimento formal senão relativamente às culpas da sua vida atual, compadecendo-se, assim, de sua fraqueza, Deus lhe concede, efetivamente, uma grande graça.

“Enfim, segundo esse mesmo modo de considerar o mistério da vida, as necessidades de todas as naturezas às quais estamos sujeitos neste mundo, e que, desde o nosso nascimento, determinam, por uma sentença por assim dizer fatal, a forma da nossa existência no presente período, constituem um último benefício tão bastante sensível quanto os outros dois; porque são, em definitivo, essas necessidades que dão, à nossa vida, o caráter que melhor convém às nossas expiações e às nossas provas e, por conseguinte, ao nosso desenvolvimento moral; e são também essas mesmas necessidades, seja de nossa organização física, seja de circunstâncias exteriores ao meio no qual estamos colocados, que, em nos conduzindo forçosamente ao termo da morte, nos conduzem, por isso mesmo, à nossa suprema libertação. Em resumo, como dizem as tríades em sua enérgica concisão, está aí todo o conjunto e as três calamidades primitivas, e os três meios eficazes de Deus em abred.

“Entretanto, mediante qual conduta a alma se eleva, realmente, nesta vida, e merece alcançar, depois da morte, um mundo superior de existência? A resposta que o Cristianismo dá a essa questão fundamental é conhecida de todos: é sob a condição de desfazer, em si, o egoísmo e o orgulho, de desenvolver, na intimidade da sua substância, as forças da humildade e da caridade, únicas eficazes, únicas meritórias diante de Deus: Bem-aventurados os brandos, disse o Evangelho, bem-aventurados os humildes! A resposta do druidismo é bem diferente, e contrasta claramente com esta. Segundo suas lições, a alma se eleva na escala das existências sob a condição de fortificar, pelo seu trabalho, sobre ela mesma, sua própria personalidade, e é um resultado que ela obtém naturalmente, pelo desenvolvimento da força do caráter junto ao desenvolvimento do saber. É o que exprime a vigésima-quinta tríade, que declara que a alma cai na necessidade de transmigrações, quer dizer, em vidas confusas e mortais, não somente pela manutenção de más paixões, mas pelo hábito da frouxidão no cumprimento de ações justas, pela falta de firmeza na adesão ao que prescreve a consciência, em uma palavra, pela fraqueza de caráter; além desse defeito de virtude moral, a alma está ainda retida, em seu vôo para o céu, por falta do aperfeiçoamento do Espírito. A iluminação intelectual, necessária para a plenitude da felicidade, não se opera simplesmente, na alma bem-aventurada, por uma irradiação nela, do alto, toda gratuita; ela não se produz na vida celeste se a alma, ela mesma, não soube fazer esforços nesta vida para adquiri-la. Também a tríade não fala unicamente da falta de saber, mas da falta de esforços para saber, o que é, no fundo, como para a precedente virtude, um preceito de atividade e de movimento.

“Em verdade, nas tríades seguintes, a caridade se encontra recomendada, no mesmo título que a ciência e a força moral; mas aqui ainda, como ao que toca à natureza divina, a influência do Cristianismo é sensível. É a ele, e não à forte mas dura religião dos nossos pais, que pertence a pregação e a intronização, no mundo, da lei da caridade em Deus e no homem; e se essa lei brilha nas tríades, é por uma aliança com o Evangelho, ou, por melhor dizer, por um feliz aperfeiçoamento da teologia dos druidas pela ação da dos apóstolos, e não por uma tradição primitiva. Retiremos esse divino raio, e teremos, na sua rude grandeza, a moral da Gaule, moral que pôde produzir, na ordem do heroísmo e da ciência, poderosas personalidades, mas que não soube uni-las entre si com a multidão dos humildes (1). (1) Extraído do Magasin pittoresque, 1857.

