Urânia

Revista Espírita, novembro de 1859

Fragmentos de um poema Espírita do senhor
de Porry

Abri-vos aos meus gritos, véus do santuário!
Que o mau trema e o bom se esclareça?
Uma luz divina me inunda, e meu seio agitado
Em abundância dardeja a verdade!
E vós, sérios pensadores, cujos trabalhos célebres
Prometem a luz e dão as trevas,
Que de sonhos mentirosos e de prestígios vãos
Embalais incessantemente as infelicidades humanas,
Concilio de sábios, que tanto de orgulho inflama.
Sereis confundidos pela voz de uma mulher?
Este Deus, que quereis do Universo banir,
Ou que pretendeis loucamente definir.
Do qual vossos sistemas querem sondar a essência,
Malgrado vós, se revela à vossa consciência;
E tal que, entregando-se a sutis debates;
Ousa o negar tão alto, o proclama tão baixo!
Tudo por sua vontade nasce e se renova:
É a base suprema; a vida eterna;
Tudo repousa nele: a matéria e o Espírito;
Que vos retire seu sopro… e o Universo perece;
O ateu disse um dia “Deus não é senão uma quimera;
E, filha do acaso, a vida é efêmera,
O mundo, onde o homem fraco, em nascendo, foi jogado,
Está regido pelas leis da necessidade.
Quando o trespasse apaga os nossos sentidos e nossa alma,
O abismo do nada de novo nos reclama;
A Natureza, imutável em seu curso eterno,
Recolhe nossos restos no seio. maternal.
Usamos curtos instantes que seus favores nos dão;
Que nossas frontes radiosas de rosas se coroem;
Só o prazer é Deus; em nossos barulhentos festins,
Desafiamos a cólera dos móveis destinos!”
Mas quando tua consciência, íntima vingadora,
Insensato! te censura uma culpável embriaguez,
O indigente repelido por um gesto desumano,
Ou o crime impune do qual sujas tua mão,
É do seio escuro da cega matéria
Que jorra em teu coração a importuna luz
Que repõe sempre seus grandes crimes sob teus olhos,
Te apavora e te torna, a ti mesmo, odioso?

Então, do soberano que tua audácia nega
Sentes passar sobre ti a força infinita;
E ele te acossa, te sitia, e, malgrado teus esforços,
Se revela ao teu coração pelo grito do remorso!…
Evitando os humanos, cansado de inquietação,
Procuras das florestas a negra solidão;
E crês, percorrendo seus selvagens desvios,
Escapar a esse Deus que te persegue sempre!
Sobre sua presa em farrapos o tigre feliz dormita
O homem, coberto de sangue, nas trevas vela;
Seu olhar está ofuscado por um horrível clarão;
Seu corpo treme inundado de um frio suor;
Um ruído surdo e sinistro em seu ouvido troveja;
Espectros ameaçadores o escoltam o rodeiam;
E sua voz que formula uma terrível confissão,
Se exclama com terror Graça, graça, ó meu Deus!
Sim, o remorso, carrasco de todo ser que pensa,
Nos revela com Deus nossa imortal essência;
E freqüentemente a virtude, de um nobre arrependimento
transforma um vil culpado em glorioso mártir;
Os brutos separam a humana criatura,
O remorso é a chama onde nossa alma se depura;
E pelo seu aguilhão o ser regenera,
Na escala do bem avança um degrau.
Sim, a verdade brilha, e do soberbo ateu
Por seus raios vingadores, a audácia é refutada.
O panteísmo vem expor por sua vez
De seu louco argumento o capcioso desvio:
“Ó mortais fascinados por seu sonho risível,
Onde o encontrareis, esse Grande Ser invisível?
Ele está diante de vossos olhos, esse eterno Grande Todo;
Tudo forma sua essência, nele tudo se resolve;
Deus brilha no sol, enverdece na folhagem,
Ruge no vulcão e troveja na tormenta,
Floresce em nossos jardins, murmura nas águas.
Suspira flacidamente pela voz dos pássaros,
E colore os ares os tecidos diáfanos;
É ele quem nos anima e quem move nossos órgãos;
É ele quem pensa em nós; todos os seres diversos
São ele mesmo; em uma palavra, esse Deus, é o Universo.”
O quê! Deus se manifesta a si mesmo contrário!
Ele é a ovelha e lobo, rola e víbora!
Ele se torna alternativamente pedra, planta, animal;
Sua natureza combina o bem e o mal,
Percorre todos os graus do bruto ao arcanjo!
Eterna antítese, ele é luz e lama!
Ele é valente e frouxo, ele é pequeno e grande,
Verídico e mentiroso, imortal e agonizante!…
Ele é ao mesmo tempo opressor e vítima,
Cultiva a virtude e se enrola no crime;
Ele é, ao mesmo tempo, Lametrie e Platão.
Sócrates e Melitus, Marco Aurélio e Nero;
Servidor da glória e da ignomínia!

Então, do soberano que tua audácia nega
Sentes passar sobre ti a força infinita;
E ele te acossa, te sitia, e, malgrado teus esforços,
Se revela ao teu coração pelo grito do remorso!…
Evitando os humanos, cansado de inquietação,
Procuras das florestas a negra solidão;
E crês, percorrendo seus selvagens desvios,
Escapar a esse Deus que te persegue sempre!
Sobre sua presa em farrapos o tigre feliz dormita
O homem, coberto de sangue, nas trevas vela;
Seu olhar está ofuscado por um horrível clarão;
Seu corpo treme inundado de um frio suor;
Um ruído surdo e sinistro em seu ouvido troveja;
Espectros ameaçadores o escoltam o rodeiam;
E sua voz que formula uma terrível confissão,
Se exclama com terror Graça, graça, ó meu Deus!
Sim, o remorso, carrasco de todo ser que pensa,
Nos revela com Deus nossa imortal essência;
E freqüentemente a virtude, de um nobre arrependimento
transforma um vil culpado em glorioso mártir;
Os brutos separam a humana criatura,
O remorso é a chama onde nossa alma se depura;
E pelo seu aguilhão o ser regenera,
Na escala do bem avança um degrau.
Sim, a verdade brilha, e do soberbo ateu
Por seus raios vingadores, a audácia é refutada.
O panteísmo vem expor por sua vez
De seu louco argumento o capcioso desvio:
“Ó mortais fascinados por seu sonho risível,
Onde o encontrareis, esse Grande Ser invisível?
Ele está diante de vossos olhos, esse eterno Grande Todo;
Tudo forma sua essência, nele tudo se resolve;
Deus brilha no sol, enverdece na folhagem,
Ruge no vulcão e troveja na tormenta,
Floresce em nossos jardins, murmura nas águas.
Suspira flacidamente pela voz dos pássaros,
E colore os ares os tecidos diáfanos;
É ele quem nos anima e quem move nossos órgãos;
É ele quem pensa em nós; todos os seres diversos
São ele mesmo; em uma palavra, esse Deus, é o Universo.”
O quê! Deus se manifesta a si mesmo contrário!
Ele é a ovelha e lobo, rola e víbora!
Ele se torna alternativamente pedra, planta, animal;
Sua natureza combina o bem e o mal,
Percorre todos os graus do bruto ao arcanjo!
Eterna antítese, ele é luz e lama!
Ele é valente e frouxo, ele é pequeno e grande,
Verídico e mentiroso, imortal e agonizante!…
Ele é ao mesmo tempo opressor e vítima,
Cultiva a virtude e se enrola no crime;
Ele é, ao mesmo tempo, Lametrie e Platão.
Sócrates e Melitus, Marco Aurélio e Nero;
Servidor da glória e da ignomínia!

