Os Espíritos barulhentos – Meios para se livrar deles

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Escrevem-nos de Gramat (Lot):

“Em uma casa do lugarejo de Coujet, comuna de Bastat (Lot), ruídos extraordinários se fazem ouvir desde uns dois meses. Eram primeiro golpes secos, e muito semelhantes ao choque de uma clava sobre as tábuas, que se ouviam de todos os lados: sob os pés, sobre a cabeça, nas portas, através dos móveis; depois logo os passos de um homem que caminhava de pés nus, o tamborilar de dedos sobre as vidraças. Os habitantes da casa se amedrontaram e mandaram dizer missas; a população inquieta dirigiu-se para o lugarejo e ouviu; a polícia interveio, fez várias investigações, e o ruído aumentou. Logo, foram portas abertas, objetos transtornados, cadeiras projetadas pela escada, móveis transportados do térreo para o sótão. Tudo o que vos conto, atestado por um grande número de pessoas, passa-se em pleno dia. A casa não é um antigo casebre sombrio e negro, do qual só o aspecto faz cogitar fantasmas; é uma casa recentemente construída, que é agradável; os proprietários são pessoas boas, incapazes de quererem enganar alguém, e doentes de medo. Entretanto, muitas pessoas não pensam que nada há de sobrenatural, e tratam de explicar, seja pela física, seja por más intenções que emprestam aos habitantes da casa, tudo que ali se passa de extraordinário. Por mim, que vi e creio, resolvi dirigir-me a vós para saber quais são os Espíritos que fazem esse barulho, e conhecer o meio, se houver um, de fazê-los calarem-se. É um serviço que prestais a essas boas pessoas, etc….” Os fatos dessa natureza não são raros; eles se assemelham quase todos e não diferem, em geral, senão pela sua intensidade e sua maior ou menor tenacidade. Pouco se inquieta com eles quando se limitam a alguns ruídos sem conseqüência, mas se tomam uma verdadeira calamidade quando adquirem certas proporções. Nosso honorável correspondente nos pergunta quais são os Espíritos que fazem esse barulho. A resposta não é incerta: sabe-se que Espíritos de uma ordem muito inferior são os únicos deles capazes.

Os Espíritos superiores, tanto quanto entre os homens graves e sérios, não se divertem fazendo algazarra. Freqüentemente, os chamamos para perguntarmos o motivo que os levam a perturbarem assim o repouso. A maioria não tem outro objetivo senão o de se divertir; esses são Espíritos antes levianos que maus, que se riem do pavor que ocasionam, e das buscas inúteis que se fazem para descobrir a causa do tumulto.

Freqüentemente, se aferram junto a um indivíduo, que se alegram em vexar, e que perseguem de morada em morada; outras vezes se ligam a um local sem outro motivo que seu capricho. Algumas vezes, é uma vingança que exercem, como teremos ocasião de ver. Em certos casos, sua intenção é mais louvável; querem chamar a atenção e se porem em comunicação, seja para darem uma advertência útil à pessoa à qual se dirigem, seja para pedirem alguma coisa para eles mesmos. Vimo-los, freqüentemente, pedirem preces, outras vezes solicitarem o cumprimento, em seu nome, de um voto que não puderam cumprir, outras vezes, enfim, querer, no interesse de seu próprio repouso, repararem uma ação má cometida por eles quando viviam. Em geral, comete-se o erro de com eles se amedrontar; sua presença pode ser importuna, mas não perigosa. Concebe-se, de resto, o desejo que se tem de livrar-se deles e se faz, geralmente, para isso, tudo ao contrário do que seria preciso. Se são Espíritos que se divertem, quanto mais se toma a coisa a sério, mais persistem, como crianças traquinas que aborrecem mais aqueles que vêem se impacientarem, e que metem medo aos covardes. Se se tomasse o sábio partido de rir por si mesmo, de seus maus rodeios, acabariam por se cansarem e por ficarem tranqüilos. Conhecemos alguém que, longe de se irritar, os excitava, desafiava-os para fazerem tal ou tal coisa, tão bem que, ao cabo de alguns dias, não retomavam mais. Mas, como dissemos, existem alguns cujo motivo é o mais frívolo. Por isso, é sempre útil saber o que querem. Se pedem alguma coisa, pode-se estar certo que cessarão suas visitas, desde que seu desejo seja satisfeito. O melhor meio de estar informado a esse respeito é o de evocar o Espírito, por intermédio de um bom médium escrevente; pelas suas respostas, ver-se-á o que disputam, e se agirá em conseqüência; se for um Espírito infeliz, a caridade manda tratá-lo com as considerações que merece. Se for um mau brincalhão, pode-se agir para com ele sem cerimônia; se for malevolente, é preciso pedir a Deus para torná-lo melhor. Em todo estado de defesa, a prece não pode sempre ter senão um bom resultado. Mas a gravidade das fórmulas de exorcismo fá-los rirem e não as têm em nenhuma conta Podendo-se entrar em comunicação com eles, é preciso desconfiar das qualificações burlescas ou apavorantes que se dão, algumas vezes, para se divertirem com a credulidade.

A dificuldade, em muitos casos, é ter um médium à disposição. É preciso, então, procurar tornar-se a si mesmo, ou interrogar diretamente o Espírito, conformando-se com os preceitos que demos, a esse respeito, em nossa Instrução prática sobre as manifestações.
Esses fenômenos, embora executados por Espíritos inferiores, freqüentemente, são provocados por Espíritos de uma ordem mais elevada, com a finalidade de convencer quanto à existência de seres incorpóreos e de um poder superior ao homem. A ressonância que deles resulta, o medo mesmo que eles causam, chamam a atenção, e acabarão por abrir os olhos dos mais incrédulos. Estes acham mais simples colocar esses fenômenos à conta da imaginação, explicação muito cômoda e que dispensa dar-lhes outras; todavia, quando objetos são postos em desordem ou vos são lançados à cabeça, seria preciso uma imaginação bem complacente para se figurar que semelhantes coisas são quando não o são. Nota-se um efeito qualquer, esse efeito tem necessariamente uma causa; se uma fria e calma observação nos demonstra que esse efeito é independente de toda vontade humana e de toda causa material, se, além disso, nos dá sinais evidentes de inteligência e de livre vontade, o que é o sinal mais característico, somos forçados a atribuí-lo a uma inteligência oculta. Quais são esses seres misteriosos? É o que os estudos espíritas nos ensinam, do modo o menos contestável, pelos meios que nos dá para se comunicar com eles. Esses fenômenos nos ensinam, além do mais, a separar o que há de real, de falso ou exagerado nos fenômenos dos quais não nos damos conta. Se um efeito insólito se produziu: ruído, movimento, mesmo aparição, o primeiro pensamento que se deve ter é que foi devido a uma causa toda natural, porque é a mais provável; é preciso, então, procurar essa causa com o maior cuidado, e não admitir a intervenção dos Espíritos senão conscientemente; é o meio de não se iludir.

Espíritos barulhentos

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Meu amigo Hermann

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Sob esse título, M. H. Lugner publicou, no folhetim do Journal de Debates de 26 de novembro de 1858, uma espiritual história fantástica, no gênero de Hoffmann, e que, à primeira vista, parecia ter alguma analogia com os nossos agêneres, e os fenômenos de tangibilidade dos quais falamos. A extensão dessa história não nos permite reproduzi-la por inteiro; limitar-nos-emos a dela fazer uma análise, fazendo notar que o autor a conta como um fato do qual teria sido, pessoalmente, testemunha, tendo, diz ele, laços de amizade com o herói da aventura. Esse herói, de nome Hermann, morava em pequena cidade no fundo da Alemanha. “Era, diz o narrador, um belo moço de 25 anos, de aparência avantajada, cheio de nobreza em todos os seus movimentos, gracioso e espiritual em sua linguagem. Era muito instruído, sem o menor pedantismo, muito fino, sem malícia, muito senhor de sua dignidade sem a menor arrogância. Breve, era perfeito em tudo, e mais perfeito, ainda, em três coisas quanto em todo o resto: seu amor pela filosofia, sua vocação particular pela valsa, e a doçura de seu caráter. Essa doçura não era fraqueza, nem medo de outrem, nem desconfiança exagerada de si mesmo: era uma inclinação natural, uma superabundância desse milk of human kindness que se encontra, comumente, na ficção dos poetas, e do qual a Natureza havia distribuído a Hermann uma dose inabitual. Continha e sustentava, ao mesmo tempo, seus inimigos com uma bondade todo-poderosa e superior aos ultrajes; podia-se feri-lo, mas não encolerizá-lo. Tendo seu cabeleireiro, um dia, queimado-lhe a ponta da orelha encrespando-o, Hermann se apressou em pedir-lhe desculpas, tomando a falta sobre si, assegurando mesmo que havia se movimentado mal oportunamente. Entretanto, não fora nada disso, e posso dizê-lo conscientemente, porque estava lá e vi, claramente, que tudo resultou da imperícia do cabeleireiro. Deu ele muitos outros sinais da imperturbável bondade de sua alma. Escutava ler maus versos com um ar angélico, respondia às mais tolas sátiras por complementos bem feitos, e os piores espíritos usaram contra ele suas maldades. Essa doçura desconhecida tornara-o célebre; não havia mulher que não desse sua vida para vigiar, sem descanso, o caráter de Hermann, e para procurar fazê-lo perder a paciência, ao menos uma vez em sua vida.”

