Plínio, o moço

Revista Espírita, março de 1859

Carta de Plínio, o Moço a Sura.

(Livro VII.-Carta271)

“O ócio que desfrutamos vos permite ensinar e me permite aprender. Gostaria, pois, muito de saber se os fantasmas têm alguma coisa de real, se têm uma verdadeira aparência, se são gênios, ou se não são senão vãs imagens que se traçam numa imaginação perturbada pelo medo. O que me inclina a crer que há verdadeiros espectros, é o que se me disse haver ocorrido a Curtius Rufus. No tempo em que ainda estava sem fortuna e sem nome, seguira na África aquele que o governo lhe havia escolhido. No declínio do dia, passeava sob um pórtico, quando uma mulher, de um talhe e de uma beleza mais do que humanas apresentouse-lhe: “Eu sou a África, disse ela. Venho predizer-te o que te deve acontecer. Tu irás a Roma, exercerás os maiores cargos, e retornarás, em seguida, para governar esta província, onde morrerás.”

Tudo aconteceu como ela havia predito. Conta-se mesmo que, ancorando em Cartago, e saindo de sua nave, a mesma figura se apresentou diante dele, e veio ao seu encontro sobre a margem.

“O que há de verdade, é que caiu doente, e que, julgando o futuro pelo passado, a infelicidade que o ameaçava pela boa fortuna que havia provado, desesperou-se primeiro de sua cura, apesar da boa opinião que os seus dele conceberam.

“Mas eis uma outra história, que não vos parecerá menos surpreendente, e que é bem mais horrível. Eu lha darei tal como a recebi.

– Havia em Atenas uma casa muito grande e muito habitável, mas desacreditada e deserta. No profundo silêncio da noite, ouvia-se um ruído de ferros, e, se se aplicasse o ouvido com mais atenção, um ruído de correntes, que parecia primeiro vir de longe e, em seguida, se aproximar. Logo via-se um espectro parecido com um velho, muito magro, muito abatido, que tinha uma longa barba, cabelos eriçados, ferros nos pés e nas mãos, que sacudia horrivelmente. Daí, noites horríveis e sem sono para aqueles que habitavam essa casa. A insônia, com o tempo, trazia a doença, e a doença aumentando o medo, era seguida da morte. Porque durante o dia, embora o espectro não aparecesse mais, a impressão que dera o remetia sempre diante dos olhos e o medo passado gerava um novo. Por fim, a casa foi abandonada, e deixada inteiramente ao fantasma. Colocou-se-lhe, todavia, uma placa para advertir que estava para alugar ou à venda, no pensamento de que alguém, pouco instruído de um desconforto tão terrível, poderia ser enganado.

O filósofo Atenodoro veio a Atenas. Percebendo a placa, perguntou o preço. A modicidade colocou-o em desconfiança, e se informou. Foi-lhe contada a história, e longe de fazê-lo romper sua compra, a contratou sem demora. Ali se alojou, e à tarde ordenou que levantassem sua cama no quarto da frente, que trouxessem suas tabuinhas, sua pena e a luz, e que as pessoas se retirassem para o fundo da casa. Ele, com medo que sua imaginação não fosse ao sabor de um medo frívolo se figurar fantasmas, aplicou seu espírito, seus olhos e sua mão em escrever. No começo da noite um profundo silêncio reinava nessa casa, como por toda parte alhures. Em seguida, ouviu ferros se entrechocarem, correntes se chocarem; não levantou os olhos, não deixou sua pena; firmou-se e se esforçou em impor-se aos seus ouvidos. O ruído aumentou, aproximou-se; parecia que estava perto da porta do quarto. Ele olhou e percebeu o espectro, tal como lhe haviam pintado. Esse espectro estava de pé e o chamava com o dedo. Atenodoro fez-lhe sinal com a mão para esperar um pouco, e continuou a escrever como se nada houvesse. O espectro recomeçou seu tumulto com suas correntes, que fazia soar nos ouvidos do filósofo. Este olhou ainda uma vez, e viu que ele continuava a chamá-lo com o dedo. Então, sem mais tardar, levantou-se, tomou a luz e seguiu. O fantasma caminhou com passo lento, como se o peso das correntes o sobrecarregasse. Chegados ao pátio da casa, ele desapareceu de repente, e deixou nosso filósofo, que recolheu ervas e folhas, e as colocou no lugar onde ele o havia deixado, para poder reconhecê-lo. No dia seguinte, foi procurar os magistrados e suplicou-lhes ordenar que se escavasse naquele lugar. Foi feito; encontraram-se ossos ainda envolvidos em correntes; o tempo havia consumido as carnes. Depois que foram reunidos cuidadosamente, foram sepultados publicamente e, depois que se deu ao morto os últimos deveres, ele não perturbou mais o repouso dessa casa.

“O que acabo de contar, eu o creio sobre a fé de outro. Mas, eis o que posso assegurar aos outros sobre a minha. – Tenho um liberto chamado Marcus, que não é sem saber. Havia deitado com seu irmão mais novo. Pareceu-lhe ver alguém sentado sobre sua cama, e que aproximava a tesoura de sua cabeça e mesmo lhe cortava cabelos acima de sua fronte. Quando fez luz, percebeu que tinha o alto da testa liso, e seus cabelos foram encontrados esparramados perto dele. Pouco depois, semelhante aventura tendo ocorrido com um dos meus criados, não me permite mais duvidar da verdade do outro.

Um dos meus jovens escravos dormia com os companheiros, no lugar que lhes está destinado. Dois homens vestidos de branco (foi assim que contou) vieram pelas janelas, rasparam-lhe a cabeça enquanto dormia, e retornaram como tinham chegado. No dia seguinte, quando chegou o dia, encontrou-se raspado, como se encontrara o outro, e os cabelos que lhe foram cortados, esparsos sobre o soalho.

“Essas aventuras não teriam nenhuma conseqüência, se eu não fora acusado, diante de Domitien, sob cujo reinado elas ocorreram. Eu não teria escapado, se ele vivesse, porque se encontrou, em sua pasta para papéis, um requerimento contra mim, feito por Carus. Daí pode-se conjecturar que, como o costume dos acusados é negligenciar seus cabelos, e deixálos crescer, aqueles que o haviam cortado aos meus criados, assinalavam que eu estava fora de perigo. Suplico-vos, pois, colocar toda a vossa erudição em ação. O assunto é digno de uma meditação profunda e, talvez, não seja indigno de que me partilheis vossas luzes. Se, segundo vosso costume, balançardes as duas opiniões contrárias, fazei, todavia, com que a balança penda de algum lado, para tirar-me da inquietação na qual estou, porque não vos consulto senão para nela não mais estar. -Adeus.”

Resposta de Plínio, o Moço, às perguntas que lhe foram endereçadas, na sessão da Sociedade de 28 de janeiro de 1859.

