O Fantasma de Bayonne

Revista Espírita, janeiro de 1859

Em nosso último número, dissemos algumas palavras sobre essa estranha manifestação. Essas notícias nos foram dadas, de viva voz e muito sucintamente, por um de nossos assinantes, amigo da família onde tais fatos ocorreram. Prometera-nos ele os detalhes mais circunstanciais, e devemos à sua cortesia a comunicação das cartas que delas contém um relato mais detalhado.

Essa família mora perto de Bayonne, e essas cartas foram escritas pela própria mãe da jovem, criança de uma dezena de anos, ao seu filho que mora em Bordeaux, para lhe dar conhecimento do que se passava em sua casa. Este último consentiu a se dar ao trabalho de transcrevê-las para nós, a fim de que a autenticidade não pudesse ser contestada; foi uma atenção da qual lhe somos reconhecidos. Concebe-se a reserva à qual tivemos quanto aos nomes próprios, reserva que sempre para nós foi uma lei a observar, a menos que recebamos uma autorização formal. Todo q mundo não se preocupa em atrair sobre si a multidão de curiosos. Àqueles a quem essa reserva seria um motivo de suspeição, diremos que é preciso fazer uma diferença entre um jornal eminentemente sério e aqueles que não tem em vista senão agradar o público. Nosso objetivo não é o de contar os fatos para encher nosso quadro, mas para esclarecer a ciência; se estivéssemos enganados, estaríamos de boa fé: quando, aos nossos olhos, uma coisa não está formalmente averiguada, nós a damos sob o benefício de inventário; não poderia ser assim quando ela emana de pessoas sérias, cuja honorabilidade nos é conhecida, e que longe de terem algum interesse em nos induzirem em erro, elas mesmas querem se instruir.

A primeira carta é a do filho ao nosso assinante, dirigindo-lhe as de sua mãe.

Saint-Esprit, 20 de novembro de 1858.

Meu caro amigo,

“Chamado em minha família pela morte de um de meus irmão-zinhos, que Deus acaba de nos levar, essa circunstância, que me distanciou desde algum tempo de minha casa, é o atraso que tive em vos responder. Ficaria penalizado em vos fazer passar por um contador de histórias junto ao senhor Allan Kardec, por isso vou dar-vos alguns detalhes sumários sobre os fatos acontecidos em minha família. Creio já haver dito que as aparições cessaram há muito tempo, e não se manifestam mais à minha irmã. Eis as cartas que minha mãe escreveu a esse respeito. Devo observar que muitos dos fatos nelas foram omitidos, e não são os menos interessantes. Escrever-vos-ei de novo para completar a história se, por vós mesmo, não puderes fazê-lo, lembrando-vos do que vos disse de viva voz.”

23 de abril de 1855.

Há mais ou menos três meses que, uma tarde, tua irmã X. teve necessidade de sair para fazer uma compra. O corredor da casa que é muito comprido, tu o sabes, não está jamais iluminado, e o grande hábito que temos de percorrê-lo sem luz faz com que evitemos tropeçar sobre os degraus da escada. X. já nos dissera que cada vez que ela saía ouvia uma voz que lhe fazia discursos dos quais ela não compreendeu de início o sentido, mas que, mais tarde, tornaram-se inteligíveis. Algum tempo depois ela viu uma sombra, e não cessou, durante o trajeto, de ouvir a mesma voz. Os discursos feitos por esse ser invisível tendiam sempre a tranqüilizá-la e dar-lhe conselhos muito sábios. Uma boa moral era o fundo de suas palavras. X. ficou muito perturbada e, freqüentemente, nos disse que não tinha mais força para continuar seu caminho. Minha criança, dizia-lhe o invisível, cada vez que ela estava perturbada, não tema nada, porque não te quero senão o bem.

Ensinou-lhe um lugar onde, durante vários dias, ela encontrou algumas peças de moedas; de outras vezes não encontrava nada. X. estava conformada com a revelação que lhe fizera e, durante muito tempo, ela encontrou, se não peças de moedas, alguns brinquedos que tu verás. Esses dons, sem dúvida lhe foram dados para encorajá-la. Tu não foste esquecido nas conversações desse ser falava freqüentemente de ti e nos dava de tuas novidades por intermédio de tua irmã. Várias vezes nos informou do emprego de tuas noites; viu-te lendo no quarto; outras vezes nos disse que teus amigos estavam reunidos contigo; enfim, ele nos tranqüilizava sempre que a preguiça te impedia escrever-nos.

Desde há algum tempo, X. tem relações quase contínuas com o invisível. De dia ela não vê nada; ouve sempre a mesma voz que lhe faz discursos sábios, que não cessa de encorajá-la ao trabalho e ao amor a Deus. À noite, ela vê, na direção de onde parte a voz, uma luz rosa que não ilumina mas que, segundo ela, poderia ser comparada ao brilho de um diamante na sombra. Agora todo o medo desapareceu nela; se lhe manifesto dúvidas:

“Mamãe, diz-me ela, é um anjo quem me fala, e se, para te convenceres, queres te armar de coragem, ele me pede dizer-te que esta noite te fará erguer. Se ele te falar, deveras responder. Vá onde ele te disser para ir; verás diante de ti pessoas, não tenhas nenhum medo.” Não quis colocar minha coragem à prova: tive medo, e a impressão que isso me fez impediu-me de dormir. Muito freqüentemente, durante a noite, parece-me ouvir um sopro na cabeceira de minha cama. Minhas cadeiras se movem sem que nenhuma mão as toque. Meus temores desapareceram completamente desde há algum tempo, e tenho grande pesar por não haver me submetido à prova, que me fora proposta, para ter relações diretas com o invisível, e também por não ter que lutar continuamente contra as dúvidas.

Convidei X. a interrogar o invisível sobre a sua natureza; eis a conversa que tiveram em conjunto:

X. Quem és tu?

Inv. Sou teu irmão Elisée.

X. Meu irmão está morto há doze anos.

Inv. É verdade; teu irmão está morto há doze anos; mas havia nele, como em todos os seres, uma alma que não morre e que está diante de ti neste instante, que te ama e te protege em tudo.

X. Gostaria de te ver.

Inv. Estou diante de ti.

X. Não vejo nada, entretanto.

Inv. Tomarei uma forma visível para ti. Depois do ofício religioso tu descerás, ver-me-ás, então eu te abraçarei.