“Acrescentai a todos esses méritos a vantagem de inteira independência e uma fortuna suficiente para ser considerado entre os mais ricos cidadãos da cidade, e tereis dificuldade em imaginar que possa faltar alguma coisa ao feliz Hermann. Entretanto, ele não era feliz e, freqüentemente, dava sinais de tristeza…..Isso devia-se a uma enfermidade singular que o afligira toda a sua vida, e que há muito atiçava a curiosidade da pequena cidade.”

“Hermann não podia ficar desperto um instante depois do pôr-do-sol. Quando o dia se aproximava de seu fim, era tomado de um langor insuportável, e caía progressivamente em uma sonolência que ninguém podia prever, e da qual não se podia tirá-lo. Se deitava-se com o sol, levantava-se com o dia, e seus hábitos matinais teriam feito dele um excelente caçador se pudesse superar seu horror pelo sangue e suportar a idéia de dar morte cruel a criaturas inocentes.” Eis como, em algumas palavras, num momento de expansão, dá conta de sua situação ao seu amigo do Journal dês Debats:

“Sabeis, meu caro amigo, à qual enfermidade me sujeito e que sono invencível me oprime regularmente desde o deitar até que o Sol se levante. Sobre isso estais tão instruído quanto todo mundo, e, como todo mundo, ouvistes dizer que esse sonho se parece, a ponto de se enganar, com a morte. Nada é mais verdadeiro, e esse prodígio pouco me importaria, juro-vos, se a Natureza tivesse se contentado em tomar meu corpo para o objeto de uma de suas fantasias. Mas minha alma é também seu joguete, e não posso vos dizer, sem horror, a sorte bizarra e cruel que lhe foi infligida. Cada uma de minhas noites é preenchida por um sonho, e esse sonho se liga, com a maior clareza, ao sonho da noite precedente. Esses sonhos (queira Deus que esses sejam sonhos!) se seguem e se encadeiam como acontecimentos de uma existência comum que se desenvolveria à face do sol e na companhia de outros homens. Vivo, pois, duas vezes e conduzo duas existências bem diferentes: uma se passa aqui, convosco e com os nossos amigos, a outra bem longe daqui, com homens que conheço tão bem quanto vós, a quem falo como vos falo, e que me tratam de louco, como ireis fazê-lo, quando faço alusão a uma outra existência além daquela que passo com eles. Todavia, não estou aqui vivo e falando, sentado perto de vós, penso que bem desperto; e aquele que pretendesse que nós voltamos ou que somos sombras, não passaria, a justo título, por um insensato? Pois bem! Meu caro amigo, cada um dos momentos, cada um dos atos que preenchem as horas do meu inevitável sono, não têm menos de realidade, e quando estou inteiramente nessa outra existência, é a esta que fico tentado a pedir-lhe um sonho.”

‘Todavia, não sonho mais aqui que naquele mundo; vejo, alternativamente, os dois lados, e não poderia duvidar, se bem que minha razão, quanto a isso, esteja estranhamente ofendida, que minha alma não anime sucessivamente dois corpos e não conduza de frente duas existências. Ai! meu caro amigo, queira Deus que ela tenha, nesses dois corpos, os mesmos instintos e a mesma conduta, e que eu seja, no outro mundo, o homem que conheceis e que amais aqui. Mas isso não é nada, e não se ousaria quase nada contestar quanto à influência do físico sobre o moral conhecendo-se minha história. Não quero me vangloriar, e, aliás, o orgulho que uma dessas duas existências poderia me inspirar seria bem rebatido pela vergonha que é inseparável da outra; entretanto, posso dizer, sem vaidade, que aqui sou justamente amado e respeitado por todo o mundo; louva-se minha personalidade e minhas maneiras; acha-se meu ar nobre, liberal e distinto. Amo, como sabeis, as letras, a filosofia, as artes, a liberdade, tudo o que faz o encanto e a dignidade da vida humana; sou socorro dos infelizes e sem inveja contra meu próximo. Conheceis minha doçura passada em provérbio, meu espírito de justiça e de misericórdia, meu insuperável horror pela violência. Todas essas qualidades que me elevam e que me ornam aqui, eu as expio, no outro mundo, por vícios contrários; a Natureza, que me cumulou aqui com suas bênçãos, quis no outro mundo maldizer-me.

Não só ela me lançou numa situação inferior onde devo ficar, sem letras e sem cultura, mas deu, a esse outro corpo, que é também o meu, órgãos tão grosseiros e tão perversos, sentidos tão cegos e tão fortes, tais inclinações e tais necessidades, que minha alma obedece ao invés de comandar, e se deixa arrastar atrás desse corpo despótico nas mais vis desordens. Naquele mundo, sou duro e frouxo, perseguidor dos fracos e rastejador diante dos fortes, impiedoso e invejoso, naturalmente injusto, violento quase ao delírio.

Todavia, sou eu mesmo e acho bonito me odiar e me desprezar, não posso me desconhecer.”

“Hermann se deteve um instante; sua voz estava tremente e seus olhos molhados de lágrimas. Disse-lhe, tentando sorrir: Quero acariciar vossa loucura, Hermann, para melhor curá-la Dizei-me tudo, e primeiro onde se passa essa outra existência e sob qual nome sois conhecido?”

“Chamo-me William Parker, respondeu ele; sou cidadão de Melbourne, na Austrália. É para ali, nos opostos, que minha alma voa quando vos deixa. Quando o Sol se deita aqui, ela deixa Hermann inanimado atrás dela, e o Sol se eleva no outro mundo quando ela vai dar vida ao corpo inanimado de Parker. Então começa minha miserável existência de vagabundagem, de fraudes, de rixas e de mendicância. Freqüento má sociedade e aí sou contado entre os piores; sem cessar, estou em luta com os meus companheiros, e, freqüentemente, tenho a mão na faca; estou sempre em guerra com a polícia e, freqüentemente, reduzido a me esconder. Mas tudo tem um fim nesse mundo, e esse suplício toca seu fim. Felizmente, cometi um crime. Matei covarde e brutalmente uma pobre criatura que estava ligada a mim. Assim, levei ao seu auge a indignação pública, já excitada pelas minhas más ações. O júri me condenou à morte e espero minha execução.

Algumas pessoas, humanas e religiosas, intercederam junto ao governador para obterem minha graça ou pelo menos um adiamento, que me daria o tempo de me converter. Mas conhece-se muito bem minha natureza grosseira e intratável. Recusou-se e, amanhã, ou, se preferis, esta noite, serei infalivelmente conduzido ao suplício.”

“Pois bem! disse-lhe rindo, tanto melhor para vós e para nós; é um bom alívio a morte desse velhaco. Uma vez Parker lançado na eternidade, Hermann viverá tranqüilo; poderá velar como todo o mundo e permanecer dia e noite conosco. Aquela morte vos curará, meu caro amigo, e sou grato ao governador de Melbourne por ter recusado a graça a esse miserável.”

