Senhor Poitevin, aeronauta

Revista Espírita, abril de 1859

Morto há mais ou menos dois meses, de uma febre tifóide contraída em conseqüência de uma descida que fez em pleno mar.

Sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 11 de fevereiro de 1859.

1. Evocação. – R. Heis-me, falai.

2. Lamentais a vida terrestre? – R. Não.

3. Sois mais feliz que de quando vivo? – R. Muito.

4. Qual motivo pôde levar-vos às experiências aeronáuticas? – R. A necessidade.

5. Tínheis o pensamento de servir à ciência? – R. De nenhum modo.

6. Vedes hoje a ciência aeronáutica sob um outro ponto de vista do que de vossa vida? – R. Não; via-a como a vejo agora, porque a via bem. Vejo sempre aperfeiçoamentos a trazer que eu não poderia desenvolver por falta de ciência; mas esperai; homens virão que lhe darão o relevo que ela merece e que merecerá um dia.

7. Credes que a ciência aeronáutica se tomará um dia um objeto de utilidade pública? – R. Sim, certamente.

8. A grande preocupação daqueles que se ocupam dessa ciência, é a procura dos meios de dirigir os balões; pensais que a isso se chegará? – R. Sim, certamente.

9. Qual é, segundo vós, a maior dificuldade que apresenta a direção dos balões? – R. O vento, as tempestades.

10. Assim, não é a dificuldade de encontrar um ponto de apoio? — R. Se se conduzissem os ventos, conduzir-se-iam os balões.

11. Poderíeis assinalar o ponto para o qual conviria dirigir as pesquisas sob esse aspecto? – R. Deixai fazer.

12. Em vossa vida, estudastes os diferentes sistemas propostos? – R. Não.

13. Poderíeis dar conselhos àqueles que se ocupam dessas espécies de pesquisas? – R. Pensais que seguiriam vossos avisos?

14. Não seriam os nossos mas os vossos. – R. Quereis um tratado? Eu o mandarei fazer.

15. Por quem? – R. Por amigos que me guiaram, a mim mesmo.

16. Há aqui dois inventores distintos em fatos aeronáuticos, o senhor Sanson e o senhor Ducroz que obtiveram rendimento científico muito honroso. Fazeis uma idéia do seu sistema? – R. Não; há muito a dizer; não os conheço.

17. Admitindo como resolvido o problema da navegação, credes na possibilidade de uma navegação aérea sobre uma grande escala, como sobre o mar? – R. Não, jamais como pelo telégrafo.

18. Não falo da rapidez das comunicações, que jamais podem ser comparadas às do telégrafo, mas do transporte de um grande número de pessoas e de objetos materiais. Quais resultados se podem esperar sob esse aspecto? – R. Pouco e prontidão.

19. Quando estáveis em um perigo iminente, pensáveis no que serieis depois da morte? – R. Não; estava inteiramente absorvido em minhas manobras.

20. Que impressão fazia sobre vós o pensamento do perigo que corríeis? – R. O hábito havia enfraquecido o medo.

21. Que sensação experimentáveis quando estáveis perdido no espaço? – R. Perturbação, mas feliz; meu espírito parecia escapar do vosso mundo; entretanto, as necessidades das manobras me tornavam a chamar sob o vento à realidade, e me faziam recair na fria e perigosa posição na qual me encontrava.

22. Vedes com prazer vossa mulher seguir a mesma carreira de aventura vossa? – R. Não.

23. Qual é a vossa situação como Espírito? – R. Vivo como vós, quer dizer, posso dominar a minha vida espiritual como dominais a vossa vida material.

Nota. As curiosas experiências do senhor Poitevin, sua intrepidez, sua notável habilidade na manobra dos balões, nos faziam esperar encontrar, nele, mais elevação e uma grandeza nas idéias. O resultado não respondeu às nossas expectativas; a aerostação não era para ele, como se pôde ver, senão uma indústria, um modo de viver por um gênero particular de espetáculo; todas as suas faculdades estavam concentradas sobre os meios de excitar a curiosidade pública. É assim que, nessas conversas de além-túmulo, as previsões, freqüentemente, se desenrolam; ora ultrapassam, ora acha-se menos do que se esperava, prova evidente da independência das comunicações.

Em uma sessão particular, e por intermédio do mesmo médium, Poitevin ditou os conselhos seguintes para realizar a promessa que vinha de fazer, cada um poderá apreciar-lhe o valor; nós os damos como objeto de estudo sobre a natureza dos Espíritos, e não por seu mérito científico mais que contestável.

“Para conduzir um balão cheio de gás, encontrareis sempre as maiores dificuldades: a imensa superfície que oferece exposta aos ventos, a pequenez do peso que o gás pode levar, a fraqueza do envoltório que reclama esse ar sutil; todas essas causas jamais permitirão dar, ao sistema aerostático, a grande extensão que gostaríeis de vê-lo tomar. Para que o aerostato tenha uma utilidade real, é preciso que seja um modo de comunicação poderoso e dotado de uma certa presteza, mas, sobretudo, poderoso. Dissemos que ele ocupava o meio entre a eletricidade e o vapor; sim, e em dois pontos de vista:

1º. Ele deve transportar os viajantes mais depressa do que as ferrovias, menos depressa do que o telégrafo as mensagens.
2º. Não está no meio desses dois sistemas, porque participa, ao mesmo tempo, do ar e da terra, todos os dois servindo-lhe de caminho: está entre o céu e o mundo.

“Não me perguntastes se chegaríeis a ir, por esse meio, visitar outros planetas.

Entretanto, esse pensamento é o que tem inquietado bem os cérebros, e cuja solução encheria de espanto todo o vosso mundo. Não, não chegareis. Considerai, pois, que para atravessar esses espaços desconhecidos para vós, de milhões, de milhões de léguas, a luz gasta anos; vede, portanto, quanto será preciso de tempo para atingi-los, mesmo levados pelo vapor e pelo vento.

“Para retornar ao assunto principal, começando vos direi que não é preciso esperar muito do vosso sistema atualmente empregado; mas obtereis sempre mais atuando sobre o ar por compressão forte e ampla; o ponto de apoio que procurais, está diante de vós, vos cerca por todos os lados, com ele vos chocais a cada um dos vossos movimentos, ele entrava todos os dias vosso caminho e influi, sobretudo, no que locais. Pensai bem nisso, tirai desta revelação tudo o que puderdes: suas deduções são enormes. Não podemos tomar-vos pelas mãos e vos fazer inventar as ferramentas necessárias a esse trabalho, não podemos vos dar, palavra por palavra, uma indução; é preciso que vosso Espírito trabalhe, que amadureça seus projetos, sem isso não compreenderíeis o que faríeis e não saberíeis manejar vossos instrumentos; seríamos obrigados a voltar e abrir, nós mesmos, todos os vossos empenhos, e as circunstâncias imprevistas que viriam um dia, ou outro, combater vossos esforços, vos reconduziriam a vossa ignorância primária

‘Trabalhai, pois, e encontrareis o que procurardes: conduzi vosso Espírito para o lado que- vos indicamos, e aprendei pela experiência que não vos induzimos ao erro.”

Nota. Esses conselhos, embora encerrando incontestáveis verdades, não deixam de denotar um Espírito pouco esclarecido em certos pontos de vista, uma vez que parece ignorar a verdadeira causa da impossibilidade de atingir outros planetas. É uma prova a mais da diversidade de aptidões e de luzes que se encontram no mundo dos Espíritos, como neste mundo. É pela multiplicidade das observações que se chega a conhecê-lo, a compreendê-lo e a julgá-lo. Por isso, damos espécimes de todos os gêneros de comunicações, tendo o cuidado de fazer ressaltar o forte e o fraco. A de Poitevin terminou por uma consideração muito justa que nos parece suscitada por um Espírito mais filosófico do que o seu; de resto, ele dissera que faria redigir seus conselhos por seus amigos que, em definitivo, não nos ensinam nada.
Nela encontramos ainda uma nova prova, que os homens que têm uma especialidade na

Terra não são, sempre, os mais apropriados a nos esclarecerem como Espíritos, se, sobretudo, não são bastante elevados para se desligarem da vida terrestre.
É deplorável, para o progresso da aeronáutica, que a maioria desses homens intrépidos não possa colocar sua experiência em proveito da ciência, ao passo que os teóricos são estranhos à prática, e são como marinheiros que jamais viram o mar.