A Doutrina Espírita não consiste somente na crença das manifestações dos Espíritos, mas em tudo o que nos ensinam sobre a natureza e o destino da alma. Se, pois, se quiser se reportar aos preceitos contidos em O Livro dos Espíritos, onde se encontra formulado todo o seu ensinamento, impressionar-se-á com a identidade de alguns princípios fundamentais com os da doutrina druídica, dos quais um dos mais salientes e sem contradita, é o da reencarnação. Nos três círculos, nos três estados sucessivos dos seres animados, encontramos todas as fases que apresenta a nossa escala espírita. O que é, com efeito, o círculo de abred ou da migração, senão as duas ordens de Espíritos que se depuram em suas existências sucessivas? No círculo de gwynfyd, o homem não transmigra mais, goza da suprema felicidade. Não é a primeira ordem da escala, a dos Espíritos que, tendo cumprido todas as provas, não têm mais necessidade de encanação e gozam da vida eterna? Anotemos, ainda, que, segundo a doutrina druídica, o homem conserva o seu livre arbítrio; se eleva gradualmente pela sua vontade, sua perfeição progressiva e as provas que suporta, de annoufn ou abismo, até a perfeita felicidade em gwynfyd, com a diferença, no entanto, de que o druidismo admite o retorno possível nas classes inferiores, ao passo que, segundo o Espiritismo, o Espírito pode permanecer estacionário, mas não pode degenerar. Para completar a analogia, teríamos que acrescentar à nossa escala, abaixo da terceira ordem, o círculo de annoufn, por caracterizar o abismo ou origem, desconhecida das almas, e, acima da primeira ordem, o círculo de ceugant, morada de Deus, inacessível às criaturas. O quadro seguinte torna essa comparação mais sensível.

ESCALA ESPÍRITA

 

Escala Espírita x Escala Druídica

O Espiritismo entre os Druidas

 

Período psicológico

Revista Espírita, abril de 1858

Se bem que as manifestações espíritas hajam ocorrido em todas as épocas, é incontestável que se produzem hoje de um modo excepcional. Os Espíritos, interrogados sobre esse fato, foram unânimes em sua resposta: “Os tempos, disseram eles, marcados pela Providência, para uma manifestação universal, são chegados. Estão encarregados de dissiparem as trevas da ignorância e os preconceitos; é uma era nova que começa e prepara a regeneração da Humanidade.” Esse pensamento se encontra desenvolvido, de um modo notável, em uma carta que recebemos de um dos nossos assinantes, e da qual extraímos a passagem seguinte:

“Cada coisa tem o seu tempo; o período que vem de se escoar, parece ter sido especialmente destinado, pelo Todo-Poderoso, ao progresso das ciências matemáticas e físicas, e, provavelmente, foi tendo em vista dispor os homens aos conhecimentos exatos, que se terá oposto, durante longo tempo, à manifestação dos Espíritos, como se essa manifestação devesse prejudicar o positivismo que pede o estudo das ciências; quis, em uma palavra, habituar o homem a pedir, às ciências de observação, a explicação de todos os fenômenos que deveriam se produzir a seus olhos.

“O período científico parece, hoje, se enfraquecer, e, depois dos progressos imensos que viu se cumprirem, não seria impossível que o novo período, que deve suceder-lhe, fosse consagrado, pelo Criador, às iniciações de ordem psicológica. Na imutável lei de perfectibilidade que colocou para os humanos, que pode fazer depois de havê-los iniciado nas leis físicas do movimento, e lhes haver revelado os motores com os quais muda a face do globo? O homem tem sondado as profundezas mais recuadas do espaço; a marcha dos astros e o movimento geral do Universo nada têm mais de segredo para ele; lê nas camadas geológicas a história da formação do globo; a luz, à sua vontade, se transforma em imagens duradouras; domina o raio; com o vapor e a eletricidade suprime as distâncias, e o pensamento vence o espaço com a rapidez do relâmpago. Chegado a esse ponto culminante, do qual a história da Humanidade não oferece nenhum exemplo, qualquer que tenha podido ser o grau do seu avanço nos séculos recuados, parece-me racional pensar que a ordem psicológica lhe abre uma nova pista no caminho do progresso. É, pelo menos, o que se poderia deduzir dos fatos que se produzem em nossos dias e se repetem por toda parte. Esperemos, pois, que o momento se aproxime, se ainda não chegou, no qual o Todo Poderoso vai nos iniciar em novas, grandes e sublimes verdades. Cabe a nós compreendê-lo e secundá-lo na obra da regeneração.”

