Senhor Adrien, médium vidente

Revista Espírita, dezembro de 1858

Toda pessoa que pode ver os Espíritos sem auxílio de terceiro é, por isso mesmo, médium vidente; mas, em geral, as aparições são fortuitas, acidentais. Não conhecemos, ainda, ninguém apto a vê-los de modo permanente, e à vontade. É dessa notável faculdade que está dotado o senhor Adrien, um dos membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Ele é, ao mesmo tempo, médium vidente, escrevente, audiente e sensitivo. Como médium escrevente, ele escreve sob o ditado dos Espíritos, mas raramente de modo mecânico, como os médiuns puramente passivos; quer dizer que, embora escreva coisas estranhas ao seu pensamento, tem consciência do que escreve. Como médium audiente, ouve as vozes ocultas que lhe falam. Temos, na Sociedade, dois outros médiuns que gozam dessa última faculdade em muito alto grau. São, ao mesmo tempo, muito bons médiuns escreventes. Enfim, como médium sensitivo, sente os toques dos Espíritos e a pressão que exercem sobre ele; sentelhes mesmo comoções elétricas muito violentas, que se comunicam às pessoas presentes. Quando magnetiza alguém, pode, à vontade, quando isso é necessário à saúde, produzir sobre ele os abalos da pilha voltaica.

Uma nova faculdade acaba de se revelar nele, a da dupla vista; sem ser sonâmbulo, e embora esteja perfeitamente desperto, vê à vontade, a uma distância ilimitada, mesmo além dos mares, o que se passa em uma localidade; vê as pessoas e o que elas fazem; descreve os lugares e os fatos com uma precisão cuja exatidão foi verificada. Apressamo-nos em dizer que o senhor Adrien não é um desses homens fracos e crédulos que se deixam ir pela imaginação; ao contrário, é um homem de caráter muito frio, muito calmo, e que vê tudo isso com o mais absoluto sangue frio, não dizemos com indiferença, longe disso, porque ele toma suas faculdades a sério, e as considera como um dom da Providência, que lhe foi concedido para o bem, também não se serve deles senão para as coisas úteis, e jamais para satisfazer uma vã curiosidade. É um homem jovem, de uma família distinta, muito honrada, de um caráter ameno e benevolente, e cuja educação cuida de se revelar em sua linguagem e em todas as suas maneiras. Como marinheiro e como militar, percorreu uma parte da África, da índia, e de nossas colônias.

De todas suas faculdades como médium, a mais notável, e em nossa opinião a mais preciosa, é a de médium vidente. Os Espíritos lhe aparecem sob a forma que descrevemos em nosso artigo precedente sobre as aparições; ele os vê com uma precisão da qual pode-se julgar pelos retratos, que damos adiante, da viúva de Malabar e da Belle Cordière de Lyon. Mas, dirse-á, o que prova que ele vê bem e que não é o joguete de uma ilusão? O que o prova, é que quando uma pessoa, que ele não conhece, evoca por seu intermédio um parente, um amigo que ele jamais viu, e dele faz um retrato surpreendente de semelhança e que pudemos mesmo constatar; não há, pois, para nós nenhuma dúvida sobre essa faculdade que ele goza no estado de vigília, e não como sonâmbulo.

O que há de mais notável ainda, talvez, é que não vê só os Espíritos evocados; ao mesmo tempo, vê todos aqueles que estão presentes, evocados ou não; ele os vê entrarem, saírem, irem, virem escutarem o que se diz, rirem ou levarem a sério, segundo seu caráter; em uns há gravidade; em outros, um ar zombeteiro e sardônico; algumas vezes um deles avança até um dos assistentes, lhe coloca a mão sobre a espádua ou se coloca ao seu lado, alguns se mantêm afastado; em uma palavra, em toda reunião, há sempre uma assembléia oculta composta de Espíritos atraídos por sua simpatia pelas pessoas, e pelas coisas pelas quais se ocupem. Nas ruas vê uma multidão, porque além dos Espíritos familiares que acompanham seus protegidos, há ali, como entre nós, a massa dos indiferentes e dos vadios. Em sua casa, disse-nos, não está jamais só, e não se entedia nunca; tem sempre uma sociedade com a qual ele conversa.

Sua faculdade se estende não somente aos Espíritos dos mortos, mas aos dos vivos; quando vê uma pessoa, pode fazer abstração do corpo; então o Espírito lhe aparece como se estivesse separado dele, e pode conversar com ele: Em uma criança, por exemplo, pode ver o Espírito que está encarnado nela, apreciar a sua natureza, e saber o que era antes de sua encarnação.

Essa faculdade, estendida a esse grau, nos inicia melhor, que todas as comunicações escritas, na natureza do mundo dos Espíritos; no-lo mostra tal qual é, e se não o vemos pelos nossos olhos, a descrição que dele nos dá fá-lo ver pelo pensamento; os Espíritos não são mais seres abstratos, são seres reais, que estão ali ao nosso lado, que nos acotovelam sem cessar, e como sabemos agora que seu contato pode ser material, compreendemos a causa de uma multidão de impressões que sentimos sem delas nos rendermos conta.

Também colocamos o senhor Adrien no número dos mais notáveis médiuns, e na primeira classe daqueles que forneceram os elementos mais preciosos para o conhecimento do mundo espírita. Sobretudo, o colocamos na primeira classe por suas qualidades pessoais, que são as de um homem de bem por excelência, e que o tornam eminentemente simpático aos Espíritos da mais elevada ordem, o que não ocorre sempre entre os médiuns de influências puramente físicas. Sem dúvida, entre estes últimos, aos que farão mais sensação, cativarão melhor a curiosidade; mas para o observador, para aquele que quer sondar os mistérios desse mundo maravilhoso, o senhor Adrien é o mais poderoso auxiliar que já vimos. Também colocamos sua faculdade, e sua complacência, em proveito de nossa instrução pessoal, seja na intimidade, seja nas sessões da Sociedade, seja, enfim, na visita de diversos lugares de reunião. Estivemos juntos no teatro, nos bailes, nos passeios, nos hospitais, nos cemitérios, nas igrejas; assistimos a enterros, a casamentos, a batismos, a sermões: por toda parte observamos a natureza dos Espíritos que ali vinham se agrupar, entabulamos conversação com alguns, os interrogamos e aprendemos muitas coisas das quais aproveitaremos aos nossos leitores, porque nosso objetivo é fazê-los penetrarem, como nós, nesse mundo tão novo para nós. O microscópio nos revelou um mundo dos infinitamente pequenos que não supúnhamos, embora estivesse sob nossos dedos; o telescópio ‘nos revelou a infinidade de mundos celestes, que não supúnhamos mais; o Espiritismo nos descobre o mundo dos Espíritos que está por toda parte, ao nosso lado como nos espaços; mundo real que reage incessantemente sobre nós.