X. Mamãe gostaria de conhecer-te também.

Inv. Tua mãe é a minha; ela me conhece. Teria antes querido manifestar-me a ela que a ti: era meu dever; mas não posso mostrar-me a várias pessoas, porque Deus no-lo proíbe; lamento que tenha faltado coragem à mamãe. Prometo dar-te provas de minha existência e, então, todas as dúvidas desaparecerão.

À noite, no momento marcado, X. se colocou à porta do templo. Um jovem se lhe apresentou e lhe disse: “Sou teu irmão. Pediste ver-me; eis-te satisfeita. Abraça-me, porque não posso conservar por muito tempo a forma que estou vivendo.”
Como tu o penses bem, a presença desse ser deveu espantar X. ao ponto de impedir-lhe fazer alguma observação. Logo que o abraçou, ele desapareceu no ar.

No dia seguinte, de manhã, o invisível, aproveitando o momento em que X. foi obrigada a sair, se manifestou de novo a ela e disse-lhe: “Deveis estar bem surpresa com a minha desaparição. Pois bem! Quero te ensinar a elevar-te no ar, e ser-te-á possível seguir-me.”

Qualquer outro senão X., sem dúvida, apavorar-se-ia com a proposição. Ela aceitou a oferta apressadamente e logo se sentiu elevar como uma andorinha. Ela chegou, em pouco tempo, a um lugar onde havia uma multidão considerável. Ela viu, disse-nos, ouro, diamantes, e tudo o que, sobre a Terra satisfaz nossa imaginação. Ninguém considera essas coisas mais do que fazemos quanto aos paralelepípedos sobre os quais andamos.

Ela reconheceu várias crianças de sua idade, que habitaram a mesma rua nossa, e que morreram há muito tempo. Em um apartamento ricamente decorado, onde não havia ninguém, o que chamou sobretudo a sua atenção, foi uma grande mesa onde, de distância em distância, havia papel. Diante de cada caderno havia um tinteiro; ela via as penas, por si mesmas, umedecerem-se e traçarem caracteres, sem que nenhuma mão as movesse.

Em seu retorno, eu a recriminei por ter se ausentado sem minha autorização, e lhe proibi expressamente recomeçar semelhantes excursões. O invisível testemunhou-lhe muito lamentar haver me descontentado, e prometeu-lhe formalmente que, doravante, não a convidaria mais a ausentar-se sem disso me prevenir.

26 de abril.

O invisível transformou-se sob os olhos de X. e ele tomou tua forma, se bem que tua irmã acreditou que estavas no salão; para disso assegurar-se, ela disse-lhe que retomasse sua forma primitiva; logo tu desapareceste e foste substituído por mim. Seu espanto foi grande; ela me perguntou como eu me encontrava ali, estando a porta do salão fechada a chave. Então uma nova transformação ocorreu; ele tomou a forma do irmão morto e disse a X.:

Tua mãe e todos os membros de tua família não vêem sem espanto, e mesmo sem o sentimento de medo, todos os fatos que se cumprem pela minha intervenção. Meu desejo não é ocasionar pavor; entretanto, quero provar minha existência, e te colocar ao abrigo na incredulidade de todos, porque se poderia tomar por uma mentira de tua parte o que não seria da sua senão uma obstinação em não se render à evidência. A senhora C. é uma merceeira; sabes que se tem necessidade de comprar botões, nós iremos, ambos, comprálos. Eu me transformarei em teu irmãozinho (ele tinha então 9 anos) e quando retornares à casa, pedirás a mamãe enviar à casa da senhora C. perguntar com quem te encontravas no momento em que ela te vendeu os botões.” X. não deixou de se conformar com essas instruções. Mandei à casa da senhora C.; ela me respondeu que tua irmã estava com teu irmão, do qual fez um grande elogio dizendo que não se podia figurar que, em sua idade, fosse possível ter respostas tão fáceis, e, sobretudo, com tão pouca timidez. É bom dizer que o irmãozinho estivera na escola desde a manhã e não deveria retornar senão à tarde, pela sete horas, e que além disso é muito tímido e não tem essa facilidade que se lhe queria conceder. É muito curioso, não é? Creio que a mão de Deus não é estranha a essas coisas inexplicáveis.

7 de maio de 1855.

Não sou mais crédula do que se deve ser, e não me deixo dominar por idéias supersticiosas. No entanto, não posso me recusar a crer em fatos que ocorrem sob meus olhos. Necessitaria de provas bem evidentes para não infligir, à tua irmã, punições que lhe apliquei algumas vezes com pesar, com medo de que quisesse se divertir conosco, abusando de nossa confiança.

Ontem, eram cinco horas mais ou menos, quando o invisível disse à X.: “É provável que mamãe vá te enviar para alguma parte para fazer uma encomenda. Em teu curso serás agradavelmente surpreendida pela chegada da família de teu tio.” X. me transmitiu logo o que o invisível dissera, eu estava bem longe de esperar essa chegada, e mais surpresa ainda de saber por esse modo. Tua irmã saiu e as primeiras pessoas que ela encontrou, efetivamente, foram meu irmão, sua mulher e seus filhos, que vinham nos ver. X. se apressou a dizer que eu deveria ter uma prova a mais da veracidade de tudo o que ela me dizia.

10 de maio de 1855.

Não posso mais duvidar, hoje, de qualquer coisa extraordinária na casa; vejo cumprirem-se todos esses fatos singulares sem medo, mas deles não posso retirar nenhum ensinamento, porque esses mistérios são inexplicáveis para mim.

Ontem, depois de ter posto ordem em todos os apartamentos, e tu sabes que é uma coisa à qual me prendo essencialmente, o invisível disse a X., que malgrado as provas que ele havia dado de sua intervenção, em todos os fatos curiosos que contei, eu tinha sempre dúvidas que ele queria fazer cessar completamente. Sem que nenhum ruído se fizesse ouvir, um minuto bastou para colocar a maior desordem nos apartamentos. Sobre o soalho, uma matéria vermelha fora derramada; creio que era sangue. Se fossem algumas gotas somente, creria que X, houvesse picado ou houvera sangrado o nariz, mas figura-te que o soalho estava inundado. Essa prova bizarra nos deu um trabalho considerável para colocar no salão seu brilho primitivo.

Antes de deslacrar as cartas que tu nos endereças, X. conhece-lhes o conteúdo. O invisível lho transmite.

