Suicídio por amor

Revista Espírita, setembro de 1858

(PROBLEMAS MORAIS)

Há sete ou oito meses, o chamado Louis G…, operário sapateiro, fazia a corte a uma senhorita Victorine R…, pespontadora de botinas, com a qual se deveria casar muito brevemente, uma vez que os proclamas estavam em curso de publicação. Estando as coisas nesse, ponto, os jovens se consideravam quase que como definitivamente unidos, e, por medida de economia, o sapateiro vinha, cada dia, para tomar suas refeições, na casa de sua noiva.

Quarta-feira última, tendo vindo Louis, como de costume, jantar na casa da pespontadora de botinas, sobreveio uma contestação, a propósito de uma futilidade; obstinaram-se de parte a parte, e as coisas chegaram ao ponto de Louis deixar a mesa, e jurando partir para jamais voltar.

No dia seguinte, todavia, o sapateiro, embaraçado, veio ceder enfim e pedir perdão: sabe-se que a noite é boa conselheira; mas a operária, talvez prejulgando, segundo a cena da véspera, o que poderia sobrevir quando não tivesse mais tempo de se desdizer, recusou se reconciliar, e, protestos, lágrimas, desespero, nada fê-la dobrar-se. Anteontem à tarde, entretanto, como vários dias decorreram desde aquele da desunião, Louis, esperando que sua bem-amada estivesse mais tratável, quis tentar um último entendimento: chegou, pois, e bateu à porta de modo a se fazer conhecer, mas ela recusou abrir; então, novas súplicas da parte do pobre intrigado, novos protestos através da porta, mas nada pôde tocar a implacável pretendida. “Adeus, pois, malvada! gritou enfim o pobre rapaz, adeus para sempre! Tratai de encontrar um marido que vos ame tanto quanto eu! Ao mesmo tempo a jovem ouviu uma espécie de gemido abafado, depois como o barulho de um copo que cai escorregando ao longo de sua porta, e tudo voltou ao silêncio; então ela se imaginou que Louis se instalou na soleira da porta para esperar sua primeira saída, mas ela se prometeu não pôr o pé para fora, enquanto ele ali estivesse.

Fora apenas há um quarto de hora que isso ocorrera, quando um locatário que passava sobre o patamar com uma luz, soltou uma exclamação e pediu socorro. Logo os vizinhos chegaram, e a senhorita Victorine, tendo igualmente aberto sua porta, lançou um grito de horror, percebendo estendido sobre o ladrilho, seu pretendido pálido e inanimado. Cada um se apressa em lhe dar socorro, informou-se de um médico, mas logo se percebeu que tudo seria inútil, e que ele deixou de existir. O infeliz jovem havia mergulhado seu trinchete na região do coração, e o ferro ficara na ferida.

Esse fato, que encontramos no Siècle do dia 7 de abril último, sugeriu o pensamento de dirigir-se, a algum Espírito superior, algumas perguntas sobre suas conseqüências morais. Hei-las aqui, assim como as respostas que nos foram dadas pelo Espírito de São Luís, na sessão da Sociedade do dia 10 de agosto de 1858.

1. A jovem, causa involuntária da morte de seu amante, tem responsabilidade? – R. Sim, porque ela não o amava.

2. Para prevenir essa infelicidade, deveria desposá-lo apesar da sua repugnância? – R. Ela procuraria uma ocasião para se separar dele; ela fez no começo de sua ligação o que deveria fazer mais tarde.

3. Assim sua culpa consiste em ter mantido nele os sentimentos que ela não partilhava, sentimentos que causaram a morte do jovem? – R. Sim, é isso.

4. Sua responsabilidade, nesse caso, deve ser proporcional à sua falta; não deve ser tão grande como se ela tivesse provocado voluntariamente a morte? – R. Isso salta aos olhos.

5. O suicídio de Louis, encontra uma desculpa no descaminho em que o mergulhou a obstinação de Victorine? – R. Sim, porque seu suicídio, que provém do amor, é menos criminoso aos olhos de Deus do que o suicídio do homem que quer se libertar da vida por um motivo de covardia.

Nota. – Dizendo que esse suicídio é menos criminoso aos olhos de Deus, isso significa, evidentemente, que há criminalidade, embora menor. A falta consiste na fraqueza que não soube vencer. Sem dúvida, era uma prova sob a qual ele sucumbiu; ora, os Espíritos nos ensinam que o mérito consiste em lutar, vitoriosamente, contra as provas de todas as espécies, que são a própria essência de nossa vida terrestre.

O Espírito de Louis C… tendo sido evocado uma outra vez, se lhe dirigem as perguntas seguintes:

1. Que pensais da ação que cometestes? – R. Victorine é uma ingrata; eu errei em matar-me por ela, porque ela não o merecia.

2. Ela, pois, não vos amava? – R. Não; ela acreditou no início; iludiu-se; a cena que lhe fiz abriu-lhe os olhos; então, ela ficou contente com esse pretexto para se desembaraçar de mim.

3. E vós, a amavas sinceramente? – R. Tinha paixão por ela: eis tudo, eu acreditava; se amasse com amor puro, não teria querido causar-lhe pesar.

4. Se ela soubesse que queríeis realmente vos matar, teria persistido em sua recusa? – R. Não sei; não creio, porque ela não é má; mas ela seria infeliz; foi melhor para ela que isso se passou assim.

5. Chegando à sua porta, tínheis a intenção de vos matar em caso de recusa? – R. Não; não pensava nisso; não acreditava que ela seria tão obstinada; não foi senão quando vi sua obstinação, quando então a vertigem me tomou.

6. Pareceis não lamentar o vosso suicídio senão porque Victorine não a merecia; é o único sentimento que experimentais? – R. Neste momento, sim; estou ainda todo perturbado; parece-me estar à sua porta; mas sinto outra coisa que não posso definir.

7. Compreendê-la-eis mais tarde? — R. Sim, quando estiver esclarecido… Fiz mal; devia deixá-la tranqüila… Fui fraco e disso carrego a pena… Vede bem, a paixão cega o homem e leva-o a fazer tolices. Só o compreende quando não há mais tempo.

8. Dissestes que disso carregavas a pena; que pena sofreis? -R. Errei em abreviar minha vida; não o devia; devia suportar tudo antes que pôr-lhe fim antes do tempo; aliás, sou infeliz; sofro; é sempre ela quem me faz sofrer; ela me parece ainda ali, à sua porta; a ingrata! Não me faleis dela mais; não quero nela mais pensar, isso me faz muito mal. Adeus.

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Os Talismãs – Medalha cabalística

Revista Espírita, setembro de 1858

O senhor M… havia comprado de um quinquilheiro uma medalha que lhe pareceu notável pela sua singularidade. Ela é do tamanho de uma moeda de cinco libras. Seu aspecto é argênteo, embora um pouco cor de chumbo. Nas duas faces estão gravados uma multidão de sinais, entre os quais se notam os dos planetas, círculos entrelaçados, um triângulo, palavras ininteligíveis e iniciais em caracteres vulgares; além de outros caracteres bizarros tendo qualquer coisa de árabe, tudo disposto de um modo cabalístico no gênero dos livros de mágicos.

O senhor M…, tendo interrogado a senhorita J…, médium sonâmbula, quanto a essa medalha, respondeu-lhe que era composta de sete metais, que pertenceram a Cazotte, e tinha um poder particular para atrair os Espíritos e facilitar as evocações. O senhor de Caudenberg, autor de uma relação de comunicações que teve, disse ele, como médium, com a Virgem Maria, disse-lhe que era uma coisa má, própria para atrair os demônios. A senhorita de Guldenstube, médium, irmã do barão de Guldenstube, autor de uma obra sobre a Pneumatografia ou escrita direta, disse-lhe que ela tinha uma virtude magnética e poderia provocar o sonambulismo.

Pouco satisfeito com essas respostas contraditórias, o senhor de M… apresentou-nos essa medalha, pedindo a nossa opinião pessoal a respeito, e nos rogando igualmente interrogarmos um Espírito superior sobre seu valor real, do ponto de vista da influência que pode ter. Eis nossa resposta:

Os Espíritos são atraídos ou repelidos pelo pensamento, e não por objetos materiais que não têm nenhum poder sobre eles. Os Espíritos superiores, em todos os tempos, condenaram o emprego de sinais e de formas cabalísticas, e todo Espírito que lhes atribui uma virtude qualquer, ou que pretenda dar talismãs que aparentem a magia, revela, com isso, sua inferioridade, esteja agindo de boa fé ou por ignorância, em conseqüência de antigos preconceitos terrestres dos quais estejam imbuídos, seja porque queira conscientemente divertir-se com a credulidade, como Espírito zombeteiro. Os sinais cabalísticos, quando não são pura fantasia, são símbolos que lembram as crenças supersticiosas quanto à virtude de certas coisas, como os números, os planetas, e sua concordância com os metais, crenças nascidas nos tempos da ignorância, e que repousam sobre erros manifestos, dos quais a ciência fez justiça mostrando o que eram os pretensos sete planetas, sete metais, etc. A forma mística e ininteligível desses emblemas tinha por objetivo impor ao vulgo ver o maravilhoso naquilo que não compreendia. Quem estudou a natureza dos Espíritos, não pode admitir racionalmente, sobre eles, a influência de formas convencionais, nem de substâncias misturadas em certas proporções; isso seria renovar as práticas da caldeira dos feiticeiros, de gato preto, de galinha preta e outros feitiços. Não ocorre o mesmo com um objeto magnetizado que, como se sabe, tem o poder de provocar o sonambulismo ou certos fenômenos nervosos sobre a economia; mas, então, a virtude desse objeto reside unicamente no fluido do qual está momentaneamente impregnado e que se transmite, assim, por via mediata, e não em sua forma, em sua cor, nem sobretudo nos sinais com os quais pode estar sobrecarregado.

