O doutor Muhr

Revista Espírita, novembro de 1858

Morto do Cairo, em 4 de junho de 1857. – Evocado a pedido do senhor Jobard. Era, disse ele, um Espírito muito elevado em sua vida; médico homeopata; um verdadeiro apóstolo espírita; deve estar pelo menos em Júpiter.

1. Evocação. – R. Estou aqui.

2. Teríeis a bondade de nos dizer onde estais? – R. Eu estou errante.

3. Foi no dia 4 de junho deste ano que morrestes? – R. Foi no ano passado.

4. Lembrai-vos do vosso amigo, o senhor Jobard? – R. Sim, estou freqüentemente perto dele.

5. Quando eu lhe transmitir essa resposta, isso o fará feliz,
porque ele tem sempre uma grande afeição por vós? – R. Eu o sei; esse Espírito me é dos mais simpáticos.

6. Que entendeis, em vossa vida, pelos gnomos? – R. Entendia por seres que podiam se materializar e tomar formas fantásticas.

7. Credes nisso sempre? – R. Mais do que nunca; disso tenho agora a certeza; mas gnomo é uma palavra que pode parecer ter muito da magia; gosto melhor de dizer agora Espírito em vez de gnomo.

Nota. – Durante a sua vida, ele acreditava nos Espíritos e em suas manifestações; somente que os designava sob o nome de gnomos, ao passo que agora ele se serve da expressão mais genérica de Espírito.

8. Credes ainda que esses Espíritos, que chamáveis gnomos durante vossa vida, possam tomar formas materiais fantásticas? -R. Sim, mas sei que isso não se faz freqüentemente, porque há pessoas que poderiam se tornar loucas se vissem as aparências que esses Espíritos podem tomar.

9. Quais aparências podem tomar? – R. Animais: diabos.

10. É uma aparência material tangível, ou uma pura aparência como nos sonhos ou nas visões? – R. Um pouco mais material do que nos sonhos; as aparições que poderiam muito amedrontar não podem ser tangíveis; Deus não o permite.

11. A aparição do Espírito de Bergzabem, sob forma de homem ou de animal, era dessa natureza? – R. Sim, e desse gênero.

Nota. – Não sabemos se, em sua vida, ele acreditava que os Espíritos podiam tomar uma forma tangível; mas é evidente que agora ele entende falar da forma vaporosa e impalpável das aparições.

12. Credes que quando reencarnardes, ireis a Júpiter? – R. Irei para um mundo que não se iguala ainda com Júpiter.

13. Será por vossa própria escolha que ireis para um mundo inferior a Júpiter, ou por que não mereceis ainda ir para esse planeta? – R. Prefiro acreditar não merecê-lo, e cumprir uma missão em um mundo menos avançado. Sei que chegarei à perfeição, é o que faz com que eu goste mais de ser modesto.

Nota. – Essa resposta é uma prova da superioridade desse Espírito; ela concorda com que nos disse o padre Ambroise: que há mais mérito em pedir uma missão num mundo inferior, que querer avançar muito depressa num mundo superior.

14. O senhor Jobard nos pede vos perguntar se estais satisfeito com o artigo necrológico que escreveu sobre vós? – R. Jobard me deu uma nova prova de simpatia, escrevendo isso; eu lhe agradeço muito, e desejo que o quadro, um pouco exagerado de virtudes e de talentos que ele fez, possa servir de exemplo àqueles que, dentre vós, seguem o rastro do progresso.

15. Uma vez que, em vossa vida, eras homeopata, que pensais agora da homeopatia? – R. Homeopatia é o começo das descobertas de fluidos latentes. Muitas outras descobertas tão preciosas se farão e formarão um todo harmonioso, que conduzirá vosso globo à perfeição.

16. Que mérito dais ao vosso livro intitulado: O Médium c/o povo? – R. E a pedra do obreiro que dei à obra.

Nota. – A resposta desse Espírito sobre a homeopatia vem em apoio da idéia dos fluidos latentes que já nos foi dada pelo Espírito do senhor Badel, com respeito à sua imagem fotografada. Disso resulta que ha fluidos cujas propriedades nos são desconhecidas ou passam desapercebidas, porque sua ação não é ostensiva, mas nem por isso menos real; a Humanidade se enriquece de conhecimentos novos, à medida que as circunstâncias lhe fazem conhecer suas propriedades.

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Conversas familiares de além túmulo – Méhémet Ali

Revista Espírita, novembro de 1858

(SEGUNDA CONVERSA)

1. Em nome de Deus Todo-poderoso, peço ao Espírito de Méhémet-Ali consentir em se comunicar conosco. – R. Sim; eu sei por quê.

2. Prometestes voltar entre nós para nos instruir; sereis bastante bom para nos escutar e nos responder? – R. Não prometi; não estou comprometido.

3. Seja; em lugar de prometi, coloquemos que nos fizestes esperar. – R. Quer dizer, para contentar vossa curiosidade; não importa! a isso me prestarei um pouco.

4. Uma vez que vivestes ao tempo dos Faraós, poderíeis nos dizer com que objetivo foram construídas as Pirâmides? – R. São sepulcros; sepulcros e templos: ali ocorriam as grandes manifestações.

