Carta do senhor Marius sobre Júpiter

Bordeaux, 24 de junho de 1858.

Senhor e caro confrade em Espiritismo, Permitireis, sem dúvida, a um de vossos assinantes e um de vossos leitores mais atentos, de vos dar esse título, porque essa admirável Doutrina deve ser um laço fraternal entre todos aqueles que a compreendem e a praticam.

Em um dos vossos números precedentes, falastes de desenhos notáveis, feitos pelo senhor Victorien Sardou, e que representam habitações do planeta Júpiter. O quadro que dele fizestes, sem dúvida nos dá, como a muitos outros, o desejo de conhecê-los; teríeis a bondade de nos dizer se esse Senhor tem a intenção de publicá-los? Não duvido de que tenham um grande sucesso, tendo em vista a extensão que tomam, cada dia, as crenças espíritas. Seria o complemento necessário do quadro, tão sedutor, que os Espíritos deram desse mundo feliz.

Eu vos direi, a esse respeito, meu caro Senhor, que há quase dezoito meses evocamos, em nosso pequeno círculo íntimo, um antigo magistrado, parente nosso, falecido em 1756, que foi durante sua vida um modelo de todas as virtudes, e um Espírito muito superior, embora não tendo lugar na história. Disse-nos estar encarnado em Júpiter, e nos deu um ensinamento moral de uma sabedoria admirável, e em todos os pontos de conformidade com aquele que encerra vosso tão precioso O Livro dos Espíritos. Naturalmente, tivemos a curiosidade de lhe pedir algumas notícias sobre o estado do mundo que ele habita, o que fez com extrema complacência. Ora, julgai a nossa surpresa e a nossa alegria, quando lemos, na vossa Revista, uma descrição inteiramente idêntica desse planeta, pelo menos nas generalidades, porque não colocamos as questões tão longe quanto vós: tudo nela está conforme, no físico e no moral, e até nas condições dos animais. Mencionou até habitações aéreas, das quais não falais.

Como havia certas coisas que tínhamos dificuldade em compreender, nosso parente acrescentou estas palavras notáveis: “Não há de espantoso senão que não compreendeis as coisas para as quais os vossos sentidos não foram feitos; mas, à medida que avançardes na ciência, compreendê-las-eis melhor pelo pensamento, e cessarão de vos parecer extraordinárias. Não está longe o tempo no qual recebereis, sobre esse ponto, os esclarecimentos mais completos. Os Espíritos estão encarregados de vos instruir nisso, a fim de vos dar um objetivo, e vos impelir ao bem.” Lendo vossa descrição e o anúncio dos desenhos dos quais falais, dissemos naturalmente que esse tempo está chegado.

Os incrédulos criticarão, sem dúvida, semelhante paraíso de Espíritos, como criticam tudo, mesmo a imortalidade, mesmo as coisas mais santas. Sei bem que nada prova, materialmente, a verdade dessa descrição; mas, para todos aqueles que crêem na existência e nas revelações dos Espíritos, essa coincidência não foi feita para fazer refletir?

Nós fazemos uma idéia do país que jamais vimos pela narração dos viajantes, quando há coincidências entre eles: por que não ocorreria o mesmo com respeito aos Espíritos?

Haveria, no estado sob o qual nos descrevem o mundo de Júpiter, alguma coisa que repugne à razão? Não; tudo está de acordo com a idéia que nos dão de existências mais perfeitas; diria mais: com a Escritura, o que um dia me empenharei em demonstrar; de minha parte isso me parece tão lógico, tão consolador, que me seria penoso renunciar à esperança de habitar esse mundo afortunado onde não há maus, nem invejosos, nem inimigos, nem egoístas, nem hipócritas; por isso, todos os meus esforços tendem a merecer ir para lá.

Quando, em nosso pequeno círculo, algum de nós parece ter pensamentos muito materiais, lhes dizemos: cuidado, não ireis para Júpiter, e ficamos felizes em pensar que esse futuro nos está reservado, senão na primeira etapa, pelo menos em uma das seguintes. Obrigado, pois, a vós, meu caro irmão, por nos ter aberto esse novo caminho de esperança.

Uma vez que obtivemos revelações tão preciosas sobre esse mundo, devereis tê-las, igualmente, sobre os outros que compõem o nosso sistema planetário. Vossa intenção é de publicá-las? Isso faria um conjunto dos mais interessantes. Olhando os astros, comprazer-seia em sonhar nos seres tão variados que os povoam; o espaço nos pareceria menos vazio. Como pôde vir, no pensamento de homens crentes no poder e na sabedoria de Deus, que esses milhões de globos sejam corpos inertes e sem vida? Que estamos sozinhos neste pequeno grão de areia que chamamos a Terra? Digo que é impiedade. Semelhante idéia me entristece; se assim fora, me pareceria estar num deserto.

Inteiramente vosso de coração,

mariusm…

Empregado aposentado.

O título que o nosso honrado assinante quis nos dar é muito lisonjeador, para que não lhe sejamos muito reconhecido por haver nos crer digno dele. O Espiritismo, com efeito, é um laço fraternal que deve conduzir à prática da caridade cristã todos aqueles que o compreendam em sua essência, porque tende a fazer desaparecer os sentimentos de ódio, de inveja, de ciúme que dividem os homens; mas essa fraternidade não é a de uma seita; para ser segundo os divinos preceitos do Cristo, ela deve abraçar a Humanidade toda, porque todos os homens são os filhos de Deus; se alguns estão afastados, ele manda lamentá-los; proíbe odiá-los. Amai-vos uns aos outros, disse Jesus; não disse: Amai aqueles que pensam como vós; por isso, quando os nossos adversários nos atiram pedras, não devemos nunca lhes devolver as maldições: esses princípios serão sempre daqueles que os professam, de homens que não procurarão nunca na desordem e no mal do seu próximo, a satisfação de seus interesses ou de suas paixões.

Os sentimentos de nosso honroso correspondente estão marcados de muita elevação, porque estamos persuadidos de que ele entende, tanto como deve ser, a fraternidade na mais larga acepção.

Estamos felizes com a comunicação que consentiu nos fazer com respeito a Júpiter. A coincidência que nos assinala não é única, como se pôde ver no artigo sobre o assunto. Ora, qualquer que seja a opinião que se possa dele formar, não deixa de ser um assunto digno de observação. O mundo espírita está cheio de mistérios que não se saberia estudar com muito cuidado. As conseqüências morais que dele deduz nosso correspondente estão marcadas ao lado de uma lógica que não escapará a ninguém.

No que concerne às publicações dos desenhos, o mesmo desejo nos foi manifestado por vários de nossos assinantes; mas a complicação é tal que a reprodução, pela gravura, teria provocado despesas excessivas e inabordáveis; os próprios Espíritos disseram que o momento de publicá-los ainda não havia chegado, provavelmente por esse motivo. Hoje, essa dificuldade está felizmente afastada. O senhor Victorien Sardou, de médium desenhista (sem saber desenhar) tomou-se médium gravador sem ter jamais tido um buril em sua vida. Faz, agora, seus desenhos diretamente sobre o cobre, o que permitirá reproduzi-los sem o concurso de nenhum artista estranho. Com a questão financeira assim simplificada, poderemos dele dar uma mostra notável, no nosso próximo número, acompanhada de uma descrição técnica, que ele deseja se encarregar de redigir, segundo os documentos que lhe forneceram os Espíritos. Esses desenhos são muito numerosos, e seu conjunto formará, mais tarde, um verdadeiro Atlas. Conhecemos um outro médium desenhista a quem os Espíritos fizeram traçar outros não menos curiosos sobre um outro mundo. Quanto ao esplendor de diferentes globos conhecidos, fokios dado sobre vários notícias gerais e sobre alguns somente notícias detalhadas; mas não estamos ainda fixados quanto à época em que será útil publicá-los.

Allan Kardec

Carta do senhor Marius sobre Júpiter

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Correspondência

Revista Espírita, julho de 1858

Carta do senhor Jobard, de Bruxelles

Bruxelles, 15 de junho de 1858.