“Enganai-vos, respondeu-me Hermann com uma gravidade que me causou pena; morreremos os dois juntos, porque não somos senão um, apesar de nossas diversidades e nossa antipatia natural, não temos senão uma alma que será atingida de um só golpe, e em todas as coisas respondemos um pelo outro. Credes, pois, que Parker viveria ainda se Hermann tivesse sentido que, tanto na morte como na vida, eram inseparáveis?

Hesitaria um instante se pudesse arrancar e lançar ao fogo essa outra existência, como o olho maldito de que falam as Escrituras? Mas eu era tão feliz por viver aqui que não podia resolver-me a morrer no outro mundo, e minha indecisão durou até que a sorte decidiu por mim essa questão terrível. Hoje tudo está dito e, crede bem, vos dou adeus.”

“No dia seguinte, encontrou-se Hermann morto em sua cama, e, alguns meses depois, os jornais da Austrália trouxeram a notícia da execução de William Parker, com todas as circunstâncias descritas por seu sósia.”

Toda essa história está contada com um imperturbável sangue frio e o tom mais sério; nada lhe falta, nos detalhes que omitimos, para dar-lhe um cunho de verdade. Em presença de fenômenos estranhos, dos quais somos testemunhas, um fato dessa natureza poderia parecer, se não real, pelo menos possível, e se relacionar, até um certo ponto, com aqueles que citamos. Com efeito, não seria análoga à do jovem que dormia em Boulogne ao passo que, no mesmo instante, conversava em Londres com seus amigos? A de Santo Antônio de Pádua, que no mesmo dia pregava na Espanha e se mostrava em Pádua para salvar a vida de seu pai, acusado de morte? À primeira vista pode-se dizer que, se esses últimos fatos são exatos, não é mais impossível que esse Hermann viveu na Austrália enquanto dormia na Alemanha e reciprocamente. Embora nossa opinião estivesse perfeitamente estabelecida a esse respeito, cremos dever referi-la aos nossos instrutores de além-túmulo, em uma das sessões da Sociedade. A esta pergunta: Os fatos narrados pelo Journal dês Debats é real? Foi respondido: Não; é uma história de pura invenção, para divertir os leitores. – Se não é real, é possível? – R. Não; uma alma não pode animar dois corpos diferentes.

Com efeito, na história de Boulogne, se bem que o jovem haja se mostrado em dois lugares diferentes, não havia, realmente, senão um corpo, em carne e osso, que estava em Boulogne; em Londres, não havia senão uma aparência do perispírito, tangível, é verdade, mas que não era o próprio corpo, o corpo mortal; não poderia morrer em Londres e em Boulogne. Hermann, ao contrário, segundo a história, tinha realmente dois corpos, uma vez que um foi enforcado em Melbourne e o outro enterrado na Alemanha.

A mesma alma teria, assim, conduzido de frente duas existências, o que, segundo os Espíritos, não é possível. Os fenômenos do gênero do de Boulogne e de Santo Antônio de Pádua, se bem que bastante freqüentes, são, aliás, sempre acidentais e fortuitos num indivíduo, e não têm, jamais, um caráter de permanência, ao passo que o pretenso Hermann era assim desde a sua infância. Mas a razão, a mais grave de todas, é a da diferença de caracteres; seguramente, se esses dois indivíduos não tiveram senão uma e a mesma alma, ela não poderia ser, alternativamente, a de um homem de bem e a de um bandido. O autor se funda, é verdade, sobre a influência do organismo; mas o lamentamos se tal é sua filosofia, e mais ainda se procura acreditá-la, porque isso seria negar a responsabilidade dos atos; uma semelhante doutrina seria a negação de toda moral, uma vez que reduziria o homem ao estado de máquina.

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Os agêneres

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Repetimos muitas vezes a teoria das aparições, e a lembramos em nosso último número a propósito de fenômenos estranhos que relatamos. A eles remetemos nossos leitores, para a inteligência do que se vai seguir.

Todo mundo sabe que, no número das manifestações extraordinárias produzidas pelo senhor Home, estava a aparição de mãos, perfeitamente tangíveis, que cada um podia ver e apalpar, que pressionava e estreitava, depois que, de repente, não ofereciam senão o vazio quando as queriam agarrar de surpresa. Aí está um fato positivo, que se produziu em muitas circunstâncias, e que atestam numerosas testemunhas oculares. Por estranho e anormal que pareça, o maravilhoso cessa desde o instante em que se pode dele dar conta por uma explicação lógica; entra, então, na categoria dos fenômenos naturais, embora de ordem bem diferente daqueles que se produzem sob nossos olhos, e com os quais é preciso guardar-se para não confundi-los. Podem-se encontrar, nos fenômenos usuais, pontos de comparação, como aquele cego que se dava conta do clarão da luz e das cores pelo toque da trombeta, mas não de similitudes; é precisamente a mania de querer tudo assimilar àquilo que conhecemos, que causa decepções a certas pessoas; pensam poder operar sobre esses elementos novos como sobre o hidrogênio e o oxigênio. Ora, aí está o erro; esses fenômenos estão submetidos a condições que saem do círculo habitual de nossas observações; é preciso, antes de tudo, conhecê-las e com elas conformar-se, se se quiser obter resultados. É preciso, sobretudo, não perder de vista esse princípio essencial, verdadeira pedra principal da ciência espírita; é que o agente dos fenômenos vulgares é uma força física, material, que pode ser submetida às leis do cálculo, ao passo que nos fenômenos espíritas, esse agente é constantemente uma inteligência que tem sua vontade própria, e que não podemos submeter aos nossos caprichos.

Nessas mãos haviam a carne, pele, ossos, unhas reais? Evidentemente, não, não eram senão uma aparência, mas tal que produzia o efeito de realidade. Se um Espírito tem o poder de tornar uma parte qualquer de seu corpo etéreo visível e palpável, não há razão que não possa ser do mesmo modo com os outros órgãos. Suponhamos, pois, que um Espírito estenda essa aparência a todas as partes do corpo, creríamos ver um ser semelhante a nós, agindo como nós, ao passo que isso não seria senão um vapor momentaneamente solidificado. Tal é o caso do fantasma de Bayonne. A duração dessa aparência está submetida a condições que nos são desconhecidas; ela depende, sem dúvida, da vontade do Espírito, que pode produzi-la ou fazê-la cessar à sua vontade, mas em certos limites que não está sempre livre para transpor. Os Espíritos, interrogados quanto a esse assunto, assim também sobre todas as intermitências de quaisquer manifestações, sempre disseram que agem em virtude de uma permissão superior.

Se a duração da aparência corporal é limitada para certos Espíritos, podemos dizer que, em princípio, ela é variável, e pode persistir por um maior ou menor tempo; que pode produzirse em todos os tempos e a toda hora. Um Espírito, cujo corpo todo fosse assim visível e palpável, teria para nós todas as aparências de um ser humano, e poderia falar conosco, sentar-se em nosso lar como uma pessoa qualquer, porque, para nós, seria um dos nossos semelhantes.

Partimos de um fato patente, a aparição de mãos tangíveis, para chegarmos a uma suposição que lhe é a conseqüência lógica; e, todavia, não a teríamos insinuado se a história da criança de Bayonne não tivesse sido colocada em nosso caminho, mostrando sua possibilidade. Um Espírito superior, perguntado sobre esse ponto, respondeu que, com efeito, podem-se encontrar seres dessa natureza sem disso duvidar; acrescentou que é raro, mas que isso se vê. Como para se entender é preciso um nome para cada coisa, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas chama-os agêneres para indicar que sua origem não é o produto de uma geração. O fato seguinte, que se passou recentemente em Paris, parece pertencer a essa categoria:

Uma pobre mulher estava na igreja de Saint-Roch, e pedia a Deus vir em ajuda de sua aflição. Em sua saída da igreja, na rua Saint-Honoré, ela encontrou um senhor que a abordou dizendo-lhe: “Minha brava mulher, estaríeis contente por encontrar trabalho? –

Ah! meu bom senhor, disse ela, pedia a Deus que me fosse achá-lo, porque sou bem infeliz. – Pois bem! Ide em tal rua, em tal número; chamareis a senhora T…; ela vo-lo dará.” Ali continuou seu caminho. A pobre mulher se encontrou, sem tardar, no endereço indicado – Tenho, com efeito trabalho a fazer, disse a dama em questão, mas como ainda não chamei ninguém, como ocorre que vindes me procurar? A pobre mulher, percebendo um retrato pendurado na parede, disse: – Senhora, foi esse senhor ali, que me enviou. – Esse senhor! Repetiu a dama espantada, mas isso não é possível; é o retrato de meu filho, que morreu há três anos. – Não sei como isso ocorre, mas vos asseguro que foi esse senhor, que acabo de encontrar saindo da igreja onde fui pedir a Deus para me assistir; ele me abordou, e foi muito bem ele quem me enviou aqui.