Ele mesmo, alternativamente, se afirma e se nega!
Contra a sua própria essência ele afia o ferro,
Evoca o nada; e por cúmulo do ultraje,
Sua voz escarnece e amaldiçoa sua magnífica obra!…
Oh não, mil vezes não, esse dogma monstruoso
Jamais pôde germinar num coração virtuoso.
Mergulhado em seus remorsos onde o crime se expia,
O temerário autor da doutrina ímpia,
No seiotlos prazeres, se sente apavorado
Pela imagem de um Deus que não podia negar;
E para disso se isentar, blasfêmia da blasfêmia!…
Ele o uniu a este mundo, ele o uniu a si mesmo.
O ateu pelo menos, comprimido com semelhante embaraço,
Ousando negar seu Deus, não o degrada.
…………………….
Deus, que a raça humana procurou sem cessar,
Deus, que quer ser adorado e não ser conhecido,
É dos seres diversos o princípio e o fim:
Mas, para subir até ele, qual é, “pois, o caminho
Não é a Ciência, efêmera miragem
Que fascina nossos olhos com sua brilhante imagem,
E que, enganando sempre um poderoso desejo,
Desaparece sob a mão que pensa agarrá-lo.
Sábios, amontoais escombros sobre escombros
E vossos sistemas vãos passam como as sombras!
Este Deus; que sem perecer nenhum ser pode ver,
Cuja essência encerra um terrível poder,
Mas que para seus filhos nutre um amor temo,
A menos de igualá-lo, tu não podes compreendê-lo!
Ah! Para se unir a ele, para reencontrá-lo um dia,
A alma deve tomar emprestadas as asas do Amor.
Lancemos ao vento o orgulho e as cinzas da dúvida;
O próprio Deus aos crentes plainará o caminho:
Seu amor infinito jamais se afastou,
A alma que o procura com sinceridade,
E que esmigalhando nos pés riqueza e gozo,
Aspira confundir-se com a sua pura essência,
Mas este Deus, que quer bem ao coração humilde e piedoso,
Que bane de seu seio o déspota orgulhoso,
Que se revela ao sábio, que se abandona ao prudente,
Como um amante ciumento não sofre nenhuma partilha.
E, para contentá-lo, é preciso aos prestígios mundanos
Opor constantemente inflexíveis desdéns,
Felizes, pois, seus filhos que, na solitude,
Do bom, do verdadeiro, do belo, fazem seu único estudo!
Feliz, portanto, o homem absorvido inteiramente
No triplo clarão desse divino foco!
No meio das tristezas, cujo cortejo sobeja
No círculo limitado de nosso pobre mundo,
Semelhante ao oásis que floresce no deserto,
O tesouro da Fé para a sua alma está aberto;
E Deus, sem mostrar-se, no seu coração se insinua,

E lhe verte uma alegria ao vulgo desconhecida.
Então, com seu destino o sábio está satisfeito;
Com uma calma inalterável guarda o benefício;
De um véu constelado quando a noite o cerca,
Na sua cama pacífica ele adormece, e saboreia,
Nos sonhos brilhantes com os quais se embriaga seu coração,
Um celeste antegozo da suprema felicidade.
Tua alma que na verdade a ardente sede altera,
Da Criação quer sondar o mistério?…
Como um pintor primeiro concebeu no seu cérebro
A obra-prima encantadora que produz seu pincel,
O Eterno tira tudo de sua própria natureza,
Mas não se confunde com a sua criatura
Que, da inteligência tendo recebido o fogo,
Está livre de falir ou de subir até Deus.
Obra de seu Pensamento, obra de sua palavra,
Cada criação de seu seio parte… e voa,
Num círculo traçado por inflexíveis leis,
Cumprir o destino do qual fez a escolha
Como o artista, Deus pensa antes de produzir.
Como ele, o que criou, poderia destruí-lo;
Ora, fonte inesgotável de seres indiferentes
E de globos semeados no imenso Universo,
Deus, a Força sem freio, de sua Vida eterna:
Às suas criações transmite uma centelha.
O livro ou o quadro pelo artista inventado,
Produto inerte, jaz na imobilidade,
Mas o Verbo jorra de sua Onipotência,
Dele se destaca e se move em sua própria existência,
Sem cessar ele se transforma e jamais perece;
Do inerte metal se elevando ao Espírito,
O Verbo criador na planta dormita,
Sonha no animal, e no homem desperta;
De grau em grau, descendo e subindo,
Da Criação o conjunto radioso,
Sobre as ondas do éter forma uma cadeia imensa
Que o arcanjo termina, que a pedra começa.
Obedecendo às leis que regem seu meio,
Cada elemento se aproxima ou se afasta de Deus;
Seja que ao bem se devote ou que ao mal ele sucumba.
Cada ser inteligente, por sua vontade, sobe ou cai.
Ora, se o homem, habitando a atmosfera do mal,
Se rebaixa pelo crime ao nível do animal,
Em anjo de homem puro se transforma, – e esse anjo
De grau em grau pode tornar-se arcanjo,
No seu trono brilhante esse arcanjo elevado,
Está livre para guardar sua personalidade.
Ou de se fundir no seio da Onipotência
Que se pode assimilar uma perfeita essência.
Assim, mais de um arcanjo, na celeste morada,
Com Deus está reunido por um excesso de amor;