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Das aparições

Revista Espírita, dezembro de 1858

O fenômeno das aparições se apresenta hoje sob um aspecto de alguma sorte novo, e que lança uma luz viva sobre os mistérios da vida além-túmulo. Antes de abordarmos os fatos estranhos que vamos relatar, cremos dever retornar sobre a explicação que deles foi dada, e completá-la.

Não se pode perder de vista que, durante a vida, o Espírito está unido ao corpo por uma substância semi-material que designamos sob o nome de perispírito. O Espírito tem, pois, dois envoltórios: um grosseiro, pesado e destrutível: é o corpo; o outro etéreo, vaporoso e indestrutível: é o perispírito. A morte não é senão a destruição do envoltório grosseiro, é a veste de cima usada que se deixa; o envoltório semi-material persiste, e constitui, por assim dizer, um novo corpo para o Espírito. Essa matéria etérea não ó a alma, anotemos bem, não é senão o primeiro envoltório da alma. A natureza íntima dessa substância, ainda, não nos é perfeitamente conhecida, mas a observação nos colocou no caminho de algumas dessas propriedades. Sabemos que ela desempenha um papel capital em todos os fenômenos espíritas; depois da morte ó o agente intermediário entre o Espírito e a matéria, como o corpo durante a vida. Por aí se explicam uma multidão de problemas até agora insolúveis. Ver-se-á, num artigo subseqüente, o papel que ela desempenha nas sensações do Espírito. Também a descoberta, se assim se pode exprimir, do perispírito, fez dar um passo imenso à ciência espírita; fê-la entrar num caminho todo novo. Mas esse perispírito, direis, não é uma criação fantástica da imaginação? Não é uma dessas suposições como, freqüentemente, faz se na ciência para explicar certos efeitos? Não, não é uma obra de imaginação, porque foram os próprios Espíritos que o revelaram; não é uma idéia fantástica, porque pode ser constatada pelos sentidos, porque se pode vê-lo e tocá-lo. A coisa existe, só a palavra é nossa. São necessárias palavras novas para exprimirem coisas novas. Os próprios Espíritos a adotaram nas comunicações que temos com eles.

Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é indivisível para nós, mas pode sofrer modificações que o tomem perceptível à visão, seja por uma espécie de condensação, seja por uma mudança na disposição molecular é então que nos aparece sob forma vaporosa. A condensação (não é preciso tomar essa palavra pela letra, empregamo-la na falta de uma outra), a condensação, dizíamos, pode ser tal que o perispírito adquire as propriedades de um corpo sólido e tangível; mas ele pode, instantaneamente, retomar seu estado etéreo e invisível. Podemos entender esse efeito pelo do vapor, que pode passar da invisibilidade ao estado brumoso, depois líquido, depois sólido, e vice-versa. Esses diferentes estados do perispírito são o produto da vontade do Espírito, e não de uma causa física exterior. Quando nos aparece, é que dá ao seu perispírito a propriedade necessária para torná-lo visível, e essa propriedade ele pode estender, restringi-la, fazê-la cessar à sua vontade.

Uma outra propriedade da substância do perispírito é a da penetrabilidade. Nenhuma matéria lhe faz obstáculo: atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes.

O perispírito, separado do corpo, afeta uma forma determinada e limitada, e essa forma normal é a do corpo humano, mas não é constante; o Espírito pode dar-lhe, à sua vontade, as aparências mais variadas e até a de um animal ou de uma chama. De resto, isto se concebe muito facilmente. Não se vêem homens darem, ao seu rosto, as expressões mais diversas, imitarem, ao ponto de enganarem, a voz, o rosto de outras pessoas, parecerem corcundas, coxos, etc.? Quem reconheceria na cidade certos atores que não se vira senão caracterizado no palco? Se, pois, o homem pode assim dar ao seu corpo material e rígido aparências tão contrárias, com mais forte razão o Espírito pode fazê-lo com um envoltório eminentemente flexível, e que pode prestar-se a todos os caprichos da vontade.

Os Espíritos nos aparecem, pois, geralmente sob uma forma humana; em seu estado normal, essa forma nada tem bem característica, nada que os distingue uns dos outros, de um modo bem marcado; nos bons Espíritos, ela é ordinariamente bela e regular: os longos cabelos flutuam sobre os ombros, roupagens envolvem o corpo. Mas, se querem dar-se a conhecer, tomam exatamente todos os traços sob os quais foram conhecidos, e até a aparência das vestes, se isso for necessário. Assim, Esopo, por exemplo, como Espírito não é disforme, mas se for evocado, enquanto Esopo, tivesse mesmo várias existências depois, apareceria disforme e corcunda, com o costume tradicional. Esse vestuário, talvez, é o que mais espanta; mas considerando-se que faz parte integrante do envoltório semi-material, concebese que o Espírito possa dar, a esse envoltório, a aparência de tal ou tal vestuário, como a de tal ou de tal rosto.

Os Espíritos podem aparecer seja em sonho, seja no estado de vigília. As aparições no estado de vigília não são nem raras nem novas; houve-as em todos os tempos; delas a história narra um grande número; mas, sem remontar tão alto, em nossos dias elas são muito freqüentes, em muitas pessoas que as tiveram, à primeira vista, tomaram-nas pelo que se convencionou chamar de alucinações. São freqüentes, sobretudo, nos casos de morte de pessoas ausentes, que vêm visitar seus parentes ou amigos. Freqüentemente, elas não têm objetivo determinado, mas pode-se dizer que, em geral, os Espíritos que nos aparecem assim são seres atraídos a nós pela simpatia. Conhecemos uma jovem senhora que via, muito freqüentemente, em sua casa, em seu quarto, com ou sem luz, homens que ali penetravam e dali se iam apesar das portas fechadas. Com isso estava muito atemorizada, e isso a tornara de uma pusilanimidade que se achava ridícula. Um dia, ela viu distintamente seu irmão, que estava na Califórnia, e que não estava morto de todo: prova que o Espírito dos vivos pode também transpor as distâncias e aparecer em um lugar ao passo que o corpo está alhures. Depois que essa senhora se iniciou no Espiritismo, não tem mais medo, porque tem consciência de suas visões, e sabe que os Espíritos que vêm visitá-la, não podem fazer-lhe mal. Quando seu irmão lhe apareceu, provavelmente estava adormecido; se ela entendesse a sua presença, poderia conversar com ele, e este último, em seu despertar, ‘poderia disso conservar vaga lembrança. É provável, além disso, que nesse momento ele estivesse sonhando que estava perto de sua irmã.

