Sensação dos Espíritos

Revista Espírita, dezembro de 1858

Os Espíritos sofrem? Que sensações experimentam? Tais são as perguntas que se dirigem naturalmente e que tentaremos resolver. Devemos dizer, primeiramente, que para isso não nos contentamos com as respostas dos Espíritos; devemos, por numerosas observações, de alguma sorte, tomar a sensação sobre o fato.

Em uma de nossas reuniões, e pouco antes que São Luís nos desse a bela dissertação sobre a avareza, que inserimos em nosso número do mês de fevereiro, um de nossos sócios contou o fato seguinte, a propósito dessa mesma dissertação.

“Estávamos, disse ele, ocupados com evocações em uma pequena reunião de amigos, quando se apresentou, inopinadamente e sem que o tivéssemos chamado, o Espírito de um homem que havíamos conhecido muito, e que, quando vivo servira de modelo ao retrato do avaro traçado por São Luís; um desses homens que vive miseravelmente no meio da fortuna, que se privam, não pelos outros, mas para amontoar sem proveito para ninguém. Era inverno, estávamos perto do fogo; de repente, esse Espírito nos lembrou seu nome, com o qual não sonhávamos de modo algum, e nos pediu a permissão de vir, durante três dias, aquecer-se na nossa lareira, dizendo que sofre horrivelmente do frio que ele, voluntariamente suportou durante sua vida, e que fez os outros suportarem por sua avareza. Será, acrescentou ele, um abrandamento que obtive, se consentis em mo concedê-lo.”

Esse Espírito sentia uma sensação penosa de frio; mas como o sentia? Aí estava a dificuldade. Dirigimos a São Luís as perguntas seguintes a esse respeito:
Consentiríeis em nos dizer como esse Espírito de avaro, que não tem mais corpo material, podia sentir o frio e pedir para se aquecer?

– R. Podes imaginar os sofrimentos do Espírito pelos sofrimentos morais.

– Concebemos os sofrimentos morais, como os desgostos, os remorsos, a vergonha; mas o calor e o frio, a dor física, não são efeitos morais; os Espíritos sentem essas espécies de sensações?

– R. Tua alma sente o frio? Não; mas tem a consciência da sensação que atua sobre o corpo.

– Disso pareceria resultar que esse Espírito de avaro não sente um frio efetivo; mas que ele teria a lembrança da sensação do frio que suportou, e que essa lembrança, sendo para ele como uma realidade, tornava-se um suplício. – R. E quase isso. Está bem entendido que há uma distinção, que compreendeis perfeitamente, entre a dor física e a dor moral; não se deve confundir o efeito com a causa.

– Se compreendemos bem, poder-se-ia, isso nos parece, explicar a coisa assim como segue:

O corpo é o instrumento da dor; senão a causa primeira, ao menos a causa imediata. A alma
tem percepção dessa dor: essa percepção é o efeito. A lembrança que dela conserva pode ser tão penosa quanto a realidade, mas não pode ter ação física. Com efeito, um frio nem um calor intensos, podem desorganizar os tecidos: a alma não pode nem gelar nem queimar. Não vemos, todos os dias, a lembrança ou apreensão de um mal físico produzir o efeito da realidade? Ocasionar mesmo a morte? Todo o mundo sabe que as pessoas amputadas sentem dor no membro que não existe mais. Seguramente, não é nesse membro que está a sede, nem mesmo o ponto de partida da dor. O cérebro dela conservou a impressão, eis tudo. Pode-se, pois, acreditar que há alguma coisa análoga no sofrimento do Espírito depois da morte. Essas reflexões são justas?

R. Sim; mais tarde compreendereis melhor ainda Esperai que fatos novos venham vos fornecer novos motivos de observação, e então deles podereis tirar conseqüências mais completas.

Isso se passou no começo do ano 1858; desde então, com efeito, um estudo mais aprofundado do perispírito, que desempenha um papel tão importante em todos os fenômenos espíritas, e do qual não se havia percebido, as aparições vaporosas ou tangíveis, o estado do Espírito no momento da morte, a idéia tão freqüente no Espírito que ainda está vivo, o quadro tão impressionante dos suicidas, dos supliciados, das pessoas absorvidas nos gozos materiais, e tantos outros fatos, vieram lançar luz sobre essa questão, e deram lugar às explicações das quais damos aqui o resumo.