Mas outros, invejando sua glória soberana,
Fascinados pelo orgulho, esse pai do ódio,
Quiseram do Mais Alto discutir os decretos;
E mergulharem na noite que esconde seus segredos:
Esse Deus, cujo olhar os teria colocado em pó,
Ensombra-lhes as lajes de seu ardente raio.
Depois, desfigurados, no Universo errante,
Seguidos pelos assaltos de remorsos devorantes,
Esses anjos que perdem sua audácia funesta,
Não ousam mais se mostrar no adro celeste;
Na vergonha, afiando seu aguilhão amado,
Entregam seu coração rebelde às tormentas do inferno,
Ao passo que o homem puro, cuja prova termina,
De triunfo em triunfo ao paraíso se eleva.
Todos esses mundos diferentes no Universo semeados,
Que ferem teus olhares com suas flechas inflamadas,
Que rola do éter o vago universal,
Assim como os Espíritos, estão agrupados em escalas.
Globos variados esses luminosos feixes
São vastas moradas, celestes naves
Onde vagam no espaço, a enormes distâncias,
Espíritos graduados em imensas coortes.
Há mundos puros e mundos horríveis:
Sem entraves reinam nos globos felizes,
Três princípios divinos, honra, amor, justiça.
Da ordem social cimentam o edifício;
E, sem cessar, queridos de todos seus habitantes,
De sua felicidade são as provas constantes.
De outros globos, entregues a insolentes vertigens,
Anjos condenados seguiram os vestígios:
Esses mundos, artesãos de sua própria infelicidade,
À lei de Deus substituíram pela sua;
E, no seu solo, onde ribomba uma horrível tormenta,
De seus hóspedes impuros a multidão se lamenta.
Nosso globo noviço, em seus passos incertos,
Flutua até nossos dias entre esses dois destinos.
Ultrajando a moral, ultrajando a natureza,
Quando um globo do crime preencheu a medida;
Que seus hóspedes, mergulhados em seus prazeres barulhentos,
Fecharam seus ouvidos aos discursos dos videntes;
Que do verbo divino o mais ligeiro traço,
Nesse mundo enceguecido se dissipa e se apaga
Então do Onipotente a cólera desencadeia
Desce sobre o rebelde a perecer condenado:
Os arcanjos vingadores com suas asas poderosas
Batem a terra ímpia… e seus mares saltitantes,
Com imensa altura ultrapassam os seus níveis,
No seu solo limpo precipitam suas águas;
Vulcões subterrâneos a chama brilhante, ribombante,
Dispersa no éter os restos deste mundo;
E o Ser Soberano, cuja vingança luziu,
Rompe esse globo impuro que nele não mais crê!

Nossa Terra medíocre é uma estação de prova,
Onde o justo sofredor, de suas lágrimas se sacia,
Lágrimas que, por degraus purificam seu coração,
Preparam seu caminho para um mundo melhor.
E não é em vão quando o sono nos mergulha
Nos risonhos transportes da embriaguez de um sonho,
Que por um rápido impulso somos transportados
Num astro novo radiante de claridades;
Que nos cremos errar por vastos bosques
Sem cessar percorridos por um povo de sábios;
Que vemos esse globo iluminado por sóis
Irradiando alternadamente brancos, azuis e vermelhos,
Que, cruzando nos ares suas tintas combinadas,
Colorem esses belos campos com luzes variadas!…
Se teu coração neste mundo se mantém virtuoso,
Tu os atravessarás, esses globos luxuosos
Que a paz alegra, que habita a sabedoria,
Onde reina da felicidade a eterna liberalidade.
Sim, tua alma as vê, essas radiosas moradas
Que os favores do céu embelezam sempre,
Onde o Espírito, se depurando, sobe de grau em grau,
Quando o perverso segue um caminho retrógrado,
E do reino do mal percorrendo os elos,
Desce de círculo em círculo aos abismos infernais.
Espelho onde o Universo reflete a sua imagem,
Esses destinos diferentes nossa alma os pressagia.
A alma, essa viva força que domina os sentidos,
Aos seus menores desejos súbito obediente, –
Que, como um fogo cativo num vaso de argila,
Consome em seus transportes sua veste frágil; –
A alma, que do passado guarda a lembrança
E sabe ler por vezes no obscuro futuro,
Não tem do fogo vital a efêmera centelha
Tu mesmo tu o sentes, tua alma é imortal.
Nos campos do espaço e da eternidade,
Conservando sua permanência e sua identidade,
Não, a alma não morre, mas muda o seu domínio,
E de asilo em asilo sempre passeia Nossa alma,
se isolando do mundo exterior,
Por vezes pode conquistar um sentido superior;
E, no arrebatamento do sono magnético,
Se armar de um novo olho ou do dom profético:
Libertada um instante dos terrestres laços,
Sem obstáculo percorre os campos aéreos;
E, com um ágil pulo, no infinito lançada,
Vê através dos corpos e lê no pensamento.

urania

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Os médiuns sem o saber

Revista Espírita, novembro de 1859

Na sessão da Sociedade, de 16 de setembro de 1859, foram lidos diversos fragmentos de um poema do senhor Porry, de Marseille, intitulado Uranie. Assim como se fez observar, esse poema é rico em idéias Espíritas que parecem tomadas à própria fonte de O Livro dos Espíritos e, todavia, foi averiguado que, na época em que o autor o escreveu, ele não tinha nenhum conhecimento da Doutrina Espírita. Nossos leitores ficarão satisfeitos por dele darlhes algumas amostras. Lembram-se, sem dúvida, do que foi dito a respeito da maneira pela qual o senhor Porry escreveu o seu poema, maneira que parece acusar nele uma espécie de mediunidade involuntária (Ver o número do mês de outubro de 1859, página 270). Está constatado, de resto, que os Espíritos que nos cercam, que exercem sobre nós, e com o nosso desconhecimento, uma influência incessante, aproveitam-se das disposições que encontram em certos indivíduos, para deles fazerem os instrumentos de idéias que querem exprimir e levar ao conhecimento dos homens; esses indivíduos são, pois, verdadeiros médiuns sem o saber, e não têm, para isso, necessidade de estarem dotados da mediunidade mecânica. Todos os homens de gênio, poetas, pintores, músicos, estão neste caso; seguramente seu próprio Espírito pode produzir por si mesmo, se está bastante avançado para isso, mas muitas das idéias podem também chegar-lhes de uma fonte estranha; e não parecem isso rogar, pedindo a inspiração? Ora, o que é a inspiração senão uma idéia sugerida? O que se tira do próprio íntimo não é inspirado: tem-se, e não há necessidade de recebê-lo. Se o homem de gênio tirasse tudo de si mesmo, por que lhe faltariam as idéias no momento em que as busca?

Não seria senhor de haurir de seu cérebro, como aquele que tem dinheiro o tira de sua bolsa? Se, em um momento dado, não encontra nada, é porque nada tem. Por que, pois, no momento em que menos espera, as idéias jorram como por si mesmas? Os fisiologistas poderiam dar-nos conta desse fenômeno? Nunca procuraram resolvê-lo?

