O músculo fanfarrão

Revista Espírita, junho de 1859

Os adversários do Espiritismo acabam de fazer uma descoberta que deverá contrariar muito os Espíritos batedores; é para eles um golpe, do qual terão muita dificuldade para se levantarem. Que devem pensar, com efeito, da terrível estocada que acabam de lhes dar o senhor Schiff, e depois o senhor Jobert (de Lamballe), e depois o senhor Velpeau?

Parece-me vê-los todos envergonhados com mais ou menos esta linguagem: “Pois bem!

Meu caro, estamos em maus lençóis! Heis-nos derrotados; não contávamos com a anatomia que descobriu as nossas artimanhas. Decididamente, não há meios para se viver num país onde há pessoas que vêem tão claro.” – Vamos, senhores palermas, que crestes ingenuamente em todos esses contos de velhas; impostores que quisestes crêssemos que podem existir seres que não vemos. Ignorantes que credes que alguma coisa possa escapar ao escalpelo, mesmo a vossa alma e vós todos, escritores espíritas ou espiritualistas, mais ou menos espirituais, inclinai-vos e reconhecei que fostes todos enganadores, charlatães, até mesmo velhacos ou imbecis: esses senhores vos deixam a escolha, porque heis a luz, a verdade pura.

“Academia de ciências (sessão de 18 de abril de 1859.) – DA CONTRAÇÃO RÍTMICA MUSCULAR INVOLUNTÁRIA. – O senhor Jobert (de Lamballe) comunica um fato curioso de contrações musculares involuntárias rítmicas do curto perônio lateral direito, que confirma a opinião do senhor Schiff, relativamente ao fenômeno oculto dos Espíritos batedores.

A senhorita X…, com a idade de quatorze anos, bem constituída, desde os seis anos ostentando movimentos involuntários regulares do músculo curto perônio lateral direito, e batimentos que se fazem ouvir atrás do maléolo externo direito, oferecendo a regularidade do pulso. Declararam-se, pela primeira vez, na perna direita, durante a noite, ao mesmo tempo que uma dor muito viva. Pouco tempo depois, o curto perônio lateral esquerdo foi atingido por uma afecção da mesma natureza, mas de menor intensidade.

O efeito desses batimentos é o de provocar a dor, produzir hesitações no caminhar e mesmo determinar quedas. A jovem enferma declarou-nos que a extensão do pé e a compressão exercida sobre certos pontos do pé e da perna bastam para detê-los, mas que, então, continua a sentir a dor e a fadiga no membro.

Quando essa interessante pessoa se nos apresentou, heis em que estado a encontramos:

Ao nível do maléolo externo direito, foi fácil constatar, perto dessa saliência óssea, um batimento regular, acompanhado de uma saliência passageira e de um levantamento das partes moles dessa região, que eram seguidas de um ruído seco sucedendo a cada contração muscular. Esse ruído se fazia ouvir na cama, fora da cama e a uma distância bastante considerável do lugar onde a jovem repousava. Notável pela sua regularidade e seu estrépito, esse ruído a acompanhava por toda parte. Aplicando-se o ouvido sobre a perna, o pé ou sobre o maléolo, distinguia-se um choque incômodo que ganhava toda a largura do trajeto percorrido pelo músculo, absolutamente como um golpe transmitido de uma extremidade à outra de um madeiro. Algumas vezes, esse ruído parecia uma fricção, uma arranhadura, e isso quando as contrações tinham menor intensidade. Esses mesmos fenômenos sempre se reproduziram, quer a doente estivesse de pé, sentada ou deitada, qualquer que fosse a hora do dia ou da noite, quando nós a examinávamos.

Se estudarmos os batimentos produzidos, e se, para maior clareza, decompusermos cada batimento em dois tempos, veremos:

Que, no primeiro tempo, o tendão do curto perônio se desloca saindo da goleira e, necessariamente, levantando o longo perônio lateral e a pele;

Que, no segundo tempo, tendo se cumprido o fenômeno de contração, seu tendão se relaxa, se repõe na goleira, e produz, batendo contra esta, o ruído seco e sonoro do qual falamos.

