Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Revista Espírita, maio de 1858

FUNDADA EM PARIS EM 19 DE ABRIL DE 1858.

E autorizada por decreto do senhor Prefeito de Polícia, sobre o aviso de Sua Excelência, senhor Ministro do Interior e da segurança geral, em data de 13 de abril de 1858.
A extensão, por assim dizer, universal que tomam, cada dia, as crenças espíritas, fazem desejar vivamente a criação de um centro regular de observações; essa lacuna vem de ser preenchida. A Sociedade, da qual estamos felizes por anunciar a formação, composta exclusivamente de pessoas sérias, isentas de prevenção, e animadas do desejo sincero de se esclarecerem, contou, desde o início, entre seus partidários, homens eminentes pelo saber e posição social. Ela está chamada, disso estamos convencidos, a prestar incontáveis serviços para a constatação da verdade. Seu regulamento orgânico lhe assegura homogeneidade sem a qual não há vitalidade possível; está baseada na experiência de homens e de coisas, e sobre o conhecimento das condições necessárias às observações que fazem o objeto de suas pesquisas. Os estrangeiros que se interessam pela Doutrina Espírita encontrarão, assim, vindo a Paris, um centro ao qual poderão se dirigir para se informarem, e onde poderão comunicar suas próprias observações (1).

(1) Para todas as informações relativas à Sociedade, dirigir-se ao senhor ALLAN KARDEC, rua Sainte-Anne, 59, de 3 às 5 horas; ou ao senhor LEDOYEM, livreiro, galeria d’Orleans, 31, no Palais-Royal.

Allan Kardec

Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Manifestações no hospital de Saintes

Revista Espírita, maio de 1858

L’lndépendant de La Charente-lnférieure citou, no mês de março último, o fato seguinte que se teria passado no hospital civil de Saintes:

“Contam-se as mais maravilhosas histórias, e não se fala de outra coisa na cidade, há oito dias, senão dos ruídos singulares que, todas as noites, imitam, ora o trote de um cavalo, ora o caminhar de um cão ou de um gato. Garrafas colocadas sobre uma lareira são lançadas ao outro canto do aposento. Um pacote de trapos foi encontrado, pela manhã, torcido em mil nós, que foi impossível soltar. Um papel sobre o qual foi escrito: “Que quereis? Que exigis?” foi deixado, uma noite, sobre uma lareira; na manhã seguinte, a resposta estava escrita, porém, em caracteres desconhecidos e indecifráveis. Fósforos colocados sobre uma mesinha de cabeceira, desapareceram como por encanto; enfim, todos os objetos mudam de lugar e são dispersados por todos os cantos. Esses sortilégios não ocorrem nunca senão na obscuridade da noite. Logo que uma luz aparece, tudo volta ao silêncio; apagando-a, logo os ruídos recomeçam. E um Espírito amigo das trevas. Várias pessoas, eclesiásticos, antigos militares, dormiram nesse aposento enfeitiçado, e lhes foi impossível algo descobrir nem aperceber-se do que ouviam.

“Um homem de serviço no hospital, suspeito de ser o autor dessas travessuras, veio a ser demitido. Mas assegura-se que ele não é o culpado e que, ao contrário, foi muitas vezes a própria vítima.

Parece que faz mais de um mês que esse embuste começou. Passou longo tempo sem nada dizerem disso, cada um desconfiando de seus sentidos e temendo prestar-se ao ridículo. Não foi senão há alguns dias que se começou a disso falar.”

NOTA. – Ainda não tivemos tempo para nos assegurarmos da autenticidade dos fatos acima; não os damos, pois, senão sob reserva; somente faremos observar que, se forem controvertidos, não são menos possíveis, e não apresentam nada de mais extraordinário que muitos outros do mesmo gênero e que foram perfeitamente constatados.

Manifestações no hospital de Saintes

Variedades – O falso Home de Lyon

Revista Espírita, maio de 1858

Leu-se, há pouco tempo, nos jornais de Lyon, o anúncio seguinte, afixado igualmente sobre as paredes da cidade:

“O senhor Hume, o célebre médium americano, que teve a honra de fazer suas experiências diante de S.M. o Imperador, dará, a partir de quinta-feira, 1º de abril, no grande teatro de Lyon, sessões de espiritualismo. Produzirá aparições, etc., etc. Assentos serão dispostos no teatro para os senhores médicos e os sábios, a fim de que possam se assegurar de que nada está preparado. As sessões serão variadas pelas experiências da célebre vidente senhora …., sonâmbula extra-lúcida, que reproduzirá, alternada mente, todos os sentimentos ao gosto dos expectadores. Preço do lugar 5 francos as primeiras, 3 francos as segundas.”