O perispírito é o laço que une o Espírito à matéria do corpo: ele é haurido no meio ambiente, no fluido universal; tem, ao mesmo tempo, algo da eletricidade, do fluido magnético e, até a um certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria: é o princípio da vida orgânica, mas não o é da vida intelectual: a vida intelectual está no Espírito. É, além disso, o agente das sensações exteriores. No corpo, essas sensações estão localizadas pelos órgãos que lhes servem de canal. Destruído o corpo, as sensações são gerais. Eis porque o Espírito não diz que sofre antes da cabeça que dos pés. De resto, é preciso guardar-se de confundir as sensações do perispírito, tornado independente, com as do corpo: não podemos tomar essas últimas senão como termo de comparação, e não como analogia. Um excesso de calor ou de frio pode desorganizar os tecidos do corpo e não pode resultar nenhum prejuízo ao perispírito.

Desligado do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é o do corpo: entretanto, esse sofrimento não é um sofrimento exclusivamente moral, como o remorso, uma vez que se queixa do frio e do calor; não sofre mais no inverno que no verão: vimo-los passar através de chamas sem nada sentirem de penoso; a temperatura, portanto, não causa sobre eles nenhuma impressão. A dor que sentem, portanto, não é uma dor física propriamente dita: é um vago sentimento íntimo, do qual o próprio Espírito não se apercebe perfeitamente, precisamente porque a dor não é localizada e porque não é produzida por agentes exteriores: é antes uma lembrança que uma realidade, mas uma lembrança também muito penosa. Há, entretanto, algumas vezes, mais que uma lembrança, como vamos ver.

A experiência nos ensina que no momento da morte o perispírito se desliga mais ou menos lentamente do corpo; durante os primeiros instantes, o Espírito não se dá conta da sua situação; não crê estar morto; sente-se viver; vê seu corpo de um lado, sabe que é o seu, e não compreende que esteja dele separado: esse estado dura tão longo tempo quanto exista um laço entre o corpo e o perispírito. Que se reporte à evocação do suicida dos banhos da

Samaritana, que narramos no nosso número de junho. Como todos os outros, ele dizia:

Não, não estou morto, e acrescentava: E, entretanto, sinto os vermes que me roem. Ora, seguramente os vermes não roíam o perispírito, e ainda menos o Espírito, não roíam senão o corpo. Mas como a separação do corpo e do perispírito não estava completa, disso resultava uma espécie de repercussão moral que lhe transmitia a sensação do que se passava no corpo. Repercussão talvez não seja a palavra, poderia fazer crer em um efeito muito material; era antes a visão do que se passava em seu corpo, ao qual se ligava seu perispírito, que produzia nele uma ilusão, que tomava por uma realidade. Assim, não era uma lembrança, uma vez que, durante a vida, não havia sido roído pelos vermes: era o sentimento da atualidade. Vê-se por aí as deduções que se podem tirar dos fatos, quando são observados atentamente. Durante a vida, o corpo recebe as impressões exteriores e as transmite ao Espírito, por intermédio do perispírito que constitui, provavelmente, o que se chama fluido nervoso. Estando o corpo morto não sente mais nada, porque não há mais nele nem Espírito nem perispírito. O perispírito, desligado do corpo, sente a sensação; mas como esta não lhe chega mais por um canal limitado, ela é geral. Ora, como, em realidade, não é senão um agente de transmissão, uma vez que é o Espírito quem tem a consciência, disso resulta que se pudesse existir um perispírito sem Espírito, não sentiria mais do que o corpo quando está morto; do mesmo modo que se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a toda sensação penosa; é o que ocorre para os Espíritos completamente depurados. Sabemos que quanto mais se depuram, mais a essência do perispírito se torna etérea; de onde se segue que a influência material diminui à medida que o Espírito progride, quer dizer, à medida que o próprio perispírito se torna menos grosseiro.

Mas, dir-se-á, as sensações agradáveis são transmitidas ao Espírito pelo perispírito, como as sensações desagradáveis; ora, se o Espírito puro é inacessível a umas, deve sê-lo igualmente às outras. Sim, sem dúvida, para aquelas que provêm- unicamente da influência da matéria que conhecemos; o som de nossos instrumentos, o perfume de nossas flores não lhe causam nenhuma impressão, e, todavia, há neles sensações íntimas de um encanto indefinível, das quais não podemos fazer nenhuma idéia, porque somos, a esse respeito, como cegos de nascença a respeito da luz; sabemos que isso existe; mas por qual meio? Aí se detém para nós a ciência. Sabemos que há percepção, sensação, audição, visão, que essas faculdades são atributos de todo o ser, e não, como no homem, de uma parte do ser; mas, ainda uma vez, por qual intermediário? É o que não sabemos. Os próprios Espíritos não podem disso nos darem conta, porque nossa língua não foi feita para exprimir idéias que não temos, não mais que numa população de cegos não existiriam termos para exprimirem os efeitos da luz; não mais que na língua dos selvagens, não há termos para exprimir nossas artes, nossas ciências e nossas doutrinas filosóficas.