Um Espírito pode dizer Traçai tal sinal, e a esse sinal reconhecerei que chamais e virei; mas
nesse caso o sinal traçado não é senão a expressão do pensamento; é uma evocação traduzida de um modo material; ora, os Espíritos, qualquer que seja sua natureza, não têm necessidade de semelhantes meios para se comunicarem; os Espíritos superiores não os empregam nunca; os Espíritos inferiores podem fazê-lo tendo em vista fascinar a imaginação de pessoas crédulas, que querem ter sob sua dependência. Regra geral: todo Espírito que liga mais importância à forma do que ao fundo é inferior, e não merece nenhuma confiança, ainda mesmo se, de tempo em tempo, disser algumas coisas boas; porque essas boas coisas podem ser um meio de sedução.

Tal era o nosso pensamento a respeito dos talismãs em geral, como meio de relações com os Espíritos. Vale dizer que ele se aplica igualmente àqueles que a superstição emprega como preservativos de doenças ou de acidentes.

Contudo, para a edificação do possuidor da medalha, e para melhor aprofundar a questão, na sessão da Sociedade, do dia 17 de julho de 1858, pedimos ao Espírito de São Luís, que consente comunicar conosco todas as vezes que se trata de nossa instrução, que nos desse a sua opinião a respeito. Interrogado sobre o valor dessa medalha, eis a sua resposta:

“Fizestes bem em não admitir que os objetos materiais possam ter uma virtude qualquer sobre as manifestações, seja para provocá-las, seja para impedi-las. Bem freqüentemente, dissemos que as manifestações eram espontâneas, e que finalmente, jamais nos recusamos em responder à vossa chamada. Por que pensais que possamos ser obrigados a obedecer a uma coisa fabricada por humanos?

P. – Com qual objetivo essa medalha foi feita? – R. Foi feita com o objetivo de chamar a atenção das pessoas que nela quisessem crer; mas não foi senão pelos magnetizadores que ela pôde ser feita com a intenção de magnetizar para adormecer uma pessoa. Os sinais não são senão coisas de fantasia.

P. – Diz-se que ela pertenceu a Cazotte; poderíamos evocá-lo, a fim de termos algumas informações dele a esse respeito? – R. Não é necessário; preferivelmente, ocupai-vos de coisas mais sérias.

Os Talismãs - Medalha cabalística

Conversas familiares de além túmulo

Revista Espírita, setembro de 1858

A senhora Schwabenhaus. Letargia extática.

Vários jornais, segundo o Courrier dês États-Unis, narraram o fato seguinte que nos pareceu de natureza a fornecer o assunto para um estudo interessante:

“Uma família alemã, de Baltimore, veio, diz o Courrier dês États-Unis, de ser vivamente emocionada por um singular caso de morte aparente. A senhora Schwabenhaus, doente há algum tempo, parecia haver dado o último suspiro na noite da segunda para terça-feira. As pessoas que a cuidavam puderam observar nela todos os sintomas da morte; seu corpo estava gelado, seus membros rígidos. Depois de ter prestado ao cadáver os últimos deveres, e quando tudo estava pronto, no quarto mortuário, para o sepultamento, os assistentes foram em busca de algum repouso. O senhor Schwabenhaus esgotado pela fadiga, logo os seguiu. Estava entregue a sono agitado, quando, pela seis horas da manhã, a voz de sua mulher veio ferir seu ouvido. Acreditou primeiro ser o joguete de um sonho; mas seu nome, repetido várias vezes, logo não lhe deixou nenhuma dúvida, e se precipitou para o quarto de sua mulher. Aquela que deixara por morta, estava sentada em sua cama, parecendo gozar de todas as suas faculdades e mais forte, do que jamais estivera, desde o começo de sua enfermidade.

“A senhora Schwabenhaus pediu água, depois desejou beber chá e vinho. Ela pediu ao seu marido para ir dormir seu filho que chorava em um quarto vizinho. Mas este último, estava muito emocionado para isso, e correu a despertar todo mundo na casa. A doente acolheu sorrindo seus amigos, seus domésticos, que não se aproximaram de seu leito senão tremendo. Ela não parecia surpresa com os preparativos funerários que impressionavam seu olhar: “Sei que me acreditáveis morta, disse ela, entretanto, eu não estava senão dormindo. Mas durante esse tempo minha alma voou para as regiões celestes; um anjo veio me procurar, e cruzamos o espaço por alguns instantes. Este anjo que me conduzia, é a jovem que perdemos no ano último… Oh! logo eu irei reunir-me a ela… Agora que provei as alegrias do céu, não queria mais viver neste mundo. Pedi ao anjo para vir abraçar, ainda uma vez, meu marido e meus filhos; mas logo ele virá me procurar.”

Às oito horas, depois que ela ternamente pediu permissão ao seu marido, aos seus filhos e a uma multidão de pessoas que a cercava, a senhora Schwabenhaus expirou realmente desta vez, como foi constatado pelos médicos, de modo a não deixar subsistir nenhuma dúvida.

“Esta cena emocionou vivamente os habitantes de Baltimore.”

O Espírito da senhora Schwabenhaus, tendo sido evocado, na sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, no dia 27 de abril último, estabeleceu-se com ele a conversa seguinte.

1. Desejamos, com o objetivo de nos instruir, dirigir-vos algumas perguntas concernentes à vossa morte; tereis a bondade de nos responder? – R. Como não o faria agora que começo a tocar nas verdades eternas, e que sei a necessidade que disso tendes?

2. Lembrai-vos das circunstâncias particulares que precederam vossa morte? – R. Sim, esse momento foi o mais feliz da minha existência terrestre.

3. Durante a vossa morte aparente, ouvíeis o que se passava ao redor de nós e víeis os preparativos de vossos funerais? – R. Minha alma estava muito preocupada com sua felicidade próxima.

Nota. – Sabe-se que, geralmente, os letárgicos vêem e ouvem o que se passa ao redor deles e disso conservam a lembrança ao despertarem. O fato que narramos oferece essa particularidade, que o sono letárgico estava acompanhado de êxtase, circunstância que explica por que a atenção da doente foi desviada.

4. Tínheis a consciência de não estar morta? – R. Sim, mas isso não me era bastante penoso.

5. Poderíeis nos dizer a diferença que fazeis entre o sono natural e o sono letárgico? – R. O sono natural é o repouso do corpo; o sono letárgico é a exaltação da alma.

6. Sofríeis durante a vossa letargia? – R. Não.

7. Como se operou o vosso retomo à vida? – R. Deus permitiu que retomasse para consolar os corações aflitos que me cercavam.

8. Desejaríamos uma explicação mais material. – R. O que chamais o perispírito animava ainda o meu envoltório terrestre.

9. Como ocorreu não vos surpreenderdes, no vosso despertar, com os preparativos que se faziam para vos enterrar? – R. Eu sabia que deveria morrer, todas essas coisas pouco me importavam, uma vez que entrevi a felicidade dos eleitos.

10. Voltando a vós, ficastes satisfeita de ser restituída à vida? – R. Sim, para consolar.

11. Onde estivestes durante o vosso sono letárgico? – R. Não posso dizer-vos toda a felicidade que senti: as línguas humanas não exprimem essas coisas.

12. Vós vos sentis, ainda, na terra ou no espaço? – R. Nos espaços.

13. Dissestes, voltando a vós, que a jovem que havíeis perdido no ano precedente, viera vos procurar; é verdade? – R. Sim, é um Espírito puro.

Nota. – Tudo, nas respostas da mãe, anuncia nela um Espírito elevado; não há, pois, nada de espantar que um Espírito mais elevado esteja ainda unido ao seu por simpatia. Todavia, é necessário não se prender à letra na qualificação de Puro Espírito que os Espíritos se dão, algumas vezes, entre eles. Sabe-se que é preciso entender por isso aqueles de ordem mais elevada, aqueles que, estando completamente desmaterializados e depurados, não estão mais sujeitos à reencarnação: são os Anjos que gozam da vida eterna. Ora, aqueles que não atingiram um grau suficiente, não compreendem ainda esse estado supremo; eles podem, pois, empregar o termo Puro Espírito para designarem uma superioridade relativa, mas não absoluta. Disso temos numerosos exemplos, e a senhora Schwabenhaus nos pareceu estar neste caso. Os Espíritos zombadores se atribuem também, algumas vezes, a qualidade de Puros Espíritos para inspirarem mais confiança às pessoas que querem enganar, e que não têm bastante perspicácia para julgá-los pela sua linguagem, na qual se traem sempre sua inferioridade.

14. Que idade tinha essa criança quando morreu? – R. Sete anos.

15. Como a reconhecestes? – R. Os Espíritos superiores se reconhecem mais depressa.

16. Vós a reconhecestes sob uma forma qualquer? – R. Não a vi senão como Espírito.

17. Que vos dizia ela? – R. Venha, siga-me para o Eterno.

18. Vistes outros Espíritos além daquele da vossa filha? – R. Vi uma quantidade de outros Espíritos, mas a voz da minha criança e a felicidade que pressentia eram minhas únicas preocupações.

19. Durante o vosso retorno à vida, dissestes que iríeis logo reunir-vos à vossa filha; tínheis, pois, consciência de vossa morte próxima? – R. Era para mim uma esperança feliz.

20. Como o sabíeis? – R. Quem não sabe que é preciso morrer? Minha doença mo dizia bem.

21. Qual era a causa da vossa doença? – R. Os desgostos.

22. Que idade tínheis? – R. 48 anos.

23. Deixando a vida definitivamente, tivestes imediatamente uma consciência limpa e lúcida de vossa nova situação? – R. Tive-a no momento de minha letargia.

24. Experimentastes a perturbação que acompanha, ordinariamente, o retorno à vida espírita? – R. Não, eu estava deslumbrada, mas não perturbada.

Nota. – Sabe-se que a perturbação, que se segue à morte, é tanto menor e menos longa quanto o Espírito esteja mais depurado, durante a vida. O êxtase que precedeu a morte dessa mulher era, aliás, um primeiro desligamento da alma dos laços terrestres.

25. Depois de vossa morte, tornastes a ver a vossa filha? – R. Estou freqüentemente com ela.

26. Estais reunida a ela pela eternidade? – R. Não, mas sei que depois de minhas últimas encarnações, estarei na morada onde habitam os Espíritos puros.

27. Vossas provas, pois, não estão findas? – R. Não; entretanto, elas serão felizes agora; não me deixam mais do que esperar, e a esperança é quase a felicidade.

