A Indústria

Revista Espírita, abril de 1859

Comunicação espontânea do senhor Croz, médium escrevente, lida na Sociedade, em 21 de janeiro de 1859.

Os empreendimentos que cada dia despontam, são os atos providenciais e o desenvolvimento dos germes depositados pelos séculos. A Humanidade e o planeta que ela habita têm uma mesma existência, cujas fases se encadeiam e se respondem.
Logo que as grandes convulsões da Natureza se acalmaram, a febre que impelia às guerras de extermínio se apaziguaram, a filosofia apareceu, a escravidão desapareceu, e as ciências e as artes floresceram.

A perfeição divina pode se resumir pelo belo e o útil, e se Deus fez o homem à sua imagem foi porque quis que vivesse de sua inteligência, como ele mesmo vive no seio dos esplendores de sua criação.

Os empreendimentos que Deus abençoa, quaisquer que sejam as suas proporções, são, pois, aqueles que respondem aos seus desígnios, trazendo seu concurso à obra coletiva, cuja lei está escrita no Universo: o belo e o útil; a arte, filha do lazer e da inspiração, é o belo; a indústria, filha da ciência e do trabalho, é o útil.

Nota. Essa comunicação é quase o início de um médium que acaba de se formar com uma rapidez espantosa; convir-se-á que, por uma tentativa, isso promete. Desde a primeira sessão, escreveu, de um só traço, quatro páginas que não perdem em nada, ao que acabamos de ler, pela profundidade dos pensamentos, e que denotam, nele, uma aptidão notável para servir de intermediário a todos os Espíritos para as comunicações particulares. De resto, temos necessidade de estudá-lo antes sob esse aspecto, porque essa flexibilidade não é dada a todos; conhecemos os que não podem servir de intérpretes senão a certos Espíritos, e para uma certa ordem de idéias.

Desde que essa nota foi escrita, pudemos constatar o progresso desse médium, cuja faculdade oferece caracteres especiais e dignos de toda a atenção do observador.

 

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Problema moral – Os canibais

Revista Espírita, abril de 1859

Um dos nossos assinantes nos dirigiu a pergunta seguinte, com o pedido de resolvê-la pelos Espíritos que nos assistem, se ainda não o fora resolvida.

“Os Espíritos errantes desejam, depois de um lapso de tempo mais ou menos longo, e pedem a Deus, sua encarnação como meio de adiantamento espiritual. Eles têm a escolha das provas e, usando nisso seu livre arbítrio, escolhem, naturalmente, aquelas que lhes parecem mais próprias para esse adiantamento, no mundo onde a reencarnação lhes é permitida. Ora, durante a sua existência errante, que empregam para se instruírem (são eles mesmos que nos dizem), devem aprender quais são as nações que melhor podem fazê-los alcançar o objetivo a que se propõem. Vêem tribos ferozes, de antropófagos, e têm a certeza que, encarnando-se entre eles, tornar-se-ão ferozes e comedores de carne humana. Não será aí, seguramente, que encontrarão seu progresso espiritual; seus instintos brutais, com isso, não terão adquirido senão mais consistência pela força do hábito. Eis, pois, seu objetivo falho quanto às encarnações entre tal ou tal povo.

“Ocorre o mesmo com certas posições sociais. Entre estas, há certamente as que apresentam obstáculos invencíveis ao adiantamento espiritual. Não citarei senão os matadores de animais nos matadouros, os carrascos, etc. Diz-se que essas pessoas são necessárias: uns porque não podemos passar sem alimento animal; os outros, porque é preciso executar as sentenças da justiça, nossa organização social assim querendo. Não é menos verdadeiro que o Espírito se encarnando no corpo de uma criança destinada a abraçar uma ou outra dessas profissões, deve saber que escolhe caminho falso e que se priva, voluntariamente, dos meios que podem conduzi-lo à perfeição. Não poderia ocorrer, com a permissão de Deus, que nenhum Espírito quisesse esses gêneros de existência e, nesse caso, em que se tornariam essas profissões, necessárias ao nosso estado social?”

