Aos leitores da Revista Espírita – Conclusão do ano de 1858

Revista Espírita, dezembro de 1858

A Revista Espírita acaba de completar seu primeiro ano, e estamos felizes em anunciar que, doravante, sua existência estando assegurada pelo número de seus assinantes, que aumentam a cada dia, prosseguirá o curso de suas publicações. Os testemunhos de simpatia que recebemos de todas as partes, o sufrágio dos homens mais eminentes, pelo seu saber e pela sua posição social, são para nós um poderoso encorajamento na tarefa laboriosa que empreendemos; que aqueles, pois, que nos sustentaram no cumprimento de nossa obra, recebam aqui o testemunho de toda a nossa gratidão. Se não tivéssemos encontrado nem contradições, nem críticas, isso seria um fato inaudito nos fastos da publicidade, sobretudo quando se trata da emissão de idéias novas; mas, se devemos nos admirar de alguma coisa, é de havê-las encontrado tão poucas em comparação com as provas de aprovação que nos foram dadas, e isso devido, sem dúvida, bem menos ao mérito do escritor que ao atrativo do assunto que tratamos, ao crédito que toma, cada dia, até nas mais altas regiões da sociedade; nós o devemos também, disso estamos convencidos, à dignidade que sempre conservamos frente a frente com os nossos adversários, deixando o público julgar entre a moderação de uma parte, e a inconveniência da outra. O Espiritismo marcha a passos de gigante no mundo inteiro; todos os dias re-liga alguns dissidentes pela força das coisas, e se, de nossa parte, podemos lançar alguns grãos na balança desse grande movimento que se opera, e que marcará nossa época como uma era nova, não será contundindo, chocando de frente aqueles mesmos que se quer trazer de novo; é pelo raciocínio que se faz escutar, e não por injúrias. Os Espíritos superiores que nos assistem, nos dão, a esse respeito, o preceito e o exemplo; seria indigno de uma doutrina que não prega senão o amor e a benevolência, abaixar-se até a arena do personalismo; deixamos esse papel àqueles que não a compreendem. Nada nos fará, pois, desviar da linha que seguimos, da calma e do sangue frio, que não cessaremos de considerar no exame racional de todas as questões, sabendo que por aí fazemos mais partidários sérios do Espiritismo que pelo amargor e pela acrimônia.

Na instrução que publicamos, na cabeça do nosso primeiro número, traçamos o plano que nos propúnhamos seguir: citar os fatos, mas também escrutá-los e passá-los pela escalpelo da observação; apreciá-los e deduzir-lhes as conseqüências. No início, toda atenção estava concentrada sobre os fenômenos materiais, que alimentaram, então, a curiosidade pública, mas a curiosidade não tem senão um tempo; uma vez satisfeita, deixa-se o seu objeto como uma criança deixa o seu brinquedo. Os Espíritos nos disseram então: “Este é o primeiro período, que passará logo para dar lugar a idéias mais elevadas; fatos novos vão se revelar que marcarão um novo, o período filosófico, e a doutrina crescerá em pouco tempo, como a criança que deixa seu berço. Não vos inquieteis com o escárnio, os escarnecedores serão escarnecidos eles mesmos, e amanhã encontrareis zelosos defensores entre os vossos mais ardorosos adversários de hoje. Deus quer que assim seja, e estamos encarregados de executar a sua vontade; a má vontade de alguns homens não prevalecerá contra ela; o orgulho daqueles que querem saber mais que ele será rebaixado.”

Estamos longe, com efeito, das mesas girantes, que não divertem mais quase nada, porque se deixa de tudo; não há senão o que fala ao nosso julgamento, do qual não se cansa, e o Espiritismo voga a plenas velas, em seu segundo período; cada um compreendeu que é toda uma ciência que se funda, toda uma filosofia, toda uma nova ordem de idéias; e era preciso seguir esse movimento, contribuir mesmo para ele, sob pena de não mais bastar à tarefa; eis porque nos esforçamos por nos mantermos nessa altura, sem nos fecharmos nos estreitos limites de um boletim anedótico. Elevando-se à categoria de doutrina filosófica, o Espiritismo conquistou inumeráveis adeptos, mesmo entre aqueles que não foram testemunhas de nenhum fato material; é que o homem ama o que fala à sua razão, o que pode apreciar, e que encontra, na filosofia espírita, outra coisa que um passatempo, alguma coisa que preenche, nele, o vazio pungente da incerteza. Penetrando nesse mundo extracorpóreo pelos caminhos da observação, quisemos nele fazer nossos leitores penetrarem, e fazê-lo compreenderem; cabe a eles julgarem se alcançamos nosso objetivo.

