Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Revista Espírita, agosto de 1859

Nota. A partir de hoje, publicamos, como havíamos anunciado, o Boletim dos trabalhos da Sociedade. Cada número conterá os das sessões que ocorreram no mês precedente. Esses boletins não conterão senão o resumo sucinto dos trabalhos e das atas de cada sessão; quanto às comunicações mesmas que nelas são obtidas, assim como as de origem estrangeira da qual foi feita a leitura, sempre as publicamos integralmente, todas as vezes que elas ofereçam um lado útil e instrutivo. Continuaremos a fazê-lo lembrando, como o fizemos até o presente, a data das sessões que elas ocorreram. A grande quantidade de matérias e as necessidades da classificação, freqüentemente, nos obrigam a modificar a ordem de certos documentos; mas isso não leva a nenhuma conseqüência, já que, cedo ou tarde, encontram seu lugar.

SEXTA-FEIRA. 1º DE JULHO DE 1859 (Sessão particular).

Assuntos administrativos. – Admissão do senhor S…, membro correspondente em Bordeaux.

Adiamento, até mais ampla informação, de dois membros titulares presentes nos dias 10 e 17 de junho.

Designação de três novos comissários-introdutores para as sessões gerais.

Leitura da ata e dos trabalhos da última sessão.

Comunicações. – O senhor Allan Kardec anuncia que viu o senhor W… filho, de Boulogne-surMer, que foi questão na revista de dezembro de 1858, a propósito de um artigo sobre o fenômeno de bicorporeidade, e que lhe confirmou o fato de sua presença simultânea em Boulogne e em Londres.

Carta do senhor S…, correspondente de Bordeaux, contendo detalhes circunstanciados sobre os fatos notáveis de manifestações e aparições que são de seu conhecimento pessoal, da parte de um Espírito familiar. (Carta publicada acima, assim como evocação feita a esse respeito.)

O senhor doutor Morhéry homenageou a Sociedade com duas cantatas, das quais o autor, pelas palavras, intituladas, uma a Italie a outra a Venitienne. Embora essas duas produções sejam completamente estranhas aos trabalhos da Sociedade, ela as aceita com reconhecimento, e por elas agradece ao autor.

O senhor Th… observou, a propósito da comunicação de Cristóvão Colombo, obtida na última sessão, que suas respostas relativas à sua missão e à dos Espíritos em geral, parecem consagrar a doutrina da fatalidade.

Vários membros contestam essa conseqüência das respostas de Cristóvão Colombo, tendo em vista que a missão não tira a liberdade de fazer ou de não fazer. O homem não é arrastado fatalmente a fazer tal ou tal coisa; poder-se-ia que, como homem, ele agisse mais ou menos cegamente; mas como Espírito, tem sempre a consciência do que faz, e permanece sempre senhor de suas ações. Supondo que o princípio da fatalidade decorresse das respostas de Colombo, isso não seria uma consagração de um princípio que os Espíritos combateram em todos os tempos. Isso não seria, em todos os casos, senão uma opinião individual: ora, a Sociedade está longe de aceitar, como verdade refutável, tudo o que dizem os Espíritos, porque sabe que podem se enganar. Um Espírito poderia dizer muito bem que é o Sol que gira e não a Terra, e isso não seria mais verdadeiro porque viera de um Espírito. Tomamos as respostas por aquilo que elas valem; nosso objetivo é estudar as individualidades, qualquer que seja seu grau de superioridade ou inferioridade, e aí tomamos o conhecimento do estado moral do mundo invisível, não dando a nossa confiança às doutrinas de Espíritos senão quando não ferem nem a razão, nem o bom senso, e que nela encontremos a verdadeira luz.

Quando uma resposta é evidentemente ilógica e errônea, disso concluímos que o Espírito que a deu está ainda atrasado, eis tudo. Quanto às de Colombo, elas não implicam, em nenhum aspecto, a fatalidade.

Estudos. – Perguntas sobre as causas do prolongamento da perturbação no doutor Gloyer, evocado em 10 de junho.

Perguntas sobre as causas da sensação física dolorosa produzida no senhor W… filho, de Boulogne, por Espíritos sofredores.

Perguntas sobre a teoria da formação de objetos materiais, no mundo dos Espíritos, tais como vestimentas, jóias, etc.; sobre a transformação da matéria elementar pela vontade do Espírito. Explicação do fenômeno da escrita direta. (Ver nosso artigo precedente, página, 197.)

Evocação de um oficial superior morto em Magenta (2ª conversa); perguntas sobre certas sensações de além-túmulo.

O senhor S… propôs evocar o senhor M…, desaparecido há um mês, a fim de saber se ele está morto ou vivo. São Luís, interrogado a esse respeito, disse que essa evocação não pode ser feita; que a incerteza que reina sobre a sorte desse homem tem um objetivo de prova, e que mais tarde, pelos meios comuns, saber-se-á o que lhe ocorreu.

SEXTA-FEIRA, 8 DE JULHO DE 1859 (Sessão geral).

Leitura da ata e dos trabalhos da última sessão.

Comunicações. – Leitura de duas comunicações espontâneas obtidas pelo senhor R…, membro titular; uma de São Luís, contendo conselhos, à Sociedade, sobre o modo de apreciação das respostas dos Espíritos, a outra de Lamennais. (Elas serão publicadas no próximo número.)

Leitura de uma notícia sobre o diácono Paris e os convulsionários de Saint-Médard, preparada pelo comitê dos trabalhos, para servir de objeto de estudo.

O senhor Didier, membro titular, dá conta de preciosas experiências que fez sobre a escrita direta e dos resultados notáveis que obteve.

Estudos. – Evocação do guia ou Espírito familiar da senhora Mally, de Bordeaux, a propósito da notícia transmitida pelo senhor S…, sobre os fatos e manifestações produzidos na casa dessa senhora, e lido na última sessão.

Evocação do senhor K…, morto em 15 de julho de 1859, no departamento da Sarthe. O senhor K…, homem de bem, muito esclarecido, versado nos estudos espíritas, essa evocação, feita a pedido de seus parentes e amigos, constatou a influência desses estudos sobre o estado de desligamento da alma depois da morte. Por outro lado, ela revelou espontaneamente o fato importante das visitas espíritas noturnas entre o Espírito de pessoas vivas. Desse fato decorrem conseqüências sérias, para a solução de certos problemas morais e psicológicos.

sexta-feira, 15 De julho De 1859 (Sessão particular).