Meu caro senhor Kardec,

Recebi e li com avidez vossa Revista Espírita, e recomendei aos meus amigos, não a simples leitura, mas o estudo aprofundado de vosso O Livro dos Espíritos. Muito lamento por minhas preocupações físicas não me deixarem tempo para os estudos metafísicos; mas eu as empurrei bastante longe por sentir o quanto estás perto da verdade absoluta, sobretudo quando vejo a coincidência perfeita que existe entre as respostas que me foram dadas e as vossas. Mesmo aqueles que vos atribuem pessoalmente a redação dos vossos escritos, estão estupefatos com a profundidade e a lógica que neles encontram. Teríeis vos elevado, de repente, ao nível de Sócrates e de Platão pela moral e a filosofia estética; quanto a mim, que conheceis, o fenômeno e vossa lealdade, não duvido da exatidão das explicações que vos são dadas, e abjuro todas as idéias que publiquei a esse respeito, quando não acreditava nisso ver, com o senhor Babinet, senão fenômenos físicos, ou charlatanice indigna da atenção dos sábios.

Não vos desencorajeis, tanto quanto eu, com a indiferença de vossos contemporâneos; o que está escrito, está escrito; o que foi semeado germinará. A idéia de que a vida não é senão uma purificação de almas, uma prova e uma expiação, é grande, consoladora, progressista e natural. Aqueles que a ela se ligam são felizes em todas as posições; em lugar de se lamentarem pelos males físicos e morais que os oprimem, devem com eles se alegrarem, ou ao menos suportá-los com uma resignação cristã.

Para ser feliz, fuja do prazer:

do filósofo é a divisa;

O esforço que se faz para agarrá-lo,

Custa mais do que a mercadoria;

Mas ele vem a nós cedo ou tarde,

Sob a forma de uma surpresa;

E um terno, no jogo do acaso,

Que vale dez mil vezes a aposta.

Conto logo atravessar Paris, onde tenho tantos amigos para ver e tantas coisas a fazer; mas deixarei tudo para tentar ir vos apertar a mão.

JOBARD Diretor do Museu Real da Indústria.

Uma adesão tão limpa e tão franca, da parte de um homem do valor do senhor Jobard é, sem contradita, uma preciosa conquista à qual aplaudirão todos os partidários da Doutrina Espírita; todavia, na nossa opinião, aderir é pouca coisa; mas reconhecer, abertamente, que se enganou, abjurar idéias anteriores que se publicaram, e isso sem pressão e sem interesse, unicamente porque a verdade abriu caminho, está aí o que se pode chamar a verdadeira coragem de sua opinião, sobretudo quando se tem um nome popular. Agir assim é próprio dos grandes caracteres, os únicos que sabem se colocar acima dos preconceitos. Todos os homens podem se enganar; mas há grandeza em reconhecer os erros, ao passo que não há senão pequenez em perseverar numa opinião que se sabe falsa, unicamente para se dar, aos olhos do vulgo, um prestígio de infalibilidade; esse prestígio não poderia enganar a posteridade, que extirpa, sem piedade, todos os ouropéis do orgulho; só ela cria as reputações; só ela tem o direito de inscrever, em seu templo: Este era, verdadeiramente, grande de espírito e de coração. Quantas vezes não escreveu também: Esse grande homem foi bem pequeno.

Os elogios contidos na carta do senhor Jobard nos teriam impedido de publicá-la se fossem dirigidos a nós pessoalmente; mas, como ele reconhece em nosso trabalho a obra dos Espíritos, dos quais não fomos senão muito modesto intérprete, todo mérito lhes pertence, e nossa modéstia nada tem a sofrer com uma comparação que não prova senão uma coisa: que esse livro não pode ter sido ditado senão por Espíritos de uma ordem superior.

Respondendo ao senhor Jobard, lhe havíamos pedido autorização para publicarmos sua carta; ao mesmo tempo, estávamos encarregados, da parte da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de lhe oferecer o titulo de membro honorário e de correspondente. Eis a resposta que achou por bem nos endereçar, e que estamos felizes em reproduzir:

Bruxelles, 22 de junho de 1858.

Meu caro colega,

Me perguntais, com espirituosas perífrases, se ousaria confessar publicamente minha crença nos Espíritos e nos Perispíritos, em vos autorizando publicarem minhas cartas, e em aceitando o título de correspondente da Academia do Espiritismo que fundastes, o que seria ter, como se disse, a coragem de sua opinião.

Estou um pouco humilhado, vos confesso, por vos ver empregar, comigo, as mesmas fórmulas e os mesmos discursos que com os tolos, quando deveis saber que toda a minha vida foi consagrada em sustentar a verdade, e em testemunhar em seu favor todas as vezes que a encontrava, seja em física, seja em metafísica. Sei que o papel do adepto das idéias novas não é sempre sem inconveniente, mesmo neste século de luzes, e que se pode ser ridicularizado por dizer que é dia em pleno meio-dia, porque o menos que se arrisca é ser tratado de louco; mas como a Terra gira e que o pleno meio-dia brilhará para cada um, será bem preciso que os incrédulos se rendam à evidência. É tão natural ouvir negar a existência dos Espíritos por aqueles que não o têm, quanto a existência da luz por aqueles que ainda estão privados dos seus raios. Pode-se comunicar com eles? Aí está toda a questão. Vede e
observai.

O tolo nega sempre o que não pode compreender,

Para ele o maravilhoso é despido de atrativo;

Não sabe nada, não quer nada aprender

Tal é, do incrédulo, um fiel retrato.

Eu me disse: O homem, evidentemente, é duplo, uma vez que a morte o desdobra; enquanto uma metade fica neste mundo, a outra vai para alguma parte conservando a sua individualidade; portanto, o Espiritismo está perfeitamente de acordo com a Escritura, com o dogma, com a religião que crê de tal modo nos Espíritos que exorciza os maus e evoca os bons: o Vade retro e o Veni Creator são as prova disso; portanto, a evocação é uma coisa séria e não uma obra diabólica, ou uma charlatanice, como pensam alguns.

Sou curioso, não nego nada; mas quero ver. Nunca disse: Trazei-me o fenômeno, corri atrás dele, em lugar de esperá-lo em minha poltrona até que viesse, segundo um hábito ilógico. Fizme simplesmente este raciocínio, há mais de 40 anos, a propósito do Magnetismo: É impossível que homens muito respeitados escrevam milhares de volumes para me fazer crer na existência de uma coisa que não exista. Depois tentei muito tempo e em vão, enquanto não tinha a fé em obter o que procurava; mas fui bem recompensado pela minha perseverança, uma vez que cheguei a produzir todos os fenômenos dos quais ouvi falar, depois parei durante quinze anos. Tendo sobrevindo as mesas, quis vê-las de coração limpo; vem hoje o Espiritismo, e ajo do mesmo modo. Quando alguma coisa de nova aparecia, corria atrás dela com o mesmo ardor que me coloco para ir ao encontro das descobertas modernas de todos os gêneros; é a curiosidade que me arrasta, e lastimo os selvagens por não serem curiosos, o que faz que permaneçam selvagens: a curiosidade é mãe da instrução. Sei bem que esse ardor para aprender tem me prejudicado muito, e que se tivesse permanecido nessa respeitável mediocridade que conduz às honras e à fortuna, delas teria tido minha boa parte; mas, há muito tempo, eu me disse que não estava senão passando nesta má hospedaria onde não vale a pena fazer sua mala; o que me fez suportar, sem dor, os insultos, as injustiças, os roubos dos quais fui uma vítima privilegiada, foi essa idéia de que não há, neste mundo, uma felicidade nem uma infelicidade que valha a pena dela se alegrar ou dela se afligir. Trabalhei, trabalhei, trabalhei, o que me deu a força para fustigar meus adversários mais encarniçados, e manter o respeito dos outros, de modo que sou agora mais feliz e mais tranqüilo do que as pessoas que me furtaram uma herança de 20 milhões. Eu os lamento, porque não invejo seu lugar no mundo dos Espíritos. Se lamento essa fortuna, não é por mim: não tenho um estômago para comer 20 milhões, mas pelo bem que isso me impediu de fazer. Que alavanca nas mãos de um homem que soubesse empregá-la utilmente! Que estímulo poderia dar às ciências e ao progresso! Aqueles que têm a fortuna, freqüentemente, ignoram as verdadeiras alegrias que poderiam se proporcionar. Sabeis o que falta à ciência espírita para se propagar com rapidez? Falta um homem rico, que a ela consagrasse a sua fortuna, por puro devotamento, sem mistura com o orgulho e o egoísmo; que fizesse as coisas grandemente, sem parcimônia nem pequenez; um tal homem, faria a sociedade avançar meio século. Por que me tiraram os meios de fazê-lo? Ele será encontrado; alguma coisa mo diz; honra a ele!