Ele se renovava, por assim dizer, a cada segundo, e cada vez o pequeno dedo do pé sofria um impulso e a pele que recobria o quinto metatársico era levantada pelo tendão. Ele cessava quando o pé era fortemente estendido. Cessava, ainda, quando era exercida uma pressão sobre o músculo ou a bainha dos perônios.

Nestes últimos anos, os jornais franceses e estrangeiros têm falado muito de ruídos semelhantes a golpes de martelo, ora se sucedendo regularmente, ora tomando um ritmo particular, que se produziam ao redor de certas pessoas deitadas em seu leito.

Os charlatães se apossaram desses fenômenos singulares, cuja realidade, aliás, foi atestada por testemunhas dignas de fé. Tentou-se reportá-los a uma causa sobrenatural, e deles se serviram para explorar a credulidade pública.

A observação da senhorita X… mostra como, sob a influência da contração muscular, os tendões deslocados podem, no momento em que caem em suas goleiras ósseas, produzir batimentos que, para certas pessoas, anunciam a presença de Espíritos batedores.

Com o exercício, todo homem pode adquirir a faculdade de produzir, à vontade, semelhantes deslocamentos dos tendões e batimentos secos que são ouvidos à distância.

Repelindo toda idéia de intervenção sobrenatural e notando que esses batimentos, e esses ruídos se passavam sempre ao pé do leito dos indivíduos agitados pelos Espíritos, o senhor Schiff perguntou-se se a sede desses ruídos não estava neles, antes que fora deles.

Seus conhecimentos anatômicos levaram-no a pensar que poderia bem estar na perna, na região peroneal, onde se acham colocados uma superfície óssea, tendões e uma corrediça comum.

Com essa maneira de ver, estando bem arraigada em seu espírito, fez experiências e ensaios sobre si mesmo, que não lhe permitiram duvidar que o ruído tinha a sua sede atrás do maléolo externo e na corrediça dos tendões peroneais.

Logo o senhor Schiff chegou mesmo a executar ruídos voluntários, regulares, harmoniosos, e pôde, diante de um grande número de pessoas (cerca de cinqüenta ouvintes), imitar os prodígios dos Espíritos batedores com ou sem sapato, de pé ou deitado.

O senhor Schiff estabeleceu que todos esses ruídos têm por origem o tendão do longo perônio, quando passa na goleira peroneal, e acrescentou que coexiste com um adelgaçamento, ou a ausência, da bainha comum ao longo e ao curto perônio. Quanto a nós, admitindo primeiro que todos esses batimentos são produzidos pela queda do tendão contra a superfície óssea peroneal, pensamos, entretanto, que não há necessidade de uma anomalia da bainha para deles se render conta. Bastam a contração do músculo, o deslocamento do tendão e seu retorno à goleira para que o ruído ocorra. Além disso, só o curto perônio é o agente do ruído em questão. Com efeito, ele assume uma direção mais direita que o longo perônio, que sofre vários desvios em seu trajeto; ele está profundamente situado na goteira; recobre inteiramente a goteira óssea, de onde é natural concluir que o ruído é produzido pelo choque desse tendão sobre as partes sólidas da goteira; apresenta fibras musculares até a entrada do tendão na goteira comum, ao passo que, para o longo perônio, é tudo ao contrário.

O ruído é variável em sua intensidade e pode-se, com efeito, distinguir-lhe diversas nuanças. Assim é que, depois do ruído estrepitoso e que se distingue ao longe, encontram-se variedades de ruído, de fricção, de serra, etc.

Pelo método subcutâneo, sucessivamente, fizemos incisão através do corpo do curto perônio lateral direito e do corpo, do mesmo músculo, do lado esquerdo em nossa doente, e mantivemos os membros na imobilidade com a ajuda de um aparelho. Fez-se a reunião e a função dos dois membros foi recuperada, sem nenhum sinal dessa singular e RARA afecção.

SENHOR VELPEAU. Os ruídos, dos quais o senhor Jobert acaba de tratar em sua interessante notícia, me parecem prenderem-se a uma questão bastante vasta.