Os antagonistas do senhor Home (alguns escrevem Hume), não estão muito longe de perder essa ocasião de lançá-lo, no ridículo. No seu ardente desejo de encontrar onde criticar, acolheram essa grosseira mistificação com uma pressa que testemunha pouco em favor do seu julgamento, e ainda menos quanto ao seu respeito pela verdade, porque, antes de lançar a pedra em alguém, é preciso ao menos se assegurar de que ela não errará o alvo; mas a paixão é cega, não raciocina e, freqüentemente, ela própria se descaminha querendo prejudicar os outros. “Eis, pois, exclamaram com alegria, esse homem tão elogiado reduzido a subir nos palcos para dar sessões a tanto por lugar!” E seus jornais de darem crédito ao fato sem maior exame. Sua alegria, infelizmente para eles, não foi de longa duração. Apressaram-se em nos escrever de Lyon, para terem notícias que pudessem ajudar a desmascarar a fraude, e isso não foi difícil, sobretudo graças ao zelo de numerosos adeptos que o Espiritismo conta nessa cidade. Desde que o diretor dos teatros soube com quem ia ter relações, imediatamente, dirigiu aos jornais a carta seguinte: “Senhor redator, apresso-me em vos anunciar que a sessão indicada para quinta-feira, 1º de abril, no grande teatro, não ocorrerá. Acreditei ceder a sala ao senhor Home e não ao senhor Lambert Laroche, dito Hume. As pessoas que tomaram adiantadamente camarotes ou lugares marcados poderão se apresentar na secretaria para retirarem seu dinheiro.”

De sua parte, o acima citado Lambert Laroche (natural de Langres), interpelado sobre a sua identidade, acreditou dever responder nos termos seguintes, que reproduzimos na íntegra, não querendo que possa nos acusar da menor alteração.

“Vous m’avez soumis diversse extre de vos correspondance de Paris, desquellesil résulterez queun M. Home qui donne dês séan-cedans quelque salon de Ia capitalle se trouve en cê moment en Ita-II etne peut par conséquent se trouvair à Lyon. Monsieur gignore 1º Ia connaissance de cê M. Home, 2° je nessait quellais sont talent 3º je nais jamais rien nue de commun à veque cê M. Home, 4º jait ta-vaillez et tavaille sout mon nom de gaire qui est Hume et dont je vous justi par lês article de journaux étrangais et français que je vous est soumis 5º je voyage à vecque deux sugais mon genre d’experriance consiste em spiritualisme ou évocation vison, et en un .mot reproduction dês idais du spectateur par un sugais, ma cepécialité est d’opere par c’est procedere sur lês personnes étrangere comme on Ia pue lê voir dans lês joumaux je vien despagne et d’a-frique. Seci M. lê redacteur vous démontre que je n’ais poin voulu prendre lê nom de cê prétendu Home que vous dites en réputation, lê min est sufisant connu par sã grande notoriété et par lês experience que je produi. Agreez M. lê redacteur mês salutation empressait.”

Cremos inútil dizer se o senhor Lambert Laroche deixou Lyon com as honras da guerra; sem dúvida, irá alhures procurar tolos mais fáceis. Não acrescentaremos senão uma palavra, para exprimir nosso pesar em ver com quanta deplorável avidez certas pessoas, que se dizem sérias, acolhem tudo o que possa servir à sua animosidade. O Espiritismo é muito reputado hoje por nada ter a temer da charlatanice; não é mais rebaixado pelos chartatães do que a verdadeira ciência médica pelos doutores de rua; encontra por toda parte, mas sobretudo entre as pessoas esclarecidas, zelosos e numerosos defensores que sabem afrontar a zombaria. O caso de Lyon, longe de prejudicá-lo, não pode senão servir para a sua propagação, chamando a atenção dos indecisos sobre a realidade. Quem sabe mesmo se não foi provocado com esse objetivo por uma força superior? Quanto aos adversários, mesmo assim, que se lhes consinta que riam, mas não caluniem; alguns anos ainda e veremos quem terá a última palavra. Se é lógico duvidar daquilo que não se conhece, é sempre imprudente contestar as idéias novas, que podem, cedo ou tarde, dar um humilhante desmentido à nossa perspicácia: a história aí está para prová-lo. Aqueles que, em seu orgulho, se apiedam dos adeptos da Doutrina Espírita, estarão, pois, tão alto como crêem? Esses Espíritos, dos quais zombam, prescrevem fazer o bem e mandam querer mesmo aos inimigos; eles nos dizem que se rebaixa pelo desejo do mal. Quem é, pois, o mais elevado, aquele que procura fazer o mal ou aquele que não guarda no seu coração nem ódio, nem rancor?

