Ao senhor L. de Limoges

Revista Espírita, agosto de 1859

Pedimos à pessoa que tomou a iniciativa de nos escrever de Limoges, para nos indicar os documentos interessantes concernentes ao Espiritismo, a fineza de consentir colocar-nos mesmo em comunicação direta com ela, a fim de que possamos responder-lhe a respeito das proposições que teve a honra de nos dirigir. A falta de espaço nos impede citar algumas das passagens de sua carta.

ALLAN KARDEC.

 

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Conversas familiares de além túmulo – Voltaire e Frédéric

 

Revista Espírita, agosto de 1859

Diálogo obtido por intermédio de dois médiuns servindo de intérpretes à cada um desses dois Espíritos, na sessão da Sociedade de 18 de março de 1859.

Questões preliminares endereçadas a Voltaire.

1. Em que situação estais como Espírito? – R. Errante, mas arrependido.

2. Quais são as vossas ocupações como Espírito? – R. Eu rasgo o véu do erro que, em minha vida, acreditava ser a luz da verdade.

3. Que pensais de vossos escritos em geral? – R. Meu Espírito estava dominado pelo orgulho; depois, eu tinha uma missão de arrojo a dar a um povo na infância; minhas obras são dela as conseqüências.

4. Que direis, em particular, de vossa Jeanne D’Arc? – R. Esta foi uma diatribe; fiz mais ruim que isso.

5. Quando vivo, que pensáveis de vosso futuro depois da morte? – R. Eu não acreditava senão na matéria, vós bem o sabeis, e ela morre.

6. Éreis ateu no verdadeiro sentido da palavra? – R. Eu era orgulhoso; eu negava a divindade por orgulho, é do que sofro e do que me arrependo.

7. Gostaríeis de conversar com Frédéric, que também consentiu em responder ao nosso apelo. Essa conversa seria instrutiva para nós. – R. Se Frédéric o quer, eu estou pronto.

Voltaire. – Vedes, meu caro monarca, que reconheço meus erros e que estou longe de falar como nas minhas obras; outrora dávamos o espetáculo de nossas torpezas; agora somos obrigados a dar o de nosso arrependimento e do nosso desejo de conhecer a grande e pura verdade.

Frédéric. – Eu vos acreditava menos bom do que não o sois realmente.

Voltaire. – Uma força que somos obrigados a adorar, e reconhecer toda soberana, força nossa alma a proclamar para aqueles que talvez abusamos, uma doutrina toda oposta àquela que professamos.

Frédéric. – É verdade, meu caro Arouet, mas não finjamos mais, é inútil, todos os véus caíram. Voltaire. – Deixamos tantos desastres atrás de nós, que nos seriam necessárias muitas lágrimas para deles obter o perdão e nos absolver! Não saberíamos muito nos unir para fazer esquecer e reparar os males que causamos.

Frédéric. – Confessemos também que o século que admirávamos foi bem pobre em julgamento e que é preciso pouca coisa para deslumbrar os homens: nada mais que um pouco de audácia.

Voltaire. – Por que não? Fizemos tanta fama em nosso século!

Frédéric. – Foi essa fama que, caindo de repente num completo silêncio, nos lançou de novo na reflexão amarga, quase no arrependimento. Eu choro minha vida, mas também sinto falta de não ser mais Frédéric! E tu de não seres mais o senhor de Voltaire!

Voltaire. – Falai, pois, por nós, Majestade.

Frédéric. – Sim, eu sofro; mas não repitais mais.

Voltaire. – Mas abdicais, pois! Mais tarde fareis como eu.

Frédéric. – Eu não posso…

Voltaire. – Pedis-me para ser vosso guia; eu o serei ainda; tratarei somente de não vos perder no futuro. Se podeis compreender, procurai aqui o que pode vos ser útil. Não são mais altezas que vos interrogam, mas Espíritos que procuram e acham a verdade com a ajuda de Deus.

Frédéric. – Tomai-me, pois, pela mão; traçai-me uma linha de conduta, se o puderdes… esperemo-la… mas isso será por vós… por mim estou muito perturbado, e eis que isso dura um século.

Voltaire. – Deixais-me, ainda, a inveja de ter orgulho de valer melhor que vós; isso não é generoso. Tornai-vos bom e humilde, para que eu mesmo seja humilde.

Frédéric. – Sim, mas a marca que a minha qualidade de Majestade me deixou no coração, impede-me sempre de me humilhar como tu. Meu coração está fechado como um rochedo, árido como um deserto, seco como a arena.

Voltaire. – Serieis, pois, poeta? Não vos conhecia esse talento, Senhor.

Frédéric. – Tu finges, tu… Não peço a Deus senão uma coisa, o esquecimento dç passado… uma encarnação de prova e de trabalho.

Voltaire. – E melhor unir-me também a vós, mas sinto que esperarei por muito tempo minha remissão e o meu perdão.

Frédéric. – Bem, meu amigo, pecamos, pois, juntos uma vez.

Voltaire. – Eu o faço sempre, desde que Deus se dignou levantar para mim o véu da carne.

Frédéric. – Que pensas desses homens que nos chamam aqui?

Voltaire. – Eles podem nos julgar, e nós não podemos senão nos humilharmos com eles.

Frédéric. – Eles me incomodam, eu… seus pensamentos são muito diferentes.

P. (a Frédéric.) – Que pensais do Espiritismo? – R. Sois mais sábios que nós; não viveis um século depois de nós? E embora no céu desde esse tempo, não fazemos apenas senão nele entrar.

P. Nós vos agradecemos por consentirdes em vir ao nosso chamado assim como ao vosso amigo Voltaire.

Voltaire. – Viremos quando quiserdes.

Frédéric. – Não me evoqueis freqüentemente… Não sou simpático.

P. Por que não sois simpático? – R. Eu desprezo e me sinto desprezível.

25 de março de 1859.

1. Evocação de Voltaire. – R. Falai.

2. Que pensais de Frédéric, agora que não está mais aí. – R. Ele raciocina muito bem, mas não quis se explicar; ele despreza, esse desprezo que tem por todo o mundo impede-o de consagrar-se, temeroso de não ser compreendido.

3. Pois bem! Teríeis a bondade de supri-lo, e dizer-nos o que entendia por essas palavras:

Eu desprezo e me sinto desprezível? -R. Sim; sente-se fraco e corrompido como nós todos, e compreende, talvez mais do que nós ainda, tendo mais abusado que outros dos dons de Deus.

4. Como o julgais como monarca? – R. Hábil.

5. Julgai-o homem honesto? – R. Não se pode perguntar isso; não conheceis suas ações?

6. Não poderíeis dar-nos uma idéia mais precisa, do que não o fizestes, de vossas ocupações como Espírito? – R. Não; em todo instante de minha vida, descubro como um novo ponto de vista do bem; trato de praticá-lo, ou antes de aprender a praticá-lo.

Quando se teve uma existência como a minha, há muitos preconceitos a combater, muitos pensamentos a repelir ou a mudar completamente, antes de chegar à verdade.

7. Desejaríamos ter de vós uma dissertação sobre um assunto de vossa escolha; gostaríeis de dar-nos uma? – R. Sobre o Cristo, sim, se quiserdes.

8. Será nesta sessão? – R. Mais tarde; esperai; em uma outra.

8 de abril de 1859

1. Evocação de Voltaire. – R. Estou aqui.

2. Teríeis a bondade de nos dar hoje a dissertação que nos prometestes? – R. O que vos prometi, posso cumpri-lo aqui; somente abreviarei.