16 de maio 1855.

X. não aceitou uma observação que sua irmã lhe fez, não sei a propósito de quê; ela deu uma resposta tanto menos conveniente quanto a censura era fundada. Infligi-lhe uma punição e ela foi dormir sem jantar. Antes de se deitar tem o hábito de orar a Deus. Essa noite ela o esqueceu; mas poucos instantes depois que foi ao leito, o invisível lhe apareceu; apresentoulhe uma tocha e um livro de preces semelhante àquele que tinha o hábito de servir-se, disse lhe que, malgrado a punição que ela bem merecera, não devia esquecer de cumprir o seu dever. Então ela se levantou, fez o que lhe foi ordenado, e tão logo sua prece terminara, tudo desapareceu.

No dia seguinte, pela manhã, X., depois de ter me abraçado, perguntou-me se o castiçal que se achava sobre a mesa no andar acima de seu quarto, havia sido tirado. Ora, essa tocha, semelhante àquela que fora apresentada na véspera, não havia mudado de lugar, não mais que seu livro de preces.

4 de junho de 1855.

Desde há algum tempo, nenhum fato muito saliente ocorreu, senão o seguinte. Eu estava resfriada estes dias; anteontem, todas as suas irmãs estavam ocupadas, eu não dispunha de ninguém para mandar comprar a pasta peitoral. Disse a X. que, quando terminasse seu trabalho, faria bem ir procurar-me alguma coisa na farmácia mais próxima. Ela esqueceu a minha recomendação, e eu mesma nisso não pensei mais. Estava certa de que ela não saíra e não deixara seu trabalho senão para ir buscar uma sopeira de que tínhamos necessidade. Sua surpresa foi grande, tirando a tampa, de aí encontrar um pacote de bala de cevada que o invisível havia depositado para poupar-lhe uma caminhada, e também para satisfazer um desejo meu que se havia perdido de vista.

Evocamos esse Espírito em uma das sessões da Sociedade e lhe endereçamos as perguntas seguintes. O senhor Adrien viu-o com os traços de uma criança de 10 a 12 anos; bela cabeça, cabelos negros e ondulados, olhos negros e vivos, tez pálida, boca zombadora, caráter leviano, mas bom. O Espírito disse não saber muito porque foi evocado.

Nosso correspondente, que estava presente à sessão, disse que são bem esses os traços sob os quais a jovem o pintou em várias circunstâncias.

1. Ouvimos contar a história de tuas manifestações numa família de Bayonne, e desejamos dirigir-te, a esse respeito, algumas perguntas. – R. Fazei-as e eu responderei; fazei-as depressa, estou com pressa, quero ir-me.

2. Onde pegaste o dinheiro que deste à jovem? – R. Fui tirar na bolsa de outros; compreendeis bem que não vou divertir-me cunhando moeda. Tomo daqueles que podem dar.

3. Por que te ligaste a esta jovem? – R. Grande simpatia.

4. E verdade que foste seu irmão morto com a idade de 4 anos? – R. Sim.

5. Por que era visível para ela e não para sua mãe? – R. Minha mãe deve estar privada de minha visão; mas minha irmã não tinha necessidade de punição; de resto, foi por permissão especial que lhe apareci.

6. Poderias explicar-nos como te tornas visível ou invisível à vontade? – R. Não sou bastante elevado, e estou muito preocupado com aquilo que me atrai, para responder a essa questão.

7. Poderias, se quisesses, aparecer aqui no meio de nós, como te mostraste à merceeira? -R. Não.

8. Nesse estado, seria sensível a dor se ferido? – R. Não.

9. Que teria acontecido se a merceeira quisesse ferir-te? – R. Ela não feriria senão o vazio.

10. Sob qual nome poderíamos designar-te quando falarmos de ti? – R. Chamai-me Fantasma se quiserdes. Deixai-me, é preciso que me vá.

11. (A São Luís). Seria útil ter às suas ordens um Espírito semelhante? – R. Freqüentemente, tende-os ao vosso redor, que vos assistem sem que disso desconfiais.

Considerações sobre o Fantasma de Bayonne.

Se aproximarmos esses fatos dos de Bergzabern, dos quais nossos leitores, sem dúvida, não perderam a lembrança, ver-se-á uma diferença capital. Ali era mais que um Espírito batedor; era, e é neste momento, um Espírito perturbador em toda a acepção da palavra. Sem fazer o mal, era um comensal muito incômodo e muito desagradável, sobre o qual voltaremos, no nosso próximo número, tendo novidades de suas recentes proezas. O de Bayonne, ao contrário, é eminentemente benevolente e prestativo; é o tipo desses bons Espíritos serviçais, dos quais as lendas alemãs nos cotamaltos fatos, nova prova de que pode haver, nas histórias legendárias, um fundo de verdade. Convir-se-á, de resto, 3 a imaginação teria pouca coisa a fazer para colocar esses fatos à altura de uma lenda, e que se poderia tomá-los por um conto da Idade Média, se não se passassem, por assim dizer, sob nossos olhos.

Um dos traços mais salientes do Espírito ao qual demos o nome de fantasma de Bayonne, são suas transformações. Que se dirá, agora, da fábula de Proteu? Há, ainda, esta diferença entre ele e o Espírito de Bergzabem, que esse último jamais se mostrou senão em sonho, ao passo que o nosso pequeno duende se tornava visível e tangível, como uma pessoa real, não somente à sua irmã, mas a estranhos: testemunhou a compra de botões na mercearia. Por que não se mostrava a todo o mundo e a toda hora? É o que não sabemos; parecia que isso não estava em seu poder e que não podia mesmo permanecer muito tempo nesse estado. Talvez fosse preciso para isso um trabalho íntimo, um poder de vontade acima de suas forças.

Novos detalhes nos estão sendo prometidos sobre esses estranhos fenômenos; teremos ocasião de a eles retornar.

o fantasma de Bayonne.jpg

Anúncios

Senhor Adrien, médium vidente

Revista Espírita, janeiro de 1859

(Segundo artigo.)