Observam-se, com efeito, esses ruídos, em grande quantidade de regiões. O quadril, a espádua, o lado interno do pé, muito freqüentemente, tornam-se sua sede. Eu vi, entre outras, uma senhora que, com a ajuda de certos movimentos de rotação da coxa, assim produzia uma espécie de música bastante manifesta para ser ouvida de um canto ao outro do salão. O tendão da parte longa do bíceps braquial engendra-o facilmente saindo de sua corrediça, quando os freios fibrosos, que o retêm naturalmente, venham a se relaxar ou romper-se. Ocorre o mesmo com o músculo superior da perna ou o flexor do grosso dedo do pé, atrás do maléolo interno. Tais ruídos se explicam, assim como o entenderam os senhores Schiff e Jobert, pela fricção ou os sobressaltos dos tendões nas ranhuras ou contra as bordas nas superfícies sinoviais. Conseqüentemente, são possíveis em uma infinidade de regiões ou na vizinhança de uma multidão de órgãos. Ora claros ou ruidosos, ora surdos ou obscuros, por vezes úmidos e de outras secos, variam, aliás, extremamente de intensidade.

Esperamos que o exemplo dado, a esse respeito, pelos senhores Schiff e Jobert venha a levar os fisiologistas a se ocuparem seriamente com esses diversos ruídos, e que darão, um dia, a explicação racional de fenômenos incompreendidos ou atribuídos, até aqui, a causas ocultas e sobrenaturais.

O senhor JULES CLOQUET, com o apoio das observações do senhor Velpeau sobre os ruídos anormais que os tendões podem produzir em diversas regiões do corpo, cita o exemplo de uma jovem de dezesseis a dezoito anos, que lhe foi apresentada no hospital Saint-Louis, numa época na qual os senhores Velpeau e Jobert estavam ligados a esse mesmo estabelecimento. O pai dessa jovem, que se intitulava pai de um fenômeno, espécie de saltimbanco, pretendia tirar proveito de sua filha entregando-a numa exibição pública; ele anunciou que sua filha tinha no ventre um movimento de pêndulo.

Essa jovem estava perfeitamente conformada. Por um ligeiro movimento de rotação na região lombar da coluna vertebral, ela produzia estalidos muito fortes, mais ou menos regulares, segundo o ritmo dos ágeis movimentos que imprimia à parte inferior de seu busto. Esses ruídos anormais podiam ser ouvidos, muito distintamente, a mais de vinte e cinco pés de distância, e se assemelhavam ao ruído de um velho espeto de manivela; eram suspensos à vontade da jovem, e pareciam ter sua sede nos músculos da região lombo-dorsal da coluna vertebral.” .

Esse artigo, tirado de a L’Abeille médicale, e que cremos dever transcrever na íntegra, para a edificação de nossos leitores, e a fim de que não nos acusassem de querer evitar alguns argumentos, foi reproduzido com variantes por diferentes jornais, com epítetos forçados. Não temos o hábito de revelar grosserias; deixamo-las à sua conta, dizendo-nos nosso vulgar bom senso que nada se prova com asneiras e injúrias, por sábio que se seja.

Se o artigo em questão se limitasse a essas banalidades, que nem sempre são marcadas com o cunho da urbanidade e da civilidade, não as teríamos revelado; mas ele trata da questão do ponto de vista científico; ele nos acabrunha por demonstrações com as quais pretende nos pulverizar; vejamos, pois, decididamente, se estamos mortos com o decreto da Academia de ciências, ou bem se temos alguma chance de vivermos como esse pobre louco Fulton, cujo sistema foi declarado, pelo Instituto, um sonho oco, impraticável, o que muito simplesmente privou a França da iniciativa da marinha a vapor; e quem sabe quais as conseqüências que essa força, nas mãos de Napoleon l, poderia ter sobre os acontecimentos ulteriores!

Não faremos senão uma curtíssima nota a respeito da qualificação de charlatão dada aos partidários de idéias novas; parece-nos um tanto arriscada, quando se aplica a milhões de indivíduos que dela não tiram nenhum proveito* e quando ela alcança os cumes mais elevados das regiões sociais. Esquece-se que o Espiritismo fez, em alguns anos, progressos incríveis em todas as partes do mundo; que ele se propaga, não entre os ignorantes, mas nas classes esclarecidas; que conta, em suas fileiras, um número muito grande de médicos, de magistrados, de eclesiásticos, de artistas, de homens de letras, de altos funcionários: pessoas às quais, geralmente, se atribuem algumas luzes e um pouco de bom senso. Ora, confundi-las no mesmo anátema, e enviá-las sem cerimônia às Petites-Maisons, é agir muito insolentemente.