Meus caros amigos, quando estava entre vossos pais, tinha opiniões, e para sustentá-las e fazê-las prevalecer entre meus contemporâneos, freqüentemente, simulei uma convicção que não possuía em realidade. Foi assim que, querendo enfraquecer os defeitos, os vícios nos quais caía a religião, sustentei uma tese que hoje estou condenado a refutar.

Ataquei muitas coisas puras e santas, que minha mão profana deveria respeitar. Assim, ataquei o próprio Cristo, esse modelo de virtudes sobre-humanas, depois eu disse: sim, pobres homens, talvez rivalizemos um pouco o nosso modelo, mas não teremos jamais o devotamento e a santidade que mostrou; ele sempre estará acima de nós, porque foi melhor antes de nós. Estávamos ainda mergulhados no vício da corrupção e ele já estava sentado à direita de Deus. Aqui, diante de vós e o retrato do que a minha pena escreveu contra o Cristo, porque eu o amo, sim eu o amo. Sentia não tê-lo feito ainda.

 

volteire

 

 

O Guia da senhora Mally

Revista Espírita, agosto de 1859

(Sociedade, 8 de julho de 1859).

1. Evocação do guia da senhora Mally. – R. Eu venho, isso me é fácil.

2. Sob qual nome quereis que vos designemos? – R. Como quiserdes; por aquele sob o qual vós já me conhecíeis.

3. Que motivo vos ligou à senhora Mally e às suas filhas? – R. Primeiro, um antigo relacionamento, e uma amizade, uma simpatia que Deus sempre protege.

4. Diz-se que foi a sonâmbula, senhora de Dupuy, que vos deu à senhora Mally; isso é verdade? – R. Foi ela quem lhe disse que eu estava perto dela.

5. É que dependeis dessa sonâmbula? – R. Não.

6. Ela poderia vos retirar de perto dessa senhora? – R. Não.

7. Se essa sonâmbula viesse a morrer, isso teria sobre vós uma influência qualquer? – R. Nenhuma.

8. Faz muito tempo que vosso corpo morreu? – R. Sim, vários anos.

9. Que éreis em vossa vida? – R. Criança morta aos oito anos.

10. Sois feliz ou infeliz como Espírito? – R. Feliz; não tenho nenhuma inquietação pessoal, não sofro senão pelos outros; em verdade, que sofro muito por eles.

11. Fostes vós quem apareceu, na escada, à senhora Mally sob a forma de um jovem que ela tomou por um ladrão? – R. Não; era um companheiro.

12. E uma outra vez, sob a forma de um cadáver? Isso poderia impressioná-la lastimosamente; foi uma má peça que não anuncia a benevolência. – R. Longe disso em muitos casos; mas aqui era para dar, à senhora Mally, pensamentos mais corajosos; o que tem um cadáver de apavorante?

13. Tendes, pois, o poder de tornar-vos visível à vontade? – R. Sim, mas disse-vos que esse não era eu.

14. Éreis igualmente estranho às manifestações materiais que se produziram em sua casa? – R. Perdão! Isso sim; foi isso que me impus para ela, como trabalho material; mas realizei-lhe um trabalho bem mais útil e bem mais sério.

15. Podeis tomar-vos visível a todo mundo? – R. Sim.

16. Poderíeis tornar-vos visível aqui, para um de nós? – R. Sim; pedi a Deus para que assim possa só eu o posso, mas não ouso fazê-lo.

17. Se não quereis tornar-vos visível, poderíeis ao menos fazer-nos uma manifestação, para trazer, por exemplo, alguma coisa sobre a mesa? – R. Certamente, mas para o que de bom? Junto dela testemunho a minha presença por esse meio, mas junto a vós é inútil, uma vez que conversamos juntos.

18. O obstáculo não seria faltar-vos aqui o médium necessário para produzir essas manifestações? – R. Não, esse é um obstáculo fraco. Não vedes, freqüentemente, manifestações súbitas a pessoas que não são de modo algum médiuns?

19. Todo o mundo, pois, está apto a ter manifestações espontâneas? – R. Uma vez que em sendo homem, se é médium.

20. O Espírito não encontra, entretanto, na organização de certas pessoas, uma facilidade maior para se comunicar? – R. Sim, mas eu vos digo, e deveríeis sabê-lo, os Espíritos são poderosos por si mesmos, o médium não é nada. Não tendes a escrita direta, e para isso é necessário um médium? Não; da fé somente e um ardente desejo, e, freqüentemente ainda, isso se produz com o desconhecimento dos homens, quer dizer, sem fé e sem desejo.

21. Pensais que as manifestações, tais como a escrita direta, por exemplo, se tomarão mais comuns do que o são hoje? – R. Certamente; como entendeis, pois, a divulgação do Espiritismo?

22. Podeis nos explicar o que a jovem da senhora Mally recebia em sua mão e comia durante a sua doença? – R. Maná; uma substância formada por nós, que encerra o princípio contido no maná comum e a doçura de um doce.

23. Essa substância é formada com a mesma matéria das vestimentas e outros objetos que os Espíritos produzem por sua vontade e pela ação que têm sobre a matéria? – R. Sim, mas os elementos são muito diferentes; as partes que formam meu maná não são as mesmas das que tomo para formar a madeiras ou uma vestimenta.

24. (A São Luís). O elemento tomado pelo Espírito, para formar o seu maná, é diferente daquele que tomou para formar outra coisa? Sempre nos foi dito que não há senão um elemento primitivo universal, do qual os diferentes corpos não são senão modificações. – R. Sim; quer dizer que esse mesmo elemento primitivo esparso no espaço, aqui sob uma forma, e ali sob uma outra; isso é o que ele quer dizer; ele toma seu maná de uma parte desse elemento, que crê diferente, mas que é bem sempre o mesmo.

25. A ação magnética pela qual se dá a uma substância, a água, por exemplo, propriedades especiais, tem relação com a do Espírito que cria uma substância? – R. O magnetizador não desdobra absolutamente senão a vontade; é um Espírito que o ajuda, que se encarrega de preparar e de concentrar o remédio.

26. (Ao Guia). Reportamos no tempo fatos curiosos de manifestações da parte de um Espírito que designamos sob o nome de Follet de Bayonne; conheceis esse Espírito? – R. Não particularmente; mas segui o que fizestes com ele, e foi somente assim que o conheci de início.

27. É um Espírito de uma ordem inferior? – R. Inferior quer dizer mau? Não. Quer dizer simplesmente: não inteiramente bom, pouco avançado? Sim.

28. Agradecemos-vos por consentir vir e pelas explicações que nos destes. – R. Ao vosso serviço.

Nota. Esta comunicação nos oferece um complemento ao que dissemos nos dois artigos precedentes, sobre a formação de certos corpos pelos Espíritos. A substância dada à criança, durante sua enfermidade, evidentemente, era uma substância preparada por eles e que teve por efeito dar-lhe a saúde. Onde hauriram eles os princípios? No elemento universal transformado para o uso proposto. O fenômeno tão estranho de propriedades transmitidas pela ação magnética, problema até o momento inexplicado, e sobre o qual se alegraram tanto os incrédulos, encontra-se agora resolvido. Sabemos, com efeito, que não são apenas os Espíritos dos mortos que agem, mas que os dos vivos também têm sua parte de ação no mundo invisível: o homem com a tabaqueira disso nos forneceu a prova. O que há de espantoso, pois, em que a vontade de uma pessoa agindo pelo bem possa operar uma transformação na matéria primitiva, e dar-lhe propriedades determinadas? Está aí, em nosso entender, a chave de muitos dos efeitos pretendidos sobrenaturais, e dos quais teremos ocasião de falar. Foi assim que, pela observação, chegamos a nos dar conta das coisas, deixando-lhes a parte da realidade do maravilhoso. Mas quem diz que essa teoria seja verdadeira? Seja; ela tem pelo menos o mérito de ser racional e perfeitamente de acordo com os fatos observados; se algum cérebro humano dela encontre uma que julgue mais lógica do que a dada pelos Espíritos, serão comparadas; talvez, um dia, ficaremos contentes por termos aberto o caminho do estudo raciocinado do Espiritismo.