No que acabamos de ver, não haveria nada de surpreendente em que esse Espírito, do filho dessa dama, para prestar serviço a essa pobre mulher, da qual havia, sem dúvida, ouvido a prece, apareceu-lhe sob sua forma corporal para lhe indicar o endereço de sua mãe. Em que se tornou depois? Sem dúvida, no que era antes: num Espírito, a menos que não tenha julgado oportuno se mostrar as outras sob a mesma aparência, continuando seu passeio. Essa mulher, assim, teria encontrado um agênere, com o qual conversou.

Mas, então, dir-seá, por que não se apresentou à sua mãe? Nessas circunstâncias, os motivos determinantes dos Espíritos nos são completamente desconhecidos; eles agem como melhor lhes parece, ou melhor, como disseram, em virtude de uma permissão sem a qual eles não podem revelar sua existência de maneira material. Compreende-se, de resto, que sua visão poderia causar uma emoção perigosa à sua mãe; e quem sabe se não se apresentou a ela, seja durante o sono, seja de outro modo? E, aliás, esse não era o meio de revelar-lhe sua existência? É mais que provável que foi testemunha invisível da entrevista.

O Fantasma de Bayonne parece-nos dever ser considerado como um agênere, pelo menos nas circunstâncias em que se manifestou; porque para a família sempre teve o caráter de um Espírito, caráter que ele jamais procurou dissimular: era seu estado permanente, e as aparências corporais que tomou não foram senão acidentais; ao passo que o agênere, propriamente dito, não revela sua natureza, e não é, aos nossos olhos, senão um homem comum; sua aparição corporal pode, se for preciso, ter longa duração para poder estabelecer relações sociais com um ou com vários indivíduos.

Pedimos ao Espírito de São Luís consentir em nos esclarecer diferentes pontos, respondendo às nossas perguntas.

1. O Espírito do Fantasma de Bayonne poderia se mostrar corporalmente em outros lugares e a outras pessoas senão em sua família? – R. Sim, sem dúvida.

2. Isso depende de sua vontade? – R. Não precisamente; o poder dos Espíritos é limitado; não fazem senão o que lhes é permitido fazerem.

3. Que ocorreria se fosse apresentado a uma pessoa desconhecida? – R. Seria tomado por uma criança comum. Mas vos direi uma coisa, é que existe, algumas vezes, na Terra, Espíritos que revestem essa aparência, e que são tomados por homens.

4. Esses seres pertencem aos Espíritos inferiores ou superiores? – R. Podem pertencer aos dois; esses são fatos raros. Deles tendes exemplos na Bíblia.

5. Raros ou não, basta que sejam possíveis para merecerem a atenção. Que ocorreria, tomando semelhante ser por um homem comum, se lhe fizesse um ferimento mortal? Seria morto? – R. Desapareceria subitamente, como o jovem de Londres. (Ver o número de dezembro de 1858, Fenômeno de bi-corporeidade.)

6. Têm eles paixões? – R. Sim, como Espíritos, têm as paixões de Espíritos segundo a sua inferioridade. Se tomam um corpo aparente, algumas vezes, é para gozarem as paixões humanas; se são elevados, é para um fim útil.

7. Podem eles procriar? – R. Deus não lhes permitiria; seria contrário às leis que estabeleceu para a Terra; elas não podem ser elididas.

8. Se um semelhante ser a nós se apresentasse, haveria um meio para reconhecê-lo? – R. Não, apenas pela sua desaparição, que se faz de modo inesperado. É o mesmo fato do transporte de móveis de um térreo ao sótão, fato que já lestes.

Nota. Alusão a um fato dessa natureza reportado no começo da sessão.

9. Qual é a finalidade que pode levar certos Espíritos a tomarem esse estado corporal; é antes para o mal que para o bem? – R. Freqüentemente para o mal; os bons Espíritos dispõem da inspiração; agem sobre a alma e pelo coração. Vós o sabeis, as manifestações físicas são produzidas por Espíritos inferiores, e estas são desse número. Entretanto, como já disse, os bons Espíritos também podem tomar essa aparência corpórea com um fim útil; falei de modo geral.

10. Nesse estado, podem tomar-se visíveis ou invisíveis à vontade? – R. Sim, uma vez que poderão desaparecer quando o quiserem.

11. Têm um poder oculto, superior ao dos outros homens? – R. Não têm senão o poder que lhes dá sua posição como Espíritos.

12. Têm eles uma necessidade real de se alimentarem? – R. Não; o corpo não é um corpo real.

13. Entretanto, o jovem de Londres não tinha um corpo real, e todavia almoçou com os amigos, e lhes apertou a mão. Em que se tornou a alimentação ingerida? – R. Antes de apertar a mão, onde estavam os dedos que pressionam? Por que não quereis compreender que a matéria desaparece também? O corpo do jovem de Londres não era uma realidade, uma vez que estava em Boulogne; era, pois, uma aparência; ocorria o mesmo com o alimento que parecia ingerir.

14. Tendo-se um semelhante ser em casa, seria um bem ou um mal? – R. Seria antes um mal; de resto, não se podem adquirir muitos conhecimentos com esses seres. Não podemos dizer-vos muito, esses fatos são excessivamente raros e não têm, jamais, um caráter de permanência. Suas desaparições corpóreas instantâneas, como as de Bayonne, o são muito menos.

15. Um Espírito familiar protetor, algumas vezes, toma essa forma? – R. Não; não tem ele as cordas interiores? Toca-as mais facilmente do que o faria sob forma visível, ou se o tomássemos como um dos nossos semelhantes.

16. Perguntou-se se o conde de Saint-German não pertencia à categoria dos agêneres. – R. Não; era um hábil mistificador.

A história do jovem de Londres, narrada em nosso número de dezembro, é um fato de bicorporeidade, ou melhor, de dupla presença, que difere essencialmente daquele em questão. O agênere não tem corpo vivo na Terra; somente seu perispírito toma forma palpável. O jovem de Londres estava perfeitamente vivo; enquanto seu corpo dormia em Boulogne, seu espírito, envolvido pelo perispírito, foi a Londres, onde tomou uma aparência tangível.

Um fato quase análogo nos é pessoal. Enquanto estávamos pacificamente em nossa cama, um dos nossos amigos viu-nos várias vezes em sua casa, embora sob uma aparência não tangível, sentado ao seu lado e conversando com ele como de hábito. Uma vez nos viu com roupão, outras vezes com paletó. Transcreveu nossa conversa, que nos comunicou no dia seguinte. Ela era, pensando bem, relativa aos nossos trabalhos prediletos. Para fazer uma experiência, ofereceu-nos refrescos, e eis nossa resposta:

“Deles não necessito, uma vez que não é meu corpo que aqui está; vós o sabeis, não há nenhuma necessidade de vos produzir uma ilusão.” Uma circunstância, bastante bizarra, se apresentou na ocasião. Seja predisposição natural, seja resultado de nossos trabalhos intelectuais, sérios desde nossa juventude, poderíamos dizê-lo desde a infância, o fundo do nosso caráter sempre teve uma extrema gravidade, mesmo na idade em que não se pensa mais do que no prazer. Essa preocupação constante nos dá um encontro muito frio, excessivamente frio mesmo; ao menos é pelo que somos freqüentemente censurados; mas, sob essa falsa aparência glacial, o Espírito sente, talvez mais vivamente, como se tivesse mais expansão exterior. Ora, em nossas visitas noturnas ao nosso amigo, este ficou surpreso por nos achar diferente; éramos mais aberto, mais comunicativo, quase alegre. Tudo respirando, em nós, a satisfação e a calma do bem-estar. Não está aí um efeito do Espírito desligado da matéria?