Incontestavelmente, haverá um dia engenheiros em aerostática, como há engenheiros marítimos, mas isso não será senão quando terão visto e sondado, por eles mesmos, as profundezas do oceano aéreo. Quantas idéias não lhes dariam o contato real dos elementos, idéias que escapam às pessoas do
ofício! porque, qualquer que seja seu saber, não podem, do fundo de seus gabinetes, perceber todos os escolhos; e, todavia, se essa ciência deva ser um dia uma realidade, isso não será por eles. Aos olhos de muitas pessoas é ainda uma quimera, e eis porque os inventores, que não são, em geral, capitalistas, não encontram nem apoio nem encorajamentos necessários. Quando a aerostação der dividendos, mesmo uma esperança, poderá ser cotada, os capitais não lhe faltarão; até lá não é preciso contar senão com o devotamento daqueles que vêem o progresso antes da especulação. Enquanto houver parcimônia nos meios de execução, haverá reveses pela impossibilidade de ensaios sobre uma tão vasta escala, ou em condições convenientes. Seremos forçados a fazê-lo mesquinhamente, o que é um mal, nisto, como em toda coisa.

O sucesso não será senão ao preço de sacrifícios suficientes para entrar largamente no caminho da prática, e quem diz sacrifício diz exclusão de toda idéia de benefício.

Esperamos que o pensamento de dotar o mundo da solução de um grande problema, não o fosse senão sob o ponto de vista da ciência, inspire algum generoso desinteresse. Mas a primeira coisa a fazer seria fornecer aos teóricos os meios para adquirir a experiência do ar, mesmo pelos meios imperfeitos de que dispomos. Se Poitevin tivesse sido um homem de saber, e tivesse inventado um sistema de locomotiva aérea, teria inspirado, sem contradita, mais confiança que aqueles que jamais deixaram a terra, e teria, provavelmente, encontrado os recursos que se recusam aos outros.

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Senhor Girard de Codemberg

Revista Espírita, abril de 1859

Antigo aluno da Escola Politécnica, membro de várias sociedades de sábios, autor de um livro intitulado: O Mundo espiritual, ou ciência cristã de comunicar intimamente com as potências celestes e as almas felizes. Falecido em novembro de 1858; evocado na Sociedade, no dia 14 de janeiro seguinte.

1. Evocação. – R. Estou aqui; que quereis comigo?

2. Viestes de bom grado ao nosso chamado? – R. Sim.

3. Quereis nos dizer o que pensais, atualmente, do livro que publicastes? – R. Cometi alguns erros, mas há coisa boa, e sou levado a crer que vós mesmos aprovareis o que eu disse ali, sem lisonja.

4. Dissestes, notadamente, que tivestes comunicações com a mãe do Cristo: vedes hoje se era realmente ela? – R. Não, não era ela, mas um Espírito que tomava o seu nome.

5. Com qual objetivo esse Espírito lhe tomava o nome? – R. Ele me via tomar o caminho do erro, e disso se aproveitava para comprometer-me mais; era um Espírito perturbador, um Espírito leviano; mais próprio ao mal do que ao bem; era feliz em ver minha falsa alegria; eu era seu joguete como vós o sois, freqüentemente, de vossos semelhantes.

6. Como vós, dotado de uma inteligência superior, não vos apercebestes do ridículo de certas comunicações? – R. Estava fascinado, e achava bom tudo o que me diziam.

7. Não pensais que essa obra pode fazer o mal no sentido em que se presta ao ridículo quanto às comunicações de além-túmulo? – R. Nesse sentido, sim; mas eu disse, também, que há do bom e do verdadeiro; e, sob um outro ponto de vista, fere os olhos das massas; no que nos parece mau, freqüentemente, encontrais um bom germe.

8. Sois mais feliz agora do que de quando vivo? – R. Sim, mas tenho muita necessidade de me esclarecer, porque estou ainda nas brumas que se seguem à morte; sou como o escolar que começa a soletrar.

9. Em vossa vida, conhecestes O Livro dos Espíritos? – R. Jamais prestei-lhe atenção; tinha minhas idéias assentes; nisso pequei, porque não saberia muito aprofundar e estudar todas as coisas; mas o orgulho aí é que sempre nos ilude; de resto, é próprio dos ignorantes em geral; não querem estudar senão o que preferem, e não escutam senão aqueles que os lisonjeiam.

10. Não éreis um ignorante; vossos títulos disso são a prova? -R. O que é o sábio da Terra diante da ciência do céu? Aliás, não há sempre a influência de certos Espíritos interessados em afastar a luz de nós?

Nota. Isso corrobora o que já foi dito, que certos Espíritos inspiram o distanciamento para as pessoas das quais se pode receber conselhos úteis e que pode frustrá-los. Jamais essa influência é de um bom Espírito.

11. E agora, que pensais desse livro? – R. Não posso dizê-lo sem lisonja, porém, não nos lisonjeamos mais: deveis compreender-me.

12. Vossa opinião sobre as penas futuras modificou-se? – R. Sim; eu acreditava nas penas materiais; creio agora nas penas morais.

13. Podemos fazer alguma coisa que vos seja agradável? – R. Sempre; cada um dizei uma pequena prece esta noite em minha intenção; por isso vos serei reconhecido; sobretudo, não vos esqueçais.

Nota. O livro do senhor de Codemberg fez uma certa sensação, e devemos dizê-lo, uma sensação penosa entre os partidários esclarecidos do Espiritismo, por causa da estranheza de certas comunicações que se prestam muito ao ridículo. Sua intenção era louvável, porque era um homem sincero; mas é um exemplo do império que certos Espíritos podem tomar lisonjeando e exagerando as idéias e os preconceitos daqueles que não pesam, com bastante severidade, os prós e os contras das comunicações espíritas. Mostra-nos, sobretudo, o perigo de derramá-las, muito levianamente, ao público, porque podem ser um motivo de repulsa, fortificar certas pessoas em sua incredulidade, e fazerem, assim, mais mal que bem, dando armas aos inimigos da coisa Não se poderia, pois, ser mais circunspecto a esse respeito.

Girard

Conversas familiares de além túmulo – Benvenuto Cellinl

Revista Espírita, abril de 1859

(Sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas de 11 de março de 1859.)

1. Evocação. – R. Interrogai-me, estou pronto; sede tão extensos quanto o desejais: tenho tempo para vos dar.

2. Lembrai-vos da existência que vivestes na Terra, no século XVI, de 1500 a 1570? – R. Sim, sim.

3. Qual é, atualmente, a vossa situação como Espírito? – R. Vivi em vários outros mundos, e estou bastante contente com a classe que hoje ocupo; não é um trono, mas estou sobre os degraus.

4. Tivestes outras existências corpóreas, na Terra, depois daquela que conhecemos? – R. Corpóreas, sim; na Terra, não.

5. Quanto tempo permanecestes errante? – R. Não posso calcular: alguns anos.

6. Quais eram as vossas ocupações no estado errante? – R. Eu me trabalhava.

7. Retomastes algumas vezes na Terra? – Pouco.

8. Assististes ao drama em que estais representado, e que pensais dele? – R. Fui vê-lo várias vezes; enquanto Celini, fiquei lisongeado, mas pouco como Espírito que progrediu.

9. Além da existência que conhecemos, tivestes outras na Terra? – R. Não, nenhuma.

10. Poderíeis dizer-nos o que éreis em vossa existência precedente? – R. Minhas ocupações eram bem diferentes das que tive em vossa Terra.