Leitura da ata e dos trabalhos da última sessão.

Assuntos administrativos. O senhor presidente, a pedido de vários membros, e considerando que muitas pessoas estão ausentes dessa sessão, propôs que conforme o uso estabelecido em todas as sociedades, seja dado algum tempo de férias.

A Sociedade decide que suspenderá as suas sessões durante o mês de agosto, e que serão retomadas sexta-feira, 2 de setembro.

O senhor Cr…, secretário adjunto, escreveu para pedir a sua substituição, por motivo de novas ocupações que não lhe permitem assistir, regularmente, ao começo das sessões.

Ulteriormente será providenciada a sua substituição.

Comunicações. – Leitura de uma carta do senhor Jobard, de Bruxelas, presidente honorário da Sociedade, que dá conta de vários fatos relativos ao Espiritismo, e endereçou a Sociedade uma canção intitulada Chant du Zoua-ve, que foi inspirada pela evocação tio Zuavo de Magenta, narrada na Revista do mês de julho; foi cantada num teatro de Bruxelas. O objetivo dessa canção, onde se desdobra a verve espiritual do autor, é mostrar que as idéias espíritas têm, por efeito, o objetivo de destruir as apreensões da morte.

O senhor D… dá conta de novos fatos de escrita direta, que obteve em Louvre e em SaintGermain-l’Auxerrois. (Ver artigo, página 205.)

Leitura de uma carta escrita ao senhor presidente a respeito da tempestade de Solferino.

O autor assinala vários outros fatos análogos, e pergunta se não há alguma coisa de providencial nessa coincidência. Chegou a essa questão na segunda conversa com o oficial superior morto em Magenta. De resto, ela será objeto de um exame mais aprofundado.

Carta da senhora L…, na qual essa senhora dá conta de uma mistificação, da qual foi objeto, da parte de um Espírito malévolo que disse ser São Vicente de Paulo, e que a enganou com uma linguagem em aparência edificante e detalhes circunstanciais sobre ela e sua família, para induzi-la em seguida à deligências comprometedoras. A Sociedade reconhece, por essa própria carta, que esse Espírito revelara sua natureza por certos fatos com os quais não era possível se enganar.

Estudos. – Problemas morais e questões diversas: Sobre o mérito das boas ações tendo em vista a vida futura; – sobre as missões espíritas; – sobre a influência do medo ou do desejo da morte; – sobre os médiuns intuitivos.

Perguntas sobre as visitas noturnas entre as pessoas vivas.

Evocação do diácono Paris.

Evocação do falso São Vicente de Paulo, Espírito mistificador da senhora L…

SEXTA-FEIRA, 22 DE JULHO DE 1859 (Sessão geral).

Leitura da ata e dos trabalhos da última sessão.

Comunicações. – Leitura de uma comunicação particular do senhor R…, membro titular, sobre a teoria da loucura, dos sonhos, das alucinações e do sonambulismo, pelo Espírito de François Arago e de São Vicente de Paulo. Essa teoria é um desenvolvimento racional e sábio dos princípios já emitidos sobre essa matéria. (Ela será publicada no próximo número.)

O senhor R… dá conta de um fato recente de aparição. Estava ligado com o senhor Furne.

No sábado, 16 de julho, dia do enterro desse último, durante a tarde, o senhor Furne se apresentou à mulher do senhor R…, com a aparência que ele tinha quando vivo, e procurava dela se aproximar, ao passo que um outro Espírito, mas do qual não podia distinguir o rosto, tinha o seu corpo abraçado, e procurava afastá-lo. Comovida com essa aparição, cobriu os olhos, mas continuou a vê-lo como antes. _No dia seguinte, essa senhora, que é médium escrevente, assim como seu marido, se pôs a traçar convulsivamente caracteres irregulares que pareciam formar o nome de Furne. Um outro Espírito interrogado sobre esse fato respondeu que, com efeito, o senhor Furne queria se comunicar com eles, mas que no estado de perturbação em que se encontra ainda, ele se reconhecia com dificuldade; acrescentou que era necessário esperar oito dias antes de evocá-lo e que, então, ele poderia manifestarse livremente.

O senhor doutor V… dá conta de um fato de previsão espírita, realizado em sua presença, e tanto mais notável que a precisão de datas é muito rara da parte dos Espíritos. Há cerca de seis semanas, uma senhora de seu conhecimento, muito boa médium escrevente, recebeu uma comunicação do Espírito de seu pai; de repente, e sem provocação, este último põe-se a falar espontaneamente da guerra da Itália. A esse propósito, perguntou-lhe se ela acabará logo. Ele respondeu: No dia 11 de julho a paz será assinada. Sem ligar muita importância a essa previsão, o senhor V… encerrou essa resposta num envelope lacrado que remeteu a uma terceira pessoa, com recomendação de não abri-lo senão depois de 11 de julho. Sabe-se que o acontecimento se realizou como havia sido anunciado.

E notável que quando os Espíritos falam de coisas futuras fazem-no espontaneamente, porque, sem dúvida, eles julgam útil fazê-lo, mas isso jamais ocorre quando são provocados por um motivo de curiosidade.

Estudos. – Problemas morais e questões diversas. Perguntas complementares sobre o mérito de boas ações; – sobre as visitas espíritas; – sobre a escrita direta.

Perguntas sobre a intervenção dos Espíritos nos fenômenos da Natureza, tais como as tempestades, e sobre as atribuições de certos Espíritos.

Perguntas complementares sobre o diácono Paris e os convulsionários de Saint-Médard. –

Evocação do general Hoche.

 

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Senhor Poitevin, aeronauta

Revista Espírita, abril de 1859

Morto há mais ou menos dois meses, de uma febre tifóide contraída em conseqüência de uma descida que fez em pleno mar.

Sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 11 de fevereiro de 1859.

1. Evocação. – R. Heis-me, falai.

2. Lamentais a vida terrestre? – R. Não.

3. Sois mais feliz que de quando vivo? – R. Muito.

4. Qual motivo pôde levar-vos às experiências aeronáuticas? – R. A necessidade.

5. Tínheis o pensamento de servir à ciência? – R. De nenhum modo.

6. Vedes hoje a ciência aeronáutica sob um outro ponto de vista do que de vossa vida? – R. Não; via-a como a vejo agora, porque a via bem. Vejo sempre aperfeiçoamentos a trazer que eu não poderia desenvolver por falta de ciência; mas esperai; homens virão que lhe darão o relevo que ela merece e que merecerá um dia.