Prosseguiremos, pois, em nossa tarefa durante o ano que vai começar, e que tudo anuncia dever ser fecundo. Novos fatos, de uma ordem estranha, surgem neste momento e nos revelam novos mistérios; nós os registraremos cuidadosamente, e neles procuraremos a luz com tanta perseverança quanto no passado, porque tudo pressagia que o Espiritismo vai entrar numa nova fase, mais grandiosa e mais sublime ainda.

ALLAN KARDEC.

Nota. A grande quantidade de matérias nos obriga a remeter para o próximo número a continuação do nosso artigo sobre a Pluralidade das existências, e a do conto de Frédric Soulié.

ALLAN KARDEC.

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Uma questão de prioridade com relação ao Espiritismo

Um dos nossos assinantes, o senhor Ch. Renard, de Rambouillet, nos dirigiu a carta seguinte:

“Senhor e digno irmão em Espiritismo, li, ou antes, devorei com um prazer indizível, os números de vossa Revista, à medida que os recebia. Isso não é de admirar de minha parte, visto que meus parentes eram adivinhadores de geração em geração. Uma de minhas tias avós foi mesmo condenada ao fogo por contumácia no crime de Vauldrie e de assistente do sabbat; não evitou a fogueira senão porque se refugiou na casa de uma de suas irmãs, abadessa de religiosas enclausuradas. Isso fez com que eu herdasse algumas migalhas de ciências ocultas, o que não me impediu de passar pela crença, se fé há, pelo materialismo e pelo ceticismo. Enfim, fatigado, doente de negação, as obras do célebre extático Swedenborg me conduziram à verdade e ao bem; eu mesmo tornei-me extático, assegurei-me ad vivum de verdades que os Espíritos materializados do nosso globo não podem compreender. Tive comunicações de todas as espécies; fatos de visibilidade, de tangibilidade, transporte de objetos perdidos, etc. Teríeis, bom irmão, a bondade de inserir a nota adiante num de vossos números? Certamente, não pelo meu amor-próprio, mas por causa da minha qualidade de Francês.

“As pequenas causas produzem, às vezes, grandes efeitos. Por volta de 1840, travei conhecimento com o senhor Cahagnet, torneiro marceneiro, vindo para Rambouillet por razões de saúde. Esse operário, fora de série pela sua inteligência, eu o apreciava e o iniciava no magnetismo humano; disse-lhe um dia: Tenho quase a certeza de que um sonâmbulo lúcido está apto para ver as almas dos falecidos e entabular conversação com elas; ele espantou-se. Convidei-o a fazer essa experiência quando tivesse um lúcido; foi bem sucedido e publicou um primeiro volume de experiências necromânticas, seguido de outros volumes e brochuras, que foram traduzidos na América sob o título de Telégrafo celeste. Em seguida o extático Davis publicou suas visões ou excursões no mundo espírita.

Franklin fez, sobre os desmaterializados, pesquisas que conduziram às manifestações e à comunicações mais fáceis que outrora. As primeiras pessoas que ele mediatizou nos Estados Unidos foram uma senhora viúva Fox e suas duas senhoritas. Há uma singular coincidência entre esse nome e o meu, uma vez que a palavra inglesa fox significa renard.

“Há muito tempo os Espíritos disseram que se podia comunicar com os Espíritos de outros globos e deles receber desenhos e descrições. Expus essa coisa ao senhor Cahagnet, mas ele não foi mais longe que nosso satélite.

“SOU, etc. CH. RENARD.”

Nota. A questão de prioridade, em matéria de Espiritismo, sem contradita, é uma questão secundária; mas não é menos notável senão depois da importação dos fenômenos americanos, uma multidão de fatos autênticos ignorados do público, revelaram a produção de fenômenos semelhantes seja em França, seja em outros países da Europa, em uma época contemporânea ou anterior. É do nosso conhecimento que muitas pessoas se ocupavam com os fenômenos espíritas bem antes que fossem questão de mesas girantes, e disso temos provas por datas seguras. Ó senhor Renard parece ser desse número, e segundo ele, suas experiências não foram estranhas às feitas na América. Registramos sua observação como interessando à história do Espiritismo e para provar, uma vez mais, que essa ciência tem raízes no mundo inteiro, o que tira, àqueles que gostariam de lhe opor uma barreira, toda chance de sucesso. Abafada em um ponto, ela renascerá mais viva em muitos outros, até o momento em que a dúvida não será mais permitida, ela tomará seu lugar entre as crenças usuais; será bem preciso, então, que seus adversários, bom grado ou malgrado, nela tomem seu partido.