 

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Escolhos dos médiuns

Revista Espírita, fevereiro de 1859

A mediunidade é uma faculdade multíplice, e que apresenta uma variedade infinita de nuanças em seus meios e em seus efeitos. Quem está apto para receber ou transmitir as comunicações dos Espíritos é, por isso mesmo, médium, qualquer que seja o modo empregado ou o grau de desenvolvimento da faculdade, desde a simples influência oculta até a produção dos mais insólitos fenômenos. Todavia, em seu uso ordinário, essa palavra tem uma acepção mais restrita, e se diz, geralmente, de pessoas dotadas de um poder mediúnico muito grande, seja para produzir efeitos físicos, seja para transmitir o pensamento dos Espíritos pela escrita ou pela palavra.

Embora essa faculdade não seja um privilégio exclusivo, é certo que encontra refratários, pelo menos no sentido que a isso se dá; é certo também que não é sem escolhos para aqueles que a possuem; e ela pode se alterar, mesmo perder-se, e, freqüentemente, ser uma fonte de graves decepções. Sobre esse ponto é que cremos ser útil chamar a atenção de todos aqueles que se ocupam com comunicações espíritas, seja diretamente, seja por intermediário. Dizemos por intermediário, porque incumbe também àqueles que se servem de médiuns poder apreciarem seu valor e a confiança que merecem suas comunicações.

O dom da mediunidade prende-se a causas que não são ainda perfeitamente conhecidas, e nas quais o físico parece ter uma grande parte. À primeira vista, pareceu que um dom tão precioso não teve ser o quinhão senão de almas de elite; ora, a experiência prova o contrário, porque se encontram poderosos médiuns entre as pessoas cuja moral deixa muito a desejar, ao passo que outras, estimáveis sob todos os aspectos, não a possuem.

Aquele que fracassa, apesar de seu desejo, seus esforços e sua perseverança, disso não deve concluir desfavoravelmente para si, e não se crer indigno da benevolência dos bons Espíritos; se esse favor não lhe foi concedido, sem dúvida, há outros que podem lhe oferecer uma ampla compensação. Pela mesma razão, aquele que a desfruta, dela não poderá se prevalecer, porque não é nele o sinal de nenhum mérito pessoal. O mérito não está, pois, na posse da faculdade medianímica, que pode ser dada a todo o mundo, mas no uso que dela se pode fazer; aí está uma distinção capital que é preciso jamais perder de vista: a bondade do médium não está na facilidade das comunicações, mas unicamente em sua aptidão em não recebê-las senão as boas; ora, é aí que as condições morais, nas quais se encontra, são onipotentes; também aí se encontram, para ele, os maiores escolhos.

Para se dar conta desse estado de coisas e compreender o que iremos dizer, é preciso se reportar a esse princípio fundamental, que entre os Espíritos os há de todos os graus em bem e em mal, em ciência e em ignorância; que os Espíritos pululam ao nosso redor, e quando cremos estar sós, estamos sem cessar cercados de seres que nos acotovelam, uns com indiferença como estranhos, os outros que nos observam com intenções mais ou menos benevolentes, segundo sua natureza.

O provérbio: Quem se parece se reúne, tem sua aplicação entre os Espíritos como entre nós, e mais ainda entre eles, se isso é possível, porque não estão, como nós, sob a influência de considerações sociais. Todavia, se, entre nós, essas considerações confundem, algumas vezes, os homens de costumes e de gostos muito diferentes, essa confusão não é, de alguma sorte, senão material e transitória; a semelhança ou a divergência de pensamentos será sempre a causa das atrações ou das repulsões.

Nossa alma que não é, em definitivo, senão um Espírito encarnado, não é menos Espírito; se está momentaneamente revestida de um envoltório material, suas relações com o mundo incorpóreo, embora menos fáceis que no estado de liberdade, não são interrompidas por isso de maneira absoluta; o pensamento é laço que nos une ao Espírito, e por esse pensamento atraímos aqueles que simpatizam com as nossas idéias e nossas tendências. Representemonos, pois, a massa dos Espíritos que nos cercam como a multidão que encontramos no mundo; por toda parte onde vamos de preferência, encontramos homens atraídos pelos mesmos gostos e os mesmos desejos; nas reuniões que têm um fim sério, vão os homens sérios; naquelas que têm um objetivo frívolo, vão os homens frívolos; por toda parte também se encontram Espíritos atraídos pelo pensamento dominante. Se lançarmos um golpe de vista sobre o estado moral da Humanidade em geral, conceberemos sem dificuldade que, nessa multidão oculta, os Espíritos elevados não devem estar em maioria; é uma das conseqüências do estado de inferioridade de nosso globo.

Os Espíritos que nos cercam não são passivos; é um povo essencialmente movimentado, que pensa e age sem cessar, que nos influencia com o nosso desconhecimento, que nos excita ou nos dissuade, que nos impele ao bem ou ao mal, o que não nos tira mais nosso livre arbítrio senão os conselhos bons ou maus que recebemos de nossos semelhantes. Mas quando os Espíritos imperfeitos solicitam alguém a fazer uma coisa má, sabem muito bem a quem se dirigem e não vão perder seu tempo onde vêem que serão mal recebidos; eles nos excitam segundo nossas tendência ou segundo os germes que vêem em nós e nossas disposições em escutá-los: eis porque o homem firme nos princípios do bem não lhes dá oportunidade.

Estas considerações nos conduzem naturalmente à questão dos médiuns. Estes últimos estão, como todo o mundo, submetidos à influência oculta de Espíritos bons ou maus; eles os atraem ou os repelem segundo as simpatias de seu espírito pessoal, e os Espíritos maus se aproveitam de todo defeito, como de uma falta de couraça para se introduzirem junto deles e se imiscuírem, com seu desconhecimento, em todos os atos de sua vida particular. Esses Espíritos encontrando, por outro lado, no médium um meio de exprimirem seu pensamento de maneira inteligível e de atestarem sua presença, se misturam às comunicações, provocamnas porque esperam ter maior influência por esse meio, e acabam por dominá-las. Se consideram como em sua casa, afastando os Espíritos que poderiam se lhes contrapor, e, se for preciso, tomam seus nomes e mesmo sua linguagem para enganarem; mas não podem sustentar por muito tempo, seu papel, e por poucas relações que tenham com um observador experimentado, e não prevenido, são bem depressa desmascarados. Se o médium se deixa levar por essa influência, os bons Espíritos dele se afastam, ou não vêm senão quando são chamados, ou não vêm senão com repugnância, porque vêem que o Espírito que está identificado com o médium, que de alguma sorte elegeu domicílio nele, pode alterar suas instruções. Se vamos escolher um intérprete, um secretário, um mandatário qualquer, é evidente que escolheremos não só um homem capaz, mas além disso digno de nossa estima, e que não confiaremos uma missão delicada e nossos interesses a um homem corrompido ou freqüentando uma sociedade suspeita. Ocorre o mesmo com os Espíritos; os Espíritos superiores não escolheriam, para transmitirem instruções sérias, um médium que tem freqüência com os Espíritos levianos, A MENOS QUE NÃO TENHAM NECESSIDADE E QUE NÃO TENHAM OUTROS, A SUA DISPOSIÇÃO PARA O MOMENTO, a menos ainda que queiram dar uma lição ao próprio médium, o que ocorre algumas vezes mas, então, não se servem dele senão acidentalmente, e o deixam desde que o encontrem melhor, deixando-o às suas simpatias se a elas se prendem. O médium perfeito seria, pois, aquele que não desse nenhum acesso aos maus Espíritos por um defeito qualquer. Essa condição é bem difícil de preencher; mas se a perfeição absoluta não é dada ao homem, lhe é sempre dado aproximarse dela pelos seus esforços, e os Espíritos levam em conta, sobretudo os esforços, a vontade e a perseverança.

O médium perfeito não teria, assim, senão comunicações perfeitas de verdade e de moralidade; não sendo possível a perfeição, o melhor será aquele que tiver as melhores comunicações: é pela obra que se pode julgá-los. Comunicações constantemente boas e elevadas, onde não se percebesse nenhum indício de inferioridade, seriam, incontestavelmente, uma prova da superioridade moral do médium, porque atestariam felizes simpatias. Por isso mesmo, porque o médium não poderia ser perfeito, os Espíritos levianos, trapaceiros e mentirosos, podem se misturar às suas comunicações, alterar-lhe a pureza e induzir em erro, ele e àqueles que se lhes dirigem. Aí está o maior escolho do Espiritismo, e não lhe dissimulamos a gravidade. Pode-se evitá-lo? Dizemos alto e bom som: sim, é possível; o meio não é difícil e não pede senão o julgamento.