“Gostaria muito, disse-nos um dia uma pessoa, ter assim um Espírito servidor às minhas ordens, sob a condição de suportar algumas pequenas travessuras de sua parte.” É uma satisfação da qual a gente goza, freqüentemente, sem dela suspeitar, porque todos os Espíritos que nos assistem não se manifestam de um modo ostensivo; mas não estão menos ao nosso lado, e sua influência, por ser oculta, não é menos real.

guia espiritual da senhora mally

Um Espírito Servidor

Revista Espírita, agosto de 1859

Extraímos as passagens seguintes da carta de um de nossos correspondentes de Bordeaux:

“Eis, meu caro senhor Allan Kardec, um novo relato de fatos muito extraordinários, e que vos submeto com o pedido de consentir verificá-los, evocando o Espírito que é o seu autor.

“Uma jovem senhora, que chamaremos senhora Mally, foi a pessoa por cujo intermédio ocorreram as manifestações que formam o assunto desta carta: Essa senhora mora em Bordeaux e tem três filhos.

“Desde a sua tenra idade, em torno de nove anos, ela teve visões. Uma noite, entrando em sua casa com a sua família, viu no ângulo de uma escada a forma muito distinta de uma tia morta há quatro ou cinco anos. Ela soltou uma exclamação: Ah! minha tia! E a aparição desapareceu. Dois anos depois, ela ouviu ser chamada por uma voz que acreditou reconhecer pela de sua tia, e tão fortemente que não pôde deixar de dizer:

Entrai, minha tia! Não se abrindo a porta, ela mesma foi abrir, e não vendo ninguém, desceu para junto de sua mãe para informar-se se alguém havia subido.

“Depois de alguns anos, encontramos essa senhora de posse de um guia ou Espírito familiar, que parece encarregado de velar sobre sua pessoa e de seus filhos, e que faz uma multidão de pequenos serviços na casa, entre outros o de despertar os doentes, à hora fixada, para tomar a tizana, ou aqueles que querem partir; ou bem, para certas manifestações, ele realça o moral. Esse Espírito tem um caráter pouco sério; entretanto, ao lado de marcas de leviandade, ele deu provas de sensibilidade e afeição. A senhora Mally o vê comumente sob a forma de uma chama, ou de uma grande claridade; mas ele se manifesta aos seus filhos sob uma forma humana. Uma sonâmbula pretende ter-lhe dado esse guia, sobre o qual parece ter influência. Quando a senhora Mally fica algum tempo sem se ocupar de seu guia, ele toma o cuidado de se fazer lembrar a ela por algumas visões mais ou menos desagradáveis. Uma vez, por exemplo, quando ela descia sem luz, percebeu sobre o patamar um cadáver coberto com um lençol e luminoso. Essa senhora tem uma grande força de caráter, como veremos mais tarde; todavia, não pôde defender-se de uma impressão penosa com essa visão; e, fechando vivamente a porta de seu quarto, ela afastou-se para o de sua mãe. Outras vezes, sentia-se puxada pelo seu vestido, ou relada como por uma pessoa ou algum animal, oprimindo-a.. Essas impertinências cessavam desde que ela dirigisse um pensamento ao seu guia, e, de sua parte, a sonâmbula repreendia este último e proibia-o de atormentá-la.

“Em 1856, a terceira filha da senhora Mally, com a idade de quatro anos, caiu doente, no mês de agosto. A criança estava constantemente mergulhada num estado de sonolência, interrompido por crises de convulsões. Durante oito dias, eu mesmo vi a criança parecendo sair do seu acabrunhamento, tomar um rosto sorridente e feliz e os olhos semi-fechados, sem olhar para aqueles que a cercavam, estender sua mão, com um gesto gracioso, como para receber alguma coisa, levar à boca e comer; depois agradecer com um sorriso encantador. Durante oito dias, a criança foi sustentada por essa alimentação invisível, e seu corpo retomara sua aparência de frescor habitual. Quando ela pôde falar, pareceu que ela saiu de um longo sono, e contou maravilhosas visões.

“Durante a convalescença da criança, pelo dia 25 de agosto, ocorreu, nessa mesma casa, a aparição de um agênere. Pelas dez e meia da noite, a senhora Mally, levando a pequena pela mão, descia uma escada de serviço, quando ela percebeu um indivíduo que subia. A escada estava perfeitamente iluminada pela luz da cozinha, de modo que a senhora Mally pôde muito bem distinguir o indivíduo, que tinha todas as aparências de uma pessoa vigorosamente constituída. Ambos chegados ao patamar ao mesmo tempo, encontraram-se face a face; era um jovem de rosto agradável, bem vestido, a cabeça coberta com um boné, e tendo à mão um objeto que ela não pôde distinguir. A senhora Mally, surpresa com esse encontro inesperado, a essa hora e numa escada, oculta, considerou-o sem dizer uma palavra e sem mesmo perguntar-lhe a que veio. O desconhecido, de seu lado, considerou-a um momento em silêncio, depois girou nos calcanhares e desceu a escada esfregando as barras da rampa com o objeto que levava à mão e que fazia o mesmo ruído como se fora uma varinha. Apenas ele desapareceu e a senhora Mally se precipitou no quarto onde eu me encontrava nesse momento, e gritou que um ladrão estava na casa. Colocamo-nos à procura, ajudadas pelo meu cão; todos os cantos foram explorados; assegurou-se que a porta da rua estava fechada e que ninguém pôde se introduzir, e que, aliás, não se poderia fechar sem ruído; era pouco provável, de resto, que um malfeitor viesse numa escada iluminada e a uma hora na qual estava exposto a encontrar, a cada instante, as pessoas da casa; por outro lado, como o estranho se encontrara nesta escada que não serve ao público; e, em todos os casos, se se enganasse, teria dirigido a palavra à senhora Mally, ao passo que lhe voltou as costas e se foi tranqüilamente, como alguém que não tivesse pressa e nem estivesse embaraçado em seu caminho. Todas essas circunstâncias não puderam nos deixar dúvida sobre a natureza desse indivíduo.

“Esse Espírito se manifesta, freqüentemente, por ruídos tais como o de um tambor, golpes violentos no fogão da cozinha, golpes de pé nas portas que então se abrem sozinhas, ou um ruído semelhante ao de pedras que fossem lançadas contra as vidraças.

Um dia a senhora Mally estava na porta de sua cozinha, e viu a de um escritório em frente se abrir e se fechar, várias vezes, por uma mão invisível; outras vezes, estando ocupada em soprar o fogo, sentiuse puxada pelo seu vestido, ou quando subia a escada ou a agarrava pelo calcanhar. Várias vezes, escondeu suas tesouras e outros objetos de trabalho; depois, quando já tinha muito procurado, eram-lhe depositados sobre os joelhos. Um domingo, estava ocupada em introduzir um dente de alho numa perna de carneiro; de repente, ela sente arrancar-lho dos dedos; crendo haver deixado cair, procurou-o inutilmente; então, retomando a perna de carneiro, ela encontrou a casca picada em um buraco triangular, cuja pele estava rebaixada, como para mostrar que uma mão estranha a havia colocado ali, intencionalmente.