Desde a publicação de nosso artigo sobre o senhor Adrien, médium vidente, nos foram comunicados um grande número de fatos que confirmam, em nossa opinião, que essa faculdade, do mesmo modo que todas as outras faculdades mediúnicas, é mais comum que se pensa; já a havíamos observado em uma multidão de casos particulares e, sobretudo, no estado sonambúlico. O fenômeno das aparições é hoje um fato adquirido, e pode-se dizer freqüente, sem falar dos numerosos exemplos que nos oferecem a história profana e as Escrituras sagradas. Muitos nos foram narrados que são pessoais àqueles que os têm, mas esses fatos são, quase sempre, fortuitos e acidentais; não tínhamos ainda visto ninguém no qual essa faculdade, de alguma sorte, fosse o estado normal. No senhor Adrien ela é permanente; por toda parte onde está, a população oculta que formiga ao redor de nós é visível para ele, sem que a chame: ele goza, para nós, o papel de um vidente no meio de um povo de cegos; vê esses seres, que se poderia dizer o duplo do gênero humano, irem, virem, misturarem-se às nossas ações, e, se assim pode-se exprimir, ocuparem-se de seus negócios. Os incrédulos dirão que é uma aluei nação, palavra sacramentai pela qual pretendem explicar o que não se compreende. Gostaríamos que pudessem definir, eles mesmos, a alucinação, e sobretudo explicar-lhe a causa. Todavia, no senhor Adrien, ela ofereceria um caráter bem insólito:

o da permanência. Até o presente, o que se convencionou chamar alucinação é um fato anormal e, quase sempre, a conseqüência de um estado patológico, o que não é aqui o caso. Para nós, que estudamos essa faculdade, que a observamos todos os dias em seus mais minuciosos detalhes, fomos capazes de constatar-lhe a realidade. Ela não se faz, pois, o objeto de nenhuma dúvida, e, como se verá, nos foi um eminente recurso em nossos estudos espíritas; permitiu-nos levar o escalpelo de nossas investigações na vida extracorpórea: é a luz na obscuridade. O senhor Home, dotado de uma faculdade notável como médium de influência física, produziu esses efeitos surpreendentes. O senhor Adrien nos inicia quanto à causa desses efeitos, porque as vê se produzirem e que vai bem além daquilo que fere os nossos sentidos.

A realidade da visão do senhor Adrien está provada pelo retrato que fez de pessoas que jamais viu, e das quais a identificação foi reconhecida exata. Seguramente, quando descreve com uma minúcia rigorosa até os menores traços de um parente ou de um amigo, que se evoca por seu intermédio, se está certo de que ele vê, porque não pode tomar a coisa em sua imaginação; mas há pessoas nas quais é uma deliberação rejeitar mesmo a evidência; e o que há de bizarro, é que para refutar o que não querem admitir, explicam-no por causas mais difíceis ainda que aquelas que se lhes dão.

Os retratos do senhor Adrien não são, entretanto, sempre infalíveis, e isso como em toda a ciência, quando uma anomalia se apresenta, é preciso procurar-lhe a causa, porque a causa de uma exceção, freqüentemente, é a confirmação de um princípio geral. Para compreender esse fato, é preciso não perder de vista o que já dissemos sobre a forma aparente dos Espíritos. Essa forma prende-se ao perispírito, cuja natureza, essencialmente flexível, se presta a todas as modificações que apraz ao Espírito lhe dar.

Deixando o envoltório material, o Espírito leva consigo seu envoltório etéreo, que constitui uma outra espécie de corpo. Em seu estado normal, esse corpo tem uma forma humana, mas que não é calcada traço por traço sobre aquela que deixou, sobretudo quando a deixou desde há um certo tempo. Nos primeiros instantes que seguem à morte, e durante todo o tempo em que ainda existe laço entre as duas existências, a semelhança é maior; mas essa semelhança se apaga à medida que o desligamento se opera e que o Espírito torna-se mais estranho ao seu último envoltório. Todavia, pode sempre retomar essa primeira aparência, seja pela figura, seja pela roupa, quando o julga útil para se fazer reconhecer; mas, em geral, não é senão em conseqüência de um esforço muito grande de vontade. Não há, pois, nada de espantoso que, em certos casos, a semelhança peque por alguns detalhes: bastam os traços principais. No médium, essa investigação não se faz sem um certo esforço que se toma penoso quando é muito repetido. Suas visões comuns não lhe custam nenhuma fadiga, porque não se liga senão às generalidades. Ocorre o mesmo conosco quando vemos uma multidão: não vemos tudo; todos os indivíduos se destacam aos nossos olhos com seus traços distintivos, sem que nenhum desses traços nos fira bastante para podê-los descrever; para precisá-los é preciso concentrar nossa atenção sobre os detalhes íntimos que queremos analisar, com esta diferença que, nas circunstâncias ordinárias, a visão atua sobre uma forma material, invariável, ao passo que na visão ela repousa sobre uma forma essencialmente móvel que um simples efeito da vontade pode modificar. Saibamos, pois, tomar as coisas pelo que elas são; consideremo-las em si mesmas e em razão de suas propriedades. Não esqueçamos que, no Espiritismo, não se opera sobre a matéria inerte, mas sobre inteligências que têm seu livre arbítrio, e que não podemos, conseqüentemente, submeter ao nosso capricho, nem fazer agir à nossa vontade como um movimento de pêndulo. Todas as vezes que se quiser tomar nossas ciências exatas por ponto de partida nas observações espíritas, extravia-se; por isso a ciência vulgar é incompetente nessa questão: é absolutamente como se um músico quisesse julgar a arquitetura sob o ponto de vista musical. O Espiritismo nos revela uma nova ordem de idéias, novas forças, novos elementos, fenômenos que não repousam em nada do que conhecemos; saibamos, pois, para julgá-los, despojar dos preconceitos e todas as idéias preconcebidas; penetremo-nos, sobretudo, dessa verdade de que, fora do que conhecemos, pode haver outra coisa, se não quisermos cair nesse erro absurdo, fruto do nosso orgulho, que Deus nada mais tem de secreto para nós.