As boas intenções, a moralidade mesma do médium, não bastam sempre para preservá-lo da intromissão de Espíritos levianos, mentirosos ou pseudo-sábios em suas comunicações; além dos defeitos de seu próprio Espírito, pode se expor a eles por outras causas, cuja principal é a fraqueza de seu caráter e uma excessiva confiança na invariável superioridade dos Espíritos que se comunicam por ele; essa confiança cega prende-se a uma causa que explicaremos dentro em pouco. Se não se quer ser vítimas desses Espíritos levianos, é preciso julgá-los, e para isso temos um critério infalível: o bom senso e a razão. Sabemos as qualidades da linguagem que caracterizam, entre nós, os homens verdadeiramente bons e superiores, essas qualidades são as mesmas para os Espíritos; devemos julgá-los por sua linguagem. Não poderíamos muito repetir o que caracteriza a dos Espíritos elevados: ela é constantemente digna, nobre, sem fanfarrice e contradição, pura de toda trivialidade, marcada por uma inalterável benevolência. Os bons Espíritos aconselham; eles não mandam; eles não se impõem; sobre o que ignoram, se calam. Os Espíritos levianos falam com a mesma segurança daquilo que sabem e daquilo que não sabem, respondem a tudo sem se importarem com a verdade. Nós os vimos, em um ditado supostamente sério, colocar, com uma imperturbável firmeza, César no tempo de Alexandre; outros afirmarem que não é a Terra que gira ao redor do Sol. Em resumo, toda expressão grosseira ou simplesmente inconveniente, toda marca de orgulho e de presunção, toda máxima contrária à sã moral, toda heresia científica notória, é, entre os Espíritos, como entre os homens, um sinal incontestável de má natureza, de ignorância ou pelo menos de leviandade. De onde se segue que é preciso pesar tudo o que dizem e fazê-los passar pelo crisol da lógica e do bom senso; é uma recomendação que nos fazem, sem cessar, os bons Espíritos. “Deus, nos dizem, não vos deu o julgamento para nada; servi-vos dele, pois, para saber com quem tendes relação.”

Os maus Espíritos temem o exame; eles dizem: “Aceitai nossas palavras e não as julgueis.” Se tivessem a consciência de estar com a verdade, não temeriam a luz.

O hábito de escrutar as menores palavras dos Espíritos, de pesar-lhes o valor, (do ponto de vista do pensamento, e não da forma gramatical, com a qual têm pouco cuidado,) distancia forçosamente os Espíritos mal intencionados, que não vêm, então, perder inutilmente seu tempo, uma vez que se rejeite tudo o que é mau ou de origem suspeita.

Mas quando se aceita cegamente tudo o que dizem, que se coloca, por assim dizer, de joelhos diante de sua pretensa sabedoria, fazem o que fariam os homens – disso abusam.
Se o médium é senhor de si, se não se deixa dominar por um entusiasmo irrefletido, pode fazer o que aconselhamos; mas, freqüentemente, ocorre que o Espírito o subjuga a ponto de fasciná-lo e fazê-lo achar admiráveis as coisas mais ridículas, e se abandona tanto mais a essa perniciosa confiança que, fortificado em suas boas intenções e seus bons sentimentos, crê que isso basta para afastar os maus Espíritos; não, isso não basta, porque esses Espíritos ficam encantados em fazê-lo cair na armadilha, aproveitando-se de sua fraqueza e de sua credulidade. Que fazer então? Atribuir a um terceiro desinteressado que, julgando com sangue frio e sem prevenção, poderá ver uma palha aí onde ele não via uma trave.

A ciência espírita exige uma grande experiência que não se adquire, como em todas as ciências filosóficas e outras, senão por um estudo longo, assíduo e perseverante, e por numerosas observações. Ela não compreende somente o estudo dos fenômenos propriamente ditos, mas também, e sobretudo, o dos costumes, se podemos nos exprimir assim, do mundo oculto, desde o mais baixo até o mais alto degrau da escala. Seria muita presunção crer-se suficientemente esclarecido e passar a senhor depois de algumas experiências. Uma tal pretensão não seria de um homem sério; porque quem lança um olhar escrutador sobre esses mistérios estranhos, vê desdobrar-se diante de si um horizonte tão vasto que anos são suficientes apenas para alcançá-lo; há os que pretendem fazê-lo em alguns dias!

De todas as disposições morais, a que dá mais presa aos Espíritos imperfeitos, é o orgulho. O orgulho é para os médiuns um escolho tanto mais perigoso quando não o reconhecem. É o orgulho que lhes dá essa crença cega na superioridade dos Espíritos que se ligam a ele, porque se lisonjeiam com certos nomes que lhes impõem; desde que um Espírito lhes disse: Eu sou um tal, eles se inclinam e tratam de não duvidarem disso, porque seu amor próprio sofreria por encontrar sob essa máscara um Espírito de baixo estágio ou de má qualidade. O Espírito, que vê o lado fraco, dele se aproveita; gaba seu pretenso protegido, fala-lhe de origens ilustres que o incham mais, prometem-lhe um futuro brilhante, as honras, a fortuna, das quais ele parece ser o dispensador; se necessário afeta com ele uma ternura hipócrita; como resistir a tanta generosidade? Em uma palavra, engana-o e o conduz, como se diz vulgarmente, pela ponta do nariz; sua felicidade é ter um ser sob sua dependência. Interrogamos mais de um deles, sobre os motivos de sua obsessão; um deles nos respondeu isto: Eu quero ter um homem que faça a minha vontade; é o meu prazer. Quando lhes dissemos que íamos trabalhar para frustrar seus artifícios e abrir os olhos de seu oprimido, ele disse: Lutarei contra vós, e não vencereis, porque farei tanto quanto não credes. Com efeito, é uma tática desses Espíritos malfazejos; eles inspiram a desconfiança e o afastamento para as pessoas que possam desmascará-los e dar bons conselhos. Jamais semelhante coisa chega da parte dos bons Espíritos. Todo Espírito que sopra a discórdia, que excita a animosidade, entretém as dissidências, com isso revela sua natureza má; é preciso ser cego para não compreendê-lo e para crer que um bom Espírito possa compelir à desinteligência.

O orgulho, freqüentemente, se desenvolve no médium à medida que aumenta a sua faculdade; dá-lhe importância; é procurado, e acaba por se crer indispensável; daí, algumas vezes, nele, um tom de presunção e de pretensão, ou ares de suficiência e de desdém, incompatíveis com a influência de um bom Espírito. Aquele que cai nessa má direção está perdido, porque Deus lhe deu a faculdade para o bem, e não para satisfazer a sua vaidade ou dela fazer um degrau de sua ambição. Esquece que esse poder, no qual confia, pode lhe ser retirado e que, freqüentemente, não lhe foi dado senão como prova, do mesmo modo que a fortuna para certas pessoas. Se dela abusa, os bons Espíritos o abandonam pouco a pouco, e ele se torna o joguete dos Espíritos levianos que embalam suas ilusões, satisfeitos por terem vencido aquele que se acreditava forte. Foi assim que vimos se aniquilarem e se perderem as faculdades mais preciosas que, sem isso, poderiam tornar-se os mais poderosos e os mais úteis auxiliares. Isto se aplica a todo o gênero de médiuns, sejam para as comunicações físicas ou para as comunicações inteligentes. Infelizmente, o orgulho é um dos defeitos que a pessoa está menos disposta a confessar para si mesma e que menos se pode confessar aos outros, porque não o crêem. Ide, pois, dizer a um desses médiuns que ele se deixa levar como uma criança, e vos dará as costas dizendo que sabe se conduzir e que não vedes claro. Podeis dizer a um homem que ele é beberrão, debochado, preguiçoso, inábil, imbecil, e disso rirá ou consentirá; dizei-lhe que é orgulhoso, e se zangará: prova evidente de que dissestes a verdade. Os conselhos, nesse caso, são tanto mais difíceis quanto o médium evite as pessoas que poderiam dar-lhos, foge de uma intimidade que teme. Os Espíritos, que sentem que os conselhos são golpes dados em seu poder, ao contrário, compelem-no para aquelas que o entretém em suas ilusões. Preparam-se muitas decepções, nas quais seu amor próprio, mais uma vez, terá que sofrer; feliz, ainda, se disso não resultar nada de mais grave para ele.