“A primogênita dos filhos da senhora Mally, com a idade de quatro anos, estando passeando com sua mãe, esta percebeu que sua filha conversava com um ser invisível, que parecia pedir-lhe bombons; a menina fechava a mão e dizia sempre:

– Eles são meus, compre-os se tu os queres.

A mãe admirada perguntou-lhe com quem falava.

– É, disse a criança, esse jovem que quer que lhe dê meus bombons.

– Quem é esse jovem? Perguntou a mãe.

– Esse jovem que está aqui, a meu lado.

– Mas eu não vejo ninguém.

– Ah! Ele partiu. Ele estava vestido de branco e todo frisado. “Uma outra vez, a pequena doente, de quem falei mais acima, divertia-se fazendo galinhas de papel. Mamãe! mamãe! disse ela, faça, pois, parar esse menino que quer pegar o meu papel.

– Quem? disse a mãe.

– Sim, esse menino que pegou o meu papel; e o menino se pôs a chorar.

– Mas onde está ele?

– Ah! Ei-lo que se foi para a esquina. Era um jovem todo negro. “Essa mesma jovem saltou um dia sobre a ponta dos pés e perdeu o fôlego, apesar da proibição de sua mãe, que temia que isso lhe fizesse mal. De repente, ela se deteve gritando: “Ah! o guia de mamãe!”

Perguntou-se-lhe o que isso significava; ela disse que viu um braço detê-la, quando ela saltava, e forçou-a a manter-se tranqüila. Acrescentou que não teve medo, e que em seguida pensou no guia de sua mãe. Os fatos desse gênero se renovam freqüentemente, mas tornaram-se familiares para as crianças, que não lhes concebem nenhum medo, porque o pensamento do guia de sua mãe lhes vem espontaneamente.

“A intervenção desse guia manifesta-se em circunstâncias mais sérias. A senhora Mally alugara uma casa com jardim na localidade de Caudéran. Essa casa estava isolada e cercada de vastas campinas; ela morava somente com seus três filhos e uma instrutora.

A comunidade, então, estava infestada de bandidos que cometiam depredações nas propriedades vizinhas, e tinham, naturalmente, manifestado preferência por uma casa que sabiam habitada por duas mulheres somente; assim, todas as noites, vinham pilhar e tentar forçar as portas e as janelas. Durante três anos, que a senhora Mally morou nessa casa, ela teve transes continuados mas, cada noite, ela se recomendava a Deus, e seu guia, depois de sua prece, manifestava-se sob a forma de uma centelha. Várias vezes, quando, durante a noite, os ladrões faziam suas tentativas de arrombamento, uma súbita claridade iluminava o quarto, e ela ouvia uma voz que lhe dizia: “Nada temais; eles não entrarão;” e, com efeito, jamais conseguiram penetrar. Contudo, para mais precaução ela munia-se de armas de fogo. Uma noite que os ouviu rondar, atirou sobre eles dois tiros de pistola que atingiram um deles, porque ela o ouviu gemer, mas no dia seguinte havia desaparecido. Esse fato foi contado nestes termos num jornal de Bordeaux:

“Foi-nos foi contado um fato que denota uma certa coragem da parte de uma jovem morando na comuna de Caudéran:

“Uma senhora que ocupa uma casa isolada nessa comuna tem com ela uma senhorita encarregada da educação de vários filhos.

“Essa dama fora numa das noites precedentes, vítima de uma tentativa de roubo. No dia seguinte concordou-se que se vigiaria, e que, se necessário, velar-se-ia durante a noite.

“O que foi convencionado foi feito. Por isso, quando os ladrões se apresentaram para arrematar sua obra da véspera, encontraram quem os recebesse. Somente tiveram a precaução de não mais estabelecer conversação com os habitantes da casa sitiada. A senhorita, da qual falamos, tendo-os ouvido, apressou-se em abrir a porta e dar um tiro de pistola que deveu atingir um dos ladrões, porque, no dia seguinte, encontrou-se sangue no jardim.

“Até aqui não se descobriu os autores dessa segunda tentativa.” “Não falarei senão por memória de outras manifestações que ocorreram nessa mesma casa de Caudéran, durante a estada dessas senhoras. Durante a noite, freqüentemente, ouviam-se ruídos estranhos, semelhantes ao de bolas rolando sobre as tábuas, ou madeiras da cozinha lançadas por terra e, todavia, pela manhã tudo estava numa ordem perfeita.

“Podeis, senhor, se julgardes a propósito, evocar o guia da senhora Mally e interrogá-lo sobre as manifestações que acabo de vos fornecer. Podeis, notadamente, perguntar-lhe se a sonâmbula que pretendeu dar esse guia tinha o poder de retomá-lo, e se ele se retiraria no caso em que esta viesse a morrer………….”

Espirito servidor

Pneumatografia ou escrita direta

Revista Espírita, agosto de 1859

A Pneumatografia é a escrita produzida diretamente pelo Espírito, sem nenhum intermediário; ela difere da Psicografia no fato de que esta é a transmissão do pensamento do Espírito, por meio da escrita, pelas mãos de um médium. Demos essas duas palavras no Vocabulário Espírita colocado à entrada de nossa Instrução prática, com a indicação de sua diferença etimológica. Psicografia, do grego psuikê, borboleta, alma, e graphó, eu escrevo; pneumatografia, de pneuma, ar, sopro, vento, espírito. No médium escrevente, a mão é o instrumento; mas sua alma, ou Espírito encarnado nele, é o intermediário, o agente ou o intérprete do Espírito estranho que se comunica; na Pneumatografia, é o próprio Espírito estranho que escreve diretamente, sem intermediário.

O fenômeno da escrita direta, sem contradita, é um dos mais extraordinários do Espiritismo, por anormal que pareça à primeira vista, é hoje um fato averiguado e incontestável; se dele ainda não falamos, foi porque esperávamos poder dar-lhe a explicação, e nós mesmos podermos fazer todas as observações necessárias, para tratar a questão com conhecimento de causa. Se a teoria é necessária, para dar-se conta da possibilidade dos fenômenos espíritas em geral, ela o é mais ainda, talvez, neste caso, sem contradita, um dos mais estranhos que se apresentara, mas que deixa de ser sobrenatural desde que se lhe compreenda o princípio. À primeira revelação desse fenômeno, o sentimento dominante foi o de dúvida; a idéia de uma fraude veio logo ao pensamento; com efeito, todo o mundo conhecia a ação das tintas, ditas simpáticas, cujos traços, de início completamente invisíveis, apareciam ao cabo de algum tempo. Poderia, portanto, ocorrer que se abusasse da credulidade, e nós não afir remos que jamais se haja feito; estamos mesmo convencidos de que certas pessoas, não com um objetivo mercenário, mas unicamente por amor próprio e para fazer crer em seu poder, empregaram subterfúgios.

J.J. Rousseau narra o fato seguinte na terceira das cartas escritas da Montagne: “Eu vi em Veneza, em 1743, um modo de sorte bastante novo, e mais estranho que os de Prèneste; aquele que queria consultá-las, entrava num quarto, e aí permanecia, só se o desejasse.