Compreende-se, depois disso, que influências delicadas podem agir sobre a produção dos fenômenos espíritas; mas há outras que merecem uma atenção não menos séria. O Espírito despojado do corpo conserva, dizemos, toda a sua vontade, e uma liberdade de pensar bem maior que quando vivo: há suscetibilidades que temos dificuldade em compreender; o que nos parece, freqüentemente, tão simples e tão natural o magoa e o descontenta; uma questão deslocada o choca, o fere; ele nos mostra sua independência em não fazendo o que queremos, ao passo que, por si mesmo, algumas vezes, faz mais do que sonhamos pedir. É por essa razão que as perguntas de prova e de curiosidade são essencialmente antipáticas aos Espíritos, e que as respondem raramente de um modo satisfatório; os Espíritos sérios, sobretudo, a isso não se prestam jamais, e, em nenhum caso, querem servir de diversão. Concebe, pois, que a intenção pode influir muito sobre a sua boa vontade em se apresentar aos olhos de um médium vidente, sob tal ou tal aparência; e como, em definitivo, eles não revestem uma aparência determinada senão quando isso lhes convém, não o fazem senão quando vêem um motivo sério e útil.

Uma outra razão, de alguma sorte, prende-se ao que poderíamos chamar a fisiologia espírita. A visão do Espírito pelo médium se faz por uma espécie de irradiação fluídica, partindo do Espírito e se dirigindo sobre o médium; este absorve, por assim dizer, esses raios e os assimila. Se está só, ou se não é cercado senão de pessoas simpáticas, unidas de intenção e de pensamentos, esses raios se concentram sobre ele; então a visão é limpa, precisa, e é nessas circunstâncias que os retratos, quase sempre, são de uma exatidão notável. Se, ao contrário, há ao redor dele influências antipáticas, pensamentos divergentes e hostis, se não há recolhimento, os raios fluídicos se dispersam, são absorvidos pelo meio ambiente: daí uma espécie de nevoeiro que se projeta sobre o Espírito e não permite distinguir-lhe as nuanças. Tal seria uma luz, com ou sem refletor.

Uma outra comparação menos material pode ainda nos dar a razão desse fenômeno. Cada um sabe que a verve de um orador é excitada pela simpatia e a atenção de seu auditório; que seja, ao contrário, distraído pelo ruído, desatenção ou a má vontade, seus pensamentos não são mais tão livres, se dispersam, e seus meios os sofrem. O Espírito que está influenciado por um meio absorvente, está no mesmo caso: sua irradiação, em lugar de se dirigir sobre um ponto único, perde de sua força em se disseminando.

Às considerações que precedem, devemos acrescentar-lhes uma cuja importância será facilmente compreendida por todos aqueles que conhecem a marcha dos fenômenos espíritas. Sabe-se que várias causas podem impedir, a um Espírito, de vir ao nosso chamado no momento em que nós o evocamos: pode estar reencarnado ou ocupado em outra parte. Ora, entre os Espíritos que se apresentam quase sempre simultaneamente, o médium deve distinguir aquele que se chama, e se não estiver ali, pode tomar, por ele, um outro Espírito igualmente simpático à pessoa que evoca. Ele descreve o Espírito que vê sem poder sempre afirmar que é antes tal ou tal; mas se o Espírito que se apresenta é sério, não enganará sobre sua identidade; interrogado para esse efeito, ele pode explicar a causa do engano, e dizer o que é.

Um meio pouco propício prejudica ainda por uma outra causa. Cada indivíduo tem, por acompanhantes, Espíritos que simpatizam com seus defeitos e suas qualidades. Esses Espíritos são bons ou maus segundo os indivíduos; quanto mais haja pessoas reunidas, maior será a variedade entre elas, e haverá mais chances de aí se encontrarem antipáticos. Se, pois, na reunião há pessoas hostis, seja por pensamentos difamantes, seja pela leviandade de seu caráter, seja por uma incredulidade sistemática, elas atraem por isso mesmo Espíritos pouco benevolentes que, freqüentemente, vêm entravar as manifestações, de qualquer natureza que sejam, escritas tão bem quanto visuais; daí a necessidade de se colocar nas condições mais favoráveis, querendo-se ter comunicações sérias: quem quer o fim quer os meios. As manifestações espíritas não são dessas coisas das quais seja permitido brincar impunemente. Sede sérios, segundo toda acepção dessa palavra, se quereis coisas sérias, de outro modo não espereis senão ser o joguete de Espíritos levianos, que se divertem às vossas custas.

medium vidente

Carta à Sua Alteza o Príncipe G.

Revista Espírita, janeiro de 1859

PRÍNCIPE,

Vossa Alteza honrou-me dirigindo-me várias perguntas referentes ao Espiritismo; vou tentar respondê-las, tanto quanto o permita o estado dos conhecimentos atuais sobre a matéria, resumindo em poucas palavras o que o estudo e a observação nos ensinaram a esse respeito. Essas questões repousam sobre os princípios da própria ciência: para dar maior clareza à solução, é necessário ter esses princípios presentes no pensamento; permita-me, pois, tomar a coisa de um ponto mais alto, colocando como preliminares certas proposições fundamentais que, de resto, elas mesmas servirão de resposta a algumas de vossas perguntas.

Há, fora do mundo corporal visível, seres invisíveis que constituem o mundo dos Espíritos.

Os Espíritos não são seres à parte, mas as próprias almas daqueles que viveram na Terra ou em outras esferas, e que deixaram seus envoltórios materiais.

Os Espíritos apresentam todos os graus de desenvolvimento intelectual e moral. Há, por conseqüência, bons e maus, esclarecidos e ignorantes, levianos, mentirosos, velhacos, hipócritas, que procuram enganar e induzir ao mal, como os há muitos superiores em tudo, e que não procuram senão fazer o bem. Essa distinção é um ponto capital.

Os Espíritos nos cercam sem cessar, com o nosso desconhecimento, dirigem os nossos pensamentos e as nossas ações, e por aí influem sobre os acontecimentos e os destinos da Humanidade.

Os Espíritos, freqüentemente, atestam sua presença por efeitos materiais. Esses efeitos nada têm de sobrenatural; não nos parecem tal senão porque repousam sobre bases fora das leis conhecidas da matéria. Uma vez conhecidas essas bases, o efeito entra na categoria dos fenômenos naturais; é assim que os Espíritos podem agir sobre os corpos inertes e fazê-los mover sem o concurso de nossos agentes exteriores. Negar a existência de agentes desconhecidos, unicamente porque não são compreendidos, seria colocar limites ao poder de Deus, e crer que a Natureza nos disse sua última palavra.

Todo efeito tem uma causa; ninguém o contesta. É, pois, ilógico negar a causa unicamente porque seja desconhecida.