Se insistimos longamente sobre esse ponto, foi porque a experiência nos demonstrou, em muitas ocasiões, que aí está uma das grandes dificuldades para a pureza e a sinceridade das comunicações dos médiuns. É quase inútil, depois disso, falar de outras imperfeições morais, tais como o egoísmo, a inveja, o ciúme, a ambição, a cupidez, a dureza de coração, a ingratidão, a sensualidade, etc. Cada um compreende que elas são tantas portas abertas aos Espíritos imperfeitos, ou pelo menos causas de fraqueza. Para afastar estes últimos, não basta dizer-lhes que se vão; não basta mesmo o querer e ainda menos conjurá-los: é preciso lhes fechar a sua porta e os ouvidos, provar-lhes que se é mais forte do que eles, e, incontestável mente, pelo amor ao bem, a caridade, a doçura, a simplicidade, a modéstia e o desinteresse, qualidades que nos conciliam com a benevolência dos bons Espíritos; é seu apoio que faz a nossa força, e se eles nos deixam, algumas vezes, presa dos maus, é uma prova para a nossa fé e o nosso caráter.

Que os médiuns não se assustem muito, entretanto, com a severidade das condições que acabamos de falar; elas são lógicas, convir-se-á, mas se erraria rejeitando-as. As comunicações más que se podem ter, em verdade, são bem o índice de alguma fraqueza, mas nem sempre um sinal de indignidade; pode-se ser fraco e bom. Em todos os casos, é um meio de reconhecer suas próprias imperfeições. Nós o dissemos, em um outro artigo, que não há necessidade de ser médium para estar sob a influência de maus Espíritos, que agem nas sombras; com a faculdade mediúnica, o inimigo se mostra e se trai; sabe-se com quem se relaciona e pode-se combatê-lo; assim é que uma má comunicação pode tornar-se útil lição, sabendo-se aproveitá-la.

De resto, seria injusto colocar todas as más comunicações à conta do médium; falamos daquelas que obtêm por si mesmos, fora de toda outra influência, e não daquelas que se produzem em um meio qualquer, ora, todo o mundo sabe que os Espíritos, atraídos por esse meio, podem prejudicar as manifestações, seja pela diversidade de caracteres, seja pela falta de recolhimento. E uma regra geral que as melhores comunicações ocorrem na intimidade, e em um círculo reduzido e homogêneo. Em toda comunicação, várias influências estão em jogo; a do médium, a do meio, e a da pessoa que interroga. Essas influências podem reagir umas sobre as outras, se neutralizarem ou se corroborarem: isso depende do objetivo que se propõe, e do pensamento dominante. Vimos excelentes comunicações obtidas em círculos, e com médiuns que não reuniam todas as condições desejáveis; nesse caso, os bons Espíritos vieram por uma pessoa em particular, porque isso era útil; vimos comunicações más obtidas por bons médiuns, unicamente porque o interrogador não tinha intenções sérias e atraía os Espíritos levianos que zombavam dele. Tudo isso pede tato e observação, e concebe-se, facilmente, a preponderância que devem ter todas as condições reunidas.

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Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Revista Espírita, janeiro de 1859

Aviso. As sessões que ocorriam às terças-feiras, ocorrem agora nas sextas-feiras, no novo local da Sociedade, rua Montpensier, 12, no Palais-Royal, às 8 horas da noite. Os estranhos nelas não são admitidos senão na segunda e na quarta sextas-feiras, a menos com cartas pessoais de entrada. – Dirigir-se, para tudo o que concerne à Sociedade, ao senhor Allan Kardec, rua dos Martyrs, 8, ou ao senhor Lê Doyen, livreiro, galeria de Orléans, 31, no PalaisRoyal.

ALLAN KARDEC.

 

sociedade espirita parisiense

Aforismos Espíritas

Revista Espírita, janeiro de 1859

Sob esse título, daremos, de tempos em tempos, pensamentos destacados que resumirão, em poucas palavras, certos princípios essenciais do Espiritismo.

I. Aqueles que crêem se preservar da ação dos maus Espíritos abstendo-se de comunicações espíritas, são como essas crianças que crêem evitar um perigo vendando os olhos. Igualmente valeria dizer que é preferível não saber ler nem escrever, porque não se estaria exposto a ler maus livros ou escrever tolices.

II. Quem tem más comunicações espíritas, verbais ou por escritas, está sob má influência; essa influência se exerce sobre ele, que escreva ou que não escreva. A escrita lhe dá um meio de se assegurar da natureza dos Espíritos que atuam sobre ele. Se está bastante fascinado para não compreendê-los, outros podem lhe abrir os olhos.

III. Há necessidade de ser médium para escrever absurdos? Quem diz que, entre todas as coisas ridículas ou más que se imprimem, não ocorre que o escrevente, levado por algum Espírito zombeteiro ou malevolente desempenhe o papel de médium obsidiado sem sabê-lo?

IV. Os Espíritos bons, mas ignorantes, confessam sua insuficiência sobre as coisas que não sabem; os maus dizem tudo saber.

V. Os Espíritos elevados provam sua superioridade por suas palavras e a constante sublimidade de seus pensamentos, mas deles não se gabam. Desconfiai daqueles que dizem, com ênfase, estarem no mais alto degrau de perfeição, e entre os eleitos; a fanfarrice, entre os Espíritos, como entre os homens, é sempre um sinal de mediocridade.

aforismo espírita

Uma noite esquecida ou a feiticeira Manouza

Revista Espírita, janeiro de 1859

Milésima segunda noite de contos árabes,

Ditada pelo Espírito de Frédéric Soulié.

(SEGUNDO ARTIGO.)

Primeiro artigo

Nota. – Os algarismos romanos indicam as suspensões que ocorreram no ditado. Freqüentemente, não era retomada senão depois de uma interrupção de duas ou três semanas, e, apesar disso, assim como o observamos, o relato se seguiu como se fora escrito de um só jato; e esse não é um dos caracteres os menos curiosos dessa produção de alémtúmulo. O estilo nela é correto e perfeitamente apropriado ao assunto. Nós o repetimos, para aqueles que não veriam ali senão uma coisa fútil, não a damos como uma obra filosófica, mas como um estudo. Para o observador, nada é inútil: ele sabe aproveitar de tudo para aprofundar a ciência que estuda.

III

Nada, entretanto, parecia dever perturbar nossa felicidade; tudo era calma ao nosso redor: vivíamos em uma perfeita segurança, quando uma tarde, no momento em que nos críamos na maior segurança, de repente, apareceu ao nosso lado (posso dizer assim, porque estávamos numa praça circular onde chegavam várias alamedas), de repente, pois, e ao nosso lado, apareceu o sultão acompanhado de seu grão-vizir. Todos os dois tinham um semblante assustador a cólera havia transtornado seus traços; estavam, o sultão sobretudo, em uma exasperação fácil de compreender. O primeiro pensamento do sultão foi de me fazer perecer, mas sabendo a qual família eu pertencia, e a sorte que o esperaria se ousasse tirar um só cabelo de minha cabeça, ele disfarçou (como em sua chegada eu me coloquei à parte), ele disfarçou não me perceber, e se precipitou como um furioso sobre Nazara, a quem prometeu não fazer esperar o castigo que ela merecia. Ele a carregou consigo, sempre acompanhado do vizir. Para mim, o primeiro momento de temor passou e me apressei em retornar para o meu palácio, para procurar um meio de subtrair o astro de minha vida das mão desse bárbaro, que provavelmente iria cortar essa querida existência.

– E depois, que fizeste? perguntou Manouza; porque enfim, em tudo isso não vejo em que estás tanto atormentado para tirar tua amante do mau onde a colocaste por tua falta. Tu me dás o efeito de um pobre homem que não tem nem coragem, nem vontade, quando se trata de coisas difíceis.