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Variedades – Monomania religiosa

Revista Espírita, dezembro de 1858

Leu-se, na Gazette de Mons: “Um indivíduo atacado de monomania religiosa, seqüestrado há sete anos no estabelecimento do senhor Stuart, e que até ali se mostrara de uma natureza muito doce, chegou a enganar a vigilância de seus guardas e a se apoderar de uma faca. Estes, não podendo fazê-lo devolver essa arma, informaram o diretor do que se passava.

“O senhor Stuart logo se colocou perto desse furioso, e, não consultando senão sua coragem, quis desarmá-lo; mas, apenas havia dado alguns passos ao encontro do louco, este se arrojou sobre ele com a rapidez do relâmpago e o atingiu a golpes redobrados. Não foi senão com muita dificuldade que se chegou a dominar o assassino.

“Das sete feridas, com as quais o senhor Stuart fora atingido, uma era mortal: a que recebera no baixo ventre; e segunda-feira, às três horas e meia, sucumbiu em conseqüência de uma hemorragia que se declarara nessa cavidade.”

Que se diria se esse indivíduo estivesse atacado de uma monomania espírita, ou mesmo se, em sua loucura, tivesse falado de Espíritos? E todavia isso se poderia, uma vez que há muitas monomanias religiosas, e todas as ciências forneceram seu contingente. Que se poderia racionalmente disso concluir contra o Espiritismo, senão que, em conseqüência da fragilidade de sua organização, o homem pode se exaltar sobre esse ponto como sobre tantos outros? O meio de prevenir essa exaltação não é combater a idéia; de outro modo se correria o risco de se ver renovarem os prodígios das Cévènes. Se jamais se organizasse uma cruzada contra o Espiritismo, vê-lo-íamos propagar-se mais e mais; por que, como se opor a um fenômeno que não tem nem lugar nem tempo preferidos; que pode se reproduzir em todos os países, em todas as famílias, na intimidade, no segredo mais absoluto, melhor ainda que em público? O meio de prevenir os inconvenientes, dissemo-lo em nossa Instrução prática, é fazê-lo compreender de tal modo que nele não se veje mais que um fenômeno natural, mesmo naquilo que ofereça de mais extraordinário.

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A Bela Cordoeira

Revista Espírita, dezembro de 1858

Notícia. – Louise Charly, apelidada Labé, cognominada a Belle Cordière, nascida em Lyon, sob François I. Ela era de uma beleza perfeita e recebeu uma educação muito cuidadosa; sabia o grego e o latim, falava o espanhol e o italiano com uma pureza perfeita, e fazia, nessas duas línguas, poesias que não teriam renegado os escritores nacionais. Formada em todos os exercícios do corpo, conhecia a equitação, a ginástica e o manejo das armas. Dotada de um caráter muito enérgico, distinguia-se, ao lado de seu pai, entre os mais valentes combatentes, no cerco de Perpignan, em 1542, sob o nome do capitão Loys. Esse cerco não tendo sido bem sucedido, ela renunciou ao ofício das armas e retornou a Lyon com seu pai. Esposou um rico fabricante de cordames, de nome Ennemond Perrin, e logo ela não foi conhecida senão sob o nome de a Belle Cordière, nome que permaneceu na rua em que ela residia, e sobre o local no qual estavam as oficinas de seu marido. Ela instituiu em sua casa reuniões literárias, onde eram convidados os espíritos mais esclarecidos da província. Tem-se dela uma coleção de poesias. Sua reputação de beleza e de mulher de espírito, atraindo para sua casa a elite dos homens, excitou o ciúme das senhoras lionesas que procuraram vingarse dela pela calúnia; mas sua conduta sempre foi irrepreensível.