1. Evocação. – Resp. Falai; eu responderei.

2. Embora estejais morto há 1743 anos, tendes a lembrança de vossa existência em Roma, ao tempo de Trajano? – R. Por que, pois, nós Espíritos não poderíamos nos lembrar? Lembrai-vos bem dos atos de vossa infância. O que é, pois, para o Espírito, uma existência passada, senão a infância das existências pelas quais deveremos passar, antes de atingirmos o fim de nossas provas. Toda existência terrestre, ou envolvida no véu material, é uma aproximação com o éter, e, ao mesmo tempo, uma infância espiritual e material; espiritual, porque o Espírito está, ainda, no início das provas; material, porque ele não faz senão entrar nas fases grosseiras pelas quais deve passar para se depurar e se instruir.

3. Poderíeis dizer-nos o que fizestes desde essa época? – R. O que fiz, seria bem longo; procurei fazer o bem; não quereis, sem dúvida, passar horas inteiras à espera que eu termine; contentai-vos, pois, com uma resposta; eu o repito, procurei fazer o bem, instruirme, conduzir criaturas terrestres e errantes a se aproximarem do Criador de todas as coisas; daquilo que nos dá o pão da vida espiritual e material.

4. Que mundo habitais? – R. Pouco importa; estou um pouco por toda parte: o espaço é o meu domínio, e o de muitos outros. Essas são perguntas às quais um Espírito, sábio e esclarecido da luz santa e divina, não deve responder, ou somente em ocasiões muito raras.

5. Em uma carta que escrevestes a Sura, narrastes três fatos de aparições; lembrai-vos delas? – R. Eu as sustento porque foram verdadeiras; todos os dias, tendes fatos semelhantes aos quais não prestais atenção; são muito simples mas, na época em que vivi, tê-lo-íamos achado surpreendentes; vós, vós não deveis vos espantar com isso; deixai, pois, de lado essas coisas, tende-as mais extraordinárias.

6. Temos, todavia, o desejo de dirigir-vos algumas perguntas a esse respeito. – R. Uma vez que vos responda de maneira geral, isso deverá vos bastar; entretanto, fazei-as, se o desejais absolutamente; serei lacônico em minhas respostas.

7. No primeiro fato,, uma mulher apareceu a Curtius Rufus e disse-lhe que ela era a África. Quem era essa mulher? – R. Uma grande figura; parece-me que era muito simples para homens esclarecidos, tais como aqueles do século XIX.

8. Qual motivo fazia agir o Espírito que apareceu a Atenodoro, e por que esse ruído de correntes? – R. Figura da escravidão, manifestação; meio de convencer os homens, de chamar sua atenção fazendo falar da coisa, e de provar a existência do mundo espiritual.

9. Defendestes, diante de Trajano, a causa dos cristãos perseguidos; foi por um simples motivo de humanidade ou por convicção da verdade de sua doutrina? – R. Eu tinha os dois motivos; a humanidade não caminhava senão em segunda linha.

10. Que pensais de vosso panegírico de Trajano? – R. Haveria necessidade de ser refeito.

11. Escrevestes uma história de vosso tempo, ela perdeu-se; ser-vos-ia possível reparar essa perda no-la ditando? – R. O mundo dos Espíritos não se manifesta especialmente para estas coisas; tendes essas espécies de manifestações e elas têm seu objetivo; são tantas estacas semeadas à direita e à esquerda sobre o grande caminho da verdade, mas deixai fazer e não vos ocupeis disso consagrando-vos aos vossos estudos; cabe a nós o cuidado de ver e de julgar o que importa que saibais; cada coisa tem seu tempo; não vos desvieis, pois, da linha que vos traçamos.

12. É aprazível fazer justiça às vossas boas qualidades e, sobretudo, ao vosso desinteresse. Diz-se que não exigíeis nada de vossos clientes pelos vossos discursos; esse desinteresse era tão raro em Roma quanto o é entre nós? – R. Não bajuleis minhas qualidades passadas: não as tenho mais. O desinteresse não é quase nada de vosso século; em duzentos homens tendes apenas um ou dois verdadeiramente desinteressados; sabeis que o século está para o egoísmo e o dinheiro. Os homens do presente são edificados com a lama e se revestem de metal. Antigamente havia coração, valor pessoal entre os Antigos, agora não há senão o lugar.

13. Sem absolver nosso século, parece-nos, entretanto, que vale ainda mais que aquele em que vivestes, aquele onde a corrupção estava em seu auge, e onde a delação nada conhecia de sagrado. – R. Faço uma generalidade que é bem verdadeira; sei que, na época em que vivi, não havia muito maior desinteresse; mas, entretanto, havia o que não possuis, eu o repito, ou pelo menos em dose muito fraca: o amor ao belo, ao nobre e ao grande. Falo por todo o mundo; o homem do presente, sobretudo os povos do Ocidente, particularmente o Francês, tem o coração pronto para fazer grandes coisas, mas isso não é senão o brilho que passa; depois vem a reflexão, e a reflexão olha e diz: o positivo, o positivo antes de tudo; e o dinheiro, e o egoísmo a ocupar-se de estar por cima. Nós nos manifestamos justamente porque vos desviastes dos grandes princípios dados por Jesus. Adeus, vós não o compreendeis.

Nota. Compreendemos muito bem que o nosso século ainda deixa muito a desejar, sua praga é o egoísmo, e o egoísmo engendra a cupidez e a sede de riquezas. Sob esse aspecto, está longe do desinteresse do qual o povo romano deu tantos exemplos sublimes numa certa época, mas que não foi a de Plínio. Seria injusto, todavia, menosprezar sua superioridade em mais de um aspecto, mesmo nos mais belos tempos de Roma, que também tiveram seus exemplos de barbárie. Havia, então, ferocidade até na grandeza e no desinteresse; ao passo que nosso século se marcará pelo abrandamento dos costumes, os sentimentos de justiça e de humanidade que presidem a todas as instituições que vê nascer, e até mesmo nas querelas dos povos.

ALLAN KARDEC.

 

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Um Espírito estouvado

Revista Espírita, março de 1859

O senhor J., um de nossos colegas da Sociedade, vira, diversas vezes, chamas azuis passearem sobre sua cama. Convicto de que era uma manifestação, tivemos a idéia, no dia 20 de janeiro último, de evocar um desses Espíritos, a fim de nos edificar sobre a sua natureza.

1. Evocação. – R. E que me queres?

2. Com qual objetivo te manifestaste na casa do senhor J……? – R. Que te importa?

3. A mim, isso pouco importa, é verdade; mas isso não é indiferente ao senhor J… – R. Ah! a bela razão!

Nota. Essas primeiras perguntas foram feitas pelo senhor Kardec. O senhor J… prosseguiu no interrogatório.

4. É que não recebo todo o mundo de bom grado em minha casa. – R. Estás errado; sou muito bom.

5. Dá-me, pois, o prazer de dizer-me o que fazias em minha casa? – R. Crês, por acaso, que, porque sou bom, devo obedecer-te?