Dizendo que os Espíritos são inacessíveis às impressões da nossa matéria, queremos falar de Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não tem analogia neste mundo. Não ocorre o mesmo com aqueles cujo perispírito é mais denso: e estes percebem nossos sons e nossos odores, mas não por uma parte limitada de seu ser, como quando vivo. Poder-se-ia dizer que as vibrações moleculares se fazem sentir em todo o seu ser e chegam assim ao seu sensorium commune, que é o próprio Espírito, embora de modo diferente, e talvez também com uma impressão diferente, o que produz uma modificação na percepção. Eles ouvem o som de nossa voz, e todavia nos compreendem sem o socorro da palavra, unicamente pela transmissão do pensamento, e o que vem em apoio ao que dizemos, é que essa penetração é tanto mais fácil quanto o Espírito esteja mais desmaterializado. Quanto à visão, ela é independente de nossa luz. A faculdade de ver é um atributo essencial da alma: para ela não há obscuridade; entretanto, ela é mais extensa, mais penetrante, naqueles que estão mais depurados. A alma, ou o Espírito, portanto, tem em si mesma a faculdade de todas as percepções; na vida corpórea, elas estão obliteradas pela grosseria de nossos órgãos; na vida extracorpórea, elas o são menos e menos à medida que se torna menos compacto o envoltório semi-material.

Esse envoltório, haurido do meio ambiente, varia segundo a natureza dos mundos. Passando de um mundo a outro, os Espíritos mudam de envoltório, como nós mudamos de vestuário, passando do inverno ao verão, ou do pólo ao equador. Os Espíritos mais elevados, quando vêm nos visitar, revestem, pois, o perispírito terrestre, e desde então suas percepções se operam como nos Espíritos vulgares; mas tanto inferiores, como superiores, não ouvem e não sentem senão o que querem ouvir ou sentir. Sem terem órgãos sensitivos podem tomarse, à vontade, suas percepções ativas ou nulas; não há senão uma coisa que são obrigados a ouvir, são os conselhos dos bons Espíritos. A visão é sempre ativa, mas podem, reciprocamente, se tornarem invisíveis uns aos outros. Segundo a classe que ocupem, eles podem se ocultar daqueles que lhes são inferiores, mas não daqueles que lhes são superiores. Nos primeiros momentos que seguem à morte, a visão do Espírito é sempre perturbada e confusa; clareia à medida que ele se desliga, e pode adquirir a mesma claridade que durante a vida, independentemente de sua penetração através dos corpos que nos são opacos. Quanto à sua extensão através do espaço indefinido, no passado e no futuro, depende do grau de pureza e de elevação do Espírito.

Toda essa teoria, dir-se-á, não é muito tranqüilizadora. Pensávamos que uma vez desembaraçado de nosso grosseiro envoltório, instrumento das nossas dores, não sofreríamos mais, e eis que nos ensinais que sofreremos ainda; que, seja de uma maneira ou de outra, isso não é menos sofrer. Ah! sim, podemos ainda sofrer, e muito, e por muito tempo, mas podemos também não mais sofrer, mesmo desde o instante em que deixamos esta vida corpórea.