Eles dizem: O cérebro produz hoje, não produzirá amanhã; mas por que não produzirá amanhã? Nisso se reduzem a dizer que é porque produziu na véspera. Segundo a Doutrina Espírita, o cérebro pode sempre produzir o que está nele, eis porque o homem mais inapto encontra sempre alguma coisa para dizer, ainda que seja uma tolice; mas as idéias que não dominamos não são as nossas; sempre nos são sugeridas; quando a inspiração não vem, é porque o inspirador não está aí, ou não julga oportuno comunicar-se. Parece-nos que esta explicação vale mais que a outra Poder-se-ia objetar que o cérebro não produzindo, não deveria fatigar-se. Aí haveria um erro; o cérebro não é menos, por isso, o canal por onde passam as idéias estranhas, o instrumento que o executa. O cantor não cansa os órgãos da voz, embora a música não seja dele? Por que, pois, o cérebro não se cansaria por exprimir idéias que está encarregado de transmitir, embora não as haja produzido? Sem dúvida, é para dar-lhe o repouso necessário à aquisição de novas forças que o inspirador lhe impõe em tempo de parada.

Pode-se, ainda, objetar que esse sistema tira do produtor o seu mérito pessoal, uma vez que atribui suas idéias a uma fonte estranha. A isso respondemos que se as coisas se passam assim, não sabemos o que fazer com elas, e que não vemos a grande necessidade de se ornar com plumas de pavão; mas esta objeção não é séria, porque dissemos, de início, que o homem de gênio não tira nada de seu próprio íntimo; em segundo lugar, que as idéias que lhe são sugeridas se confundem com as suas próprias, nada as distingue, e que assim, não é censurável por atribuí-las a si, a menos que, tendo-as recebido a título de comunicação Espírita confirmada, quisesse dar-se a glória, o que os Espíritos poderiam muito bem fazê-lo pagar com algumas decepções. Enfim, diremos que se os Espíritos sugerem a um homem grandes idéias, dessas idéias que caracterizam o gênio, é porque o julgam capaz de compreendê-las, de elaborá-las, e de transmiti-las; não tomariam um imbecil por seu intérprete; pode-se, pois, honrar-se sempre por receber uma grande e bela missão, sobretudo se o orgulho não a desvia de seu fim louvável, e não o faz perder o mérito.

Que os pensamentos seguintes sejam os do Espírito pessoal do Sr. Porry, ou que lhe tenham sido sugeridos por via mediúnica indireta, isso não diminui o mérito do poeta; porque a idéia primeira lhe foi dada, a honra de tê-la elaborado não poderia ser contestada.

mediuns sem o saber

Deve-se publicar tudo quanto dizem os Espíritos?

Revista Espírita, novembro de 1859

Esta pergunta nos foi dirigida por um dos nossos correspondentes, e a respondemos com a pergunta seguinte: Seria bom publicar tudo quanto dizem e pensam os homens? Quem possua uma noção, por pouco profunda que seja, do Espiritismo, sabe que o mundo invisível é composto de todos aqueles que deixaram na Terra seu envoltório visível; mas, em se despojando dele, o homem carnal, nem todos, por isso, revestiram a túnica dos anjos. Portanto, os há de todos os graus de saber e de ignorância, de moralidade e de imoralidade; eis o que não é necessário perder de vista Não esqueçamos que, entre os Espíritos, como na Terra, há seres levianos, estouvados e zombeteiros; pseudo-sábios, vãos e orgulhosos de um saber incompleto; hipócritas, maus; e o que nos pareceria inexplicável, se não conhecêssemos, de alguma sorte, a fisiologia desse mundo, é que há sensuais, vis, crápulas, que se arrastam na lama. Ao lado disso, sempre como na Terra, tendes seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos, sublimes de virtudes; mas como o nosso mundo não está nem na primeira, nem na última classe, embora esteja mais vizinho da última do que da primeira, disso resulta que o mundo dos Espíritos encerra seres mais avançados intelectual e moralmente do que os nossos homens mais esclarecidos, e outros que estão ainda abaixo dos homens mais inferiores. Desde que esses seres têm um meio patente de se comunicarem com os homens, de exprimirem seus pensamentos por sinais inteligíveis, suas comunicações devem ser o reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios; elas serão levianas, triviais, grosseiras, obscenas mesmo, sábias, prudentes ou sublimes, segundo seu caráter e sua elevação.

Eles mesmos se revelam pela sua linguagem; daí a necessidade de não aceitar cegamente tudo o que vem do mundo oculto, e de submetê-lo a um controle severo. Com as comunicações de certos Espíritos, poder-se-ia, como com os discursos de certos homens, fazer uma coletânea pouco edificante. Temos sob os olhos uma pequena obra inglesa, publicada na América, que disso é a prova, e da qual se pode dizer que a mãe não recomendaria a leitura à sua filha; é por isso que não a recomendamos aos nossos leitores. Há pessoas que acham isso engraçado, divertido; que se deliciem na intimidade com ela, seja, mas que a guardem para si. O que concebemos ainda menos, é vangloriar-se por obterem, elas mesmas, comunicações inconvenientes; é sempre um indício de simpatia do qual não há com que se envaidecer, sobretudo quando essas comunicações são espontâneas e persistentes, como ocorre com certas pessoas. Sem dúvida, isso nada prejulga quanto à sua moralidade atual, porque conhecemos as que se afligem com esse gênero de obsessão, à qual seu caráter, de nenhum modo, pode se prestar; entretanto, esse efeito deve ter uma causa, como todos os efeitos; não sendo encontrada na existência presente, é necessário procurá-la num estado anterior; se ela não está em nós, está fora de nós, mas nela somos sempre alguma coisa, não seria senão por fraqueza de caráter. Sendo a causa conhecida, depende de nós fazê-la cessar.

Ao lado dessas comunicações francamente más, e que chocam todo ouvido um pouco delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas; há inconveniente em publicálas? Se são dadas pelo que valem, não há senão um meio mal; se são dadas como estudo do gênero, com as precauções oratórias, os comentários e os corretivos necessários, podem mesmo ser instrutivas, por fazerem conhecer o mundo Espírita sob todas as suas faces; com a prudência e a circunspecção, pode-se dizer tudo; mas o mal é dar como sérias coisas que chocam o bom senso, a razão e as conveniências; o perigo, nesse caso, é maior do que se pensa. Primeiro, essas publicações têm por inconveniente induzirem ao erro as pessoas que não estão aptas para aprofundarem e discernirem o verdadeiro do falso, sobretudo numa questão tão nova quanto o Espiritismo; em segundo lugar, são armas fornecidas aos adversários, que não deixam de tirar delas argumentos contra a alta moralidade do ensinamento Espírita; porque, ainda uma vez, o mal está em apresentar seriamente coisas notoriamente absurdas. Alguns podem mesmo ver uma profanação no papel ridículo que se empresta a certos personagens justamente venerados, e aos quais se leva a uma linguagem indigna deles. Aqueles que estudaram a fundo a ciência Espírita sabem como manter-se a esse respeito; sabem que os Espíritos zombeteiros não deixam de se ornar com nomes respeitáveis; mas sabem também que esses Espíritos não enganam senão aqueles que querem deixar se enganar, e que não sabem, ou não querem frustrar suas astúcias pelos meios de controle que conhecemos. O público, que não sabe disso, não vê senão uma coisa: um absurdo seriamente oferecido à admiração, e dizem a si mesmos: Se todos os Espíritas são como isso, não lhes roubaram o epíteto com o qual são gratificados. Esse julgamento, sem nenhuma dúvida, é sem consideração; vós os acusais, com razão, de leviandade, e dizeilhes: Estudai a coisa, e não vede senão um único lado da medalha; mas há muitas pessoas que julgam a priori, e sem dar-se ao trabalho de virar a folha, sobretudo quando não o fazem de boa vontade, que é necessário evitar o que pode dar-lhes muita contenda; porque, se à má vontade se junta a malevolência, ficam encantados por encontrarem do que falar mal.