5. Tinham elas também um fim científico? – R. Não; o interesse religioso absorvia tudo.

6. Era preciso que os Egípcios, desde aquele tempo, fossem bem avançados nas artes mecânicas para cumprirem trabalhos que exigiam forcas tão consideráveis. Poderíeis nos dar uma idéia dos meios que empregavam? – R. Massas de homens gemeram sob o peso dessas pedras que atravessaram séculos: o homem era a máquina.

7. Que classe de homens se ocupavam com esses grandes trabalhos? – R. A que chamais o povo.

8. O povo estava no estado de escravidão, ou recebia um salário? – R. A força.

9. De onde vinha, aos Egípcios, o gosto de coisas colossais antes que das coisas graciosas que distinguiam os Gregos, embora tendo a mesma origem? – R. O Egípcio estava ferido com a grandeza de Deus; procurava igualar-lhe ultrapassando suas forças. Sempre o homem!

10. Uma vez que fostes sacerdote nessa época, gostaríeis de nos dizer alguma coisa da religião dos antigos Egípcios. Qual era a crença do povo com respeito à Divindade? – R. Corrompidos, acreditavam em seus sacerdotes; eram deuses para eles, estes que os mantinham curvados.

11. Que pensavam do estado da alma depois da morte? – R. Criam naquilo que lhe diziam os sacerdotes.

12. Os sacerdotes, sob o duplo ponto de vista de Deus e da alma, tinham idéias mais sadias
que o povo? – R. Sim, tinham a luz nas mãos; ocultando-a aos outros, ainda a viam.

13. Os grandes do Estado partilhavam as crenças do povo ou a dos sacerdotes? – R. Entre os dois.

14. Qual era a origem do culto prestado aos animais? – R. Queriam desviar o homem de Deus, rebaixando-o sob ele mesmo, dando-lhe por deuses seres inferiores.

15. Concebe-se, até um certo ponto, o culto aos animais úteis, mas não se compreende o de animais imundos e nocivos, tais como as serpentes, os crocodilos, etc.! – R. O homem adora o que teme. Era um jugo para o povo. Os sacerdotes podiam crer em deuses feitos por suas mãos!

16. Por qual bizarria adoravam, ao mesmo tempo, o crocodilo assim como os répteis, e o mangusto e o íbis que os destruíssem? – R. Aberração do Espírito; o homem procura, por toda parte, deuses para ocultar-se aquilo que é.

17. Por que Osiris era representado com uma cabeça de gavião, e Anubis como uma cabeça de cão? – R. O Egípcio gostava de personificar sobre claros emblemas: “Anubis era bom; o gavião, que dilacera, representava o cruel Osiris.

18. Como conciliar o respeito dos Egípcios pelos mortos, com o desprezo e o horror que tinham por aqueles que os enterrassem e os mumificassem? – R. O cadáver era um instrumento de manifestação: o Espírito, segundo eles, voltava no corpo que havia animado. O cadáver, um dos instrumentos do culto, era sagrado, e o desprezo perseguia aquele que ousasse violar a santidade da morte.

19. A conservação de corpos dava lugar a manifestações mais numerosas? – R. Mais longas; quer dizer que o Espírito voltava por mais longo tempo, tanto quanto o instrumento fosse mais dócil.

20. A conservação de corpos não tinha também uma causa de salubridade, em razão dos trasbordamentos do Nilo? – R. Sim, para aqueles do povo.

21. A iniciação nos mistérios se fazia, no Egito, com práticas tão rigorosas quanto da Grécia? – R. Mais rigorosas.

22. Com qual objetivo impunha aos iniciados condições tão difíceis de serem cumpridas? – R. Para não ter senão almas superiores: aquelas sabiam compreender e se calar.

23. O ensino dado nos mistérios tinha por objetivo unicamente a revelação de coisas extrahumanas, ou também ali se ensinavam os preceitos da moral e do amor ao próximo? – R. Tudo isso era bem corrompido. O objetivo dos sacerdotes era dominar: não era de instruir.

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Problemas morais sobre o suicídio

Revista Espírita, novembro de 1858

Questões dirigidas a São Luís, por intermédio do senhor C…, médium falante e vidente, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, sessão do dia 12 de outubro de 1858.

1. Por que o homem que tem a firme intenção de se destruir, se revolta com a idéia de ser morto por um outro, e se defenderia contra os ataques no próprio momento em que vai cumprir seu desígnio?

– R. Porque o homem tem sempre medo da morte; quando se a dá a si mesmo, está superexcitado e tem a cabeça desarranjada, e cumpre esse ato sem coragem e medo, e sem, por assim dizer, ter o conhecimento do que faz, ao passo que, se tivesse a escolha, não veríeis tantos suicidas. O instinto do homem leva-o a defender a sua vida, e, durante o tempo que se escoa entre o instante que seu semelhante se aproxima para matá-lo e aquele no qual o ato é cometido, ele tem sempre um movimento de repulsão instintiva da morte que o leva a repelir esse fantasma, que não é apavorante senão para o Espírito culpado. O homem que se suicida não experimenta esse sentimento, porque está cercado de Espíritos que o impelem, que o ajudam em seus desejos, e lhe fazem perder completamente a lembrança do que não é ele, quer dizer, de seus parentes e daqueles que o amam, e de uma outra existência. O homem nesse momento é todo egoísmo.

2. Aquele que, desgostoso da vida, mas não quer suicidar-se e quer que sua morte sirva para alguma coisa, é culpável por procurá-la num campo de batalha, defendendo o seu país?