Os sofrimentos deste mundo são, algumas vezes, independentes de nós, mas muitos são as conseqüências de nossa vontade. Que se remonte à fonte e ver-se-á que o maior número é a conseqüência de causas que poderíamos evitar. Quantos males, quantas enfermidades, o homem deve aos excessos, à sua ambição, às suas paixões, em uma palavra! O homem que houvesse sempre vivido sobriamente, que não houvesse abusado de nada, que houvesse sempre sido simples em seus gostos, modesto em seus desejos, se pouparia de muitas tributações. Ocorre o mesmo com o Espírito: os sofrimentos que suporta são sempre a conseqüência da maneira com a qual viveu na Terra; não terá mais, sem dúvida, a gota e os reumatismos, mas terá outros sofrimentos que não valem mais. Vimos que esses sofrimentos são o resultado de laços que ainda existem entre ele e a matéria; que quanto mais desligado da matéria, dito de outro modo, quanto mais desmaterializado, menos tem sensações penosas; ora, dele depende se livrar dessa influência, desde esta vida; tem o seu livre arbítrio e, por conseqüência, a escolha entre fazer ou não fazer: que dome suas paixões animais, que não tenha ódio, nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; que não seja dominado pelo egoísmo, que purifique sua alma pelos bons sentimentos, que faça o bem, que dê às coisas deste mundo a importância que elas merecem, então, mesmo sob seu envoltório corporal, está já depurado, e já desligado da matéria, e quando deixa esse envoltório, dele não sofre mais a influência; os sofrimentos físicos que experimenta não lhe deixam nenhuma lembrança penosa; dele não lhe resta nenhuma impressão desagradável, porque não afetaram senão o corpo e não o Espírito; é feliz de estar livre dele, e a calma de sua consciência o livra de todo sofrimento moral. Disso interrogamos milhares, tendo pertencido a todas as classes da sociedade, a todas as posições sociais; estudamo-los em todos os períodos de sua vida espírita, desde o instante em que deixaram seus corpos; nós os seguimos passo a passo, nessa vida de além-túmulo, para observar as mudanças que se operaram neles, em suas idéias, em suas sensações, e sob esse aspecto os homens mais vulgares não foram os que nos forneceram os objetos de estudo menos preciosos. Ora, vimos sempre que os sofrimentos estão em relação com a conduta, da qual sofrem as conseqüências, e que essa nova existência é a fonte de uma felicidade inefável para aqueles que seguiram o bom caminho; donde se segue que aqueles que sofrem, é porque o quiseram, e não devem disso culpar senão a si mesmos, tão bem no outro mundo quanto neste.

Alguns críticos ridicularizaram certas de nossas evocações, a do assassino Lemaire, por exemplo, achando singular que se ocupasse com seres tão ignóbeis, quando existem tantos Espíritos superiores à sua disposição. Esquecem que é por aí que, de algum modo, aprendemos a natureza do fato, ou, para melhor dizer, na sua ignorância da ciência espírita, não vêem, nessas entrevistas, senão uma conversa, mais ou menos divertida, da qual não compreendem a importância. Lemos em alguma parte que um filósofo dizia, depois de conversar com um camponês: Eu mais aprendi com esse rústico que com todos os sábios; é que ele sabia ver outra coisa senão a superfície. Para o observador nada é perdido, encontra úteis ensinamentos até no criptógamo que cresce sobre o estrume. O médico recusa tocar uma chaga horrenda, quando se trata de aprofundar a causa de um mal?

Acrescentamos ainda uma palavra a esse respeito. Os sofrimentos de além-túmulo têm um fim; sabemos que é dado ao Espírito mais inferior elevar-se e purificar-se por novas provas; isso pode ser longo, muito longo, mas depende dele abreviar esse tempo penoso, porque Deus o escuta sempre se ele se submete à sua vontade. Quanto mais o Espírito está desmaterializado, mais suas percepções são vastas e lúcidas; quanto mais está sob o império da matéria, o que depende inteiramente de seu gênero de vida terrestre, mais elas são limitadas e como veladas; tanto a visão moral de um se estende ao infinito, tanto a do outro é restrita. Os Espíritos inferiores não têm, pois, senão uma noção vaga, confusa, incompleta e freqüentemente nula do futuro; não vêem o fim de seus sofrimentos, por isso crêem sofrer sempre, e ainda para eles é um castigo. Se a posição de uns é aflitiva, terrível mesmo, não é desesperadora; a de outros eminentemente consoladora; está pois em nós escolher. Isto é da mais alta moralidade. Os céticos duvidam da sorte que nos espera depois da morte, nós lhes mostramos o que isso é, e com isso cremos prestar-lhes serviço; também vimos mais de um corrigir-se de seu erro, ou pelo menos pôr-se a refletir sobre o que criticavam antes. Não há de tal senão de se aperceber da possibilidade das coisas. Se fora sempre assim, não haveria tantos incrédulos, e a religião e a moral pública ganhariam com isso. A dúvida religiosa não vem entre muitos, senão da dificuldade, para eles, de compreenderem certas coisas; são Espíritos positivos não organizados para a fé cega, que não admitem senão o que, para eles, tem uma razão de ser. Tornai essas coisas acessíveis à sua inteligência, e as aceitam, porque no fundo não pedem melhor do que crerem, sendo a dúvida para eles uma situação mais penosa que se crê ou que querem dizê-lo.

Em tudo o que precede não há nada de sistemas, nada de idéias pessoais; não foram mesmo alguns Espíritos privilegiados que nos ditaram essa teoria, é um resultado de estudos feitos sobre as individualidades, corroborados e confirmados por Espíritos dos quais a linguagem não pode deixar dúvida sobre sua superioridade. Nós o julgamos por suas palavras, e não sobre o nome que trazem ou que podem se dar.

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