Sonâmbulos remunerados

Revista Espírita, abril de 1859

Um dos nossos correspondentes nos escreveu a propósito de nosso último artigo sobre os médiuns mercenários, para nos perguntar se nossas observações se aplicam, igualmente, aos sonâmbulos remunerados.

Querendo-se remontar à fonte do fenômeno, ver-se-á que o sonâmbulo, se bem que se possa considerá-lo como uma variedade de médium, é um caso diferente do médium propriamente dito. Com efeito, este último recebe suas comunicações de Espíritos estranhos que podem vir, ou não, segundo as circunstâncias ou as simpatias que encontram. O sonâmbulo, ao contrário, age por si mesmo; é seu próprio Espírito que se desliga da matéria, e vê mais ou menos bem, segundo o desligamento seja mais ou menos completo. O sonâmbulo, é verdade, está em relação com outros Espíritos que o assistem mais ou menos de bom grado, em razão de suas simpatias; mas, em definitivo, é o seu que vê e que pode, até um certo ponto, dispor de si mesmo sem que outros encontrem nisso o que censurar, e sem que seu concurso seja indispensável. Disso resulta que o sonâmbulo que procura uma compensação material para a fadiga, freqüentemente muito grande, que para ele resulta do exercício de sua faculdade, não tem as mesmas suscetibilidades a vencer que o médium que não é senão um instrumento.

Sabe-se, além disso, que a lucidez sonambúlica se desenvolve pelo exercício; ora, aquele que disso faz a sua ocupação exclusiva, adquire uma facilidade tanto maior que está no caso de ver muitas coisas com as quais acaba por se identificar, assim que com certos termos especiais que lhe vêm à memória mais facilmente; em uma palavra, ele se familiariza com esse estado que se torna, por assim dizer, seu estado normal: nada mais o espanta. Aliás, os fatos aí estão para provarem com qual prontidão e qual clareza podem ver; de onde concluímos que a retribuição paga a certos sonâmbulos não é obstáculo ao desenvolvimento da lucidez.

A isso faz-se uma objeção. Como a lucidez é freqüentemente variável, depende de causas fortuitas, pergunta-se se o atrativo do ganho não poderia conduzir o sonâmbulo a fingir essa lucidez, mesmo quando ela lhe faltasse, por fadiga ou outra causa, inconveniente que não ocorre quando não há o interesse. Isso é muito verdadeiro, mas nós respondemos que toda coisa tem o seu lado mau. Pode-se abusar de tudo, e por toda parte onde se introduz a fraude é preciso invectivá-la. O sonâmbulo que assim agisse, faltaria com a lealdade, o que, infelizmente, se encontra também naqueles que não dormem. Com um pouco de hábito, pode-se facilmente se aperceber disso, e seria difícil enganar por muito tempo um observador experimentado. Nisso, como em todas as coisas, o essencial é assegurar-se do grau de confiança que merece a pessoa à qual se dirige. Se o sonâmbulo não remunerado não oferece esse inconveniente, não é preciso crer que sua lucidez seja infalível; ele pode se enganar tanto como um outro, se estiver em más condições; a esse respeito, a experiência é o melhor guia. Em resumo, não preconizamos ninguém; pudemos mesmo constatar serviços eminentes prestados por uns e pelos outros; nosso objetivo era provar que se pode encontrar bons sonâmbulos numa e na outra condição.

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