– R. Sempre. O homem deve seguir o impulso que lhe é dado; qualquer que seja a carreira que abrace, qualquer que seja a vida que conduza, está sempre assistido por Espíritos que o conduzem e o dirigem com o seu desconhecimento; ora, procurar ir contra os seus conselhos é um crime, uma vez que aí estão colocados para nos dirigir, e que esses bons Espíritos, quando queremos agir por nós mesmos, aí estão para nos ajudar. Entretanto, se o homem conduzido por seu próprio Espírito, quer deixar esta vida, abandona-o, e reconhece sua falta mais tarde, quando se acha obrigado a recomeçar uma outra existência O homem deve ser provado para se elevar; deter seus atos, por entrave ao seu livre arbítrio, seria ir contra Deus, e as provas, nesse caso, se tomariam inúteis, uma vez que os Espíritos não cometeriam faltas. O Espírito foi criado simples e ignorante; é preciso, pois, para chegar às esferas felizes, que progrida, se eleve em ciência e em sabedoria, e não é senão na adversidade que o Espírito colhe sua elevação do coração e compreende melhor a grandeza de Deus.

3. Um dos assistentes observou que crê ver uma contradição entre essas últimas palavras de São Luís e as precedentes, quando disse que o homem pode ser levado ao suicídio por certos Espíritos que a isso o excitam. Nesse caso, cederia a um impulso que lhe seria estranho.

– R. Não há contradição. Quando eu disse que o homem impelido ao suicídio, estava cercado de Espíritos que o solicitavam a isso, não falei dos bons Espíritos que fazem todos os esforços para disso desviá-lo; deveria estar subentendido; todos sabemos que temos um Anjo guardião, ou, se preferis, um guia familiar. Ora, o homem tem seu livre arbítrio; se, apesar dos bons conselhos que lhe são dados, persevera nessa idéia que é um crime, ele a cumpre e é ajudado nisso pelos Espíritos levianos e impuros que o cercam, que ficam felizes em verem que ao homem, ou Espírito encarnado, também lhe falta coragem para seguir os conselhos de seu bom guia, e, freqüentemente, do Espírito de seus parentes mortos que o cercam, sobretudo em circunstâncias semelhantes.

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Da pluralidade das existências (Primeiro artigo)

Revista Espírita, novembro de 1858

(PRIMEIRO ARTIGO)

Das diversas doutrinas professadas pelo Espiritismo, a mais controvertida, sem contradita, é a da pluralidade das existências corpóreas, dita de outro modo, da reencarnação. Se bem que essa opinião esteja agora partilhada por um número muito grande de pessoas, e que já tratamos a questão em várias reprises, cremos dever, em razão de sua extrema gravidade, examiná-la aqui de um modo mais aprofundado, a fim de respondermos às diversas objeções que ela tem suscitado. Antes de entrarmos no fundo da questão, algumas observações preliminares nos parecem indispensáveis.

O dogma da reencarnação, dizem certas pessoas, não é novo; foi ressuscitado de Pitágoras. Nunca dissemos que a Doutrina Espírita foi invenção moderna; sendo o Espiritismo uma lei da Natureza, deveu existir desde a origem dos tempos, e sempre nos esforçamos por provar que dele se encontram traços na mais alta antigüidade. Pitágoras, como se sabe, não foi o autor do sistema da metempsicose; ele a hauriu dos filósofos indianos e entre os Egípcios, onde existia desde tempos imemoriais. A idéia da transmigração das almas era, pois, uma crença vulgar, admitida pelos homens mais eminentes. Por que caminho lhes veio ela? Pela revelação ou pela intuição? Não o sabemos; mas, qualquer que seja, uma idéia não atravessa as idades e não é aceita por inteligências de elite, sem ter um lado sério. A antigüidade dessa doutrina seria, pois, antes uma prova do que uma objeção. Entretanto, como se sabe igualmente, entre a metempsicose dos Antigos e a doutrina moderna da reencarnação, há esta grande diferença que os Espíritos rejeitam da maneira mais absoluta: a transmigração do homem para os animais e reciprocamente.

Vós estáveis, sem dúvida, dizem também alguns contraditores, imbuídos dessas idéias, e eis porque os Espíritos se aterraram à vossa maneira de ver. Aí está um erro que prova, uma vez mais, o perigo dos julgamentos apressados e sem exame. Se essas pessoas tivessem se dado ao trabalho de lerem o que escrevemos sobre o Espiritismo, teriam se poupado apenas de uma objeção feita muito levianamente. Repetiremos, pois, o que dissemos a esse respeito, saber que, quando a doutrina da reencarnação nos foi ensinada pelos Espíritos, ela estava tão longe do nosso pensamento, que tínhamos feito, sobre os antecedentes da alma um sistema diferente, de resto, partilhado por muitas pessoas. A doutrina dos Espíritos, sob esse assunto, portanto, nos surpreendeu; diremos mais, contrariou, porque derrubou as nossas próprias idéias; ela estava longe, como se vê, de ser-lhe o reflexo. Isso não é tudo; não cedemos ao primeiro choque; combatemos, defendemos a nossa opinião, levantamos objeções, e não nos rendemos senão à evidência, e quando vimos a insuficiência do nosso sistema para resolver todas as questões que esse assunto levanta.