11. Qual mundo habitais? – R. Não o conheceis e não o vedes.

12. Poderíeis dar-nos uma descrição dele, quanto ao físico e ao moral? – R. Sim, facilmente.

Quanto ao aspecto físico, meus caros amigos, ali encontrei meu contentamento em beleza plástica: nada choca aos olhos; todas as linhas se harmonizam perfeitamente; a mímica é um estado constante; os perfumes nos cercam, e não poderíamos senão desejar o nosso bemestar físico, porque as necessidades, pouco numerosas, às quais estamos submetidos, são logo satisfeitas.

Pelo moral, a perfeição é menor, porque ali ainda se podem ver consciências perturbadas e Espíritos levados ao mal; não é a perfeição, longe disso, mas, como vos disse, é dela o caminho, e todos esperamos alcançá-la um dia.

13. Quais são as vossas ocupações no mundo que habitais? -R. Trabalhamos as artes. Sou artista.

14. Em vossas memórias, relatais uma cena de feitiçaria e de sortilégio que teria se passado no Coliseu, em Roma, na qual tomastes parte; lembrai-vos dela? – R. Pouco claramente.

15. Se a lêssemos para vós, isso evocaria as vossas lembranças? – R. Sim, dar-me-ia o conhecimento dela.

(Leitura feita do fragmento abaixo, de suas memórias.) “No meio dessa vida estranha, ligueime a um padre Siciliano, de espírito muito distinto, e que era profundamente versado nas letras gregas e latinas. Um dia, quando com ele conversava, a conversação caiu sobre a necromancia e disse-lhe que, em toda a minha vida, desejei ardentemente ver e aprender alguma coisa dessa arte. Para abordar semelhante empresa, é preciso uma alma firme e intrépida, respondeu-me o padre…

“Uma noite, pois, o padre fez os seus preparativos e disse-me para procurar um companheiro ou dois. Juntou-se a um homem de Pistóia, que também se ocupava de necromancia. Seguimos para o Coliseu. Ali o sacerdote se vestiu à maneira dos necromantes, depois pôs-se a desenhar no solo círculos, com as mais belas cerimônias que se possam imaginar. Havia trazido perfumes preciosos, drogas fétidas e fogo.

Quando tudo estava em ordem, fez uma porta no círculo e nele nos introduziu, tomando-nos, um após o outro, pela mão. Em seguida, distribuiu as funções. Depositou o talismã nas mãos do seu amigo, o necromante, encarregou os outros de velarem pelo fogo e pelos perfumes e, enfim, começou as suas conjurações. Essa cerimônia durou mais de uma hora e meia. O Coliseu se encheu de legiões de espíritos infernais. Quando o padre viu que eram bastante numerosos, voltou-se para mim, que cuidava dos perfumes, e disse-me: Benvenuto, peca-lhes alguma coisa. Respondi que desejava que eles se reunissem comigo em minha Siciliana Angélica. Nessa noite, não obtivemos resposta; todavia, fiquei encantado com o que vira. O necromante disse-me que seria preciso retornar uma segunda vez, que eu obteria tudo o que pedira, uma vez que trouxesse um jovem rapaz que tivesse ainda a sua virgindade. Escolhi um dos meus aprendizes e levei comigo ainda dois de meus amigos…

“Ele colocou-me nas mãos o talismã, dizendo-me para girá-lo para os lugares que ele designasse. Meu aprendiz estava colocado sob o talismã. O necromante começou as suas terríveis evocações, chamou pelo seu nome uma multidão de chefes de legiões infernais, e lhes deu ordens em hebreu, em grego e em latim, em nome do Deus incriado, vivo e eterno. Logo o Coliseu encheu-se de um número de demônios cem vezes mais considerável do que a primeira vez. Aconselhado pelo necromante, pedi de novo para achar-me com Angélica. Ele voltou-se para mim e disse-me: Não os ouviste anunciar que em um mês estarias com ela? E pediu-me para ter firmeza, porque ali havia mil legiões a mais, que ele não havia chamado. Acrescentou que elas eram as mais perigosas, e que, desde que respondessem às minhas perguntas, seria preciso tratá-las com doçura e despedi-las tranqüilamente. De outro lado, o jovem gritava apavorado que percebia um milhão de homens terríveis que nos ameaçavam, e quatro enormes gigantes, armados dos pés à cabeça, que pareciam querer entrar em nosso círculo. Durante esse tempo, o necromante, tremendo de medo, tentava conjurá-los, tomando a voz mais doce. O jovem enfiou a cabeça entre os joelhos e gritava: Quero morrer assim! Estamos mortos! Então lhe disse: “Essas criaturas estão todas abaixo de nós, e o que vês não é senão fumaça e sombra; assim, ergue os olhos.” Apenas me obedeceu, curvou-se de novo: Todo o Coliseu queima e o fogo vem sobre nós. O necromante ordenou fosse queimada assa fétida. Agnolo, encarregado dos perfumes, estava semimorto de medo.

A esse ruído, e a esse terrível fedor, o jovem se arriscou levantar a cabeça. Ouvindo-me rir, tranqüilizou-se um pouco, e disse que os demônios começavam a operar sua retirada. Permanecemos assim até o momento em que as matinas soaram. O jovem nos disse que não percebia mais do que alguns demônios, e a uma grande distância. Enfim, desde que o necromante cumpriu o resto de suas cerimônias e tirou sua roupa, saímos todos do círculo. Enquanto caminhávamos para a rua de Banchi para retornarmos às nossas casas, ele assegurava que dois dos demônios pulavam diante de nós, e corriam ora sobre os telhados, ora sobre o solo.

“O necromante jurava que, desde que colocara os pés num círculo mágico, nunca lhe aconteceu nada de tão extraordinário. Em seguida, tentou determinar-me para juntar-me a ele, para consagrar um livro que deveria nos proporcionar riquezas incalculáveis, e fornecernos os meios para forçarmos os demônios a nos indicarem os lugares onde estavam ocultos os tesouros que a terra esconde em seu seio…
“Depois de diferentes relatos que tinham mais ou menos relação com o que precede, Benvenuto contou como, ao cabo de trinta dias, quer dizer, no prazo fixado pelos demônios, ele reencontrou sua Angélica.”

16. Poderíeis dizer-nos o que há de verdadeiro nessa cena? -R. O necromante era um charlatão, eu era um romancista e Angélica era minha senhora.

17. Revistes François l, vosso protetor? – R. Certamente, ele reviu muitos outros que não foram seus protegidos.

18. Como o julgastes quando vivo e como o julgais agora? – R. Dir-vos-ei como julguei: como um príncipe e, nessa qualidade, cego pela sua educação e sua sociedade.

19. E agora, que dizeis dele? – R. Progrediu.

20. Foi por amor sincero às artes que ele protegeu os artistas? – R. Sim, e por prazer e vaidade.

21. Onde está agora? – R. Ele vive.

22. Na Terra? – R. Não.

23. Se o evocássemos neste momento, poderia vir e conversar conosco? – R. Sim, mas não forceis assim os Espíritos; que vossas evocações sejam preparadas de longa data e, então, tereis pouca coisa a perguntar ao Espírito. Assim, vos arriscais muito menos de serem enganados, porque o são algumas vezes. (São Luís).

24. (a São Luís): Poderíeis fazer com que viessem dois Espíritos que se falassem? – R. Sim.

25. Nesse caso, seria útil ter dois médiuns? – R. Sim, necessário.

Nota. Esse diálogo ocorreu em uma outra sessão; nós a relataremos em nosso próximo número.

26. (A Cellini): De onde vos veio o sentimento da arte, que estava em vós; tinha um desenvolvimento especial anterior? – R. Sim; por muito tempo estive ligado à poesia e à beleza da linguagem. Na Terra, liguei-me à beleza como reprodução, hoje me ocupo da beleza como invenção.