Vi evocar uma pessoa viva; ela sentiu uma síncope até o retorno do seu Espírito. Evocai o meu, para ver o que vos direi. Evocai também o doutor Mure, falecido no Cairo no dia 4 de junho; era um grande espiritista e médico homeopata. Perguntai-lhe se crê ainda nos gnomos. Certamente, ele está em Júpiter, porque foi um grande Espírito, mesmo neste mundo, um verdadeiro profeta ensinando e meu melhor amigo. Estará contente com o artigo necrológico que lhe fiz?

Eis que está bem longo, me direis; mas não é tudo rosa o ter-me por correspondente. Vou ler vosso último livro, que recebi neste instante; ao primeiro olhar rápido, não duvido que faço muito bem destruindo uma multidão de prevenções, e que tendes mostrado o lado sério da coisa. – O assunto Badet está muito interessante; dele falaremos.

Todo vosso, JOBARD.

Qualquer comentário sobre essa carta seria supérfluo; cada um apreciará a sua importância e nela encontrará, sem dificuldade, essa profundidade e essa sagacidade que, unidas aos mais nobres pensamentos, conquistaram para o autor um lugar tão honroso entre os seus contemporâneos. Pode-se honrar-se por ser louco (a maneira pela qual o entendem nossos adversários), quando se tem tais companheiros de infortúnio.

A esta anotação do senhor Jobard: “Pode-se comunicar com os Espíritos? Aí está toda a questão; vede e observai”, acrescentaremos: As comunicações com os seres do mundo invisível não são nem uma descoberta nem uma invenção do mundo moderno; elas foram praticadas desde a mais alta antigüidade, por homens que fo ram mestres em filosofia, dos quais se invoca, todos os dias, o nome como autoridade. Por que o que se passou então não poderia mais se produzir hoje?

A carta seguinte nos foi dirigida por um dos nossos assinantes; como contém ela uma parte instrutiva que pode interessar à maioria de nossos leitores, e é uma prova a mais da influência moral da Doutrina Espírita, cremos devê-la publicar integralmente, respondendo, para todo o mundo, as diversas perguntas que ela encerra.

Correspondência Carta do senhor Jobard, de Bruxelles

Uma lição de escrita por um Espírito

Revista Espírita, julho de 1858

Os Espíritos não são, em geral, mestres em caligrafia, porque a escrita por médium não brilha, comumente, pela elegância; o senhor D…, um de nossos médiuns, apresentou, sob esse aspecto, um fenômeno excepcional, o de escrever muito melhor sob a inspiração dos Espíritos, do que sob a sua própria. Sua escrita normal é péssima (da qual não se envaidece, dizendo que é a dos grandes homens); ela toma um caráter especial, muito diferente, segundo o Espírito que se comunica e se reproduz constantemente a mesma com o mesmo Espírito, mas sempre mais limpa, mais legível e mais correta; com alguns, é uma espécie de escrita inglesa, lançada com uma certa audácia. Um dos membros da Sociedade, o senhor doutor V…, teve a idéia de evocar um calígrafo distinto, como objeto de observação o ponto de vista da escrita. Ele conheceu um, chamado Bertrand, falecido há uns dois anos, com o qual tivemos, em uma outra sessão, a entrevista seguinte:

1. À fórmula de evocação, ele respondeu: Estou aqui.

2. Onde estáveis quando vos evocamos? – R. Já perto de vós.

3. Sabeis com qual objetivo principal vos pedimos para vir? -R. Não, mas desejo sabê-lo.

Nota. – O Espírito do senhor Bertrand está ainda sob a influência da matéria, assim como se podia supô-lo pela sua vida terrestre; sabe-se que esses Espíritos são menos aptos para lerem no pensamento, do que aqueles que estão mais desmaterializados.

4. Desejaríamos que consentisses em reproduzir, pelo médium, uma escrita caligráfica tendo o caráter daquela que tínheis durante vossa vida; vós o podeis? – R. Eu o posso.

Nota. – A partir dessa palavra, o médium, que não se porta segundo as regras ensinadas pelos professores de escrita, tomou, sem percebê-lo, uma pose correta tanto pelo corpo quanto pela mão: todo o resto da conversa foi escrito como o fragmento do qual reproduziremos o fac-símile. Como termo de comparação daremos acima a escrita normal do médium.

5. Lembrai-vos das circunstâncias da vossa vida terrestre? – R. Algumas.

6. Poderíeis dizer em que ano falecestes? – R. Faleci em 1856.

7. Com que idade? – R. 56 anos.

8. Que cidade habitáveis? – R. Saint-Germain.

9. Qual era o vosso gênero de vida? – R. Esforçava-me para contentar meu corpo.

10. Vós vos ocupáveis um pouco com as coisas do outro mundo? – R. Não muito.

11. Lamentai-vos por não serdes mais desse mundo? – R. Lamento não ter empregado muito bem minha existência.

12. Sois mais feliz do que sobre a Terra? – R. Não, sofro pelo bem que não fiz.

13. Que pensais do futuro que vos está reservado? – R. Penso que tenho necessidade de toda a misericórdia de Deus.

14. Quais são as vossas relações no mundo em que vos achais? – R. Relações tristes e infelizes.

15. Quando voltais à Terra, tendes lugares que freqüentais de preferência? – R. Procuro as almas que se compadecem de minhas penas e que pedem por mim.

16. Vedes as coisas da Terra tão nitidamente como quando de sua vida? – R. Nada tenho para ver; se as procurasse, seria ainda uma causa de desgostos.

17. Diz-se que, quando vivo, éreis muito pouco paciente; é verdade? – R. Era muito violento.

18. Que pensais da finalidade de nossas reuniões? – R. Bem que gostaria tê-las conhecido em minha vida; isso me teria tornado melhor.

19. Vedes os outros Espíritos além de vós? – R. Sim, mas fico muito confuso diante deles.

20. Pedimos a Deus que vos ajude em sua santa misericórdia; os sentimentos que acabais de exprimir devem vos fazer achar graça diante dele, e não duvidamos que ajudem ao vosso adiantamento. – R. Eu vos agradeço; Deus vos protege; que seja bendito por isso! Minha vez chegará também, o espero.

Nota. – As informações fornecidas pelo espírito do senhor Bertrand sáo perfeitamente exatas, e de acordo com o gênero de vida e o caráter que se lhe conhece; somente confessando a sua inferioridade e seus erros, sua linguagem é mais séria e mais elevada do que se poderia dele esperar; prova-nos, uma vez mais, a penosa situação daqueles que são muito presos à matéria neste mundo. Assim é que os próprios Espíritos inferiores nos dão, freqüentemente, úteis lições de moral pelo exemplo.

Uma lição de escrita por um Espírito

Espíritos impostores – O falso Padre Ambroise

Revista Espírita, julho de 1858

Um dos escolhos que apresentam as comunicações espíritas é o dos Espíritos impostores, que podem induzir em erro sob sua identidade, e que, ao abrigo de um nome respeitável, procuram passar seus grosseiros absurdos. Em muitas ocasiões, explicamos sobre esse perigo, que deixa de sê-lo para quem escrute, ao mesmo tempo, a forma e o fundo da linguagem dos seres invisíveis com os quais se comunicam. Não podemos repetir aqui o que dissemos a esse respeito: leia-se, atentamente, nessa Revista, em O Livro dos Espíritos e em nossa Instrução Prática, ver-se-á que nada é mais fácil que premunir-se contra semelhantes fraudes, por pouco que nisso se coloque de boa vontade. Reproduziremos somente a comparação seguinte, que citamos em alguma parte: Suponde que, num quarto vizinho ao que estais, estejam vários indivíduos que não conheceis, que não podeis ver, mas que ouvis perfeitamente; não seria fácil reconhecer, pela sua conversação, se são ignorantes ou sábios, homens honestos ou malfeitores, homens sérios ou estouvados, pessoas de boa companhia ou grosseiras?

Tomemos uma outra comparação, sem sairmos da nossa humanidade material: suponhamos que um homem se apresente a nós sob o nome de um distinto literato; diante desse nome, o recebeis de início com todo o respeito devido ao seu mérito suposto; mas se ele se exprime como um carregador, reconhecereis logo o engano, e o expulsareis como impostor.

Ocorre o mesmo com os Espíritos: são reconhecidos pela sua linguagem; a dos Espíritos superiores é sempre digna, em harmonia com a sublimidade dos pensamentos; jamais a trivialidade macula-lhes a pureza. A grosseria e a baixeza de expressões não pertencem senão aos Espíritos inferiores. Todas as qualidades e todas as imperfeições dos Espíritos se revelam pela sua linguagem, e pode-se, com razão, aplicar-lhes este adágio de um escritor célebre: O estilo é o homem.