Aos olhos de algumas pessoas, a palavra evidência, sem duvida, parecerá singular em semelhante matéria; mas não parecerá imprópria para aqueles que estão habituados a perscrutar os fenômenos espíritas. Para o observador atento, há fatos que, se bem que não sejam de uma natureza absolutamente material, não constituem menos uma verdadeira evidência, ou pelo menos uma evidência moral. Aqui não é lugar para explicar esses fatos; só um estudo continuado e perseverante pode fazer compreendê-los; nosso objetivo é unicamente refutar a idéia de que essa doutrina não é senão a tradução do nosso pensamento. Temos ainda uma outra refutação a opor é de que não foi ensinada somente a nós; ela o foi em muitos outros lugares, em França e no estrangeiro; na Alemanha, na Holanda, na Rússia, etc. e isso antes mesmo da publicação de O Livro dos Espíritos. Acrescentamos ainda que, desde que nos entregamos ao estudo do Espiritismo, tivemos comunicações por mais de cinqüenta médiuns, escreventes, falantes, videntes, etc., mais ou menos esclarecidos, de uma inteligência normal ou menos limitada, alguns mesmo completamente iletrados, e por conseqüência inteiramente estranhos às matérias filosóficas, e que, em nenhum caso, os Espíritos foram desmentidos sobre essa questão; ocorre o mesmo em todos os círculos que conhecemos, onde o mesmo princípio foi professado. Esse argumento não é sem réplica, nós o sabemos, por isso nele não insistiremos mais que o razoável.

Examinemos a coisa sob um outro ponto de vista, e abstração feita de toda intervenção dos Espíritos; deixemos estes de lado por um instante; suponhamos que essa teoria não seja deles; suponhamos mesmo que jamais foi questão de Espíritos. Coloquemo-nos, pois, momentaneamente, sobre um terreno neutro, admitindo o mesmo grau de probabilidade para uma e outra hipótese, a saber a pluralidade e a unicidade das existências corpóreas, e vejamos de qual lado nos levará a razão e nosso próprio interesse.

Certas pessoas repelem a idéia da reencarnação só pelo motivo de não lhes convir, dizendo que têm por bastante uma existência e que não querem recomeçar uma semelhante; nós conhecemos as que, tão-só o pensamento de reaparecer na Terra faz saltar de furor. Não temos senão uma coisa a lhes perguntar, é se elas pensam que Deus deva tomar seus conselhos e consultar seus gostos para regular o Universo. Ora, de duas coisas uma: ou a reencarnação existe, ou ela não existe; se existe, irá contrariá-los, e lhes será necessário suportá-la, e Deus, para isso, não lhes pedirá permissão. Parece-nos ouvir um doente dizer Já sofri bastante hoje, e não quero mais sofrer amanhã. Qualquer que seja seu mau-humor, não lhes será necessário sofrer menos o amanhã e os dias seguintes até que esteja curado; portanto, se devem reviver corporalmente, reviverão, se reencarnarão; debalde se rebelarão como uma criança que não quer ir à escola, ou um condenado à prisão, é preciso que passem por lá. Semelhantes objeções são muitos pueris para merecerem um exame mais sério. Diremos, entretanto, para confortá-los, que a Doutrina Espírita sobre a reencarnação não é tão terrível como crêem, e se a tivessem estudado a fundo não estariam tão assustados; saberiam que a condição dessa nova existência depende deles: ela será feliz ou infeliz, segundo o que fizeram neste mundo, e podem desde esta vida se elevarem tão alto, que não terão mais a temer cair no lamaçal.

Supomos que falamos a pessoas que crêem num futuro qualquer depois da morte, e não àquelas que se dão o nada como perspectiva, ou que querem afogar sua alma num todo universal, sem individualidade, como as gotas de chuva no Oceano, o que vem a ser quase o mesmo. Se, pois, credes num futuro qualquer, sem dúvida, não admitis que ele seja o mesmo para todos, de outro modo onde estaria a utilidade do bem? Por que se constranger? Por que não satisfazer todas as suas paixões, todos os seus desejos, fosse mesmo às expensas de outrem, uma vez que nele não seria nem mais e nem menos? Credes que esse futuro será mais ou menos feliz segundo o que tivermos feito durante a vida; tendes então o desejo de ser tão feliz como seja possível, uma vez que isso deve ser pela eternidade? Teríeis, por acaso, a pretensão de ser um dos homens mais perfeitos que tenham existido na Terra, e ter assim direito, de uma só vez, à felicidade suprema dos eleitos? Não. Admitis, assim, que há homens que valem mais que vós e que têm direito a um melhor lugar, sem, por isso, que estejais entre os condenados. Pois bem! Colocai-vos, um instante pelo pensamento, nessa situação média que será a vossa, uma vez que vindes disso convir, e suponde que alguém venha vos dizer: Sofreis, não sois tão felizes como poderíeis sê-lo, ao passo que tendes, diante de vós, seres que gozam de uma felicidade sem mácula, quereis trocar a vossa posição com a sua? – Sem dúvida, direis; que é preciso fazer?