Mas, direis, aquelas pessoas são de boa fé; são vítimas de uma ilusão; não negamos o efeito, não contestamos senão a causa que lhe atribuís, a ciência vem de descobrir a verdadeira causa, fê-la conhecer e, por isso mesmo, fez desabar esse alicerce místico de um mundo invisível que pode seduzir imaginações exaltadas, mas fiéis.

Não nos apontamos como sábios, e ainda menos ousaríamos nos colocar ao nível de nossos honrosos adversários; diremos apenas que os nossos estudos em anatomia, e as ciências físicas e naturais que tivemos a honra de professar, nos permitem compreendermos sua teoria, e que de modo algum estamos aturdidos por essa avalanche de termos técnicos; os fenômenos dos quais eles falam nos são perfeitamente conhecidos.

Nas nossas observações sobre os efeitos atribuídos aos seres invisíveis, não tivemos cautela de negligenciar uma causa tão patente de equívoco. Quando um fato se apresenta, não nos contentamos com uma única observação; queremos vê-lo de todos os lados, sob todas as faces, e antes de aceitarmos uma teoria, examinamos se ela rende conta de todas as circunstâncias, se algum fato desconhecido não vem contradizê-la, em uma palavra, se ela resolve todas as questões: a verdade tem esse preço. Admitis, senhores, que essa maneira de proceder é bastante lógica. Pois bem! Apesar de todo o respeito que impõe o vosso saber, ele apresenta algumas dificuldades na aplicação de vosso sistema a isso que se chama os Espíritos batedores. A primeira é que é ao menos singular que essa faculdade, que o senhor Jobert (de Lamballe) qualifica de rara e singular afecção, tenha se tornado de repente tão comum. O senhor Lamballe disse, é verdade, que todo homem pode adquiri-la pelo exercício; mas como ele disse também que ela é acompanhada de dor e de fadiga, o que é bastante natural, convir-seá que seria necessário ter uma firme vontade de mistificar para fazer estalar seu músculo, durante duas ou três horas seguidas, quando isso não acrescenta nada, e pelo único prazer de divertir uma sociedade.

Mas falemos seriamente; isso é mais grave porque vem da ciência. Esses senhores que descobriram essa maravilhosa propriedade do músculo longo perônio, não desconfiam de tudo o que esse músculo pode fazer; ora, heis um belo problema para resolver. Os tendões deslocados não batem somente nas goleiras ósseas; por um efeito verdadeiramente bizarro, vão bater contra as portas, as paredes, os tetos, e isso à vontade, em tal lugar designado. Mas heis o que é mais forte, e vede quanto a ciência está longe de desconfiar de todas as virtudes desse músculo estalador: ele tem o poder de levantar uma mesa sem tocá-la, de fazê-la bater os pés, passear num aposento, manter-se no espaço sem ponto de apoio; de abri-la e de fechá-la, e avaliai sua a força! de fazê-la quebrar ao cair. Credes que se trata de uma mesa frágil e leve como uma pluma, e que se ergue soprando em cima? Desenganai-vos, trata-se de mesas pesadas e maciças, pesando cinqüenta a sessenta quilos, que obedecem às mocinhas, às crianças. Mas, dirá o senhor Schiff, jamais vi esses prodígios. Isso é fácil de conceber, ele não quis ver senão as pernas.

Em suas observações, o senhor Schif empregou a necessária independência de idéias?