Se todo efeito tem uma causa, todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente. Quando se vê o braço do telégrafo fazer sinais que respondem a um pensamento, disso se conclui, não que esses braços sejam inteligentes, mas que uma inteligência fá-los moverem-se. Ocorre o mesmo com os fenômenos espíritas. Se a inteligência que os produz não é a nossa, é evidente que ela está fora de nós.

Nos fenômenos das ciências naturais, atua-se sobre a matéria inerte, que se manipula à vontade; nos fenômenos espíritas age-se sobre inteligências que têm seu livre arbítrio, e não estão submetidas à nossa vontade. Há, pois, entre os fenômenos usuais e os  espíritas uma diferença radical quanto ao princípio: por isso, a ciência vulgar é incompetente para julgá-los.

O Espírito encarnado tem dois envoltórios, um material que é o corpo, o outro semi-material e indestrutível que é o perispírito. Deixando o primeiro, conserva o segundo que constitui para ele uma espécie de corpo, mas cujas propriedades são essencialmente diferentes. Em seu estado normal, é invisível para nós, mas pode tornar-se momentaneamente visível e mesmo tangível: tal é a causa do fenômeno das aparições.

Os Espíritos não são, pois, seres abstratos, indefinidos, mas seres reais e limitados, tendo sua própria existência, que pensam e agem em virtude de seu livre arbítrio. Estão por toda parte, ao redor de nós; povoam os espaços e se transportam com a rapidez do pensamento.

Os homens podem entrar em relação com os Espíritos e deles receberem comunicações diretas pela escrita, pela palavra e por outros meios. Os Espíritos, estando ao nosso lado e podendo virem ao nosso chamado, pode-se, por certos intermediários, estabelecer com eles comunicações seguidas, como um cego pode fazê-lo com as pessoas que ele não vê.

Certas pessoas são dotadas, mais do que outras, de uma aptidão especial para transmitirem as comunicações dos Espíritos: são os médiuns. O papel do médium é o de um intérprete; é um instrumento do qual se servem os Espíritos: esse instrumento pode ser mais ou menos perfeito, e daí as comunicações mais ou menos fáceis.

Os fenômenos espíritas são de duas ordens: as manifestações físicas e materiais, e as comunicações inteligentes. Os efeitos físicos são produzidos por Espíritos inferiores; os Espíritos elevados não se ocupam mais dessas coisas quanto nossos sábios não se ocupam em fazerem grandes esforços: seu papel é de instruir pelo raciocínio.

As comunicações podem emanar de Espíritos inferiores, como de Espíritos superiores. Reconhecem-se os Espíritos, como os homens, pela sua linguagem: a dos Espíritos superiores é sempre séria, digna, nobre e marcada de benevolência; toda expressão trivial ou inconveniente, todo pensamento que choque a razão ou o bom senso, que denote orgulho, acrimônia ou malevolência, necessariamente, emana de um Espírito inferior.

Os Espíritos elevados não ensinam senão coisas boas; sua moral é a do Evangelho, não pregam senão a união e a caridade, e jamais enganam. Os Espíritos inferiores dizem absurdos, mentiras, e, freqüentemente, grosserias mesmo.

A bondade de um médium não consiste somente na facilidade das comunicações, mas, sobretudo, na natureza das comunicações que recebe. Um bom médium é aquele que simpatiza com os bons Espíritos e não recebe senão boas comunicações.

Todos temos um Espírito familiar que se liga a nós desde o nosso nascimento, nos guia, nos aconselha e nos protege; esse Espírito é sempre bom.

Além do Espírito familiar, há Espíritos que são atraídos para nós por sua simpatia por nossas qualidades e nossos defeitos, ou por antigas afeições terrestres. Donde se segue que, em toda reunião, há uma multidão de Espíritos mais ou menos bons, segundo a natureza do meio.

Podem os Espíritos revelar o futuro?

Os Espíritos não conhecem o futuro senão em razão de sua elevação. Os que são inferiores não conhecem mesmo o seu, por mais forte razão o dos outros. Os Espíritos superiores o conhecem, mas não lhes é sempre permitido revelá-lo. Em princípio, e por um desígnio muito sábio da Providência, o futuro deve nos ser ocultado; se o conhecêssemos, nosso livre arbítrio seria por isso entravado. A certeza do sucesso nos tiraria o desejo de nada fazer, porque não veríamos a necessidade de nos dar ao trabalho; a certeza de uma infelicidade nos desencorajaria. Todavia, há casos em que o conhecimento do futuro pode ser útil, mas deles jamais podemos ser juizes: os Espíritos no-los revelam quando crêem útil e têm a permissão de Deus; fazem-no espontaneamente e não ao nosso pedido. E preciso esperar, com confiança a oportunidade, e sobretudo não insistir em caso de recusa, de outro modo se arrisca a relacionar-se com Espíritos levianos que se divertem às nossas custas.

Podem os Espíritos nos guiar, por conselhos diretos, nas coisas da vida?

Sim, eles o podem e o fazem voluntariamente. Esses conselhos nos chegam diariamente pelos pensamentos que nos sugerem. Freqüentemente, fazemos coisas das quais nos atribuímos o mérito, e que não são, na realidade, senão o resultado de uma inspiração que nos foi transmitida. Ora, como estamos cercados de Espíritos que nos solicitam, uns num sentido, os outros no outro, temos sempre o nosso livre arbítrio para nos guiar na escolha, feliz para nós quando damos a preferência ao nosso bom gênio.

Além desses conselhos ocultos, pode-se tê-los diretos por um médium; mas é aqui o caso de se lembrar dos princípios fundamentais que emitimos a toda hora. A primeira coisa a considerar é a qualidade do médium, senão o for por si mesmo. Médium que não tem senão boas comunicações, que, pelas suas qualidades pessoais não simpatiza senão com os bons Espíritos, é um ser precioso do qual podem-se esperar grandes coisas, se todavia for secundado pela pureza de suas próprias instruções e se tomadas convenientemente: digo mais, é um instrumento providencial.