A resposta a essa pergunta decorre de todos os ensinamentos que nos foram dados; nós podemos, pois, resolvê-la, sem necessidade de submetê-la de novo aos Espíritos.

 

Essas considerações se aplicam também às profissões das quais nosso correspondente fala; evidentemente, elas oferecem uma superioridade relativa para certos Espíritos, e é nesse sentido que se deve conceber a escolha que delas fazem. Posição igual pode mesmo ser escolhida como expiação ou como missão, porque não há onde não se possa encontrar ocasião de fazer o bem e de progredir, pela própria maneira que são exercidas.

Quanto à questão de se saber em que se tornariam essas profissões, no caso de que nenhum Espírito delas quisesse se encarregar, ela está resolvida pelos fatos; desde que os Espíritos que as alimentam partam de mais alto, não se deve temer vê-los sem trabalho. Quando o progresso social permitir suprimir o ofício de carrasco, é o lugar que faltará, e não os candidatos que irão se apresentar entre outros povos, ou em outros mundos menos avançados.

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Fraudes Espíritas

Revista Espírita, abril de 1859

Aqueles que não admitem a realidade das manifestações físicas, geralmente, atribuem à fraude os efeitos produzidos. Baseiam-se no fato de que os prestidigitadores hábeis fazem coisas que parecem prodígios quando não se conhece seus segredos; de onde concluem que os médiuns não são senão escamoteadores. Já refutamos esse argumento, ou antes, essa opinião, notadamente nos artigos sobre o senhor Home, e nos nos. da Revista de janeiro e fevereiro de 1858; sobre isso não diremos, pois, senão algumas palavras antes de falarmos de uma coisa mais séria.

Do fato de que há charlatães que vendem drogas nas praças públicas, de que há mesmo médicos que, sem irem à praça pública, enganam a confiança, segue-se que todos os médicos sejam charlatães, e o corpo médico, com isso, é atingido em sua consideração?

Do fato de que há pessoas que vendem tintura por vinho, segue-se que todos os vendedores de vinho são adulteradores e que não há vinho puro? Abusa-se de tudo, mesmo das coisas mais respeitáveis, e pode-se dizer que a fraude tem também seu gênio.

Mas a fraude tem sempre um objetivo, um interesse material qualquer; onde não haja nada a ganhar, não haverá nenhum interesse a enganar. Também dissemos, em nosso número precedente, a propósito dos médiuns mercenários, que a melhor de todas as garantias é um desinteresse absoluto.

Essa garantia, dir-se-á, não é única, porque, em casos de prestidigitação, há amadores que não visam senão divertir uma sociedade e não fazem disso um ofício; não pode ocorrer o mesmo com os médiuns? Sem dúvida, pode-se divertir um instante divertindo os outros, mas para nisso passar horas inteiras, e isso durante semanas, meses e anos, seria preciso, verdadeiramente, estar possuído pelo demônio da mistificação, e o primeiro mistificado seria o mistificador. Não repetiremos aqui tudo o que se disse sobre a boa fé dos médiuns, e dos assistentes, que podem ser o joguete de uma ilusão ou de uma fascinação. Nós o respondemos vinte vezes, assim como quanto a todas as outras objeções para as quais reenviamos notadamente à nossa Instrução prática sobre as manifestações, e aos nossos artigos precedentes da Revista. Nosso objetivo aqui não é de converter os incrédulos; se não o foram pelos fatos, não serão mais pelo raciocínio: seria, pois, perder nosso tempo. Ao contrário, nos dirigimos aos adeptos para premuni-los contra os subterfúgios, dos quais poderiam ser vítimas da parte de pessoas interessadas, por um motivo qualquer, em simular certos fenômenos; dizemos certos fenômenos, porque os há que desafiam, evidentemente, toda a habilidade da prestidigitação, tais são, notadamente, o movimento dos objetos sem contato, a suspensão dos corpos pesados no espaço, as pancadas de diferentes lados, as aparições, etc., e ainda, para alguns desses fenômenos, poder-se-ia, até certo ponto, simulálos, tanto progrediu a arte da imitação. O que é preciso fazer, em semelhante caso, é observar atentamente as circunstâncias, e sobretudo levar em conta o caráter e a posição das pessoas, o objetivo e o interesse que elas poderiam ter em enganar: aí está o melhor de todos os controles, porque são tais circunstâncias que levantam todos os motivos para a suspeição. Colocamos, pois, em princípio, que é preciso desconfiar de quem faça desses fenômenos um espetáculo, ou um objeto de curiosidade e de divertimento, que deles tire um proveito, por mínimo que seja, e se vanglorie de produzi-los à vontade e a propósito. Não poderíamos repetir demais que as inteligências ocultas, que se manifestam a nós, têm suas suscetibilidades, e querem nos provar que também têm seu livre arbítrio, e não se submetem aos nossos caprichos.