28. Vossa filha havia vivido em outros corpos, antes daquele com o qual era vossa filha? – R. Sim, em muitos outros.

29. Sob qual forma estais entre nós? – R. Sob minha última forma de mulher.

30. Vós nos vedes tão distintamente quanto o faríeis estando viva? – R. Sim.

31. Uma vez que aqui estais sob a forma que tínheis na Terra, é pelos olhos que nos vedes? – R. Mas não, o Espírito não tem olhos; não estou sob a minha última forma senão para satisfazer às leis que regem os Espíritos quando são evocados, e obrigados a retomar o que chamais Perispírito.

32. Podeis ler os nossos pensamentos? – R. Sim, eu o posso: lerei se vossos pensamentos forem bons.

33. Nós vos agradecemos as explicações que consentistes em nos dan reconhecemos pela sabedoria de vossas respostas, que sois um Espírito elevado, e esperamos que gozeis a felicidade que mereceis. – R. Estou feliz em contribuir para a vossa obra; morrer é uma alegria quando se pode ajudar o progresso como pude fazê-lo.

Conversas familiares de além-túmulo - Senhora Schwabenhaus  Letargia extática

Os gritos da São Bartolomeu

Revista Espírita, setembro de 1858

De Saint-Foy, em sua História da ordem do Espírito Santo (edição de 1778), cita a passagem seguinte tirada de uma coletânea escrita pelo marquês Cristophe Juvenal dês Ursins, tenentegeneral de Paris, pelo fim do ano de 1572, e impresso em 1601.

“Em 31 de agosto (1572), oito dias depois do massacre da São Bartolomeu, eu havia jantado no Louvre, na casa da senhora de Fiesques. O calor foi muito grande durante todo o dia. Fomos nos sentar sob a pequena parreira do lado do rio para respirar o fresco; de repente, ouvimos no ar um ruído horrível de vozes tumultuosas e gemidos misturados com gritos de raiva e furor; permanecemos imóveis tomados de medo, nos olhando de tempo em tempo, sem força para falar. Esse barulho durou, creio, quase uma meia hora. O certo é que o rei (Charles IX) o ouviu, ficou apavorado, não dormiu mais durante o resto da noite; entretanto, dele não falou no dia seguinte, mas notava-se que ele parecia sombrio, pensativo e desvairado.

“Se algum prodígio deve não achar incrédulos, é este, atestado por Henri IV. Esse Príncipe, disse d’Aubigné, livro l, cap. VI, p. 561, nos contou várias vezes, entre seus mais familiares e particulares cortesãos (e tenho várias testemunhas vivas de que não nos contou nunca sem se sentir ainda tomado de pavor), que oito horas depois do massacre de São Bartolomeu, viu uma grande quantidade de corvos empoleirar-se e grasnar sobre o pavilhão do Louvre; e que na mesma noite, Charles IX, duas horas depois de se ter deitado, saltou de sua cama, fez levantarem-se os do seu quarto, e os mandou procurar, por ouvir no ar um grande barulho de vozes gementes, em tudo semelhante à que se ouviu na noite dos massacres; que todos esses diferentes gritos eram tão surpreendentes, tão marcados e tão distintamente articulados, que Charles IX, crendo que os inimigos de Montmorency e de seus partidários os surpreenderam e os .atacavam, enviou um destacamento de seus guardas, para impedir esse novo massacre; esses guardas narraram que Paris estava tranqüila, e que todo esse barulho que se ouvia estava no ar.”

Nota. – O fato narrado por de Saint-Foy e Juvenal dês Ursins tem muita analogia com a história do fantasma da senhorita Clairon, relatado em nosso número do mês de janeiro, com a diferença de que neste, um único Espírito se manifestou durante dois anos e meio, ao passo que depois da São Bartolomeu parecia haver deles uma quantidade inumerável que fez ressoar o ar durante alguns instantes somente. De resto, esses dois fenômenos têm, evidentemente, o mesmo princípio que os outros fatos contemporâneos da mesma natureza que reportamos, e deles não difere senão pelo detalhe da forma. Vários Espíritos interrogados sobre a causa dessa manifestação, responderam que era punição de Deus, coisa fácil de se conceber.

Os gritos da São Bartolomeu

Uma advertência de além-túmulo – Anedota relatada pela Patríe

Revista Espírita, setembro de 1858

O fato seguinte foi relatado pela Patrie de 15 de agosto de 1858:

“Terça-feira última, obriguei-me, talvez bastante imprudentemente, a contar-vos uma história comovente. Deveria pensar em uma coisa: que não há histórias comoventes, não há senão histórias bem contadas, e o mesmo relato, feito por dois narradores diferentes, pode adormecer um auditório ou dar-lhe arrepios. Que ouvi eu com meu companheiro de viagem de Cherbourg a Paris, o senhor B…, de quem tenho a anedota maravilhosa! Se tivesse estenografado sua narração, verdadeiramente, teria alguma chance de vos fazer estremecer.

“Mas cometi o erro de reportá-lo à minha detestável memória, e o lamento vivamente. Enfim, tanto bem quanto mal, eis a aventura, e o desfecho nos provará que hoje, 15 de agosto, ela é completamente de circunstância.

“O senhor de S…(um nome histórico considerado ainda hoje com honra) era oficial sob o Diretório. Para seu prazer, ou pelas necessidades de seu serviço, ele viajava para a Itália.

“Em uma de nossas províncias do centro, foi surpreendido pela noite e se considerou feliz por encontrar uma pousada sob o teto de uma espécie de barraco de aparência suspeita, onde lhe ofereceram má ceia e um catre em um celeiro.

“Habituado à vida de aventuras e ao rude serviço da guerra, o senhor de S… comeu com bom apetite, deitou-se sem murmurar e adormeceu profundamente.

“Seu sono foi perturbado por uma aparição horrível. Viu um espectro se levantar na sombra, caminhar com passo pesado para o seu catre, e deter-se à altura da cabeceira de sua cama. Era um homem de uns cinqüenta anos, cujos cabelos grisalhos e eriçados estavam vermelhos de sangue; tinha o peito nu, e sua garganta enrugada estava cortada de feridas abertas. Ficou um momento silencioso, fixando seus olhos negros e profundos sobre o viajante adormecido; depois, sua figura pálida se animou, suas pupilas irradiaram como dois carvões ardentes; pareceu fazer um violento esforço, e, com voz surda e tremente, pronunciou estas estranhas palavras:

“- Eu te conheço, és soldado como eu, como eu homem de coração e incapaz de faltar à palavra. Venho pedir-te um serviço que outros me prometeram e não cumpriram. Há três semanas fui morto; o hospedeiro desta casa, ajudado por sua mulher, me surpreendeu durante meu sono e me cortou a garganta. Meu cadáver está escondido sob um montão de lixo, à direita, no fundo do galinheiro. Amanhã, vá procurar a autoridade do lugar, conduza dois policiais e me faça sepultar. O hospedeiro e sua mulher se trairão, por si mesmos, e tu os entregarás à justiça. Adeus, conto com tua piedade; não esqueça o pedido de um velho companheiro de armas.

“O senhor de S…, despertando se lembrou de seu sonho. A cabeça apoiada sobre o cotovelo, ele se pôs a meditar; sua emoção era viva, mas se dissipa diante das primeiras claridades do dia, e ele se diz como Athalie:

Um sonho! devo me inquietar com um sonho!

Violentou seu coração e não escutando senão sua razão, fechou sua valise e continuou sua viagem.

“À tarde, ele chegou a sua nova etapa e se deteve para passar a noite em uma estalagem. Mas, apenas havia fechado os olhos, o espectro lhe apareceu uma segunda vez, triste e quase ameaçador.

“- Eu me admiro e me aflijo, disse o fantasma, dever um homem como tu se perjurar e faltar ao seu dever. Esperava mais de tua lealdade, meu corpo está insepulto, meus assassinos vivem em paz. Amigo, minha vingança está em tua mão; em nome da honra, eu te intimo a retornar sobre teus passos.

“O senhor de S… passou o resto da noite numa grande agitação; chegou o dia, teve vergonha de seu medo e continuou sua viagem.

“À tarde, terceira parada, terceira aparição. Desta vez, o fantasma estava mais lívido e mais terrível; um sorriso amargo errava sobre seus lábios brancos; falou com uma voz rude:

“Parece que te julguei mal: parece que teu coração, como o dos outros, é insensível aos pedidos dos infortunados. Uma última vez venho invocar tua ajuda e apelar à tua generosidade. Retorne a X…, vinga-me, ou seja maldito.

“Desta vez, o senhor de S… não deliberou mais: voltou atrás até a estalagem suspeita onde havia passado a primeira de suas noites lúgubres. Foi à casa do magistrado, e pediu dois soldados. À sua vista, à vista dos dois soldados, os assassinos empalideceram, e confessaram seu crime, como se uma força superior lhes arrancasse essa confissão fatal.

“Seu processo se instruiu rapidamente, e eles foram condenados à morte. Quanto ao pobre oficial, cujo cadáver se encontrou sob o monte de lixo, à direita, no fundo do galinheiro, foi sepultado em terra santa e os sacerdotes oraram pelo repouso de sua alma.

“Tendo cumprido sua missão, o senhor de S… se apressou em deixar o país e correu para os Alpes sem olhar para trás.

“A primeira vez que ele repousou em um leito, o fantasma se dirige ainda diante de seus olhos, não mais bravo e irritado, mas doce e benevolente.

“- Obrigado, disse ele, obrigado, irmão. Quero reconhecer o serviço que me prestaste: mostrar-me-ei a ti uma vez ainda, uma só; duas horas antes de tua morte, virei advertir-te. Adeus.

“O senhor de S… tinha então ao redor de trinta anos; durante trinta anos, nenhuma visão veio perturbar a quietude de sua vida. Mas em 182…, dia 14 de agosto, véspera da festa de Napoleão, o senhor de S…, que permanecera fiel ao partido bonapartista, reuniu num grande jantar uma vintena de antigos soldados do Império. A festa estava muito alegre; o anfitrião, se bem que velho, todavia, estava bem conservado e bem. Estava no salão e tomava-se o café.