27. Tínheis também talentos militares, uma vez que o papa Clemente VII vos confiou a defesa do castelo Santo Ângelo. Todavia, vosso talento de artista não deveria vos dar muito mais aptidão para a guerra? – R. Eu tinha talento e sabia aplicá-lo. Em tudo, é preciso julgar, sobretudo para a arte militar de então.

28. Poderíeis ditar alguns conselhos aos artistas que procuram caminhar sobre os vossos passos? – R. Sim; dir-lhes-ia simplesmente para se ligarem mais do que não o fazem, e que eu mesmo não o fiz, à pureza e à verdadeira beleza; eles me compreenderão.

29. A beleza não é relativa e de convenção? O Europeu se crê mais belo que o negro.e o negro mais belo que o branco. Se há uma beleza absoluta, qual lhe é o tipo? Poderíeis darnos a vossa opinião a esse respeito? – R. De bom grado. Não tencionei fazer alusão a uma beleza de convenção: muito ao contrário; o belo está por toda parte, é o reflexo do Espírito sobre o corpo, e não somente a forma corporal. Como vo-lo disse, um negro pode ser belo, de uma beleza que será apreciada somente por seus semelhantes. Do mesmo modo, nossa beleza terrestre é disformidade para o Céu, como para vós, Brancos, o belo negro vos parece quase disforme. A beleza, para o artista, é a vida, o sentimento que sabe dar à sua obra; com isso dará beleza às coisas mais vulgares.

30. Poderíeis guiar um médium na execução de uma modelagem, como Bernard de Palissy guiou para os desenhos? – R. Sim.

31. Poderíeis mandar fazer alguma coisa pelo médium que vos serve atualmente de intérprete? – R. Como outros; mas preferiria um artista que conhecesse os truques.

Nota. A experiência prova que a aptidão de um médium por tal ou tal gênero de execução, prende-se à flexibilidade que apresente ao Espírito, e isso abstração feita do talento. Os conhecimentos do ofício e dos meios materiais de execução não são o talento, mas concebese que o Espírito que dirige o médium nele encontra uma dificuldade mecânica a menos para vencer. Vêem-se, pois, médiuns fazendo coisas admiráveis das quais não têm as primeiras noções, tais como da poesia, dos desenhos, das gravuras, da música etc.; mas é que, então, ha neles uma aptidão inata, ligando-se, sem dúvida, a um desenvolvimento anterior do qual não conservaram senão a intuição.

31. Poderíeis dirigir a senhora G.S., aqui presente, que ela mesma é artista, mas jamais conseguiu produzir alguma coisa como médium? – R. Tentarei, se ela quer.

32. (Senhora G.S.) Quando queres começar? – R. Quando o quiseres, a partir de amanhã.

33. Mas como saberei que a inspiração virá de ti? – R. A convicção vem com as provas: deixaia vir lentamente.

34. Por que não consegui até o presente? – R. Pouca persistência e boa vontade no Espírito chamado.

35. Agradeço a assistência que tu me prometes. – R. Adeus; até logo à minha companheira de trabalho.

Nota. A senhora G.S. deve ter posto mãos à obra, mas não sabemos, ainda, o que ela obteve.

benvenuto

A Indústria

Revista Espírita, abril de 1859

Comunicação espontânea do senhor Croz, médium escrevente, lida na Sociedade, em 21 de janeiro de 1859.

Os empreendimentos que cada dia despontam, são os atos providenciais e o desenvolvimento dos germes depositados pelos séculos. A Humanidade e o planeta que ela habita têm uma mesma existência, cujas fases se encadeiam e se respondem.
Logo que as grandes convulsões da Natureza se acalmaram, a febre que impelia às guerras de extermínio se apaziguaram, a filosofia apareceu, a escravidão desapareceu, e as ciências e as artes floresceram.

A perfeição divina pode se resumir pelo belo e o útil, e se Deus fez o homem à sua imagem foi porque quis que vivesse de sua inteligência, como ele mesmo vive no seio dos esplendores de sua criação.

Os empreendimentos que Deus abençoa, quaisquer que sejam as suas proporções, são, pois, aqueles que respondem aos seus desígnios, trazendo seu concurso à obra coletiva, cuja lei está escrita no Universo: o belo e o útil; a arte, filha do lazer e da inspiração, é o belo; a indústria, filha da ciência e do trabalho, é o útil.

Nota. Essa comunicação é quase o início de um médium que acaba de se formar com uma rapidez espantosa; convir-se-á que, por uma tentativa, isso promete. Desde a primeira sessão, escreveu, de um só traço, quatro páginas que não perdem em nada, ao que acabamos de ler, pela profundidade dos pensamentos, e que denotam, nele, uma aptidão notável para servir de intermediário a todos os Espíritos para as comunicações particulares. De resto, temos necessidade de estudá-lo antes sob esse aspecto, porque essa flexibilidade não é dada a todos; conhecemos os que não podem servir de intérpretes senão a certos Espíritos, e para uma certa ordem de idéias.

Desde que essa nota foi escrita, pudemos constatar o progresso desse médium, cuja faculdade oferece caracteres especiais e dignos de toda a atenção do observador.

 

Problema moral – Os canibais

Revista Espírita, abril de 1859

Um dos nossos assinantes nos dirigiu a pergunta seguinte, com o pedido de resolvê-la pelos Espíritos que nos assistem, se ainda não o fora resolvida.

“Os Espíritos errantes desejam, depois de um lapso de tempo mais ou menos longo, e pedem a Deus, sua encarnação como meio de adiantamento espiritual. Eles têm a escolha das provas e, usando nisso seu livre arbítrio, escolhem, naturalmente, aquelas que lhes parecem mais próprias para esse adiantamento, no mundo onde a reencarnação lhes é permitida. Ora, durante a sua existência errante, que empregam para se instruírem (são eles mesmos que nos dizem), devem aprender quais são as nações que melhor podem fazê-los alcançar o objetivo a que se propõem. Vêem tribos ferozes, de antropófagos, e têm a certeza que, encarnando-se entre eles, tornar-se-ão ferozes e comedores de carne humana. Não será aí, seguramente, que encontrarão seu progresso espiritual; seus instintos brutais, com isso, não terão adquirido senão mais consistência pela força do hábito. Eis, pois, seu objetivo falho quanto às encarnações entre tal ou tal povo.

“Ocorre o mesmo com certas posições sociais. Entre estas, há certamente as que apresentam obstáculos invencíveis ao adiantamento espiritual. Não citarei senão os matadores de animais nos matadouros, os carrascos, etc. Diz-se que essas pessoas são necessárias: uns porque não podemos passar sem alimento animal; os outros, porque é preciso executar as sentenças da justiça, nossa organização social assim querendo. Não é menos verdadeiro que o Espírito se encarnando no corpo de uma criança destinada a abraçar uma ou outra dessas profissões, deve saber que escolhe caminho falso e que se priva, voluntariamente, dos meios que podem conduzi-lo à perfeição. Não poderia ocorrer, com a permissão de Deus, que nenhum Espírito quisesse esses gêneros de existência e, nesse caso, em que se tornariam essas profissões, necessárias ao nosso estado social?”

A resposta a essa pergunta decorre de todos os ensinamentos que nos foram dados; nós podemos, pois, resolvê-la, sem necessidade de submetê-la de novo aos Espíritos.

 

Essas considerações se aplicam também às profissões das quais nosso correspondente fala; evidentemente, elas oferecem uma superioridade relativa para certos Espíritos, e é nesse sentido que se deve conceber a escolha que delas fazem. Posição igual pode mesmo ser escolhida como expiação ou como missão, porque não há onde não se possa encontrar ocasião de fazer o bem e de progredir, pela própria maneira que são exercidas.