Mais tarde, quando o Espiritismo estiver vulgarizado, mais conhecido, e compreendido pelas massas, essas publicações não terão mais influência do que não teria hoje uma livre compreensão das heresias científicas. Até lá, não se poderia nisso colocar mais de circunspecção, porque há os que podem prejudicar essencialmente à causa que querem defender, muito mais do que os ataques grosseiros e as injúrias de certos adversários: alguns fariam nesse objetivo o que não conseguiriam melhor. O erro de certos autores é o de escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundado suficientemente, e, por aí, dar lugar a uma crítica fundada. Lamentam-se do julgamento temerário de seus antagonistas: não prestam atenção ao fato de que, eles mesmos, freqüentemente, mostram o ponto fraco. De resto, apesar de todas as precauções, seriam presunçosos por se crerem ao abrigo de toda crítica: primeiro, porque é impossível contentar todo o mundo; em segundo lugar, porque há pessoas que riem de tudo, mesmo das coisas mais sérias, uns por estado, os outros por caráter. Riem muito da religião; não é de se admirar que riam dos Espíritos, que não conhecem. Se ainda seus gracejos fossem espirituosos, haveria compensação; infelizmente, em geral, eles não brilham nem pela finura, nem pelo bom gosto; nem pela urbanidade e ainda menos pela lógica. Portanto, façamos pelo melhor, colocando, de nossa parte, a razão e as conveniências, aí também colocaremos os galhofeiros.

Essas considerações serão facilmente compreendidas por todo o mundo; mas há uma, não menos essencial, que se prende à própria natureza das comunicações Espíritas, e que não devemos omitir os Espíritos vão onde encontram simpatia e onde sabem serem escutados. As comunicações grosseiras e inconvenientes, ou simplesmente falsas, absurdas e ridículas, não podem emanar senão de Espíritos inferiores: o simples bom senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que se vêem escutados com complacência se ligam àqueles que admiram suas tolices e, freqüentemente, deles se apoderam e os dominam ao ponto de fasciná-los e subjugá-los. A importância que se dá às suas comunicações, pela publicidade, os atrai, os anima e os encoraja. O único, o verdadeiro meio de afastá-los, é provar-lhes que não se é sua vítima, rejeitando implacavelmente, como apócrifo e suspeito, tudo o que não é racional, tudo o que desmente a superioridade que se atribui o Espírito que se manifesta, e o nome com o qual se veste: então, quando ele vê que perde o seu tempo, retira-se.

Cremos ter respondido suficientemente à pergunta do nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações Espíritas. Publicar sem exame, ou sem correção, tudo o que vem dessa fonte seria fazer prova, segundo nós, de pouco discernimento. Tal é pelo menos a nossa opinião pessoal, que deixamos à apreciação daqueles que, estando desinteressados na questão, podem julgar com imparcialidade, pondo de lado toda consideração individual. Temos, como todo o mundo, o direito de dizer o nosso modo de pensar sobre a ciência que é o objeto de nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, sem pretender impor as nossas idéias, nem dá-las como leis. Os que partilham a nossa maneira de ver é porque crêem, como nós, estarem com a verdade; o futuro mostrará quem está em erro ou com razão.

controle-universal-dos-espiritos

As mesas voadoras

Revista Espírita, outubro de 1859

Sob este título encontramos o artigo seguinte em o lllustration de 1853, precedido de gracejos forçados dos quais pedimos perdão aos nossos leitores.

“Mas se trata das mesas girantes! Eis as mesas voadoras! E o fenômeno não se produziu hoje, ele existe há muitos anos. Onde? perguntais. Minha fé, está um pouco longe, na Sibéria! Um jornal russo, Sjévemavà Plschelà ou a Abeille du Nord, em seu número do dia 27 de abril último, contém sobre esse assunto um artigo do senhor Tscherepanoff, que viajou no país dos Kamouks. Eis um extrato dele.

“É necessário saber que os lamas, sacerdotes da religião budista, à qual aderiram todos os Mongols e os Bourètes russos semelhantes nisso aos sacerdotes do antigo Egito, não comunicam os segredos que inventaram, mas deles se servem, ao contrário, para aumentar a influência que exercem sobre um povo naturalmente supersticioso. É assim que eles pretendem reencontrar os objetos roubados, e, para esse fim, servem-se da mesa voadora, as coisas se passam da seguinte maneira:

“A vítima do roubo se dirige ao lama, pedindo-lhe para revelar o lugar onde os objetos estão escondidos. O sacerdote de Buda pede dois ou três dias para se preparar para essa grave cerimônia. Expirado o tempo, ele se assenta na terra, coloca diante de si uma pequena mesa quadrada, põe a mão em cima e se põe a ler um livro de mágicos; o que dura uma meia hora. Quando resmungou muito, levanta-se, tendo a mão sempre na mesma posição de antes, a mesa se ergue da terra, o lama se dirige com toda a sua grandeza; ele leva a mão acima de sua cabeça, e a mesa sobe à mesma altura; o lama dá um passo adiante, o móvel segue no ar o seu exemplo; o lama recua, o móvel faz o mesmo; breve, a mesa toma diversas direções e acaba caindo por terra. Na direção principal que a mesa tomou, é que se encontra o lugar procurado. Crendo-se nos relatos dos habitantes, apresentam-se casos nos quais a mesa deixa escolher justo o lugar em que se esconde o objeto furtado.

Na experiência à qual o senhor Tscherepanoff assistiu, a mesa voou até uma distância de 15 toesas. O objeto furtado não foi encontrado imediatamente; mas na direção indicada pelo movei morava em camponês russo que distinguiu o sinal, e no mesmo dia se tirou a vida. Sua morte súbita despertou suspeitas; pesquisas foram feitas no seu domicílio, e encontrou-se o que se procurava. O viajante viu três outras experiências, mas nenhuma teve sucesso. A mesa não queria mais mexer-se; os lamas, de resto, não ficaram embaraçados para explicar essa imobilidade; se o móvel não se movimentava mais, era porque os objetos não podiam ser encontrados.

