Intervenção da ciência no Espiritismo

Revista Espírita, junho de 1859

A oposição das corporações de sábios é um dos argumentos que os adversários do Espiritismo invocam sem cessar. Por que não se apossaram do fenômeno das mesas girantes? Se eles tivessem alguma coisa de séria, diz-se, não teriam vigiado em negligenciar fatos tão extraordinários, e ainda menos tratá-los com desdém, ao passo que estão todos contra vós. Os sábios não são os archotes das nações, e seu dever não é espargir a luz? Por que quereríeis que eles a sufocassem, então que uma bela ocasião se lhes apresentava para revelar ao mundo uma força nova? – De início, é um grande erro dizer que todos os sábios estão contra nós, uma vez que o Espiritismo se propaga precisamente na classe esclarecida. Não há sábios senão na ciência oficial e nos corpos constituídos. Do fato de que o Espiritismo não tem ainda direito de cidadania na ciência oficial, isso prejulga a questão? Conhece-se a circunspecção daquela a respeito de idéias novas. Se a ciência jamais houvesse se enganado, sua opinião poderia aqui pesar na balança; infelizmente, a experiência prova o contrário. Ela não repudiou como quimeras uma multidão de descobertas que, mais tarde, ilustraram a memória de seus autores? Isso quer dizer que os sábios são ignorantes? Isso justifica os epítetos triviais, muito de mau gosto, que certas pessoas se comprazem em lhes prodigalizar? Seguramente não; não há pessoa sensata que não renda justiça ao seu saber, embora reconhecendo que não são infalíveis, e que seu julgamento não é em última instância. Seu erro é o de resolver certas questões um pouco levianamente, fiando-se muito em suas luzes, antes que o tempo tenha dito sua palavra, e expor-se, assim, a receber desmentidos da experiência.

Cada um não é bom juiz senão naquilo que é da sua competência. Se quereis edificar uma casa, pegais um músico? Se estais doente, vos fareis tratar por um arquiteto? Se tendes um processo, tomais os conselhos de um dançarino? Enfim, tratando-se de uma questão teológica, a resolvereis com um químico ou um astrônomo? Não, cada um em seu ofício. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode manipular à vontade; os fenômenos que ela produz têm por agentes as forças materiais.

Os do Espiritismo têm por agentes inteligências que têm sua independência, seu livre arbítrio, e não estão submissas aos nossos caprichos; eles escapam, assim, aos procedimentos anatômicos ou de laboratórios, e aos nossos cálculos, e desde então não são da alçada da ciência propriamente dita. A ciência estava, pois, afastada do bom caminho quando quis experimentar os Espíritos como uma pilha voltaica; ela partiu de uma idéia fixa, na qual se aferra e quer forçosamente ligar a idéia nova; fracassou e assim deveria ser, porque operou tendo em vista uma analogia que não existe; depois, sem ir mais longe, concluiu pela negativa: julgamento temerário que o tempo se encarrega, todos os dias, de reformar, como reformou muitos outros, e aqueles que o pronunciaram o serão pela vergonha de estarem inscritos, muito levianamente, em falso contra o poder infinito do Criador. As corporações sábias não têm, pois, e não terão jamais, que se pronunciarem sobre a questão; ela não é mais da sua competência do que aquela de decretar se Deus existe; é, pois, um erro julgálas. Mas quem, pois, será o juiz?

Os Espíritas não se crêem no direito de impor suas idéias? Não, o grande juiz, o soberano juiz será a opinião pública; quando essa opinião estiver formada pelo assentimento das massas e dos homens esclarecidos, os sábios oficiais a aceitarão como indivíduos e suportarão a força das coisas. Deixai passar uma geração, e com ela os preconceitos do amor próprio que apaixona, e vereis que assim será com o Espiritismo, como com tantas verdades que se combateu, e seria ridículo agora pôr em dúvida. Hoje, os crentes são os tratados de loucos; amanhã, será a vez daqueles que não crerem, absolutamente como se chamou outrora de loucos aqueles que criam que a Terra gira, o que não a impediu de girar.

Mas nem todos os sábios julgaram do mesmo modo; ocorre que se fez o raciocínio seguinte:

Não há efeitos sem causa, e os mais vulgares efeitos podem colocar no caminho dos maiores problemas. Se Newton tivesse desprezado a queda de uma maçã, se Galvaní houvesse repelido sua serva, tratando-a de louca e visionária, quando ela lhe falou das rãs que dançam no prato, talvez estivéssemos ainda procurando a admirável lei da gravidade e as fecundas propriedades da pilha. O fenômeno que se designa sob o nome burlesco de dança das mesas, não é mais ridículo do que o da dança das rãs, e ele encerra, talvez, também alguns desses segredos da Natureza que revolucionam a Humanidade, quando se lhes tem a chave. Além disso, eles se disseram: Uma vez que tantas pessoas dele se ocupam, uma vez que homens sérios dele fizeram um estudo, ó necessário que haja alguma coisa; uma ilusão, uma mania querendo-se, não pode ter esse caráter de generalidade; ela pode seduzir um círculo, uma sociedade, mas não faz a volta ao mundo.

Heis, notadamente, o que nos disse um sábio doutor médico, há pouco incrédulo, e hoje adepto fervoroso:

“Diz-se que seres invisíveis se comunicam; e por que não? An tes da invenção do microscópio, supunha-se a existência desses milhões de animálculos que causam tanto estrago na economia? Onde está a impossibilidade material de que há, no espaço, seres que escapam aos nossos sentidos? Teríamos por acaso a ridícula pretensão de tudo saber e dizer a Deus que não pode mais nos ensinar? Se esses seres invisíveis que nos cercam são inteligentes, por que não se comunicariam conosco? Se estão em relação com os homens, devem desempenhar um papel na destinação, nos acontecimentos; quem sabe?

Talvez sejam uma das potências da Natureza, uma dessas forças ocultas que não supúnhamos. Que horizonte novo isso abre ao pensamento! Que vasto campo de observação! A descoberta do mundo dos invisíveis seria bem outra coisa que a dos infinitamente pequenos; isso seria mais do que uma descoberta, seria toda uma revolução nas idéias. Que luz pode dela jorrar! Quantas coisas misteriosas explicadas!

Aqueles que nisso crêem são lançados ao ridículo; mas o que isso prova? Não ocorreu o mesmo com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi repelido, cumulado de desgostos, tratado de insensato? Essas idéias, diz-se, são tão estranhas, que a razão a elas se recusa; mas àquele que se houvesse dito, há apenas meio século, que em alguns minutos corresponder-se-ia de um lado do mundo ao outro; que em algumas horas atravessar-se-ia a França; que com a fumaça de um pouco de água fervente um navio caminharia com vento contrário; que se extrairia da água os meios de se iluminar e de se aquecer; ter-se-lhe-ia rido ao nariz. Que um homem viesse propor um meio de iluminar toda Paris num ápice, com um único reservatório de uma substância invisível, terse-ia enviado-o a Charenton. É, pois, uma coisa mais prodigiosa que o espaço esteja povoado por seres pensantes que, depois de viverem na Terra, deixaram seu envoltório material? Não se encontra, nesse fato, a explicação de uma multidão de crenças que remontam à mais alta antigüidade? Não é a confirmação da existência da alma, de sua individualidade depois da morte? Não é a prova da própria base da religião? Somente a religião não nos diz senão vagamente em que se tornam as almas; o Espiritismo o define.

Que podem a isso dizer os materialistas e os ateus? Que semelhantes coisas valem bem a pena de serem aprofundadas.”

Eis as reflexões de um sábio; mas de um sábio sem pretensões; são assim também as de uma multidão de homens esclarecidos; eles refletiram, estudaram seriamente e sem tomar partido; tiveram a modéstia de não dizerem: Eu não compreendo, portanto, isso não é; sua convicção se formou pela observação e pelo recolhimento. Se essas idéias fossem quimeras, pensa-se que tantas pessoas de elite as aceitariam? Que foram por muito tempo vítimas de uma ilusão? Não há, pois, impossibilidade material para que existam seres invisíveis para nós e povoando o espaço, e apenas essa consideração deveria conduzir a maior circunspecção. Recentemente, quem houvera pensado que uma límpida gota d’água pudesse encerrar milhares de seres vivos, de uma pequenez que confunde a nossa imaginação? Ora, era mais difícil, à razão, conceber seres de uma tal tenuidade, providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós, do que admitir aqueles que chamamos Espíritos?

Os adversários perguntam por que os Espíritos, que devem ter ardor em fazer prosélitos, não se prestam, melhor do que o fazem, aos meios para convencer certas pessoas, cuja opinião seria de uma grande influência. Acrescentam que se lhes opõem uma falta de fé; a isso eles respondem com razão que não podem ter uma fé antecipada.

É um erro crer que a fé seja necessária, mas a boa fé, é outra coisa. Há céticos que negam até a evidência, e que milagres não poderiam convencer. Há-os mesmo que ficariam muito irritados sendo forçados a crer, porque seu amor próprio sofreria em convir que estão enganados. Que responder a essas pessoas que não vêem, por toda parte, senão ilusão e charlatanismo? Nada; é necessário deixá-las tranqüilas, e dizerem enquanto quiserem que nada viram, e mesmo que nada pôde fazê-las ver. Ao lado desses céticos endurecidos, há aqueles que querem ver à sua maneira; que, tendo-se formado uma opinião, a ela querem tudo relacionar, não compreendem que os fenômenos não possam obedecer à sua vontade; não sabem e não querem se colocar nas condições necessárias.