Tendo-a evocado, na sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 26 de outubro de 1858, nos foi dito que ela não podia vir ainda, por motivos que não foram explicados. No dia 9 de novembro atendeu ao nosso chamado, e eis o retrato que dela fez o senhor Adrien, nosso médium vidente:

Cabeça oval; tez pálida, mate; olhos negros, belos e notáveis, sobrancelhas arqueadas; fronte desenvolvida e inteligente, nariz grego, fino; boca média, lábios indicando a bondade de espírito; dentes muitos bonitos, pequenos, bem enfileirados; cabelos negros de azeviche, ligeiramente crespos. Belo porte da cabeça; talhe grande e bem solto. Vestuário de rouparias brancas.

Nota. – Sem dúvida, nada prova que esse retrato, e o precedente, não estavam na imaginação do médium, porque não temos controle; mas quando o faz com detalhes tão precisos de pessoas contemporâneas, que jamais viu, e que são reconhecidas por parentes ou amigos, não se pode duvidar da realidade; de onde se pode concluir que, uma vez que ele vê uns com uma verdade incontestável, pode vê-la em outros. Uma outra circunstância, que deve ser tomada em consideração, é que ele vê sempre o mesmo Espírito sob a mesma forma, e que, ainda que o fosse com vários meses de intervalo, o retrato não varia. Seria preciso supor nele uma memória fenomenal, para crer que ele possa se lembrar assim dos menores traços de todos os Espíritos, dos quais Fez a descrição e que se contam por centenas.

1. Evocação. – R. Estou aqui.

2. Teríeis a bondade de nos responder a algumas perguntas que gostaríamos de vos endereçar? – R. Com prazer.

3. Lembrai-vos da época em que fostes conhecida sob o nome de a Belle Cordière? – R. Sim.

4. De onde poderiam provir as qualidades viris que vos levou a abraçar a profissão das armas que, segundo as leis da Natureza, está antes nas atribuições dos homens? – R. Isso sorria ao meu espírito ávido de grandes coisas; mais tarde ele se voltou para um outro gênero de idéias mais sérias. As idéias com as quais se nasce, certamente, vêm de existências anteriores, das quais são o reflexo, todavia, elas se modificam muito, seja por novas resoluções, seja pela vontade de Deus.

5. Por que esses gostos militares não persistiram em vós, e como puderam, tão prontamente, ceder o lugar aos da mulher? – R. Vi coisas que não vos desejaria ver.

6. Fostes contemporânea de François l e de Charles-Quinto; poderíeis dar-nos vossa opinião sobre esses dois homens e traçar-lhes o paralelo? – R. Não quero julgar; tinham defeitos, vós os conheceis; suas virtudes foram pouco numerosas: alguns traços de generosidade e eis tudo. Deixai isso, seu coração poderia sangrar ainda; eles sofrem bastante!

7. Qual era a fonte dessa alta inteligência que vos tornou apta a receber uma educação tão superior à das mulheres do vosso tempo? – R. Existências penosas e a vontade de Deus!

8. Havia, pois, em vós um progresso anterior? – R. Isso não pode ser de outro modo.

9. Essa instrução vos fez progredir como Espírito? – R. Sim.

10. Pareceis haver sido feliz sobre a Terra: o sois mais agora? – R. Que pergunta! Tão feliz que se seja na Terra, a felicidade do Céu é bem outra coisa! Quantos tesouros e quantas riquezas, que conhecereis um dia, e dos quais não suspeitais ou ignorais completamente!

11. Que entendeis por Céu? – R. Entendo por Céu os outros mundos.

12. Que mundo habitais agora? – R. Resido num mundo que não conheceis; mas sou pouco ligada a ele: a matéria nos liga pouco.

13. É Júpiter? – R. Júpiter é um mundo feliz; mas pensais que só ele, entre todos, seja favorecido por Deus? São tão numerosos quanto os grãos de areia do Oceano.

14. Conservastes o gênio poético que tínheis neste mundo? -R. Responder-vos-ia com prazer, mas temo chocar outros Espíritos, ou colocar-me abaixo do que sou: o que faria que minha resposta se tornasse inútil, tomando-se sem razão.

15. Poderíeis nos dizer qual classe poderíamos vos consignar entre os Espíritos?
– Sem resposta.

(A São Luís.) São Luís poderia nos responder a esse respeito? -R. Ela está aqui: não posso dizer o que ela não quer dizer. Não vedes que ela é das mais elevadas, entre os Espíritos que evocais comumente? De resto, nossos Espíritos não podem apreciar exatamente as distâncias que os separam: elas são incompreensíveis para vós, e todavia são imensas!