“O senhor Tscherepanoff foi testemunha desse fenômeno em 1831, na cidade de Jèlany:

“Eu não acreditava, disse ele; estava persuadido de que haveria ali alguma escamoteação, e que o meu lama se servia de uma corda habilmente dissimulada, ou de um fio de ferro para erguer sua mesa no ar; mas, olhando de mais perto, não percebi nenhum traço de barbante nem de fio de ferro; a mesa era uma prancha de abeto bastante fina, não pesando senão uma libra e meia. Hoje, estou persuadido de que o fenômeno é produzido pelas mesmas causas daquela da dança das mesas.”

“Assim, os chefes da seita dos Espíritos, que crêem haverem inventado a table-moving, não fizeram senão retomarem uma invenção há muito tempo conhecida entre outros povos. Nihil sub sole novi, dizia Salomão. Quem sabe se, no tempo de Salomão, ele mesmo, não conhecia o meio de fazer as mesas girarem!… Que digo eu? Esse procedimento era conhecido bem antes do digno filho de David. Lede o North-China-Herald, citado pela Gazette d’Ausbourg, do dia 11 de maio, e vereis que os habitantes do Celeste Império se divertiam com esse jogo desde tempos imemoriais.”

Dissemos cem vezes que o Espiritismo, estando na Natureza, é uma das forças da Natureza, os fenômenos que dele decorrem deveram se produzir em todos os tempos e entre todos os povos, interpretados, comentados e vestidos segundo os costumes e o grau de instrução. Jamais pretendemos que isso fosse uma invenção moderna; quanto mais avançarmos, mais descobriremos os traços que ele deixou por toda parte, e em todas as idades. Os modernos não têm outro mérito do que tê-lo despojado do misticismo, do exagero e das idéias supersticiosas dos tempos da ignorância. É notável que a maioria daqueles que falam dele, tão levianamente, jamais se deram ao trabalho de estudá-lo.

Julgam sobre uma primeira impressão na maioria do tempo sobre o ouvir-dizer, sem conhecimentos das causas, e ficam surpresos quando se lhes mostra no fundo disso um dos princípios que tocam aos mais sérios interesses da Humanidade. É que não se crê que se atue aqui somente no interesse do outro mundo; quem não se detenha na superfície, vê sem dificuldade que ele toca as questões vitais do mundo atual. Quem teria pensado outrora que de uma rã dançante num prato, ao contato de uma colher de prata sairia o meio de se comunicar dum lado do mundo ao outro, de dirigir o raio, de produzir uma luz rival do Sol? Paciência, senhores galhofeiros, e de uma mesa que dança poderá bem sair um gigante que colocará os galhofeiros em seu lugar. No passo em que andam as coisas, isto não começa mal.

ALLAN KARDEC

mesas voadoras

Senhora E. de Girardin, médium

Revista Espírita, outubro de 1859

Extraímos o artigo seguinte da crônica do Paris-Journal, n° 44. Ele não necessita de comentário; ele mostra que se, como o dizem muito pouco polidamente aqueles que se arrogam, sem cerimônia, o privilégio do bom senso, todos os partidários do Espiritismo são loucos, pode se consolar, e mesmo se honrar, por ir às Petites-Maisons em companhia de inteligências da tempera da senhora de Girardin, e tantas outras.

“Eu vos prometi, outro dia, a história da senhora de Girardin e de um célebre doutor; eu vola contarei hoje, porque disso obtive a permissão; ela é muito curiosa.

Permaneceremos ainda no sobrenatural; dele se ocupa, mais que nunca, e nós que, pela nossa condição, sondamos Paris, encontramo-lo com um ligeiro acesso de febre quente a esse respeito. Decididamente, é uma necessidade para a imaginação humana saber o futuro e penetrar os mistérios da Natureza. Quando se vêem inteligências como de Delphine Gay se entregar a essas práticas, que são consideradas pueris, não se pode recusar-lhe uma certa importância, sobretudo quando estão apoiadas em testemunhos irrecusáveis, tais como aquele de que vos falei e que ides conhecer, – eu entendo o testemunho, mas não o doutor, – se aceitardes.

“A senhora de Girardin tinha uma pequena prancheta e um lápis; ela os consultava sem cessar. Tinha, assim, conversas com muitas celebridades da história, sem contar o diabo que com elas se misturavam também. Uma noite mesmo ele revelou-se a sério personagem que não teve medo dele, uma vez que seu estado era de expulsá-lo. A grande Delphine não fazia nada sem o conselho da sua prancheta; pedia-lhe conselhos literários que esta não lhe recusava; ela era, mesmo para o ilustre poeta, de uma severidade magistral. Assim, repetia-lhe sem cessar para não mais fazer tragédias, sem consideração para os versos maravilhosos que continham Judith e Cléopâtre. Quem vai representar uma tragédia? Os fanáticos da poesia dramática. O que eles procuram numa tragédia?

Eles procuram belos versos que os comovem e os tocam, e Judith e Cléopâtre formulam desses pensamentos de mulher, expressos por uma mulher de um espírito e de um coração eminentes, cujo talento não é contestado por ninguém. Enfim, a prancheta não o queria, obstinava-se na prosa e na comédia; ela colaborava para os desfechos e corrigia as superfluidades.

Não somente Delphine confiava-lhe seus trabalhos literários, mas contava-lhe ainda seus sofrimentos e atendia suas prescrições para a sua saúde. Ai! Essas prescrições, ditadas pela imaginação da doente ou pelo demônio, contribuíram para que nós o elevássemos.

Ela tomava remédios incríveis, fatias de pão com manteiga e pimenta, pimentas, instrumentos de destruição por uma natureza inflamável tal qual aquela; encontraram-se provas, depois de sua morte, das quais seus amigos e seus admiradores não se consolarão jamais.

“Todo o mundo conhecia Chasseriau, violento, ele também, em sua flor da idade. Ele fez de lembrança um retrato soberbo da bela defunta; foi gravado e está por toda parte hoje.

Ele levou o retrato ao doutor em questão e lhe perguntou se estava contente com o retrato; este fez algumas ligeiras observações. O pintor ia render-se, quando a idéia veio a ambos de se dirigirem ao próprio modelo. Eles colocaram as mãos sobre a prancheta, a senhora de Girardin logo se revelou. Compreende-se qual foi a sua emoção. Interrogada sobre o retrato, ela disse que não era perfeito, que não era necessário, entretanto, corrigi-lo, para que não se corresse o risco de estragá-lo, a semelhança sendo muito delicada e muito difícil de se tomar, quando não se tem outro guia senão a memória.

Fizeram outras perguntas; as quais umas ela recusou responder, as outras respondeu.

“Pede-se informação do lugar onde ela estava.

“- Eu não quero dize-lo, replicou.

“E apesar de todas as rogativas, nada se pôde obter sobre esse ponto.

“- Sois feliz?

“- Não.

“- Por quê!