Quanto à questão de se saber em que se tornariam essas profissões, no caso de que nenhum Espírito delas quisesse se encarregar, ela está resolvida pelos fatos; desde que os Espíritos que as alimentam partam de mais alto, não se deve temer vê-los sem trabalho. Quando o progresso social permitir suprimir o ofício de carrasco, é o lugar que faltará, e não os candidatos que irão se apresentar entre outros povos, ou em outros mundos menos avançados.

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Fraudes Espíritas

Revista Espírita, abril de 1859

Aqueles que não admitem a realidade das manifestações físicas, geralmente, atribuem à fraude os efeitos produzidos. Baseiam-se no fato de que os prestidigitadores hábeis fazem coisas que parecem prodígios quando não se conhece seus segredos; de onde concluem que os médiuns não são senão escamoteadores. Já refutamos esse argumento, ou antes, essa opinião, notadamente nos artigos sobre o senhor Home, e nos nos. da Revista de janeiro e fevereiro de 1858; sobre isso não diremos, pois, senão algumas palavras antes de falarmos de uma coisa mais séria.

Do fato de que há charlatães que vendem drogas nas praças públicas, de que há mesmo médicos que, sem irem à praça pública, enganam a confiança, segue-se que todos os médicos sejam charlatães, e o corpo médico, com isso, é atingido em sua consideração?

Do fato de que há pessoas que vendem tintura por vinho, segue-se que todos os vendedores de vinho são adulteradores e que não há vinho puro? Abusa-se de tudo, mesmo das coisas mais respeitáveis, e pode-se dizer que a fraude tem também seu gênio.

Mas a fraude tem sempre um objetivo, um interesse material qualquer; onde não haja nada a ganhar, não haverá nenhum interesse a enganar. Também dissemos, em nosso número precedente, a propósito dos médiuns mercenários, que a melhor de todas as garantias é um desinteresse absoluto.

Essa garantia, dir-se-á, não é única, porque, em casos de prestidigitação, há amadores que não visam senão divertir uma sociedade e não fazem disso um ofício; não pode ocorrer o mesmo com os médiuns? Sem dúvida, pode-se divertir um instante divertindo os outros, mas para nisso passar horas inteiras, e isso durante semanas, meses e anos, seria preciso, verdadeiramente, estar possuído pelo demônio da mistificação, e o primeiro mistificado seria o mistificador. Não repetiremos aqui tudo o que se disse sobre a boa fé dos médiuns, e dos assistentes, que podem ser o joguete de uma ilusão ou de uma fascinação. Nós o respondemos vinte vezes, assim como quanto a todas as outras objeções para as quais reenviamos notadamente à nossa Instrução prática sobre as manifestações, e aos nossos artigos precedentes da Revista. Nosso objetivo aqui não é de converter os incrédulos; se não o foram pelos fatos, não serão mais pelo raciocínio: seria, pois, perder nosso tempo. Ao contrário, nos dirigimos aos adeptos para premuni-los contra os subterfúgios, dos quais poderiam ser vítimas da parte de pessoas interessadas, por um motivo qualquer, em simular certos fenômenos; dizemos certos fenômenos, porque os há que desafiam, evidentemente, toda a habilidade da prestidigitação, tais são, notadamente, o movimento dos objetos sem contato, a suspensão dos corpos pesados no espaço, as pancadas de diferentes lados, as aparições, etc., e ainda, para alguns desses fenômenos, poder-se-ia, até certo ponto, simulálos, tanto progrediu a arte da imitação. O que é preciso fazer, em semelhante caso, é observar atentamente as circunstâncias, e sobretudo levar em conta o caráter e a posição das pessoas, o objetivo e o interesse que elas poderiam ter em enganar: aí está o melhor de todos os controles, porque são tais circunstâncias que levantam todos os motivos para a suspeição. Colocamos, pois, em princípio, que é preciso desconfiar de quem faça desses fenômenos um espetáculo, ou um objeto de curiosidade e de divertimento, que deles tire um proveito, por mínimo que seja, e se vanglorie de produzi-los à vontade e a propósito. Não poderíamos repetir demais que as inteligências ocultas, que se manifestam a nós, têm suas suscetibilidades, e querem nos provar que também têm seu livre arbítrio, e não se submetem aos nossos caprichos.

De todos os fenômenos físicos, um dos mais comuns é o dos golpes íntimos batidos na própria substância da madeira, com ou sem movimento da mesa ou de outro objeto do qual se sirva. Ora, esse efeito é um dos mais fáceis de serem imitados, e como é também um dos que se produzem mais freqüentemente, cremos ser útil revelar a pequena astúcia com a qual se pode enganar. Basta, para isso, colocar as duas mãos espalmadas sobre a mesa, e bastante próximas para que as unhas dos dedos se apóiem firmemente uma contra a outra; então, por um movimento muscular inteiramente imperceptível, se as faz friccionar, o que dá um pequeno ruído seco, tendo uma grande analogia com aqueles da tiptologia íntima. Esse ruído repercute na madeira e produz uma ilusão completa. Nada é mais fácil que fazer ouvir a quantos golpes se peça, uma bateria de tambor, etc.; responder a certas perguntas, por sim ou por não, por números, ou mesmo pela indicação de letras do alfabeto.

Uma vez prevenido, o meio de se reconhecer a fraude é bem simples. Ela não é mais possível se as mãos forem afastadas uma da outra, e assegurando-se que nenhum outro contato pode produzir o ruído. Os golpes reais, aliás, oferecem de característico que mudam de lugar e de timbre à vontade, o que não pode ocorrer quando são devidos à causa que assinalamos, ou a qualquer outra análoga; que saia da mesa para se transportar sobre um móvel qualquer que ninguém toca, enfim, que responda a perguntas imprevistas.

Chamamos, pois, a atenção das pessoas de boa fé para esse pequeno estratagema e todos aqueles que poderiam reconhecer, a fim de assinalá-los sem circunspecção. À possibilidade da fraude e da imitação não impede a realidade dos fatos, e o Espiritismo não pode senão ganhar, desmascarando os impostores. Se alguém nos disser: Eu vi tal fenômeno, mas havia charlatanice, responderemos que isso é possível; nós vimos, nós mesmos, supostos sonâmbulos simularem o sonambulismo com muita destreza, o que não impede de o sonambulismo ser um fato; todo mundo viu mercadores venderem algodão por seda, o que não impede que hajam verdadeiros tecidos de seda. É preciso examinar todas as circunstâncias e ver se a dúvida tem fundamento; mas nisso, como em todas as coisas, é preciso ser perito; ora, não poderíamos reconhecer, por juiz de uma questão qualquer, aquele que dela nada conhecesse.

Diremos o mesmo quanto aos médiuns escreventes. Geralmente, pensa-se que aqueles que são mecânicos oferecem mais garantias, não só pela independência das idéias, mas também contra o charlatanismo. Pois bem! É um erro. A fraude se introduz por toda parte, e sabemos com quanta habilidade se pode dirigir, à vontade mesmo, uma cesta ou uma prancheta que escreve, e dar-lhes todas as aparências de movimentos espontâneos.

O que tira todas as dúvidas, são os pensamentos exprimidos, quer venham de um médium mecânico, intuitivo, audiente, falante ou vidente. Há comunicações que estão de tal modo fora das idéias, dos conhecimentos, e mesmo da capacidade intelectual do médium que é preciso enganar-se estranhamente para honrá-los. Nós reconhecemos, no charlatanismo, uma grande habilidade e fecundos recursos, mas não lhe conhecemos, ainda, o dom de dar saber a um ignorante, ou o espírito àquele que não o tem.