Estava livre de toda prevenção? Disso é permitido duvidar, não somos nós que o dizemos, é senhor Jobert. Segundo ele, o senhor Schif perguntou-se, falando dos médiuns, se a sede desses ruídos não estava antes neles do que fora deles; seus conhecimentos anatômicos levaram-no a pensar que bem poderia estar na perna. Essa maneira de ver estava bem assentada em seu espírito, etc. Assim, da declaração do senhor Jobert, o senhor Schiff tomou por ponto de partida, não os fatos, mas sua própria idéia, sua idéia preconcebida bem assentada; daí as pesquisas em um sentido exclusivo e, por conseqüência, uma teoria exclusiva que explica perfeitamente o fato que ele viu, mas não aqueles que não viu. – E por que não viu? -Porque, em seu pensamento, ele não tinha senão um ponto de partida verdadeiro, e uma explicação verdadeira; partindo daí, todo o resto deveria ser falso e não mereceria exame; disso resultou que, em seu ardor de rachar os médiuns ao meio, ele a feriu de lado.

Credes, Senhores, conhecer todas as virtudes do longo perônio, porque o surprendestes tocando guitarra em sua corrediça? Ah! bem que sim, heis outra coisa a ser registrada nos anais anatômicos. Crestes que o cérebro era a sede do pensamento; errado! Pode-se pensar pela cravelha. As pancadas dão provas de inteligência, portanto, se esses golpes vêm exclusivamente do perônio, que seja o longo, segundo o senhor Schiff, ou o curto, segundo o senhor Jobert, (seria preciso, portanto, entender-se bem a esse respeito): é porque o perônio é inteligente. – Isso nada tem de espantoso; o médium, fazendo estalar seu músculo à vontade, executará o que quiserdes: ele imitará a serra, o martelo, baterá o toque de reunir, o ritmo de uma música pedida. – Seja; mas quando o ruído responde a uma coisa que o médium desconhece inteiramente, que não pode saber; quando vos diz esses pequenos segredos que só vós sabeis, desses segredos que se gostaria de esconder no gorro de dormir, é preciso convir que o pensamento vem de outra parte que não o seu cérebro. De onde vem ele? Por Deus! Do longo perônio. Isso não é tudo, ele é também poeta, esse longo perônio, porque pode compor versos encantadores, embora o médium jamais soubesse fazê-los em sua vida; ele é poliglota, porque dita coisas verdadeiramente muito sensatas em línguas das quais o médium não sabe a primeira palavra; ele é músico… nós o sabemos, o senhor Schiff fez o seu executar sons harmoniosos, com ou sem sapato, diante de cinqüenta pessoas. Sim; mas ele compõe. Vós, senhor Dorgeval, que nos destes recentemente uma encantadora sonata, credes ingenuamente que foi o Espírito de Mozart que vo-la ditou? Em verdade, senhores médiuns, não desconfiáveis de terem tanto espírito em vosso calcanhar. Honra, pois, àqueles que fizeram essa descoberta; que seus nomes sejam escritos em letras grandes para a edificação da posteridade, e a honra de sua memória!

Gracejais com uma coisa séria, dir-se-á; mas os gracejos não são razões. Não, não mais que as asneiras e as grosserias.

Confessando nossa ignorância junto desses senhores, aceitamos sua sábia demonstração e a tomamos muito seriamente. Acreditávamos que certos fenômenos eram produzidos por seres invisíveis que se deram o nome de Espíritos: enganamo-nos, seja; como procuramos a verdade, não teremos a tola pretensão de nos apaixonar por uma idéia que nos é demonstrada falsa, de modo tão peremptório. Desde o momento em que o senha Jobert, por uma incisão subcutânea, pôs termo aos Espíritos, é porque não há Espíritos. Uma vez que ele disse que todos os ruídos vêm do perônio, é necessário crê-lo e admiti-lo em todas as suas conseqüências; assim, quando os golpes se fazem ouvir na parede ou no teto, é porque o perônio aí corresponde, ou que a parede tem um perônio; quando esses golpes ditam versos por uma mesa que bate o pé, de duas coisas uma, ou a mesa é poeta ou bem o perônio; isso nos parece lógico. Vamos mesmo mais longe: um oficial, dos nossos conhecidos, recebeu um dia, fazendo experiências espíritas, e por mão invisível, um par de bofetadas tão bem aplicadas que as sentia ainda duas horas depois.

Ora, o meio de provocar uma reparação? Se semelhante coisa ocorresse com o senhor Jobert, ele não se inquietaria, porque diria que foi fustigado pelo longo perônio.