6. Foi-me dito que és um Espírito muito leviano. – R. Fazem de mim uma bem má reputação, fora de propósito.

7. Se é uma calúnia, prove-o. – R. Isso não desejo mais.

8. Eu poderia bem empregar um meio para conhecer-te. – R. Isso não poderia senão divertirme, com efeito, um pouco.

9. Eu te intimo a dizer-me o que vieste fazer em minha casa. – R. Não tinha senão um objetivo, o de divertir-me.

10. Isso não está de acordo com o que me foi dito por Espíritos superiores. – R. Fui enviado à tua casa, disso conheces a razão. Estás contente?

11. Pois mentiste? – R. Não.

12. Não tinhas, portanto, más intenções? – R. Não; disseram-te o mesmo que eu.

13. Poderias dizer-me qual a tua classe entre os Espíritos? – R. Tua curiosidade me apraz.

14. Uma vez que pretendes ser bom, por que me respondes de modo tão pouco conveniente? – R. É que te insultei?

15. Não; mas, por que respondes de modo evasivo e te recusas a dar-me as informações que te peço? – R. Sou livre para fazer o que quero, entretanto, sob o comando de certos Espíritos.

16. Então, vejo, com prazer, que começas a ser mais conveniente, e auguro que terei contigo relações mais amáveis. – R. Coloque tuas frases de lado, farás muito melhor.

17. Sob qual forma estás aqui? – R. De forma, não a tenho.

18. Sabes o que é o perispírito? – R. Não; a menos que isso seja do vento.

19. O que eu poderia fazer-te que te seja agradável? – R. Já o disse: cala-te.

20. A missão que vieste cumprir em minha casa te fará avançar como Espírito? – R. Isso é um outro assunto; não me dirijas mais tais perguntas. Sabes que obedeço a certos Espíritos; dirige-te a eles; quanto a mim, não peço senão para ir-me.

21. Tivemos más relações, em uma outra existência, e isso seria a causa de teu mau humor? – R. Não lembras mais o mal que disseste de mim, e isso a quem queria ouvi-lo. Cala-te, digote.

22. Não te disse senão o que me foi dito pelos Espíritos superiores a ti. – R. Disseste também que eu te havia obsediado.

23. Ficastes satisfeito com o resultado que obtiveste? – R. Isso é assunto meu.

24. Sempre queres, pois, que conserve de ti má opinião? – R. É possível! Eu me vou.

Nota: Pode-se ver, pelas conversas que relatamos, a extrema diversidade que há na linguagem dos Espíritos, segundo o grau de sua elevação. A dos Espíritos dessa natureza é quase sempre caracterizada pela rudeza e pela impaciência; quando são chamados nas reuniões sérias, sente-se que não vêm de bom grado; têm pressa de se irem, e isso porque não estão cômodos, em meio de seus superiores e de pessoas que os colocam, de algum modo, na berlinda. Não ocorre o mesmo nas reuniões frívolas, onde se diverte com seus gracejos; estão, em seu centro, e se entregam de coração alegre.

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Senhora Reynaud, sonâmbula

Revista Espírita, março de 1859

Sonâmbula, falecida em Annonay, há mais ou menos um ano; sua lucidez era, sobretudo, notável para as questões médicas, embora iletrada em seu estado natural.

Um de nossos correspondentes, que a conhecera em vida, pensando que se poderia obter dela notícias úteis, endereçou-nos algumas perguntas que nos pediu fazer-lhe, se julgássemos oportuno interrogá-la, o que fizemos na sessão da Sociedade do dia 28 de janeiro de 1859. Às questões de nosso correspondente, acrescentamos todas as que nos pareceram ter algum interesse.

1. Evocação. – R. Estou aqui; o que quereis de mim?

2. Tendes uma lembrança exata de vossa existência corpórea? – R. Sim, muito precisa.

3. Poderíeis pintar-nos vossa situação atual? – R. É a mesma de todos os Espíritos que habitam nossa Terra: geralmente possuem a intuição do bem, e todavia não podem obter a felicidade perfeita, reservada unicamente à maior perfeição.

4. Quando vivíeis, éreis sonâmbula lúcida; poderíeis dizer se a vossa lucidez, então, era análoga a que tendes agora como Espírito? – R. Não: diferia em que não tinha a prontidão e a justeza que meu Espírito possui hoje.

5. A lucidez sonambúlica é uma antecipação da vida espírita, quer dizer, um isolamento do Espírito, com relação à matéria? – R. E uma das fases da vida terrestre; mas a vida terrestre é a mesma que a vida celeste.

6. Que entendeis dizendo que a vida terrestre é a mesma que a vida celeste? – R. Que a cadeia de existências está formada por anéis seguidos e contínuos: nenhuma interrupção lhe vem deter o curso. Pode-se dizer, pois, que a vida terrestre é a continuação da vida celeste precedente e o prelúdio da vida celeste futura e, assim, sem interrupção, por todas as encarnações que um Espírito pode ter que sofrer: o que faz com que não haja, entre essas duas existências, uma separação tão absoluta como o credes.

Nota. Durante a vida terrestre, o Espírito, ou a alma, pode agir independentemente da matéria, e o homem goza, em certos momentos, da vida espírita, seja durante o sono, seja mesmo no estado de vigília. As faculdades do Espírito se exercendo apesar da presença do corpo, há entre a vida terrestre e a vida de além-túmulo uma correlação constante, o que fez a senhora Reynaud dizer que é a mesma: a resposta seguinte definiu claramente seu pensamento.

7. Por que, então, todo o mundo não é sonâmbulo? – R. Ignorais ainda, pois, que todos vós o sois, mesmo sem sono e muito despertos, em graus diferentes?

8. Concebemos que todos o somos, mais ou menos, durante o sono, uma vez que o estado de sonho é uma espécie de sonambulismo imperfeito; mas, que entendeis dizendo que o somos mesmo no estado de vigília? – R. Não tendes as intuições, das quais não vos apercebeis, e que não são outra coisa que uma faculdade do Espírito? O poeta é um médium, um sonâmbulo.

9. Vossa faculdade sonambúlica contribuiu para o vosso desenvolvimento como Espírito depois da morte? – R. Pouco.

10. No momento da morte, estivestes muito tempo na perturbação? – R. Não; eu me reconheci logo: estava cercada de amigos.

11. Atribuís à vossa lucidez sonambúlica o vosso pronto desligamento? – R. Sim, um pouco. Conheci antes a sorte dos agonizantes; mas isso não me teria servido para nada, se não possuísse uma alma capaz de encontrar uma vida melhor por melhores faculdades.

12. Pode-se ser bom sonâmbulo sem possuir um Espírito de uma ordem elevada? – R. Sim. As faculdades estão sempre em relação: somente vos enganais crendo que tais faculdades pedem boas disposições; não, o que credes bom, freqüentemente, é mau: desenvolveria isso, se me compreendêsseis.