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Quadro da vida Espírita

Revista Espírita, abril de 1859

Todos nós, sem exceção, cedo ou tarde, atingiremos o termo fatal da vida; nenhum poder poderia nos subtrair a essa necessidade, eis o que é positivo. As preocupações do mundo, freqüentemente, nos desviam do pensamento do que ocorre além do túmulo, mas, quando chega o momento supremo, poucos são os que não se perguntam em que se tornarão, porque a idéia de deixar a existência sem retomo tem alguma coisa de pungente. Quem poderia, com efeito, encarar com indiferença uma separação absoluta, eterna, de tudo o que se amou? Quem poderia ver sem medo abrir-se, diante de si, o abismo imenso do nada, onde viriam desaparecer para sempre todas as nossas faculdades, todas as nossas esperanças? “O que! depois de mim, nada, nada mais que o vazio; tudo se acabou sem retorno; ainda alguns dias e a minha lembrança será apagada da memória daqueles que me sobreviveram; logo, não restará nenhum traço da minha passagem sobre a Terra; o próprio bem que fiz será esquecido pelos ingratos que obsequiei; e nada para compensar tudo isso, nenhuma outra perspectiva que a de meu corpo roído pelos vermes!” Esse quadro do fim do materialista, traçado por um Espírito que viveu nesses pensamentos, não tem alguma coisa de horrível, de glacial? A religião nos ensina que isso não pode ser assim, e a razão no-lo confirma; mas essa existência futura, vaga e indefinida, nada tem que satisfaça nosso amor ao positivo; é o que, em muitos, engendra a dúvida. Temos uma alma, seja; mas, o que é a nossa alma? Tem ela uma forma, uma aparência qualquer? É um ser limitado ou indefinido? Uns dizem que é um sopro de Deus, outros uma centelha, outros uma parte do grande todo, o princípio da vida e da inteligência; mas o que é que tudo isso nos ensina? Diz-se, ainda, que ela é imaterial; mas uma coisa imaterial não poderia ter proporções definidas; para nós isso não é nada. A religião nos ensina, ainda, que seremos felizes ou infelizes, segundo o bem ou o mal que fizermos; mas qual é essa felicidade que nos espera no seio de Deus? É uma beatitude, uma contemplação eterna, sem outro emprego que o de cantar os louvores do Criador? As chamas do inferno são uma realidade ou uma figura? A própria Igreja o entende nesta última acepção, mas, quais são esses sofrimentos? Onde está esse lugar de suplício? Em uma palavra, que se faz, que se vê, nesse mundo que a todos espera?

Ninguém, diz-se, voltou para dele nos dar conta. É um erro, e a missão do Espiritismo é precisamente esclarecer-nos sobre esse futuro, de no-lo fazer, até um certo ponto, tocar pelo dedo e pelo olhar, não mais pelo raciocínio, mas pelos fatos. Graças às comunicações espíritas, isso não é mais uma presunção, uma probabilidade sobre a qual cada um borda à sua maneira, que os poetas embelezam com suas ficções, ou semeiam imagens alegóricas que nos enganam, é a própria realidade que nos aparece, porque são os próprios seres de além-túmulo que vêm nos pintar a sua situação, dizer-nos o que fazem, que nos permitem assistir, por assim dizer, a todas as peripécias de sua nova vida, e, por esse meio, nos mostram a sorte inevitável que nos espera, segundo nossos méritos e nossos defeitos. Há aí algo de anti-religioso? Bem ao contrário, uma vez que os incrédulos nisso encontram a fé, os tépidos uma renovação de fervor e de confiança. O Espiritismo é, pois, o mais poderoso auxiliar da religião. Uma vez que isso é, é que Deus o permite, e o permite para reanimar nossas esperanças vacilantes, e nos reconduzir ao caminho do bem pela perspectiva do futuro que nos espera.

As conversas familiares de além-túmulo que damos, os relatos que contêm da situação dos Espíritos que nos falam, nos iniciam em suas penas, em suas alegrias, em suas ocupações; é o quadro animado da vida espírita, e na própria variedade dos assuntos podemos encontrar as analogias que nos tocam. Vamos tentar resumir-lhe o conjunto.

Tomemos primeiro a alma, em sua saída deste mundo, e vejamos o que se passa nessa transmigração. Extinguindo-se as forças vitais, o Espírito se separa do corpo no momento em que se extingue a vida orgânica; mas essa separação não é brusca e instantânea. Ela começa, algumas vezes, antes da cessação completa da vida; não está sempre completa no instante da morte. Sabemos que, entre o Espírito e o corpo, há uma laço semi-material que constitui um primeiro envoltório; é esse laço que não é quebrado subitamente e, enquanto ele subsiste, o Espírito está num estado de perturbação que se pode comparar àquele que acompanha o despertar; freqüentemente mesmo, ele duvida de sua morte; sente que existe, vê-se, e não compreende que possa viver sem seu corpo, do qual se vê separado; os laços que o unem, ainda, à matéria, tornam-no mesmo acessível a certas sensações que toma por sensações físicas; não é senão quando está completamente livre que o Espírito se reconhece: até aí não se apercebe de sua situação. A duração desse estado de perturbação, como o dissemos em outras ocasiões, é muito variável; pode ser de várias horas, como de vários meses, mas é raro que, ao cabo de alguns dias, o Espírito não se reconheça mais ou menos bem. Entretanto, como tudo lhe é estranho e desconhecido, é preciso um certo tempo para se familiarizar com a sua nova maneira de perceber as coisas.

O instante em que um deles vê cessar sua escravidão, pela ruptura dos laços que o retêm ao corpo, é um instante solene; em sua reentrada no mundo dos Espíritos, é acolhido por seus amigos, que vêm recebê-lo como no retorno de uma penosa viagem; se a travessia foi feliz, quer dizer, se o tempo de exílio foi empregado de modo proveitoso, por ele, e o eleva na hierarquia do mundo dos Espíritos, felicitam-no; aí reencontra àqueles que conheceu, misturase àqueles que o amam e simpatizam com ele, e então começa, verdadeiramente, para ele, sua nova existência.

O envoltório semi-material do Espírito constitui uma espécie de corpo de forma definida, limitada e análoga à nossa; mas esse corpo não tem nossos órgãos e não pode sentir todas as nossas impressões. Percebe, entretanto, tudo o que nós percebemos: a luz, os sons, os odores, etc.; e essas sensações, por não terem nada de material, não são menos reais; têm mesmo alguma coisa de mais clara, de mais precisa, de mais sutil, porque chegam ao Espírito sem intermediário, sem passarem pela fieira dos órgãos que as enfraquecem. A faculdade de perceber é inerente ao Espírito: é um atributo de todo o seu ser; as sensações chegam-lhe de toda parte e não por canais circunscritos. Um deles nos disse, falando da visão: “É uma faculdade do Espírito e não do corpo; vedes pelos olhos, mas em vós não é o olho que vê, é o Espírito.”

Pela conformação dos nossos órgãos, temos necessidade de certos veículos para as nossas sensações; assim é que precisamos da luz para refletir os objetos, do ar para nos transmitir os sons; esses veículos tornam-se inúteis desde que não tenhamos mais os intermediários que os tomavam necessários; o Espírito vê, pois, sem o concurso de nossa luz, ouve sem ter necessidade das vibrações do ar; por isso, não há, para ele, a obscuridade. Mas sensações perpétuas e indefinidas, por agradáveis que sejam, tornar-se-iam fatigantes com o tempo se não se pudesse subtrair-se delas; o Espírito tem também a faculdade de suspendê-las; à vontade, pode cessar de ver, de ouvir, de sentir tais ou tais coisas, por conseguinte, não ver, não ouvir, não sentir o que não quer; esta faculdade está em razão de sua superioridade, porque há coisas que os Espíritos inferiores não podem evitar, e eis o que torna sua situação penosa.

É essa nova maneira de sentir que o Espírito não se explica tudo primeiro, e da qual não se apercebe senão pouco a pouco. Aqueles cuja inteligência está ainda atrasada, não a compreendem mesmo de todo, e teriam muita dificuldade para descrevê-la; absolutamente como, entre nós, os ignorantes vêem e se movem sem saberem por quê e como.

Essa impossibilidade de compreender o que está acima de sua capacidade, unida à fanfarrice, companheira comum da ignorância, é a fonte das teorias absurdas que dão certos Espíritos, e que nos induziriam em erro, nós mesmos, se as aceitássemos sem controle, e sem nos assegurarmos, pelos meios dados pela experiência e pelo hábito de conversar com eles, do grau de confiança que merecem.