Eis o que lemos, a esse respeito, no jornal La Mode de 19 de maio de 1859.

“A Academia de medicina continua a cruzada de espíritos positivos contra o maravilhoso em todo gênero. Depois de ter, com justiça, mas talvez um pouco desastradamente, fulminado o famoso doutor negro, pelo órgão do senhor Velpeau, heis agora que acaba de ouvir o senhor Jobert (de Lamballe) declarar, em pleno Instituto, o segredo do que ele chama a grande comédia dos Espíritos batedores, que é representada com tanto sucesso nos dois hemisférios.

“Segundo o célebre cirurgião, todos os toe toe, todos os pan pan fazendo vibrar de boa fé as pessoas que os ouvem; esses ruídos singulares, esses golpes secos batidos sucessivamente e como em cadência, precursores da chegada, sinais certos da presença de habitantes do outro mundo, são muito simplesmente o resultado de um movimento dado a um músculo, a um nervo, a um tendão! Trata-se de uma bizarrice da natureza, habilmente explorada, para produzir, sem que seja possível notá-la, essa música misteriosa que tem encantado, seduzido tanta gente.

“A sede da orquestra está colocada na perna, É o tendão do perônio, jogando em sua corrediça, que faz todos esses ruídos que são ouvidos sob as mesas, ou à distância, à vontade do prestidigitador. .

“Duvido muito, de minha parte, que o senhor Jobert tenha colocado a mão, como ele crê, no segredo do que chama “uma comédia”, e os artigos publicados nesse próprio jornal, pelo nosso confrade senhor Escander, sobre os mistérios do mundo oculto, parece-me colocar a questão com uma amplitude bem mais sincera e filosófica, no bom sentido da palavra.

“Mas se os chariatães de todas as cores são irritantes com seus golpes de bombo, é preciso convir que os senhores sábios, algumas vezes, não o são menos, com o apagador que pretendem pôr sobre tudo o que brilha fora das luzes oficiais.

“Eles não compreendem que a sede do maravilhoso, que devora nossa época, tem justamente por causa os excessos de positivismo onde certos espíritos quiseram empolgar. A alma humana tem necessidade de crer, admirar e ter visto sobre o infinito.

Tem-se trabalhado para tapar as janelas que o catolicismo lhe abriu, ela olha não importa por quais frestas.”

HENRYDEPÈNE.

“Nosso excelente amigo, senhor Henry de Pene, permita-nos uma observação. Ignoramos
quando o senhor Jobert fez essa imortal descoberta, e qual foi o dia memorável no qual comunicou-a ao Instituto. O que sabemos é que essa original explicação já fora dada por outros. Em 1854, o senhor doutor Rayer, um prático célebre, que lá não fez nesse dia a prova de uma rara perspicácia, também ele apresentou, ao Instituto, um Alemão cuja habilidade, segundo ele, daria a chave de todos os knokings e rappings dos dois mundos.

Tratava-se, como hoje, do deslocamento de um dos tendões musculares da perna, chamado o longo perônio. Sua demonstração foi dada em sessão, e a Academia expressou seu reconhecimento por essa interessante comunicação. Alguns dias depois, um professor agregado da Faculdade de medicina consignou o fato no Contitutionnel, e teve a coragem de acrescentar que “os sábios, enfim, tendo se pronunciado, o mistério estava enfim esclarecido.” O que não impediu o mistério de persistir e de aumentar, apesar da ciência que, se recusando experimentá-lo, se contenta em atacá-lo com explicações ridículas e burlescas, como essas das quais acabamos de falar. Por respeito ao senhor Jobert (de Lamballe), nos apraz crer que se lhe emprestou uma experiência que nunca lhe pertenceu. Algum jornal, com fito de novidade, encontrou em algum canto esquecido de sua pasta, a antiga comunicação do senhor Rayer, e a ressuscitou, colocando-a sob seu patrocínio, a fim de variar um pouco. Mutato nomine, de te fábula narratur. É deplorável, sem dúvida, mas isso é melhor do que se o jornal houvesse dito a verdade.”

A. ESCANDE

 

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