Ali, de um livro cheio de folhas brancas, dele tirava uma à sua escolha; depois, segurando nessa folha, ele pedia não em voz alta mas mentalmente, o que queria saber; em seguida, ele dobrava a folha branca, a envelopava, escondia-a, colocava-a em um livro também oculto; enfim, depois de recitar certas fórmulas, muito barrocas, sem perder seu livro de vista, ia tirar-lhe o papel, reconhecer a marca, abri-lo, e encontrar sua resposta escrita.

“O mágico que fazia essas sortes era o primeiro secretário da embaixada de França, e ele se chamava J.J. Rousseau.”

Duvidamos que Rousseau haja conhecido a escrita direta, de outro modo saberia muitas outras coisas com respeito às manifestações espíritas, e não teria tratado a questão tão levianamente; é provável, como ele mesmo reconheceu quando o interrogamos sobre esse fato, que empregou um procedimento que lhe ensinara um charlatão italiano.

Mas pelo fato de que se pode imitar uma coisa, seria absurdo disso concluir que a coisa não existe. Não se encontrou, nos últimos tempos, um meio de imitar a lucidez sonambúlica ao ponto de iludir? E do fato que esse procedimento de saltimbanco correu todas as feiras, é necessário concluir que não haja verdadeiros sonâmbulos? Por que certos mercadores vendem vinho adulterado, isso é uma razão para que não haja vinho puro? Ocorre o mesmo com a escrita direta; as precauções para se assegurar da realidade do fato sendo, aliás, bem simples e bem fáceis e, graças a essas precauções, não se pode hoje objetar-lhe nenhuma dúvida.

Uma vez que a possibilidade de escrever sem intermediário é um dos atributos do Espírito, que os Espíritos existiram de todos os tempos, e de todos os tempos, também, produziram os diversos fenômenos que conhecemos, igualmente deveram produzir a escrita direta, na antigüidade tão bem quanto em nossos dias; assim é que se pode explicar a aparição de três palavras na sala do festim de Baltazar. A Idade Média, tão fecunda em prodígios ocultos, mas que foram abafados sob as fogueiras, deveu conhecer também a escrita direta, e talvez encontrou, na teoria das modificações que os Espíritos podem operar sobre a matéria, e que reportamos no nosso artigo precedente, o princípio da transmutação dos metais; é um ponto que trataremos algum dia.

Um de nossos assinantes dizia-nos recentemente que um de seus tios, cônego, que fora missionário no Paraguai durante muitos anos obtia, por volta do ano de 1800, a escrita direta conjuntamente com seu amigo, o célebre abade Faria. Seu procedimento, que nosso assinante jamais conheceu bem, e que, de alguma sorte, havia surpreendido furtivamente, consistia numa série de anéis suspensos, aos quais eram adaptados os lápis verticais, cuja ponta repousava sobre o papel. Esse procedimento ressente-se da infância da arte; fizemos progressos depois. Quaisquer que sejam os resultados obtidos em diversas épocas, não foi senão depois da vulgarização das manifestações espíritas, que é seriamente considerada a questão da escrita direta. O primeiro que parece tê-la feito conhecer em Paris, nos últimos anos, foi o senhor barão de Guldenstubbe, que publicou sobre esse assunto uma obra muito interessante, contendo um grande número de fac símiles de escritas que obteve (1). ((1) A realidade dos Espíritos e de suas manifestações, demonstrada pelo fenômeno da escrita direta. Pelo senhor barão de Guldenstubbe; 1 vol. – in 8, com 15 pranchas e 93 fac-similes. Preço 8 fr. casa Frank, Rua Richelieu. Encontra-se também na casa Dentu e Ledoyen. ) O fenômeno já era conhecido na América há algum tempo. A posição social do senhor de Guldenstubbe, sua independência, a consideração que gozava no mundo mais elevado, afastam incontestavelmente toda suspeição de fraude voluntária, porque ele não pôde moverse por algum motivo de interesse. Poder-se-ia, quando muito, crer que ele mesmo era o joguete de uma ilusão; mas a isso um fato responde peremptoriamente, que é a obtenção do mesmo fenômeno por outras pessoas, cercando-se de todas as precauções necessárias para evitar toda a fraude e toda causa de erro.

A escrita direta se obtém, como em geral a maioria das manifestações espíritas não espontâneas, pelo recolhimento, a prece e a evocação. Ela tem sido obtida, freqüentemente, nas igrejas, sobre os túmulos, ao pé das estátuas ou de imagens de personagens que são chamadas; mas é evidente que a localidade não tem outra influência senão a de provocar o maior recolhimento, e a maior concentração do pensamento; porque está provado que são obtidas, igualmente, sem esses acessórios, e nos lugares mais vulgares, sobre um simples móvel doméstico, encontrando-se nas condições morais desejadas, e se lhe une a faculdade medianímica necessária

No princípio, pretendia-se que era necessário depositar um lápis com o papel; os fatos, então, podiam se explicar até um certo ponto. Sabe-se que os Espíritos operam o movimento e o deslocamento de objetos; que eles os tomam e os lançam, algumas vezes, no espaço; poderiam, pois, muito bem tomar o lápis e dele se servirem para traçarem caracteres; uma vez que lhe dão o impulso por intermédio da mão do médium, de uma prancheta, etc., poderiam igualmente fazê-lo de um modo direto. Mas não se tardou a reconhecer que a presença do lápis não era necessária, e que bastava um pedaço de papel, dobrado ou não, sobre o qual se encontram, depois de alguns minutos, caracteres traçados. Aqui o fenômeno muda completamente de face e nos lança numa ordem de coisas inteiramente novas; esses caracteres foram traçados com uma substância qualquer; do momento, que não se forneceu essa substância ao Espírito, ele a fez, portanto, ele mesmo a criou; onde a hauriu? Aí estava o problema. O senhor general russo, conde de B…, mostrou-nos uma estrofe de dez versos alemães que obteve desse modo, por intermédio da irmã do barão de Guldenstubbe, colocando muito simplesmente uma folha de papel, destacada de sua própria caderneta, sob o pedestal da pêndula da chaminé. Tendo-o retirado, ao cabo de alguns minutos, encontrou esses versos em caracteres tipográficos alemães bastante finos e de uma perfeita pureza. Por intermédio de um médium escrevente, o Espírito disse-lhe para queimar esse papel; como ele hesitou, lamentando sacrificar esse precioso espécime, o Espírito acrescentou:

Nada tema, dar-te-ei um outro. Com esta segurança, ele lançou o papel ao fogo, depois colocou uma segunda folha igualmente tirada de sua caderneta, sobre a qual os versos se acharam reproduzidos exatamente do mesmo modo. Foi esta segunda edição, que vimos e examinamos com o maior cuidado, e, coisa bizarra, os caracteres apresentavam um relevo como se eles saíssem da imprensa. Não é, pois, somente com lápis que os Espíritos podem fazer, mas com tinta e caracteres de imprensa.

Um dos nossos honoráveis colegas da Sociedade, o senhor Didier, obteve estes dias os resultados seguintes, que nós mesmos constatamos, e dos quais podemos garantir a perfeita autenticidade. Tendo ido, com a senhora Hüet, que há pouco teve êxito em ensaios desse gênero, na igreja de Notre-Dame dês Victoires, tomou uma folha de papel de carta trazendo o cabeçalho de sua casa de comércio, dobrou em quatro e a depositou sobre os degraus de um altar, pedindo em nome de Deus a um bom Espírito qualquer que quisesse escrever alguma coisa; ao cabo de dez minutos de recolhimento, encontrou, no interior e sobre uma das folhas a palavra fé, e sobre uma outra folha a palavra Deus.