Há sensações que têm sua fonte no próprio estado de nossos órgãos; ora, as necessidades inerentes ao nosso corpo não podem ocorrer do momento que nosso corpo não existe mais. O Espírito não sente, pois, nem a fadiga, nem a necessidade de repouso, nem a de alimentação, porque não tem nenhuma perda a reparar; não é afligido por nenhuma de nossas enfermidades. As necessidades do corpo ocasionam as necessidades sociais, que não existem mais para os Espíritos: assim, para eles, os cuidados dos negócios, os tormentos, as mil tribulações do mundo, as aflições que se dão para se proporcionar as necessidades ou as superfluidades da vida não existem mais; têm piedade do trabalho que nos damos por vãs futilidades; e, todavia, tanto os Espíritos elevados são felizes, quanto os Espíritos inferiores sofrem, mas esses sofrimentos são de preferência angústias, que por nada terem de físicas não são menos pungentes; eles têm todas as paixões, todos os desejos que tinham em sua vida (falamos dos Espíritos inferiores), e seu castigo é não poder satisfazê-los; para eles, é uma verdadeira tortura, que crêem perpétua, porque sua própria inferioridade não lhes permite ver o fim, e lhes é, ainda, um castigo.

A palavra articulada é também uma necessidade da nossa organização; não tendo os Espíritos necessidade de sons vibrantes para ferirem seus ouvidos, compreendem-se tão-só pela transmissão do pensamento, como nos ocorre, freqüentemente, a nós mesmos, nos compreendermos por um único olhar. Os Espíritos, entretanto, fazem barulho; sabemos que podem agir sobre a matéria, e essa matéria nos transmite o som; é assim que fazem ouvir sejam pancadas, sejam gritos no vago do ar, mas, então, é por nós que o fazem, e não por eles. Voltaremos sobre este assunto num artigo especial, onde trataremos da faculdade de médiuns audientes. Ao passo que arrastamos penosamente nosso corpo pesado e material sobre a Terra, como o condenado sua bola de ferro, o dos Espíritos, vaporoso, etéreo, transporta-se, sem fadiga, de um lugar para outro, transpõe o espaço com a rapidez do pensamento; penetra por toda parte e nenhuma matéria lhe é obstáculo.

O Espírito vê tudo o que vemos, e mais claramente do que podemos fazê-lo; além disso, vê o que os nossos sentidos limitados não nos permite ver; ele mesmo penetrando a matéria, descobre o que a matéria oculta aos nossos olhos.

Os Espíritos não são, pois, seres vagos, indefinidos, segundo as definições abstratas da alma que reportamos mais acima; são seres reais, determinados, circunscritos, gozando de todas as nossas faculdades e de muitas outras que nos são desconhecidas, porque elas são inerentes à sua natureza; têm as qualidades da matéria que lhes é própria e compõem o mundo invisível que povoa o espaço, nos cercam, nos acotovelam sem cessar. Suponhamos, por um instante, que o véu material que os oculta à nossa visão seja rasgado, ver-nos-íamos cercados de uma multidão de seres que vão, vêm, se agitam ao nosso redor, nos observam, como nós mesmos o somos quando nos encontramos em uma assembléia de cegos. Para os Espíritos, somos cegos, e eles são os videntes.

Dissemos que, entrando em sua nova vida, o Espírito leva algum tempo para se reconhecer, que tudo lhe é estranho e desconhecido. Perguntar-se-á, sem dúvida, como pode ser assim se já teve outras existências corpóreas; essas existências foram separadas por intervalos durante os quais habitaram o mundo dos Espíritos; esse mundo, portanto, não lhe deve ser desconhecido, uma vez que não o vê pela primeira vez.

Várias causas contribuem para tornar, essas percepções, novas para ele, embora já as tenha experimentado. A morte, dissemos, é sempre seguida de um instante de perturbação, mas que pode ser de curta duração. Nesse estado, suas idéias são sempre vagas e confusas: a vida corpórea se confunde, de alguma sorte, com a vida espírita, e não pode, ainda, separálas em seu pensamento. Dissipada essa primeira perturbação, as idéias se elucidam pouco a pouco e, com elas, a lembrança do passado que não lhe chega senão gradualmente à memória, porque jamais essa memória nele se irrompe bruscamente. Não é senão quando está inteiramente desmaterializado que o passado se desenrola diante dele, como uma perspectiva saindo de um nevoeiro. Só então se lembra de todos os atos de sua última existência, depois de suas existências anteriores e suas diversas passagens pelo mundo dos Espíritos. Concebe-se, pois, depois disso, que, durante um certo tempo, esse mundo deve parecer-lhe novo, até que o reconheça completamente, e que as lembranças das sensações que nele experimentou lhe retornem de maneira precisa.

Mas, a essa causa, é preciso acrescentar uma outra não menos preponderante.

O estado do Espírito, como Espírito, varia extraordinariamente em razão do grau de sua elevação e de sua pureza. À medida que se eleva e se depura, suas percepções e suas sensações são menos grosseiras; adquirem mais finura, sutileza, delicadeza; ele vê, sente e compreende coisas que não podia nem ver, nem sentir e nem compreender em uma condição inferior. Ora, sendo cada existência corpórea, para ele, uma oportunidade de progresso, o conduz para um meio novo, porque se encontra, se progrediu, entre Espíritos de uma outra ordem cujos pensamentos e todos os hábitos são diferentes. Acrescentemos a isso que essa depuração permite-lhe penetrar, sempre como Espírito, em mundos inacessíveis aos Espíritos inferiores, como, entre nós, os salões da sociedade são interditados às pessoas mal educadas. Quanto menos está esclarecido, mais o horizonte lhe é limitado; à medida que se eleva e se depura, esse horizonte cresce e, com ele, o círculo de suas idéias e de suas percepções. A comparação seguinte pode no-lo fazer compreender. Suponhamos um camponês, rude e ignorante, vindo a Paris pela primeira vez; conhecerá e compreenderá ele a Paris do mundo elegante e do mundo sábio? Não, porque não freqüentará senão as pessoas de sua classe e os bairros que elas habitam. Mas que, no intervalo de uma segunda viagem, esse camponês se esclareça, haja adquirido instrução e maneiras polidas, seus hábitos e suas relações serão diferentes; então, verá um mundo novo para ele, que não se parecerá com a sua Paris de outrora. Ocorre o mesmo com os Espíritos; mas nem todos experimentam essa incerteza no mesmo grau. À medida que progridem, suas idéias se desenvolvem, a memória é mais rápida; estão previamente familiarizados com a sua nova situação; seu retorno, entre os outros Espíritos, nada mais tem que os espante: reencontram-se em seu meio normal, e, passado o primeiro momento de perturbação, se reconhecem quase que imediatamente.

Tal é a situação geral dos Espíritos, no estado que se chama errante; mas, nesse estado, que fazem? Como passam seu tempo? Essa questão é, para nós, de um interesse fundamental. Eles mesmos irão respondê-las, como foram eles que nos forneceram as explicações que acabamos de dar, porque, em tudo isto, nada saiu de nossa imaginação; isso não é um sistema despontado em nosso cérebro: nós julgamos segundo o que vemos e ouvimos. À parte toda opinião sobre o Espiritismo, convir-se-á que essa teoria da vida de além-túmulo nada tem de irracional; ela apresenta uma seqüência, um encadeamento perfeitamente lógicos, e que fariam honra a mais de um filósofo.