O senhor Home está de retorno a Paris, há pouco tempo; mas deverá partir brevemente para a Escócia e, de lá, dirigir-se a São Petersburgo.

Variedades - O falso Home de Lyon

Confissões de Luis XI – sua morte

Revista Espírita, maio de 1858

(Extrato do manuscrito ditado por Luís XI à senhorita Ermance Dufaux.)

Nota. – Rogamos aos nossos leitores o obséquio de se reportarem às observações que fizemos, sobre essas comunicações notáveis, em nosso artigo do mês de março último.

Não me acreditava com bastante firmeza para ouvir pronunciar a palavra morte; tinha recomendado, com freqüência, aos meus oficiais, dizerem-me somente, quando me vissem em perigo: “Falai pouco,” e eu já saberia o que isso significava. Quando não havia mais esperanças, Olivier le Daim me diz duramente, na presença de François de Paule e de Coittier.

– Senhor, é preciso que cumpramos nosso dever. Não tende mais esperança nesse santo homem nem em nenhum outro, porque acabou-se para vós; pensai em vossa consciência, não há mais remédio.

Diante dessas palavras cruéis, toda uma revolução se operou em mim; não era mais o mesmo homem, e me espantava comigo. O passado se desenrolou rapidamente aos meus olhos, e as coisas me apareceram sob um aspecto novo: não sei o que de estranho se passava em mim. O duro olhar de Olivier le Daim, fixou sobre o meu rosto, parecia interrogarme; para me subtrair a esse olhar friamente inquisidor, respondi com aparente tranqüilidade:

– Espero que Deus me ajudará; talvez não esteja, acidentalmente, tão doente como pensais.

Ditei minhas últimas vontades e enviei, para junto do jovem rei, aqueles que ainda me cercavam. Achava-me só com o meu confessor, François de Paule, le Daim e Coittier. François me fez uma tocante exortação; a cada uma das suas palavras, parecia-me que meus vícios se apagavam e que a natureza retomava seu curso; achava-me aliviado e começava a recobrar um pouco de esperança na clemência de Deus.

Recebi os últimos sacramentos com uma piedade firme e resignada. Repetia a cada instante: “Nossa Senhora de Embrun, minha senhora, ajudai-me!”

Terça-feira, 30 de agosto, pelas sete horas da noite, caí em nova fraqueza; todos os que estavam presentes, acreditando-me morto, se retiraram. Olivier le Daim e Coittier, que se sentiam encarregados da execração pública, permaneceram junto de meu leito, não tendo outro amparo.

Pouco depois, recobrei inteiro conhecimento. Sentei-me na cama e olhei ao meu redor; ninguém da minha família ali estava; nenhuma mão amiga procurava a minha, nesse momento supremo, para abrandar a minha agonia através de um último aperto. A essa hora, talvez, meus filhos se alegrassem, ao passo que seu pai morria. Ninguém pensa que o culpado poderia ter, ainda, um coração que compreendesse o seu. Procurei ouvir um soluço abafado, e não ouvi senão as gargalhadas dos dois miseráveis que estavam perto de mim.

Vi, em um canto do quarto, minha galga favorita que morria de velhice; meu coração vibrou de alegria, tinha um amigo, um ser que me amava.

Fiz-lhe sinal com a mão; a galga se arrastou com esforço até o pé de minha cama e veio lamber minha mão agonizante. Olivier percebeu esse movimento; ergueu-se bruscamente blasfemando e bateu na infeliz cadela com um bastão, até que expirasse; ela, minha única amiga, me lançou, morrendo, um longo e doloroso olhar.

Olivier me empurrou violentamente em minha cama; deixei-me cair e entreguei a Deus minha alma culpada.

Confissões de Luis XI - sua morte

O espírito e os herdeiros

Revista Espírita, maio de 1858

Um dos nossos assinantes de Haia (Holanda), nos comunica o fato seguinte, que se passou num círculo de amigos, que se ocupavam de manifestações espíritas. Prova, acrescenta, uma vez mais, e sem nenhuma contestação possível, a existência de um elemento inteligente e invisível, agindo individualmente, diretamente conosco.

Os Espíritos se anunciam pelos movimentos de uma pesada mesa e pancadas. Pergunta-se seus nomes: são os falecidos senhor e senhora G…, muito ricos durante esta vida; o marido, de quem vinha a fortuna, não tendo filhos, deserdou os parentes próximos em favor da família de sua mulher, falecida pouco tempo antes dele. Entre as nove pessoas presentes à sessão, encontravam-se duas senhoras deserdadas, assim como o marido de uma delas.