Dissemos que o perispírito pode adquirir a tangibilidade; disso falamos a propósito das manifestações produzidas pelo senhor Home. Sabe-se que, várias vezes, fez aparecer mãos que se podiam apalpar, como mãos vivas, e que, de repente, se esvaneciam como uma sombra; mas não se vira, ainda, corpo inteiro sob essa forma tangível; isso não é todavia uma coisa impossível. Numa família do conhecimento íntimo de um de nossos assinantes, um Espírito se ligou à filha da casa, criança de 10 a 11 anos, sob a forma de um lindo rapaz da mesma idade. Era visível por ela como uma pessoa comum, e se tornava, à vontade, visível ou invisível a outras pessoas; prestou-lhe todas as espécies de bons ofícios, trouxe-lhe brinquedos, bombons, fez serviço da casa, vai comprar o que se tem necessidade, e o que é mais, lhe paga. Isto não é uma lenda da mística Alemanha, nem é uma história da Idade Média, é um fato atual, que se passa, no momento em que escrevemos, em uma cidade da França, e numa família muito honrada. Fomos capazes de fazer, sobre esse fato, estudos plenos de interesse e que nos forneceram as revelações mais estranhas e as mais inesperadas. Dele proveremos nossos leitores, de modo mais completo, em um artigo especial que publicaremos brevemente.

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Variedades – Aparição do general Marceau

Revista Espírita, novembro de 1858

A Gazette de Cologne publicou a história seguinte, que lhe foi comunicada por seu correspondente em Coblentz, e que é atualmente o assunto de todas as conversações. O fato foi narrado pela Patrie de 10 de outubro de 1858.

“Sabe-se que, abaixo do forte do Imperador François, perto da estrada de Cologne, encontrase um monumento do general francês Marceau, que tombou em Altenkirchen e foi sepultado em Coblentz, no monte Saint-Pierre, onde se acha agora a parte principal do forte. O monumento do general, que é uma pirâmide mutilada, foi mais tarde tirado quando começaram as fortificações de Coblentz. Todavia, por ordem expressa do brilhante rei Frédéric III, foi reconstruído no lugar onde se acha atualmente.

“O senhor de Stramberg, que em seu Reinischen antiquarius, dá uma biografia muito detalhada de Marceau, conta que pessoas pretendem ter visto o general, à noite, por várias vezes, montado sobre um cavalo branco e levando o casaco branco dos caçadores franceses. Há algum tempo, dizia-se em Coblentz que Marceau deixava seu túmulo, e que numerosas pessoas asseguravam tê-lo visto. Há alguns dias, um soldado, de guarda sobre o Petersberg (o monte Saint-Pierre), viu chegar a ele um cavaleiro branco, montado sobre um cavalo branco. Ele grita: Quem vêm lá? Não tendo recebido resposta, a três interpelações, ele atira, e desmaia. Uma patrulha precipita-se ao tiro e encontra o sentinela sem sentidos.

Levado ao hospital, onde caiu perigosamente enfermo, pôde, entretanto, relatar o que vira Uma outra versão disse que ele morreu em conseqüência da aventura. Eis a historieta tal qual pode ser certificada por toda a cidade de Coblentz.”

ALLAN KARDEC

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Uma noite esquecida ou a feiticeira Manouza

Revista Espírita, novembro de 1858

Milésima segunda noite dos contos árabes, Ditada pelo Espírito de Frédéric Soulié.

PREFÁCIO DO EDITOR

No correr do ano de 1856, as experiências de manifestações espíritas que se fizeram na casa do senhor B…, rua Lamartine, aí atraíram uma sociedade numerosa e escolhida. Os Espíritos que se comunicavam nesse círculo, eram mais ou menos sérios; alguns aí disseram coisas admiráveis de sabedoria, de uma profundidade notável, o que pode se julgar, pelo O Livro dos Espíritos que aí foi começado e feito em sua maior parte. Outras eram menos graves; seu humor jovial se prestava voluntariamente à distração, mas a uma distração de boa companhia que jamais saiu das conveniências. Desse número era Frédéric Soulié, que veio por si mesmo e sem ser convidado, mas cujas visitas inesperadas eram sempre, para a sociedade, um passatempo agradável. Sua conversação era espiritual, fina, mordaz, cheia de oportunidade, e jamais desmentiu o autor de Memórias do Diabo’, de resto jamais se lisonjeou, e quando se lhe dirigiam algumas perguntas um pouco árduas de filosofia, ele confessava francamente sua insuficiência para resolvê-las, dizendo que era ainda muito ligado à matéria, e que ele preferia o alegre ao sério.

O médium que lhe servia de intérprete era a senhorita Caroline B…, uma das filhas do senhor da casa, médium do gênero exclusivamente passivo, não tendo jamais a menor consciência daquilo que escrevia, e podendo rir e conversar à direita ou à esquerda, o que fazia de bom grado, enquanto a sua mão caminhava. O meio mecânico empregado foi, durante muito tempo, a cesta pião, descrita em nossa instrução prática. Mais tarde, o médium serviu-se da psicografia direta.

Perguntar-se-á, sem dúvida, que provas tínhamos que o Espírito que se comunicava era o de Frédéric Soulié, antes que qualquer outro. Não é aqui o caso de tratar a questão da identidade dos Espíritos; diremos somente que o de Soulié se revelou por mil circunstâncias de detalhes que não podem escapar a uma observação atenta; só uma palavra, um chiste, um fato pessoal narrado, vieram nos confirmar que era bem ele; várias vezes deu sua assinatura que foi confrontada com originais. Um dia pediram que desse seu retrato, e o médium, que não sabe desenhar, que nem jamais o viu, traçou um esboço de uma semelhança marcante.