“O senhor de S… teve vontade de tomar uma pitada e percebeu que esquecera sua tabaqueira no quarto. Tinha o hábito de servir-se, ele mesmo; deixou um momento seus hóspedes e subiu para o primeiro andar de sua casa, onde se achava o seu quarto de dormir.

“Não havia acendido a luz.

“Quando entrou num longo corredor que conduzia ao seu quarto, se deteve de repente, e foi forçado a se apoiar contra a parede. Diante dele, na extremidade da galeria, estava o fantasma do homem assassinado; o fantasma não pronunciou nenhuma palavra, nem fez nenhum gesto, e, depois de um segundo, desapareceu.

“Era a advertência prometida.

“O senhor de S…, que tinha a alma forte, depois de um momento de desfalecimento, reencontrou sua coragem e seu sangue frio, caminhou para seu quarto, ali tomou sua tabaqueira e desceu de novo para o salão.

“Quando ele entrou, nenhum sinal de emoção aparecia em seu rosto. Misturou-se à conversação, e, durante uma hora mostrou todo o seu espírito e toda a sua jovialidade costumeiros.

“Em minutos seus convidados se retiraram. Então, ele se sentou e passou três quartos de hora no recolhimento; depois tendo posto em ordem seus negócios, se bem que não sentisse nenhuma moléstia, retornou ao seu quarto de dormir.

“Quando abriu a porta, um tiro o estendeu morto, justo duas horas depois da aparição do fantasma.

“A bala que lhe despedaçou o crânio era destinada ao seu empregado.

“HENRY D’AUDIGIER.”

O autor do artigo quis, a todo preço, cumprir a promessa que fizera ao jornal de contar alguma coisa de emocionante, e para esse efeito tomou a anedota que narra com sua fecunda imaginação, ou ela é real? É o que não sabemos afirmar. De resto, isso não é o mais importante; verdadeiro ou suposto, o essencial é saber se o fato é possível. Pois bem, não hesitaremos em dizer: Sim, as advertências de além-túmulo são possíveis, e numerosos exemplos cuja autenticidade não poderia ser posta em dúvida, aí estão para atestá-lo. Se, pois, a anedota do senhor Henry d’Audigier é apócrifa, muitas outras, do mesmo gênero, não o são; diremos mesmo que esta não oferece nada senão bastante comum. A aparição ocorreu em sonho, circunstância muito vulgar, ao passo que é notório que elas podem se produzir à visão durante o estado de vigília. A advertência do instante da morte não é mais insólita; os fatos desse gênero são muito mais raros, porque a Providência, em sua sabedoria, nos oculta esse momento fatal. Não é, pois, senão excepcionalmente que pode nos ser revelado, e por motivos que nos são desconhecidos. Eis aqui um outro exemplo mais recente, menos dramático, é verdade, mas cuja exatidão podemos garantir.
O senhor Watbled, negociante, presidente do tribunal de comércio de Boulogne, morreu em 12 de julho último, nas circunstâncias seguintes: Sua mulher, que ele havia perdido há doze anos, e cuja morte lhe causava desgostos incessantes, apareceu-lhe durante duas noites consecutivas, nos primeiros dias de junho, e lhe disse: Deus tem piedade de nossas penas e quer que estejamos logo reunidos. Ela acrescentou que o 12 de julho seguinte era o dia marcado para essa reunião e que, em conseqüência, ele deveria preparar-se. Desse momento, com efeito, uma mudança notável se operou nele; enfraquecia dia a dia, logo caiu de cama, e sem sofrimento nenhum, no dia marcado, deu o último suspiro entre os braços de seus amigos.

O fato em si mesmo não é contestável, os céticos podem argumentar sobre a causa, que não faltarão de atribuí-la à imaginação. Sabe-se que semelhantes predições, feitas por ledores de sorte, seguiram-se de um desenlace fatal; concebe-se, neste caso, que a imaginação estando impressionada com essa idéia, os órgãos possam com isso experimentar uma alteração radical: o medo de morrer mais de uma vez causou a morte; mas aqui as circunstâncias não são as mesmas. Aqueles que aprofundaram os fenômenos do Espiritismo podem perfeitamente compreender o fato; quanto aos céticos, não têm senão um argumento: Eu não creio, portanto isso não é nada. Os Espíritos, interrogados a esse respeito, responderam: “Deus escolheu esse homem que era conhecido de todos, a fim de que esse conhecimento se estendesse ao longe e levasse a refletir.” – Os incrédulos pedem, sem cessar, provas; Deus lhas dá, a cada instante, pelos fenômenos que surgem de todas as partes; mas a eles se aplicam estas palavras: Têm olhos e não verão; têm ouvidos e não ouvirão.

Uma advertência de além-túmulo - Anedota relatada pela Patríe

Platão: doutrina de escolha das provas

Revista Espírita, setembro de 1858

Vimos, pelos curiosos documentos célticos que publicamos em nosso número de abril, a doutrina da reencarnação professada pelos Druidas, segundo o princípio da marcha ascendente da alma humana, à qual faziam percorrer os diversos graus da nossa escala espírita. Todo o mundo sabe que a idéia da reencarnação remonta à mais alta antigüidade, e que o próprio Pitágoras a hauriu entre os Indianos e os Egípcios. Não é, pois, de se admirar que Platão, Sócrates e outros, partilhassem uma opinião admitida pelos mais ilustres filósofos da época; mas o que, talvez, seja mais notável é encontrar, nessa época, o princípio da doutrina de escolha das provas, ensinada hoje pelos Espíritos, doutrina que pressupõe a reencarnação sem a qual não teria nenhuma razão de ser. Não discutiremos hoje essa teoria, que estava tão longe do nosso pensamento quando os Espíritos no-la revelaram, que nos surpreendeu estranhamente, porque o confessamos, com toda a humildade, que o que Platão havia escrito sobre esse assunto especial, nos era, então, totalmente desconhecido, prova nova, entre mil, que as comunicações que nos foram feitas não são o reflexo de nossa opinião pessoal.

Quanto à de Platão, constatamos simplesmente a idéia principal, podendo cada um facilmente convir quanto à parte da forma sob a qual ela é apresentada, e julgar os pontos de contato que pode ter, em certos detalhes, com a nossa teoria atual. Em sua alegoria do Fuso da necessidade, supõe uma conversa entre Sócrates e Glauco, e empresta ao primeiro o discurso seguinte sobre as revelações do Armênio Er, personagem fictício, segundo toda a probabilidade, embora alguns o tomem por Zoroastro.

Compreender-se-á, facilmente, que esse relato não é senão um quadro imaginado para conduzir à idéia principal: a imortalidade da alma, a sucessão das existências, a escolha dessas existências por efeito do livre arbítrio, enfim, as conseqüências felizes ou infelizes da escolha, freqüentemente imprudente, proposições que se encontram, todas, em O Livro dos Espíritos, e que vêm confirmar os numerosos fatos citados nesta revista.

“A narração que vou lembrar-vos, disse Sócrates a Glauco, é a de um homem de coração, Er, o Armênio, originário de Panfília. Foi morto em uma batalha. Dez dias depois, como se carregavam os cadáveres, já desfigurados, daqueles que tombaram com ele, o seu foi encontrado são e inteiro. Levaram-no para casa para fazerem seus funerais, e no segundo dia, quando estava sobre a fogueira, ele reviveu e contou o que vira na outra vida.

“Logo que a sua alma saiu de seu corpo, partiu com uma multidão de outras almas e chegou a um lugar maravilhoso, onde se viam, na terra, duas aberturas, vizinhas uma da outra, e duas outras aberturas no céu que correspondiam àquelas. Entre essas duas regiões estavam sentados os juizes. Desde que pronunciavam uma sentença, ordenavam aos justos para tomarem seu caminho à direita, por uma das aberturas do céu, depois de lhes afixar à frente um letreiro contendo o julgamento dado em seu favor, e aos maus de tomarem o caminho à esquerda, nos abismos, tendo atrás do dorso um escrito semelhante, onde estavam marcadas todas as suas ações. Quando, por sua vez, se apresentou, os juizes declararam que ele deveria levar aos homens a novidade do que se passava nesse outro mundo, e lhe ordenaram escutar e observar tudo o que se lhe oferecia.

“Viu primeiro as almas julgadas desaparecerem, umas subindo ao céu, outras descendo sob a terra pelas duas aberturas que se correspondiam: enquanto que, pela segunda abertura, via saírem as almas cobertas de pó e de imundície, ao mesmo tempo, pela segunda abertura do céu desciam outras almas puras e sem mácula. Todas pareciam vir de uma longa viagem e deterem-se com prazer na campina como num lugar de reunião. Aquelas que se conheciam, se saudavam, umas às outras, e perguntavam as novidades do que se passava nos lugares de onde vinham: o céu e a terra. Aqui, entre os gemidos e as lágrimas, evocava-se tudo o que se sofrerá, ou vira sofrer, viajando sob a terra; lá, contavam-se as alegrias do céu e a felicidade de contemplar as maravilhas divinas.

“Seria muito longo seguir o discurso inteiro do Armênio, mas eis, em suma, o que dizia. Cada uma das almas levava dez vezes a pena das injustiças que cometera durante a vida. A duração de cada punição era de cem anos, duração natural da vida humana, a fim de que o castigo fosse, sempre, o décuplo para cada crime. Assim os que fizeram perecer em grande quantidade seus semelhantes, atraiçoado cidades, exércitos, reduzido seus concidadãos à escravidão ou cometido outros crimes enormes, eram atormentados no décuplo para cada um dos seus crimes. Aqueles, ao contrário, que fizeram o bem ao seu redor, que foram justos e virtuosos, recebiam, na mesma proporção, a recompensa de suas boas ações. O que dizia das crianças que a morte levou pouco tempo após o seu nascimento, merece menos ser repetido; mas assegurava que ao ímpio, ao filho desnaturado, ao homicida, estavam reservadas as penas mais cruéis, e ao homem religioso e ao bom filho as maiores felicidades.