Essa carta é do senhor Georges, do qual havíamos falado no nosso primeiro número. Não podemos senão felicitá-lo pelos seus progressos na Doutrina; os conhecimentos elevados que desenvolve mostram que a compreende sob seu verdadeiro ponto de vista; para ele, ela não se resume numa crença nos Espíritos e nas suas manifestações: é toda uma filosofia. Admitimos, como ele, que entramos num período psicológico e achamos as razões que nos dá, perfeitamente racionais, sem crer, no entanto, que o período científico tenha dito a sua última palavra; cremos, ao contrário, que nos reserva muitos outros progressos. Estamos numa época de transição, na qual os dois períodos se confundem.

Os conhecimentos que os Antigos possuíam sobre as manifestações de Espíritos, não seriam um argumento contra a idéia do período psicológico que se prepara. Notemos, com efeito, que, na antigüidade, esses conhecimentos estavam circunscritos ao círculo estreito dos homens de elite; o povo não tinha, a esse respeito, senão idéias falseadas pelos preconceitos, e desfiguradas pelo charlatanismo dos padres, que se serviam delas como de um meio de dominação. Como dissemos em outra parte, esses conhecimentos jamais se perderam e as manifestações sempre se produziram; mas permaneceram no estado de fatos isolados, sem dúvida porque o tempo para compreendê-los não havia chegado. O que se passa hoje tem um caráter diferente; as manifestações são gerais; elas comovem a sociedade desde a base até o cume. Os Espíritos não ensinam mais nos recintos fechados e misteriosos de um templo inacessível ao vulgo. Esses fatos se passam à luz do dia; falam a todos uma linguagem inteligível por todos; tudo anuncia, pois, uma fase nova para a Humanidade sob o ponto de vista moral.

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O magnetismo e o Espiritismo

Revista Espírita, março de 1858

Quando apareceram os primeiros fenômenos espíritas, algumas pessoas pensaram que essa descoberta (se se pode aplicar-lhe esse nome) iria dar um golpe fatal no Magnetismo, e que ocorreria com ele como com as invenções, das quais as mais aperfeiçoadas fazem esquecer a precedente. Esse erro não tardou em se dissipar, e, prontamente, se reconheceu o parentesco próximo dessas duas ciências. Todas as duas, com efeito, baseadas sobre a existência e a manifestação da alma, longe de se combaterem, podem e devem se prestar um mútuo apoio: elas se completam e se explicam uma pela outra. Seus adeptos respectivos, todavia, diferem em alguns pontos: certos magnetistas (1-(1) O magnetizador é aquele que pratica o magnetismo; magnetista se diz de alguém que lhe adote os princípios. Pode-se ser magnetista sem ser magnetizador; mas não se pode ser magnetizador sem ser magnetista.) não admitem, ainda, a existência, ou pelo menos a manifestação dos Espíritos: crêem poder tudo explicar pela única ação do fluido magnético, opinião que nos limitamos a constatar, reservando-nos discuti-la mais tarde. Nós mesmos a partilhamos no princípio; mas, como tantos outros, devemos nos render à evidência dos fatos. Os adeptos do Espiritismo, ao contrário, são todos partidários do magnetismo; todos admitem a sua ação e reconhecem nos fenômenos sonambúlicos uma manifestação da alma. Essa oposição, de resto, se enfraquece dia a dia, e é fácil prever que não está longe o tempo em que toda distinção terá cessado. Essa diferença de opinião não tem nada que deva surpreender. No início de uma ciência, ainda tão nova, é muito simples que cada um, encarando a coisa sob o seu ponto de vista, dela se tenha formado uma idéia diferente. As ciências, as mais positivas, tiveram, e têm ainda, suas seitas que sustentam com ardor teorias contrárias; os sábios ergueram escolas contra escolas, bandeiras contra bandeiras, e, muito freqüentemente, pela sua dignidade, sua polêmica, torna-se irritante e agressiva pelo amor-próprio melindrado, e desviada dos limites de uma sábia discussão. Esperemos que os sectários do Magnetismo e do Espiritismo, melhor inspirados, não dêem ao mundo o escândalo de discussões muito pouco edificantes, e sempre fatais para a propagação da verdade, de qualquer lado que esteja. Pode-se ter sua opinião, sustentá-la, discuti-la; mas o meio de se esclarecer não é o de se dilacerar, procedimento pouco digno de homens sérios, e que se torna ignóbil se o interesse pessoal está em jogo.