Ninguém, da reunião, tivera relações com ele em sua vida; por que, pois, viera sem ser chamado? Foi porque se ligou a um dos assistentes, sem jamais consentir em dizer o motivo; ele vinha quando essa pessoa estava presente; entrava com ela e saía com ela; de sorte que, quando ali não estava, ele não mais vinha, e, coisa estranha, era que quando ele lá estava, era muito difícil, senão impossível, haver comunicações com outros Espíritos; o próprio Espírito familiar da casa cedia-lhe o lugar, dizendo que, por polidez, devia fazer as honras da casa.

Um dia, anunciou que nos daria um romance de sua autoria, e, com efeito, algum tempo depois, começou um relato cujo início muito prometia; o assunto era druídico e a cena se passava na Armorique ao tempo da dominação romana; infelizmente, parece que se assustou com a tarefa que empreendeu, porque, é preciso dizê-lo bem, um trabalho assíduo não era seu forte, e ele confessava que se comprazia, com o maior bom grado, na preguiça. Depois de algumas páginas ditadas, aí deixou seu romance, mas anunciou que nos escreveria um outro, que lhe desse menos trabalho: foi então que escreveu o conto do qual começamos a publicação. Mais de trinta pessoas assistiram a essa produção e podem atestar-lhe a origem. Não a damos como obra de uma alta importância filosófica, mas como uma curiosa amostra de um trabalho de longo fôlego obtido dos Espíritos. Notar-se-á como tudo nele tem seqüência, como tudo se encadeia com uma arte admirável. O que há de mais extraordinário, é que esse relato reprisou-se cinco ou seis vezes diferentes, e freqüentemente depois de interrupções de duas a três semanas; ora, a cada reprise, o relato se seguia como se fora escrito de um golpe, sem riscos, sem retorno e sem que houvesse necessidade de lembrar o que havia precedido. Damo-lo tal como saiu do lápis do médium, sem mudar nada, nem no estilo, nem nas idéias, nem no encadeamento dos fatos. Algumas repetições de palavras, e alguns pequenos pecados de ortografia tendo sido assinalados, Soulié nos encarregou pessoalmente de retificá-los, dizendo que nos assistiria nisso; quando tudo terminou, ele quis rever o conjunto, ao qual não fez senão algumas retificações sem importância, e dar autorização de publicar como se o entendesse, fazendo, disse ele, de bom grado a renuncia de seus direitos de autor. Todavia, consideramos não dever inseri-lo em nossa Revista sem o consentimento formal de seu amigo póstumo, a quem pertencia o direito, uma vez que em sua presença e por sua solicitação éramos devedores dessa produção de além-túmulo. O título foi dado pelo próprio Espírito de Frédéric Soulié. A.K.

UMA NOITE ESQUECIDA

Havia, em Bagdá, uma mulher do tempo de Aladim; é a sua história que vou contar

Num dos subúrbios de Bagdá morava, não longe do palácio da sultana Shéhérazad, uma velha mulher chamada Manouza. Essa velha era motivo de terror para toda a cidade, porque era feiticeira das mais apavorantes. Em sua casa, à noite, se passavam coisas tão assustadoras que, logo que o sol se deitava, ninguém se arriscava passar diante de sua morada, a menos que fosse uma amante à procura de um filtro para uma senhora rebelde, ou uma mulher abandonada em busca de um bálsamo para colocar sobre a ferida que seu amante lhe fizera, abandonando-a.

Um dia, pois, em que o sultão estava mais triste que de hábito, e que a cidade estava numa grande desolação, porque ele queria que perecesse a sultana favorita, e que a seu exemplo todos os maridos eram infiéis, um jovem deixou uma magnífica habitação situada ao lado do palácio da sultana. Esse jovem trajava uma túnica e um turbante de cor sombria; mas sob essas simples vestes havia um grande ar de distinção. Procurava se esconder ao longo das casas, como gatuno, ou amante temeroso de ser surpreendido. Dirigia seus passos para o lado de Manouza, a feiticeira. Uma viva ansiedade pintava sobre os seus traços, que mostravam a preocupação que o agitava. Atravessou as ruas, as praças com rapidez, e, todavia, com grande precaução.

Chegado perto da porta, hesitou alguns minutos, depois decidiu bater. Durante um quarto de hora, teve angústias mortais, porque ouvia ruídos que nenhum ouvido humano havia escutado; uma matilha de cães uivando com ferocidade, gritos lamentáveis, cantos de homens e de mulheres, como ao fim de uma orgia, e, para clarear todo esse tumulto, luzes correndo de alto a baixo da casa, fogos fátuos de todas as cores; depois, como por encantamento, tudo cessou: as luzes se extinguiram e a porta se abriu.

O visitante ficou um instante interdito, não sabendo se devia entrar no corredor sombrio, que se oferecia à visão. Enfim, armando-se de coragem, penetrou audaciosamente. Depois de caminhar, às apalpadelas, o espaço de uns trinta passos, encontrou-se em face de uma porta dando para uma sala, clareada somente por uma lâmpada de cobre de três bicos, suspensa no meio do teto.

A casa que, depois do ruído que ouvira da rua, parecia dever ser muito habitada, tinha agora o ar deserto; essa sala que era imensa, e devia, pela sua construção, ser a base do edifício, estava vazia, excetuando-se os animais empalhados, de todas as espécies, com os quais estava guarnecida.

No meio dessa sala, havia uma pequena mesa coberta de livros de mágicos, e, diante dessa mesa, numa grande poltrona, estava sentada uma pequena velha, alta apenas dois côvados, e de tal modo embrulhada de xales e de turbantes, que era impossível ver seus traços. À aproximação do estranho, ela levantou a cabeça e mostrou, aos seus olhos, o mais terrível rosto que ele podia imaginar.

Eis-te aqui, senhor Noureddin, disse ela, fixando seus olhos de hiena sobre o jovem que entrara; aproxime-se! Faz vários dias que meu crocodilo, de olhos de rubis, me anuncia tua visita. Dize se é um filtro o de que precisas; dize se é uma fortuna. “Mas, que digo eu, uma fortuna! Não a tens que faz inveja ao próprio sultão? Não és o mais rico como és o mais belo? É provavelmente um filtro que vens procurar. Qual é, pois, a mulher que ousa ser-te cruel? Enfim, não devo nada dizer, eu não sei nada, estou pronta para escutar tuas dificuldades e para dar-lhes os remédios necessários, se, todavia, minha ciência tiver o poder de ser útil a ti. Mas que fazes, pois, a me olhar assim sem avançares? Terias medo?