Seria erro crer que a vida espírita é uma vida ociosa; ao contrário, ela é essencialmente ativa, e todos nos falam de suas ocupações; essas ocupações diferem, necessariamente, segundo esteja o Espírito errante ou encarnado. No estado de encarnação, são relativas à natureza do globo que habitam, às necessidades que dependem do estado físico e moral desses globos, assim como da organização dos seres vivos. Não é disso que vamos nos ocupar aqui; não falaremos senão dos Espíritos errantes. Entre aqueles que alcançaram um certo grau de elevação, uns velam pelo cumprimento dos desígnios de Deus nos grandes destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos e concorrem para o progresso de cada mundo; outros tomam os indivíduos sob sua proteção e se constituem seus gênios tutelares, os anjos guardiães, seguindo-os desde o nascimento até a morte, buscando dirigilos no caminho do bem: é uma felicidade, para eles, quando seus esforços são coroados de sucesso. Alguns se encarnam em mundos inferiores para aí cumprirem missões de progresso; buscam pelo seu trabalho, seus exemplos, seus conselhos, seus ensinamentos, avançar estes nas ciências ou nas artes, aqueles na moral. Submetem-se, então, voluntariamente, às vicissitudes de uma vida corpórea, freqüentemente penosa, com o objetivo de fazerem o bem, e o bem que fazem lhes é contado. Muitos, enfim, não têm atribuições especiais; vão por toda parte onde sua presença possa ser útil, dar conselhos, inspirar boas idéias, sustentar os de coragem desfalecente, dar força aos fracos e castigo aos presunçosos.

Considerando-se o número infinito de mundos que povoam o Universo e o número incalculável de seres que os habitam, conceber-se-á que os Espíritos têm com que se ocuparem; mas essas ocupações não lhes são penosas; cumprem-nas com alegria, voluntariamente e não por constrangimento, e sua felicidade está em triunfarem naquilo que empreendem; ninguém sonha com uma ociosidade eterna que seria um verdadeiro suplício. Quando as circunstâncias o exigem, reúnem-se em conselho, deliberam sobre o caminho a seguir, segundo os acontecimentos, dão ordens aos Espíritos que lhes são subordinados, e, em seguida, vão para onde o dever os chama. Essas assembléias são mais ou menos gerais ou particulares, segundo a importância do assunto; nenhum lugar especial e circunscrito está destinado a essas reuniões: o espaço é o domínio dos Espíritos; todavia, de preferência, dirigem-se aos globos onde estão os seus objetivos. Os Espíritos encarnados que aí estão em missão, nelas tomam parte segundo sua elevação; enquanto seus corpos repousam, vão haurir conselhos entre os outros Espíritos, freqüentemente, receber ordens sobre a conduta que devem ter como homens. Em seu despertar, não têm, é verdade, uma lembrança precisa do que se passou, mas têm a intuição, que os faz agirem como por sua própria iniciativa.

Descendo na hierarquia, encontramos os Espíritos menos elevados, menos depurados, e, por conseqüência, menos esclarecidos, mas que não são menos bons, e que, numa esfera de atividade mais restrita, cumprem funções análogas. Sua ação, em lugar de se estender aos diferentes mundos, se exerce, mais especialmente, sobre um globo determinado, em relação com o grau de seu adiantamento; sua influência é mais individual e tem por objeto coisas de menor importância.

Em seguida, vem a multidão de Espíritos, mais ou menos bons ou maus, que pululam ao nosso redor; elevam-se pouco acima da Humanidade, da qual representam todas as nuanças e são como o reflexo, porque têm todos os vícios e todas as virtudes; num grande número, encontram-se os gostos, as idéias e as tendências que tinham quando em vida; suas faculdades são limitadas, seu julgamento falível como o dos homens, freqüentemente errado e imbuído de preconceitos.

Em outros o sentido moral é mais desenvolvido; sem terem nem grande superioridade, nem grande profundidade, julgam mais sadiamente, e, com freqüência, condenam o que fizeram, disseram ou pensaram durante a vida. De resto, há isto de notável, que mesmo entre os Espíritos mais comuns, a maioria tem sentimentos mais puros como Espíritos do que como homens, a vida espírita esclarece-os quanto aos seus defeitos; e, com bem poucas exceções, se arrependem amargamente, e lamentam o mal que fizeram, porque o sofrem mais ou menos cruelmente. Algumas vezes, vimo-los como não sendo melhores, mas jamais sendo piores do que eram quando vivos. O endurecimento absoluto é muito raro e não é senão temporário, porque, cedo ou tarde, acabam por sofrer em sua posição, e pode-se dizer que todos aspiram a se aperfeiçoarem, porque todos compreendem que é o único meio de saírem de sua inferioridade; instruírem-se, esclarecerem-se, aí está sua grande preocupação, e ficam felizes quando lhe podem juntar algumas pequenas missões de confiança que os revelam aos seus próprios olhos.

Têm também suas assembléias, mais ou menos serias segundo os seus pensamentos.

Falam conosco, vêem e observam o que se passa; misturam-se às nossas reuniões, aos nossos jogos, às nossas festas, aos nossos espetáculos, como aos nossos negócios sérios; escutam nossas conversas: os mais levianos para se divertirem e, freqüentemente, rirem às nossas custas e, se podem, agirem com malícia, os outros para se instruírem; observam os homens, seu caráter, e fazem o que chamam de estudos dos costumes, tendo em vista se fixarem sobre a escolha de sua existência futura.

Vimos o Espírito no momento em que, deixando seu corpo, entra em sua nova vida; analisamos suas sensações, seguimos o desenvolvimento gradual de suas idéias. Os primeiros momentos são empregados em se reconhecer, e se inteirar do que se passa com ele; em uma palavra, ensaia, por assim dizer, suas faculdades, como a criança que, pouco a pouco, vê aumentar suas forças e seus pensamentos. Falamos de Espíritos vulgares porque os outros, como dissemos, estão de alguma sorte identificados previamente com o estado espírita que não lhes causa nenhuma surpresa, mas unicamente a alegria de estarem livres dos entraves e dos sofrimentos corpóreos. Entre os Espíritos inferiores, muitos lamentam a vida terrestre, porque sua situação como Espírito é cem vezes pior, e é por isso que procuram uma distração na visão do que fazia outrora suas delícias, mas essa própria visão é, para eles, um suplício, porque têm o desejo e não podem satisfazê-lo.

A necessidade de progredir é geral entre os Espíritos, e é o que os excita a trabalharem pelo seu adiantamento, porque compreendem que a sua felicidade tem esse preço; mas nem todos sentem essa necessidade no mesmo grau, sobretudo em começando; alguns se comprazem mesmo numa espécie de vadiagem, mas que não tem senão um tempo; cedo a atividade torna-se-lhes uma necessidade imperiosa, à qual, aliás, são impelidos por outros Espíritos que lhes estimulam o sentimento do bem.

Em seguida, vem o que se pode chamar a escória do mundo espírita, composta de todos os Espíritos impuros, nos quais o mal é a única preocupação. Sofrem e gostariam de ver todos os outros sofrerem como eles. O ciúme toma-lhes odiosa toda superioridade; o ódio é sua essência; não podendo prenderem-se aos Espíritos, prendem-se aos homens e atacam aqueles que lhes parecem mais fracos. Excitar as más paixões, insuflar a discórdia, separar os amigos, provocar as rixas, inchar o orgulho dos ambiciosos para se dar o prazer de abatêlos em seguida, espalhar o erro e a mentira, em uma palavra, desviar do bem, tais são os seus pensamentos dominantes.

Mas, por que Deus permite que seja assim? Deus não tem contas a nos prestar. Os Espíritos superiores nos dizem que os maus são provas para os bons, e que não há virtude onde não há vitória a se alcançar. De resto, se esses Espíritos malfazejos se encontram em nossa Terra, é porque aqui encontram ecos e simpatias. Consolemo-nos pensando que, acima desse lodo que nos cerca, há seres puros e benevolentes que nos amam, nos sustentam, nos encorajam, e nos estendem os braços para nos levar até eles, e nos conduzir a mundos melhores, onde o mal não tem acesso, se soubermos fazer o que é preciso para merecê-lo.quadro espírita