O Magnetismo preparou os caminhos do Espiritismo, e os rápidos progressos dessa última doutrina são, incontestavelmente, devidos à vulgarização das idéias da primeira. Dos fenômenos magnéticos, do sonambulismo e do êxtase, às manifestações espíritas, não há senão um passo; sua conexão é tal que é, por assim dizer, impossível falar de um sem falar do outro. Se devêssemos ficar fora da ciência magnética, nosso quadro estaria incompleto, e se poderia nos comparar a um professor de física que se abstivesse de falar da luz. Todavia, como o Magnetismo já tem entre nós órgãos especiais, justamente autorizados, tornar-se-ia supérfluo cair sobre um assunto tratado com a superioridade do talento e da experiência; dele não falaremos, pois, senão acessoriamente, mas suficientemente para mostrar as relações íntimas das duas ciências que, na realidade, não fazem senão uma.

Devíamos, aos nossos leitores, essa profissão de fé, que terminamos rendendo uma justa homenagem aos homens de convicção que, afrontando o ridículo, os sarcasmos e os dissabores, estão corajosamente devotados à defesa de uma causa toda humanitária. Qualquer que seja a opinião dos contemporâneos sobre a sua conta pessoal, opinião que é sempre, mais ou menos, o reflexo de paixões vivas, a posteridade lhes fará justiça; colocará o nome do barão Du Potet, diretor do Jornal do Magnetismo, do senhor Millet, diretor da  União Magnética, ao lado dos seus ilustres predecessores, o marquês de Puységur e o sábio Deleuze. Graças aos seus esforços perseverantes, o Magnetismo, tornado popular, colocou um pé na ciência oficial, onde dele já se fala, em voz baixa. Essa palavra passou para a linguagem usual; ela não espanta mais, e quando alguém se diz magnetizador, não lhe riem mais ao nariz.

Allan Kardec.

O magnetismo e o Espiritismo

O senhor Home

Revista Espírita, março de 1858

(Segundo artigo. – Ver o número de fevereiro de 1858.)

O senhor Home, assim como dissemos, é um médium do gênero daqueles sob a influência dos quais se produzem, especialmente, fenômenos físicos, sem excluir, por isso, as manifestações inteligentes. Todo efeito que revela a ação de uma vontade livre é, por isso mesmo, inteligente; quer dizer, que não é puramente mecânico e que não poderia ser atribuído a um agente exclusivamente material; mas daí às comunicações instrutivas de uma alta importância, moral e filosófica, há uma grande distância, e não é do nosso conhecimento que o senhor Home as obtém dessa natureza. Não sendo médium escrevente, a maioria das respostas são dadas por pancadas, indicando as letras do alfabeto, meio sempre imperfeito e muito lento, que se presta dificilmente aos desenvolvimentos de uma certa extensão. Ele obtém, não obstante, também a escrita, mas por um outro meio, do qual falaremos dentro em pouco.