O segundo ponto, que não é menos importante, consiste na natureza dos Espíritos aos quais se dirigem, e não é preciso crer que o primeiro que chegue possa nos guiar utilmente. Quem não visse nas comunicações espíritas senão um meio de adivinhação, e em um médium uma espécie de ledor de sorte, se enganaria estranhamente. É preciso considerar que temos, no mundo dos Espíritos, amigos que se interessam por nós, mais sinceros e mais devotados do que aqueles que tomam esse título na Terra, e que não têm nenhum interesse em nos bajular e em nos enganar. Além do nosso Espírito protetor, são parentes ou pessoas que se nos afeiçoaram em sua vida, ou Espíritos que nos querem o bem por simpatia. Aqueles vêm voluntariamente quando são chamados, e vêm mesmo sem que sejam chamados; temo-los, freqüentemente, ao nosso lado sem disso desconfiar. São aqueles aos quais pode-se pedir conselhos pela via direta dos médiuns, e que os dão mesmo espontaneamente sem que lhes peça. Fazem-no sobretudo na intimidade, no silêncio, e então quando nenhuma influência venha perturbá-los: aliás, são muito prudentes, e não se tem a temer da sua parte uma indiscrição imprópria: eles se calam quando há ouvidos demais. Fazem-no, ainda com mais bom grado, quando estão em comunicação freqüente conosco; como eles não dizem as coisas senão com o propósito e segundo a oportunidade, é preciso esperar a sua boa vontade e não crer que, à primeira vista, vão satisfazer a todos os nossos pedidos; querem nos provar com isso que não estão às nossas ordens.

A natureza das respostas depende muito do modo como se colocam as perguntas; é preciso aprender a conversar com os Espíritos como se aprende a conversar com os homens: em

todas as coisas é preciso a experiência. Por outro lado, o hábito faz com que os Espíritos se identifiquem conosco e com o médium, os fluidos se combinam e as comunicações são mais fáceis; então se estabelece, entre eles e nós, verdadeiras conversações familiares; o que não dizem num dia, dizem-no em outro; eles se habituam à nossa maneira de ser, como nós à sua: fica-se, reciprocamente, mais cômodo. Quanto à ingerência de maus Espíritos e de Espíritos enganadores, o que é o grande escolho, a experiência ensina a combatê-los, e pode se sempre evitá-los. Se não se lhes expuser, não vêm mais onde sabem perder seu tempo.

Qual pode ser a utilidade da propagação das idéias espíritas?

O Espiritismo, sendo a prova palpável, evidente da existência, da individualidade e da imortalidade da alma, é a destruição do Materialismo. Essa negação de toda religião, essa praga de toda sociedade. O número dos materialistas que foram conduzidos a idéias mais sadias é considerável e aumenta todos os dias: só isso seria um benefício social. Ele não prova somente a existência da alma e sua imortalidade; mostra o estado feliz ou infeliz delas segundo os méritos desta vida. As penas e as recompensas futuras não são mais uma teoria, são um fato patente que se tem sob os olhos. Ora, como não há religião possível sem a crença em Deus, na imortalidade da alma, nas penas e nas recompensas futuras, se o Espiritismo conduz a essas crenças aqueles em que estavam apagadas, disso resulta que é o mais poderoso auxiliar das idéias religiosas: dá a religião àqueles que não a têm; fortifica-a naqueles em que ela é vacilante; consola pela certeza do futuro, faz aceitar com paciência e resignação as tribulações desta vida, e afasta do pensamento do suicídio, pensamento que se repele naturalmente quando se lhe vê as conseqüências: eis porque aqueles que penetraram esses mistérios estão felizes com isso; é para eles uma luz que dissipa as trevas e as angústias da dúvida.

Se considerarmos agora a moral ensinada pelos Espíritos superiores, ela é toda evangélica, é dizer tudo: prega a caridade cristã em toda a sua sublimidade; faz mais, mostra a necessidade para a felicidade presente e futura, porque as conseqüências do bem e do mal que fizermos estão ali diante dos nossos olhos. Conduzindo os homens aos sentimentos de seus deveres recíprocos, o Espiritismo neutraliza o efeito das doutrinas subversivas da ordem social.

Essas crenças não podem ser um perigo para a razão?

Todas as ciências não forneceram seu contingente às casas de alienados? É preciso condená las por isso? As crenças religiosas não estão ali largamente representadas? Seria justo, por isso, proscrever a religião? Conhecem-se todos os loucos que o medo do diabo produziu? Todas as grandes preocupações intelectuais levam à exaltação, e podem reagir lastimavelmente sobre um cérebro fraco; teria fundamento ver-se no Espiritismo um perigo especial a esse respeito, se ele fosse a causa única, ou mesmo preponderante, dos casos de loucura. Faz-se grande barulho de dois ou três casos aos quais não se daria nenhuma atenção em outra circunstância; não se levam em conta, ainda, as causas predisponentes anteriores. Eu poderia citar outras nas quais as idéias espíritas, bem compreendidas, detiveram o desenvolvimento da loucura. Em resumo, o Espiritismo não oferece, sob esse aspecto, mais perigo que as mil e uma causas que a produzem diariamente; digo mais, que ele as oferece muito menos, naquilo que ele carrega em si mesmo seu corretivo, e que pode, pela direção que dá às idéias, pela calma que proporciona ao espírito daqueles que o compreende, neutralizar o efeito de causas estranhas. O desespero é uma dessas causas; ora, o Espiritismo, fazendo-nos encarar as coisas mais lamentáveis com sangue frio e resignação, nos dá a força de suportá-las com coragem e resignação, e atenua os funestos efeitos do desespero.

As crenças espíritas não são a consagração das idéias supersticiosas da Antigüidade e da Idade Média, e não podem recomendá-las?

As pessoas sem religião não taxam de superstição a maioria das crenças religiosas? Uma idéia não é supersticiosa senão porque ela é falsa; cessa de sê-lo se se torna uma verdade. Está provado que, no fundo da maioria das superstições, há uma verdade ampliada e desnaturada pela imaginação. Ora, tirar a essas idéias todo seu aparelho fantástico, e não deixar senão a realidade, é destruir a superstição: tal é o efeito da ciência espírita, que coloca a nu o que há de verdade ou de falso nas crenças populares. Por muito tempo, as aparições foram vistas como uma crença supersticiosa; hoje, que são um fato provado, e, mais que isso, perfeitamente explicado, elas entram no domínio dos fenômenos naturais. Seria inútil condená-las, não as impediria de se produzirem; mas aqueles que delas tomam conhecimento e as compreendem, não somente não se amedrontam, mas com elas ficam satisfeitos, e é a tal ponto que aqueles que não as têm desejam tê-las. Os fenômenos incompreendidos deixam o campo livre à imaginação, são a fonte de uma multidão de idéias acessórias, absurdas, que degeneram em superstição. Mostrai a realidade, explicai a causa, e a imaginação se detém no limite do possível; o maravilhoso, o absurdo e o impossível desaparecem, e com eles a superstição; tais são, entre outras, as práticas cabalísticas, a virtude dos sinais e das palavras mágicas, as fórmulas sacramentais, os amuletos, os dias nefastos, as horas diabólicas, e tantas outras coisas das quais o Espiritismo, bem compreendido, demonstra o ridículo.