“Presenciara quando uma alma perguntou a uma outra onde estava o grande Ardieu. Esse Ardieu fora um tirano de uma cidade de Panfília mil anos antes; ele havia matado seu velho pai, seu irmão mais velho, e cometido, dizia-se, vários outros crimes enormes. “Ele não veio, respondeu a alma, e não virá jamais aqui. Todos fomos testemunhas, a esse respeito, de um horrível espetáculo. Quando estávamos sobre o ponto de sair do abismo, depois de cumprirmos nossas penas, vimos Ardieu e um grande número de outros, dos quais a maioria eram tiranos como ele ou seres que, numa condição particular, haviam cometido grandes crimes: faziam vãos esforços para subirem, e todas as vezes que esses culpados, cujos crimes eram irremediáveis, ou não haviam suficientemente expiado, tentavam sair, o abismo repelia-os rugindo. Então personagens horríveis, de corpo inflamado, que se achavam lá, acorriam a esses gemidos. Carregaram primeiro, com viva força, um certo número desses criminosos; quanto a Ardieu e aos outros, uniram-lhes os pés, as mãos e a cabeça, e os tendo lançado à terra e os esfolado à força de pancadas, arrastaram-nos fora do caminho, através de sarças sangrantes, repetindo às sombras, à medida que passava algum: “Eis tiranos e homicidas, nós os carregamos para lançá-los no Tártaro.”

Essa alma acrescentou que, entre tantos objetos terríveis, nada lhe causou mais medo do que o mugido do abismo, e que foi uma extrema alegria para ela sair dali em silêncio.

“Tais eram, mais ou menos, os julgamentos das almas, seus castigos e suas recompensas.

“Depois de sete dias de repouso nessa campina, as almas deveram dali partir no oitavo, e se puseram na estrada. Ao cabo de quatro dias de caminho, perceberam no alto, sobre toda a superfície do céu e da terra, uma imensa luz, direita como uma coluna e semelhante à íris, mas mais brilhante e mais pura. Um único dia bastou-lhes para atingi-la, e elas viram, então, na direção do meio dessa muralha, a extremidade das correntes que nela prendem os céus. Aí está o que a sustenta, é o envoltório do vaso do mundo, o vasto cinto que o rodeia. No topo, estava suspenso o Fuso da necessidade, ao redor do qual se formam todas as circunferências (1).

((1) Essas são as diversas esferas dos planetas ou os diversos estágios do céu, girando ao redor da Terra fixada ao próprio eixo do fuso. (V. COUSIN))

“Ao redor do Fuso, e a distâncias iguais, tinham assento sobre os tronos as três Parcas: Láqueis, C loto e Átropos, vestidas de branco e com a cabeça coroada com uma faixinha. Elas cantavam, unindo-se ao concerto das sereias: Láqueis o passado, Cloto o presente, Átropos o futuro. Cloto tocava, por intervalos, com a mão direita, o exterior do fuso; Átropos, com a mão esquerda, imprimia movimento aos círculos internos, e Láqueis, com uma e com a outra mão, alternativamente, tocava ora o fuso, ora as balanças interiores.

“Logo que as almas chegavam, era-lhes preciso se apresentarem diante de Láqueis. Primeiro um hierofante faziam-nas enfileirar em ordem, uma depois da outra. Em seguida, tendo tomado de sobre os joelhos de Láqueis as sortes ou números na ordem pela qual a alma deveria ser chamada, assim como as diversas condições humanas oferecidas à sua escolha, montado em um estrado, falava assim: ” Eis o que disse a virgem Láqueis, filha da Necessidade; Almas passageiras, ides começar uma nova carreira e renascer na condição mortal. Não se vos assinalará vosso gênio, será vós que o escolhereis por vós mesmas. Aquela primeira que a sorte chamar escolherá, e sua escolha será irrevogável. A virtude não está com ninguém: ela se prende a quem a honre, e abandona quem a negligencia. Cada um é responsável por sua escolha, Deus é inocente.” A essas palavras esparramou os números, e cada alma pegou aquele que caiu diante dela, exceto o Armênio, aquém não se lhe permitiu. Em seguida o hierofante expôs sobre a terra, diante delas, os gêneros de vida de toda espécie, em número muito maior que não havia de almas reunidas.

A variedade deles era infinita; ali se achavam, ao mesmo tempo, todas as condições de homem, assim como de animais. Havia tiranias: umas que duram até a morte, as outras bruscamente interrompidas acabando na pobreza, no exílio e no abandono. A ilustração se mostrava sob várias faces: podia-se escolher a beleza, a arte de agradar, os combates, a vitória ou a nobreza de raça. Condições sociais completamente obscuras por todos esses lugares, ou intermediárias, misturas de riqueza e de pobreza, de saúde e de enfermidade, eram oferecidas à escolha: haviam, também, condições de mulher da mesma variedade.

“Evidentemente, aí está, caro Glauco, a prova terrível para a Humanidade. Que cada um de nós nela pense, e que deixe todos os vãos estudos, para não se entregar senão à ciência que faz a sorte do homem. Procuremos um mestre que nos ensine a discernir o bom e o mau destino, e a escolher todo o bem que o céu nos entrega. Examinemos com ele quais situações humanas, separadas ou reunidas, conduzem às boas ações: se a beleza, por exemplo, unida à pobreza ou à riqueza, ou se tal disposição da alma deve produzir a virtude ou o vício; que vantagem pode ter um nascimento brilhante ou comum, a vida privada ou pública, a força ou a fraqueza, a instrução ou a ignorância, enfim, tudo o que o homem recebe da Natureza e tudo o que tem de si mesmo. Esclarecidos pela consciência, decidamos qual destino nossa alma deve preferir. Sim, o pior dos destinos é aquele que a toma injusta, e o melhor aquele que a formará, sem cessar, para a virtude: tudo o mais nada é para nós. Iríamos esquecer que não há nenhuma escolha mais salutar depois da morte como durante a vida! Ah! que esse dogma sagrado se identifique para sempre com a nossa alma, a fim de que ela não se deixe ofuscar, lá embaixo, nem pelas riquezas nem pelos outros males dessa natureza, e que ela não se exponha, lançando-se na condição do tirano ou em qualquer outra semelhante, a cometer um grande número de males sem remédio e a sofrê-los ainda maiores.

“Segundo o relato de nosso mensageiro, o hierofante dissera: Aquele que escolherá por último, contanto que o faça com discernimento, e que em seguida seja conseqüente em sua conduta, pode se prometer uma vida feliz. Aquele que escolherá primeiro, guarde-se de muita confiança, e que o último não se desespere.” Então aquele que a sorte nomeou o primeiro avançou com diligência e escolheu a mais considerável tirania; levado por sua imprudência e sua avidez, e sem considerar suficientemente o que fazia, não viu essa fatalidade ligada ao objeto de sua escolha de ter que comer, um dia, a carne de seus próprios filhos e bem outros crimes horríveis. Mas quando ela considerou a sorte que havia escolhido, gemeu, lamentou-se, e esquecendo as lições do hierofante, acabou por acusar de seus males a fortuna, os gênios, tudo, exceto ela mesma (1).

((1) Os Antigos não atribuíam a palavra tirano a mesma idéia que nós; davam esse nome a todos aqueles que se apoderavam do poder soberano, quaisquer que fossem suas qualidades, boas ou más. A história cita tiranos que fizeram o bem; mas como, mais freqüentemente, ocorria o contrário, e, para satisfazer sua ambição ou se manter no poder, nenhum crime lhes importava, essa palavra tomou-se, mais tarde, sinônimo de cruel, e se diz de todo homem que abusa de sua autoridade.

A alma da qual Er fala, escolhendo a mais considerável tirania, não buscara a crueldade mas, simplesmente, o poder mais vasto como condição de sua nova existência; quando sua escolha fez-se irrevogável, ela percebeu que esse mesmo poder a arrastaria ao crime, e lamentou fazê-lo, acusando de seus males todos, exceto ela mesma; é a história da maioria dos homens que são os artífices de sua própria infelicidade sem querer confessá-lo.)

Essa alma era do número daquelas que vieram do céu: ela vivera, precedentemente, em um estado bem governado e fizera o bem pela força do hábito antes que por filosofia. Eis por que, entre aquelas que caíam em semelhantes decepções, as almas vindas do céu não eram as menos numerosas, por falta de terem sido experimentadas pelos sofrimentos. Ao contrário, aquelas que, tendo passado por moradas subterrâneas, sofreram e viram sofrer, não escolhiam assim às pressas. Daí, independentemente do risco das classes para serem chamadas a escolher, uma espécie de troca de bens e de males para a maioria das almas. Assim, um homem que, a cada renovação da sua vida neste mundo, se aplicasse constantemente a sã filosofia e tivesse a felicidade de não ter as últimas sortes, aparentemente, depois desse relato, não somente seria feliz neste mundo, mais ainda que, em sua viagem daqui para lá embaixo, e em seu retorno, caminharia pela via unida ao céu e não pela vereda penosa do abismo subterrâneo.

“O Armênio acrescentava que era um espetáculo curioso de se ver a maneira pela qual cada alma fazia sua escolha. Nada de mais estranho e mais digno, ao mesmo tempo, de compaixão e de zombaria. Era, na maior parte do tempo, segundo seus hábitos da vida anterior, que fazia a sua escolha. Er vira a alma que havia pertencido a Orfeu escolher a alma de um cisne, por ódio das mulheres que lhe deram a morte, não querendo dever seu nascimento a nenhuma delas; a alma de Thomyres escolhera a condição de um rouxinol; e, reciprocamente, um cisne, assim como outros músicos como ele, adotaram a natureza do homem. Uma outra alma, a vigésima chamada a escolher, tomou a natureza de um leão: era Ajax, filho de Telamon.