Há sonâmbulos que conhecem a fundo o futuro, que contam fatos que chegam e dos quais não têm nenhum conhecimento no seu estado normal; há outros que sabem pintar perfeitamente os caracteres daqueles que os interrogam, indicar exatamente um número de anos, uma soma em dinheiro, etc.: isso não pede nenhuma superioridade real; é simplesmente um exercício da faculdade que o Espírito possui e que se manifesta no sonâmbulo adormecido. O que requer uma superioridade real é o uso que dela se pode fazer para o bem; é a consciência do bem e do mal; é conhecer Deus melhor do que os homens o conhecem; é poder dar conselhos próprios para fazer progredir no caminho do bem e da felicidade.

13. O uso que um sonâmbulo faz de sua faculdade influi sobre o seu estado de Espírito depois da morte? – R. Sim, muito, como o uso bom ou mau de todas as faculdades que Deus nos concedeu.

14. Poderíeis nos explicar como tínheis conhecimentos médicos, sem fazer nenhum estudo? – R. Sempre faculdade espiritual: outros Espíritos me aconselhavam; eu era médium: é o estado de todos os sonâmbulos.

15. Os medicamentos que um sonâmbulo prescreve, são sempre indicados por um Espírito, ou o são também por instinto, como entre os animais que vão procurar a erva que lhes é salutar? – R. Indicam-lhe se pede conselhos, no caso em que sua experiência não basta. Conhece-os pelas suas qualidades.

16. O fluido magnético é o agente da lucidez sonambúlica como a luz para nós? – R. Não, é o agente do sono.

17. O fluido magnético é o agente da visão, no estado de Espírito? – R. Não.

18. Vede-nos aqui tão claramente como se estivésseis viva, com o vosso corpo? – R. Melhor, agora: o que vejo a mais é o homem interior.

19. Ver-nos-íeis do mesmo modo se estivéssemos na obscuridade? – R. Igualmente bem.

20. Vede-nos tão bem, melhor ou menos bem do que veríeis em vida, mas em sonambulismo? – R. Melhor ainda.

21. Qual é o agente ou a intermediário de que vos servis para ver-nos? – R. Meu Espírito. Não tenho nem olho, nem pupila, nem retina, nem cílios, e, todavia, eu vos vejo melhor do que qualquer de vós vê seu vizinho: é pelo olho que vedes, mas é o vosso Espírito quem vê.

22. Tendes consciência da obscuridade? – R. Sei que ela existe para vós; para mim ela não existe.

Nota. Isso confirma o que sempre dissemos, que a faculdade de ver é uma propriedade inerente à própria natureza do Espírito e que reside em todo o seu ser; no corpo ela está localizada.

23. A dupla vista pode ser comparada ao estado sonambúlico? – R. Sim: a faculdade que não vem do corpo.

24. O fluido magnético emana do sistema nervoso ou está espalhado na massa atmosférica? – R. Do sistema nervoso; mas o sistema nervoso o aure na atmosfera, foco principal. A atmosfera não o possui por si mesma, ele vem de seres que povoam o Universo: não é o nada que o produz, ao contrário, é a acumulação da vida e da eletricidade que essa multidão de existências libera.

25. O fluido nervoso é um fluido próprio ou seria o resultado de uma combinação de todos os outros fluidos imponderáveis que penetram no corpo, tais como o calor, a luz, a eletricidade? – R. Sim e não: não conheceis bastante esses fenômenos para deles falar assim; vossas palavras não exprimem o que quereis dizer.

26. De onde vem o adormecimento produzido pela ação magnética? – R. A agitação produzida pela sobrecarga de fluido que obstrui o magnetizado.

27. A força magnética, no magnetizador, depende de sua constituição física? – R. Sim, mas sempre de seu caráter: em uma palavra, dele mesmo.

28. Quais são as qualidades morais que, num sonâmbulo, podem ajudar o desenvolvimento de suas faculdades? – R. As boas: perguntastes o que pode ajudar.

29. Quais são os defeitos que mais o prejudicam? – R. A má fé.

30. Quais são as qualidades mais essenciais no magnetizador? – R. O coração; as boas intenções sempre firmes; o desinteresse.

31. Quais são os defeitos que mais o prejudicam? – R. Os maus pendores, ou antes, o desejo de prejudicar.

32. Quando viva, víeis os Espíritos em vosso estado sonambúlico? – R. Sim.

33. Por que todos os sonâmbulos não os vêem? – R. Todos os vêem por momentos, e em diferentes graus de claridade.

34. De onde vem, para certas pessoas não sonâmbulas, a facul dade de ver os Espíritos no estado de vigília? – R. Isso é dado por Deus, como a outros a inteligência ou a bondade.

35. Essa faculdade procede de uma organização física especial? – R. Não.

36. Essa faculdade pode se perder? – R. Sim, como pode ser adquirida.

37. Quais são as causas que podem fazê-la perder? – R. As más intenções, dissemos. Por condição primeira, é preciso procurar propor-se, realmente, fazer dela um bom uso; uma vez definido isso, julgai se mereceis esse favor, porque ela não é dada inutilmente. O que prejudica àqueles que a possuem, é que, quase sempre, misturam-lhe essa infeliz paixão humana que conheceis tão bem (o orgulho), mesmo com o desejo de conseguir os melhores resultados; glorifica-se com o que não é senão obra de Deus, e, freqüentemente, se quer dela tirar proveito. – Adeus.

38. Para onde ides, em nos deixando? – R. Às minhas ocupações.

39. Poderíeis dizer-nos quais são as vossas ocupações? – R. Tenho-as como vós; trato primeiro de me instruir e, por isso, misturo-me às sociedades melhores do que eu; como lazer faço o bem, e minha vida se passa na esperança de alcançar maior felicidade. Não temos nenhuma necessidade material a satisfazer e, por conseguinte, toda a nossa atividade se dirige para o nosso progresso moral.

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Conversas familiares de além túmulo – Paul Gaimard

Revista Espírita, março de 1859

Médico da marinha e viajante naturalista, falecido em 11 de dezembro de 1858; evocado no dia 24 do mesmo más, com a idade de 64 anos, por um de seus amigos, o senhor Sardou.

1. Evocação. – R. Estou aqui; que queres tu?

2. Qual é teu estado atual? – R. Erro como os Espíritos que deixam a Terra e que têm o desejo de avançarem nos caminhos do bem. Nós procuramos, estudamos, e depois escolhemos.

3. Tuas idéias, sobre a natureza do homem, se modificaram? – R. Muito; bem pode avaliar.

4. Qual julgamento levas, agora sobre o gênero de vida que te conduziu durante a existência que vens de terminar neste mundo? – R. Estou contente, porque trabalhei.

5. Crês que, para o homem, tudo acaba no túmulo: daí teu epicurismo e o desejo que exprimias, algumas vezes, de viver séculos para gozar bem a vida? Que pensas dos vivos que não têm outra filosofia senão aquela? – R. Eu os lamento, mas isso, todavia, lhes serve: com um tal sistema, podem apreciar friamente tudo o que entusiasma os outros homens, e isso lhes permite julgarem sadiamente muitas coisas que fascinam os crédulos em excesso.

Nota. – É a opinião pessoal do Espírito; damo-la como tal e não como máxima.