– Menos que nada, recomeçar o que fizestes mal feito e tratar de fazê-lo melhor. – Hesitaríeis em aceitar, fosse mesmo ao preço de várias existências de provas? Tomemos uma comparação mais prosaica. Se há um homem que, sem estar na última das misérias, entretanto, experimenta privações em conseqüência da mediocridade de seus recursos, se viesse a dizer Eis uma imensa fortuna, podeis dela gozar, para isso é preciso trabalhar rudemente durante um minuto. Fosse ele o mais preguiçoso da Terra, diria sem hesitar Trabalhemos um minuto, dois minutos, uma hora, um dia se for preciso; o que é isso para acabar a minha vida na abundância? Ora, o que é a duração da vida corpórea com relação à eternidade? “Menos que um minuto, menos que um segundo.

Ouvimos fazer este raciocínio: Deus, que é soberanamente bom, não pode impor ao homem recomeçar uma série de misérias e de tribulações? Achar-se-ia, por acaso, que há mais bondade em condenar o homem a um sofrimento perpétuo por alguns momentos de erro, antes que dar-lhe os meios de reparar as suas faltas? “Dois fabricantes tinham, cada um, um obreiro que podia aspirar a se tornar o sócio do chefe. Ora, ocorreu que esses dois obreiros empregaram, uma vez, muito mal sua jornada e mereceram ser despedidos. Um dos fabricantes despediu o seu obreiro apesar de suas súplicas, e este não tendo encontrado trabalho, morreu de miséria. O outro disse ao seu: Perdestes um dia, disso me deveis uma compensação; fizestes mal o vosso trabalho, disso me deveis a reparação, eu vos permito recomeçar; tratai de fazer bem e eu vos conservarei, e podereis sempre aspirar à posição superior que vos prometi.” Há necessidade de se perguntar qual dos dois fabricantes foi o mais humano? Deus, a própria clemência, seria mais inexorável que um homem? O pensamento que nossa sorte está para sempre fixada, por alguns anos de prova, quando mesmo nem sempre dependeu de nós atingir a perfeição na Terra, tem alguma coisa de pungente, ao passo que a idéia contrária é eminentemente consoladora; ela nos deixa a esperança. Assim, sem nos pronunciar-nos pró ou contra a pluralidade das existências, sem admitir uma hipótese antes que outra, dizemos que, se tivermos a escolha, não há pessoa que prefira um julgamento sem apelação. Um filósofo disse que se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo para a felicidade do gênero humano; poder-se-ia dizer outro tanto quanto à pluralidade das existências. Mas, como dissemos, Deus não pede nossa permissão; não consulta o nosso gosto; isso é ou isso não é; vejamos de qual lado estão as probabilidades, e tomemos a coisa sob um outro ponto de vista, sempre abstração feita do ensino dos Espíritos, e unicamente como estudo filosófico.

Se não há reencarnação, não há senão, uma existência corpórea, isso é evidente; se nossa existência atual é a única, a alma de cada homem é criada no seu nascimento, a menos que se admita a anterioridade da alma, caso que se perguntaria o que era a alma antes do nascimento, e se esse estado não constituía uma existência sob uma forma qualquer. Não há meio termo: ou a alma existia, ou não existia antes do corpo; se ela existia, qual era a sua situação? Tinha ou não consciência dela mesma; se não tinha consciência, é quase como se não existisse; se tinha sua individualidade, era progressiva ou estacionaria; num e noutro caso, que grau ela alcançou no corpo? Admitindo, segundo a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, ou, que vem a ser o mesmo, que anteriormente à sua encarnação ela não tem senão faculdades negativas, colocamos as perguntas seguintes:

1. Por que a alma mostra aptidões tão diversas e independentes das adquiridas pela educação?

2. De onde vem a aptidão extra normal de certas crianças em tenra idade, por tal ou tal ciência, ao passo que outras permanecem inferiores ou medíocres por toda a sua vida?

3. De onde vêm, nuns, as idéias inatas ou intuitivas que não existem noutros?

4. De onde vêm, em certas crianças, esses instintos precoces de vícios ou de virtudes, esses sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza que contrastam com o meio no qual nasceram?

5. Por que certos homens, abstração feita da educação, são mais avançados uns do que outros?

6. Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes uma criança hotentote amamentada, e a levardes aos nossos liceus mais renomados, jamais fareis dela um Laplace ou um Newton?

Perguntamos qual é a filosofia ou a teosofia que pode resolver esses problemas? Ou as almas, em seu nascimento, são iguais, ou elas são desiguais, isso não é duvidoso. Se são iguais, por que essas aptidões tão diferentes? Dir-se-á que isso depende do organismo?

Mas, então, é a doutrina mais monstruosa e mais imoral. O homem não é mais que uma máquina, o joguete da matéria; não tem mais a responsabilidade de seus atos; pode tudo lançar sobre suas imperfeições físicas. Se elas são desiguais, foi porque Deus as criou assim; mas, então, por que essa superioridade inata concedida a alguns? Essa parcialidade está conforme a justiça de Deus e o igual amor que dá a todas as suas criaturas?