Se os Espíritos não se empenham em convencê-los com prodígios, é porque aparentemente eles têm pouco, no momento, para convencerem certas pessoas das quais não medem a importância como elas mesmas o fazem; é pouco lisonjeiro, é necessário convir, mas não comandamos sua opinião; os Espíritos têm um modo de julgar as coisas que nem sempre é o nosso; eles vêem, pensam e agem segundo outros elementos; ao passo que nossa visão está circunscrita pela matéria, limitada pelo círculo estreito no meio do qual nos encontramos, eles abarcam o conjunto; o tempo, que nos parece tão longo, ó para eles um instante, a distância não é senão um passo; certos detalhes, que nos parecem de uma importância extrema, aos seus olhos, são infantilidades, e, ao contrário, julgam importantes coisas das quais não percebemos a importância. Para compreendê-los, é necessário se elevar, pelo pensamento, acima do nosso horizonte material e moral, e nos colocar em seu ponto de vista; não cabe a eles descerem até nós, mas a nós de subirmos até eles, e é ao que nos conduzem o estudo e a observação. Os Espíritos amam os observadores assíduos e conscienciosos; para eles multiplicam as fontes de luz; o que os afasta, não é a dúvida da ignorância, é a fatuidade desses pretensos observadores que nada observam, que pretendem metê-los no banco dos réus e manobrá-los como marionetes. Sobretudo é o sentimento de hostilidade e de difamação que eles carregam, sentimento que está em seus pensamentos, se não está em suas palavras, apesar de seus protestos em contrário. Para aqueles, os Espíritos nada fazem, e se inquietam muito pouco pelo que possam dizer ou fazer, porque sua vez virá. Por isso, dissemos que não é a fé que é necessária, mas a boa fé; ora, perguntamos se nossos sábios adversários estão sempre nessas condições. Eles querem os fenômenos ao seu comando, e os Espíritos não obedecem ao comando: é necessário esperar seu bom querer. Não basta dizer: mostrai-me tal fato e crerei; é necessário ter a vontade da perseverança, deixar os fatos se produzirem espontaneamente, sem pretender forçá-los ou dirigi-los; aquele que desejardes será precisamente o que não obtereis, mas se apresentarão outros, e aquele que quereis virá talvez no momento em menos o esperais. Aos olhos do observador atento e assíduo, eles surgem das quantidades que se corroboram umas com as outras; mas aquele que crê que basta girar uma manivela para fazer a máquina andar, se engana estranhamente. Que faz o naturalista que quer estudar os costumes de um animal? Manda-o fazer tal ou tal coisa para ter o entretenimento de observá-lo à sua vontade e com sua conveniência? Não; porque bem sabe que não lhe obedecerá; ele espia as manifestações espontâneas de seu instinto; espera-as e as agarra de passagem. O simples bom senso nos mostra que, por mais fortes razões, deve ocorrer o mesmo com os Espíritos, que são inteligências bem mais independentes que a dos animais.

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O músculo fanfarrão

Revista Espírita, junho de 1859

Os adversários do Espiritismo acabam de fazer uma descoberta que deverá contrariar muito os Espíritos batedores; é para eles um golpe, do qual terão muita dificuldade para se levantarem. Que devem pensar, com efeito, da terrível estocada que acabam de lhes dar o senhor Schiff, e depois o senhor Jobert (de Lamballe), e depois o senhor Velpeau?

Parece-me vê-los todos envergonhados com mais ou menos esta linguagem: “Pois bem!

Meu caro, estamos em maus lençóis! Heis-nos derrotados; não contávamos com a anatomia que descobriu as nossas artimanhas. Decididamente, não há meios para se viver num país onde há pessoas que vêem tão claro.” – Vamos, senhores palermas, que crestes ingenuamente em todos esses contos de velhas; impostores que quisestes crêssemos que podem existir seres que não vemos. Ignorantes que credes que alguma coisa possa escapar ao escalpelo, mesmo a vossa alma e vós todos, escritores espíritas ou espiritualistas, mais ou menos espirituais, inclinai-vos e reconhecei que fostes todos enganadores, charlatães, até mesmo velhacos ou imbecis: esses senhores vos deixam a escolha, porque heis a luz, a verdade pura.

“Academia de ciências (sessão de 18 de abril de 1859.) – DA CONTRAÇÃO RÍTMICA MUSCULAR INVOLUNTÁRIA. – O senhor Jobert (de Lamballe) comunica um fato curioso de contrações musculares involuntárias rítmicas do curto perônio lateral direito, que confirma a opinião do senhor Schiff, relativamente ao fenômeno oculto dos Espíritos batedores.

A senhorita X…, com a idade de quatorze anos, bem constituída, desde os seis anos ostentando movimentos involuntários regulares do músculo curto perônio lateral direito, e batimentos que se fazem ouvir atrás do maléolo externo direito, oferecendo a regularidade do pulso. Declararam-se, pela primeira vez, na perna direita, durante a noite, ao mesmo tempo que uma dor muito viva. Pouco tempo depois, o curto perônio lateral esquerdo foi atingido por uma afecção da mesma natureza, mas de menor intensidade.

O efeito desses batimentos é o de provocar a dor, produzir hesitações no caminhar e mesmo determinar quedas. A jovem enferma declarou-nos que a extensão do pé e a compressão exercida sobre certos pontos do pé e da perna bastam para detê-los, mas que, então, continua a sentir a dor e a fadiga no membro.

Quando essa interessante pessoa se nos apresentou, heis em que estado a encontramos:

Ao nível do maléolo externo direito, foi fácil constatar, perto dessa saliência óssea, um batimento regular, acompanhado de uma saliência passageira e de um levantamento das partes moles dessa região, que eram seguidas de um ruído seco sucedendo a cada contração muscular. Esse ruído se fazia ouvir na cama, fora da cama e a uma distância bastante considerável do lugar onde a jovem repousava. Notável pela sua regularidade e seu estrépito, esse ruído a acompanhava por toda parte. Aplicando-se o ouvido sobre a perna, o pé ou sobre o maléolo, distinguia-se um choque incômodo que ganhava toda a largura do trajeto percorrido pelo músculo, absolutamente como um golpe transmitido de uma extremidade à outra de um madeiro. Algumas vezes, esse ruído parecia uma fricção, uma arranhadura, e isso quando as contrações tinham menor intensidade. Esses mesmos fenômenos sempre se reproduziram, quer a doente estivesse de pé, sentada ou deitada, qualquer que fosse a hora do dia ou da noite, quando nós a examinávamos.

Se estudarmos os batimentos produzidos, e se, para maior clareza, decompusermos cada batimento em dois tempos, veremos:

Que, no primeiro tempo, o tendão do curto perônio se desloca saindo da goleira e, necessariamente, levantando o longo perônio lateral e a pele;

Que, no segundo tempo, tendo se cumprido o fenômeno de contração, seu tendão se relaxa, se repõe na goleira, e produz, batendo contra esta, o ruído seco e sonoro do qual falamos.

Ele se renovava, por assim dizer, a cada segundo, e cada vez o pequeno dedo do pé sofria um impulso e a pele que recobria o quinto metatársico era levantada pelo tendão. Ele cessava quando o pé era fortemente estendido. Cessava, ainda, quando era exercida uma pressão sobre o músculo ou a bainha dos perônios.

Nestes últimos anos, os jornais franceses e estrangeiros têm falado muito de ruídos semelhantes a golpes de martelo, ora se sucedendo regularmente, ora tomando um ritmo particular, que se produziam ao redor de certas pessoas deitadas em seu leito.

Os charlatães se apossaram desses fenômenos singulares, cuja realidade, aliás, foi atestada por testemunhas dignas de fé. Tentou-se reportá-los a uma causa sobrenatural, e deles se serviram para explorar a credulidade pública.

A observação da senhorita X… mostra como, sob a influência da contração muscular, os tendões deslocados podem, no momento em que caem em suas goleiras ósseas, produzir batimentos que, para certas pessoas, anunciam a presença de Espíritos batedores.

Com o exercício, todo homem pode adquirir a faculdade de produzir, à vontade, semelhantes deslocamentos dos tendões e batimentos secos que são ouvidos à distância.

Repelindo toda idéia de intervenção sobrenatural e notando que esses batimentos, e esses ruídos se passavam sempre ao pé do leito dos indivíduos agitados pelos Espíritos, o senhor Schiff perguntou-se se a sede desses ruídos não estava neles, antes que fora deles.

Seus conhecimentos anatômicos levaram-no a pensar que poderia bem estar na perna, na região peroneal, onde se acham colocados uma superfície óssea, tendões e uma corrediça comum.

Com essa maneira de ver, estando bem arraigada em seu espírito, fez experiências e ensaios sobre si mesmo, que não lhe permitiram duvidar que o ruído tinha a sua sede atrás do maléolo externo e na corrediça dos tendões peroneais.

Logo o senhor Schiff chegou mesmo a executar ruídos voluntários, regulares, harmoniosos, e pôde, diante de um grande número de pessoas (cerca de cinqüenta ouvintes), imitar os prodígios dos Espíritos batedores com ou sem sapato, de pé ou deitado.