6. O homem que se esforça moralmente, antes que intelectualmente, faz melhor que aquele que se apega sobretudo ao progresso intelectual e negligencia o progresso moral? – R. Sim; a moral passa adiante. Deus dá o espírito como recompensa aos bons, ao passo que a moral devemos adquiri-la.

7. Que entendes por espírito que Deus dá? – R. Uma vasta inteligência.

8. Entretanto, existem muitos maus que têm uma vasta inteligência. – R. Eu o disse. Perguntastes qual valia mais procurar adquirir; disse-vos que a moral é preferível; mas aquele que trabalha, para aperfeiçoar seu Espírito, pode adquirir um alto grau de inteligência. Quando, pois, entendereis as meias palavras?

9. Estás completamente desligado da influência do corpo material? – R. Sim; o que vos disseram, sobre isso, não compreende senão uma certa classe da humanidade.
Nota. Ocorreu, várias vezes, que Espíritos evocados, mesmo depois de alguns meses de sua morte, declararam estarem ainda sob a influência da matéria; mas esses Espíritos foram todos homens que não haviam progredido, nem moral nem intelectualmente. É da classe dessa humanidade que quer falar o Espírito que foi Paul Gaimard.

10. Tivestes, na Terra, outras existências além da última? – R. Sim.

11. Esta última é a conseqüência da precedente? – R. Não, tive um grande espaço de tempo entre as duas.

12. Apesar desse longo intervalo, não poderia nele haver, entretanto, uma certa relação entre essas duas existências? – R. Cada minuto de nossa vida é a conseqüência do minuto precedente, se o entendes assim.

Nota. O doutor B…, que assistia essa conversa, exprimiu a opinião de que certos pendores, certos instintos que, por vezes, despertam em nós, poderiam bem serem como reflexo de uma existência anterior. Cita vários fatos, perfeitamente constatados, de jovens mulheres que, na gravidez, foram impelidas a atos ferozes, como por exemplo, aquela que se atirou sobre o braço de um rapaz estúpido e deu-lhes belas dentadas; outra que cortou a cabeça de um menino, e ela mesma levou essa cabeça ao comissário de polícia; uma terceira que matou seu marido, cortou-o em pequenos pedaços e salgou, e com os quais se alimentou durante vários dias. O doutor perguntou se, em uma existência anterior, essas mulheres não haviam sido antropófagas.

13. Ouvistes o que acaba de dizer o doutor B…, é que esses instintos, designados sob o nome de vontade de mulheres grávidas, são conseqüências de hábitos contraídos em uma existência anterior? – R. Não; loucura transitória; paixão em seu mais alto grau; o Espírito é eclipsado pela vontade.

Nota. 0 doutor B… fez observar que, efetivamente, os médicos consideram esses atos como casos de loucura transitória. Partilhamos essa opinião, mas não pelos mesmos motivos, já que aqueles que não estão familiarizados com os fenômenos espíritas são, geralmente, levados a atribuí-los a causas que não conhecem. Estamos persuadidos de que devemos ter reminiscências de certas disposições morais anteriores; acrescentamos mesmo que é impossível ser de outro modo, não podendo o progresso cumprir-se senão gradualmente; mas isso não pode ser aqui o caso, e o que o prova é que as pessoas das quais se vem de falar não dão nenhum outro sinal de ferocidade fora de seu estado patológico: não haveria, evidentemente, entre elas, senão uma perturbação momentânea das faculdades morais. Reconhece-se o reflexo das disposições anteriores por outros sinais, de alguma sorte, inequívocos e que desenvolveremos em um artigo especial, com fatos em seu apoio.

14. Em ti, na última existência, houve, ao mesmo tempo, progresso moral e progresso intelectual? – R. Sim; sobretudo intelectual.

15. Poderias dizer-nos qual era o gênero de tua penúltima existência? – R. Ó! fui obscuro. Tive uma família que tornei infeliz; muito expiei mais tarde. Mas por que me perguntar isso? Já se passou muito e estou agora em novas fases.

Nota. P. Gaimard morreu celibatário com a idade de 64 anos. Mais de uma vez, lamentou-se por não ter um lar.

16. Esperas estar logo reencamado? – R. Não, quero pesquisar antes. Amamos este estado de erraticidade, porque a alma se domina melhor, o Espírito tem mais consciência de sua força; a carne pesa, obscurece, entrava.

Nota. Todos os Espíritos dizem que, no estado errante, eles procuram, estudam, observam para fazerem sua escolha. Não é a contrapartida da vida corpórea? Freqüentemente, não procuramos durante anos antes de fixarmos nossa escolha na carreira que cremos a mais apropriada para criar o nosso caminho? Não a mudamos, algumas vezes, à medida que avançamos em anos? Cada dia não é empregado na procura do que faremos no dia seguinte?

Ora, o que são as diferentes existências corpóreas para o Espírito senão fases, períodos, dias da vida espírita que, como sabemos, é a vida normal, não sendo a vida corpórea senão transitória e passageira? Que de mais sublime que essa teoria? Não está em relação com a harmonia grandiosa do Universo? Ainda uma vez, não fomos nós que a inventamos, e lamentamos não termos disso o mérito; mas, quanto mais a aprofundamos, mais a encontramos fecunda em soluções de problemas até agora inexplicados.

17. Em qual planeta pensas, ou desejas, estar reencamado? – R. Não sei; dai-me o tempo para procurar.

18. Qual gênero de existência pedirias a Deus? – R. A continuação desta última; o maior desenvolvimento possível das faculdades intelectuais.

19. Pareces sempre colocar em primeira linha o desenvolvimento das faculdades intelectuais, fazendo menor caso das faculdades morais, apesar do que disseste precedentemente. – R. Meu coração não está bastante formado para apreciar bem as outras.

20. Vês outros Espíritos e estás em relação com eles? – R. Sim.

21. Entre esses Espíritos, há os que conheceste na Terra? – R. Sim; Dumont-d’Urville.

22. Vês também o Espírito de Jacques Arago com quem viajas-te? – R. Sim.

23. Esses Espíritos estão na mesma condição tua? – R. Não; uns mais altos, os outros mais baixos.

24. Queremos falar do Espírito de Dumont-d’Urville e de Jacques Arago. – R. Não quero especializar.

25. Estás satisfeito por te havermos evocado? – R. Sim, sobretudo por uma pessoa.

26. Podemos fazer alguma coisa por ti? – R. Sim.

27. Se te evocarmos em alguns meses, consentidas em responder ainda às nossas perguntas? – R. Com prazer. Adeus.

28. Tu nos dizes adeus; dá-nos o prazer de dizer para onde vais. – R. Nesse passo (para falar como o teria feito há alguns dias), vou atravessar um espaço mil vezes mais considerável que o caminho que fiz sobre a Terra em minhas viagens, que acreditava tão distantes; e isso em menos de um segundo, de um pensamento. Vou em uma reunião de Espíritos onde tomarei lições, e onde poderei aprender uma nova ciência, minha nova vida. Adeus.