Ele detestava a humanidade, recordando-se do julgamento que lhe tirara as armas de Aquiles. Depois desta, veio a alma de Agamenon, que suas infelicidades tomaram, também, o inimigo dos homens: ele tomou a condição de águia. A alma de Atalanta, chamada a escolher, pela metade, considerando as grandes honras prestadas aos atletas, não pôde resistir ao desejo de se tornar atleta. Epeu, que construiu o cavalo de Tróia, tomou-se uma mulher laboriosa. A alma do bobo Tersita, das últimas a se apresentarem, revestiu as formas de um macaco. A alma de Ulisses, a quem o acaso dera o último destino, veio também para escolher: mas a recordação de seus longos revezes, tendo-o desenganado da ambição, procurou por muito tempo e descobriu, com dificuldade, em um canto, a vida tranqüila de um homem privado, que todas as outras almas deixaram à parte. Descobrindo-o, disse que, mesmo que tivesse sido a primeira a escolher, não teria feito outra escolha. Os animais, quaisquer que sejam, passam igualmente uns nos outros ou nos corpos de homens: aqueles que foram maus, tornam-se bestas ferozes, e os bons, animais domésticos.

“Depois que todas as almas fizeram escolha de uma condição, elas se aproximaram de Láqueis, na ordem segundo a qual haviam escolhido. A Parca deu, a cada uma, o gênio que ela havia preferido, a fim de que lhe servisse de guardião durante a sua vida, e a ajudasse a cumprir o seu destino. Esse gênio primeiro a conduzia a Cloto que, com sua mão e com um giro do fuso, confirmava o destino escolhido. Depois de ter tocado o fuso, conduzia-a daí para Átropos, que enrolava o fio para tornar irrevogável o que fora tecido por Cloto. Em seguida avançava-se para o trono da Necessidade, sob o qual a alma e seu gênio passavam juntos. Logo que todas passaram, elas seguiram para o espaço cheio de Letes (o Esquecimento) (1), ( (1) Alusão ao esquecimento que se segue à passagem de uma existência à outra.) onde toleraram um calor insuportável, porque não havia nem árvore e nem planta.

Chegada a tarde, elas passaram a noite junto do rio Ameles (ausência de pensamentos sérios), rio do qual nenhum vaso podia conter a água: se era obrigado a dele beber mas os imprudentes dele beberam muito. Aqueles que dele bebem sem parar, perdem a memória. Dormiu-se depois; mas, pelo meio da noite, sobreveio um estrondo de trovão com um tremor de terra: logo as almas foram dispersadas, aqui e ali, para os diversos pontos de seu nascimento terrestre, como estrelas que jorrassem, de repente, do céu. Quanto a ele, disse Er, impediram-no de beber da água do rio: entretanto, não sabia onde e nem como sua alma se reuniu ao seu corpo; mas pela manhã, tendo de repente aberto os olhos, percebeu que estava estendido sobre a fogueira.

“Tal é o mito, caro Glauco, que a tradição fez viver até nós. Ele pode nos preservar de nossa perda: se lhe acrescentarmos fé, passaremos felizes o Letes e manteremos nossa alma pura de toda mancha.”

platão doutrina das escolhas das provas

As habitações do planeta Júpiter

Revista Espírita, agosto de 1858

(pelo senhor Victorien Sardou)

Um grande motivo de espanto para certas pessoas, convencidas aliás da existência dos Espíritos (não vou aqui me ocupar das outras), é que tenham, como nós, suas habitações e suas cidades. Não me pouparam as críticas: “Casas de Espíritos em Júpiter!… Que gracejo!…” – Gracejo, se assim se o deseja; nada tenho com isso. Se o leitor não encontra aqui, na verossimilhança de explicações, uma prova suficiente de sua verdade; se não está surpreso, como nós, quanto ao perfeito acordo dessas revelações espíritas com os dados mais positivos da ciência astronômica; se não vê, numa palavra, senão uma hábil mistificação nos detalhes que seguem e nos desenhos que os acompanham, convido-o a se explicar com os Espíritos, dos quais não sou senão um instrumento e o eco fiel. Que ele evoque Palissy ou Mozart ou um outro habitante dessa morada bem-aventurada, que o interrogue, que controle minhas afirmações pelas suas, enfim, que discuta com ele: porque, por mim, não faço senão apresentar aqui o que me foi dado, senão repetir o que me foi dito; e para esse papel absolutamente passivo, creio-me ao abrigo tanto da censura como também do elogio.

Feita essa reserva, e uma vez admitida a confiança nos Espíritos, aceita como verdade a única doutrina verdadeiramente bela e sábia que a evocação dos mortos nos revelou até hoje, quer dizer, a migração das almas de planetas em planetas, suas encarnações sucessivas e seu progresso incessante pelo trabalho, as habitações de Júpiter não terão mais motivo para nos espantar. Desde o momento em que um Espírito se encarna em um mundo submetido, como o nosso, a uma dupla revolução, quer dizer, à alternativa de dias e de noites e ao retorno periódico das estações, do momento em que ele possui um corpo, esse envoltório material, tão frágil que seja, não pede senão uma alimentação e roupas, mas também um abrigo ou, pelo menos, um lugar de repouso, conseqüentemente uma moradia. Com efeito, é bem o que nos foi dito. Como nós, e melhor do que nós, os habitantes de Júpiter têm seus lares comuns e suas famílias, grupos harmônicos de Espíritos simpáticos, unidos no triunfo depois de sê-lo na luta: daí as habitações tão espaçosas, as quais se pode aplicar, com justiça, o nome de palácios. Ainda como nós, esses Espíritos têm suas festas, suas cerimônias, suas reuniões públicas: daí certos edifícios especialmente destinados a esses usos. É preciso prever, enfim, encontrar nessas regiões superiores toda uma Humanidade ativa e laboriosa, como a nossa, submetida como nós às suas leis, às suas necessidades, aos seus deveres; mas com essa diferença de que o progresso, rebelde aos nossos esforços, torna-se uma conquista fácil para os Espíritos desligados, como eles o são, de nossos vícios terrestres.

Não deveria me ocupar aqui senão da arquitetura das suas habitações, mas para a própria inteligência dos detalhes que vão seguir, uma palavra de explicação não será inútil. Se Júpiter não é abordável senão pelos bons Espíritos, não se segue que seus habitantes sejam todos excelentes no mesmo grau: entre a bondade do simples e a do homem de gênio, é permitido contar muitas nuanças. Ora, toda a organização social desse mundo superior repousa precisamente sobre essas variedades de inteligências e de aptidões; e, em razão de leis harmoniosas, que seria muito longo explicar aqui, aos Espíritos mais elevados, os mais depurados, é que pertence a alta direção de seu planeta. Essa supremacia não se detém aí; ela se estende até os mundos inferiores, onde esses Espíritos, por suas influências, favorecem e ativam sem cessar o progresso religioso, gerador de todos os outros. E necessário acrescentar que, para esses Espíritos depurados, não poderia ser questão senão de trabalho de inteligência, que sua atividade não se exerce mais do que no domínio de seu pensamento, e que adquiriram bastante império sobre a matéria para não serem, senão fracamente, entravados por ela no livre exercício de suas vontades? Os corpos de todos esses Espíritos, e, aliás, de todos os Espíritos que habitam Júpiter, é de uma densidade tão leve que não se pode lhe encontrar termo de comparação senão nos fluidos imponderáveis; um pouco maior do que o nosso, do qual reproduz exatamente a forma, porém mais pura e mais bela, se nos oferece sob a aparência de um vapor (emprego com pesar essa palavra que designa uma substância ainda muito grosseira), de um vapor, digo, imperceptível e luminoso, luminoso sobretudo nos contornos do rosto e da cabeça; porque aqui a inteligência e a vida irradiam como um foco ardente; e é bem esse clarão magnético entrevisto pelos visionários cristãos e que nossos pintores traduziram pelo nimbo e pela auréola dos santos.

Concebe-se que um tal corpo não dificulte, senão fracamente, as comunicações extramundanas desses Espíritos, e que lhes permite mesmo, em seu planeta, um deslocamento pronto e fácil. Ele escapa tão facilmente à atração planetária e sua densidade difere tão pouco da atmosfera, que pode aí se mover, ir e vir, descer ou subir, ao capricho do Espírito e sem outro esforço que o da sua vontade. Tanto que algumas personagens que Palissy consentiu me fazer desenhar, estão representadas ao rasante do solo, ou à flor da água, ou muito elevadas no ar, com toda liberdade de ação e de movimentos que emprestamos aos nossos anjos. Essa locomoção é tanto mais fácil para o Espírito quanto mais esteja depurado, e isso se concebe sem dificuldade; também nada é mais fácil, aos habitantes do planeta, que estimar, à primeira vista, o valor de um Espírito que passa; dois sinais falarão por ele: a altura do seu vôo e a luz mais ou menos brilhante de sua auréola.

Em Júpiter, como por toda parte, aqueles que voam mais alto são os mais raros; abaixo deles, é preciso contar várias camadas de Espíritos inferiores, em virtude como em poder, mas naturalmente livres para igualá-los, um dia, em se aperfeiçoando. Escalonados e classificados segundo seus méritos, estes são votados mais particularmente aos trabalhos que interessam ao próprio planeta, e não exercem, sobre os mundos inferiores, a autoridade todo-poderosa dos primeiros. Eles respondem, é verdade, a uma evocação, com palavras sábias e boas, mas à pressa que tem em nos deixar, ao laconismo de suas palavras, é fácil de compreender que têm muito a fazer alhures, e que não estão ainda bastante libertos para irradiarem, ao mesmo tempo, sobre dois pontos tão distantes um do outro.

Enfim, depois dos menos perfeitos desses Espíritos, mas separados deles por um abismo, vêm os animais que, como os únicos serviçais e os únicos obreiros do planeta, merecem uma menção toda especial.

Se designamos sob esse nome de animais os seres bizarros que ocupam a base da escala, foi porque os próprios Espíritos o puseram em uso e, aliás, nossa própria língua não tem termo melhor para nos oferecer. Essa designação os deprecia um pouco para baixo; mas chamá-los de homens seria fazer-lhes muita honra: com efeito, são Espíritos votados à animalidade, talvez por longo tempo, talvez para sempre; porque nem todos os Espíritos estão de acordo sobre esse ponto, e a solução do problema parece pertencer a mundos mais elevados do que Júpiter, mas, qualquer que seja o seu futuro, não há com que se enganar quanto ao seu passado. Esses Espíritos, antes de irem para lá, emigraram sucessivamente em nossos baixos mundos, do corpo de um animal para o de um outro, em uma escala de aperfeiçoamento perfeitamente graduada. O estudo atento dos nossos animais terrestres, seus costumes, seus caracteres individuais, sua ferocidade longe do homem, e sua domesticação lenta mas sempre possível, tudo isso atesta suficientemente a realidade dessa ascensão animal.