O senhor Schiff estabeleceu que todos esses ruídos têm por origem o tendão do longo perônio, quando passa na goleira peroneal, e acrescentou que coexiste com um adelgaçamento, ou a ausência, da bainha comum ao longo e ao curto perônio. Quanto a nós, admitindo primeiro que todos esses batimentos são produzidos pela queda do tendão contra a superfície óssea peroneal, pensamos, entretanto, que não há necessidade de uma anomalia da bainha para deles se render conta. Bastam a contração do músculo, o deslocamento do tendão e seu retorno à goleira para que o ruído ocorra. Além disso, só o curto perônio é o agente do ruído em questão. Com efeito, ele assume uma direção mais direita que o longo perônio, que sofre vários desvios em seu trajeto; ele está profundamente situado na goteira; recobre inteiramente a goteira óssea, de onde é natural concluir que o ruído é produzido pelo choque desse tendão sobre as partes sólidas da goteira; apresenta fibras musculares até a entrada do tendão na goteira comum, ao passo que, para o longo perônio, é tudo ao contrário.

O ruído é variável em sua intensidade e pode-se, com efeito, distinguir-lhe diversas nuanças. Assim é que, depois do ruído estrepitoso e que se distingue ao longe, encontram-se variedades de ruído, de fricção, de serra, etc.

Pelo método subcutâneo, sucessivamente, fizemos incisão através do corpo do curto perônio lateral direito e do corpo, do mesmo músculo, do lado esquerdo em nossa doente, e mantivemos os membros na imobilidade com a ajuda de um aparelho. Fez-se a reunião e a função dos dois membros foi recuperada, sem nenhum sinal dessa singular e RARA afecção.

SENHOR VELPEAU. Os ruídos, dos quais o senhor Jobert acaba de tratar em sua interessante notícia, me parecem prenderem-se a uma questão bastante vasta.

Observam-se, com efeito, esses ruídos, em grande quantidade de regiões. O quadril, a espádua, o lado interno do pé, muito freqüentemente, tornam-se sua sede. Eu vi, entre outras, uma senhora que, com a ajuda de certos movimentos de rotação da coxa, assim produzia uma espécie de música bastante manifesta para ser ouvida de um canto ao outro do salão. O tendão da parte longa do bíceps braquial engendra-o facilmente saindo de sua corrediça, quando os freios fibrosos, que o retêm naturalmente, venham a se relaxar ou romper-se. Ocorre o mesmo com o músculo superior da perna ou o flexor do grosso dedo do pé, atrás do maléolo interno. Tais ruídos se explicam, assim como o entenderam os senhores Schiff e Jobert, pela fricção ou os sobressaltos dos tendões nas ranhuras ou contra as bordas nas superfícies sinoviais. Conseqüentemente, são possíveis em uma infinidade de regiões ou na vizinhança de uma multidão de órgãos. Ora claros ou ruidosos, ora surdos ou obscuros, por vezes úmidos e de outras secos, variam, aliás, extremamente de intensidade.

Esperamos que o exemplo dado, a esse respeito, pelos senhores Schiff e Jobert venha a levar os fisiologistas a se ocuparem seriamente com esses diversos ruídos, e que darão, um dia, a explicação racional de fenômenos incompreendidos ou atribuídos, até aqui, a causas ocultas e sobrenaturais.

O senhor JULES CLOQUET, com o apoio das observações do senhor Velpeau sobre os ruídos anormais que os tendões podem produzir em diversas regiões do corpo, cita o exemplo de uma jovem de dezesseis a dezoito anos, que lhe foi apresentada no hospital Saint-Louis, numa época na qual os senhores Velpeau e Jobert estavam ligados a esse mesmo estabelecimento. O pai dessa jovem, que se intitulava pai de um fenômeno, espécie de saltimbanco, pretendia tirar proveito de sua filha entregando-a numa exibição pública; ele anunciou que sua filha tinha no ventre um movimento de pêndulo.

Essa jovem estava perfeitamente conformada. Por um ligeiro movimento de rotação na região lombar da coluna vertebral, ela produzia estalidos muito fortes, mais ou menos regulares, segundo o ritmo dos ágeis movimentos que imprimia à parte inferior de seu busto. Esses ruídos anormais podiam ser ouvidos, muito distintamente, a mais de vinte e cinco pés de distância, e se assemelhavam ao ruído de um velho espeto de manivela; eram suspensos à vontade da jovem, e pareciam ter sua sede nos músculos da região lombo-dorsal da coluna vertebral.” .

Esse artigo, tirado de a L’Abeille médicale, e que cremos dever transcrever na íntegra, para a edificação de nossos leitores, e a fim de que não nos acusassem de querer evitar alguns argumentos, foi reproduzido com variantes por diferentes jornais, com epítetos forçados. Não temos o hábito de revelar grosserias; deixamo-las à sua conta, dizendo-nos nosso vulgar bom senso que nada se prova com asneiras e injúrias, por sábio que se seja.

Se o artigo em questão se limitasse a essas banalidades, que nem sempre são marcadas com o cunho da urbanidade e da civilidade, não as teríamos revelado; mas ele trata da questão do ponto de vista científico; ele nos acabrunha por demonstrações com as quais pretende nos pulverizar; vejamos, pois, decididamente, se estamos mortos com o decreto da Academia de ciências, ou bem se temos alguma chance de vivermos como esse pobre louco Fulton, cujo sistema foi declarado, pelo Instituto, um sonho oco, impraticável, o que muito simplesmente privou a França da iniciativa da marinha a vapor; e quem sabe quais as conseqüências que essa força, nas mãos de Napoleon l, poderia ter sobre os acontecimentos ulteriores!

Não faremos senão uma curtíssima nota a respeito da qualificação de charlatão dada aos partidários de idéias novas; parece-nos um tanto arriscada, quando se aplica a milhões de indivíduos que dela não tiram nenhum proveito* e quando ela alcança os cumes mais elevados das regiões sociais. Esquece-se que o Espiritismo fez, em alguns anos, progressos incríveis em todas as partes do mundo; que ele se propaga, não entre os ignorantes, mas nas classes esclarecidas; que conta, em suas fileiras, um número muito grande de médicos, de magistrados, de eclesiásticos, de artistas, de homens de letras, de altos funcionários: pessoas às quais, geralmente, se atribuem algumas luzes e um pouco de bom senso. Ora, confundi-las no mesmo anátema, e enviá-las sem cerimônia às Petites-Maisons, é agir muito insolentemente.

Mas, direis, aquelas pessoas são de boa fé; são vítimas de uma ilusão; não negamos o efeito, não contestamos senão a causa que lhe atribuís, a ciência vem de descobrir a verdadeira causa, fê-la conhecer e, por isso mesmo, fez desabar esse alicerce místico de um mundo invisível que pode seduzir imaginações exaltadas, mas fiéis.

Não nos apontamos como sábios, e ainda menos ousaríamos nos colocar ao nível de nossos honrosos adversários; diremos apenas que os nossos estudos em anatomia, e as ciências físicas e naturais que tivemos a honra de professar, nos permitem compreendermos sua teoria, e que de modo algum estamos aturdidos por essa avalanche de termos técnicos; os fenômenos dos quais eles falam nos são perfeitamente conhecidos.

Nas nossas observações sobre os efeitos atribuídos aos seres invisíveis, não tivemos cautela de negligenciar uma causa tão patente de equívoco. Quando um fato se apresenta, não nos contentamos com uma única observação; queremos vê-lo de todos os lados, sob todas as faces, e antes de aceitarmos uma teoria, examinamos se ela rende conta de todas as circunstâncias, se algum fato desconhecido não vem contradizê-la, em uma palavra, se ela resolve todas as questões: a verdade tem esse preço. Admitis, senhores, que essa maneira de proceder é bastante lógica. Pois bem! Apesar de todo o respeito que impõe o vosso saber, ele apresenta algumas dificuldades na aplicação de vosso sistema a isso que se chama os Espíritos batedores. A primeira é que é ao menos singular que essa faculdade, que o senhor Jobert (de Lamballe) qualifica de rara e singular afecção, tenha se tornado de repente tão comum. O senhor Lamballe disse, é verdade, que todo homem pode adquiri-la pelo exercício; mas como ele disse também que ela é acompanhada de dor e de fadiga, o que é bastante natural, convir-seá que seria necessário ter uma firme vontade de mistificar para fazer estalar seu músculo, durante duas ou três horas seguidas, quando isso não acrescenta nada, e pelo único prazer de divertir uma sociedade.

Mas falemos seriamente; isso é mais grave porque vem da ciência. Esses senhores que descobriram essa maravilhosa propriedade do músculo longo perônio, não desconfiam de tudo o que esse músculo pode fazer; ora, heis um belo problema para resolver. Os tendões deslocados não batem somente nas goleiras ósseas; por um efeito verdadeiramente bizarro, vão bater contra as portas, as paredes, os tetos, e isso à vontade, em tal lugar designado. Mas heis o que é mais forte, e vede quanto a ciência está longe de desconfiar de todas as virtudes desse músculo estalador: ele tem o poder de levantar uma mesa sem tocá-la, de fazê-la bater os pés, passear num aposento, manter-se no espaço sem ponto de apoio; de abri-la e de fechá-la, e avaliai sua a força! de fazê-la quebrar ao cair. Credes que se trata de uma mesa frágil e leve como uma pluma, e que se ergue soprando em cima? Desenganai-vos, trata-se de mesas pesadas e maciças, pesando cinqüenta a sessenta quilos, que obedecem às mocinhas, às crianças. Mas, dirá o senhor Schiff, jamais vi esses prodígios. Isso é fácil de conceber, ele não quis ver senão as pernas.