7. Credes que a ciência aeronáutica se tomará um dia um objeto de utilidade pública? – R. Sim, certamente.

8. A grande preocupação daqueles que se ocupam dessa ciência, é a procura dos meios de dirigir os balões; pensais que a isso se chegará? – R. Sim, certamente.

9. Qual é, segundo vós, a maior dificuldade que apresenta a direção dos balões? – R. O vento, as tempestades.

10. Assim, não é a dificuldade de encontrar um ponto de apoio? — R. Se se conduzissem os ventos, conduzir-se-iam os balões.

11. Poderíeis assinalar o ponto para o qual conviria dirigir as pesquisas sob esse aspecto? – R. Deixai fazer.

12. Em vossa vida, estudastes os diferentes sistemas propostos? – R. Não.

13. Poderíeis dar conselhos àqueles que se ocupam dessas espécies de pesquisas? – R. Pensais que seguiriam vossos avisos?

14. Não seriam os nossos mas os vossos. – R. Quereis um tratado? Eu o mandarei fazer.

15. Por quem? – R. Por amigos que me guiaram, a mim mesmo.

16. Há aqui dois inventores distintos em fatos aeronáuticos, o senhor Sanson e o senhor Ducroz que obtiveram rendimento científico muito honroso. Fazeis uma idéia do seu sistema? – R. Não; há muito a dizer; não os conheço.

17. Admitindo como resolvido o problema da navegação, credes na possibilidade de uma navegação aérea sobre uma grande escala, como sobre o mar? – R. Não, jamais como pelo telégrafo.

18. Não falo da rapidez das comunicações, que jamais podem ser comparadas às do telégrafo, mas do transporte de um grande número de pessoas e de objetos materiais. Quais resultados se podem esperar sob esse aspecto? – R. Pouco e prontidão.

19. Quando estáveis em um perigo iminente, pensáveis no que serieis depois da morte? – R. Não; estava inteiramente absorvido em minhas manobras.

20. Que impressão fazia sobre vós o pensamento do perigo que corríeis? – R. O hábito havia enfraquecido o medo.

21. Que sensação experimentáveis quando estáveis perdido no espaço? – R. Perturbação, mas feliz; meu espírito parecia escapar do vosso mundo; entretanto, as necessidades das manobras me tornavam a chamar sob o vento à realidade, e me faziam recair na fria e perigosa posição na qual me encontrava.

22. Vedes com prazer vossa mulher seguir a mesma carreira de aventura vossa? – R. Não.

23. Qual é a vossa situação como Espírito? – R. Vivo como vós, quer dizer, posso dominar a minha vida espiritual como dominais a vossa vida material.

Nota. As curiosas experiências do senhor Poitevin, sua intrepidez, sua notável habilidade na manobra dos balões, nos faziam esperar encontrar, nele, mais elevação e uma grandeza nas idéias. O resultado não respondeu às nossas expectativas; a aerostação não era para ele, como se pôde ver, senão uma indústria, um modo de viver por um gênero particular de espetáculo; todas as suas faculdades estavam concentradas sobre os meios de excitar a curiosidade pública. É assim que, nessas conversas de além-túmulo, as previsões, freqüentemente, se desenrolam; ora ultrapassam, ora acha-se menos do que se esperava, prova evidente da independência das comunicações.

Em uma sessão particular, e por intermédio do mesmo médium, Poitevin ditou os conselhos seguintes para realizar a promessa que vinha de fazer, cada um poderá apreciar-lhe o valor; nós os damos como objeto de estudo sobre a natureza dos Espíritos, e não por seu mérito científico mais que contestável.

“Para conduzir um balão cheio de gás, encontrareis sempre as maiores dificuldades: a imensa superfície que oferece exposta aos ventos, a pequenez do peso que o gás pode levar, a fraqueza do envoltório que reclama esse ar sutil; todas essas causas jamais permitirão dar, ao sistema aerostático, a grande extensão que gostaríeis de vê-lo tomar. Para que o aerostato tenha uma utilidade real, é preciso que seja um modo de comunicação poderoso e dotado de uma certa presteza, mas, sobretudo, poderoso. Dissemos que ele ocupava o meio entre a eletricidade e o vapor; sim, e em dois pontos de vista:

1º. Ele deve transportar os viajantes mais depressa do que as ferrovias, menos depressa do que o telégrafo as mensagens.
2º. Não está no meio desses dois sistemas, porque participa, ao mesmo tempo, do ar e da terra, todos os dois servindo-lhe de caminho: está entre o céu e o mundo.

“Não me perguntastes se chegaríeis a ir, por esse meio, visitar outros planetas.

Entretanto, esse pensamento é o que tem inquietado bem os cérebros, e cuja solução encheria de espanto todo o vosso mundo. Não, não chegareis. Considerai, pois, que para atravessar esses espaços desconhecidos para vós, de milhões, de milhões de léguas, a luz gasta anos; vede, portanto, quanto será preciso de tempo para atingi-los, mesmo levados pelo vapor e pelo vento.

“Para retornar ao assunto principal, começando vos direi que não é preciso esperar muito do vosso sistema atualmente empregado; mas obtereis sempre mais atuando sobre o ar por compressão forte e ampla; o ponto de apoio que procurais, está diante de vós, vos cerca por todos os lados, com ele vos chocais a cada um dos vossos movimentos, ele entrava todos os dias vosso caminho e influi, sobretudo, no que locais. Pensai bem nisso, tirai desta revelação tudo o que puderdes: suas deduções são enormes. Não podemos tomar-vos pelas mãos e vos fazer inventar as ferramentas necessárias a esse trabalho, não podemos vos dar, palavra por palavra, uma indução; é preciso que vosso Espírito trabalhe, que amadureça seus projetos, sem isso não compreenderíeis o que faríeis e não saberíeis manejar vossos instrumentos; seríamos obrigados a voltar e abrir, nós mesmos, todos os vossos empenhos, e as circunstâncias imprevistas que viriam um dia, ou outro, combater vossos esforços, vos reconduziriam a vossa ignorância primária

‘Trabalhai, pois, e encontrareis o que procurardes: conduzi vosso Espírito para o lado que- vos indicamos, e aprendei pela experiência que não vos induzimos ao erro.”