16. (A Louise Charly). Sob qual forma estais entre nós? – R. Adrien acaba de me pintar.

17. Por que essa forma antes que uma outra, por que, enfim, no mundo em que estais, não sois tal qual éreis na Terra? – R. Evocastes-me poeta, vim poeta.

18. Poderíeis nos ditar algumas poesias ou um trecho qualquer de literatura? Estaríamos felizes tendo alguma coisa vossa. – R. Procurai vos proporcionar meus antigos escritos. Não gostamos dessas provas, sobretudo em público: fá-lo-ei, todavia, de outra vez.

Nota. – Sabe-se que os Espíritos não gostam das provas, e as perguntas dessa natureza têm sempre, mais ou menos, esse caráter, sem dúvida, é por isso que eles não se submetem a elas quase nunca. Espontaneamente, e no momento em que menos esperamos, freqüentemente, nos dão as coisas mais surpreendentes, as provas que teríamos solicitado em vão; mas basta, quase sempre, que se lhes peça uma coisa para que se não a obtenha, sobretudo, se ela denota um sentimento de curiosidade. Os Espíritos, e principalmente os Espíritos elevados, querem nos provar que não estão às nossas ordens.

A Belle Cordière, espontaneamente, no dia seguinte, fez escrever pelo médium escrevente, que lhe serviu de intérprete.

“Vou ditar-te o que prometi; não são versos, que não os quero mais fazer; aliás, não me lembro mais dos que fiz, e não gostarias deles: será a mais modesta prosa.

“Na Terra, gabei o amor, a doçura e os bons sentimentos: falei um pouco daquilo que não conhecia. Aqui, não é o amor que é preciso, é uma caridade grande, austera, esclarecida; uma caridade forte e constante que não há senão um exemplo na Terra.

“Pensai, ó homens! que de vós depende serdes felizes e fazerdes o vosso mundo um dos mais avançados do céu: não tendes que fazer senão calarem ódios e inimizades, senão esquecer rancores e cóleras, senão perder o orgulho e a vaidade. Deixai tudo isso como um fardo que vos será preciso abandonar, cedo ou tarde. Esse fardo é para vós um tesouro na Terra, eu o sei; por isso teríeis o mérito em abandoná-lo e perdê-lo, mas no céu esse fardo toma-se um obstáculo para a vossa felicidade. Crede-me, pois: apressai vosso progresso, a felicidade que vem de Deus é a verdadeira felicidade. Onde encontrareis os prazeres que valham as alegrias que dá aos seus eleitos, aos seus anjos?

“Deus ama os homens que procuram avançar em seu caminho, contai, pois, com seu apoio. Não tendes confiança nele? Crede-o seja perjuro, porque não vos entregais a ele inteiramente, sem restrição? Infelizmente não quereis ouvir, ou poucos dentre vós ouvem; preferis o hoje ao dia de amanhã; vossa visão limitada limita vossos sentimentos, vosso coração e vossa alma, e sofreis para avançar, em lugar de avançar natural e facilmente pelo caminho do bem, por vossa própria vontade, porque o sofrimento é o meio que Deus emprega para vos moralizar. Que não eviteis vossa rota segura, mas terrível para o viajor.

Terminarei vos exortando a não mais olhar a morte como um flagelo, mas como a porta da verdadeira vida e da verdadeira felicidade.

LOUISE CHARLY.

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Conversas familiares de além túmulo – Uma viúva de Malabar

Revista Espírita, dezembro de 1858

Desejávamos interrogar uma dessas mulheres da índia, que têm o uso de se queimarem sobre o corpo de seu marido. Não as conhecendo, tínhamos pedido a São Luís se consentiria em nos enviar uma que estivesse em condições de responder às nossas perguntas, de maneira um pouco satisfatória. Ele respondeu-nos que o faria de bom grado, em alguma ocasião. Na sessão da Sociedade, do dia 2 de novembro de 1858, o senhor Adrien, médium vidente, viu uma delas disposta a falar, e da qual fez o seguinte retrato:

Olhos grandes, negros, colorido amarelo no branco; figura arredondada, face rechonchuda e gorda; pele amarelo-açafrão polido; cílios longos, sobrancelhas arqueadas, negras; nariz mais ou menos achatado, boca grande e sensual; belos dentes grandes e lisos; cabelos escorridos, abundantes, negros e espessos de gordura. Corpo bastante grosso, atarracado e gordo. Lenços de pescoço a envolvem deixando a metade do peito nu. Braceletes nos braços e nas pernas.