Em suas observações, o senhor Schif empregou a necessária independência de idéias?

Estava livre de toda prevenção? Disso é permitido duvidar, não somos nós que o dizemos, é senhor Jobert. Segundo ele, o senhor Schif perguntou-se, falando dos médiuns, se a sede desses ruídos não estava antes neles do que fora deles; seus conhecimentos anatômicos levaram-no a pensar que bem poderia estar na perna. Essa maneira de ver estava bem assentada em seu espírito, etc. Assim, da declaração do senhor Jobert, o senhor Schiff tomou por ponto de partida, não os fatos, mas sua própria idéia, sua idéia preconcebida bem assentada; daí as pesquisas em um sentido exclusivo e, por conseqüência, uma teoria exclusiva que explica perfeitamente o fato que ele viu, mas não aqueles que não viu. – E por que não viu? -Porque, em seu pensamento, ele não tinha senão um ponto de partida verdadeiro, e uma explicação verdadeira; partindo daí, todo o resto deveria ser falso e não mereceria exame; disso resultou que, em seu ardor de rachar os médiuns ao meio, ele a feriu de lado.

Credes, Senhores, conhecer todas as virtudes do longo perônio, porque o surprendestes tocando guitarra em sua corrediça? Ah! bem que sim, heis outra coisa a ser registrada nos anais anatômicos. Crestes que o cérebro era a sede do pensamento; errado! Pode-se pensar pela cravelha. As pancadas dão provas de inteligência, portanto, se esses golpes vêm exclusivamente do perônio, que seja o longo, segundo o senhor Schiff, ou o curto, segundo o senhor Jobert, (seria preciso, portanto, entender-se bem a esse respeito): é porque o perônio é inteligente. – Isso nada tem de espantoso; o médium, fazendo estalar seu músculo à vontade, executará o que quiserdes: ele imitará a serra, o martelo, baterá o toque de reunir, o ritmo de uma música pedida. – Seja; mas quando o ruído responde a uma coisa que o médium desconhece inteiramente, que não pode saber; quando vos diz esses pequenos segredos que só vós sabeis, desses segredos que se gostaria de esconder no gorro de dormir, é preciso convir que o pensamento vem de outra parte que não o seu cérebro. De onde vem ele? Por Deus! Do longo perônio. Isso não é tudo, ele é também poeta, esse longo perônio, porque pode compor versos encantadores, embora o médium jamais soubesse fazê-los em sua vida; ele é poliglota, porque dita coisas verdadeiramente muito sensatas em línguas das quais o médium não sabe a primeira palavra; ele é músico… nós o sabemos, o senhor Schiff fez o seu executar sons harmoniosos, com ou sem sapato, diante de cinqüenta pessoas. Sim; mas ele compõe. Vós, senhor Dorgeval, que nos destes recentemente uma encantadora sonata, credes ingenuamente que foi o Espírito de Mozart que vo-la ditou? Em verdade, senhores médiuns, não desconfiáveis de terem tanto espírito em vosso calcanhar. Honra, pois, àqueles que fizeram essa descoberta; que seus nomes sejam escritos em letras grandes para a edificação da posteridade, e a honra de sua memória!

Gracejais com uma coisa séria, dir-se-á; mas os gracejos não são razões. Não, não mais que as asneiras e as grosserias.

Confessando nossa ignorância junto desses senhores, aceitamos sua sábia demonstração e a tomamos muito seriamente. Acreditávamos que certos fenômenos eram produzidos por seres invisíveis que se deram o nome de Espíritos: enganamo-nos, seja; como procuramos a verdade, não teremos a tola pretensão de nos apaixonar por uma idéia que nos é demonstrada falsa, de modo tão peremptório. Desde o momento em que o senha Jobert, por uma incisão subcutânea, pôs termo aos Espíritos, é porque não há Espíritos. Uma vez que ele disse que todos os ruídos vêm do perônio, é necessário crê-lo e admiti-lo em todas as suas conseqüências; assim, quando os golpes se fazem ouvir na parede ou no teto, é porque o perônio aí corresponde, ou que a parede tem um perônio; quando esses golpes ditam versos por uma mesa que bate o pé, de duas coisas uma, ou a mesa é poeta ou bem o perônio; isso nos parece lógico. Vamos mesmo mais longe: um oficial, dos nossos conhecidos, recebeu um dia, fazendo experiências espíritas, e por mão invisível, um par de bofetadas tão bem aplicadas que as sentia ainda duas horas depois.

Ora, o meio de provocar uma reparação? Se semelhante coisa ocorresse com o senhor Jobert, ele não se inquietaria, porque diria que foi fustigado pelo longo perônio.

Eis o que lemos, a esse respeito, no jornal La Mode de 19 de maio de 1859.

“A Academia de medicina continua a cruzada de espíritos positivos contra o maravilhoso em todo gênero. Depois de ter, com justiça, mas talvez um pouco desastradamente, fulminado o famoso doutor negro, pelo órgão do senhor Velpeau, heis agora que acaba de ouvir o senhor Jobert (de Lamballe) declarar, em pleno Instituto, o segredo do que ele chama a grande comédia dos Espíritos batedores, que é representada com tanto sucesso nos dois hemisférios.

“Segundo o célebre cirurgião, todos os toe toe, todos os pan pan fazendo vibrar de boa fé as pessoas que os ouvem; esses ruídos singulares, esses golpes secos batidos sucessivamente e como em cadência, precursores da chegada, sinais certos da presença de habitantes do outro mundo, são muito simplesmente o resultado de um movimento dado a um músculo, a um nervo, a um tendão! Trata-se de uma bizarrice da natureza, habilmente explorada, para produzir, sem que seja possível notá-la, essa música misteriosa que tem encantado, seduzido tanta gente.

“A sede da orquestra está colocada na perna, É o tendão do perônio, jogando em sua corrediça, que faz todos esses ruídos que são ouvidos sob as mesas, ou à distância, à vontade do prestidigitador. .

“Duvido muito, de minha parte, que o senhor Jobert tenha colocado a mão, como ele crê, no segredo do que chama “uma comédia”, e os artigos publicados nesse próprio jornal, pelo nosso confrade senhor Escander, sobre os mistérios do mundo oculto, parece-me colocar a questão com uma amplitude bem mais sincera e filosófica, no bom sentido da palavra.

“Mas se os chariatães de todas as cores são irritantes com seus golpes de bombo, é preciso convir que os senhores sábios, algumas vezes, não o são menos, com o apagador que pretendem pôr sobre tudo o que brilha fora das luzes oficiais.

“Eles não compreendem que a sede do maravilhoso, que devora nossa época, tem justamente por causa os excessos de positivismo onde certos espíritos quiseram empolgar. A alma humana tem necessidade de crer, admirar e ter visto sobre o infinito.

Tem-se trabalhado para tapar as janelas que o catolicismo lhe abriu, ela olha não importa por quais frestas.”

HENRYDEPÈNE.

“Nosso excelente amigo, senhor Henry de Pene, permita-nos uma observação. Ignoramos
quando o senhor Jobert fez essa imortal descoberta, e qual foi o dia memorável no qual comunicou-a ao Instituto. O que sabemos é que essa original explicação já fora dada por outros. Em 1854, o senhor doutor Rayer, um prático célebre, que lá não fez nesse dia a prova de uma rara perspicácia, também ele apresentou, ao Instituto, um Alemão cuja habilidade, segundo ele, daria a chave de todos os knokings e rappings dos dois mundos.

Tratava-se, como hoje, do deslocamento de um dos tendões musculares da perna, chamado o longo perônio. Sua demonstração foi dada em sessão, e a Academia expressou seu reconhecimento por essa interessante comunicação. Alguns dias depois, um professor agregado da Faculdade de medicina consignou o fato no Contitutionnel, e teve a coragem de acrescentar que “os sábios, enfim, tendo se pronunciado, o mistério estava enfim esclarecido.” O que não impediu o mistério de persistir e de aumentar, apesar da ciência que, se recusando experimentá-lo, se contenta em atacá-lo com explicações ridículas e burlescas, como essas das quais acabamos de falar. Por respeito ao senhor Jobert (de Lamballe), nos apraz crer que se lhe emprestou uma experiência que nunca lhe pertenceu. Algum jornal, com fito de novidade, encontrou em algum canto esquecido de sua pasta, a antiga comunicação do senhor Rayer, e a ressuscitou, colocando-a sob seu patrocínio, a fim de variar um pouco. Mutato nomine, de te fábula narratur. É deplorável, sem dúvida, mas isso é melhor do que se o jornal houvesse dito a verdade.”

A. ESCANDE

 

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Aforismos Espíritas e pensamentos destacados

Revista Espírita, maio de 1859

Quando quiserdes estudar a aptidão de um médium, não evoqueis à primeira vista, por seu intermédio, qualquer Espírito, porque não foi dito que o médium esteja apto a servir de intérprete a todos os Espíritos, e que os Espíritos levianos podem usurpar o nome daquele que chamais. Evocai de preferência seu Espírito familiar, porque este virá sempre; então o julgareis por sua linguagem e estareis em melhor condição de apreciar a natureza das comunicações que o médium recebe.