– Manouza, antes de condenar, é preciso escutar. Não vim atrás de ti sem antes experimentar de todos os meios em meu poder. Fiz ofertas ao sultão; prometi-lhe ouro, jóias, camelos, palácios mesmo, se me entregasse minha doce gazela; a tudo desdenhou.

Vendo meus sacrifícios repelidos, fiz ameaças; as ameaças foram desprezadas como o resto: a tudo ele riu e zombou de mim. Também experimentei introduzir-me no palácio; corrompi escravos, cheguei ao interior dos apartamentos; apesar de todos os meus esforços, não consegui chegar até a minha bem-amada.

– Tu és franco, Noureddin; tua sinceridade merece uma recompensa, e terás o que vieste procurar. Vou te fazer ver uma coisa terrível: se tendes a força de suportar a prova pela qual te farei passar, podes estar seguro que reencontrarás a tua felicidade de outro-ra.

Dou-te cinco minutos para te decidir.

Decorrido esse tempo, Noureddin disse à Manouza que ele estava pronto para fazer tudo aquilo que ela quisesse para salvar Nazara. Então, a feiticeira se levantando, disse-lhe: Pois bem! Caminhe. Depois, abrindo uma porta colocada no fundo do apartamento, fê-lo passar diante dela. Eles atravessaram um pátio sombrio, repleto de objetos horrendos: serpentes, sapos que passeavam gravemente em companhia de gatos pretos, com o ar de pavonear entre esses animais imundos.

IV

Na extremidade desse pátio, encontrava-se outra porta que Manouza igualmente abriu; e, tendo feito passar Noureddin, entraram em uma sala baixa, clareada somente pelo alto: a luz vinha de uma cúpula muito alta guarnecida de vidros coloridos, que formavam toda espécie de arabescos. No meio dessa sala se encontrava um fogareiro aceso, e sobre um tripé colocado sobre esse fogareiro, um grande vaso de bronze no qual ferviam todas espécies de ervas aromáticas, cujo odor era tão forte que se podia com dificuldade suportar. Ao lado desse vaso se encontrava uma espécie de poltrona em veludo negro, de uma forma extraordinária. Quando se sentou em cima, no instante, desapareceu inteiramente; porque Manouza não estava nela colocada, Noureddin a procurou alguns instantes sem poder percebê-la. De repente, ela reapareceu e lhe disse: estás sempre disposto? “- Sim, repetiu Noureddin. – Pois bem! Vai sentar-te nessa poltrona e espera.” Antes que Noureddin fosse para a poltrona, tudo mudou de aspecto, e a sala se povoou de uma grande multidão de figuras brancas que primeiro apenas visíveis, pareceram em seguida de um vermelho de sangue, dir-se-ia-se de homens cobertos de chagas sangrentas, dançando rondas infernais, e no meio delas Manouza, cabelos esparsos, olhos chamejantes, as roupas em farrapos, e sobre a cabeça uma coroa de serpentes. Na mão, à guisa de cetro, ela brandia uma tocha acesa, lançando chamas cujo odor atacava a garganta. Depois de terem dançado um quarto de hora, detiveram-se, de repente, sob um sinal de sua rainha que, para esse efeito, havia lançado sua tocha na caldeira em ebulição. Quando todas essas figuras foram se alinhando ao redor da caldeira, Manouza fez se aproximarem os mais velhos, que se reconhecia pela sua longa barba branca, e lhes disse: “vem aqui, tu o segundo do diabo; vou te encarregar de uma missão muito delicada. Noureddin quer Nazara, eu prometi entregar-lha; é coisa difícil; eu conto, Tanaple, com teu concurso em tudo. Noureddin suportará todas as provas necessárias; agi em conseqüência. Sabes o que quero, faze o que quiseres, mas alcance; trema se fracassares. Recompenso quem me obedece, mas infeliz daquele que não faz a minha vontade. – Tu serás satisfeita, disse Tanaple, e tu podes contar comigo. – Pois bem, vai e age.”

V

Apenas terminara essas palavras e tudo mudou aos olhos de Noureddin; os objetos tornaramse o que eram antes, e Manouza se encontrou sozinha com ele. “Agora, disse ela, retoma à tua casa e espera; enviar-te-ei um dos meus gnomos, e te dirá o que tem a fazer, obedece e tudo irá bem.”

Noureddin ficou muito feliz com essas palavras, e mais feliz ainda por deixar o antro da feiticeira. Atravessou de novo o pátio e o quarto por onde entrara, depois ela o reconduziu até à porta exterior. Ali, Noureddin tendo-lhe perguntado se deveria retornar, ela respondeu: “Não; para o momento, é inútil; se isso se tornar necessário, far-te-ei saber.”

Noureddin se apressou em retornar ao seu palácio; estava impaciente por saber se se passara alguma coisa nova desde a sua saída. Encontrou tudo no mesmo estado; somente, na sala de mármore, sala de repouso no verão entre os habitantes de Bagdá, ele viu perto da bacia colocada no meio dessa sala, uma espécie de anão de uma fealdade repelente. Seu vestuário era de cor amarela, bordado de vermelho e azul; tinha uma bossa monstruosa, pernas pequenas, o rosto gordo, com olhos verdes e vesgos, uma boca fendida até as orelhas, e os cabelos de um ruivo podendo rivalizar com o sol.

Noureddin lhe perguntou como se encontrava ali, e o que viera fazer. “Eu sou enviado de Manouza, disse, para te entregar a tua amante; eu me chamo Tanaple. – Se tu és, realmente, o enviado de Manouza, estou pronto para obedecer suas ordens, mas despacha-te, aquela que amo está a ferros e tenho pressa dela dali sair. – Se estás pronto, conduze-me em seguida para o teu apartamento, e dir-te-ei o que é preciso fazer. – Segue-me, pois, disse Noureddin.”

VI

Depois de atravessar vários pátios e jardins, Tanaple se encontrou no apartamento do jovem; fechou-lhe todas as portas, e disse: “Tu sabes que deves fazer tudo o que eu te disser, sem objeção. Vais vestir essas roupas de negociante. Levarás sobre teu dorso esse pacote que encerra os objetos que nos são necessários; eu, vou me vestir de escravo e levarei um outro pacote.”

Para sua grande estupefação, Noureddin viu dois enormes pacotes ao lado do anão, e todavia não vira e nem ouvira ninguém traze-los. “Em seguida, continuou Tanaple, iremos à casa do sultão. Dir-lhe-ás que tens objetos raros e curiosos; e que se quiser oferecê-los à sultana favorita, nenhuma huri terá semelhantes. Tu conheces sua curiosidade; terá o desejo de nos ver. Uma vez admitidos à sua presença, não terás dificuldade em desdobrar tua mercadoria e lhe venderás tudo o que levamos: são roupas maravilhosas que mudam as pessoas que as colocam. Logo que o sultão e a sultana deles se revestirem, todo o palácio os tomará por nós e nós por eles: tu pelo sultão, e eu por Ozara, a nova sultana. Operada essa metamorfose, estaremos livres para agir à nossa maneira e tu libertarás Nazara.”

Tudo se passou como Tanaple havia anunciado; a venda ao sultão e a transformação. Depois de alguns minutos de horrível furor da parte do sultão, que queria caçar esses importunes e fazia um ruído espantoso, Noureddin tendo, segundo a ordem de Tanaple, chamado vários escravos, fez prender o sultão e Ozara como sendo escravos rebeldes, e ordenou que fossem o conduzidos, em seguida, para junto da prisioneira Nazara. Ele queria, dizia, saber se ela estava disposta a confessar seu crime, e se ela estava pronta para morrer. Quis também que a favorita Ozara fosse com ele, para ver o suplício que infligia às mulheres infiéis. Dito isso, ele caminhou, precedido do chefe dos eunucos, durante um quarto de hora em um sombrio corredor, ao cabo do qual havia uma porta de ferro pesada e maciça. Tendo o escravo tomado uma chave, abriu três fechaduras, e eles entraram em um gabinete grande, longo e alto de três ou quatro côvados; ali, sobre uma esteira de palha, estava sentada Nazara, um cântaro com água e algumas tâmaras ao seu lado. Não era mais a brilhante Nazara de outrora; ela estava bela, mas pálida e magra. À vista daquele que ela tomou por seu senhor, estremeceu de medo, porque ela pensava que sua hora havia chegado.

(a continuação no próximo número).

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