Diremos, primeiro, como princípio geral, que as manifestações ostensivas, as que ferem os nossos sentidos, podem ser espontâneas ou provocadas. As primeiras são independentes da vontade; freqüentemente, têm mesmo lugar contra a vontade daquele das quais são objeto, e ao qual não são sempre agradáveis. Os fatos desse gênero são freqüentes, e, sem remontar às narrações mais ou menos autênticas dos tempos recuados, a história contemporânea delas nos oferece numerosos exemplos cuja causa, ignorada a princípio, é hoje perfeitamente conhecida: tais são, por exemplo, os ruídos insólitos, o movimento desordenado dos objetos, as cortinas puxadas, as cobertas arrancadas, certas aparições, etc. Algumas pessoas são dotadas de uma faculdade especial que lhes dá o poder de provocarem esse fenômeno, pelo menos em parte, por assim dizer, à vontade. Essa faculdade não é muito rara, e, sobre cem pessoas, cinqüenta ao menos a possuem em um grau mais ou menos grande. O que distingue o senhor Home, é que se desenvolveu nele, como nos médiuns de sua força, de um modo, por assim dizer, excepcional. Alguém, não obterá senão golpes leves, ou o deslocamento insignificante de uma mesa, ao passo que sob a influência do senhor Home os ruídos, os mais retumbantes, se fazem ouvir, e todo o mobiliário de um quarto pode ser revirado, os móveis montando uns sobre os outros. Por estranhos que sejam esses fenômenos, o entusiasmo de alguns admiradores, muito zelosos, ainda encontra meios de amplificá-los com fatos de pura invenção. Por outro lado, os detratores não permanecem inativos; contam, sobre ele, toda espécie de chistes que não existiram senão na sua imaginação. Eis aqui um exemplo. M., marquês de…., um dos personagens que tiveram o maior interesse no senhor Home, e em cuja casa era recebido na intimidade, se encontrava um dia na Ópera com este último. Na orquestra estava o senhor P…, um dos nossos assinantes, que os conhecia pessoalmente, um e outro. Seu vizinho entabula conversação com ele; cai sobre o senhor Home. “Acreditaríeis, disse ele, que esse pretenso feiticeiro, esse charlatão, encontrou meios de se introduzir na casa do marquês de…; mas seus artifícios foram descobertos, e foi posto na rua a pontapés, como um vil intrigante. -Estais bem seguro! disse o senhor de P…, e conheceis M., o marquês de».? – Certamente, responde o interlocutor. – Nesse caso, disse o senhor de P…, olhai bem naquele camarote, podereis vê-lo em companhia do próprio senhor Home, ao qual não tem o ar de dar pontapés.” Neste momento, nosso azarado narrador, não julgando a ocasião favorável para continuar a conversa, tomou seu chapéu e não reapareceu mais. Pode-se julgar, por aí, o valor de certas afirmativas. Seguramente, se certos fatos espalhados pela malevolência fossem reais, ter-lhe iam fechado mais de uma porta; mas, como as casas mais honradas, sempre lhe estiveram abertas, disso se deve concluir que ele sempre, e por toda parte, se conduziu como um homem distinto. Aliás, basta ter falado, algumas vezes, com o senhor Home, para ver que com a sua timidez e a simplicidade do seu caráter, seria o mais desajeitado de todos os intrigantes; insistimos nesse ponto pela moralidade da causa. Voltemos às suas manifestações. Sendo o nosso objetivo fazer conhecer a verdade no interesse da ciência, tudo o que relatarmos foi haurido em fontes de tal modo autênticas, que podemos garantir-lhes a mais escrupulosa exatidão; temos testemunhas oculares muito sérias, muito esclarecidas e colocadas muito alto para que a sua sinceridade possa ser posta em dúvida. Se se dissesse que essas pessoas puderam, de boa-fé, serem vítimas de uma ilusão, responderíamos que há circunstâncias que escapam a toda suposição desse gênero; aliás, essas pessoas estavam muito interessadas em conhecerem a verdade, para não se premunirem contra qualquer falsa aparência.