Tendo em seguida pedido ao Espírito consentir dizer por quem isso fora escrito, ele recolocou o papel, e depois de dez outros minutos, encontrou estas palavras: por Fénelon.

Oito dias mais tarde, em 12 de julho, ele quis renovar a experiência e foi, para esse efeito, ao Louvre na sala Coyzevox, situada sob o pavilhão do relógio. Sobre o pé do busto de Bossuet colocou uma folha de papel de carta dobrada como da primeira vez, mas não obteve nada. Um jovem de cinco anos acompanhava-o, e depositou-se o boné do menino sobre o pedestal da estátua de Luís XIV, que se encontra a alguns passos. Crendo a experiência falha, dispôsse a retirar, quando pegando o boné encontrou embaixo, e como escrito a lápis sobre o mármore, as palavras amai-Deus, acompanhadas da letra B.

O primeiro pensamento dos assistentes foi que estas palavras poderiam ter sido escritas anteriormente por uma mão estranha, e que nelas não havia nada de notável; não obstante, quis-se tentar a prova, colocou-se a folha dobrada sobre essas palavras, e o todo foi recoberto pelo boné. Ao cabo de alguns minutos, encontraram-se sobre uma das folhas estas três letras: a / m; recolocado o papel com o pedido de aperfeiçoar, obteve-se Amai-a-Deus, quer dizer o que fora escrito no mármore, menos o B. Ficou evidente, depois disso, que as primeiras palavras traçadas deveram-se à escrita direta. Disso ressaltou o fato curioso que as letras foram traçadas sucessivamente e não de um só golpe e que quando da primeira inspeção as palavras não tiveram tempo para serem acabadas. Saindo do Louvre, o senhor D… foi para Saint-Germain TAuxerrois onde obteve, pelo mesmo procedimento, as palavras: Sede humildes. Fénelon, escritas de um modo muito nítido e muito legível. Ainda se podem ver as palavras acima escritas sobre o mármore da estátua da qual acabamos de falar.

A substância, das quais esses caracteres estão formados, tem toda a aparência do grafite, e se apaga facilmente com a borracha; examinamo-la ao microscópio, e constatamos que ela não está incorporada ao papel, mas simplesmente depositada sobre a superfície, de modo irregular, sobre as asperezas, formando arborescências bastante semelhantes às de certas cristalizações. A parte apagada pela borracha deixa perceber camadas de matéria negra introduzidas nas pequenas cavidades das rugosidades do papel.

Destacadas estas camadas, e erguidas com cuidado, são a própria matéria que se produziu durante a operação. Lamentamos que a pequena quantidade recolhida não nos haja permitido fazer-lhe a análise química; mas não nos desesperamos de a isso chegar um dia.

Querendo-se agora reportar-se ao nosso artigo precedente, encontrar-se-á nele a explicação completa desse fenômeno. Nesse escrito, o Espírito não se serve de nossas substâncias, nem de nossos instrumentos; ele mesmo criou as substâncias e os instrumentos de que teve necessidade, tirando esses materiais do elemento primitivo universal ao qual fez sofrer, por sua vontade, as modificações necessárias ao efeito que quis produzir. Pode, portanto, tão bem fazer a tinta de impressão ou a tinta comum do lápis, até mesmo caracteres tipográficos bastante resistentes para dar um relevo à impressão.

Tal é o resultado ao qual nos conduziu o fenômeno da tabaqueira, reportado no nosso artigo precedente, e sobre o qual nos estendemos longamente, porque vimos aí a ocasião de sondar umas das leis mais importantes do Espiritismo, lei cujo conhecimento pode esclarecer mais de um mistério, mesmo do mundo visível. Foi assim que, de um fato vulgar em aparência, pôde jorrar a luz; tudo é observar com cuidado, e isso cada um pode fazer, como nós, quando não se limitar a ver efeitos sem procurar-lhes as causas. Se nossa fé se afirma, dia a dia, é porque compreendemos; fazei, pois, compreender, se desejais fazer prosélitos sérios. A inteligência das causas tem um outro resultado, que é o de traçar uma linha de demarcação entre a verdade e a superstição.

Se considerarmos a escrita direta do ponto de vista das vantagens que ela pode oferecer, diremos que, até o presente, sua principal utilidade foi a constatação material de um fato importante: a intervenção de uma força oculta que encontra aí um novo meio de se manifestar. Mas as comunicações assim obtidas raramente são de alguma extensão; geralmente são espontâneas e limitadas a palavras, sentenças, freqüentemente sinais ininteligíveis; foram obtidas em todas as línguas, em grego, em latim, em siríaco, em caracteres hiéroglifos, etc., mas ainda não se prestam a essas conversas seguidas e rápidas que permitem a psicografia ou escrita pelos médiuns.

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Mobiliário de além-túmulo

Revista Espírita, agosto de 1859

Extraímos a passagem seguinte de uma carta que nos foi endereçada do departamento do Jura, por um dos correspondentes da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

“… Eu vos disse, Senhor, que a nossa antiga habitação era amada pelos Espíritos. No mês de outubro último (1858), a senhora condessa de C., amiga íntima de minha filha, veio passar alguns dias em nosso solar com seu filhinho, de oito anos de idade. Deitou-se a criança no mesmo apartamento de sua mãe; a porta que dava de seu quarto para o de minha filha foi deixada aberta para poder prolongar as horas do dia e conversar. A criança não dormia, e dizia à sua mãe: “Que faz, pois, esse homem sentado ao pé de vossa cama? Ele fuma um grande cachimbo; vede como ele enche vosso quarto de fumaça; portanto, mandai-o embora; ele sacode vossas cortinas.” Essa visão durou toda a noite; a mãe não pôde fazer a criança calar, e ninguém pôde fechar os olhos. Essa circunstância não espantou nem a minha filha e nem a mim, que sabemos o que ocorre nas manifestações espíritas; quanto à sua mãe, ela acreditava que seu filho sonhava acordado, ou se divertia.

“Eis um outro fato, que me é pessoal, e que me ocorreu nesse mesmo apartamento, no mês de maio de 1858; foi a aparição do Espírito de um vivo, que ficou muito espantado depois de ter me visitado; eis em que circunstância: Eu estava muito doente e não dormia há muito tempo, quando vi, às dez horas da noite, um amigo de minha família sentado perto da minha cama. Testemunhei-lhe minha surpresa pela sua visita a essa hora. Ele me disse: Não faleis, vim velar-vos; não faleis, é necessário que possais dormir;” e estendeu a sua mão sobre a minha fronte. Várias vezes reabri os olhos para ver se estava ali ainda, e cada vez me fazia sinal para fechá-los e calar-me. Ele rolava sua tabaqueira em seus dedos e, de tempo em tempo, tomava uma pitada, como tinha hábito de fazê-lo. Adormeci, enfim, e no meu despertar a visão havia desaparecido. Diferentes circunstâncias me deram a prova de que, no momento dessa visita inesperada eu estava perfeitamente desperto e que isso não fora um sonho. Em sua primeira visita, apressei-me em agradecer-lhe; ele levava a mesma tabaqueira, e escutando-me, tinha o mesmo sorriso de bondade que eu notara nele enquanto me velava. Como ele me afirmou que não viera, o que de resto não tive dificuldade em crer, porque não houvera nenhum motivo que pudesse convidá-lo a vir em semelhante hora e a passar a noite junto a mim, compreendi que só seu Espírito não se dera conta da visita, enquanto seu corpo repousava tranqüilamente em sua casa.”