Admitamos, ao contrário, uma sucessão de existências anteriores progressivas, e tudo estará explicado. Os homens trazem, ao nascer, a intuição do que adquiriram; são mais ou menos avançados, segundo o número de existências que percorreram, segundo estejam mais ou menos distantes do ponto de partida: absolutamente como, em uma reunião de indivíduos de todas as idades, cada um terá um desenvolvimento proporcional ao número de anos que viveu; as existências sucessivas serão, para a vida da alma, o que os anos são para a vida do corpo. Concentrai, um dia, mil indivíduos, desde um ano até oitenta; suponde que um véu seja lançado sobre todos os dias que precederam, e que, em vossa ignorância, credes assim todos nascidos no mesmo dia: perguntar-vos-eis, naturalmente, como ocorre que uns sejam grandes e outros pequenos, uns velhos e os outros jovens, uns instruídos e os outros ainda ignorantes; mas se a nuvem que vos esconde o passado vem a se levantar, se aprendeis que todos viveram mais ou menos tempo, tudo vos será explicado. Deus, em sua justiça, não pôde criar almas mais ou menos perfeitas; mas, com a pluralidade das existências, a desigualdade que vedes nada mais tem de contrário à eqüidade mais rigorosa: é que nós não vemos senão o presente, e não o passado. Esse raciocínio repousa sobre um sistema, uma suposição gratuita? Não; partimos de um fato patente, incontestável: a desigualdade das aptidões e do desenvolvimento intelectual e moral, e encontramos esse fato inexplicável por todas as teorias em curso, ao passo que a sua explicação é simples, natural, lógica, por uma outra teoria. É racional preferir a que não explica à que explica?

Com respeito à sexta pergunta, sem dúvida, dir-se-á que o Hotentote é de uma raça inferior: então, perguntaremos se o Hotentote é um homem ou não. Se é um homem, por que Deus deserdou, a ele e à sua raça, dos privilégios concedidos à raça caucásica? Se não é um homem, por que procurar fazê-lo cristão? A Doutrina Espírita é mais ampla que tudo isso; por ela, não há várias espécies de homens, não há senão homens cujo espírito está mais ou menos atrasado, mais suscetível de progredir: isso não está mais conforme à justiça de Deus?

Acabamos de ver a alma em seu passado e em seu presente; se a considerarmos em seu futuro, encontraremos as mesmas dificuldades.

1. Se a nossa existência atual, só ela deve decidir nossa sorte futura, qual é, na vida futura, a posição respectiva do selvagem e do homem civilizado? Estão no mesmo nível, ou estão distantes da soma da felicidade eterna?

2. O homem que trabalhou toda a sua vida, para se melhorar, está no mesmo grau que aquele que ficou inferior, não por sua falta, mas porque não teve nem o tempo, nem a possibilidade de se melhorar?

3. O homem que fez mal, porque não pôde se esclarecer, é passível de um estado de coisas que não dependeu dele?

4. Trabalha-se para esclarecer os homens, moralizá-los, civilizá-los; mas para um que se esclarece, há milhões que morrem cada dia antes que a luz tenha vindo até eles; qual é a sorte destes? São tratados como condenados? Em caso contrário, que fizeram para merecer estarem na mesma classe que os outros?

5. Qual é a sorte das crianças que morrem em tenra idade, antes de terem podido fazer nem bem nem mal? Se estão entre os eleitos, por que esse favor sem nada terem feito para merecê-lo? Por qual privilégio estão isentas das tribulações da vida?

Há uma doutrina que possa resolver essas questões? Admitamos as existências consecutivas, e tudo estará explicado de conformidade com a justiça de Deus. O que não se pôde fazer numa existência, far-se-á numa outra; assim é que ninguém escapa à lei do progresso, que cada um será recompensado segundo o seu mérito real, e que ninguém está excluído da felicidade suprema, à qual pode pretender, quaisquer que sejam os obstáculos que haja encontrado em seu caminho.

Essas questões poderiam ser multiplicadas ao infinito, porque os problemas psicológicos e morais que não encontram sua solução senão na pluralidade das existências, são inumeráveis; limitamo-nos aos mais gerais. Qualquer que seja, dir-se-á talvez, a doutrina da reencarnação não é admitida pela Igreja; isso seria, pois, o desmoronamento da religião. Nosso objetivo não é tratar essa questão nesse momento; basta-nos haver demonstrado que ela é eminentemente moral e racional. Mais tarde, mostraremos que a religião, talvez, dela esteja menos distante que se pensa, e que com ela não sofreria mais, do que sofreu com a descoberta do movimento da Terra e dos períodos geológicos que, à primeira vista, pareceram dar um desmentido aos textos sagrados. O ensino dos Espíritos é eminentemente cristão; apóia-se sobre a imortalidade da alma, as penas e as recompensas futuras, o livre arbítrio do homem, a moral do Cristo; portanto, não é anti-religiosa.

Raciocinamos, como dissemos, abstração feita de todo ensino espírita que, para certas pessoas não é uma autoridade. Se nós, e tantos outros, adotamos a opinião da pluralidade das existências, não foi somente porque ela nos veio dos Espíritos, mas porque nos pareceu a mais lógica, e que só ela resolve as questões até agora insolúveis. Se nos viesse de um simples mortal e a adotaríamos do mesmo modo, e não hesitaríamos antes em renunciar às nossas próprias idéias; do momento em que um erro é demonstrado, o amor-próprio tem mais a perder do que a ganhar obstinando-se numa idéia falsa. Do mesmo modo, teríamos repelido, embora vinda dos Espíritos, se ela nos parecesse contrária à razão, como as repelimos muitas outras, porque sabemos, por experiência, que não é preciso aceitar cegamente tudo o que vem de sua parte, não mais do que vem da parte dos homens. Restanos, pois, a examinar a questão da pluralidade das existências do ponto de vista do ensino dos Espíritos, de qual maneira se deve entendê-la, e responder, enfim, às objeções mais sérias que se possa a ela opor; o que faremos em um próximo artigo.