O senhor Home começa, geralmente, suas sessões pelos fatos conhecidos: pancadas em uma mesa ou em qualquer outra parte do apartamento, procedendo como dissemos alhures. Vem, em seguida, o movimento da mesa, que se opera primeiro pela imposição das mãos, só dele ou de várias pessoas reunidas, depois a distância e sem contato; é uma espécie de preparação. Muito freqüentemente, não se obtém nada de mais; isso depende da disposição em que se encontra e, algumas vezes, também da dos assistentes; há tais pessoas diante das quais jamais nada produziu, mesmo sendo seus amigos. Não nos estenderemos sobre esses fenômenos, hoje tão conhecidos, e que não se distinguem senão pela sua rapidez e sua energia. Freqüentemente, após várias oscilações e balanços, a mesa se destaca do solo, se eleva gradualmente, lentamente, por pequenas sacudidelas, não mais do que alguns centímetros, mas até o teto, e fora do alcance das mãos; depois de estar suspensa alguns segundos no espaço, desce como subiu, lentamente, gradualmente. A suspensão de um corpo inerte e de um peso especifico incomparavelmente maior do que o do ar, sendo um fato adquirido, concebe-se que pode ocorrer o mesmo com um corpo animado. Não sabemos que o senhor Home tenha operado sobre nenhuma outra pessoa, senão sobre si mesmo, e, ainda, esse fato não se produziu em Paris, mas foi constatado que ocorreu, várias vezes, tanto em Florença como na França, e notadamente em Bordeaux, em presença das mais respeitáveis testemunhas, que poderemos citar, se necessário. Igual à mesa, ele é elevado até o teto, depois desce do mesmo modo. O que há de bizarro nesse fenômeno é que, quando ele se produz, não é por ato de sua vontade, e ele mesmo nos disse que dele não se apercebe, e crê estar sempre no solo, a menos que olhe para baixo; somente as testemunhas o vêem se elevar; quanto a ele, experimenta nesse momento a sensação produzida pela agitação de um navio sobre as ondas. De resto, o fato que narramos não é pessoal ao senhor Home. Deles a história cita mais de um exemplo autêntico, que relataremos ulteriormente.

De todas as manifestações produzidas pelo senhor Home, a mais extraordinária é, sem contradita, a das aparições, por isso nelas insistiremos mais, em razão das graves conseqüências que delas decorrem e da luz que lançam sobre uma multidão de outros fatos. Ocorre o mesmo com sons produzidos no ar, com instrumento de música que tocam sozinhos, etc. Examinaremos esses fenômenos com detalhes em nosso próximo número.

O senhor Home, de retorno de uma viagem à Holanda, onde produziu, na corte e na mais alta sociedade, uma profunda sensação, acaba de partir para a Itália. Sua saúde, gravemente alterada, lhe faz necessário um clima mais ameno.

Confirmamos, com prazer, o que alguns jornais relataram, de um legado de 6.000 francos de renda, que lhe foi feito por uma dama inglesa, convertida por ele à Doutrina Espírita, e em reconhecimento da satisfação que com ele experimentou. O senhor Home merecia, sob todos os aspectos, esse honroso testemunho. Esse ato, da parte de uma doadora, é um precedente ao qual aplaudiremos, todos os que partilham as nossas convicções; esperemos que, um dia, a Doutrina terá o seu Mecenas: a posteridade inscreverá o seu nome entre os benfeitores da Humanidade. A religião nos ensina a existência da alma e a sua imortalidade; o Espiritismo disso nos dá prova palpável e viva, não mais pelo raciocínio, mas pelos fatos. O materialismo é um dos vícios da sociedade atual, porque engendra o egoísmo. O que há, com efeito, fora do eu para quem tudo relaciona com a matéria’ e a vida presente? A Doutrina Espírita, intimamente ligada às idéias religiosas, esclarecendo-nos sobre a nossa natureza, nos mostra a felicidade na prática das virtudes evangélicas; lembra o homem quanto aos seus deveres para com Deus, a sociedade e a si mesmo; ajudar a sua propagação é dar um golpe mortal na praga do ceticismo, que nos invade como um mal contagioso; honra, pois, àqueles que empregam, nessa obra, os bens com que Deus os favoreceu na Terra!