O senhor G… sempre foi um pobre-diabo e o mais humilde servidor de sua mulher. Depois da morte desta, sua família se instala em sua casa para cuidar dele. O testamento foi feito com a certidão de um médico, declarando que o moribundo gozava da plenitude das suas faculdades.

O marido da senhora deserdada, que designaremos sob a inicial de R…, pede a palavra nestes termos: “Como! ousais vos apresentar aqui depois do escandaloso testamento que fizestes!”. Depois, exaltando-se mais e mais, acaba por lhe dizer injúrias. Então a mesa dá um salto e lança a lâmpada, com força, na cabeça do interlocutor. Este pede-lhe desculpas pelo seu primeiro movimento de cólera, e lhe pergunta o que veio fazer ali. – R. Viemos vos dar conta do motivo da nossa conduta. (As respostas se deram por pancadas indicando as letras do alfabeto.)

O senhor R…, conhecendo a inépcia do marido, diz-lhe bruscamente que não devia senão se retirar, e que não escutaria senão a sua mulher.

O Espírito desta diz, então, que a senhora R… e sua irmã eram bastante ricas para privarem se de sua parte na herança; que outros eram maus, e que outros, enfim, deviam suportar essa prova; que, por essas razões, essa fortuna convinha melhor à sua própria família.

O senhor R… não se contenta com essas explicações e desabafa a sua cólera em censuras injuriosas. A mesa, então, se agita violentamente, empina, dá grandes pancadas no assoalho, e tomba ainda uma vez a lâmpada sobre o senhor R… Depois de se fazer calma, o Espírito trata de persuadir que, desde a sua morte, havia sabido que o testamento foi ditado por um Espírito superior. O senhor R…, e suas damas, não querendo prosseguir numa contestação inútil, lhe oferecem um perdão sincero. Logo a mesa se ergue do lado do senhor R…., e pousa docemente e como com aperto contra a sua cadeira; as duas senhoras recebem o mesmo sinal de gratidão; a mesa tinha uma vibração muito pronunciada. O bom sentido estando restabelecido, o Espírito lamenta a herdeira atual, dizendo que acabaria por enlouquecer.

O senhor R… censura-o também, mas afetuosamente, por não ter feito o bem, durante a sua vida, com uma fortuna tão grande, acrescentando que não era lamentado por ninguém. “Sim, respondeu o Espírito, há uma pobre viúva, morando na rua… que pensa ainda, freqüentemente, em mim, porque lhe dei algumas vezes alimentos, roupas e aquecimento.”

Não tendo o Espírito dito o nome dessa pobre mulher, um dos assistentes foi à sua procura e a encontra no endereço indicado; e o que não é menos digno de nota, é que depois da morte do senhor G…, ela havia mudado de domicílio; foi o último, o que foi indicado pelo Espírito.

espírito e os herdeiros

Conversas familiares de alémtúmulo – Mozart

Revista Espírita, maio de 1858

Um dos nossos assinantes nos comunica as duas conversas seguintes que ocorreram com o Espírito de Mozart. Não sabemos nem onde e nem quando essas conversas tiveram lugar; não conhecemos nem os interrogadores, nem o médium; nelas somos, pois, completamente estranhos. Apesar disso, notar-se-á a concordância perfeita que existe entre as respostas obtidas e as que foram dadas por outros Espíritos, sobre diversos pontos capitais da Doutrina, em circunstâncias diferentes, seja a nós, seja a outras pessoas, e que narramos em nossos fascículos precedentes, e em O Livro dos Espíritos. Chamamos, sobre essa semelhança, toda a atenção dos nossos leitores, que dela tirarão a conclusão que julgarem a propósito. Aqueles, pois, que poderiam ainda pensar que as respostas às nossas perguntas podem ter o reflexo de nossa opinião pessoal, verão por aí se, nessa ocasião, pudemos exercer uma influência qualquer. Felicitamos as pessoas que fizeram essas entrevistas pela maneira com que as perguntas estão postas. Apesar de certas faltas que decorrem da inexperiência dos interlocutores, em geral, estão formuladas com ordem, clareza e precisão, e não se afastam da linha séria: é uma condição essencial para se obter boas comunicações. Os Espíritos elevados vão às pessoas sérias que querem se esclarecer de boa-fé; os Espíritos levianos se divertem com as pessoas frívolas.

PRIMEIRA CONVERSA

1. Em nome de Deus, Espírito de Mozart, estás aqui? – R. Sim.

2. Por que antes Mozart do que um outro Espírito? – R. Foi a mim que haveis evocado: eu vim.

3. O que é um médium? – R. O agente que une o meu Espírito ao teu.

4. Quais são as modificações, tanto fisiológicas quanto anímicas, que, sem o saber, o médium sofre quando entra em ação intermediária? – R. Seu corpo não sente nada, mas seu Espírito, em parte desligado da matéria, está em comunicação com o meu e me une a vós.