De todos os fenômenos físicos, um dos mais comuns é o dos golpes íntimos batidos na própria substância da madeira, com ou sem movimento da mesa ou de outro objeto do qual se sirva. Ora, esse efeito é um dos mais fáceis de serem imitados, e como é também um dos que se produzem mais freqüentemente, cremos ser útil revelar a pequena astúcia com a qual se pode enganar. Basta, para isso, colocar as duas mãos espalmadas sobre a mesa, e bastante próximas para que as unhas dos dedos se apóiem firmemente uma contra a outra; então, por um movimento muscular inteiramente imperceptível, se as faz friccionar, o que dá um pequeno ruído seco, tendo uma grande analogia com aqueles da tiptologia íntima. Esse ruído repercute na madeira e produz uma ilusão completa. Nada é mais fácil que fazer ouvir a quantos golpes se peça, uma bateria de tambor, etc.; responder a certas perguntas, por sim ou por não, por números, ou mesmo pela indicação de letras do alfabeto.

Uma vez prevenido, o meio de se reconhecer a fraude é bem simples. Ela não é mais possível se as mãos forem afastadas uma da outra, e assegurando-se que nenhum outro contato pode produzir o ruído. Os golpes reais, aliás, oferecem de característico que mudam de lugar e de timbre à vontade, o que não pode ocorrer quando são devidos à causa que assinalamos, ou a qualquer outra análoga; que saia da mesa para se transportar sobre um móvel qualquer que ninguém toca, enfim, que responda a perguntas imprevistas.

Chamamos, pois, a atenção das pessoas de boa fé para esse pequeno estratagema e todos aqueles que poderiam reconhecer, a fim de assinalá-los sem circunspecção. À possibilidade da fraude e da imitação não impede a realidade dos fatos, e o Espiritismo não pode senão ganhar, desmascarando os impostores. Se alguém nos disser: Eu vi tal fenômeno, mas havia charlatanice, responderemos que isso é possível; nós vimos, nós mesmos, supostos sonâmbulos simularem o sonambulismo com muita destreza, o que não impede de o sonambulismo ser um fato; todo mundo viu mercadores venderem algodão por seda, o que não impede que hajam verdadeiros tecidos de seda. É preciso examinar todas as circunstâncias e ver se a dúvida tem fundamento; mas nisso, como em todas as coisas, é preciso ser perito; ora, não poderíamos reconhecer, por juiz de uma questão qualquer, aquele que dela nada conhecesse.

Diremos o mesmo quanto aos médiuns escreventes. Geralmente, pensa-se que aqueles que são mecânicos oferecem mais garantias, não só pela independência das idéias, mas também contra o charlatanismo. Pois bem! É um erro. A fraude se introduz por toda parte, e sabemos com quanta habilidade se pode dirigir, à vontade mesmo, uma cesta ou uma prancheta que escreve, e dar-lhes todas as aparências de movimentos espontâneos.

O que tira todas as dúvidas, são os pensamentos exprimidos, quer venham de um médium mecânico, intuitivo, audiente, falante ou vidente. Há comunicações que estão de tal modo fora das idéias, dos conhecimentos, e mesmo da capacidade intelectual do médium que é preciso enganar-se estranhamente para honrá-los. Nós reconhecemos, no charlatanismo, uma grande habilidade e fecundos recursos, mas não lhe conhecemos, ainda, o dom de dar saber a um ignorante, ou o espírito àquele que não o tem.

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