Essas reflexões nos foram sugeridas por um artigo que encontramos no Spiritualiste de Ia Nouvelle-Orléans, do mês de dezembro de 1857. É uma conversação que se estabeleceu, por intermédio do médium, entre dois Espíritos, um se dando o nome de padre Ambroise, o outro o nome de Clément XIV. O padre Ambroise foi um respeitável eclesiástico, falecido em Louisiane, no último século; era um homem de bem, de grande inteligência, e que deixou uma memória venerada.

Nesse diálogo, onde o ridículo disputa com o ignóbil, é impossível equivocar-se sobre a qualidade dos interlocutores, e é preciso convir que os Espíritos que o fizeram, tomaram bem pouca precaução para se mascararem; por que qual é o homem de bom senso que poderia, um só instante, supor que o padre Ambroise e Clément XIV pudessem se abaixar a tais trivialidades, que se parecem a um espetáculo teatral? Comediantes da mais baixa categoria, que parodiassem esses dois personagens, não se exprimiriam de outro modo.
Estamos persuadidos de que o círculo de Nouvelle-Orléans, onde o fato se passou, a compreendeu como nós; duvidar disso seria injuriá-los; lamentamos apenas que ao publicá-lo, não o fizeram seguir de algumas observações corretivas, que pudesse impedir, às pessoas superficiais, tomá-lo por uma amostra do estilo sério de além-túmulo. Mas, apressamo-nos em dizer que esse círculo não tem apenas comunicações desse gênero; tem também de outra ordem diferente, onde se encontram toda a sublimidade do pensamento e da expressão dos Espíritos superiores.

Pensamos que a evocação do verdadeiro e do falso padre Ambroise poderia oferecer um útil objeto de observação sobre os Espíritos impostores; foi, com efeito, o que ocorreu, como se pode julgar pela entrevista seguinte:

1. Peço a Deus Todo-poderoso permitir ao Espírito do verdadeiro padre Ambroise, falecido em Louisiane, no século passado, e que deixou uma memória venerada, se comunicar conosco. – R. Estou aqui.

2. Podeis dizer-nos se foi realmente vós quem tivestes, com Clément XIV, a conversa narrada no Spiritualiste de Ia Nouvelle-Orléans e da qual demos leitura em nossa última sessão? – R. Lamento os homens que foram vítimas dos Espíritos, lamentando igualmente a estes.

3. Qual é o Espírito que tomou- o vosso nome? – R. Um Espírito bufão.

4. E o interlocutor era realmente Clément XIV? – R. Era um Espírito simpático àquele que havia tomado o meu nome.

5. Como deixastes debitar semelhantes coisas sob vosso nome, e por que não viestes desmascarar os impostores? – R. Porque não posso sempre impedir os homens e os Espíritos de se divertirem.

6. Concebemos isso em relação aos Espíritos; mas quanto às pessoas que recolheram essas palavras são pessoas sérias e que não procuravam se divertir. – R. Razão a mais; deveriam bem pensar que tais palavras não poderiam ser senão a linguagem de Espíritos zombeteiros.

7. Por que os Espíritos não ensinam em Nouvelle-Orléans, princípios em tudo idênticos aos que se ensinam aqui? – R. A Doutrina que vos foi ditada cedo lhes servirá; não haverá senão uma.

8. Uma vez que essa Doutrina deverá ser ensinada mais tarde, parece-nos que, se o fosse imediatamente, isso apressaria o progresso e evitaria, no pensamento de alguns, uma incerteza deplorável? – Os caminhos de Deus, freqüentemente, são impenetráveis; não haverá outras coisas que vos parecem incompreensíveis nos meios que empregam para chegar aos seus fins? É preciso que o homem se exercite para distinguir o verdadeiro do falso, mas nem todos poderiam receber a luz subitamente sem se ofuscarem.

9. Podeis, eu vos peço, dizer-nos sua opinião pessoal sobre a reencarnação? – Os Espíritos são criados ignorantes e imperfeitos: uma única encarnação não poderá bastar-lhes para tudo aprenderem; é preciso que se reencarnem, para aproveitarem as bondades que Deus lhes destina.

10. A reencarnação pode ocorrer sobre a Terra, ou somente em outros globos? – R. A reencarnação se dá segundo o progresso do Espírito, em mundos mais ou menos perfeitos.

11. Isso não nos diz claramente se ela pode ocorrer sobre a Terra? – R. Sim, ela poderá ter lugar sobre a Terra; e se o Espírito a pede como missão, isso será mais meritório para ele do que pedir para avançar mais depressa em mundos mais perfeitos.

12. Pedimos a Deus Todo-poderoso permitir ao Espírito que tomou o nome do padre Ambroise, se comunicar conosco. – R. Estou aqui; mas não queirais me confundir.

13. Verdadeiramente, és tu o padre Ambroise? Em nome de Deus, peço dizer a verdade. – R. Não.

14. Que pensas daquilo que disseste sob o seu nome? – R. Penso como pensaram aqueles que me escutaram.

15. Por que te serviste de um nome tão respeitável para dizer semelhantes tolices? R- Os nomes, aos nossos olhos, nada são: as obras são tudo; como se podia ver o que eu era pelo que eu dizia, não atribuí conseqüência ao empréstimo desse nome.

16. Por que, em nossa presença, não sustentas mais tua impostura? – R. Porque minha linguagem é uma pedra de toque com a qual não podeis vos enganar.

Nota. – Foi-nos dito, várias vezes, que a impostura de certos Espíritos é uma prova para o nosso julgamento; é uma espécie de tentação que Deus permite, a fim de que, como disse o padre Ambroise, o homem possa se exercitar em distinguir o verdadeiro do falso.

17. E teu companheiro Clément XIV, que pensas dele? -Não vale mais do que eu; ambos temos necessidade de indulgência.

18. Em nome de Deus Todo-poderoso, peço-lhe que venha. – R. Estou aqui desde que o falso padre Ambroise chegou.

19. Por que abusaste da credulidade de pessoas respeitáveis para dar uma falsa idéia da Doutrina Espírita? – R. Por que se é propenso a faltas? É porque não se é perfeito.

20. Não pensastes, ambos, que um dia vosso embuste seria reconhecido, e que os verdadeiros padre Ambroise e Clément XIV não poderiam se exprimir como o fizestes? – R. Os embustes já foram reconhecidos e castigados por aquele que nos criou.

21. Sois da mesma classe dos Espíritos que chamamos batedores? – R. Não, porque é preciso ainda raciocínio para fazer o que fizemos em Nouvelle-Orléans.

22. (Ao verdadeiro padre Ambroise) Esses Espíritos impostores os vêem aqui? – R. Sim, e sofrem com a minha visão.

23. Esses Espíritos estão errantes ou reencarnados? – R. Errantes; não seriam bastante perfeitos para se desligarem, se estivessem encarnados.

24. E vós, padre Ambroise, em qual estado estais? – R. Encarnado em um mundo feliz e sem nome para vós.

25. Nós vos agradecemos os esclarecimentos que consentistes em nos dar; sereis bastante bom para vir outras vezes entre nós, dizer-nos algumas boas palavras e nos dar um ditado que possa mostrar a diferença de vosso estilo com aquele que havia tomado o vosso nome? – R. Estou com aqueles que querem o bem na verdade.

Espíritos impostores - O falso Padre Ambroise

Conversas familiares de além túmulo – O tambor de Bérésina

Revista Espírita, julho de 1858

O tambor de Bérésina

Estando algumas pessoas reunidas conosco a fim de constatarem certas manifestações, os fatos seguintes se produziram, durante várias sessões, e deram lugar à entrevista que vamos narrar, e que apresenta um alto interesse do ponto de vista do estudo.

O Espírito se manifestou por pancadas, não com o pé da mesa, mas na substância da própria madeira. A troca de pensamentos que ocorreu, nesta circunstância, entre os assistentes e o ser invisível, não permitia duvidar da intervenção de uma inteligência oculta. Por outro lado, as respostas dadas a diversas perguntas, seja por sim e por não, seja por meio da tiptologia alfabética, os golpes batiam à vontade uma marcha qualquer, o ritmo de uma música, imitavam a fuzilaria e a canhonada de uma batalha, o barulho do tanoeiro, do sapateiro, fazendo o eco com uma admirável precisão, etc. Depois ocorreu o movimento de uma mesa e sua translação, sem nenhum contato das mãos, estando os assistentes afastados; uma saladeira, tendo sido colocada sobre a mesa, ao invés de girar, se pôs a deslizar em linha reta, igualmente sem o contato das mãos. Os golpes se faziam ouvir igualmente em diversos móveis do quarto, algumas vezes simultaneamente, outras vezes como se respondessem.