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Polêmica espírita

Revista Espírita, novembro de 1858

Várias vezes perguntaram-nos por que não respondemos, em nosso jornal, aos ataques de certas folhas dirigidos contra o Espiritismo em geral, contra seus partidários, e, algumas vezes mesmo, contra nós. Cremos que, em certos casos, o silêncio é a melhor resposta. Aliás, há um gênero de polêmica do qual fizemos uma lei nos abstermos, e é aquela que pode degenerar em personalismo; não somente ela nos repugna, mas nos toma um tempo que podemos empregar mais utilmente, e seria muito mais interessante para nossos leitores, que assinam para se instruírem, e não para ouvirem diatribes, mais ou menos espirituais; ora, uma vez iniciados nesse caminho, seria difícil dele sair, por isso preferimos não entrar e pensamos que o Espiritismo, com isso, não pode senão ganhar em dignidade. Não temos, até o presente, senão que nos aplaudir por nossa moderação; dela não nos desviaremos, e não daremos jamais satisfação aos amadores de escândalo.

Mas, há polêmica e polêmica; e há uma diante da qual não recuaremos jamais, que é a discussão séria dos princípios que professamos. Entretanto, aqui mesmo há uma distinção a fazer; se não se trata senão de ataques gerais, dirigidos contra a Doutrina, sem outro fim determinado que o de criticar, e da parte de pessoas que têm um propósito de rejeitar tudo o que não compreendem, isso não merece que deles se ocupe; o terreno que o Espiritismo ganha, cada dia, é uma resposta suficientemente peremptória, e que deve provar-lhes que seus sarcasmos não produziram grande efeito; também notamos que a seqüência ininterrupta de gracejos, dos quais os partidários da Doutrina eram objeto recentemente, se apaga pouco a pouco; pergunta-se, quando se vêem tantas pessoas eminentes adotarem essas idéias novas, se há do que se rir; alguns não riem senão com desprezo e por hábito, muitos outros não riem mais de tudo e esperam.

Notamos ainda que, entre os críticos, há muitas pessoas que falam sem conhecer a coisa, sem terem se dado ao trabalho de aprofundá-la; para responder-lhes seria preciso, sem cessar, recomeçar as explicações mais elementares, e repetir o que escrevemos, coisa que cremos inútil. Não ocorre o mesmo com aqueles que estudaram, e que não compreenderam tudo, aqueles que querem seriamente se esclarecer, que levantam as objeções com conhecimento de causa e de boa fé; sobre esse terreno aceitamos a controvérsia, sem nos gabar de resolvermos todas as dificuldades, o que seria muita presunção. A ciência espírita está no seu início, e ainda não nos disse todos os seus segredos, por maravilhas que nos haja revelado. Qual é a ciência que não tem ainda fatos misteriosos e inexplicados?

Confessaremos, pois, sem nos envergonharmos, nossa insuficiência sobre todos os pontos aos quais não nos for possível responder. Assim, longe de repelir as objeções e as perguntas, nós as solicitamos, contanto que não sejam ociosas e nos façam perder nosso tempo em futilidades, porque é um meio de se esclarecer.

Aí está o que chamamos uma polêmica útil, e o será sempre quando ocorrer entre duas pessoas sérias, que se respeitarem bastante para não se afastarem das conveniências.

Pode-se pensar diferentemente, e, com isso, não se estimar menos. Que procuramos nós todos, em definitivo, nessa questão tão palpitante e tão fecunda do Espiritismo? Esclarecer-nos; nós, primeiramente, procuramos a luz, de qualquer parte que ela venha, e, se emitimos a nossa maneira de ver, isso não é senão uma opinião individual que não pretendemos impor a ninguém; nós a entregamos à discussão, e estamos prontos para renunciá-la, se nos for demonstrado que estamos em erro. Essa polêmica, nós a fazemos todos os dias em nossa Revista, pelas respostas ou refutações coletivas que tivemos ocasião de fazer a propósito de tal ou tal artigo, e aqueles que nos dão a honra de nos escreverem, ali encontram sempre a resposta ao que nos perguntam, quando não nos é possível dá-la individualmente por escrito, o que o tempo material nem sempre nos permite. Suas perguntas e suas objeções são igualmente assuntos de estudos, que aproveitamos para nós mesmos, e os quais ficamos felizes em fazer nossos leitores aproveitarem, tratando-os à medida que as circunstâncias trazem os fatos que possam ter relação com eles. Igualmente nos alegramos em dar verbalmente explicações que podem nos ser pedidas pelas pessoas que nos honram com a sua visita, e nessas conferências, marcadas por uma benevolência recíproca, nos esclarecemos mutuamente.

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Fenômeno de aparição no Kentucky

Revista Espírita, outubro de 1858

O Constitutionnêl e a Paine narraram, há algum tempo, o fato seguinte, segundo os jornais dos Estados Unidos:

“A pequena cidade de Lichtfield, no Kentucky, conta numerosos adeptos das doutrinas de espiritualismo magnético. Um fato incrível, que acaba de se passar, não contribuirá pouco, sem dúvida, para aumentar o número de partidários da nova religião.