Os Espíritos encarnados agem por si mesmos, segundo sejam bons ou maus; podem agir também sob o impulso de Espíritos não encarnados, dos quais são os instrumentos para o bem ou o mal, ou para o cumprimento de acontecimentos. Assim, com o nosso desconhecimento, somos os agentes da vontade dos Espíritos por aquilo que se passa no mundo, ora num interesse geral, ora num interesse individual. Assim, encontramos alguém que é causa para que façamos ou não façamos alguma coisa; cremos que seja o acaso que no-lo envia, ao passo que, o mais freqüentemente, são os Espíritos que nos impelem um contra o outro, porque esse reencontro deve conduzir a um resultado determinado.

Os Espíritos, encarnando-se em diferentes posições sociais, são como atores que, fora da cena, se vestem como todo o mundo, e na cena, revestem todas as roupas e desempenham todos os papéis, desde rei ao de trapeiro.

Há pessoas que não temem a morte, que a afrontam cem vezes, e que experimentam um certo medo da obscuridade; não têm medo de ladrões e, todavia, no isolamento, no cemitério, na noite, têm medo de qualquer coisa. São os Espíritos que estão perto deles, e cujo contato produz sobre eles uma impressão, e, por conseqüência, um medo do qual não se rendem conta.

As origens que certos Espíritos nos dão pela revelação de pretensas existências anteriores, freqüentemente, são um meio de sedução e uma tentação para o nosso orgulho, que se vangloria por ter sido tal ou qual personagem.

ALLAN KARDEC

 

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O Livro dos Espíritos entre os selvagens

Revista Espírita, maio de 1859

Sabíamos que O Livro dos Espíritos tem leitores simpáticos em todas as partes do mundo, mas estaríamos certamente em dúvida que se pudessem encontrá-los entre os selvagens da América do Sul, sem uma carta que nos foi endereçada de Lima, há alguns meses, e da qual cremos dever publicar a tradução integral, em razão do fato significativo que ela encerra, e do qual cada um compreenderá a importância. Ela traz consigo seu comentário, e não lhe acrescentaremos nenhuma reflexão.

“Muito honrado senhor Allan Kardec,

“Perdoe-me em não vos escrever em francês; compreendo essa língua pela leitura, mas não posso escrevê-la correta e inteligivelmente.

“Freqüento, há mais de dez anos, as povoações aborígenes que habitam a vertente oriental dos Andes, nos países da América, nos confins do Peru. Vosso O Livro dos Espíritos, que obtive em uma viagem a Lima, me acompanha nessas solidões; dizer-vos que eu li com avidez, e que o releio sem cessar, isso não deve vos espantar, também não viria vos perturbar por tão pouca coisa, se não cresse que certas informações podem vos interessar, e se não tivesse o desejo de obter de vós alguns conselhos, que espero de vossa bondade, não duvidando que vossos sentimentos humanos não estejam de acordo com os sublimes princípios de vosso livro.

Esses povos que chamamos selvagens, o são menos do que se crê geralmente; querendo-se dizer que habitam cabanas em lugar de palácios, que não conhecem nossas artes e nossas ciências, que ignoram a etiqueta de pessoas polidas, eles são verdadeiros selvagens; mas sob o aspecto da inteligência, entre eles se encontram idéias de uma justeza espantosa, uma grande finura de observação, e de sentimentos nobres e elevados.

Eles compreendem, com uma maravilhosa facilidade, e têm o espírito, sem comparação, menos pesado do que os camponeses da Europa. Desprezam o que lhes parece inútil, com relação à simplicidade que basta ao gênero de vida. A tradição de sua antiga independência está sempre viva neles, por isso têm uma aversão insuperável por seus conquistadores; mas, se odeiam a raça em geral, prendem-se aos indivíduos que lhes inspiram confiança absoluta. É a essa confiança que devo o viver em sua intimidade, e quando estou no meio deles, estou mais em segurança do que em certas grandes cidades.

Quando os deixo ficam tristes, e me fazem prometer retornar; quando retorno, toda a tribo está em festa.

Essas explicações eram necessárias para aquilo que vai seguir.

Disse-vos que tenho comigo O Livro dos Espíritos. Um dia, tomei o capricho de traduzir-lhes algumas passagens, e fiquei fortemente surpreendido em ver que o compreendiam melhor do que houvera pensado, em conseqüência de certas anotações, muito judiciosas, que faziam. Eis um exemplo.

A idéia de reviver na Terra lhes parecia muito natural, e um deles me disse um dia: quando morrermos, poderemos nascer entre os Brancos?

– Seguramente, respondi. –

Então, talvez sejas um de nossos parentes?

– É possível. –

Sem dúvida, é por isso que és bom para nós e que nós te amamos?

– É ainda possível. – Então, quando encontrarmos um Branco não é preciso fazer-lhe mal porque, talvez, seja um de nossos irmãos.

Admirais, sem dúvida, como eu, senhor, essa conclusão de um selvagem, e o sentimento de fraternidade que ela fez nascer nele. De resto, a idéia de Espíritos não é nova para eles; está em suas crenças, e estão persuadidos de que se pode conversar com os parentes que morreram e que eles vêm visitar os vivos. O ponto importante está em disso tirar partido para moralizá-los, e não creio que isso seja uma coisa impossível, porque eles não têm ainda os vícios de nossa civilização. Aqui é que teria necessidade dos conselhos da vossa experiência. Erra-se, penso, em crer que não se pode influenciar as pessoas ignorantes senão falando aos seus sentidos; penso, ao contrário, que é mantê-las em idéias estreitas, e desenvolver nelas a tendência à superstição. Creio que o raciocínio, quando sé sabe colocá-lo à altura das inteligências, terá sempre um império mais durável.

Na espera da resposta com a qual podereis me favorecer, receberei, etc.

DON FERNANDO GUERRERO.

 

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Refutação de um artigo de O Universo

Revista Espírita, maio de 1859

O jornal O Universo, em seu número de 13 de abril último, contém o artigo do senhor abade Chesnel, onde a questão do Espiritismo está longamente discutida. Tê-lo-íamos deixado passar como tantos outros aos quais não ligamos nenhuma importância, se se tratasse de uma dessas diatribes grosseiras que provam, pelo menos da parte de seus autores, a ignorância mais absoluta daquilo que atacam. Apraz-nos reconhecer que o artigo do senhor abade Chesnel está redigido com espírito diferente. Pela moderação e a conveniência de sua linguagem, merece uma resposta, tanto mais necessária porque esse artigo contém um erro grave e pode dar uma idéia muito falsa seja do Espiritismo em geral, seja em particular do caráter e do objetivo dos trabalhos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Citamos o artigo na íntegra.

“Todo o mundo conhece o espiritualismo do senhor Cousin, essa filosofia destinada a tomar delicadamente o lugar da religião. Hoje, possuímos sob o mesmo título um corpo de doutrina reveladas, que vai se completando pouco a pouco, é um culto muito simples, é verdade, mas de uma eficácia maravilhosa, uma vez que coloca os devotos em comunicação real, sensível e quase sempre permanente com o mundo sobrenatural.

“Esse culto tem assembléias periódicas que se abrem pela invocação de um santo canonizado. Depois de constatar a presença, no meio dos fiéis, de São Luís, rei da França, se lhe suplica interditar, aos maus Espíritos, a entrada do templo, e lê-se a ata da sessão precedente. Depois, com o convite do presidente, um médium sobe à escrivaninha junto ao secretário encarregado de escrever as perguntas feitas por um dos fiéis e as respostas que serão ditadas ao médium, pelo espírito invocado. A assembléia assiste gravemente, piedosamente, a essa cena de necromancia algumas vezes muito longa, e quando a ordem do dia está esgotada, retira-se mais persuadido que nunca da verdade do espiritualismo. Cada fiel, no intervalo que decorre até a reunião seguinte, não negligencia manter um comércio assíduo, mas privado, com aqueles espíritos que lhe são ou os mais acessíveis ou mais caros. Os médiuns são muitos, e não há quase nada de segredo, na outra vida, que os médiuns acabem por penetrar. Esses segredos, uma vez revelados aos fiéis, não são ocultados ao público. A Revista espiritualista que aparece regularmente todos os meses, não recusa nenhuma assinatura profana, e qualquer um pode comprar os livros que contêm o texto revelado com seu comentário autêntico.

“Chegar-se-ia a crer que uma religião, que consiste unicamente da evocação dos mortos, seja muito hostil à Igreja católica, que nunca cessou de interditar a prática da necromancia. Mas esses sentimentos estreitos, por natural que pareçam, não lhe são menos estranhos, assegure-se, ao coração dos espiritualistas. Rendem, de bom grado, justiça ao Evangelho e ao seu Autor, confessam que Jesus viveu, agiu, falou, sofreu como os nossos quatro evangelistas o narram. A doutrina evangélica é verdadeira; mas essa revelação, da qual Jesus foi o órgão, longe de excluir todo o progresso, tem necessidade de ser completada. O espiritualismo é que dará ao Evangelho a sã interpretação que lhe falta e o complemento que espera há dezoito séculos.