Assim, para qualquer lado que se volte, a harmonia do Universo se resume sempre numa única lei: o progresso por toda parte e para todos, para o animal como para a planta, para a planta como para o mineral; progresso puramente material no início, nas moléculas insensíveis do metal ou do calhau, e mais e mais inteligente à medida que remontamos à escala dos seres e que a individualidade tende a se libertar da massa, a se afirmar, a se conhecer. – Pensamento elevado e consolador, se assim não fora jamais; porque prova que nada é sacrificado, que a recompensa é sempre proporcional ao progresso alcançado; por exemplo, que o devotamento do cão que morre por seu senhor não será estéril para o seu Espírito, porque terá seu justo salário além deste mundo.

É o caso dos Espíritos animais que povoam Júpiter; aperfeiçoaram-se ao mesmo tempo que nós, conosco e com a nossa ajuda. A lei é mais admirável ainda: ela faz tão bem do seu devotamento ao homem a primeira condição para a sua ascensão planetária, que a vontade de um Espírito de Júpiter pode chamar para si todo animal que, em uma das suas vidas anteriores, lhe haja dado provas de afeição. Essas simpatias que formam, no Mais Alto, famílias de Espíritos, agrupam também, ao redor das famílias, todo um cortejo de animais devotados. Por conseqüência, nosso apego neste mundo por um animal, o cuidado que tomamos para abrandá-lo e humanizá-lo, tudo isso tem a sua razão de ser, tudo isso será pago: é um bom servidor que formamos antecipadamente para um mundo melhor.

Será também um operário; porque aos seus semelhantes está reservado todo trabalho material, toda tarefa corporal: fardo ou alvenaria, semeadura ou colheita. E, para tudo isso, a Suprema Inteligência proveu por um corpo que participa, ao mesmo tempo, da superioridade da besta e da do homem. Isso podemos julgar por um esboço de Palissy, que representa alguns desses animais muito atentos a jogarem bolas. Eu não poderia melhor compará-los senão aos faunos e aos sátiros da Fábula; o corpo ligeiramente peludo é todavia aprumado como o nosso; as patas desapareceram em alguns para darem lugar a certas pernas que lembram ainda a forma primitiva, a dois braços robustos, singularmente ligados e terminados por verdadeiras mãos, se nelas considero a oposição dos dedos. Coisa bizarra, a cabeça, ao contrário, não é tão aperfeiçoada quanto o resto! Assim, a fisionomia reflete bem alguma coisa de humano, mas o crânio, mas o maxilar e, sobretudo, a orelha, nada têm que diferem sensivelmente do animal terrestre; fácil é, pois, distingui-los entre si: este é um cão, aquele um leão. Propriamente vestidos com blusas e vestes muito semelhantes às nossas, não esperam mais do que a palavra para lembrarem, de muito perto, certos homens deste mundo; mas, eis precisamente o que lhes falta, assim como o que não poderiam fazer. Hábeis para se compreenderem entre si por uma linguagem que nada tem da nossa, não se enganam mais sobre as intenções dos Espíritos que os comandam; um olhar, um gesto bastam. A certos recursos magnéticos, dos quais nossos domadores de animais já têm o segredo, o animal adivinha e obedece sem murmurar, e o que é mais, de bom grado, porque está sob o encanto. Assim é que se lhe impõe toda grande tarefa, e que com a sua ajuda tudo funciona regularmente de um extremo ao outro da escala social: o Espírito elevado pensa, delibera, o Espírito inferior aplica com a sua própria iniciativa, o animal executa. Assim a concepção, o emprego e o fato se unem numa mesma harmonia, e conduzem todas as coisas para seu fim mais próprio, pelos meios mais simples e mais seguros.

Peço desculpas por esta digressão: era indispensável ao meu objetivo, que agora posso abordar.

À espera das cartas prometidas, que facilitarão singularmente o estudo de todo o planeta, podemos, pelas descrições feitas pelos Espíritos, fazer-nos uma idéia de sua grande cidade, da cidade por excelência, desse foco de luz e de atividade que concordam em designar sob o nome, estranhamente latino, de Julnius.

“Sobre o maior dos nossos continentes, disse Palissy, em um vale de setecentas a oitocentas léguas de largura, para contar como vós, um rio magnífico descendo das montanhas do norte, e aumentado por uma multidão de torrentes e de ribeirões, forma, em seu percurso, sete a oito lagos, dos quais o menor mereceria, entre vós, o nome de mar. Foi sobre as margens do maior desses lagos, batizado por nós com o nome de a Pérola, que nossos ancestrais lançaram os primeiros fundamentos de Julnius. Essa cidade primitiva ainda existe, venerada e conservada como uma preciosa relíquia. Sua arquitetura difere muito da nossa. Explicar-te-ei tudo isso a seu tempo: saiba apenas que a cidade moderna está a uns cem metros mais abaixo da antiga. O lago, encaixado nas altas montanhas, se derrama no vale por oito cataratas enormes, que formam igualmente correntes isoladas e dispersas em todos os sentidos. Com a ajuda dessas correntes, nós mesmos cavamos, na planície, uma multidão de riachos, de canais e de tanques, não reservando a terra firme senão para nossas casas e nossos jardins. Disso resultou uma espécie de cidade anfíbia, como vossa Veneza, e da qual não se poderia dizer, à primeira vista, se está edificada sobre a terra ou sobre a água. Não te digo nada hoje de quatro edifícios sagrados, construídos sobre a própria vertente das cataratas, de sorte que a água jorra em abundância de seus pórticos: aí estão obras que vos pareceriam inacreditáveis pela grandeza e audácia.

“É a cidade terrestre que descrevo aqui, a cidade de alguma sorte material, a das ocupações planetárias, a que chamamos, enfim, a Cidade baixa. Ela tem suas ruas, ou antes, seus caminhos, traçados para o serviço interior; tem suas praças públicas, seus pórticos e suas pontes lançadas sobre os canais para a passagem dos servidores. Mas a cidade inteligente, a cidade espiritual, a verdadeira Julnius, enfim, não é na terra que é preciso procurá-la, é no ar.

“Ao corpo material de nossos animais, incapazes de voarem, (1), é preciso a terra firme; mas o que nosso corpo fluídico e luminoso exige, é uma residência aérea como ele, quase impalpável e móvel ao gosto de nosso capricho. Nossa habilidade resolveu esse problema, com a ajuda do tempo e das condições privilegiadas que o Grande Arquiteto nos havia dado. Compreenda bem que essa conquista dos ares era indispensável a Espíritos como os nossos. Nosso dia é de cinco horas, e nossa noite de cinco horas igualmente; mas tudo é relativo, e para seres prontos para pensarem e agirem como nós o somos, para Espíritos que se compreendem pela linguagem dos olhos e que sabem se comunicar, magneticamente, à distância, nosso dia de cinco horas igualaria já em atividade uma de vossas semanas. Era ainda muito pouco, na nossa opinião; e a imobilidade da morada, o ponto fixo da sede era um entrave para todas as nossas grandes obras. Hoje, pelo deslocamento fácil dessas moradas de pássaros, pela possibilidade de transportar, nós e os outros, em tal lugar do planeta e tal hora do dia que nos aprazasse, nossa existência é pelo menos dobrada, e com ela tudo o que pode criar de útil e de grande.

(1) É preciso, todavia, deles excetuar certos animais munidos de asas e reservados para o serviço aéreo, e para os trabalhos que exigiriam, entre nós, o emprego de madeiramentos. São uma transformação da ave, como os animais descritos mais acima são uma transformação dos quadrúpedes.)

“Em certas épocas do ano, acrescentou o Espírito, em certas festas, por exemplo, verias aqui o céu obscurecido pelo enxame de habitações que vêm de todos os pontos do horizonte. É um curioso conjunto de casas esbeltas, graciosas e leves, de toda forma, de toda cor, balançando em toda altura, e continuamente a caminho da cidade baixa para a cidade celeste: Alguns dias depois o vazio se faz pouco a pouco e todos esses pássaros voam.

“Nada falta a essas moradias flutuantes, nem mesmo o encanto da verdura e das flores. Falo de uma vegetação sem exemplo entre vós, de plantas, de arbustos mesmo destinados, pela natureza de seus órgãos, a respirar, a se alimentar, a viver, a se reproduzir no ar.

“Nós temos, disse o mesmo Espírito, dessas moitas de flores enormes, das quais não poderíeis imaginar nem as formas nem as nuanças, e de uma leveza de tecido que as torna quase transparentes. Balançando no ar, onde longas folhas as sustem, e armadas de gavinhas semelhantes às da videira, se reúnem em nuvens de mil tintas ou se dispersam ao sabor do vento, e preparam encantador espetáculo aos passeadores da cidade baixa… imagine a graça dessas jangadas de verdura, desses jardins flutuantes que nossa vontade pode fazer e desfazer e que duram, às vezes, toda uma estação! Longas fiadas de cipó de ramos floridos se destacam dessas alturas e pendem até a terra, pencas enormes se agitam sacudindo seus perfumes e suas pétalas que se desfolham… Os Espíritos que atravessam o ar aí se detêm na passagem: é um lugar de repouso e de reencontro, e, querendo-se, um meio de transporte para rematar a viagem sem fadiga e em companhia.”

Um outro Espírito estava sentado sobre uma dessas flores no momento em que eu o evoquei.