“A família Park, composta do pai, da mãe e de três crianças que já têm a idade da razão, está fortemente imbuída de crenças espiritualistas. Por contra, uma irmã da senhora Park, senhorita Harris, não juntava nenhuma fé nos prodígios sobrenaturais com os quais se entrelinham sem cessar. Era para a família inteiramente um verdadeiro motivo de desgosto, e mais de uma vez a boa harmonia das duas irmãs foi perturbada com isso.

“Há alguns dias, a senhora Park foi atingida, de repente, de um mal súbito que os médicos declararam, desde o início, não poderem conjurar. A paciente estava atormentada por alucinações, e uma febre horrível a atormentava constantemente. A senhorita Harris passava todas as noites velando-a. No quarto dia de sua doença, a senhora Park se eleva subitamente de seu assento, pede o que beber, e começa a conversar com sua irmã.

Circunstância singular, a febre a havia deixado de repente, seu pulso estava regular, ela se exprimia com a maior facilidade, e a senhorita Harris, toda feliz, acreditou que sua irmã estava, desde aquele momento, fora de perigo.

“Depois de ter falado de seu marido e de seus filhos, a senhora Park se aproxima ainda mais perto de sua irmã e lhe diz:

“Pobre irmã, vou deixar-te; sinto que a morte se aproxima. Mas pelo menos a minha partida deste mundo servirá para te converter. Morrerei em uma hora e me enterrarão amanhã. Tenha grande cuidado de não seguir meu corpo ao cemitério, porque meu Espírito, revestido de seus despejos mortais, te aparecerá ainda uma vez antes que meu caixão seja recoberto de terra. Então, crerás, enfim, no espiritualismo.”

“Depois de arrematar essas palavras, a doente se recostou tranqüilamente. Mas, uma hora depois, como o havia anunciado, a senhorita Harris percebeu com dor que o coração havia cessado de bater.

“Vivamente emocionada pela coincidência espantosa que existia entre esse acontecimento e as palavras proféticas da defunta, ela se decidiu seguir a ordem que lhe fora dada, e no dia seguinte permaneceu sozinha na casa enquanto todo mundo tomava o caminho do cemitério. Depois de ter fechado as portas da câmara mortuária, ela se instalou numa poltrona colocada perto da cama que o corpo de sua irmã acabara de deixar.

“Cinco minutos apenas eram decorridos, – contou mais tarde a senhorita Harris, – quando eu vi como uma nuvem branca se destacar no fundo do apartamento. Pouco a pouco essa forma se desenhou melhor: era a de uma mulher semi-velada; ela se aproximou lentamente de mim; eu distinguia o ruído de passos leves sobre o soalho; enfim, meus olhos espantados se encontraram em presença de minha irmã…

“Seu rosto, longe de ter essa palidez sem brilho que impressiona tão penosamente nos mortos, estava radioso; suas mãos, as quais logo senti a pressão sobre as minhas, tinham conservado todo o calor da vida. Fui como transportada para uma esfera nova por essa maravilhosa aparição. Crendo já fazer parte do mundo dos Espíritos, tateei o peito e a cabeça para me assegurar da minha existência; mas não havia nada de penoso nesse êxtase.

“Depois de estar assim diante de mim, sorridente mas muda, pelo espaço de alguns minutos, minha irmã, parecendo fazer um violento esforço, me disse com uma voz doce:

“É tempo de partir: meu anjo condutor me espera. Adeus! Cumpri minha promessa. Crê e espera!”

“O jornal, acrescenta a Patrie, do qual tomamos essa maravilhosa narração, não disse se a senhorita Harris se converteu às doutrinas de espiritualismo. Supomo-lo, entretanto, porque muitas pessoas se deixariam convencer por menos.”

Nós acrescentamos, por nossa própria conta, que esse relato nada tem que deva espantar aqueles que estudaram os efeitos e as causas dos fenômenos espíritas. Os fatos autênticos desse gênero são bastante numerosos, encontram sua explicação no que dissemos a respeito desse assunto em muitas circunstâncias; teremos ocasião de citá-los, vindos de menos longe que este.

ALLAN KARDEC

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Manifestações da rua du Bac, em Paris

“A rua du Bac está em comoção. Ocorrem ainda, por ali, algumas diabruras!

“A casa que leva o nº 65 se compõe de dois edifícios: um que dá para a rua, em duas escadas uma diante da outra.

“Há uma semana, em diversas horas do dia e da noite, em todos os andares dessa casa, as campainhas se agitam e tocam com violência; vai-se abrir: ninguém sobre o patamar.

Acreditou-se primeiro em um gracejo, e cada um se pôs em observação para descobrir-lhe o autor. Um dos locatários tomou o cuidado de despolir um vidro de sua cozinha e fez a vigia. Enquanto ele velava com a maior atenção, sua campainha sacode: põe os olhos em seu postigo, ninguém! Corre para a escada, ninguém!

“Reentra em sua casa e arranca o cordão de sua campainha. Uma hora depois, no momento em que ele começava a triunfar, a campainha se pôs a tocar do modo mais belo. Ele a olha fazê-lo e permanece mudo e consternado.

“Em outras portas, os cordões de campainhas são torcidos e amarrados como serpentes feridas. Procura-se uma explicação, apela-se à polícia; qual e, pois, esse mistério? Ainda o ignoram.”

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