Os fatos de aparição são de tal modo numerosos, que nos seria impossível registrar todos aqueles que conhecemos e dos quais temos fontes perfeitamente autênticas. De resto, hoje quando esses fatos são explicados, quando se dá conta exatamente do modo que se produzem, sabe-se que entram nas leis da Natureza e, desde então, nada têm mais de maravilhosos. Já demos deles a teoria completa, não faremos senão lembrá-la, em poucas palavras, para compreensão do que vai seguir-se.

Sabe-se que além do envoltório exterior, o Espírito tem um segundo, semi-material, que chamamos perispírito. A morte não é senão a destruição do primeiro. O Espírito, em seu estado errante, conserva o perispírito que constitui uma espécie de corpo etéreo, invisível para nós no estado normal. Os Espíritos povoam o espaço, e se, num momento dado, o véu que no-los oculta viesse a se levantar, veríamos uma inumerável população se agitar ao nosso redor e percorrer os ares; vê-la-íamos, sem cessar, aos nossos lados observando-nos e, freqüentemente, misturando-se às nossas ocupações e aos nossos prazeres, segundo o seu caráter. A invisibilidade não é uma propriedade absoluta dos Espíritos; a miúdo, se nos mostram sob a aparência que tiveram em sua vida, e existem poucas pessoas que, evocando suas lembranças, não têm o conhecimento de algum fato desse gênero. A teoria dessas aparições é muito simples e se explica por uma comparação que nos é muito familiar, a do vapor que, quanto está muito rarefeito, é completamente invisível; um primeiro grau de condensação torna-o enevoado; quanto mais condensado passa ao estado líquido, depois ao estado sólido. Opera-se alguma coisa análoga pela vontade do Espírito na substância do perispírito; isso não é, de resto, como dissemos, senão uma comparação e não uma assimilação que pretendêssemos estabelecer; servimo-nos do exemplo do vapor pata mostrar as mudanças de aspecto que pode sofrer um corpo invisível, mas com isso não inferimos que haja no perispírito uma condensação, no sentido próprio da palavra. Opera-se, em sua contextura, uma modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível, e pode dar-lhe, até um certo ponto, as propriedades dos corpos sólidos. Sabemos que corpos perfeitamente transparentes tornam-se opacos por uma simples mudança na posição das moléculas, ou pela adição de um outro corpo igualmente transparente. Não sabemos exatamente como opera o Espírito para tornar visível seu corpo etéreo; a maioria mesmo, entre eles, disso não se dá conta, mas, pelos exemplos que citamos, concebemos sua possibilidade física, e isso basta para tirar, desse fenômeno, o que haja de sobrenatural à primeira vista. O Espírito pode, pois, operá-lo, seja por uma simples modificação íntima, seja assimilando uma porção de fluido estranho que muda momentaneamente o aspecto de seu perispírito; essa última hipótese é mesmo a que ressalta das explicações que nos foram dadas, e que relatamos ao tratar desse assunto. (Maio, junho e dezembro.)

Até aqui não há nenhuma dificuldade no que concerne à personalidade do Espírito, mas sabemos que ele se apresenta com vestimentas das quais muda o aspecto à vontade; freqüentemente mesmo, têm certos acessórios de toucador, tais como jóias, etc. Nas duas aparições que citamos no começo, uma tinha um cachimbo e produzia a sua fumaça; a outra tinha uma tabaqueira e portava-a; e notai bem o fato que esse Espírito era o de uma pessoa viva, que sua tabaqueira era em tudo semelhante àquela da qual se servia habitualmente e que ficara em sua casa. O que são essa tabaqueira, esse cachimbo, essas vestimentas, essas jóias? Os objetos materiais que existem sobre a Terra teriam sua representação etérea no mundo invisível? A matéria condensada que forma esses objetos teria uma parte quintessenciada que escapa aos nossos sentidos? Aí está um imenso problema, cuja solução pode dar a chave de uma multidão de coisas até agora inexplicadas, e foi a tabaqueira em questão que nos colocou no caminho não só desse fato, mas do fenômeno mais extraordinário do Espiritismo: o da pneumatografia ou escrita direta, do qual falaremos a todo instante.

Se alguns críticos nos censuram ainda pelo fato de irmos muito antes na teoria, dir-lhes-emos que, quando encontramos uma ocasião de avançar, não vemos porque seríamos obrigados a permanecer atrás. Se estão ainda no ponto de ver girar as mesas sem saberem porque elas giram, isso não é uma razão para deter-nos no caminho. O Espiritismo é, sem dúvida, uma ciência de observação, mas é mais ainda, talvez, uma ciência de raciocínio; o raciocínio é o único meio de fazê-lo avançar e triunfar de certas resistências. Tal fato é contestado unicamente porque não é compreendido; a explicação lhe tira todo o caráter maravilhoso e o fato reentra nas leis gerais da Natureza Eis porque vemos, todos os dias, pessoas que nada viram e que crêem, unicamente porque compreendem; ao passo que outras viram e não crêem, porque não compreendem.

Fazendo o Espiritismo entrar na via do raciocínio, tornamo-lo aceitável para aqueles que querem dar-se conta do por quê e do como de cada coisa, e seu número é grande neste século, porque a crença cega não está mais nos nossos costumes; ora, não fizéssemos senão indicar o caminho, teríamos a consciência de haver contribuído para o progresso desta ciência nova, objeto de nossos estudos constantes. Voltemos à nossa tabaqueira.

Todas as teorias que demos, com relação ao Espiritismo, nos foram fornecidas pelos Espíritos, e, muito freqüentemente, contrariaram as nossas próprias idéias, como isso ocorreu no caso presente, prova que as respostas não eram o reflexo do nosso pensamento. Mas o meio de obter uma solução não é coisa indiferente; sabemos, por experiência, que não basta pedir bruscamente uma coisa para obtê-la; as respostas não são sempre suficientemente explícitas; é necessário pedir o desenvolvimento com certas precauções, chegar ao objetivo gradualmente e pelo encadeamento de deduções que necessitam um trabalho preliminar. Em princípio, o modo de formular as perguntas, a ordem, o método e a clareza são coisas que não se devem negligenciar, e que agradam aos Espíritos sérios, porque vêem nelas um objetivo sério.

Eis a conversa que tivemos com o Espírito de São Luís, a propósito da tabaqueira, e tendo em vista chegar à solução do problema da produção de certos objetos no mundo invisível.

(Sociedade, 24 de junho de 1859.)

1. No relato da senhora R…, há a questão de uma criança que viu, junto ao leito de sua mãe, um homem fumando num grande cachimbo. Concebe-se que esse Espírito poderia tomar a aparência de um fumante, mas parece que ele fumava realmente, uma vez que a criança viu o quarto cheio de fumaça. Que era essa fumaça? – R. Uma aparência produzida pela criança

2. A senhora R…, cita igualmente um caso de aparição, que lhe foi pessoal, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma tabaqueira e portava-a. Experimentava a sensação que se tem pegando-a? – R. Não.

3. Essa tabaqueira tinha a forma da que se serve habitualmente e que estava em sua casa. Que era essa tabaqueira entre as mãos desse Espírito? – R. Sempre aparência; foi porque a circunstância fez notar como ela era, e que a aparição não foi tomada por uma alucinação produzida pelo estado de saúde do vidente. O Espírito queria que essa senhora cresse na . realidade de sua presença; tomou todas as aparências da realidade.

4. Dissestes que foi uma aparência; mas uma aparência nada tem de real, é como uma ilusão de ótica Eu queria saber se essa tabaqueira não era senão uma imagem sem realidade, como aquela, por exemplo, de um objeto que se faz refletir numa vidraça?