1. Lembrai-vos, mais ou menos, em que época vivestes na índia, e onde fostes queimada sobre o corpo de vosso marido? – R. Ela fez sinal que não se lembra. – São Luís respondeu que foi há cerca de cem anos.

2. Lembrai-vos do nome que tínheis? – R. Fátima.

3. Que religião professáveis? – R. O maometismo.

4. Mas o maometismo não manda tais sacrifícios? – R. Nasci muçulmana, mas meu marido era da religião de Brahma. Tive que me conformar com o uso do país em que residia. As mulheres não se pertencem.

5. Que idade tínheis quando morrestes? – R. Tinha, creio, em tomo de vinte anos.

Nota. – O senhor Adrien observou que ela parecia ter pelo menos vinte e oito a trinta; mas que nesse país as mulheres envelhecem mais depressa.

6. Sacrificaste-vos voluntariamente? – R. Preferiria casar-me com um outro. Refleti bem, e concebereis que pensamos todos do mesmo modo. Segui o costume; mas no fundo preferia não fazê-lo. Esperei vários dias o outro marido, e ninguém veio; então, obedeci à lei.

7. Que sentimento pôde ditar essa lei? – R. Idéias supersticiosas. Afigura-se que, em se queimando, se é mais agradável à Divindade; que resgatamos as faltas daquele que perdemos, e que vamos ajudá-lo a viver feliz no outro mundo.

8. Vosso marido teve vontade do vosso sacrifício? – R. Jamais procurei rever meu marido.

9. Há mulheres que se sacrificam assim deliberadamente? -R. Há pouco delas; uma em mil, e ainda, no fundo, elas não gostariam de fazê-lo.

10. Que se passou convosco no momento em que a vida corporal se extinguiu? – R. A perturbação; tive uma neblina, e depois não sei o que se passou. Minhas idéias não se ordenaram senão depois de muito tempo. Ia por toda parte, e, entretanto, não via bem; e ainda agora, não estou inteiramente esclarecida; tenho muitas encarnações a sofrer para me elevar; mas não me queimarei mais… Não vejo a necessidade de se queimar, de se lançar no meio das chamas para se elevar… sobretudo por faltas que não se cometeu; depois, isso não me agradou… De resto, não procurei sabê-lo, dar-me-íeis alegria orando um pouco por mim; porque compreendo que não há senão a prece para suportar com coragem as provas que nos são enviadas: Ah! se eu tivesse a fé!

11. Pedis para orarmos por vós; mas somos cristãos, e nossas preces poderiam ser-vos agradáveis? – R. Não há senão um Deus para todos os homens.

Nota. – Em várias das sessões seguintes a mesma mulher veio entre os Espíritos que as assistiam. Ela disse que vinha para se instruir. Parecia sensível ao interesse que se lhe testemunhava, porque ela nos seguiu várias vezes em outras reuniões e mesmo na rua.

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Poesia espírita – O despertar de um Espírito

Revista Espírita, dezembro de 1858

NOTA. – Estes versos foram escritos, espontaneamente, por meio de uma cesta sustentada por uma jovem senhora e uma criança. Pensamos que mais de um poeta poderia honrar-se com eles. Foram-nos comunicados por um de nossos assinantes.

Quanto a Natureza é bela e quanto o ar é ameno!
Senhor! Rendo graças e te admiro, de joelhos.
Possa o hino de alegria de meu reconhecimento
Subir, como o incenso, até a tua onipotência.

Assim, diante dos olhos de suas duas irmãs em luto,
Fizeste sair outrora Lázaro de seu sepulcro;
De Jairo desvairado, a filha bem-amada
Foi em seu leito de morte por tua voz reanimada.

Do mesmo modo, Deus poderoso! Me estendeste a mão;
Levanta-te! Tu me disseste: não o disseste em vão.
Por que não sou, ai, senão um vil montão de lama?
Gostaria de te louvar com a voz de um anjo;

Tua obra jamais me pareceu tão bela!
É àquele que sai da noite do túmulo
Que o dia parece puro, a luz brilhante,
O sol radioso e a vida embriagadora.

Então o ar é mais doce que o leite e o mel;
Cada som parece uma palavra nos concertos do céu.
A voz surda dos ventos exala uma harmonia
Que aumenta no vago e se torna infinita.