Nota. Esses conselhos, embora encerrando incontestáveis verdades, não deixam de denotar um Espírito pouco esclarecido em certos pontos de vista, uma vez que parece ignorar a verdadeira causa da impossibilidade de atingir outros planetas. É uma prova a mais da diversidade de aptidões e de luzes que se encontram no mundo dos Espíritos, como neste mundo. É pela multiplicidade das observações que se chega a conhecê-lo, a compreendê-lo e a julgá-lo. Por isso, damos espécimes de todos os gêneros de comunicações, tendo o cuidado de fazer ressaltar o forte e o fraco. A de Poitevin terminou por uma consideração muito justa que nos parece suscitada por um Espírito mais filosófico do que o seu; de resto, ele dissera que faria redigir seus conselhos por seus amigos que, em definitivo, não nos ensinam nada.
Nela encontramos ainda uma nova prova, que os homens que têm uma especialidade na

Terra não são, sempre, os mais apropriados a nos esclarecerem como Espíritos, se, sobretudo, não são bastante elevados para se desligarem da vida terrestre.
É deplorável, para o progresso da aeronáutica, que a maioria desses homens intrépidos não possa colocar sua experiência em proveito da ciência, ao passo que os teóricos são estranhos à prática, e são como marinheiros que jamais viram o mar.

Incontestavelmente, haverá um dia engenheiros em aerostática, como há engenheiros marítimos, mas isso não será senão quando terão visto e sondado, por eles mesmos, as profundezas do oceano aéreo. Quantas idéias não lhes dariam o contato real dos elementos, idéias que escapam às pessoas do
ofício! porque, qualquer que seja seu saber, não podem, do fundo de seus gabinetes, perceber todos os escolhos; e, todavia, se essa ciência deva ser um dia uma realidade, isso não será por eles. Aos olhos de muitas pessoas é ainda uma quimera, e eis porque os inventores, que não são, em geral, capitalistas, não encontram nem apoio nem encorajamentos necessários. Quando a aerostação der dividendos, mesmo uma esperança, poderá ser cotada, os capitais não lhe faltarão; até lá não é preciso contar senão com o devotamento daqueles que vêem o progresso antes da especulação. Enquanto houver parcimônia nos meios de execução, haverá reveses pela impossibilidade de ensaios sobre uma tão vasta escala, ou em condições convenientes. Seremos forçados a fazê-lo mesquinhamente, o que é um mal, nisto, como em toda coisa.

O sucesso não será senão ao preço de sacrifícios suficientes para entrar largamente no caminho da prática, e quem diz sacrifício diz exclusão de toda idéia de benefício.

Esperamos que o pensamento de dotar o mundo da solução de um grande problema, não o fosse senão sob o ponto de vista da ciência, inspire algum generoso desinteresse. Mas a primeira coisa a fazer seria fornecer aos teóricos os meios para adquirir a experiência do ar, mesmo pelos meios imperfeitos de que dispomos. Se Poitevin tivesse sido um homem de saber, e tivesse inventado um sistema de locomotiva aérea, teria inspirado, sem contradita, mais confiança que aqueles que jamais deixaram a terra, e teria, provavelmente, encontrado os recursos que se recusam aos outros.

Senhor Girard de Codemberg

Revista Espírita, abril de 1859

Antigo aluno da Escola Politécnica, membro de várias sociedades de sábios, autor de um livro intitulado: O Mundo espiritual, ou ciência cristã de comunicar intimamente com as potências celestes e as almas felizes. Falecido em novembro de 1858; evocado na Sociedade, no dia 14 de janeiro seguinte.

1. Evocação. – R. Estou aqui; que quereis comigo?

2. Viestes de bom grado ao nosso chamado? – R. Sim.

3. Quereis nos dizer o que pensais, atualmente, do livro que publicastes? – R. Cometi alguns erros, mas há coisa boa, e sou levado a crer que vós mesmos aprovareis o que eu disse ali, sem lisonja.

4. Dissestes, notadamente, que tivestes comunicações com a mãe do Cristo: vedes hoje se era realmente ela? – R. Não, não era ela, mas um Espírito que tomava o seu nome.

5. Com qual objetivo esse Espírito lhe tomava o nome? – R. Ele me via tomar o caminho do erro, e disso se aproveitava para comprometer-me mais; era um Espírito perturbador, um Espírito leviano; mais próprio ao mal do que ao bem; era feliz em ver minha falsa alegria; eu era seu joguete como vós o sois, freqüentemente, de vossos semelhantes.

6. Como vós, dotado de uma inteligência superior, não vos apercebestes do ridículo de certas comunicações? – R. Estava fascinado, e achava bom tudo o que me diziam.

7. Não pensais que essa obra pode fazer o mal no sentido em que se presta ao ridículo quanto às comunicações de além-túmulo? – R. Nesse sentido, sim; mas eu disse, também, que há do bom e do verdadeiro; e, sob um outro ponto de vista, fere os olhos das massas; no que nos parece mau, freqüentemente, encontrais um bom germe.

8. Sois mais feliz agora do que de quando vivo? – R. Sim, mas tenho muita necessidade de me esclarecer, porque estou ainda nas brumas que se seguem à morte; sou como o escolar que começa a soletrar.

9. Em vossa vida, conhecestes O Livro dos Espíritos? – R. Jamais prestei-lhe atenção; tinha minhas idéias assentes; nisso pequei, porque não saberia muito aprofundar e estudar todas as coisas; mas o orgulho aí é que sempre nos ilude; de resto, é próprio dos ignorantes em geral; não querem estudar senão o que preferem, e não escutam senão aqueles que os lisonjeiam.

10. Não éreis um ignorante; vossos títulos disso são a prova? -R. O que é o sábio da Terra diante da ciência do céu? Aliás, não há sempre a influência de certos Espíritos interessados em afastar a luz de nós?

Nota. Isso corrobora o que já foi dito, que certos Espíritos inspiram o distanciamento para as pessoas das quais se pode receber conselhos úteis e que pode frustrá-los. Jamais essa influência é de um bom Espírito.

11. E agora, que pensais desse livro? – R. Não posso dizê-lo sem lisonja, porém, não nos lisonjeamos mais: deveis compreender-me.

12. Vossa opinião sobre as penas futuras modificou-se? – R. Sim; eu acreditava nas penas materiais; creio agora nas penas morais.

13. Podemos fazer alguma coisa que vos seja agradável? – R. Sempre; cada um dizei uma pequena prece esta noite em minha intenção; por isso vos serei reconhecido; sobretudo, não vos esqueçais.