Talvez eu te apavore? Tal como me vês, antigamente era bela; mais bela que todas as mulheres hoje existentes em Bagdá; foram os desgostos que me tornaram tão feia. Mas que te causam meus sofrimentos? Aproxima-te; eu te escuto; somente não posso dar-te senão dez minutos, assim, despacha-te.

Noureddin não estava muito tranqüilo; entretanto, não queria mostrar aos olhos de uma velha mulher a perturbação que o agitava, avançou e lhe disse: Mulher, vim por uma coisa grave; de tua resposta depende a sorte de minha vida; vais decidir de minha felicidade ou de minha morte. Eis do que se trata

O sultão quer matar Nazara; eu a amo; vou contar-te de onde vêm esse amor, e venho pedirte trazer um remédio, não a minha dor, mas a sua infeliz posição, porque eu não quero que ela morra. Sabes que meu palácio é vizinho daquele do sultão; nossos jardins se tocam. Há mais ou menos seis luas que, uma tarde, passeando nesses jardins, ouvi uma encantadora música acompanhada da mais deliciosa voz de mulher que jamais ouvi. Querendo saber de onde isso provinha, aproximei-me dos jardins vizinhos, e reconheci que era de um quarto de verdura habitado pela sultana favorita. Fiquei vários dias absorvido por esses sons melodiosos; noite e dia, revia a bela desconhecida cuja voz me seduzia; porque é preciso dizer-te que, em meu pensamento, ela não podia ser senão bela.

Passeava, cada tarde, nas mesmas alamedas onde ouvira essa encantadora harmonia; durante cinco dias, isso foi em vão; enfim, no sexto dia a música se fez ouvir de novo; então, não podendo mais conter-me, aproximei-me do muro e vi que era preciso pouco esforço para escalá-lo.

Depois de alguns momentos de hesitação, tomei uma grande decisão: passei do meu para o jardim vizinho; ali, vi, não uma mulher mas uma huri, a huri favorita de Maomé, uma maravilha enfim! À minha visão, ela assustou-se um pouco, mas, lançando-me aos seus pés, pedi-lhe que não tivesse nenhum temor em ouvir-me; disse-lhe que seu canto me atraíra e assegurei-lhe que não encontraria em minhas ações senão o mais profundo respeito; ela teve a bondade de me ouvir.

A primeira noite se passou falando de música. Também cantei, e me ofereci para em acompanhá-la; ela nisso consentiu, e marcamos encontro para o dia seguinte, à mesma hora Nessa hora, ela estava mais tranqüila; o sultão estava com seu conselho e a vigilância menor. As duas ou três primeiras noites se passaram inteiramente com a música; mas a música é a voz dos amantes, e desde o quarto dia não estávamos mais estranhos um ao outro. Nós nos amamos. Que bela estava! Como sua alma era bela também! Fizemos, muitas vezes, o projeto de fugirmos. Ai! por que não o executamos? Seria menos infeliz, e ela não estaria prestes a sucumbir. Essa bela flor não estaria no momento de ser colhida pela foice que vai arrebatá-la à luz.

(continua no próximo número)

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Independência sonambúlica

Fatos notáveis de lucidez

Revista Espírita, novembro de 1858

Muitas pessoas, que hoje aceitam perfeitamente o magnetismo, contestaram durante muito tempo a lucidez sonambúlica; é que, com efeito, essa faculdade veio confundir todas as noções que tínhamos sobre a percepção das coisas do mundo exterior, e, todavia, desde há muito tempo tinha-se o exemplo dos sonâmbulos naturais, que gozam de faculdades análogas e que, por um contraste bizarro, jamais se procurou aprofundar. Hoje, a clarividência sonambúlica é um fato adquirido, e, se ainda é contestado por algumas pessoas, é porque as idéias novas demoram para se enraizar, sobretudo quando é preciso renunciar àquelas por longo tempo nutridas; é também porque muitas pessoas acreditaram, como ocorre ainda com as manifestações espíritas, que o sonambulismo podia ser experimentado como máquina, sem levar em conta as condições especiais do fenômeno; foi por isso que, não tendo obtido à vontade, e a propósito resultados sempre satisfatórios, disso se concluiu pela negativa. Fenômenos tão delicados exigem uma observação longa, assídua e perseverante, a fim de apreender-lhes as nuanças freqüentemente fugitivas. É igualmente em conseqüência de uma observação incompleta dos fatos que certas pessoas, mesmo admitindo a clarividência dos sonâmbulos, contestam sua independência; segundo elas, sua visão não se estende além do pensamento daquele que os interroga; alguns pretendem mesmo que não há visão, mas simplesmente intuição e transmissão de pensamento, e citam exemplos em apoio. Ninguém duvida que o sonâmbulo, vendo o pensamento, algumas vezes pode traduzi-lo e ser dele o eco; não contestamos mesmo que não possa, em certos casos, influenciá-lo: não ocorresse senão isso no fenômeno, já não seria um fato bem curioso e bem digno de observação? A questão, portanto, não é saber se o sonâmbulo é ou pode ser influenciado por um pensamento estranho, isso não é duvidoso, mas bem saber se é sempre influenciado: isso é um resultado da experiência. Se o sonâmbulo não diz jamais senão o que sabeis, é incontestável que é o vosso pensamento que ele traduz; mas se, em certos casos, ele diz o que não sabeis, se contradiz vossa opinião, vossa maneira de ver, é evidente que é independente e não segue senão seu próprio impulso. Um único fato desse gênero, bem caracterizado, bastaria para provar que a sujeição do sonâmbulo ao pensamento de outrem não é uma coisa absoluta; ora, eles existem aos milhares; entre os que são de nosso conhecimento pessoal, citaremos os dois seguintes:

O senhor Marillon, morando em Bercy, rua de Charenton, n9 43, havia desaparecido no dia 13 de janeiro último. Todas as pesquisas para descobrir seus vestígios foram infrutíferas, nenhuma das pessoas na casa das quais estavam habituado ir, não o haviam visto; nenhum negócio podia motivar uma ausência prolongada; por outro lado, seu caráter, sua posição pecuniária, seu estado mental descartavam toda idéia de suicídio. Estava-se reduzido a pensar que ele perecera vítima de um crime ou de um acidente; mas, nesta última hipótese, poderia ser facilmente reconhecido e conduzido ao seu domicílio, ou, pelo menos, levado ao Necrotério. Todas as possibilidades eram, pois, para o crime; foi nesse pensamento que se fixou, tanto melhor porque se pensou que saíra para fazer um pagamento; mas onde e como o crime havia sido cometido? Era o que se ignorava. Sua filha, então, recorreu a uma sonâmbula, a senhora Roger, que em muitas outras circunstâncias semelhantes dera provas de uma lucidez notável, que pudemos constatar por nós mesmos. A senhora Roger seguiu o senhor Morillon desde a sua saída, de sua casa, às 3 horas depois de meio-dia, até lá pelas 7 horas da tarde, no momento em que se dispunha a reentrar, vi-o, então, descer pela margem do Sena por um motivo premente; ali, disse ela, teve um ataque de apoplexia, e o vejo cair sobre uma pedra, fazer-se uma fenda na testa, depois deslizar na água; portanto, isso não foi nem suicídio, nem crime; vejo ainda seu dinheiro e uma chave no bolso de seu paletó. Ela indica o lugar do acidente, mas, acrescenta ela, não é ali que ele está agora, foi facilmente arrastado pela corrente e será encontrado em tal lugar. Foi, com efeito, o que ocorreu; ele tinha a ferida indicada na fronte; a chave e o dinheiro estavam em seu bolso e a posição de suas vestes indicavam, suficientemente, que a sonâmbula não se enganara sobre o motivo que o conduzira às margens do rio. Perguntamos onde, com todos esses detalhes, pode-se ver a transmissão de um pensamento qualquer. Eis um outro fato onde a independência sonambúlica não é menos evidente.

O senhor e a senhora Belhomme, agricultores em Rueil, rua Saint-Denis, nº 19, tinham reservado uma soma ao redor de 8 a 900 francos. Para maior segurança, a senhora Belhomme colocou-a em um armário, do qual uma parte estava reservada para roupa branca velha, a outra para roupa branca nova, e foi nesta última que o dinheiro foi colocado; nesse momento alguém entrou e a senhora Belhomme se apressou em fechar o armário. Algum tempo depois, tendo necessidade do dinheiro, ela se persuadiu de tê-lo colocado na roupa velha, porque essa fora sua intenção, na idéia de que o velho tentaria menos os ladrões; mas, em sua precipitação, com a chegada do visitante, ela o havia colocado no outro compartimento. Estava de tal modo convencida de tê-lo colocado na roupa branca velha, que a idéia de procurá-lo alhures não lhe ocorreu; encontrando o lugar vazio, e lembrando-se da visita, ela acreditou ter sido notada e roubada, e nessa persuasão, suas suposições, naturalmente, se dirigiam sobre o visitante.

A senhora Belhomme conhecia a senhorita Marillon, da qual falamos mais acima, e lhe contou sua desventura. Esta tendo-lhe ensinado o meio pelo qual seu pai fora encontrado, a exortou dirigir-se à mesma sonâmbula, antes de tomar alguma providência. O senhor e a senhora Belhomme seguiram para a casa da senhora Roger, bem convencidos de terem sido roubados, e na esperança de que se indicaria o ladrão que, em sua opinião, não podia ser senão o visitante. Tal era, pois, seu pensamento exclusivo; ora, a sonâmbula, depois de uma descrição minuciosa do local, lhes disse: não fostes roubados; vosso dinheiro está intacto em vosso outro armário, somente credes tê-lo colocado no de roupa velha, ao passo que o colocastes no de nova; retornai para vossa casa e aí o encontrareis; com efeito, foi o que ocorreu.

Nosso objetivo, narrando esses dois fatos, e poderíamos deles citar muitos outros também concludentes, foi de provar que a clarividência sonambúlica não é sempre o reflexo de um pensamento estranho; que o sonâmbulo pode ter, assim, uma lucidez própria, inteiramente independente. Disso resulta conseqüências de alta gravidade do ponto de vista psicológico; aí encontramos a chave de mais de um problema, que examinaremos ulteriormente, tratando das relações que existem entre o sonambulismo e o Espiritismo, relações que lançam uma luz toda nova sobre a questão.

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A senhora de Staël

Revista Espírita, novembro de 1858

Na sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 28 de setembro de 1858, o Espírito da senhora de Staël se comunica espontaneamente e sem ser chamado, sob a mão da senhorita E…, médium escrevente; dita a passagem seguinte:

Viver é sofrer; sim, mas a esperança não segue o sofrimento? Deus não colocou no coração dos mais infelizes a maior dose de esperança? Criança, o desgosto e a decepção seguem o nascimento; mas diante dele marcha a esperança que lhe diz: Avance, o objetivo é a felicidade: Deus é clemente.

Por que, dizem os espíritos fortes, vir-nos ensinar uma nova religião, quando o Cristo pôs as bases de uma caridade tão grandiosa, de uma felicidade tão certa? Não temos a intenção de mudar o que o grande reformador ensinou. Não: somente viemos reafirmar nossa confiança, aumentar nossas esperanças. Quanto mais o mundo se civilize, mais deverá ter confiança, e mais também teremos necessidade de sustentá-lo. Não queremos mudar a face do Universo, viemos ajudar a tomá-lo melhor; e se, neste século, não se vier em ajuda ao homem, será muito infeliz pela falta de confiança e de esperança. Sim, homem sábio que lês nos outros, que procuras conhecer o que pouco te importa, e atiras longe de ti o que te concerne, abre os olhos, não desesperes; não digas mais: O nada pode ser possível, quando, em teu coração, deveria sentir o contrário. Vem assentar-te a esta mesa e espera: tu te instruirás de teu futuro, serás feliz. Aqui, há pão para todo o mundo: espíritos, vos desenvolvereis; corpos, vos nutrireis; sofrimentos, vos acalmareis; esperanças, florireis e embelezareis a vida para fazê-la suportar.

Staël.

Nota. O Espírito faz alusão à mesa onde estavam os médiuns.

Perguntai-me, responderei às vossas perguntas.

1. Não estando prevenidos de vossa visita, não preparamos nada do assunto. – R. Sei muito bem que perguntas particulares não podem ser resolvidas por mim; mas de coisas gerais pode-se perguntar, mesmo a uma mulher que teve um pouco de espírito e tem agora muito de coração!