daniel douglas Home

O doutor Xavier, sobre diversas questões psicofisiológicas

Revista Espírita, março de 1858

Um médico de grande talento, que designaremos pelo nome de Xavier, morto há alguns meses, e que muito se ocupou com o Magnetismo, havia deixado um manuscrito destinado, pensava ele, a fazer uma revolução na ciência. Antes de morrer, havia lido O Livro dos Espíritos e desejado pôr-se em relação com o autor. A doença, com a qual sucumbiu, não lhe deixou tempo para isso. Sua evocação ocorreu a pedido de sua família, e as respostas, eminentemente instrutivas, que ela contém, nos animou a dela inserir um extrato, na nossa coletânea, suprimindo tudo o que é de interesse privado.

1. Lembrai-vos do manuscrito que haveis deixado? – Resp. Ligo-lhe pouca importância.

2. Qual é a vossa opinião atual sobre esse manuscrito? – Resp. Obra vã de um ser que ignorava a si mesmo.

3. Pensais, todavia, que essa obra poderia fazer uma revolução na ciência? – Resp. Vejo muito claro agora.

4. Poderíeis, como Espírito, corrigir e acabar esse manuscrito? – Resp. Parti de um ponto que mal conheço. Talvez, seria preciso refazer tudo.

5. Sois feliz ou infeliz? – Resp. Espero e sofro.

6. O que esperais? – Resp. Novas provas.

7. Qual é a causa dos vossos sofrimentos? – Resp. O mal que fiz.

8. Todavia, haveis feito o mal com intenção? – Resp. Conheces bem o coração do homem?

9. Estais errante ou encarnado? – Resp. Errante.

10. Qual era, quando vivíeis, vossa opinião sobre a Divindade? – Resp. Não acreditava nela.

11. Qual é agora? – Resp. Nela não creio bastante.

12. Tínheis o desejo de se pôr em relação comigo; lembrai-vos? – Resp. Sim.

13. Vede-me e me reconheceis pela pessoa com a qual queríeis entrar em relação? – Resp. Sim.

14. Que impressão O Livro dos Espíritos fez sobre vós? – Resp. Transtornou-me.

15. Que pensais dele agora? – Resp. É uma grande obra.

16. Que pensais do futuro da Doutrina Espírita? – Resp. É grande, mas certos discípulos a prejudicam.

17. Quem são os que a prejudicam? – Resp. Os que atacam o que existe: as religiões, as primeiras e mais simples crenças dos homens.

18. Sendo médico, e em razão dos estudos que haveis feito, poderíeis, sem dúvida, responder às questões seguintes:

O corpo pode conservar, por alguns instantes, a vida orgânica depois da separação da alma? – Resp. Sim.

19. Quanto tempo? – Resp. Não há tempo.

20. Precisai vossa resposta, vos peço. – Resp. Isso não dura senão alguns instantes.

21. Como se opera a separação da alma do corpo? – Resp. Igual um fluido que escapa de um vaso qualquer.

22. Há uma linha de demarcação realmente traçada entre a vida e a morte? – Resp. Esses dois estados se tocam e se confundem; assim, o Espírito se desliga, pouco a pouco, dos seus laços; ele se desenlaça e não se quebra.

23. Esse desligamento da alma se opera mais prontamente em uns do que em outros? – Resp. Sim: aqueles que, em sua vida, já se elevaram acima da matéria, porque, então, sua alma pertence mais ao mundo dos Espíritos do que ao mundo terrestre.

24. Em que momento se opera a união da alma e do corpo, na criança? – Resp. Quando a criança respira; como se recebesse a alma com o ar exterior.