O que o Espírito concebe, o que fere os olhos,
É que se pode adivinhar no livro dos céus,
No espaço dos mares, sob as vagas profundas,
Em todos os oceanos, os abismos, os mundos,

Tudo se arredonda em esfera, e sente-se que no meio
Esses raios convergentes conduzem a Deus.
E tu, cujo olhar plana sobre as estrelas,
Que te ocultas no céu como um rei sob seus véus,

Qual é, pois, tua grandeza, se esse vasto universo
Não é senão um ponto aos seus olhos, e o espaço dos mares
Não é mesmo um espelho para teu esplendor imenso?
Qual é, pois, tua grandeza, qual é, pois, tua essência?

Que palácio tão vasto construíste, ó Rei!
Os astros não saberiam nos separar de ti.
O sol a teus pés, poder sem medida,
Parece o ônix que um príncipe amarra ao seu sapato.

O que admiro em ti, sobretudo, 6 majestade!
É bem menos tua grandeza que a imensa bondade
Que se revela em tudo, assim como a luz,
E de um ser impotente atende a prece.

JODELLE.

 

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O papel da mulher

Revista Espírita, dezembro de 1858

Sendo a mulher mais finamente desenhada que o homem, indica naturalmente uma alma mais delicada; assim é que, nos meios semelhantes, em todos os mundos, a mãe será sempre mais bonita que o pai; porque é ela que a criança vê primeiro; é para a figura angélica de uma jovem que a criança volve seus olhos sem cessar; é para a mãe que a criança seca seu pranto, apóia seus olhares, ainda fracos e incertos. A criança tem, pois, uma intuição natural do belo.

A mulher, sobretudo, sabe-se fazer notar pela delicadeza de seus pensamentos, a graça de seus gestos, a pureza de suas palavras; tudo o que vem dela deve-se harmonizar com a sua pessoa, que Deus criou bela.

Seus longos cabelos, que ondeiam sobre seu pescoço, são a imagem da doçura, e da facilidade com a qual sua cabeça se dobra sem romper sob as provas. Refletem a luz dos sóis, como a alma da mulher deve refletir a mais pura luz de Deus. Jovens, deixai vossos cabelos flutuarem; Deus os criou para isso: parecereis, ao mesmo tempo, mais naturais e mais ornadas.

A mulher deve ser simples em seu vestuário; ela saiu bastante bela da mão do Criador para não ter necessidade de adornos. Que o branco e o azul se casem sobre os vossos ombros. Deixai também flutuar vossos vestidos; que vossos vestidos sejam vistos estendendo-se atrás de vós, em um longo traço de gaze, como uma leve nuvem indicando que ainda há pouco estivestes aí. Mas que farão o enfeite, o vestuário, a beleza, os cabelos ondulantes ou flutuantes, amarrados ou apertados, se o sorriso tão doce das mães e das amantes não brilharem sobre os vossos lábios! Se os vossos olhos não semeiam a bondade, a caridade, a esperança nas lágrimas de alegria que deixam correr, nos relâmpagos que jorram desse braseiro de amor desconhecido!

Mulheres, não temais arrebatar os homens pela vossa beleza, pela vossa graça, pela vossa superioridade; mas que os homens saibam que, para serem dignos de vós, é preciso que sejam tão grandes quantos sois belas, tão sábios quanto sois boas, tão instruídos quanto sois ingênuas e simples. E preciso que ele saibam que devem merecer-vos, que sois o preço da virtude e da honra; não dessa honra que se cobre de um capacete, e de um escudo, e brilha nas lutas e nos torneios, o pé sobre a fronte de um inimigo caído; não, mas a honra segundo Deus.

Homens, sede úteis, e quando os pobres bendizerem vosso nome, as mulheres serão vossas iguais; formareis então um todo; sereis a cabeça e as mulheres serão o coração; sereis o pensamento benfazejo, e as mulheres serão as mãos liberais. Uni-vos, pois, não só pelo amor, mas ainda pelo bem que podereis fazer a dois. Que esses bons pensamentos e essas boas ações, realizadas por dois corações amantes, sejam os anéis dessa cadeia de ouro e de diamante que se chama o casamento e, então, quando os anéis forem bastante numerosos,

Deus vos chamará para junto dele, e continuareis a ajuntar, ainda, as argolas precedentes, mas na Terra as argolas eram de um metal pesado e frio, no céu serão de luz e de fogo.

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