5. O que se passa nele, nesse momento? – R. Nada para o corpo; mas uma parte do seu Espírito é atraída para mim; faço sua mão agir pelo poder que meu Espírito exerce sobre ele.

6. Assim, o indivíduo médium entra, então, em comunicação com uma individualidade espiritual outra que a sua? – R. Certamente; também tu, sem seres médium, estás em relação comigo.

7. Quais são os elementos que concorrem para a produção desse fenômeno? – R. Atração dos Espíritos para instruírem os homens; leis de eletricidade física.

8. Quais são as condições indispensáveis? – R. É uma faculdade concedida por Deus.

9. Qual é o princípio determinante? – R. Não posso dize-lo.

10. Poderias dele nos revelar as leis? – R. Não, não, não no presente; mais tarde sabereis tudo.

11. Em quais termos positivos poder-se-ia enunciar a fórmula sintética desse maravilhoso fenômeno? – R. Leis desconhecidas, que não poderiam ser compreendidas por vós.

12. O médium poderia se pôr em relação com a alma de um vivo, e em que condições? – R. Facilmente, se o vivente dorme (1- (1) Se uma pessoa viva for evocada no estado de vigília, pode adormecer no momento da evocação, ou pelo menos experimentar um entorpecimento e uma suspensão das faculdades sensitivas; mas, muito freqüentemente, a evocação não dá resultado, sobretudo se não for feita com uma intenção séria e benevolente.).

13. Que entendes pela palavra alma? – R. A centelha divina.

14. E por Espírito? – R. O Espírito e a alma são uma mesma coisa.

15. A alma, enquanto Espírito imortal, tem consciência do ato da morte, e consciência dela mesma, ou do eu, imediatamente depois da morte? – R. A alma nada sabe do passado e não conhece o futuro senão depois da morte do corpo; então vê sua vida passada e suas últimas provas; escolhe a sua nova expiação, por uma vida nova, e a prova que vai suportar; também não deve se lamentar do que se sofre na Terra, e deve suportá-la com coragem.

16. A alma se encontra, depois da morte, desligada de todo elemento, de todo laço terrestre? – R. De todo elemento, não; ela tem ainda um fluido que lhe é próprio, que haure na atmosfera do seu planeta, e que representa a aparência da sua última encarnação; os laços terrestres não lhe são mais nada.

17. Ela sabe de onde vem e para onde vai? – R. A questão décima-quinta responde a isso.

18. Não leva nada com ela deste mundo? – R. Nada senão a lembrança de suas boas ações, o arrependimento de suas faltas, e o desejo de ir para um mundo melhor.

19. Ela abarca, de um golpe de vista retrospectivo, o conjunto da sua vida passada? – R. Sim, para servir à sua vida futura.

20. Ela entrevê o objetivo da vida terrestre e a significação, o sentido dessa vida, assim como o curso que lhe fornecemos com respeito à vida futura? – R. Sim; ela compreende a necessidade de depuração para chegar ao infinito; quer se purificar para alcançar mundos bem-aventurados. Sou feliz; mas não estou eu já nos mundos onde se goza da visão de Deus!

21. Existe na vida futura uma hierarquia de Espíritos, e qual é sua lei? – R. Sim: é o grau de depuração que a define; a bondade, as virtudes são os títulos de glória.

22. É a inteligência, enquanto força progressiva, que lhe determina a marcha ascendente? – R. Sobretudo as virtudes: o amor ao próximo acima de tudo.

23. Uma hierarquia de Espíritos fará supor uma outra de residência; esta última existe e de que forma? – R. A inteligência, dom de Deus, é sempre a recompensa das virtudes: caridade, amor ao próximo. Os Espíritos habitam diferentes planetas, segundo o seu grau de perfeição: neles gozam de mais ou menos felicidade.

24. O que é preciso entender por Espíritos superiores? – R. Os Espíritos purificados.

25. Nosso globo terrestre é o primeiro de seus degraus, o ponto de partida, ou viemos de mais baixo? – R. Há dois globos antes do vosso, que é um dos menos perfeitos.

26. Qual é o mundo que habitas? És feliz? – R. Júpiter. Nele gozo de uma grande calma; amo todos aqueles que me cercam; não temos mais ódio.

27. Se tens lembrança da vida terrestre, deves lembrar dos esposos A…, de Viena; haveis revisto todos os dois depois da morte, em qual mundo e em quais condições? – R. Não sei onde estão; não posso dizer-te. Um é mais feliz do que o outro. Por que me falas deles?