Nota. Quem conheceu perfeitamente o senhor Paul Gaimard, confessará que esta comunicação está bem marcada com a marca de sua individualidade. Aprender, ver, conhecer, era sua paixão dominante: é o que explica suas viagens ao redor do mundo e às regiões do Pólo Norte, assim como suas excursões à Rússia e à Polônia, à primeira aparição do cólera em Europa. Dominado por essa paixão e peio desejo de satisfazê-la, conservava um raro sangue frio nos maiores perigos; foi assim que, com sua calma e com sua firmeza, soube sair das mãos de um bando de antropófagos que o surpreenderam no interior de uma ilha da Oceania.

Uma palavra sua caracteriza perfeitamente essa avidez de ver fatos novos, de assistir ao espetáculo de acidentes imprevistos: “Que felicidade! exclamou ele, um dia, durante o período mais dramático de 1848, que felicidade viver em uma época tão fértil em acontecimentos extraordinários e inesperados!”

Seu Espírito, voltado quase que unicamente para as ciências que tratam da matéria organizada, negligenciara as ciências filosóficas: também estava no direito de dizer que lhe faltava elevação nas idéias. Entretanto, nenhum ato de sua vida prova que haja menosprezado as grandes leis morais impostas à Humanidade. Em suma, o senhor Paul Gaimard tinha uma bela inteligência: essencialmente proba e honesta, naturalmente prestativo, era incapaz de fazer o menor mal a alguém. Não se pode censurá-lo, talvez, senão por ter sido muito amigo dos prazeres; mas o mundo e os prazeres não corromperam nem seu julgamento, nem seu coração: também o senhor Paul Gaimard mereceu o pesar de seus amigos e de todos aqueles que o conheceram.

SARDOU.

 

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Diatribes

Revista Espírita, março de 1859

Algumas pessoas, sem dúvida, esperam encontrar aqui uma resposta a certos ataques, bem pouco circunspectos, dos quais a Sociedade, nós pessoalmente, e os partidários do Espiritismo em geral foram objetos nestes últimos tempos. Rogamos desejarem se reportar ao nosso artigo sobre a polêmica espírita, colocado na cabeça do nosso número de novembro último, onde fizermos nossa profissão de fé a esse respeito. Não lhe acrescentaremos senão poucas palavras, não tendo o lazer de não nos ocuparmos com todas essas discussões ociosas. E aqueles que têm tempo a perder para rir de tudo, mesmo do que não compreendem, para serem maledicentes, caluniadores, letrados mas pretensiosos, se contentem, não temos a pretensão de a isso impedi-los. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, composta de homens honrados pelo seu saber e sua posição, tanto na França quanto no Estrangeiro, médicos, literatos, artistas, funcionários, oficiais, negociantes, etc., recebendo, cada dia, as mais altas notabilidades sociais, e correspondendo com todas as partes do mundo, está acima das pequenas intrigas do ciúme e do amor-próprio; ela persegue seus trabalhos na calma e no recolhimento, sem se inquietar com piadas que não poupam mesmo as mais respeitáveis corporações.

Quanto ao Espiritismo em geral, como é uma das forças da Natureza, o escárnio disso virá cansar-se, como se cansou contra tantas outras coisas que o tempo consagrou; essa utopia, essa tocade, como a chamam certas pessoas, já fez a volta ao mundo e todas as diatribes não a impedirão mais de caminhar quanto outrora os anátemas não o impediram à Terra girar. Deixemos, pois, os escárnios rirem à sua satisfação, uma vez que tal é o seu bom prazer; serão, para eles, fracos de Espíritos; riem muito da religião, por que não ririam do Espiritismo que não é senão uma ciência? Esperando, nos servem mais que nos prejudicam e economizamos sem gastos de publicidade porque não é um de seus artigos, mais ou menos espirituosos, que não fará vender algum de nossos livros e obter algumas assinaturas. Obrigado, pois, pelo serviço que nos prestam sem querer.

Diremos, igualmente, pouca coisa pelo que nos toca pessoalmente; se aqueles que nos atacam ostensivamente, ou de mão oculta, crêem nos perturbar, perdem seu tempo; se pensam em nos barrarem o caminho, enganam-se igualmente, uma vez que não pedimos nada e não aspiramos a nada, senão a nos tornarmos úteis, nos limites das forças que Deus nos deu; por modesta que seja a nossa posição, nos contentamos com aquilo que, por muito, seria a mediocridade; não ambicionamos nem conceito público, nem fortuna, nem honrarias; não procuramos nem o mundo, nem seus prazeres; o que possamos ter não nos causa nenhum pesar: vemo-lo com a mais completa indiferença; isso não está no nosso gosto, por conseguinte, não levamos inveja de nenhum daqueles que possuem essa vantagem, se vantagem são, o que aos nossos olhos é uma questão, porque os gozos pueris nesse mundo não asseguram um melhor lugar no outro, longe disso; nossa vida é toda de labor e de estudo, consagrando ao trabalho até os instantes de repouso: aí não há do que ter ciúme. Trazemos, como tantos outros, nossa pedra ao edifício que se eleva; mas Goraríamos de nos fazer dele um degrau para chegar ao que quer que seja; que outros tragam-lhe mais do que nós; que outros trabalhem tanto quanto nós e melhor que nós, e os veremos com uma alegria sincera; o que queremos, antes de tudo, é o triunfo da verdade, de qualquer parte que venha, não tendo a pretensão de ter sozinho a luz; se disso deva jorrar alguma glória, o campo está aberto a todo o mundo, estendemos a mão a todos aqueles que, nessa rude liça, seguiremos lealmente, com abnegação e sem pensamento dissimulado pessoal.

Bem sabemos que, erguendo abertamente a bandeira das idéias, das quais nos fizemos um dos propagadores, afrontando os preconceitos, atrairemos inimigos, sempre prontos à atirarem flechadas envenenadas contra quem eleva a cabeça e se coloca em evidência; mas há essa diferença entre eles e nós, é que nós não lhes queremos o mal que procuram nos fazer, porque participamos da fraqueza humana, e é somente nisso que cremos ser seu superior; rebaixa-se pela inveja, pelo ódio, pelo ciúme e por todas as paixões mesquinhas: eleva-se pelo esquecimento das ofensas. Esta é a moral espírita; não vale ela mais do que a das pessoas que ultrajam o seu próximo? É o que nos ditaram os Espíritos que nos assistem, e pode-se julgar, por aí, se são bons ou maus. Ela nos mostra as coisas de uma altura tão grande e aquelas deste mundo tão pequenas, que não se pode senão lamentar aqueles que se torturam voluntariamente, para se darem uma efêmera satisfação de amor-próprio.