“- Porque não pude mais ser útil àquele que eu amo.” Ela permaneceu muda obstinadamente, enquanto se lhe falou da outra vida e não deu nenhuma informação; não disse mesmo se isso lhe estava proibido, ou se ela agira de sua plena vontade. Depois de uma longa conversa, ela se foi. Foi feita a ata desta sessão. As duas testemunhas se foram dali tão impressionadas que não mais recomeçaram depois. O doutor poderia agora chamar aquele que o assistia nesse dia e ter esses dois grandes Espíritos na sua prancheta. Como tudo passa neste mundo! E que ensinamento nesses fatos estranhos se os tomarmos do ponto de vista filosófico e religioso!”

senhora e. de girardin, médium

O pai Crépin

Revista Espírita, outubro de 1859

(Sociedade; 2 de setembro de 1859.)

Os jornais anunciaram ultimamente a morte de um homem que morava em Lyon, onde era conhecido sob o nome de pai Crépin. Era várias vezes milionário, e de uma avareza rara. Nos últimos tempos de sua vida, ele veio morar na casa do casal Favre, que se obrigou a alimentá-lo mediante 30 centavos por dia, dedução de 10 centavos para seu tabaco. Ele possuía nove casas e morava antes numa delas, numa espécie de nicho que mandou fazer sob a escada. Na época dos aluguéis ele arrancava os cartazes das ruas para se servir desses papéis nos seus recibos. O decreto municipal que prescrevia o branqueamento das casas causou-lhe um violento desespero; ele fez gestões para obter uma exceção, mas isso foi inútil. Ele bradava que estava arruinado. Se não tivera senão uma casa, estaria resignado; mas, acrescentava, ele tinha nove delas.

1. Evocação. – R. Eis-me aqui, que quereis de mim? Ai! Meu ouro! Meu ouro! Em que se tornou?

2. Lamentais a vida terrestre? – R. Oh! Sim!

3. Por que a lamentais? – R. Não posso mais tocar meu ouro, contá-lo e ocultá-lo.

4. Em que empregais o vosso tempo? – R. Estou ainda bem ligado à Terra e me arrependo dificilmente.

5. Retomais, algumas vezes, para ver vossos caros tesouros e vossas casas? – R. Tão freqüentemente quanto o posso.

6. Quando vivo jamais pensastes que não levarias tudo isso para o outro mundo? – R. Não. Minha única idéia era interessar pelas riquezas para amontoá-las; jamais pensei em separarme delas.

7. Qual era o vosso objetivo amontoando essas riquezas que não serviam para nada, nem mesmo a vós, uma vez que vivíeis de privações? – R. Eu experimentava a volúpia de tocá-las.

8. De onde vos vinha essa avareza sórdida? – R. Do gozo que sentia meu Espírito e meu coração ao ver muito dinheiro. Não tive senão essa paixão nesse mundo.

9. Compreendeis que isso era da avareza? – R. Sim, compreendo agora que era um miserável; entretanto, meu coração é ainda muito terrestre, e sinto uma certa alegria ao ver meu ouro; mas não posso apalpá-lo, e isso é um começo de punição na vida em que estou.

10. Não sentíeis, pois, nenhum sentimento de piedade para com os infelizes que sofriam a miséria, e jamais vos chegou, portanto, o pensamento de aliviá-los? – R. Por que não tinham dinheiro? Tanto pior para eles!

11. Lembrai-vos da existência que tivestes antes daquela que acabastes de deixar? – R.- Sim, eu era pastor, bem infeliz de corpo, mas feliz de coração.

12. Quais foram vossos primeiros pensamentos quando vos reconhecestes no mundo dos Espíritos? – R. Meu primeiro pensamento foi procurar minhas riquezas, e sobretudo o meu ouro. Quando não vi senão o espaço, fui bem infeliz; meu coração se atormentou, e remorso começou a se apoderar de mim. Quanto mais me irava, mais sofria pela minha avareza terrestre.

13. Qual é para vós, agora, a conseqüência da vossa vida terrestre? – R. Inútil diante da eternidade, mas infeliz para mim diante de Deus.

14. Prevedes uma nova existência corporal? – R. Não o sei.

15. Se deveríeis ter, proximamente, uma nova existência corporal, qual escolheríeis? – R. Eu escolheria uma existência que pudesse me tornar útil aos meus semelhantes.

16. Quando vivo não tínheis amigos na Terra, porque um avaro como vós não pode tê-lo; tende-os entre os Espíritos? – R. Não chamei nunca por ninguém; meu anjo guardião, a quem muito ofendi, foi o único que teve piedade de mim.

17. Na vossa entrada no mundo dos Espíritos, houve quem viesse vos receber? – R. Sim, minha mãe.

18. Já fostes evocado por outras pessoas? – R. Uma vez por pessoas que maltratei.

19. Não estivestes na África num centro onde se ocupa com os Espíritos? – R. Sim, mas todas essas pessoas não tinham nenhuma piedade de mim, e foi bem penoso; aqui se é compassivo.

20. Nossa evocação vos aproveitará? – R. Muito.

21. Como adquiristes vossa fortuna? – R. Eu ganhei um pouco lealmente; mas extorqui muito e um pouco roubei meus semelhantes.

22. Podemos fazer alguma coisa por vós? – R. Sim, um pouco de vossa piedade para uma alma em pena.

(Sociedade, 9 de setembro de 1859).

QUESTÕES DIRIGIDAS A SÃO LUÍS A PROPÓSITO DO PAI CRÉPIN.

1. O pai Crépin, que evocamos a última vez, era um tipo raro de avareza; ele não pôde darnos explicações sobre a causa dessa paixão nele; serieis bastante bom para supri-lo? Ele nos disse que fora pastor, muito infeliz de corpo, mas feliz de coração; não vemos aí nada que pudesse desenvolver nele essa avareza sórdida; poderíeis dizer-nos o que pôde fazê-la nascer? -R. Ele era ignorante, inexperiente; pediu a riqueza; ela lhe foi concedida, mas como punição de seu pedido; ele não recomeçará mais, crede-o bem.

2. O pai Crépin nos oferece o tipo da avareza ignóbil, mas essa paixão tem nuanças. Assim, há pessoas que não são avaras senão para outros; perguntamos qual é o mais culpável se aquele que amontoa pelo prazer de amontoar, e se recusa mesmo o necessário, ou aquele que, não se privando de nada, é avarento quando se trata do menor sacrifício para o seu próximo? – R. É evidente que o último é mais culpável, porque é profundamente egoísta; o outro é louco.