Nota. O livro do senhor de Codemberg fez uma certa sensação, e devemos dizê-lo, uma sensação penosa entre os partidários esclarecidos do Espiritismo, por causa da estranheza de certas comunicações que se prestam muito ao ridículo. Sua intenção era louvável, porque era um homem sincero; mas é um exemplo do império que certos Espíritos podem tomar lisonjeando e exagerando as idéias e os preconceitos daqueles que não pesam, com bastante severidade, os prós e os contras das comunicações espíritas. Mostra-nos, sobretudo, o perigo de derramá-las, muito levianamente, ao público, porque podem ser um motivo de repulsa, fortificar certas pessoas em sua incredulidade, e fazerem, assim, mais mal que bem, dando armas aos inimigos da coisa Não se poderia, pois, ser mais circunspecto a esse respeito.

Girard

Conversas familiares de além túmulo – Benvenuto Cellinl

Revista Espírita, abril de 1859

(Sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas de 11 de março de 1859.)

1. Evocação. – R. Interrogai-me, estou pronto; sede tão extensos quanto o desejais: tenho tempo para vos dar.

2. Lembrai-vos da existência que vivestes na Terra, no século XVI, de 1500 a 1570? – R. Sim, sim.

3. Qual é, atualmente, a vossa situação como Espírito? – R. Vivi em vários outros mundos, e estou bastante contente com a classe que hoje ocupo; não é um trono, mas estou sobre os degraus.

4. Tivestes outras existências corpóreas, na Terra, depois daquela que conhecemos? – R. Corpóreas, sim; na Terra, não.

5. Quanto tempo permanecestes errante? – R. Não posso calcular: alguns anos.

6. Quais eram as vossas ocupações no estado errante? – R. Eu me trabalhava.

7. Retomastes algumas vezes na Terra? – Pouco.

8. Assististes ao drama em que estais representado, e que pensais dele? – R. Fui vê-lo várias vezes; enquanto Celini, fiquei lisongeado, mas pouco como Espírito que progrediu.

9. Além da existência que conhecemos, tivestes outras na Terra? – R. Não, nenhuma.

10. Poderíeis dizer-nos o que éreis em vossa existência precedente? – R. Minhas ocupações eram bem diferentes das que tive em vossa Terra.

11. Qual mundo habitais? – R. Não o conheceis e não o vedes.

12. Poderíeis dar-nos uma descrição dele, quanto ao físico e ao moral? – R. Sim, facilmente.

Quanto ao aspecto físico, meus caros amigos, ali encontrei meu contentamento em beleza plástica: nada choca aos olhos; todas as linhas se harmonizam perfeitamente; a mímica é um estado constante; os perfumes nos cercam, e não poderíamos senão desejar o nosso bemestar físico, porque as necessidades, pouco numerosas, às quais estamos submetidos, são logo satisfeitas.

Pelo moral, a perfeição é menor, porque ali ainda se podem ver consciências perturbadas e Espíritos levados ao mal; não é a perfeição, longe disso, mas, como vos disse, é dela o caminho, e todos esperamos alcançá-la um dia.

13. Quais são as vossas ocupações no mundo que habitais? -R. Trabalhamos as artes. Sou artista.

14. Em vossas memórias, relatais uma cena de feitiçaria e de sortilégio que teria se passado no Coliseu, em Roma, na qual tomastes parte; lembrai-vos dela? – R. Pouco claramente.

15. Se a lêssemos para vós, isso evocaria as vossas lembranças? – R. Sim, dar-me-ia o conhecimento dela.

(Leitura feita do fragmento abaixo, de suas memórias.) “No meio dessa vida estranha, ligueime a um padre Siciliano, de espírito muito distinto, e que era profundamente versado nas letras gregas e latinas. Um dia, quando com ele conversava, a conversação caiu sobre a necromancia e disse-lhe que, em toda a minha vida, desejei ardentemente ver e aprender alguma coisa dessa arte. Para abordar semelhante empresa, é preciso uma alma firme e intrépida, respondeu-me o padre…

“Uma noite, pois, o padre fez os seus preparativos e disse-me para procurar um companheiro ou dois. Juntou-se a um homem de Pistóia, que também se ocupava de necromancia. Seguimos para o Coliseu. Ali o sacerdote se vestiu à maneira dos necromantes, depois pôs-se a desenhar no solo círculos, com as mais belas cerimônias que se possam imaginar. Havia trazido perfumes preciosos, drogas fétidas e fogo.

Quando tudo estava em ordem, fez uma porta no círculo e nele nos introduziu, tomando-nos, um após o outro, pela mão. Em seguida, distribuiu as funções. Depositou o talismã nas mãos do seu amigo, o necromante, encarregou os outros de velarem pelo fogo e pelos perfumes e, enfim, começou as suas conjurações. Essa cerimônia durou mais de uma hora e meia. O Coliseu se encheu de legiões de espíritos infernais. Quando o padre viu que eram bastante numerosos, voltou-se para mim, que cuidava dos perfumes, e disse-me: Benvenuto, peca-lhes alguma coisa. Respondi que desejava que eles se reunissem comigo em minha Siciliana Angélica. Nessa noite, não obtivemos resposta; todavia, fiquei encantado com o que vira. O necromante disse-me que seria preciso retornar uma segunda vez, que eu obteria tudo o que pedira, uma vez que trouxesse um jovem rapaz que tivesse ainda a sua virgindade. Escolhi um dos meus aprendizes e levei comigo ainda dois de meus amigos…

“Ele colocou-me nas mãos o talismã, dizendo-me para girá-lo para os lugares que ele designasse. Meu aprendiz estava colocado sob o talismã. O necromante começou as suas terríveis evocações, chamou pelo seu nome uma multidão de chefes de legiões infernais, e lhes deu ordens em hebreu, em grego e em latim, em nome do Deus incriado, vivo e eterno. Logo o Coliseu encheu-se de um número de demônios cem vezes mais considerável do que a primeira vez. Aconselhado pelo necromante, pedi de novo para achar-me com Angélica. Ele voltou-se para mim e disse-me: Não os ouviste anunciar que em um mês estarias com ela? E pediu-me para ter firmeza, porque ali havia mil legiões a mais, que ele não havia chamado. Acrescentou que elas eram as mais perigosas, e que, desde que respondessem às minhas perguntas, seria preciso tratá-las com doçura e despedi-las tranqüilamente. De outro lado, o jovem gritava apavorado que percebia um milhão de homens terríveis que nos ameaçavam, e quatro enormes gigantes, armados dos pés à cabeça, que pareciam querer entrar em nosso círculo. Durante esse tempo, o necromante, tremendo de medo, tentava conjurá-los, tomando a voz mais doce. O jovem enfiou a cabeça entre os joelhos e gritava: Quero morrer assim! Estamos mortos! Então lhe disse: “Essas criaturas estão todas abaixo de nós, e o que vês não é senão fumaça e sombra; assim, ergue os olhos.” Apenas me obedeceu, curvou-se de novo: Todo o Coliseu queima e o fogo vem sobre nós. O necromante ordenou fosse queimada assa fétida. Agnolo, encarregado dos perfumes, estava semimorto de medo.