O Espírito parecia ter uma marcada predileção pelas pancadas do tambor, porque a elas voltava, a cada instante, sem que se lhe pedisse; freqüentemente, em certas questões, em lugar de responder, ele batia a geral ou a chamada. Interrogado sobre várias particularidades de sua vida, disse chamar-se Celima, ter nascido em Paris, morrido há quarenta e cinco anos, e ter sido tocador de tambor.

Entre os assistentes, além do médium especial para influências físicas que servia nas manifestações, havia uma excelente médium escrevente que pôde servir de intérprete ao Espírito, o que permitiu obter respostas mais explícitas. Tendo confirmado, pela psicografia, o que dissera por meio da tiptologia, seu nome, o lugar do seu nascimento e a época da sua morte, lhe foi dirigida a série de perguntas seguintes, cujas respostas oferecem vários traços característicos e que corroboram certas partes essenciais da teoria.

1. Escrever-nos alguma coisa, é o que desejas? – R. Ran plan plan, Ran plan plan.

2. Por que escrevestes isso? – R. Eu era tocador de tambor.

3. Havias recebido alguma instrução? – R. Sim.

4. Onde fizeste teus estudos? – R. Nos Ignorantes.

5. Parece-nos ser jovial? – R. Eu o sou muito.

6. Disseste-nos uma vez que, durante tua vida amavas demais beber; isso é verdade? — R. Amava tudo o que era bom.

7. Eras militar? – R. Mas sim, porque eu era tocador de tambor.

8. Sob qual governo serviste? – R. Sob Napoleão o Grande.

9. Pode nos citar uma das batalhas a qual assististe? – R. A Bérésina.

10. Foi lá que morreste? – R. Não.

11. Estavas em Moscou? – R. Não.

12. Onde morreste? – R. Nas neves.

13. Em qual corpo servias? – R. Nos fuzileiros da guarda.

14. Amavas muito Napoleão, o Grande? – R. Como todos nós o amamos, sem saber porquê.

15. Sabes em que se tomou depois de sua morte? – R. Eu não me ocupei senão de mim depois de minha morte.

16. Estás reencarnado? – R. Não, uma vez que venho conversar convosco.

17. Por que te manifestaste por golpes sem que tivesses sido chamado? – R. É preciso fazer ruído para aqueles cujo coração não crê. Se não tendes o bastante, dar-vos-ei ainda mais.

18. É de tua própria vontade que vens bater, ou outro Espírito te forçou fazê-lo? – R. Foi pela minha vontade que vim; há um que chamais Verdade que pode forçar-me a isso também; mas, há muito tempo, eu queria vir.

19. Com qual objetivo desejavas vir? – R. Para conversar convosco; era o que eu queria; mas havia alguma coisa que me impedia. Fui forçado por um Espírito familiar da casa, que me convidou, a me tornar útil às pessoas que me pedissem responder. – Esse Espírito tem, pois, muito poder, uma vez que comanda assim os outros Espíritos? – R. Mais do que credes e não usa isso senão para o bem.

Nota. – O Espírito familiar da casa se fez conhecer sob o nome alegórico da Verdade, circunstância ignorada pelo médium.

20. O que te impedia vir? – R. Não o sei; alguma coisa que não compreendo.

21. Lamentas a vida? – R. Não, eu não lamento nada.

22. Preferes tua existência atual ou tua existência terrestre? -R. Prefiro a existência dos Espíritos à existência do corpo.

23. Por que isso? – R. Porque se está bem melhor do que na Terra; na Terra é o purgatório, e todo o tempo que vivi, desejei sempre a morte.

24. Sofres em tua nova situação? – R. Não; mas não sou ainda feliz.

25. Estarias satisfeito em ter uma nova existência corporal? -R. Sim, porque sei que devo elevar-me.

26. Quem te disse? – R. Eu o sei bem.

27. Estarás logo reencarnado? – R. Não o sei.

28. Vês outros Espíritos ao teu redor? – R. Sim, muitos.

29. Como sabes que são Espíritos? – R. Entre nós, nos vemos tal qual somos.

30. Sob qual aparência os vês? – R. Como se podem ver os Espíritos, mas não pelos olhos.

31. E tu, sob qual forma estás aqui? – R. Sob a que tinha durante a minha vida; quer dizer, de tamborileiro.

32. E vês os outros Espíritos, sob a forma que tinham em sua vida? – R. Não, não tomamos uma aparência senão quando somos evocados, de outro modo nos vemos sem forma.

33. Vês tão perfeitamente como se estivesses vivo? – R. Sim, perfeitamente.

34. É pelos olhos que nos vês? – R. Não; temos uma forma, porém, não temos sentidos; nossa forma não é senão aparente.

Nota. – Seguramente, os Espíritos têm sensações, uma vez que percebem, de outro modo seriam inertes; mas suas sensações não estão localizadas como quando têm um corpo: elas são inerentes a todo o seu ser.

35. Diga-nos, positivamente, em que lugar estás aqui? – R. Estou perto da mesa, entre o médium e vós.

36. Quando bates, estás sobre a mesa, ou acima, ou na espessura da madeira? – R. Estou ao lado; não me coloco na madeira: basta que toque a mesa.

37. Como produzes os ruídos que fazes ouvir? – R. Creio que por uma espécie de concentração de nossa força.

38. Poderias nos explicar o modo pelo qual produzes os diferentes ruídos que imitas, as arranhaduras, por exemplo? – R. Não saberia precisar muito a natureza dos ruídos: é difícil explicar. Sei que se arranha, mas não sei explicar como se produz esse ruído que chamais arranhadura.

39. Poderias produzir os mesmos ruídos com qualquer outro médium? – R. Não, há especialidades em todos os médiuns; nem todos podem agir do mesmo modo.

40. Vês entre nós algum, além do jovem S… (o médium de influências físicas pelo qual esse Espírito se manifestou), que poderia te ajudar a produzir os mesmos efeitos? – R. Não o vejo no momento; com ele estou muito disposto a fazer.

41. Por que com ele antes que com um outro? – R. Porque eu o conheço muito, e que também é mais apto, do que um outro, para esse gênero de manifestações.

42. Tu o conheces de tempos antigos; antes de sua existência atual? – R. Não; não o conheço senão há pouco tempo; fui de algum modo atraído para ele, para dele fazer meu instrumento.

43. Quando uma mesa se eleva no ar sem ponto de apoio, o que é que a sustenta? – R. Nossa vontade que lhe ordenou obedecer, e também o fluido que lhe transmitimos.

Nota. – Essa resposta vem em apoio da teoria que nos foi dada, e que reportamos nos nos. 5 e 6 desta Revista, sobre a causa das manifestações físicas.

44. Poderias fazê-lo? – R. Penso; tentarei quando o médium vier. (Ele estava ausente nesse momento.)

45. De quem isso depende? – R. Isso depende de mim, uma vez que me sirvo do médium como instrumento.

46. Mas a qualidade do instrumento não é importante? – R. Sim, me ajuda muito, já disse que não poderia fazê-lo com outros hoje.

Nota. – No correr da sessão tentou-se o erguimento da mesa, mas não se conseguiu, provavelmente porque não se pôs nisso bastante perseverança; houve esforços evidentes e movimentos de translação sem contato nem imposição das mãos. Entre as experiências que foram feitas, fez-se a de abertura da mesa; do lado do acréscimo, essa mesa oferecia muita resistência devido a sua má construção, foi posta de um lado, ao passo que o Espírito pegava de outro e a fazia abrir.

47. Por que, outro dia, os movimentos da mesa se detinham cada vez que um de nós tomava a luz para olhar debaixo? – R. Porque queria punir vossa curiosidade.

48. Com o que te ocupas em tua existência de Espírito, por que, enfim, não passas todo o teu tempo a bater? – R. Freqüentemente, tenho missões a cumprir; devemos obedecer as ordens superiores, e, sobretudo, quando temos bem a fazer pela nossa influência sobre os humanos.