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Fenômeno de transfiguração

Revista Espírita, março de 1859

Extraímos o fato seguinte de uma carta que nos escreveu, no mês de setembro de 1857, um de nossos correspondentes de St-Etienne. Depois de ter falado de diversas comunicações, das quais foi testemunha, acrescentou:

“Um fato mais espantoso se passa numa família de nossos vizinhos. Das mesas girantes passou-se à poltrona que fala; depois amarrou-se um lápis nessa poltrona e essa poltrona indicou a psicografia; foi praticada por muito tempo, antes como brinquedo do que como coisa séria. Então a escrita designou uma das filhas da casa, ordenou passar as mãos sobre sua cabeça depois de tê-la feito deitar; ela dormiu logo, e depois de um certo número de experiências, essa jovem se transfigurou: tomou os traços, a voz, os gestos de ascendentes mortos, de avós que jamais conheceram, de um irmão falecido há alguns meses; essas transfigurações eram feitas sucessivamente em uma mesma sessão. Ela falava um dialeto que não era mais o da época, disse-me, porque não conhecia nem um nem o outro; mas o que posso afirmar, é que em uma sessão onde tomara a aparência de seu irmão, vigoroso gaiato, essa jovem de treze anos deu-me um rude aperto de mão.

“Há dezoito meses, ou dois anos, esse fenômeno é constantemente repetido do mesmo modo, somente hoje produziu-se espontânea e naturalmente, sem imposição das mãos.”
Esse estranho fenômeno, se bem que bastante raro, não é excepcional; já se falou de vários fatos semelhantes, e nós mesmos, várias vezes, fomos testemunha de alguma coisa análoga entre os sonâmbulos em estado de êxtase, e mesmo entre os extáticos que não estavam em sonambulismo. É certo, além do mais, que emoções violentas operam, sobre a fisionomia, uma mudança que lhe dá um caráter diferente daquele do estado normal.

Não vemos, igualmente, pessoas cujos traços móveis se prestam, segundo sua vontade, a modificações que lhes permitem tomar as aparências de outras certas pessoas? Vê-se, pois, por aí, que a rigidez da face não é tal que não possa sujeitar-se a modificações passageiras, mais ou menos profundas, e nada há de espantoso em que um fato semelhante possa produzir-se, no caso em que se trata, embora, talvez, por um causa independente da vontade.

Eis as respostas que obtivemos de São Luís a esse respeito, na sessão da Sociedade, de 25 de fevereiro último.

1. O fato de transfiguração, do qual acabamos de falar, é real? -R. Sim.

2. Nesse fenômeno, há um efeito material? – R. O fenômeno de transfiguração pode ocorrer de modo material, a tal ponto que, nas diversas fases que apresenta, poder-se-ia reproduzilo em daguerreotipia.

3. Como esse efeito se produziu? – R. A transfiguração, como a entendeis, não é senão uma modificação da aparência, uma mudança, uma alteração nos traços que pode ser produzida pela ação do próprio Espírito sobre seu envoltório, ou por uma influência exterior. O corpo nunca muda, mas, em conseqüência de uma contração nervosa, ele submete-se a aparências diversas.

4. Pode ocorrer que os espectadores sejam enganados por uma falsa aparência? – R. Pode ocorrer também que o perispírito desempenhe o papel que conheceis. No fato citado, ocorreu contração nervosa, e a imaginação aumentou-a muito; de resto, esse fenômeno é bastante raro.

5. O papel do perispírito seria análogo ao que se passa no fenômeno de bicorporeidade? – R. Sim.

6. É preciso, então, que, no caso de transfiguração, haja de-saparição do corpo real, para os espectadores que não vêem mais que o perispírito sob uma forma diferente? – R. Desaparição, não física, mas oclusão. Entendei-vos sobre as palavras.

7. Parece resultar disso que acabais de dizer que, no fenômeno da transfiguração, pode haver dois efeitos: 15 Alteração dos traços do corpo real, em conseqüência de uma contração, nervosa. 2° Aparência variável do perispírito que se torna visível. É assim que devemos entender? – R. Certamente.

8. Qual é a causa primeira desse fenômeno? – R. A vontade do Espírito.

9. Todos os Espíritos podem produzi-lo? – R. Não: os Espíritos não podem sempre fazer o que querem.

10. Como explicar a força anormal dessa jovem transfigurada na pessoa de seu irmão? – R. O Espírito não possui uma grande força? De resto, é a do corpo em seu estado normal.
Nota. Esse fato nada tem de surpreendente; freqüentemente, vêem-se as pessoas mais fracas dotadas momentaneamente de uma força muscular prodigiosa, por uma causa superexcitante.

11. Uma vez que, no fenômeno da transfiguração, o olhar do observador pode ver uma imagem diferente da realidade, ocorre o mesmo em certas manifestações físicas? Quando por exemplo uma mesa se eleva sem o contato das mãos, e que é vista acima do solo, é verdadeiramente a mesa que se destacou? – R. Podeis perguntá-lo?

12. O que é que a ergue? – R. A força do Espírito.

Nota. Esse fenômeno já foi explicado por São Luís, e tratamos essa questão, de modo completo, nos números de maio e junho de 1858, a propósito da teoria das manifestações físicas. Foi-nos dito que, nesse caso, a mesa, ou o objeto qualquer que se mova, se anima de uma vida factícia, momentânea, que lhe permite obedecer à vontade do Espírito.
Certas pessoas quiseram ver, nesse fato, uma simples ilusão de ótica que faria ver, por uma espécie de miragem, a mesa no espaço, ao passo que ela estaria realmente sobre o solo. Ainda que a coisa fosse assim, ela não seria menos digna de atenção; é notável que aqueles que querem contestar ou denegrir os fenômenos espíritas, expliquem-nos por causas que seriam, elas mesmas, verdadeiros prodígios, e bem mais difíceis de compreender-se; ora, por que, pois, tratar isso com tanto desdém? Se a causa que assinalam é real, por que não aprofundá-la? O físico procura se render conta do menor movimento anormal da agulha imantada; o químico na mais leve mudança na atração muscular por que, pois, ver-se com indiferença fenômenos tão bizarros quanto aqueles dos quais falamos, fossem o resultado de um simples desvio do raio visual e uma nova aplicação de leis conhecidas? Isso não é lógico. Não seria certamente impossível que, por um efeito de ótica análogo àquele que nos faz ver um objeto na água mais alto do que está, em conseqüência da refração do raio luminoso, uma mesa nos aparecesse no espaço, enquanto estivesse sob o sol; mas, há um fato que resolve peremptoriamente a questão, é quando a mesa cai bruscamente sobre o solo e quando ela se quebra; isso não nos parece ser uma ilusão de ótica. Voltemos à transfiguração.