A esse ruído, e a esse terrível fedor, o jovem se arriscou levantar a cabeça. Ouvindo-me rir, tranqüilizou-se um pouco, e disse que os demônios começavam a operar sua retirada. Permanecemos assim até o momento em que as matinas soaram. O jovem nos disse que não percebia mais do que alguns demônios, e a uma grande distância. Enfim, desde que o necromante cumpriu o resto de suas cerimônias e tirou sua roupa, saímos todos do círculo. Enquanto caminhávamos para a rua de Banchi para retornarmos às nossas casas, ele assegurava que dois dos demônios pulavam diante de nós, e corriam ora sobre os telhados, ora sobre o solo.

“O necromante jurava que, desde que colocara os pés num círculo mágico, nunca lhe aconteceu nada de tão extraordinário. Em seguida, tentou determinar-me para juntar-me a ele, para consagrar um livro que deveria nos proporcionar riquezas incalculáveis, e fornecernos os meios para forçarmos os demônios a nos indicarem os lugares onde estavam ocultos os tesouros que a terra esconde em seu seio…
“Depois de diferentes relatos que tinham mais ou menos relação com o que precede, Benvenuto contou como, ao cabo de trinta dias, quer dizer, no prazo fixado pelos demônios, ele reencontrou sua Angélica.”

16. Poderíeis dizer-nos o que há de verdadeiro nessa cena? -R. O necromante era um charlatão, eu era um romancista e Angélica era minha senhora.

17. Revistes François l, vosso protetor? – R. Certamente, ele reviu muitos outros que não foram seus protegidos.

18. Como o julgastes quando vivo e como o julgais agora? – R. Dir-vos-ei como julguei: como um príncipe e, nessa qualidade, cego pela sua educação e sua sociedade.

19. E agora, que dizeis dele? – R. Progrediu.

20. Foi por amor sincero às artes que ele protegeu os artistas? – R. Sim, e por prazer e vaidade.

21. Onde está agora? – R. Ele vive.

22. Na Terra? – R. Não.

23. Se o evocássemos neste momento, poderia vir e conversar conosco? – R. Sim, mas não forceis assim os Espíritos; que vossas evocações sejam preparadas de longa data e, então, tereis pouca coisa a perguntar ao Espírito. Assim, vos arriscais muito menos de serem enganados, porque o são algumas vezes. (São Luís).

24. (a São Luís): Poderíeis fazer com que viessem dois Espíritos que se falassem? – R. Sim.

25. Nesse caso, seria útil ter dois médiuns? – R. Sim, necessário.

Nota. Esse diálogo ocorreu em uma outra sessão; nós a relataremos em nosso próximo número.

26. (A Cellini): De onde vos veio o sentimento da arte, que estava em vós; tinha um desenvolvimento especial anterior? – R. Sim; por muito tempo estive ligado à poesia e à beleza da linguagem. Na Terra, liguei-me à beleza como reprodução, hoje me ocupo da beleza como invenção.

27. Tínheis também talentos militares, uma vez que o papa Clemente VII vos confiou a defesa do castelo Santo Ângelo. Todavia, vosso talento de artista não deveria vos dar muito mais aptidão para a guerra? – R. Eu tinha talento e sabia aplicá-lo. Em tudo, é preciso julgar, sobretudo para a arte militar de então.

28. Poderíeis ditar alguns conselhos aos artistas que procuram caminhar sobre os vossos passos? – R. Sim; dir-lhes-ia simplesmente para se ligarem mais do que não o fazem, e que eu mesmo não o fiz, à pureza e à verdadeira beleza; eles me compreenderão.

29. A beleza não é relativa e de convenção? O Europeu se crê mais belo que o negro.e o negro mais belo que o branco. Se há uma beleza absoluta, qual lhe é o tipo? Poderíeis darnos a vossa opinião a esse respeito? – R. De bom grado. Não tencionei fazer alusão a uma beleza de convenção: muito ao contrário; o belo está por toda parte, é o reflexo do Espírito sobre o corpo, e não somente a forma corporal. Como vo-lo disse, um negro pode ser belo, de uma beleza que será apreciada somente por seus semelhantes. Do mesmo modo, nossa beleza terrestre é disformidade para o Céu, como para vós, Brancos, o belo negro vos parece quase disforme. A beleza, para o artista, é a vida, o sentimento que sabe dar à sua obra; com isso dará beleza às coisas mais vulgares.

30. Poderíeis guiar um médium na execução de uma modelagem, como Bernard de Palissy guiou para os desenhos? – R. Sim.

31. Poderíeis mandar fazer alguma coisa pelo médium que vos serve atualmente de intérprete? – R. Como outros; mas preferiria um artista que conhecesse os truques.

Nota. A experiência prova que a aptidão de um médium por tal ou tal gênero de execução, prende-se à flexibilidade que apresente ao Espírito, e isso abstração feita do talento. Os conhecimentos do ofício e dos meios materiais de execução não são o talento, mas concebese que o Espírito que dirige o médium nele encontra uma dificuldade mecânica a menos para vencer. Vêem-se, pois, médiuns fazendo coisas admiráveis das quais não têm as primeiras noções, tais como da poesia, dos desenhos, das gravuras, da música etc.; mas é que, então, ha neles uma aptidão inata, ligando-se, sem dúvida, a um desenvolvimento anterior do qual não conservaram senão a intuição.

31. Poderíeis dirigir a senhora G.S., aqui presente, que ela mesma é artista, mas jamais conseguiu produzir alguma coisa como médium? – R. Tentarei, se ela quer.