28. Podes, por uma única palavra indicativa de um fato capital da vida, que não podes haver esquecido, fornecer-me uma prova certa dessa lembrança. Eu te suplico dizer essa palavra – R. Amor; reconhecimento.

SEGUNDA CONVERSA

O interlocutor não é o mesmo. Julga-se, pela natureza da conversação, tratar-se de um artista músico, feliz por conversar com um mestre. Após diversas questões que cremos inútil relatar, Mozart diz:

1. Acabemos com as perguntas de G…: falarei contigo; dir-te-ei o que entendemos por melodia em nosso mundo. Por que não me evocaste mais cedo? Eu teria respondido.

2. O que é a melodia? – R. Freqüentemente, é para ti uma lembrança da vida passada; teu Espírito se lembra do que entreviu num mundo melhor. No planeta onde estou, Júpiter, a melodia está por toda parte, no murmúrio da água, o ruído das folhas, o canto do vento; as flores murmuram e cantam; tudo emite sons melodiosos. Sé bom; ganha esse planeta pelas tuas virtudes; escolheste bem cantando Deus: a música religiosa ajuda a elevação da alma. Quanto gostaria poder vos inspirar o desejo de ver esse mundo onde se é tão feliz! está pleno de caridade; tudo ali é belo! A Natureza tão admirável! Tudo vos inspira o desejo de estar com Deus. Coragem! Coragem! Crede bem em minha comunicação espírita: sou bem eu que lá estou; alegro-me em poder dizer-vos o que experimentamos; que eu possa vos inspirar bastante o amor ao bem para vos tornar dignos dessa recompensa, que nada são perto das outras às quais aspiro!

3. Nossa música é a mesma nos outros planetas? – R. Não; nenhuma música pode vos dar a idéia da música que temos ali; é divina! Ó felicidade! merece gozar de semelhantes harmonias: luta; coragem! Não temos instrumentos; são as plantas, os pássaros que são os coristas; o pensamento compõe e os ouvintes desfrutam sem audição material, sem o recurso da palavra, e isso a uma distância incomensurável. Nos mundos superiores isso é ainda mais sublime.

4. Qual é a duração da vida de um Espírito encarnado em outro planeta, que não seja o nosso? – R. Curta nos planetas inferiores; mais longa nos mundos como aquele onde tenho a felicidade de estar; em média, em Júpiter, ela é de trezentos a quinhentos anos.

5. Há uma grande vantagem em voltar a habitar na Terra? – R. Não, a menos que seja em missão; então, se avança.

6. Não se seria mais feliz permanecendo Espírito? – R. Não, não! estacionar-se-ia; pede-se ao ser reencarnado para avançar para Deus.

7. É a primeira vez que estou na Terra? – R. Não; mas não posso falar-te do passado de teu Espírito.

8. Poderia ver-te em sonho? – R. Se Deus o permitir, far-te-ei ver minha casa em sonho, e dela te recordarás. (ver abaixo)

9. Onde estás aqui? – R. Entre ti e tua filha, eu vos vejo; estou sob a forma que tinha quando vivo.

10. Eu poderia ver-te? – R. Sim; crê e verás. Se tivesses maior fé, ser-nos-ia permitido dizer o porquê; tua própria profissão é um laço entre nós.

11. Como entraste aqui? – R. O Espírito atravessa tudo.

12. Estás ainda bem longe de Deus? – R. Ó! sim!

13. Compreendes melhor do que nós o que é a eternidade? -R. Sim, sim, não podeis compreendê-la tendo um corpo.

14. Que entendes pelo Universo? Teve começo e terá um fim? – R. O Universo, segundo vós, é vossa Terra! Insensatos! O Universo não teve começo e não terá fim; pensai que é a obra inteira de Deus; o Universo é o Infinito.

15. O que se deve fazer para ficar calmo? – R. Não te inquietes tanto pelo teu corpo; terás o Espírito perturbado; resiste a essa tendência

16. O que é essa perturbação? – R. Temes a morte.

17. Que fazer para não temê-la? – R. Crê em Deus; crê sobretudo, que Deus não arrebata sempre um pai útil à sua família.

18. Como chegar a essa calma? – R. O querer.

19. Onde haurir essa vontade? – R. Distrai teu pensamento disso pelo trabalho.

20. Que devo fazer para aperfeiçoar meu talento? – R. Podes me evocar; obtive a permissão de te inspirar.

21. Isso quando trabalhar? – R. Certamente! Quando quiseres trabalhar, algumas vezes estarei perto de ti.

22. Ouvirás minha obra? (uma obra musical do interrogador) -R. És o primeiro músico que me evoca; venho a ti com prazer e escuto as tuas obras.