Se uma contração muscular pode modificar os traços do rosto, isso não pode ser senão em um certo limite; mas, seguramente, se uma jovem toma a aparência de um velho, nenhum efeito psicológico far-lhe-á produzir a barba; é preciso, pois, procurar-lhe a causa em outro lugar. Querendo-se reportar-se ao que dissemos precedentemente, sobre o papel do perispírito em todos os fatos de aparições, mesmo de pessoas vivas, compreender-se-á que lá está ainda a chave do fenômeno da transfiguração. Com efeito, uma vez que o perispírito pode se isolar do corpo, que pode tornar-se visível, que pela sua extrema sutilidade pode tomar diversas aparências à vontade do Espírito, conceber-se-á, sem dificuldade, que ele esteja assim numa pessoa transfigurada: o corpo fica o mesmo, só o perispírito muda de aspecto. Mas, então, dir-se-á, em que se torna o corpo? De um lado o corpo real e de outro o perispírito transfigurado? Fatos estranhos, dos quais iremos falar oportunamente, provam que, em conseqüência da fascinação que se opera nessa circunstância no observador, o corpo real pode estar, de alguma sorte, velado pelo perispírito.

O fenômeno objeto desse artigo nos foi transmitido já há muito tempo, e se não falamos dele ainda, foi porque não nos propusemos fazer de nossa Revista um simples catálogo de fatos próprios para alimentar a curiosidade, uma árida compilação sem apreciação e sem comentário; nossa tarefa seria muito fácil, e a tomamos mais a sério; dirigimo-nos, antes de tudo, aos homens de raciocínio, àqueles que, como nós, querem se render conta das coisas, tanto quanto isso seja possível. Ora, a experiência nos ensinou que os fatos, por estranhos e multiplicados que sejam, não são elementos de convicção; e o são tanto menos quanto sejam estranhos; quanto mais um fato é extraordinário, tanto mais parece anormal, menos se está disposto a crer nele; quer-se ver, e quando se viu, duvida-se ainda; desconfia-se de ilusões e conivências. Não ocorre assim quando se acha, nos fatos, uma razão de ser por uma causa plausível. Vemos todos os dias pessoas que rejeitaram outrora os fenômenos espíritas, à conta da imaginação e de uma cega credulidade, e que hoje são adeptos fervorosos, precisamente porque esses fenômenos não têm agora nada que repugne à sua razão; elas se os explicam, compreendem-lhes a possibilidade, e crêem neles mesmo sem terem visto. Antes de falarmos de certos fatos, temos, pois, que esperar que os princípios fundamentais estejam suficientemente desenvolvidos, para deles render-se conta; o da transfiguração está entre esse número. O Espiritismo é para nós mais que uma crença: é uma ciência, e estamos felizes em ver que os nossos leitores nos compreenderam.

 

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Médiuns interesseiros

Revista Espírita, março de 1859

Em nosso artigo sobre os escolhos dos médiuns, colocamos a cupidez entre os defeitos que podem tomá-los presa de Espíritos imperfeitos. Alguns desenvolvimentos sobre esse assunto não serão inúteis. É preciso colocar, em primeiro lugar, os médiuns interesseiros, aqueles que poderiam fazer um ofício de sua faculdade, dando as chamadas a consultas ou sessões retribuídas. Não os conhecemos, na França pelo menos, mas como tudo pode tornar-se objeto de exploração, não haveria nada de espantoso em que se quisesse, um dia, explorar os Espíritos; resta saber como fariam a coisa, se jamais um tal espetáculo tentou se introduzir. Sem ser completamente iniciado no Espiritismo, compreende-se o que teria de aviltante; mas quem quer que conheça um pouco quanto é difícil aos bons Espíritos vir comunicar-se conosco, e quão pouco é preciso para afastá-los, sua repulsa por tudo o que é de interesse egoístico, não poderá jamais admitir que Espíritos superiores estejam ao capricho de alguém que os fizessem vir a tanto por hora; o simples bom senso repele semelhante suposição. Não seria também uma profanação evocar seu pai, sua mãe, seu filho ou seu amigo por um semelhante meio? Sem dúvida pode-se ter assim comunicações, mas Deus sabe de que fonte! Os Espíritos levianos, mentirosos, traquinas, zombeteiros e toda a multidão de Espíritos inferiores, sempre vêm; e estão sempre prontos a responder a tudo; São Luís nos disse, outro dia, na Sociedade: Evocai um rochedo, ele vos responderá. Aquele que quer comunicações sérias, deve se edificar, antes de tudo, sobre a natureza da simpatia do médium com os seres de além-túmulo; ora, aqueles que podem se entregar à atração do ganho não podem inspirar senão uma medíocre confiança.

Os médiuns interesseiros não são unicamente aqueles que poderiam exigir uma retribuição fixa; o interesse não se traduz sempre na esperança de um ganho material, mas também pelas considerações ambiciosas de toda a natureza, sobre as quais podem fundar esperanças pessoais; está ainda aí um defeito de que sabem aproveitar, muito bem, os Espíritos zombadores, e os quais aproveitam com um jeito, uma astúcia verdadeiramente notável, embalando enganosas ilusões naqueles que se colocam, assim, sob sua dependência. Em resumo, a mediunidade é uma faculdade dada para o bem, e os bons Espíritos se afastam de quem pretenda fazer dela uma escada para chegar ao que quer que seja, que não responda aos objetivos da Providência. Ó egoísmo é a praga da sociedade; os bons Espíritos o combatem, não se pode supor que venham servi-lo. Isso é tão racional que seria inútil insistir muito sobre esse ponto.

Os médiuns de efeitos físicos não estão na mesma categoria, esses efeitos são produzidos por Espíritos inferiores, pouco escrupulosos quanto aos sentimentos morais, um médium dessa categoria, que quisesse explorar sua faculdade, poderia, pois, ter quem se interessasse nisso, sem muita repugnância; mas aí, ainda, se apresenta um outro inconveniente. O médium de efeitos físicos, não mais que aquele de comunicações inteligentes, não recebeu sua faculdade para seu prazer foi-lhe dada com a condição de fazer, dela, um bom uso, e se dela abusa, pode lhe ser retirada, ou bem voltar-se em seu detrimento, porque, em definitivo, os Espíritos inferiores estão sob as ordens dos Espíritos superiores. Os Espíritos inferiores gostam muito de mistificar, mas não gostam de serem mistificados; prestando-se voluntariamente ao gracejo, às coisas curiosas, não gostam, mais que os outros, de serem explorados, e provam, a cada instante, que têm sua vontade, que agem quando e como lhes pareça, o que faz com que o médium de efeitos físicos esteja ainda menos seguro da regularidade das manifestações, que o médium escrevente. Pretender produzi-las a dias e horas fixas, seria dar prova da mais profunda ignorância. Que fazer, então, para ganhar seu dinheiro? Simular os fenômenos; é o que pode ocorrer não somente àqueles que disso fariam um ofício confessado, mas mesmo às pessoas simples em aparência, e que se limitam a receberem uma retribuição qualquer dos visitantes. Se o Espírito não dá, será suprido: a imaginação é fecunda quando se trata de ganhar dinheiro; é uma tese que desenvolveremos num artigo especial, a fim de colocar em guarda contra a fraude.

De tudo o que precede, concluímos que o desinteresse mais absoluto é a melhor garantia contra o charlatanismo, porque não há charlatães desinteressados; se não garante sempre a bondade das comunicações inteligentes, rouba aos maus Espíritos um poderoso meio de ação que fecha a boca de certos detratores.