49. Tua vida terrestre não foi, sem dúvida, isenta de faltas; reconhece-as agora? – R. Sim, as expio justamente permanecendo estacionário entre os Espíritos inferiores; não poderei me purificar mais senão quando tomar um outro corpo.

50. Quando fazias ouvir golpes em um outro móvel, ao mesmo tempo que na mesa, eras tu que os produzias ou um outro Espírito? – R. Era eu.

51. Estavas só, portanto? – R. Não, mas eu realizava sozinho a missão de bater.

52. Os outros Espíritos que ali estavam, ajudavam de algum modo? – R. Não para bater, mas para falar.

53. Então não eram Espíritos batedores? – R. Não, a Verdade não permitia senão a mim bater.

54. Os Espíritos batedores, algumas vezes, não se reúnem em maior número, a fim de terem mais força para produzirem certos fenômenos? – R. Sim, mas para aquilo que queria fazer, posso fazê-lo sozinho.

55. Em tua existência espírita, estás sempre na Terra? – R. O mais freqüentemente, no espaço.

56. Algumas vezes vais para outros mundos, quer dizer, em outros globos? – R. Não nos mais perfeitos, mas em mundos inferiores.

57. Algumas vezes, te divertes vendo e ouvindo o que fazem os homens? – R. Não; algumas vezes, todavia, deles tive piedade.

58. Quem são aqueles junto aos quais vais de preferência? – R. Aqueles que querem crer de boa-fé.

59. Poderias ler os nossos pensamentos? – R. Não, eu não leio nas almas; não sou bastante perfeito para isso.

60. Entretanto, deves conhecer os nossos pensamentos, uma vez que vens entre nós; de outro modo, como poderias saber se cremos de boa-fé? -R. Eu não leio, mas ouço.

Nota. – A questão 58 tinha por objetivo perguntar quais são aqueles junto aos quais ele vai de preferência espontaneamente, em sua vida de Espírito, sem ser evocado; pela evocação ele pode, como Espírito de uma ordem pouco elevada, ser constrangido a vir mesmo em um meio que lhe desagrade. Por outro lado, sem ler, propriamente falando, nossos pensamentos, certamente, poderia ver que as pessoas não estavam reunidas senão para um objetivo sério, e pela natureza das questões e das conversações que ele ouvia, julgar que a assembléia era composta de pessoas sinceramente desejosas de se esclarecerem.

61. Encontraste, no mundo dos Espíritos, alguns dos antigos camaradas de armas? – R. Sim, mas suas posições eram tão diferentes, que não reconheci a todos.

62. Em que consistia essa diferença? – R. Na ordem feliz ou infeliz de cada um.

62. Que disseste em vos reencontrando? – R. Eu lhes disse: Vamos elevar-nos até Deus, que o permite.

63. Como entendias subir até Deus? – R. Um degrau a mais superado, é um degrau a mais até Ele.

64. Disseste-nos que morreste nas neves, em conseqüência, morreste de frio? – R. De frio e de necessidade.

65. Tiveste, imediatamente, ciência de sua nova existência? -R. Não, mas não tinha mais frio.

66. Algumas vezes, retomaste ao lugar onde deixaste teu corpo? – R. Não, ele me fizera sofrer muito.

67. Nós te agradecemos as explicações que consentiste nos dar; elas nos forneceram úteis objetos de observação para nos aperfeiçoarmos na ciência Espírita? – R. Estou às vossas ordens.

Nota. – Esse Espírito, como se vê, é pouco avançado na hierarquia espírita: ele mesmo reconhece sua inferioridade. Seus conhecimentos são limitados; mas há nele bom senso, sentimentos honoráveis e benevolência. Sua missão, como Espírito, é bastante ínfima, uma vez que desempenha o papel de Espírito batedor para chamar os incrédulos à fé; mas, no próprio teatro, o próprio traje de comparsa não pode cobrir um coração honesto? Suas respostas têm a simplicidade da ignorância; mas, por não terem a elevação da linguagem filosófica dos Espíritos superiores, não são menos instrutivas como estudo dos costumes espíritas, se assim podemos nos exprimir. É somente estudando todas as classes desse mundo que nos espera, que se pode chegar a conhecê-lo, e, de algum modo, nele marcar antecipadamente o lugar que cada um de nós pode aí ocupar. Vendo a situação que se prepararam, por seus vícios e suas virtudes, os homens que foram nossos iguais nesse mundo, é um encorajamento para nos elevar, o mais possível, desde este: é o exemplo ao lado do preceito. Não é demasiado repetir que para bem conhecer uma coisa, e dela se fazer uma idéia isenta de ilusões, é preciso vê-la sob todas as suas faces, do mesmo modo que o botânico não pode conhecer o reino vegetal senão observando desde o modesto criptogâmo escondido sob o musgo, até o carvalho que se eleva nos ares.

Conversas familiares de além túmulo O tambor de Bérésina

O Espírito batedor de Bergzabem

Revista Espírita, julho de 1858

(TERCEIRO ARTIGO)

Continuamos a citar a brochura do senhor Blanck, redator do Journal de Bergzabem (1).
“Os fatos que vamos relatar ocorreram de sexta-feira, 4, à quarta-feira, 9 de março de 1853; depois nada de semelhante se produziu. Philippine nessa época não dormia mais no quarto que se conhece: sua cama havia sido transferida para o quarto vizinho, onde se encontra ainda agora. As manifestações tomaram um tal caráter de estranheza, que é impossível admitir a explicação desses fenômenos pela intervenção dos homens. Aliás, são tão diferentes daqueles que foram observados anteriormente, que todas as suposições iniciais desmoronaram.

Sabe-se que no quarto onde dormia a jovem, as cadeiras e outros móveis, freqüentemente, eram transtornados, que as janelas se abriam com estrondo sob golpes redobrados. Há cinco semanas ela permanece no quarto comum, onde, chegada a noite, e até o dia seguinte, há sempre luz; pode-se, pois, ver perfeitamente o que aí se passa. Eis o fato que foi observado sexta-feira, 4 de março.

Philippine não se havia ainda deitado; estava no meio de um certo número de pessoas que conversavam com o Espírito batedor, quando, de repente, a gaveta de uma mesa muito grande e muito pesada, que se achava no quarto, foi tirada e empurrada com um grande ruído e uma irrascibilidade extraordinária. Os assistentes ficaram fortemente surpreendidos com essa nova manifestação; no mesmo momento a própria mesa se colocou em movimento, em todos os sentidos, e avançou para a chaminé junto da qual Philippine estava sentada. Perseguida, por assim dizer, por esse móvel, ela teve que deixar seu lugar e fugir para o meio do quarto; mas a mesa virou para essa direção e se deteve a meio pé da parede. Foi colocada no seu lugar costumeiro, de onde não se mexeu mais; mas as botas que se encontravam debaixo, e que todo o mundo pôde ver, foram lançadas ao meio do quarto, com grande pavor das pessoas presentes. Uma das gavetas começou a deslizar em suas corrediças, abrindo e fechando por duas vezes, primeiro muito vivamente, depois mais e mais lentamente; quando estava inteiramente aberta, ocorreu de ser sacudida com estrondo. Um pacote de tabaco deixado sobre a mesa, mudava de lugar a cada instante. A batida e a arranhadura se fizeram ouvir na mesa. Philippine, que gozava então de uma muito boa saúde, estava no meio da reunião e não parecia nada inquieta com todas essas estranhezas que se renovavam, cada noite, desde sexta-feira; mas no domingo elas foram ainda mais notáveis.

A gaveta foi várias vezes violentamente aberta e fechada. Philippine, depois de estar em seu antigo quarto de dormir, tornou-se subitamente presa de sono magnético, se deixou cair numa cadeira, onde a arranhadura se fez ouvir várias vezes. As mãos da criança estavam sobre seus joelhos e a cadeira se movia ora à direita, ora à esquerda, para frente ou para trás. Viam-se os pés dianteiros da cadeira se erguerem, enquanto a cadeira se balançava, num equilíbrio espantoso, sobre os pés traseiros. Tendo sido Philippine transportada para o meio do quarto, foi mais fácil observar esse novo fenômeno. Então, ao comando, a cadeira virava, avançava ou recuava mais ou menos rápida, ora num sentido, ora no outro. Durante essa dança singular, os pés da criança, como paralisados, arrastavam no solo; esta se queixava de dor de cabeça por gemidos levando, diversas vezes, a mão à sua fronte; depois, despertada de repente, se pôs a olhar por todos os lados, não podendo compreender sua situação: seu mal-estar a havia deixado. Ela se deitou: então os golpes e a arranhadura, que se produziram na mesa, se fizeram ouvir na cama com força e de um modo alegre.