Nota. Essa opinião é conseqüência de dogma católico. Com efeito, a Igreja ensina que a alma não pode ser salva senão pelo batismo; ora, como a morte natural intra-uterina é muito freqüente, em que se tornaria essa alma privada, segundo ela, desse único meio de salvação, se ela existia no corpo antes do nascimento? Para ser conseqüente, seria preciso que o batismo tivesse lugar, se não de fato, pelo menos de intenção, desde o instante da concepção.

25. Como explicais, então, a vida intra-uterina? – Resp. Como a planta que vegeta. A criança vive a sua vida animal.

26. Há crime em privar uma criança da vida antes do seu nascimento, uma vez que, antes dessa época, a criança, não tendo alma, não é, de algum modo, um ser humano? – Resp. A mãe, ou qualquer outra, cometerá sempre um crime tirando a vida à criança antes do seu nascimento, porque é impedir a alma de suportar as provas, para as quais o corpo deveria ser o instrumento.

27. A expiação, que deveria ser suportada pela alma impedida de se encarnar, não obstante, ocorrerá? – Resp. Sim, mas Deus sabia que a alma não se uniria a esse corpo; assim, nenhuma alma devia se unir a esse envoltório corporal: era a prova da mãe.

28. No caso em que a vida da mãe estaria em perigo pelo nascimento da criança, há crime em sacrificar a criança para salvar a mãe? – Resp. Não; é preciso sacrificar o ser que não existe ao ser que existe.

29. A união, da alma e do corpo, se opera instantaneamente ou gradualmente; quer dizer, é preciso um tempo apreciável para que essa união seja completa? – Resp. O Espírito não entra bruscamente no corpo. Para medir esse tempo, imaginai que o primeiro sopro que a criança recebe é a alma que entra no corpo: o tempo que o peito se eleva e abaixa.

30. A união da alma, com tal ou tal corpo, está predestinada, ou não é senão no momento do nascimento que a escolha se faz? – Resp. Deus a marcou; essa questão exige mais longos desenvolvimentos. O Espírito, escolhendo a prova que deve suportar, pede para se encarnar; ora, Deus, que tudo sabe e tudo vê, sabia e via antes que tal alma se uniria a tal corpo. Quando o Espírito nasce nas classes baixas da sociedade, sabe que sua vida não será senão trabalho e sofrimento. A criança que vai nascer tem uma existência que resulta, até certo ponto, da posição de seus pais.

31. Por que país bons e virtuosos dão nascimento a crianças de natureza perversa? Dito de outro modo, por que as boas qualidades dos pais não atraem sempre, por simpatia, um bom Espírito para animar seu filho? – Resp. Um mau Espírito pede bons pais, na esperança de que seus conselhos lhe dirigirão para um caminho melhor.

32. Os pais podem, por seus pensamentos e suas preces, atrair para o corpo da criança um bom Espírito, antes que um Espírito inferior? – Resp. Não; mas podem melhorar o Espírito da criança que fizeram nascer é seu dever, crianças más são uma prova para os pais.

33. Concebe-se o amor maternal para a conservação da vida da criança, mas, uma vez que esse amor está na Natureza, por que há mães que odeiam seus filhos desde o seu nascimento? – Resp. Maus Espíritos que tratam de entravar o Espírito da criança, a fim de que ele sucumba sob a prova que quis.

34. Nós vos agradecemos as explicações que consentistes em nos dar. – Resp. Para vos instruir, farei tudo.

Nota. A teoria, dada por esse Espírito, sobre o instante da união da alma e do corpo, não é inteiramente exata. A união começa desde a concepção; quer dizer, desde esse momento, o Espírito, sem estar encarnado, liga-se ao corpo por um laço fluídico que vai se apertando, mais e mais, até o nascimento; a encarnação não se completa senão quando a criança respira. (Ver O Livro dos Espíritos, n9 344 e seguintes.)

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