“Mas, também, quem assinará limites ao progresso do cristianismo ensinado, interpretado, desenvolvido qual está, por almas libertas da matéria, estranhas às paixões terrestres, aos nossos preconceitos e aos nossos interesses humanos? O próprio infinito se nos descobre; ora, o infinito não tem limites, e tudo nos faz esperar que a revelação do infinito será continuada, sem interrupção; à medida que se escoarem os séculos, ver-se-ão as revelações acrescentadas, sem esgotar jamais esses mistérios, cuja extensão e profundidade parecem aumentar à medida que se libertam da obscuridade que os envolvera até aqui.

“De onde esta conseqüência que o espiritualismo é uma religião, uma vez que nos coloca intimamente em relação com o infinito e que absorve, em se alargando, o cristianismo, que, de todas as formas religiosas presentes ou passadas, é, como se confessa sem dificuldade, a mais elevada, a mais pura e mais perfeita. Mas alargar o cristianismo é uma tarefa difícil, que não pode se cumprir sem derrubar as barreiras atrás das quais está entrincheirado. Os racionalistas não respeitam nenhuma barreira; menos ardentes, ou menos, avisados, os espiritualistas não encontram senão duas, cujo rebaixamento parece indispensável, a saber, a autoridade da Igreja católica, e o dogma da eternidade das penas.

“Esta vida é única prova que será dada ao homem para atravessar? A árvore mora eternamente no canto em que tombou? O estado da alma depois da morte é definitivo, irrevogável e eterno? Não, responde a necromancia espiritualista. Na morte, nada se acaba, tudo recomeça. A morte é, para cada um de nós, o ponto de partida de uma nova encarnação, de uma nova vida e de uma nova prova

“Deus, segundo o panteísmo alemão, não é o ser, mas o vir a ser eterno. O que quer que ele seja de Deus, o homem, segundo os espiritualistas parisienses, não tem outro destino que o futuro progressivo ou retrógrado, segundo seus méritos e segundo suas obras. A lei moral ou religiosa tem uma sanção verdadeira nas outras vidas, onde os bons são recompensados e os maus punidos, mas durante um período, mais ou menos longo, de anos ou de séculos, e não durante a eternidade.

“O espiritualismo seria a forma mística do erro do qual o senhor Jean Reynaud é o teólogo? Talvez. É permitido ir mais longe e dizer que entre o senhor Reynaud e os novos sectários exista um laço mais estreito que aquele da comunidade de doutrinas? Talvez ainda. Mas essa questão por falta de informações certas, não seria decidida aqui de um modo decisivo.

“O que importa muito mais que o parentesco ou as alianças heréticas do senhor Jean Reynaud, é a confusão de idéias da qual o progresso do espiritualismo é o sinal; é a ignorância em matéria de religião, que torna possível tanta extravagância; é a leviandade com a qual os homens, aliás estimáveis, acolhem essas revelações do outro mundo que não têm nenhum mérito, mesmo o da novidade.

“Não é necessário remontar até Pitágoras e aos pais da Igreja para descobrir as origens do espiritualismo contemporâneo. Serão encontradas folheando-se as atas do magnetismo animal.

“Desde o século XVIII, a necromancia desempenha um grande papel nas práticas do magnetismo; e vários anos antes que ocorresse a questão dos Espíritos batedores na América, certos magnetizadores franceses obtiveram, disseram eles, da boca dos mortos ou dos demônios, a confirmação de doutrinas condenadas pela Igreja; e notadamente a dos erros de Orígenes quanto à conversão futura dos maus anjos e dos condenados.

“É preciso dizer também que o médium espiritualista, no exercício de suas funções, pouco difere do sujeito nas mãos do magnetizador, e que o círculo abrangido pelas revelações do primeiro não ultrapassa aquela que limita a visão do segundo.

“As informações que a curiosidade obtém nos assuntos privados, por meio da necromancia, não ensinam, em geral, nada mais do que era conhecido antes. A resposta do médium espiritualista é obscura nos pontos que nossas pesquisas pessoais puderam esclarecer; ela é limpa e precisa nas coisas que nos são bem conhecidas; muda sobretudo sobre o que se oculta aos nossos estudos e aos nossos esforços. Parece, em uma palavra, que o médium tem uma visão magnética de nossa alma, mas que não descobre nada além daquilo que se encontra escrito. Mas essa explicação, que parece bem simples, está, todavia, sujeita a graves dificuldades. Ela supõe, com efeito, que uma alma pode naturalmente ler no fundo de uma outra alma sem os recursos de sinais, independentemente da vontade daquele que se tomaria, para qualquer um, um livro aberto e muito legível. Ora, os anjos, bons ou maus, não possuem naturalmente esse privilégio, nem com relação a nós, nem nas relações diretas que têm entre eles. Só Deus peneira imediatamente os espíritos e escruta, até o fundo, os corações mais obstinadamente fechados à sua luz.

“Se os fatos espiritualistas mais estranhos, que se narram, são autênticos, seria preciso, pois, para explicá-los, recorrer a outros princípios. Esquece-se muito que esses fatos se reportam, em geral, a um objeto que preocupa fortemente o coração ou a inteligência, que provocou longas pesquisas e dos quais, freqüentemente, fala-se fora da consulta espiritualista. Nessas condições, não se pode perder de vista que um certo conhecimento das coisas que nos interessam não ultrapassa nunca os limites naturais da força dos Espíritos.

“Qualquer que ela seja, não há outra coisa, no espetáculo que nos é dado hoje, senão um evolução do magnetismo que se esforça por se tornar uma religião.

“Sob a forma dogmática e polêmica que a nova religião deu ao senhor Jean Reynaud, ela encorajou a condenação do Concilio de Perigueux, cuja competência, lembre-se, foi gravemente negada pelo culpado.

“Na forma mística que ela toma hoje em Paris, merece ser estudada ao menos como um sinal dos tempos em que vivemos. O espiritualismo já recrutou um certo número de homens, entre os quais vários são honrosamente conhecidos no mundo. Esse poder de sedução que ele exerce, o lento progresso, mas não interrompido, que lhe é atribuído por testemunhas dignas de fé, as pretensões que ele ostenta, os problemas que coloca, o mal que pode fazer às almas, eis, sem dúvida, bastante motivos reunidos para atrair, desse lado, a atenção dos católicos. Guardemo-nos de atribuir, à nova seita, mais importância do que realmente ela tem. Mas, para evitar o exagero que aumenta tudo, não caiamos na mania de negar e diminuir todas as coisas. Nolite omni spiritui credere, sed probate spiri-tus si ex Deo sint: Quoniam multi pseudoprophetoe exierunt in mundum. (\ João. IV. 1.)”

O ABADE FRANÇOIS CHESNEL.

 

SENHOR ABADE,

O artigo que publicastes no Universo, concernente ao Espiritismo, contêm vários erros que importa retificar, e que provêm, sem dúvida, de um estudo incompleto da matéria. Para refutá-los todos, seria preciso retomar, desde o alicerce, todos os pontos da teoria, assim como os fatos que lhe servem de base, e é o que não tenho nenhuma intenção de fazer aqui.

Limito-me aos pontos principais.

Desejais reconhecer que as idéias espíritas recrutaram um certo número de homens honrosamente conhecidos no mundo; esse fato, cuja realidade ultrapassa, sem dúvida, de muito o que credes, merece incontestavelmente a atenção de todo homem sério, porque tantas pessoas eminentes, pela sua inteligência, seu saber e sua posição social, não se apaixonariam por uma idéia despida de todo fundamento. A conclusão natural é que no fundo de tudo isso deve haver alguma coisa.

Objetareis, sem dúvida, que certas doutrinas, metade religiosas, metade sociais, encontraram nestes últimos anos sectários nas próprias classes da aristocracia intelectual, o que não lhes impediu caírem no ridículo. Os homens de inteligência podem, pois, se deixarem seduzir-se por utopias. A isso respondo que as utopias não têm senão um tempo; cedo ou tarde; a razão lhe faz justiça; ocorrerá o mesmo com o Espiritismo, se for uma; se for uma verdade, ele triunfará de todas as posições, de todos os sarcasmos, direi mesmo de todas as perseguições, se as perseguições fossem ainda do nosso século, e os detratores o serão à suas expensas; seria bem preciso que, bom grado, malgrado, os opositores o aceitassem, como aceitaram tantas coisas, contra as quais haviam protestado, supostamente em nome da razão. O Espiritismo é uma verdade? O futuro julgará; já parece prenunciar pela rapidez com a qual essas idéias se propagam, e notai bem que não é na classe ignorante e iletrada que elas encontram adeptos, mas, bem ao contrário, entre as pessoas esclarecidas. Há ainda a se anotar que todas as doutrinas filosóficas são obras de homens com pensamentos maiores ou menores, mais ou menos justos; todas têm um chefe, ao redor do qual se agruparam outros homens partilhando a mesma maneira de ver. Qual é o autor do Espiritismo? Quem é aquele que imaginou essa teoria, verdadeira ou falsa? Procurou-se coordená-la, formulá-la, explicá-la, é verdade; mas a idéia primeira, quem a concebeu? Ninguém; ou, por melhor dizer, todo o mundo, porque cada um pôde ver, e aqueles que não viram, foi porque não quiseram ver, ou quiseram ver à sua maneira, sem sair do círculo de suas idéias preconcebidas, o que fez com que vissem mal e julgassem mal. O Espiritismo decorre de observações que cada um pode fazer, que não são nenhum privilégio para ninguém, é o que explica sua irresistível propagação; não é o produto de nenhum sistema individual, e é isso que o distingue de todas as outras doutrinas filosóficas.