Algum tempo antes, tendo uma campainha produzido sons espontâneos, teve-se a idéia de fixá-la na cama, e logo se pôs a tocar e a se agitar. O que houve de mais curioso nessa circunstância foi que a cama, estando erguida e deslocada, a campainha permanecia imóvel e muda. Em mais alguns minutos todo o ruído cessou e a assembléia se retirou.
Na segunda-feira, a noite, 15 de maio, fixou-se na cama uma grande campainha; logo fez ouvir um ruído ensurdecedor e desagradável. No mesmo dia, depois do meio-dia, a janela e a porta do quarto de dormir se abriram, mas silenciosamente.

Devemos narrar também que a cadeira, na qual Philippine se sentou na sexta-feira e no sábado, tendo sido levada pelo pai Senger para o meio do quarto, parecia muito mais leve que de costume: dir-se-ia que uma força invisível a sustentava. Um dos assistentes, querendo empurrá-la, não experimentou nenhuma resistência, a cadeira parecia deslizar por si mesma sobre o assoalho.

O Espírito batedor permaneceu silencioso durante uns três dias, quinta-feira, sexta-feira e sábado santos. Não foi senão no dia de Páscoa que seus golpes recomeçaram com o som de sinos, golpes ritmados que compuseram uma música. No dia 1º de abril, as tropas mudando de guarnição, deixaram a cidade com música à frente. Quando passavam diante da casa de Senger, o Espírito batedor executou, à sua maneira, contra a cama, o mesmo trecho que se tocava na rua. Algum tempo antes, ouviu-se no quarto como passos de uma pessoa, e como se se tivesse lançado um sabre sobre as tábuas.

O governo de Palatinat preocupou-se com os fatos que acabamos de narrar, e propôs ao pai Senger colocar sua criança em uma casa de saúde em Frankenthal, proposta que foi aceita. Soubemos que, em sua nova residência, a presença de Philippine deu lugar aos prodígios de Bergzabern, e que os médicos de Frankenthal, tanto quanto os da nossa cidade, não puderam determinar-lhes a causa. Estamos informados, por outro lado, que só os médicos têm acesso junto da jovem. Por que tomou-se essa medida? Ignoramos, e nos permitimos protestar; mas, se o que lhe ocasionou não foi o resultado de alguma circunstância particular, cremos que poder-se-ia deixar entrar, perto da criança, senão todo o mundo, ao menos as pessoas recomendáveis.”

Nota. – Não tomamos conhecimento dos diferentes fatos que narramos senão pelo relatório que deles publicou o senhor Blanck; mas uma circunstância veio nos colocar em relação com uma das pessoas que mais figuraram em todo esse assunto, e que consentiu nos fornecer, a esse respeito, documentos circunstanciais do mais alto interesse. Tivemos igualmente, pela evocação, explicações muito curiosas e muito instrutivas sobre esse Espírito batedor, por ele mesmo que se manifestou para nós. Esses documentos, nos tendo chegado muito tarde, adiamos sua publicação para o próximo número.

(1) Devemos à cortesia de um dos nossos amigos, o senhor Alfred Pireaux, empregado da administração dos correios, a tradução dessa interessante brochura.

O Espírito batedor de Bergzabem (terceiro artigo)

Uma nova descoberta fotográfica

Revista Espírita, julho de 1858

Vários jornais narraram o fato seguinte:

“O senhor Badet, falecido em 12 de novembro último, depois de uma enfermidade de três meses, tinha o costume, diz o Union bourguignonne de Dijon, cada vez que suas forcas lhe permitiam, de se colocar numa janela do primeiro andar, com a cabeça constantemente voltada para o lado da rua, a fim de se distrair vendo os transeuntes. Há alguns dias, a senhora Peltret, cuja casa fica defronte a da viúva senhora Badet, percebeu, na vidraça dessa janela, o senhor Badet, ele mesmo, com seu boné de algodão, sua figura emagrecida, etc., enfim tal como o havia visto durante sua enfermidade. Grande foi sua emoção, para não dizer mais. Ela chamou, não somente seus vizinhos, cujo testemunho poderia ser suspeito, mas, ainda, homens sérios, que perceberam, bem distintamente, a imagem do senhor Badet sobre a vidraça da janela onde tinha o costume de se colocar. Mostrou-se também essa imagem à família do defunto, que imediatamente fez a vidraça desaparecer.
“Ficou, todavia, bem constatado que a vidraça tinha tomado a impressão da imagem da figura enferma, que aí estava como daguerreotipada, fenômeno que se poderia explicar se, do lado oposto à janela, houvesse tido uma outra por onde os raios solares pudessem chegar ao senhor Badet; mas não havia nada: o quarto não tinha senão uma única janela. Tal é a verdade toda nua sobre esse fato espantoso, cuja explicação se deve deixar aos sábios.”

Confessamos que, à leitura desse artigo, nosso primeiro sentimento foi o de lhe dar a qualificação vulgar com a qual se gratificam as notícias apócrifas, e a ele não ligamos nenhuma importância. Poucos dias depois, o senhor Jobard, de Bruxelas, nos escreveu o que segue:

– À leitura do fato seguinte (o que acabamos de citar), que se passou em meu país, com um dos meus parentes, encolhi os ombros vendo o jornal que a relata remeter a explicação aos sábios, e essa brava família retirar a vidraça através da qual Badet via os transeuntes. Evocaio para ver o que pensa disso.”

Essa confirmação do fato por um homem do caráter do senhor Jobard, cujos mérito e honorabilidade todo o mundo conhece, e a circunstância particular de que um dos seus parentes dele fora o herói, não poderiam deixar dúvida sobre a sua veracidade. Em conseqüência, evocamos o senhor Badet na sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, na terça-feira, 15 de junho de 1858, e eis as suas explicações que se seguem:

1. Peço a Deus Todo-poderoso permitir ao Espírito do senhor Badet, falecido em 12 de novembro último, em Dijon, de se comunicar conosco. – R. Estou aqui.

2. O fato que vos concerne e que acabamos de lembrar, é verdadeiro? – R. Sim, é verdadeiro.

3. Poderíeis dele nos dar a explicação? – R. É um dos agentes físicos desconhecidos agora, mas que se tornarão usuais mais tarde. É um fenômeno bastante simples, semelhante a uma fotografia combinada com forças que não foram ainda descobertas por vós.

4. Poderíeis apressar o momento dessa descoberta pelas vossas explicações? – R. Gostaria, mas é obra de outros Espíritos e do trabalho humano.

5. Poderíeis nos reproduzir uma segunda vez o mesmo fenômeno? – R. Não fui eu quem o produziu, foram as condições físicas, das quais sou independente.

6. Pela vontade de quem e com qual objetivo o fato ocorreu? -R. Produziu-se quando eu estava vivo e sem a minha vontade; um estado particular da atmosfera o revelou depois.
Estabelecida uma discussão entre os assistentes, sobre as causas prováveis desse fenômeno, e várias opiniões tendo sido emitidas sem que fossem dirigidas perguntas ao Espírito, este disse espontaneamente: E a eletricidade e a galvanoplastia que agem também sobre o perispírito, vós não as tendes em conta.

7. Foi-nos dito há pouco que os Espíritos não têm olhos; ora, se essa imagem é a reprodução do perispírito, como ocorreu que ela haja podido reproduzir os órgãos da visão? — R. O perispírito não é o Espírito; a aparência, ou perispírito, tem olhos, mas o Espírito não os tem. Eu vos disse bem, falando do perispírito, que estava vivo.

Nota. – À espera de que essa nova descoberta seja feita, dar-lhe-emos o nome provisório de fotografia espontânea. Todo o mundo lamentará que, por um sentimento difícil de compreender, destruiu-se a vidraça sobre a qual estava reproduzida a imagem do senhor Badet; um tão curioso monumento teria podido facilitar as pesquisas e as observações próprias para o estudo da questão. Talvez viu-se nessa imagem a obra do diabo; em todo caso, se o diabo esteve para alguma coisa nesse assunto, foi seguramente na destruição da vidraça, porque ele é o inimigo do progresso.

Considerações sobre a fotografia espontânea.

Resulta das explicações acima, que o fato, em si mesmo, não é sobrenatural nem miraculoso. Quantos fenômenos desse mesmo caso, deveram, nos tempos da ignorância, ferir as imaginações muito propensas ao maravilhoso! E, pois, um efeito puramente físico, que pressagia um novo passo na ciência fotográfica.