23. Como ocorre que nunca foste evocado? – R. Fui evocado, mas não por músicos.

24. Por quem? – R. Por várias damas e amadores, em Marseille.

25. Por que a Ave…me toca até às lágrimas? – R. Teu Espírito se desliga e se junta ao meu e ao de Per-golèse, que me inspirou essa obra, mas esqueci esse pedaço.

26. Como podes esquecer a música composta por ti? – R. A que existe aqui é tão bela! Como lembrar-se daquilo que era todo matéria?

27. Vês minha mãe? – R. Ela está encarnada na Terra.

28. Em que corpo? – R. Disso nada posso dizer.

29. E meu pai? – R. Está errante para ajudar ao bem; fará tua mãe progredir; estarão reencarnados juntos, e serão felizes.

30. Vem me ver? – R. Freqüentemente; tu lhe deves os movimentos caridosos.

31. Foi minha mãe quem pediu para estar reencarnada? – R. Sim; disso tinha um grande desejo, para subir por uma nova prova e entrar num mundo superior à Terra; ela já deu um passo imenso.

32. Que queres dizer com isso? – R. Ela resistiu a todas as tentações; sua vida na Terra foi sublime em comparação com o seu passado, que era o de um Espírito inferior; também subiu vários degraus.

33. Tinha, pois, escolhido uma prova acima das suas forças? -R. Sim, é isso.

34. Quando sonho que a vejo, é ela mesma que vejo? – R. Sim, sim.

35. Se tivesse evocado Bichat no dia da ereção de sua estátua, teria respondido? Estava lá? – R. Estava, e eu também.

36. Porque ali estavas? – R. Com vários outros Espíritos que se alegram com o bem, e que ficam felizes em ver que glorificais aqueles que se ocupam com a Humanidade sofredora.

37. Obrigado, Mozart; adeus. – R. Crede, crede que ali estou… Sou feliz… Crede que há mundos acima do vosso… Crede em Deus… Evocai-me mais freqüentemente, e em companhia de músicos; estarei feliz por vos instruir e contribuir para o vosso adiantamento, e de vos ajudar a subir até Deus. Evocai-me; adeus.

Conversas familiares de alémtúmulo – Mozart

As metades eternas

,Revista Espírita, maio de 1858

Extraímos a passagem seguinte de uma carta de um dos nossos assinantes.

“…. Perdi, há alguns anos, uma esposa boa e virtuosa, e, apesar dos seis filhos que me deixou, encontrava-me em um isolamento completo, quando ouvi falar das manifestações espíritas. Logo me encontrei no meio de um pequeno círculo de bons amigos ocupando-se, cada noite, desse objeto. Aprendi, então, nas comunicações que obtivemos, que a verdadeira vida não é sobre a Terra, mas no mundo dos Espíritos; que minha Clémence ali se encontrava feliz, e que, como os outros, ela trabalhava pela felicidade daqueles que havia conhecido neste mundo. Ora, eis o ponto sobre o qual desejo ardentemente ser esclarecido por vós.

“Disse uma noite à minha Clémence: Minha cara amiga, por que, apesar de todo o nosso amor, nos ocorria de nem sempre ver a mesma coisa nas diferentes circunstâncias da nossa vida em comum, e por que estávamos sempre forçados a nos fazer concessões mútuas para vivermos em boa harmonia?

“Ela me respondeu isto: Meu amigo, éramos bravas e honestas pessoas; vivemos em conjunto, o que se pode dizer o melhor possível sobre essa Terra de provas, mas não éramos nossas metades eternas. Essas uniões são raras sobre a Terra; são encontradas, entretanto, mas são um grande favor de Deus; os que têm essa felicidade, sentem gozos que te são desconhecidos.

“Podes me dizer – repliquei -, se tu vês a tua metade eterna? -Sim, disse ela, é um pobre diabo que vive na Ásia; não poderá estar reunida a mim, senão em 175 anos (segundo a vossa maneira de contar). – Estareis reunidos na Terra ou em um outro mundo? – Na Terra. Mas escuta: não posso te descrever bem a felicidade dos seres assim reunidos; vou pedir a Héloise e Abailard consentirem te informar. – Então, senhor, esses dois seres felizes vieram nos falar de sua felicidade inefável. “Por nossa vontade, disseram, dois não fazem senão um; viajamos nos espaços; gozamos de tudo; nos amamos com um amor sem fim, acima do qual não pode haver senão o amor de Deus e dos seres perfeitos. Vossas maiores alegrias não valem um único dos nossos olhares, um único dos nossos apertos de mão.”