Essas revelações do outro mundo não têm mesmo, dissestes, o mérito da novidade. Seria, pois, um mérito apenas a novidade? Quem jamais pretendeu que fosse uma descoberta moderna? Essas comunicações sendo uma conseqüência na natureza humana, e ocorrendo por uma vontade de Deus, fazem parte das leis imutáveis pelas quais rege o mundo; elas, pois, devem existir desde que há homens na Terra eis porque são encontradas na mais alta antigüidade, em todos os povos, na história profana, como também na história sacra. A antigüidade e a universalidade dessa crença são argumentos em seu favor; tirar dela uma conclusão desfavorável, seria falta de lógica antes de tudo.

Dissestes, em seguida, que a faculdade dos médiuns difere pouco da dos sujeitos na mão do magnetizador, dito de outro modo, do sonâmbulo; mas, admitamos mesmo uma perfeita identidade; qual pode ser a causa dessa admirável clarividência sonambúlica, clarividência que não encontra obstáculo nem na matéria, nem na distância; que se exerce sem o concurso dos órgãos da visão? Não é a demonstração mais patente da existência e da individualidade da alma, pivô da religião? Se eu fora padre, e quisesse, num sermão, provar que há em nós outra coisa além do corpo, demonstrá-lo-ia, de modo irrecusável, pelos fenômenos do sonambulismo natural ou artificial. Se a mediunidade não é senão uma variedade do sonambulismo, seus efeitos não são menos dignos de observação. Nela encontraria uma prova a mais em favor de minha tese, e dela faria uma nova arma contra o ateísmo e o materialismo. Todas as nossas faculdades são obras de Deus; quanto maiores e maravilhosas, mais atestam seu poder e sua bondade.

Para mim que, durante trinta e cinco anos, fiz do sonambulismo um estudo especial, que nele fiz um não menos aprofundado de todas as variedades de médiuns, digo, como todos aqueles que não julgam pela visão de uma única face, que o médium é dotado de uma faculdade particular, que não permite confundi-lo com o sonâmbulo, e que a completa independência de seu pensamento está provada por fatos da última evidência, para qualquer que se coloque nas condições requeridas para observar sem parcialidade.

Abstração feita das comunicações escritas, qual é o sonâmbulo que jamais fez jorrar um pensamento de um corpo inerte? Que produziu aparições visíveis e mesmo tangíveis? Que pôde manter um corpo pesado no espaço sem ponto de apoio? Foi por um efeito sonambúlico que um médium desenhou, há quinze dias, em minha casa, na presença de vinte testemunhas, o retrato de uma jovem morta há dezoito meses, e que jamais conhecera, retrato reconhecido pelo pai presente à sessão? Foi por” um efeito sonambúlico que uma mesa respondeu com precisão às perguntas propostas, e mesmo a perguntas mentais? Seguramente, admitindo-se que o médium esteja num estado magnético, parece-me difícil acreditar que a mesma seja sonâmbula.

Dissestes que o médium não fala claramente senão de coisas conhecidas. Como explicar o fato seguinte, e cem outros do mesmo gênero, que se reproduziram muitas vezes e de meu conhecimento pessoal? Um de meus amigos, muito bom médium escrevente, perguntou a um Espírito se uma pessoa que ele perdeu de vistas há quinze anos está ainda neste mundo. “Sim, ele vive ainda, respondeu-lhe; ele mora em Paris, em tal rua e tal número.” Ele foi, e encontrou a pessoa no endereço indicado. Foi ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe essa resposta? Se, em certos casos, as respostas podem concordar com o pensamento, é racional concluir disso que seja uma regra geral? Nisso, como em todas as coisas, os julgamentos precipitados são sempre perigosos, porque podem ser desmentidos pelos fatos que se observam.

De resto, senhor Abade, minha intenção não é fazer aqui um curso de Espiritismo, nem discutir-lhe o erro nem a verdade. Ser-me-ia preciso, como disse sempre, lembrar os inumeráveis fatos que citei na Revista Espírita, assim como as explicações que lhes dei em meus escritos. Chego, pois, à parte de vosso artigo que me parece a mais grave. Intitulastes vosso artigo: Uma religião nova em Paris. Supondo que tal fosse, com efeito, o caráter do Espiritismo, haveria aí um primeiro erro, tendo em vista que está longe de se circunscrever a Paris. Ele conta vários milhões de adeptos, espalhados nas cinco partes do mundo, e Paris não lhe foi o foco primitivo. Em segundo lugar, é uma religião?

Tratarei de mostrar o contrário.

O Espiritismo funda-se sobre a existência de um mundo invisível, formado por seres incorpóreos que povoam o espaço, e que não são outros senão as almas daqueles que viveram na Terra, ou em outros globos, onde deixaram seu envoltório material. São esses seres aos quais demos, ou melhor, que se deram o nome de Espíritos. Esses seres, que nos rodeiam sem cessar, exercem sobre os homens, com o seu desconhecimento, uma grande influência; eles desempenham um papel muito ativo no mundo moral, e, até um certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo está, pois, na natureza, e pode-se dizer que, em uma certa ordem de idéias, é uma força, como a eletricidade é uma outra sob outro ponto de vista, como a gravidade universal é uma outra.

Ele nos revelou o mundo dos invisíveis, como um microscópio nos revelou o mundo dos infinitamente pequenos, que não supúnhamos. Os fenômenos, dos quais esse mundo invisível é a fonte, deveram se produzir, e são produzidos, em todos os tempos, eis porque a história de todos os povos os menciona. Unicamente, em sua ignorância, os homens atribuíram esses

fenômenos a causas mais ou menos hipotéticas, e deram, sob esse aspecto, um livre curso à sua imaginação, como fizeram com todos os fenômenos, cuja natureza lhes era imperfeitamente conhecida. O Espiritismo, melhor observado depois que foi vulgarizado, vem lançar a luz sobre uma multidão de questões até aqui insolúveis ou mal resolvidas. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião, e a prova disso é que conta, entre seus adeptos, com homens de todas as crenças, e que por isso não renunciaram às suas convicções: os católicos fervorosos que não praticam menos todos os deveres de seu culto, protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e até budistas e brâmanes; há de tudo, exceto materialistas e ateus, porque essas idéias são incompatíveis com as observações espíritas. O Espiritismo repousa, pois, sobre princípios gerais independentes de todas as questões dogmáticas. Ele tem, é verdade, conseqüências morais como todas as ciências filosóficas; essas conseqüências estão no sentimento do Cristianismo, porque o Cristianismo, de todas as doutrinas, é a mais clara, a mais pura, e é por esta razão que, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos são os mais aptos a compreendê-lo em sua verdadeira essência. O Espiritismo não é, pois, uma religião: de outro modo teria seu culto, seus templos, seus ministros. Cada um, sem dúvida, pode se fazer uma religião de suas opiniões, interpretar ao seu gosto as religiões conhecidas, mas daí à constituição de uma nova Igreja, há distância, e creio que seria imprudente dar-lhe a idéia. Em resumo, o Espiritismo se ocupa com a observação dos fatos, e não com as particularidades de tal ou tal crença, da procura das causas, de explicações que esses fatos podem dar de fenômenos conhecidos, na ordem piorai como na ordem física, e não impõe mais um culto aos seus adeptos do que a astronomia impõe o culto dos astros, nem a pirotécnica o do fogo. Bem mais: do mesmo modo que o sabeísmo nasceu da astronomia mal compreendida, o Espiritismo, mal compreendido na antigüidade, foi a fonte do politeísmo. Hoje que, graças às luzes do Cristianismo, podemos julgá-lo mais sadiamente, nos põe em guarda contra os sistemas errôneos, frutos da ignorância; e a própria religião pode nele haurir a prova palpável de muitas verdades contestadas por certas opiniões; eis porque, contrariamente à maioria das ciências filosóficas, um dos seus efeitos é o de conduzir às idéias religiosas aqueles que se desviaram por um ceticismo exagerado.

A Sociedade, da qual falais, definiu seu objetivo por seu próprio título; o nome de: Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não se parece com nada de uma seita; tem-lhe tão pouco caráter, que seu regimento lhe interdita ocupar-se de questões religiosas; ela está alinhada na categoria de sociedades científicas porque, com efeito, seu objetivo é estudar e aprofundar todos os fenômenos que resultam das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; ela tem seu presidente, seu secretário, seu tesoureiro, como todas as sociedades; não convida o público às suas sessões; ali não se faz nenhum discurso, nem nada que tenha o caráter de um culto qualquer. Ela procede aos seus trabalhos com calma e recolhimento, primeiro porque é uma condição necessária para as observações; segundo, porque sabe o respeito que se deve àqueles que não vivem mais na Terra. Chama-os em nome de Deus, porque crê em Deus, em seu todo poder, e sabe que nada se faz neste mundo sem a sua permissão. Abre a sua sessão por uma chamada geral aos bons Espíritos, porque, sabendo que os há bons e maus, prende-se a que estes últimos não venham misturar-se fraudulentamente às comunicações que recebem e induzi-la em erro. O que isso prova? Que não somos ateus; mas isso não implica, de nenhum modo, que sejamos religiosos; é do que deveria convencer-se a pessoa que vos narrou o que se faz entre nós, se ela tivesse seguido nossos trabalhos, e se, sobretudo, os julgasse menos levianamente, e talvez com espírito menos prevenido e menos apaixonado. Os fatos protestam, pois, por si mesmos, contra a qualificação de nova seita que destes à Sociedade, por falta, sem dúvida, de melhor conhecê-la.