O perispírito, como se sabe, é o envoltório semi-material do Espírito; não é somente depois da morte que o Espírito dele está revestido; durante a vida está unido ao corpo: é o laço entre o corpo e o Espírito. A morte não é senão a destruição do envoltório mais grosseiro; o Espírito conserva o segundo, que toma a aparência do primeiro, como se dele tivesse retido a impressão. O perispírito é geralmente invisível, mas, em certas circunstâncias, ele se condensa e, se combinando com outros fluidos, torna-se perceptível à visão, algumas vezes mesmo tangível; é ele que se vê nas aparições.

Quaisquer que sejam a sutilidade e imponderabilidade do perispírito, não deixa de ser uma espécie de matéria, cujas propriedades físicas nos são ainda desconhecidas. Desde que é matéria, pode agir sobre a matéria; essa ação é patente nos fenômenos magnéticos; acaba de se revelar sobre os corpos inertes pela impressão que a imagem do senhor Badet deixou sobre a vidraça. Essa impressão ocorreu durante a sua vida; conservou-se depois de sua morte; mas era invisível; foi preciso, ao que parece, a ação fortuita de um agente desconhecido, provavelmente atmosférico, para torná-la aparente. Que haveria nisso de espantoso? Não se sabe que se podem fazer desaparecer e reviver à vontade as imagens daguerreotipadas? Citamos isso como comparação, sem pretender a semelhança dos procedimentos. Assim, seria o perispírito do senhor Badet que, emanando do corpo deste último, teria com o tempo, e sob o império de circunstâncias desconhecidas, exercido uma verdadeira ação química sobre a substância do vidro, análoga à da luz. A luz e a eletricidade deveram, incontestavelmente, exercer um grande papel nesse fenômeno. Resta saber quais são esses agentes e essas circunstâncias; é o que, provavelmente, saber-se-á mais tarde, e essa não será uma das descobertas menos curiosas dos tempos modernos.

Se é um fenômeno natural, dirão aqueles que negam tudo, por que é a primeira vez que se produziu? Perguntaremos, por nossa vez por que as imagens daguerreotipadas não foram fixadas senão depois de Daguerre, por que não foi ele quem inventou a luz, nem as placas de cobre, nem a prata, nem os cloretos? Conhecem-se, há muito tempo, os efeitos do quarto escuro; uma circunstância fortuita colocou sobre o caminho da fixação, depois, com a ajuda do gênio, de perfeição em perfeição, chegou-se às obras primas que vemos hoje. Provavelmente, seria o mesmo fenômeno estranho que acaba de se revelar; e quem sabe se ele nunca se produziu, se não passou desapercebido pela falta de um observador atento? A reprodução de uma imagem sobre um vidro é um fato vulgar, mas a fixação dessa imagem em outras circunstâncias que as das fotografias, o estado latente dessa imagem, depois sua reaparição, eis o que deve marcar nas magnificências da ciência. Crendo os Espíritos nisso, deveremos nos emocionar com muitas outras maravilhas das quais várias nos foram assinaladas por eles. Honra, pois, aos sábios bastante modestos para não crerem que a Natureza virou para eles a última página do seu livro.

Se esse fenômeno se produziu uma vez, deverá se reproduzir. Provavelmente, é o que ocorrerá quando dele tivermos a chave. À espera disso, eis o que contou um dos membros da Sociedade na sessão da qual falamos:

“Eu habitava, disse ele, uma casa em Montrouge; era verão, o sol brilhava pela janela; sobre a mesa achava-se uma garrafa cheia de água, e sob a garrafa uma pequena esteira; de repente, a esteira pegou fogo. Se ninguém estivesse lá poderia ocorrer um incêndio sem que se lhe soubesse a causa. Experimentei cem vezes produzir o mesmo efeito, e nunca tive sucesso.” A causa física do incêndio é bem conhecida: a garrafa produziu o efeito de um vidro ardente; mas, por que não se pôde reiterar a experiência? É que, independentemente da garrafa e da água, havia um concurso de circunstâncias que operaram, de um modo excepcional, a concentração dos raios solares: talvez o estado da atmosfera, dos vapores, as qualidades da água, a eletricidade, etc., e tudo isso, provavelmente, em certas proporções desejadas: donde a dificuldade de cair justo nas mesmas condições, e a inutilidade das tentativas para produzir um efeito semelhante. Eis, pois, um fenômeno inteiramente do domínio da física, do qual se toma conhecimento, quanto ao princípio, e que todavia não se pode repetir à vontade. Viria ao pensamento do cético mais endurecido negar o fato? Seguramente não. Por que, pois, esses mesmos céticos negam a realidade dos fenômenos espíritas (falamos das manifestações em geral), por que não podem manipulá-los à sua vontade? Não admitir que fora do conhecido possa haver agentes novos regidos por leis especiais; negar esses agentes, porque não obedecem às leis que conhecemos, em verdade, é fazer prova de bem pouca lógica e mostrar um espírito bem limitado.

Voltemos à imagem do senhor Badet; far-se-á, sem dúvida, como nosso colega com sua garrafa, numerosas tentativas infrutíferas antes de ter sucesso, e isso, até que um acaso feliz ou o esforço de um poderoso gênio haja dado a chave do mistério; então, provavelmente, isso se tornará uma arte nova com a qual se enriquecerá a indústria. Entendemos aqui uma quantidade de pessoas dizer-se: mas há um meio bem simples de ter essa chave: por que não é pedida aos Espíritos! É aqui o caso de revelar um erro no qual cai a maioria daqueles que julgam a ciência espírita sem conhecê-la. Lembramos primeiro esse princípio fundamental de que todos os Espíritos estão longe, como se acreditava antigamente, de tudo saberem.

A escala espírita nos dá a medida de sua capacidade e de sua moralidade, e a experiência confirma, cada dia, nossas observações a esse respeito. Os Espíritos, pois, não sabem tudo, e ocorre que, em certos assuntos, em todas as considerações, são bem inferiores a certos homens; eis o que não se deve jamais perder de vista. O Espírito do senhor Badet, o autor involuntário do fenômeno que nos ocupa, revela pelas suas respostas uma certa elevação, mas não uma grande superioridade; ele mesmo se reconhece inabilitado para dar uma explicação completa: Seriam, disse, a obra de outros Espíritos e do trabalho humano; essas últimas palavras são todo um ensinamento. Com efeito, seria muito cômodo não ter senão que interrogar os Espíritos para fazer as descobertas mais maravilhosas; onde estaria, então, o mérito dos inventores, se mão oculta viesse lhes facilitar a tarefa e poupar-lhes o trabalho de pesquisar? Mais de um, sem dúvida não se faria escrúpulo de tomar uma patente de invenção em seu nome pessoal, sem mencionar o verdadeiro inventor. Acrescentamos que semelhantes perguntas são sempre feitas com objetivo de interesse e na esperança de uma fortuna fácil, coisas que são más recomendações junto aos bons Espíritos; estes, aliás, não se prestam jamais a servir de instrumento para um negócio. O homem deve ter sua iniciativa, sem o que se reduz ao estado de máquina; deve-se aperfeiçoar pelo trabalho; é uma das condições de sua existência terrestre; é preciso também que cada coisa venha a seu tempo, e pelos meios que apraz a Deus empregar: Os Espíritos não podem desviar os caminhos da Providência. Querer forçar a ordem estabelecida é se pôr à mercê dos Espíritos zombadores que bajulam a ambição, a cupidez, a vaidade, para rirem em conseqüência das decepções das quais são causa. Muito pouco escrupulosos de sua natureza, dizem tudo o que se quer, dão todas as receitas que se lhes pedem, se for preciso as apoiarão em fórmulas científicas, salvo se tenham, no máximo, o valor da dos charlatões. Que aqueles, pois, que creram que os Espíritos viriam lhes abrir minas de ouro, se desenganem; sua missão é séria. Trabalhai, esforçai-vos, é o fundamento que menos falta, disse um célebre moralista, do qual daremos, logo, uma notável entrevista de além-túmulo; a essa máxima sábia, a Doutrina Espírita acrescenta: É a estes que os Espíritos sérios vêm em ajuda pelas idéias que sugerem, ou por conselhos diretos, e não aos preguiçosos que querem desfrutar sem nada fazerem, nem aos ambiciosos que querem ter o mérito sem a dificuldade. Ajuda-te e o céu te ajudará.

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