Tais são, Príncipe, as respostas que acreditei dever fazer às perguntas que me haveis dado a honra em me endereçar, feliz se elas podem corroborar as idéias que Vossa Alteza já possui sobre essas matérias, e vos levar a aprofundar uma questão de tão alto interesse; mais feliz ainda se meu concurso ulterior puder ser para vós de alguma utilidade.

Com o mais profundo respeito, sou,

de Vossa Alteza,

o muito humilde e muito obediente servidor,

ALLAN KARDEC.

Carta à Sua Alteza o Príncipe G.

Índice

Ano 1859

Janeiro:

Fevereiro:

Março:

Abril:

Maio:

Diferentes ordens de Espíritos

Revista Espírita, fevereiro de 1858

Um ponto capital, na Doutrina Espírita, é o das diferenças que existem, entre os Espíritos, sob o duplo intercâmbio intelectual e moral; seu ensinamento, a esse respeito, jamais variou; mas, não é menos essencial saber que não pertencem, perpetuamente, à mesma ordem, e que, conseqüentemente, essas ordens não se constituem em espécies distintas: são diferentes graus de desenvolvimento. Os Espíritos seguem a marcha progressiva da Natureza; os das ordens inferiores são ainda imperfeitos; alcançam os graus superiores depois de estarem depurados; avançam na hierarquia à medida que adquirem as qualidades, as experiências que lhes faltam. A criança, no berço, não se parece ao que será na idade madura, e, todavia, é sempre o mesmo ser.

A classificação dos Espíritos está baseada no grau do seu adiantamento, nas qualidades que adquiriram, e nas imperfeições das quais, ainda, não se despojaram. Essa classificação, de resto, nada tem de absoluta; cada categoria não apresenta um caráter distinto senão no seu conjunto; mas, de um grau ao outro a transição é imperceptível, e, sobre os limites, a nuança se apaga como nos reinos da Natureza, como nas cores do arco-íris, ou, ainda, como nos diferentes períodos da vida do homem. Pode-se, pois, formar um maior ou menor número de classes segundo o ponto de vista sob o qual se considera a questão. Ocorre aqui como em todos os sistemas de classificações científicas; os sistemas podem ser mais ou menos completos, mais ou menos racionais, mais ou menos cômodos para a inteligência, porém, quaisquer que sejam, não mudam nada no fundo da ciência. Os Espíritos, interrogados sobre esse ponto, puderam, pois, variar no número das categorias, sem que isso tivesse conseqüências sérias. Serviu-se dessa aparente contradição, sem refletir que eles não ligam nenhuma importância ao que é puramente convencional; para eles, o pensamento é tudo; nos deixam a forma, a escolha das palavras, as classificações, em uma palavra, os sistemas.

Acrescentemos, ainda, esta consideração de que não se deve, jamais, perder de vista, que, entre os Espíritos, como entre os homens, há os muito ignorantes, e que não seria demais se colocar em guarda contra a tendência a crer que todos devem tudo saber porque são Espíritos. Toda classificação exige método, análise e conhecimento profundo do assunto. Ora, no mundo dos Espíritos, os que têm conhecimentos limitados são, como aqui os ignorantes, inabilitados a abarcar um conjunto, a formular um sistema; aqueles mesmo que disso são capazes, podem variar nos detalhes, segundo seu ponto de vista, sobretudo quando uma divisão nada tem de absoluta. Linnée, Jussieu, Tournefort, têm, cada um, o seu método, e a Botânica não mudou por isso; é que não inventaram nem as plantas e nem os seus caracteres; observaram as analogias segundo as quais “formaram os grupos ou classes. Foi assim que procedemos; não inventamos nem os Espíritos e nem os seus caracteres; vimos e observamos, julgamo-los por suas palavras e atos, depois foram classificados por semelhanças; é o que cada um teria feito em nosso lugar.

Não podemos, entretanto, reivindicar a totalidade desse trabalho como sendo obra nossa. Se o quadro, que damos em seguida, não foi textualmente traçado pelos Espíritos, e se dele tivemos a iniciativa, todos os elementos dos quais se compõe foram tomados dos seus ensinamentos; não nos restou mais do que formular-lhe a disposição material.

Os Espíritos admitem, geralmente, três categorias principais ou três grandes divisões. Na última, a que está na base da escala, estão os Espíritos imperfeitos, que têm, ainda, todos ou quase todos os degraus a percorrer; caracterizam-se pela predominância da matéria sobre o Espírito e pela propensão ao mal. Os da segunda, caracterizam-se pela predominância do Espírito sobre a matéria e pelo desejo do bem: são os bons Espíritos. A primeira, enfim, compreende os Puros Espíritos, aqueles que alcançaram o supremo grau de perfeição.

Essa divisão nos parece perfeitamente racional e nos apresenta caracteres bem definidos; não nos restou mais do que fazer ressaltar, por um número suficiente de sub-divisões, as nuanças principais do conjunto; foi isso o que fizemos com o concurso dos Espíritos, cujas instruções benevolentes jamais nos faltaram.

Com a ajuda desse quadro, será fácil determinar a classe e o grau de superioridade, ou inferioridade, dos Espíritos com os quais possamos entrar em intercâmbio, e, conseqüentemente, o grau de confiança e de estima que merecem. De outra parte, nos interessa pessoalmente, porque, como pertencemos, por nossa alma, ao mundo espírita, no qual reentraremos deixando nosso envoltório mortal, nos mostra o que nos resta a fazer para chegarmos à perfeição e ao bem supremo. Faremos observar, todavia, que os Espíritos não pertencem sempre, exclusivamente, a tal ou tal classe; seu progresso, não se cumprindo senão gradualmente, e, freqüentemente, mais num sentido do que num outro, podem reunir os caracteres de várias categorias, o que é fácil de apreciar por sua linguagem e por seus atos.

diferentes ordens de espíritos