32. (Senhora G.S.) Quando queres começar? – R. Quando o quiseres, a partir de amanhã.

33. Mas como saberei que a inspiração virá de ti? – R. A convicção vem com as provas: deixaia vir lentamente.

34. Por que não consegui até o presente? – R. Pouca persistência e boa vontade no Espírito chamado.

35. Agradeço a assistência que tu me prometes. – R. Adeus; até logo à minha companheira de trabalho.

Nota. A senhora G.S. deve ter posto mãos à obra, mas não sabemos, ainda, o que ela obteve.

benvenuto

A Indústria

Revista Espírita, abril de 1859

Comunicação espontânea do senhor Croz, médium escrevente, lida na Sociedade, em 21 de janeiro de 1859.

Os empreendimentos que cada dia despontam, são os atos providenciais e o desenvolvimento dos germes depositados pelos séculos. A Humanidade e o planeta que ela habita têm uma mesma existência, cujas fases se encadeiam e se respondem.
Logo que as grandes convulsões da Natureza se acalmaram, a febre que impelia às guerras de extermínio se apaziguaram, a filosofia apareceu, a escravidão desapareceu, e as ciências e as artes floresceram.

A perfeição divina pode se resumir pelo belo e o útil, e se Deus fez o homem à sua imagem foi porque quis que vivesse de sua inteligência, como ele mesmo vive no seio dos esplendores de sua criação.

Os empreendimentos que Deus abençoa, quaisquer que sejam as suas proporções, são, pois, aqueles que respondem aos seus desígnios, trazendo seu concurso à obra coletiva, cuja lei está escrita no Universo: o belo e o útil; a arte, filha do lazer e da inspiração, é o belo; a indústria, filha da ciência e do trabalho, é o útil.

Nota. Essa comunicação é quase o início de um médium que acaba de se formar com uma rapidez espantosa; convir-se-á que, por uma tentativa, isso promete. Desde a primeira sessão, escreveu, de um só traço, quatro páginas que não perdem em nada, ao que acabamos de ler, pela profundidade dos pensamentos, e que denotam, nele, uma aptidão notável para servir de intermediário a todos os Espíritos para as comunicações particulares. De resto, temos necessidade de estudá-lo antes sob esse aspecto, porque essa flexibilidade não é dada a todos; conhecemos os que não podem servir de intérpretes senão a certos Espíritos, e para uma certa ordem de idéias.

Desde que essa nota foi escrita, pudemos constatar o progresso desse médium, cuja faculdade oferece caracteres especiais e dignos de toda a atenção do observador.

 

Problema moral – Os canibais

Revista Espírita, abril de 1859

Um dos nossos assinantes nos dirigiu a pergunta seguinte, com o pedido de resolvê-la pelos Espíritos que nos assistem, se ainda não o fora resolvida.

“Os Espíritos errantes desejam, depois de um lapso de tempo mais ou menos longo, e pedem a Deus, sua encarnação como meio de adiantamento espiritual. Eles têm a escolha das provas e, usando nisso seu livre arbítrio, escolhem, naturalmente, aquelas que lhes parecem mais próprias para esse adiantamento, no mundo onde a reencarnação lhes é permitida. Ora, durante a sua existência errante, que empregam para se instruírem (são eles mesmos que nos dizem), devem aprender quais são as nações que melhor podem fazê-los alcançar o objetivo a que se propõem. Vêem tribos ferozes, de antropófagos, e têm a certeza que, encarnando-se entre eles, tornar-se-ão ferozes e comedores de carne humana. Não será aí, seguramente, que encontrarão seu progresso espiritual; seus instintos brutais, com isso, não terão adquirido senão mais consistência pela força do hábito. Eis, pois, seu objetivo falho quanto às encarnações entre tal ou tal povo.

“Ocorre o mesmo com certas posições sociais. Entre estas, há certamente as que apresentam obstáculos invencíveis ao adiantamento espiritual. Não citarei senão os matadores de animais nos matadouros, os carrascos, etc. Diz-se que essas pessoas são necessárias: uns porque não podemos passar sem alimento animal; os outros, porque é preciso executar as sentenças da justiça, nossa organização social assim querendo. Não é menos verdadeiro que o Espírito se encarnando no corpo de uma criança destinada a abraçar uma ou outra dessas profissões, deve saber que escolhe caminho falso e que se priva, voluntariamente, dos meios que podem conduzi-lo à perfeição. Não poderia ocorrer, com a permissão de Deus, que nenhum Espírito quisesse esses gêneros de existência e, nesse caso, em que se tornariam essas profissões, necessárias ao nosso estado social?”

A resposta a essa pergunta decorre de todos os ensinamentos que nos foram dados; nós podemos, pois, resolvê-la, sem necessidade de submetê-la de novo aos Espíritos.

 

Essas considerações se aplicam também às profissões das quais nosso correspondente fala; evidentemente, elas oferecem uma superioridade relativa para certos Espíritos, e é nesse sentido que se deve conceber a escolha que delas fazem. Posição igual pode mesmo ser escolhida como expiação ou como missão, porque não há onde não se possa encontrar ocasião de fazer o bem e de progredir, pela própria maneira que são exercidas.

Quanto à questão de se saber em que se tornariam essas profissões, no caso de que nenhum Espírito delas quisesse se encarregar, ela está resolvida pelos fatos; desde que os Espíritos que as alimentam partam de mais alto, não se deve temer vê-los sem trabalho. Quando o progresso social permitir suprimir o ofício de carrasco, é o lugar que faltará, e não os candidatos que irão se apresentar entre outros povos, ou em outros mundos menos avançados.

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Fraudes Espíritas

Revista Espírita, abril de 1859

Aqueles que não admitem a realidade das manifestações físicas, geralmente, atribuem à fraude os efeitos produzidos. Baseiam-se no fato de que os prestidigitadores hábeis fazem coisas que parecem prodígios quando não se conhece seus segredos; de onde concluem que os médiuns não são senão escamoteadores. Já refutamos esse argumento, ou antes, essa opinião, notadamente nos artigos sobre o senhor Home, e nos nos. da Revista de janeiro e fevereiro de 1858; sobre isso não diremos, pois, senão algumas palavras antes de falarmos de uma coisa mais séria.

Do fato de que há charlatães que vendem drogas nas praças públicas, de que há mesmo médicos que, sem irem à praça pública, enganam a confiança, segue-se que todos os médicos sejam charlatães, e o corpo médico, com isso, é atingido em sua consideração?