Nesse momento, uma senhora que assistia à sessão, pareceu desfalecer; mas não era senão uma espécie de êxtase que, longe de ser penoso, lhe era antes agradável. Oferece-se para magnetizá-la: então o Espírito da senhora Staël disse espontaneamente: Não, deixai-a tranqüila, é preciso deixar a influência agir. – Depois, dirigindo-se à senhora: Tende confiança, um coração vela junto de vós; quer vos falar; um dia virá… Não precipitemos as emoções.

O Espírito que se comunicava com essa senhora, e que era o de sua irmã, escreveu então espontaneamente: Eu retornarei.

A senhora de Staël, dirigindo-se de novo, ela mesma, a essa senhora, escreveu: Uma palavra de consolação a um coração sofredor. Por que essas lágrimas de mulher para a irmã? Esses retornos ao passado, quando todos os vossos pensamentos, não deveriam ir .senão para o futuro? Vosso coração sofre, vossa alma tem necessidade de se dilatar. Pois bem! que essas lagrimas sejam um alívio e não produzidas pelos remorsos! Aquela que vos ama e que chorais está feliz com a sua felicidade! E esperai reencontrá-la um dia: não a vedes; mas para ela não há separação, porque constantemente pode estar junto de vós.

2. Gostaríeis de nos dizer o que pensais atualmente de vossos escritos? – R. Uma única palavra esclarecer-vos-á. Se eu voltasse e pudesse recomeçar, mudaria as duas terças partes e não guardaria senão a outra terça parte.

3. Poderíeis assinalar as coisas que desaprovais? – R. Não é muita exigência, porque o que não está justo, outros escritores o mudarão: fui muito homem para uma mulher.

4. Qual era a causa primeira do caráter viril que mostrastes durante a vida? – R. Isso depende da fase da existência em que se está

Na sessão seguinte, em 12 de outubro, se lhe dirigem as perguntas seguintes, por intermédio do senhor D…, médium escrevente.

5. Outro dia, viestes espontaneamente entre nós, por intermédia da senhorita E… Teríeis a bondade de nos dizer qual motivo pôde vos levar a nos favorecer com vossa presença, sem que vos tivéssemos chamado? – R. A simpatia que tenho por todos; ao mesmo tempo, o cumprimento de um dever que me impus em minha existência atual, ou antes em minha existência passageira, uma vez que estou chamada a reviver: de resto, é o destino de todos os Espíritos.

6. Como vos é mais agradável: vir espontaneamente ou ser evocada? – R. Gosto mais de ser evocada, porque é uma prova que se pensa em mim; mas sabeis, também, que é agradável para o Espírito livre poder conversar com o Espírito do homem; por isso, não deveis vos admirar ao me verdes chegar, de repente, entre vós.

7. Há vantagem em evocar os Espíritos antes que esperar a seu bel-prazer? – R. Evocando, tem-se um objetivo; deixando-os vir, corre-se grande risco de ter comunicações imperfeitas, sob muitos pontos de vista, porque os maus vêm tão bem quanto os bons.
8. Já vos comunicastes em outros círculos? – R. Sim; mas, freqüentemente, têm-me feito aparecer mais que eu não teria querido; quer dizer: freqüentemente, tomaram meu nome.

9. Teríeis a bondade de vir, algumas vezes, entre nós, para nos ditar alguns dos vossos belos pensamentos, que estaremos felizes em reproduzir para a instrução geral? – R. Bem voluntariamente: vou com prazer entre aqueles que trabalham seriamente para se instruírem: minha chegada de outro dia, disso é uma prova.

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Médium pintor na América

Revista Espírita, novembro de 1858

(Extraído do Spiritualiste de Nova Orteans.)

Não podendo todo mundo ser convencido pelo mesmo gênero de manifestações espirituais, foi preciso se desenvolverem médiuns de muitas espécies. Há, nos Estados Unidos, os que fazem retratos de pessoas mortas há muito tempo, e que jamais conheceram; e como a semelhança é logo constatada, poucas pessoas sensatas, que testemunham esses fatos, não deixam de se converterem. O mais notável desses médiuns é talvez o senhor Roger, que já citamos (vol. l, p. 239), e que habitava, então, Columbus, onde exercia sua profissão de alfaiate; poderíamos acrescentar que não teve outra educação, além daquela do seu estado.

Aos homens instruídos que disseram ou repetiram, a propósito da teoria espiritualista: “O recurso aos Espíritos não é senão uma hipótese; um exame atento prova que ela não é nem a mais racional, nem a mais verossímil,” a eles, sobretudo, oferecemos a tradução seguinte, que abreviamos, de um artigo escrito em 27 de julho último, pelo senhor Fayette R. Gridley, de Attica (Indiana), aos editores do Spiritual Age, que o publicou por inteiro em sua folha de 14 de agosto:

No mês de maio último, o senhor E. Roger, de Cardington (Ohio), que, como sabeis, é médium pintor e faz retratos de pessoas que não estão mais neste mundo, veio passar alguns dias em minha casa. Durante essa curta estada, foi arrebatado por um artista invisível que se deu por Benjamin West, e ele pintou alguns belos retratos, de tamanho natural, assim como outros menos satisfatórios.

Eis algumas particularidades relativas a dois desses retratos.

Foram pintados pelo dito E. Roger, em um quarto escuro, em minha casa, no curto intervalo de uma hora e trinta minutos, dos quais em torno de uma meia-hora se passou sem que o médium fosse influenciado, e eu a aproveitei para examinar seu trabalho, que não estava ainda acabado. Roger foi arrebatado de novo e terminou esses retratos. Então, e sem nenhuma indicação quanto aos sujeitos assim representados, um dos retratos foi em seguida reconhecido como sendo de meu avô, Elisha Gridley; minha mulher, minha irmã, a senhora Chaney, e depois meu pai e minha mãe, todos foram unânimes em acharem a semelhança boa; é um fac-símile do velho, com todas as particularidades de sua cabeleira, de seu colarinho de camisa, etc. Quanto ao outro retrato, nenhum de nós o reconhecendo, pendureio em minha loja, à vista dos passantes, e permaneceu uma semana sem ser reconhecido por ninguém. Esperávamos que alguém nos dissesse que representava um antigo habitante de Attica. Perdia a esperança em saber quem se quis pintar, quando uma noite, tendo formado um círculo espiritualista em minha casa, um Espírito se manifestou e me fez a comunicação que aqui está:

“Meu nome é Horace Gridley. Há mais de cinco anos deixei meu despojo. Morei vários anos em Natchez (Mississipi), onde ocupei o lugar de xerife. Meu único filho mora lá. Sou primo do vosso pai. Podereis ter outras informações sobre mim, dirigindo-vos ao vosso tio, senhor Gridley, de Brownsville (Tennessee). O retrato que tendes em vossa loja é o meu, à época em que vivia na Terra, pouco tempo antes de passar para esta nova existência, mais elevada, mais feliz e melhor, ele se me assemelha, tanto ao menos quanto pude retomar minha fisionomia de então, porque isso é indispensável quando nos pintam, e o fazemos o melhor que podemos em lembrança e segundo as condições que o momento o permite. O retrato em questão não está acabado como o teria desejado; há algumas ligeiras imperfeições que o senhor West disse provirem das condições nas quais se achava o médium. Entretanto, enviai esse retrato a Natchez, para que seja examinado; creio que será reconhecido.”

Os fatos mencionados nessa comunicação eram perfeitamente ignorados por mim, tanto quanto de todos os habitantes de nosso lugar. Entretanto, uma vez, há alguns anos, ouvi dizer que meu pai tinha um parente em algum local dessa parte do vale do Mississipi; mas nenhum de nós sabia o nome desse parente, nem o lugar onde vivera, nem mesmo se estava morto, e não foi senão vários dias depois que tomei com meu pai (que habitava Delphi, a quarenta milhas daqui), qual havia sido o lugar de residência de seu primo, do qual não ouvira falar quase nada há sessenta anos. Não havíamos pensado em pedir os retratos de família; eu tinha simplesmente colocado, diante do médium, uma nota escrita contendo os nomes de uma vintena de antigos habitantes de Attica, partidos deste mundo, e desejamos obter o retrato de algum dentre eles. Penso, pois, que todas as pessoas racionais admitirão que o retrato, nem a comunicação de Horace Gridley, não puderam resultar de uma transmissão de pensamento de nós para o médium; aliás, é certo que o senhor Roger jamais conheceu nenhum dos dois homens, dos quais fez os retratos, e muito provavelmente, deles, jamais ouviu falar, porque é Inglês de nascimento; ele veio para a América, há dez anos, e nunca foi mais ao sul que Cincinnati, ao passo que Horace Gridley, pelo que sei, não veio jamais mais norte que Memphis (Tenn), nos últimos trinta ou trinta e cinco anos de sua vida terrestre. Ignoro se jamais visitou a Inglaterra; mas isso não poderia ter sido senão antes do nascimento de Roger, porque este não tem mais que vinte e oito a trinta anos. Quanto ao meu avô, morto há mais ou menos dezenove anos, jamais saiu dos Estados Unidos, e jamais fizera seu retrato, de qualquer maneira

Desde que recebi a comunicação que transcrevi mais acima, escrevi ao senhor Gridley, de Brownsville, e sua resposta veio corroborar o que ensinara a comunicação do Espírito; além do mais, com ele encontrei o nome do único filho de Horace Gridley, que é a senhora L. M. Patterson, ainda residente em Natchez, onde seu pai morou muito tempo, e que morreu, ao que pensa meu tio, há mais ou menos seis anos, em Houston (Texas).

Escrevi, então, à senhora Patterson, minha prima recém-descoberta, e lhe enviei uma cópia daguerreotipada do retrato, que nos disseram ser de seu pai. Em minha carta ao meu tio, de Brownsville, não havia dito nada do objetivo principal de minhas pesquisas, e de Ia nada disse mais à senhora Patterson; nem por que enviava esse retrato, nem como o havia adquirido, nem qual era a pessoa que ele representava; perguntei simplesmente à minha prima se ela nele reconhecia alguém. Ela me respondeu que não podia certamente dizer de quem era esse retrato, porém ela me assegurava que se assemelhava a seu pai à época de sua morte. Escrevi-lhe em seguida que o tomáramos também pelo retrato de seu pai, mas sem lhe dizer como o havia obtido. A réplica de minha prima trazia, em substância, que no ambrotipo que eu lhe enviara, todos haviam reconhecido seu pai, antes que eu lhe dissesse que era ele o representado. Minha prima testemunhou muita surpresa de que eu tivesse um retrato de seu pai, quando ela mesma jamais tivera, e que seu pai jamais dissera que fizera seu retrato, não importa por quem. Não acreditava que dele existisse algum. Mostrou-se bem satisfeita com a minha remessa, sobretudo por causa de seus filhos, que têm muita veneração pela memória de seu pai.

Então enviei-lhe o retrato original, autorizando-a a guardá-lo, se lhe aprouvesse; mas ainda não lhe disse como o havia obtido. As principais passagens do que ela me escreveu, em retorno, são as seguintes:

“Recebi vossa carta, assim como o retrato de meu pai, que me permitis guardar, se for assaz semelhante. É-o certamente muito; e como jamais tive outro retrato dele, guardo-o, uma vez que com isso consentis; aceito-o com muito reconhecimento, embora me pareça que meu pai foi melhor que isso, quando se achava com boa saúde.”

Antes do recebimento das duas últimas cartas da senhora Patterson, o acaso quis que o senhor Hedges, hoje de Delphi, mas outrora de Natchez, e o senhor Ewing, vindo recentemente de Vicksburg (Mississipi), vissem o retrato em questão e o reconhecessem como sendo de Horace Gridley, com quem ambos tiveram relações.

Acho que esses fatos têm muita significação para passarem em silêncio, e acreditei dever comunicar-lhes para serem publicados. Asseguro-vos que, escrevendo este artigo, tomei muito cuidado para que tudo nele esteja correto.

Nota. Já conhecemos os médiuns desenhistas; além dos notáveis desenhos, dos quais demos um espécime, mas que nos retratam coisas das quais não podemos verificar a exatidão, vimos executar, sob nossos olhos, por médiuns inteiramente estranhos a essa arte, esboços muito reconhecíveis de pessoas mortas, que jamais haviam conhecido; mas daí para um retrato pintado dentro das regras, há uma distância. Essa faculdade se liga a um fenômeno muito curioso do qual somos testemunhas neste momento, e de que falaremos proximamente.

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