“O pensamento das metades eternas me deleita. Parece-me que Deus, criando a Humanidade, a fez dupla, e que disse, em separando as duas metades de uma mesma alma: Ide para os mundos e procurai as encarnações. Se bem o fizerdes, a viagem será curta, e permitirei vos reunirdes; se for de outro modo, os séculos se passarão antes que gozeis dessa felicidade. Tal é, me parece, a causa primeira do movimento instintivo que leva a Humanidade a procurar a felicidade; felicidade que não se compreende e que não se dá o tempo de compreender.

“Desejo ardentemente, senhor, ser esclarecido sobre essa teoria das metades eternas, e ficaria feliz em encontrar uma explicação a esse respeito em um dos vossos próximos números…”

Abailard e Héloise, que interrogamos sobre esse ponto, nos deram as respostas seguintes:

P. As almas foram criadas duplas? – R. Se tivessem sido criadas duplas, as simples seriam imperfeitas.

P. É possível que duas almas possam se reunir na eternidade e formarem um todo? – R. Não.

P. Tu e tua Héloise formais, desde a origem, duas almas bem distintas? – R. Sim.

P. Formais ainda, neste momento, duas almas distintas? – R. Sim, mas sempre unidas.

P. Todos os homens se encontram nas mesmas condições? -R. Segundo sejam mais ou menos perfeitos.

P. Todas as almas estão destinadas ase unirem, um dia, com uma outra alma? – R. Cada Espírito tem uma tendência a procurar um outro Espírito que lhe seja conforme; chamas isso de simpatia.

P. Há, nessa união, uma condição de sexo? – R. As almas não têm sexo.
Tanto para satisfazer o desejo do nosso assinante quanto para a nossa própria instrução, dirigimos as questões seguintes ao Espírito de São Luís.

1. As almas que devem se unir, estão predestinadas a essa união desde a sua origem, e cada um de nós tem, em alguma parte do Universo, sua metade eterna à qual estará, um dia, fatalmente reunido? – R. Não existe união particular e fatal entre duas almas. A união existe entre todos os Espíritos, mas em graus diferentes, segundo a categoria que ocupam, quer dizer, segundo a perfeição que adquiriram: quanto mais são perfeitos, mais são unidos. Da discórdia nascem todos os males dos humanos; da concórdia resulta a felicidade completa.

2. Em qual sentido se deve entender a palavra metade, da qual certos Espíritos, freqüentemente, se servem para designarem os Espíritos simpáticos? – R. A expressão é inexata; se um Espírito fosse a metade de outro, separado deste, seria incompleto.

3. Dois Espíritos perfeitamente simpáticos, uma vez reunidos, o são por toda a eternidade, ou podem se separar e se unir a outros Espíritos? – R. Todos os Espíritos estão unidos entre si; falo daqueles que atingiram a perfeição. Nas esferas inferiores, quando um Espírito se eleva, não é mais simpático àqueles que deixou.

4. Dois Espíritos simpáticos são o complemento um do outro, ou essa simpatia resulta de uma identidade perfeita? – R. A simpatia que atrai um Espírito para um outro, é o resultado da perfeita concordância de seus pendores, de seus instintos; se um devesse completar o outro, perderia sua individualidade.

5. A identidade necessária para a simpatia perfeita, não consiste senão na semelhança de pensamentos e de sentimentos, ou bem ainda na uniformidade de conhecimentos adquiridos? – R. Na igualdade dos graus de elevação.

6. Os Espíritos que não são simpáticos hoje, podem vir a sê-lo mais tarde? – R. Sim, todos o serão. Assim, o Espírito que está hoje em tal esfera inferior, em se aperfeiçoando, alcançará a esfera onde reside tal outro. Seu reencontro ocorrerá mais prontamente se o Espírito mais elevado, suportando mal as provas às quais se submeteu, se demorou no mesmo estado.

7. Dois Espíritos simpáticos podem cessar de o serem? – R. Certamente, se um for preguiçoso.

Essas respostas resolvem perfeitamente a questão. A teoria das metades eternas é uma figura que pinta a união de dois seres simpáticos; é uma expressão usada mesmo na linguagem vulgar, em falando de dois esposos, e que não é preciso prender à letra; os Espíritos que dela se serviram não pertencem, seguramente, à mais elevada ordem; a esfera das suas idéias é, necessariamente, limitada, e puderam tomar seu pensamento pelos termos dos quais se serviam durante sua vida corpórea. É preciso, pois, rejeitar essa idéia de que dois Espíritos, criados um para o outro, devem um dia, fatalmente, se reunir na eternidade, depois de estarem separados por um lapso de tempo mais ou menos longo.

as metades eternas