Do fato de que há pessoas que vendem tintura por vinho, segue-se que todos os vendedores de vinho são adulteradores e que não há vinho puro? Abusa-se de tudo, mesmo das coisas mais respeitáveis, e pode-se dizer que a fraude tem também seu gênio.

Mas a fraude tem sempre um objetivo, um interesse material qualquer; onde não haja nada a ganhar, não haverá nenhum interesse a enganar. Também dissemos, em nosso número precedente, a propósito dos médiuns mercenários, que a melhor de todas as garantias é um desinteresse absoluto.

Essa garantia, dir-se-á, não é única, porque, em casos de prestidigitação, há amadores que não visam senão divertir uma sociedade e não fazem disso um ofício; não pode ocorrer o mesmo com os médiuns? Sem dúvida, pode-se divertir um instante divertindo os outros, mas para nisso passar horas inteiras, e isso durante semanas, meses e anos, seria preciso, verdadeiramente, estar possuído pelo demônio da mistificação, e o primeiro mistificado seria o mistificador. Não repetiremos aqui tudo o que se disse sobre a boa fé dos médiuns, e dos assistentes, que podem ser o joguete de uma ilusão ou de uma fascinação. Nós o respondemos vinte vezes, assim como quanto a todas as outras objeções para as quais reenviamos notadamente à nossa Instrução prática sobre as manifestações, e aos nossos artigos precedentes da Revista. Nosso objetivo aqui não é de converter os incrédulos; se não o foram pelos fatos, não serão mais pelo raciocínio: seria, pois, perder nosso tempo. Ao contrário, nos dirigimos aos adeptos para premuni-los contra os subterfúgios, dos quais poderiam ser vítimas da parte de pessoas interessadas, por um motivo qualquer, em simular certos fenômenos; dizemos certos fenômenos, porque os há que desafiam, evidentemente, toda a habilidade da prestidigitação, tais são, notadamente, o movimento dos objetos sem contato, a suspensão dos corpos pesados no espaço, as pancadas de diferentes lados, as aparições, etc., e ainda, para alguns desses fenômenos, poder-se-ia, até certo ponto, simulálos, tanto progrediu a arte da imitação. O que é preciso fazer, em semelhante caso, é observar atentamente as circunstâncias, e sobretudo levar em conta o caráter e a posição das pessoas, o objetivo e o interesse que elas poderiam ter em enganar: aí está o melhor de todos os controles, porque são tais circunstâncias que levantam todos os motivos para a suspeição. Colocamos, pois, em princípio, que é preciso desconfiar de quem faça desses fenômenos um espetáculo, ou um objeto de curiosidade e de divertimento, que deles tire um proveito, por mínimo que seja, e se vanglorie de produzi-los à vontade e a propósito. Não poderíamos repetir demais que as inteligências ocultas, que se manifestam a nós, têm suas suscetibilidades, e querem nos provar que também têm seu livre arbítrio, e não se submetem aos nossos caprichos.

De todos os fenômenos físicos, um dos mais comuns é o dos golpes íntimos batidos na própria substância da madeira, com ou sem movimento da mesa ou de outro objeto do qual se sirva. Ora, esse efeito é um dos mais fáceis de serem imitados, e como é também um dos que se produzem mais freqüentemente, cremos ser útil revelar a pequena astúcia com a qual se pode enganar. Basta, para isso, colocar as duas mãos espalmadas sobre a mesa, e bastante próximas para que as unhas dos dedos se apóiem firmemente uma contra a outra; então, por um movimento muscular inteiramente imperceptível, se as faz friccionar, o que dá um pequeno ruído seco, tendo uma grande analogia com aqueles da tiptologia íntima. Esse ruído repercute na madeira e produz uma ilusão completa. Nada é mais fácil que fazer ouvir a quantos golpes se peça, uma bateria de tambor, etc.; responder a certas perguntas, por sim ou por não, por números, ou mesmo pela indicação de letras do alfabeto.

Uma vez prevenido, o meio de se reconhecer a fraude é bem simples. Ela não é mais possível se as mãos forem afastadas uma da outra, e assegurando-se que nenhum outro contato pode produzir o ruído. Os golpes reais, aliás, oferecem de característico que mudam de lugar e de timbre à vontade, o que não pode ocorrer quando são devidos à causa que assinalamos, ou a qualquer outra análoga; que saia da mesa para se transportar sobre um móvel qualquer que ninguém toca, enfim, que responda a perguntas imprevistas.

Chamamos, pois, a atenção das pessoas de boa fé para esse pequeno estratagema e todos aqueles que poderiam reconhecer, a fim de assinalá-los sem circunspecção. À possibilidade da fraude e da imitação não impede a realidade dos fatos, e o Espiritismo não pode senão ganhar, desmascarando os impostores. Se alguém nos disser: Eu vi tal fenômeno, mas havia charlatanice, responderemos que isso é possível; nós vimos, nós mesmos, supostos sonâmbulos simularem o sonambulismo com muita destreza, o que não impede de o sonambulismo ser um fato; todo mundo viu mercadores venderem algodão por seda, o que não impede que hajam verdadeiros tecidos de seda. É preciso examinar todas as circunstâncias e ver se a dúvida tem fundamento; mas nisso, como em todas as coisas, é preciso ser perito; ora, não poderíamos reconhecer, por juiz de uma questão qualquer, aquele que dela nada conhecesse.

Diremos o mesmo quanto aos médiuns escreventes. Geralmente, pensa-se que aqueles que são mecânicos oferecem mais garantias, não só pela independência das idéias, mas também contra o charlatanismo. Pois bem! É um erro. A fraude se introduz por toda parte, e sabemos com quanta habilidade se pode dirigir, à vontade mesmo, uma cesta ou uma prancheta que escreve, e dar-lhes todas as aparências de movimentos espontâneos.

O que tira todas as dúvidas, são os pensamentos exprimidos, quer venham de um médium mecânico, intuitivo, audiente, falante ou vidente. Há comunicações que estão de tal modo fora das idéias, dos conhecimentos, e mesmo da capacidade intelectual do médium que é preciso enganar-se estranhamente para honrá-los. Nós reconhecemos, no charlatanismo, uma grande habilidade e fecundos recursos, mas não lhe conhecemos, ainda, o dom de dar saber a um ignorante, ou o espírito àquele que não o tem.

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