3. O Espírito, nas provas que deve suportar para chegar à perfeição, deve sofrer todos os gêneros de tentação, e poder-se-ia dizer que, para o pai Crépin a vez da avareza chegou no meio das riquezas que estavam à sua disposição, e que o sucumbiu? – R. Isso não é geral, mas é exato para ele. Sabeis que há os que, desde o início, tomam um caminho que os isenta de muitas provas.

o pai crepin

Sociedade Espírita no século XVIII

Revista Espírita, outubro de 1859

SENHOR PRESIDENTE,

“Não é de 1853, época em que os Espíritos começaram a manifestar-se pelo movimento as mesas e pelas pancadas, que data a renovação das evocações. Na história do Espiritismo, que lemos em vossas obras, não fazeis menção de uma Sociedade como a nossa, cuja existência, para minha grande surpresa, me foi revelada por Mercier, em seu painel de Paris, edição de 1788, capítulo intitulado: Espiritualistas. 12º volume. Eis o que ele disse:

“Por que a teologia, a filosofia e a história fazem menção de várias aparições de Espíritos, de gênios ou de demônios? A crença de uma parte da antigüidade era de que cada homem tinha dois Espíritos, um bom que o chamava à virtude, outro mau que o convidava para o mal.

“Uma seita nova acredita no retorno dos Espíritos neste mundo. Ouvi várias pessoas que estavam realmente persuadidas de que existem meios para evocá-los. Estamos rodeados de um mundo que não percebemos. Ao nosso redor estão seres dos quais não fazemos idéias; dotados de uma natureza intelectual superior, eles nos vêem. Nada de vazio no

Universo: eis o que asseguram os adeptos da ciência nova.

“Assim, o retorno das almas dos mortos acreditado em toda a antigüidade, do qual nossa filosofia zombava, está adotado hoje por homens que não são nem ignorantes, nem supersticiosos. Todos esses Espíritos, aliás, chamados na Escritura os Príncipes do ar estão sempre sob a vontade arbitrária do senhor da Natureza. Aristóteles disse que os Espíritos aparecem freqüentemente aos homens pelas necessidades uns dos outros. Não faço mais que reportar aqui o que os partidários da existência dos gênios nos dizem.

“Crendo-se na imortalidade da alma, é necessário admitir que essa multidão de Espíritos pode se manifestar depois da morte. Entre essa grande quantidade de prodígios dos quais todos os países da Terra estão cheios, se um só ocorreu, a incredulidade é injusta.

Creio, portanto, que não haveria menos temeridade em negar do que em sustentar a verdade das aparições. Estamos num mundo desconhecido.”

Não cê acusará Mercier de incredulidade e de ignorância, e vemos, no extrato que precede, que ele não rejeitava a priori as manifestações dos Espíritos, embora não tivesse ocasião de ser delas testemunha. Mas um homem sábio suspenderia seu julgamento até estar mais informado. Já, a propósito do magnetismo, havia dito: “Isso é tão misterioso, tão profundo, tão incrível, que é necessário rir ou cair de joelhos; não faço nem um e nem o outro: eu observo e eu espero.

Seria interessante saber porque essas evocações, renovadas em 1788, ficaram interrompidas até 1853. Seria porque os membros da Sociedade, que delas se ocupavam, pereceram durante a Revolução? É deplorável que Mercier não tenha dado a conhecer o nome do presidente dessa Sociedade.

Aceitai, etc.

“Det…….

Membro titular da Sociedade.”

Nota. O fato narrado por Mercier tem uma importância capital da qual ninguém desprezará o alcance. Ele prova que, desde essa época, homens recomendáveis pela sua inteligência se ocupavam seriamente com a ciência espírita. Quanto à causa que levou à cessação dessa Sociedade, sem dúvida, é provável que as perturbações que surgiram lhe foram uma grande parte; mas não é exato dizer que as evocações foram interrompidas até 1853. Em torno desta última época, é verdade, as manifestações tomaram um maior desenvolvimento, mas está averiguado que elas jamais cessaram. Em 1818, temos entre as mãos uma notícia manuscrita sobre as Sociedades Teosóficas que existiam no começo deste século, e que pretendiam que, pelo recolhimento e pela prece, poder-se-ia colocar-se em comunicação com os Espíritos; era provavelmente seqüência daquela da qual fala Mercier. Desde 1800, o célebre abade Faria, de acordo com um cônego seu amigo, antigo missionário no Paraguai, se ocupava da evocação e obtinha comunicações escritas. Todos os dias aprendemos que pessoas as tinham em Paris, bem antes que não fosse questão dos Espíritos da América. Mas é necessário dizer também que, antes dessa época, todos aqueles que possuíam esse conhecimento dele faziam mistério; hoje, que está no domínio público, ele se vulgariza, eis toda a diferença, e se fora uma quimera não seria implantada em alguns anos, nas cinco partes do mundo; o bom senso já lhe teria feito justiça, precisamente porque cada um é capaz de ver e de compreender. Ninguém, sem dúvida, não contestará o progresso que essas idéias fazem cada dia, e isso nas classes mais esclarecidas da sociedade. Ora, uma idéia sobre a qual se chama o raciocínio, que cresce em pleno dia, pela discussão e pelo exame, não tem os caracteres de uma utopia.Aceitai, etc.

“Det…….

Membro titular da Sociedade.”

Nota. O fato narrado por Mercier tem uma importância capital da qual ninguém desprezará o alcance. Ele prova que, desde essa época, homens recomendáveis pela sua inteligência se ocupavam seriamente com a ciência espírita. Quanto à causa que levou à cessação dessa Sociedade, sem dúvida, é provável que as perturbações que surgiram lhe foram uma grande parte; mas não é exato dizer que as evocações foram interrompidas até 1853. Em torno desta última época, é verdade, as manifestações tomaram um maior desenvolvimento, mas está averiguado que elas jamais cessaram. Em 1818, temos entre as mãos uma notícia manuscrita sobre as Sociedades Teosóficas que existiam no começo deste século, e que pretendiam que, pelo recolhimento e pela prece, poder-se-ia colocar-se em comunicação com os Espíritos; era provavelmente seqüência daquela da qual fala Mercier. Desde 1800, o célebre abade Faria, de acordo com um cônego seu amigo, antigo missionário no Paraguai, se ocupava da evocação e obtinha comunicações escritas. Todos os dias aprendemos que pessoas as tinham em Paris, bem antes que não fosse questão dos Espíritos da América. Mas é necessário dizer também que, antes dessa época, todos aqueles que possuíam esse conhecimento dele faziam mistério; hoje, que está no domínio público, ele se vulgariza, eis toda a diferença, e se fora uma quimera não seria implantada em alguns anos, nas cinco partes do mundo; o bom senso já lhe teria feito justiça, precisamente porque cada um é capaz de ver e de compreender. Ninguém, sem dúvida, não contestará o progresso que essas idéias fazem cada dia, e isso nas classes mais esclarecidas da sociedade. Ora, uma idéia sobre a qual se chama o raciocínio, que cresce em pleno dia, pela discussão e pelo exame, não tem os caracteres de uma utopia.

 

espiritos seculo xviii