“Nesse momento, disse-me ele, é noite em Julnius, estou sentado à parte sobre uma dessas flores do ar que não desabrocham aqui senão à claridade de nossas luas. Sob meus pés toda cidade baixa dorme; mas sobre minha cabeça e ao meu redor, a perder de vista, não há senão movimento e alegria no espaço. Dormimos pouco: nossa alma é muito desligada para que as necessidades do corpo sejam tirânicas; e a noite é antes feita para nossos servidores do que para nós. É a hora das visitas e das longas conversas, de passeadores solitários, de fantasias, da música. Não vejo senão moradas aéreas resplandecentes de luzes ou jangadas de folhas e de flores carregadas de bandos alegres… A primeira de nossas ruas clareia toda a cidade baixa: é uma doce luz comparável a de vosso luar; mas, do lado do lago, a segunda se eleva, e esta tem reflexos esverdeados que dão a todo o rio o aspecto de um grande gramado…”

É sobre a margem direita desse rio, “cuja água, disse o Espírito, te ofereceria a consistência de um leve vapor (1), ” que está construída a casa de Mozart, que Palissy consentiu fazer-me desenhar sobre cobre. Não dou aqui senão a fachada sul. A grande entrada está à esquerda, sobre a planície; à direita está o rio; ao norte e ao sul estão os jardins. Perguntei a Mozart quem eram os seus vizinhos. – “Mais alto, disse, e mais baixo, há dois Espíritos que tu não desconheces; mas à esquerda, não estou separado senão por uma grande campina do jardim de Cervantes.”

(1) A densidade de Júpiter sendo de 0,23, quer dizer, um pouco menos de um quarto da Terra, o Espírito nada disse aqui senão de muito verossímil. Concebe-se que tudo é relativo, e que sobre esse globo etéreo tudo seja etéreo como ele.

A casa tem, pois, quatro faces como as nossas, do que seria errado, todavia, fazer uma regra geral. Ela está construída com uma certa pedra que os animais tiram das pedreiras do norte, é das quais o Espírito compara a cor a esses tons esverdeados que toma, freqüentemente, o azul do céu no momento em que o sol se deita. Quanto à sua duração pode-se dela fazer uma idéia por esta observação de Palissy, que ela derreteria sob nossos dedos humanos tão rápida quanto um floco de neve: ainda está aí uma das matérias mais resistentes do planeta! Sobre essa parede os Espíritos esculpiram ou incrustaram os estranhos arabescos que nosso desenho procura reproduzir. São ou ornamentos escavados nas pedras e coloridos em seguida, ou incrustações limitadas à solidez da pedra verde, por um procedimento que está muito em voga agora, e que conserva nos vegetais toda a graça de seus contornos, toda a finura de seus tecidos, toda a riqueza de seu colorido.

“Uma descoberta, acrescentou o Espírito, que fareis algum dia e que mudará entre vós muitas coisas.”

A grande janela da direita apresenta um exemplo de gênero de ornamentação, uma de suas bordas não é outra coisa senão um caniço enorme do qual se conservaram as folhas. Ocorre o mesmo com o coroamento da janela principal, que apresenta a forma de claves de sol: são plantas sarmentosas enlaçadas e petrificadas. E por esse procedimento que eles obtêm a maioria dos coroamentos de edifícios, de grades, de balaústres, etc. Freqüentemente mesmo, a planta é colocada na parede, com suas raízes, em condições de crescer livremente. Ela cresce, se desenvolve; suas folhas desabrocham ao acaso, e o artista não a congela no lugar senão quando adquiriu todo o desenvolvimento desejado para a ornamentação do edifício: a casa de Palissy é quase inteiramente decorada desse modo.

Destinada primeiro unicamente aos móveis, depois às molduras de portas e de janelas, esse gênero de ornamento se aperfeiçoou pouco a pouco e acabou por invadir toda a arquitetura. Hoje, não são apenas a flor e o arbusto que se petrificam no estado, mas a própria árvore da raiz ao topo; e os palácios, como os edifícios sagrados quase nada mais têm de outras colônias.

Uma petrificação da mesma natureza serve também para a decoração das janelas. De flores ou de folhas muito amplas, são habilmente despojadas de sua parte carnuda: não resta mais do que uma rede de fibras, tão fina quanto a mais fina musselina. E cristalizada, e dessas folhas unidas com arte, constrói-se toda uma janela, que não deixa filtrar, para o interior, senão uma luz muito doce: ou bem as reveste com uma espécie de vidro líquido e colorido com todas as nuanças, que se endurece no ar e que transforma a folha em uma espécie de vidraça. Do conjunto dessas folhas resultam, para janelas, encantadores bosquezinhos transparentes e luminosos.

Quanto à própria duração dessas aberturas, e a mil outros detalhes que podem surpreender ao primeiro contato, sou forçado a adiar-lhes a explicação: a história da arquitetura em Júpiter exigiria um volume inteiro. Renuncio igualmente a falar do mobiliário, para não me ater aqui senão à disposição geral da casa.

O leitor deve ter compreendido, depois de tudo o que precede, que a casa do continente não deve ser, para o Espírito senão uma espécie de pequena casa de passagem. A cidade baixa não é quase freqüentada senão por Espíritos de segunda ordem, encarregados dos interesses planetários, da agricultura, por exemplo, ou das trocas, e da boa ordem a manter entre os servidores. Também todas as casas que repousam sobre o solo, geralmente, não têm senão um térreo e um andar: um destinado aos Espíritos que agem sob a direção do senhor, e acessível aos animais; o outro, reservado só ao Espírito, que nele não mora senão por ocasião. É isso que explica por que vemos, nas várias casas de Júpiter, nesta por exemplo, e na de Zoroastro, uma escada e mesmo uma rampa. Aquele que rasa a água como uma andorinha, e que pode correr sobre as hastes de trigo sem curvá-las, dispensa muito bem escada e rampa para entrar em sua casa; mas os Espíritos inferiores não têm o vôo tão fácil: não se elevam senão pela agitação, e a rampa não lhes é sempre inútil. Enfim, a escada é absoluta necessidade para os animais serviçais, que não caminham senão como nós. Estes últimos têm também seus compartimentos, muito elegantes, de resto, que fazem parte de todas as grandes habitações; mas suas funções os chamam, constantemente, à casa do senhor: é preciso facilitar-lhes a entrada e o percurso interior. Daí essas construções bizarras, que, pela base, assemelham-se ainda aos nossos edifícios terrestres, e que deles diferem absolutamente pelo vértice.
Este se distingue, sobretudo, por uma originalidade que seríamos incapazes de imitar. É uma espécie de flecha aérea que se balança sobre o alto do edifício, acima da grande janela de seu original coroamento. Esse frágil escaler, fácil de deslocar, e todavia destinado, no pensamento do artista, a não deixar o lugar que lhe foi assinalado, porque sem repousar em nada sobre o cume, completa-lhe, no entanto, a decoração, e lamento que a dimensão da prancha não haja permitido que nela encontrasse lugar. Quanto à morada de Mozart não tenho aqui senão que constatar-lhe a existência: os limites desse artigo não me permitem estender-me sobre esse assunto.

Não terminaria, todavia, sem me explicar, de passagem, sobre o gênero de ornamentos que o grande artista escolheu para a sua moradia. É fácil neles reconhecer a lembrança de nossa música terrestre: a clave de sol ai está freqüentemente repetida, e, coisa bizarra, jamais a clave de fá!. Na decoração do térreo encontramos um arco de violino, uma espécie de grande alaúde ou de bandolim, uma lira e toda uma pauta musical. Mais alto, é uma grande janela que lembra, vagamente, a forma de um órgão; os outros têm aparência de grandes notas, e notas mais pequenas são abundantes por sobre toda a fachada.

Seria erro disso concluir que a música de Júpiter seja comparável à nossa, e que se conta pelos mesmos sinais: Mozart explicou-se sobre ela de modo a não deixar dúvidas a esse respeito; mas os Espíritos lembram, de bom grado, na decoração de suas casas, a missão terrestre que lhes mereceu a encarnação em Júpiter e que resume melhor o caráter de sua inteligência. Assim, na casa de Zoroastro são os astros e a chama que fazem todos os detalhes da decoração.

Há mais; parece que esse simbolismo tem suas regras e seus segredos. Todos esses ornamentos não estão dispostos ao acaso: têm sua ordem lógica e sua significação precisa; mas é uma arte que os Espíritos de Júpiter renunciam em nos fazer compreender, pelo menos até este dia, e sobre a qual não se explicam de bom grado. Nossos velhos arquitetos empregaram também o simbolismo na decoração de suas catedrais; e a torre de SaintJacques não é nada menos que um poema hermético, se se crê na tradição. Nada há, pois, para nos espantar na estranheza e na decoração arquitetônica em Júpiter; se ela contradiz nossas idéias quanto à arte humana, é que há, com efeito, todo um abismo entre uma arquitetura que vive e que fala e uma alvenaria, como a nossa, que nada prova. Nisso, como em toda outra coisa, a prudência nos proíbe esse erro do relativo que quer tudo conduzir às proporções e aos hábitos do homem terrestre. Se os habitantes de Júpiter estivessem alojados como nós, se comessem, vivessem, dormissem e andassem como nós, não haveria grande proveito em subir para lá. É bem porque seu planeta difere absolutamente do nosso que desejamos conhecê-lo, e sonhá-lo como nossa futura morada!

De minha parte, não perderia o meu tempo e estaria bem feliz por terem os Espíritos me escolhido para seu intérprete, se seus desenhos e suas descrições inspirarem, a um único crente, o desejo de subir mais rápido para Julnius, e a coragem de tudo fazer para isso conseguir.

VICTORIEN SARDOU.

O autor dessa interessante descrição é um desses adeptos fervorosos e esclarecidos que não temem confessar francamente suas crenças, e se coloca acima da critica de pessoas que não crêem em nada daquilo que sai do círculo de suas idéias. Ligar seu nome a uma doutrina nova, desafiando os sarcasmos, é uma coragem que não é dada a todo mundo, e felicitamos o senhor V. Sardou por tê-la. Seu trabalho revela o escritor distinto que, embora jovem ainda, já conquistou um lugar honroso na literatura, e une ao talento de escrever, os profundos conhecimentos de sábio; nova prova que o Espiritismo não recruta entre os tolos e os ignorantes. Fazemos votos para que o senhor Sardou complete, o mais rápido possível, seu trabalho tão felizmente começado. Se os astrônomos nos revelam, por suas sábias pesquisas, o mecanismo do Universo, os Espíritos, por suas revelações, nos fazem conhecer o seu estado moral e isso, como eles dizem, com o objetivo de nos estimular ao bem, a fim de merecermos uma existência melhor.

Allan Kardec.

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