Terminais vosso artigo chamando a atenção dos católicos para o mal que o Espiritismo pode fazer às almas. Se as conseqüências do Espiritismo fossem a negação de Deus, da alma, de sua individualidade depois da morte, do livre arbítrio do homem, das penas e das recompensas futuras, seria uma doutrina profundamente imoral; longe disso, ele prova, não pelo raciocínio, mas pelos fatos, essas bases fundamentais da religião, da qual o mais perigoso inimigo é o materialismo. E faz mais: por suas conseqüências ensina a suportar, com resignação, as misérias desta vida; acalma o desespero; ensina os homens a se amarem como irmãos, segundo os divinos preceitos de Jesus. Se soubésseis, como eu, quantos incrédulos endurecidos conduziu, quanto arrancou de vítimas ao suicídio pela perspectiva da sorte reservada àqueles que abreviam sua vida, contrariamente à vontade de Deus; quantos ódios acalmou e aproximou inimigos! Está aí o que chamais fazer mal às almas? Não, não podeis pensar assim, e apraz-me crer que se o conhecesse melhor, julgá-lo-ia de outro modo. A religião, direis, pode fazer tudo isso. Longe de mim contestá-lo; mas crede que teria sido mais feliz para aqueles que ela encontrou rebeldes, seres que permaneceram numa incredulidade absoluta? Se o Espiritismo disso triunfou, se tornou claro o que era obscuro, evidente o que era duvidoso, onde está o mal? Para mim, digo que em lugar de perder as almas, ele as salvou.

Aceite, etc.

ALLAN KARDEC.

 

Refutação de um artigo de O Universo.jpg

O laço do Espírito e do corpo

Revista Espírita, maio de 1859

A senhora Schutz, uma de nossas amigas, que é perfeitamente deste mundo, e não parece dever deixá-lo tão cedo, tendo sido evocada durante seu sono, mais de uma vez, nos deu a prova da perspicácia de seu Espírito nesse estado. Um dia, ou melhor uma noite, depois de uma conversa bem longa, ela disse: Estou fatigada; tenho necessidade de repouso; eu durmo; meu corpo dele tem necessidade.

Sobre isso se lhe fez esta pergunta: Vosso corpo pode repousar; falando-vos, eu não o altero; é vosso Espírito que está aqui, e não o vosso corpo; podeis, pois, conversar comigo, sem que este sofra com isso. Ela respondeu:

“Estais errado crendo isso; meu Espírito se desliga bem pouco do meu corpo, mas é como um balão cativo retido por cordas. Quando o balão recebe os abalos ocasionais pelo vento, o poste que o mantém cativo sente a comoção dos abalos transmitidos pela amarração. Meu corpo está no lugar do poste, com a diferença que ele experimenta sensações desconhecidas ao poste, e que essas sensações cansam muito o cérebro; eis porque meu corpo, como meu Espírito, têm necessidade de repouso.”

Esta explicação, na qual nos declarou que, durante a vigília, ela não havia jamais sonhado, mostra perfeitamente as relações que existem entre o corpo e o Espírito, quando este último goza de uma parte de sua liberdade. Sabemos muito bem que a separação absoluta não ocorre senão depois da morte, e mesmo algum tempo depois da morte, mas essa ligação não nos fora pintada com uma imagem tão clara e tão surpreendente; também felicitamos sinceramente essa senhora por tanto espírito que tinha enquanto dormia. Isso, todavia, não nos pareceria senão uma engenhosa comparação, quando recentemente essa figura tomou proporção de realidade. – O senhor R…, antigo ministro residente nos Estados Unidos, junto ao rei de Nápoles, homem muito esclarecido sobre o Espiritismo, vindo nos ver, perguntounos se, nos fenômenos de aparição, nunca havíamos observado uma particularidade distintiva entre o Espírito de uma pessoa viva e o de uma pessoa morta; em uma palavra, se. quando um Espírito aparece espontaneamente, seja durante a vigília, seja durante o sono, temos um meio de reconhecer se a pessoa está morta ou viva. Sobre nossa resposta de que disso não conhecemos além do que perguntá-lo ao Espírito, ele nos disse conhecer na Inglaterra um médium vidente, dotado de um grande poder, que, cada vez que o Espírito de uma pessoa viva se apresentava a ele, notava um rastro luminoso, partindo do peito, atravessar o espaço sem ser interrompido pelos obstáculos materiais, e indo chegar ao corpo, espécie de cordão umbilical, que une as duas partes momentaneamente separadas do ser vivo. Ele jamais notou quando a vida corpórea não existe mais, e é por esse sinal que reconhece se o Espírito é de uma pessoa morta ou ainda viva.

A comparação da senhora Schutz nos veio ao pensamento, e dela encontramos a confirmação do fato que acabamos de narrar. Faremos, todavia, uma nota a esse respeito.

Sabe-se que no momento da morte a separação não é brusca; o perispírito não se desliga senão pouco a pouco, e enquanto dure a perturbação, ele conserva uma certa afinidade com o corpo. Não seria possível que o laço observado pelo médium vidente, do qual acabamos de falar, subsistisse ainda quando o Espírito aparece no próprio momento da morte, ou poucos instantes depois, como isso ocorre freqüentemente? Nesse caso, a presença desse cordão não seria um indício de que a pessoa está viva. O senhor R… não pôde nos dizer se o médium fez essa anotação. Em todos os casos, a observação não é menos importante, e lança uma nova luz sobre isso que podemos chamar a fisiologia dos Espíritos.

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Os mundos intermediários ou transitórios

Revista Espírita, maio de 1859

Viu-se, por uma das respostas narradas no artigo precedente, que haveria, ao que parece, mundos destinados aos Espíritos errantes. A idéia desses mundos não estava no pensamento de nenhum dos assistentes, e ninguém não a imaginara sem a revelação espontânea de Mozart, nova prova de que as comunicações espíritas podem ser independentes de toda opinião preconcebida. Com o objetivo de aprofundar essa questão, submetemo-la a um outro Espírito, fora da Sociedade e por intermédio de um outro médium, que disso não tinha nenhum conhecimento.

1. (A Santo Agostinho.) Existem, como nos foi dito, mundos que servem aos Espíritos errantes de estação e de ponto de repouso? – R. Há-os, mas não graduados; quer dizer que ocupam posições intermediárias entre os outros mundos, segundo a natureza dos Espíritos que podem aí chegar, e que neles gozam de um bem-estar maior ou menor.

2. Os Espíritos que habitam esses mundos podem deixá-los à vontade? – R. Sim; os Espíritos que se acham nesses mundos podem se desligar deles para irem onde devem ir. Figurai-vos aves de arribação abatendo-se sobre uma ilha à espera de recuperar forças para alcançar o seu destino.

3. Os Espíritos progridem durante suas estações nos mundos intermediários? – R. Certamente; aqueles que assim se reúnem, fazem-no com o objetivo de se instruírem e de poderem, mais facilmente, obter a permissão de alcançarem lugares melhores, e atingir a posição que os eleitos obtêm.

4. Esses mundos são perpetuamente, e por sua natureza especial, destinados aos Espíritos errantes? – R. Não; sua posição não é senão transitória.

5. São eles, ao mesmo tempo, habitados por seres corpóreos? – R. Não.

6. Têm uma constituição análoga à dos outros planetas? – R. Sim, mas a superfície é estéril.

7. Por que essa esterilidade? – R. Aqueles que os habitam de nada necessitam.

8. Essa esterilidade é permanente e prende-se à sua natureza especial? – R. Não, eles são estéreis por transição.

9. Esses mundos devem, então, estar desprovidos de belezas naturais? – R. A Natureza se traduz pelas belezas da imensidão que não são menos admiráveis daquilo que chamais as belezas naturais.

10. Há desses mundos no nosso sistema planetário? – R. Não.

11. Uma vez que seu estado é transitório, nossa Terra será um dia desse número? – R. Ela o foi.

12. Em qual época? – R. Durante a sua formação.

Nota. – Essa comunicação confirma, uma vez mais, essa grande verdade que nada é inútil na Natureza; cada coisa tem seu objetivo, sua destinação; nada está no vazio, tudo está habitado, a vida está por toda parte. Assim, durante a longa série de séculos que escoaram antes da aparição do homem na Terra, durante esses lentos períodos de transição atestados pelas camadas geológicas, antes mesmo da formação dos primeiros seres orgânicos; sobre essa massa informe, nesse árido caos onde os elementos estavam confundidos, não havia ausência de vida; seres que não tinham nem nossas necessidades, nem nossas sensações físicas aí encontravam refúgio. Deus quis que, mesmo nesse estado imperfeito, ela servisse para alguma coisa. Quem, pois, ousaria dizer que entre esses milhares de mundos que circulam na imensidão, um só, um dos menores, perdido na multidão, tivesse o privilégio exclusivo de ser povoado. Qual seria, pois, a utilidade dos outros? Deus não os teria feito senão para recrear nossos olhos? Suposição absurda, incompatível com a sabedoria que brilha em todas as suas obras.

Ninguém contestará que há, nessa idéia de mundos ainda impróprios para a vida material, e todavia povoados por seres vivos apropriados a esse meio, alguma coisa de grande e sublime onde se encontra, talvez, a solução de mais de um problema.

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