(O senhor Sanson, um dos membros da Sociedade observou que, na imagem reproduzida pelo espelho, há alguma coisa de real; se ela ali não está, é porque ninguém a fixa; mas se ela se põe sobre a placa de daguerreotipia, aí deixa uma impressão, prova evidente que é produzida por uma substância qualquer, e que não é só uma ilusão de ótica.)

A observação do senhor Sanson é perfeitamente justa. Poderíeis ter a bondade de nos dizer se há alguma analogia com a tabaqueira quer dizer, se nessa tabaqueira há alguma coisa de material? – R. Certamente; é com a ajuda desse princípio material que o perispírito toma a aparência de vestimentas semelhantes àquelas que o Espírito usava em sua vida.

Nota. – Evidentemente, é necessário entender aqui a palavra aparência, no sentido de imagem, imitação. A tabaqueira real não estava ali; a que o Espírito portava não era senão a reprodução: Era, pois, uma aparência comparada à original, embora formada de um princípio material.

A experiência nos ensina que não é necessário tomar ao pé da letra certas expressões empregadas pelos Espíritos; interpretando-as segundo as nossas idéias, nos expomos a grandes equívocos, por isso é necessário aprofundar o sentido de suas palavras todas as vezes que apresentem a menor ambigüidade; é uma recomendação que nos fazem constantemente os Espíritos. Sem a explicação que provocamos, a palavra aparência, constantemente reproduzida em casos análogos, poderia dar lugar a uma falsa interpretação.

5. É que a matéria inerte se desdobraria? Haveria no mundo invisível uma matéria essencial que revestisse a forma dos objetos que vemos? Em uma palavra, esses objetos teriam seu duplo etéreo no mundo invisível, como os homens aí são representados em Espírito?

Nota. – Está aí uma teoria como uma outra, e era o nosso pensamento; mas o Espírito não a levou em conta, do que não estamos em nada humilhado, porque sua explicação nos pareceu muito lógica e porque ela repousa sobre um princípio mais geral, do qual encontramos muitas explicações.

– R. Não é assim que se passa. O Espírito tem sobre os elementos materiais espalhados por todo o espaço, em nossa atmosfera, um poder que estais longe de suspeitar. Ele pode, à sua vontade, concentrar esses elementos e dar-lhes a forma aparente própria desses objetos.

6. Coloco de novo a pergunta de um modo categórico, a fim de evitar qualquer equívoco: As vestimentas, com as quais se cobrem os Espíritos, são alguma coisa? – R. Parece-me que minha resposta precedente resolveu a questão. Não sabeis que o próprio perispírito é alguma coisa?

7. Resulta dessa explicação que os Espíritos fazem a matéria etérea sofrer transformações à sua vontade, e que, assim, por exemplo, para a tabaqueira, o Espírito não a encontrou toda feita, mas que a fez, ele mesmo para o momento no qual lhe era necessária, e que pôde desfazê-la; deve ocorrer o mesmo com todos os outros objetos, tais como vestimentas, jóias, etc. – R. Mas evidentemente.

8. Essa tabaqueira esteve visível para a senhora R… ao ponto de fazer-lhe ilusão. O Espírito poderia torná-la tangível para ela? -R. Poderia.

9. Na ocasião que foi apresentada, a senhora R… poderia tomá-la em suas mãos, crendo ter uma tabaqueira verdadeira? – R. Sim.

10. Se ela a tivesse aberto, teria provavelmente encontrado tabaco; se tomasse esse tabaco, fá-la-ia espirrar? – R. Sim.

11. O Espírito pode dar, portanto, não só a forma, mas propriedades especiais? – R. Se o quiser; não foi senão em virtude desse princípio que respondi afirmativamente às questões precedentes. Tendes provas do poder de ação que o Espírito exerce sobre a matéria, que estais longe de supor, como já vos disse.

12. Suponhamos, então, que ele quisesse fazer uma substância venenosa e que uma pessoa a tomasse, seria ela envenenada? – R. Poderia, mas não o teria feito; isso não lhe seria permitido.

13. Teria o poder de fazer uma substância salutar e própria a curar em caso de doença, e o caso se apresentou? – R. Sim, muito freqüentemente.

Nota. – Encontrar-se-á um fato desse gênero, seguido de uma interessante explicação teórica, no artigo que publicamos adiante sobre o título de Um Espírito servidor.

14. Poderia assim também fazer uma substância alimentar; suponhamos que fizesse uma fruta, uma iguaria qualquer, alguém poderia comê-la e sentir-se saciado? – R. Sim, sim. Mas não procureis, pois, tanto para provar o que é fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis, aos vossos olhos grosseiros, essas partículas materiais que encobrem o espaço no meio do qual viveis; não sabeis que o ar contém vapores d’água? Condensai-os, e conduzi-lo-eis ao estado normal; privai-os de calor, e eis que as moléculas impalpáveis e invisíveis tornam-se um corpo sólido e muito sólido, e muitas outras matérias das quais os químicos vos tirarão maravilhas mais admiráveis ainda; somente o Espírito possui instrumentos mais perfeitos do que os vossos: sua vontade e a permissão de Deus.

Nota. – A questão da saciedade é aqui muito importante. Como uma substância que não tem senão uma existência e propriedades temporárias, e de alguma sorte de convenção, pode produzir a saciedade? Essa substância, pelo seu contato com o estômago, produz a sensação da saciedade, mas não a saciedade resultante da plenitude. Se uma tal substância pode agir sobre a economia e modificar um estado mórbido, ela pode tão bem agir sobre o estômago e produzir o sentimento da saciedade. Todavia, pedimos aos senhores farmacêuticos e restauradores para não conceberem ciúme nisso, nem crerem que os Espíritos venham fazerlhes concorrência: Esses casos são raros, excepcionais, e não dependem jamais da vontade; de outro modo, nutrir-se-ia e curar-se-ia por muito bom preço.

15. O Espírito poderia, do mesmo modo, fazer a moeda? – R. Pela mesma razão.

16. Esses objetos, tomados tangíveis pela vontade dos Espíritos, poderiam ter um caráter de permanência e de estabilidade? – R. Poderiam, mas isto não se faz; está fora das leis.

17. Todos os Espíritos têm esse poder no mesmo grau? – R. Não, não!

18. Quais são aqueles que têm, mais particularmente, esse poder? – R. Aqueles aos quais Deus o concede quando é útil.

19. A elevação do Espírito nisso é alguma coisa? – R. É certo que quanto mais o Espírito é elevado, mais facilmente a obtém; mas ainda isso depende das circunstâncias: Espíritos inferiores podem ter esse poder.

20. A produção de objetos semi-materiais é sempre o fato de um ato de vontade de um Espírito, ou bem exerce, algumas vezes, esse poder com o seu desconhecimento? – R. Ele o exerce FREQÜENTEMENTE com o seu desconhecimento.

21. Esse poder seria, então, um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espíritos; seria, de alguma sorte, uma de suas propriedades, como a de ver e de ouvir? – R. Certamente; mas, freqüentemente, ele mesmo a ignora. É então que um outro a exerce para ele, com o seu desconhecimento, quando as circunstâncias o pedem.

O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito do qual acabo de falar, e ao qual ele fez alusão em sua linguagem alegre.

Nota. – Encontramos uma comparação dessa faculdade nas de certos animais, a raia-elétrica, por exemplo, que liberta eletricidade sem saber nem o que faz, nem o como o faz e que conhece menos ainda o mecanismo que ela faz funcionar. Não produzimos, freqüentemente, nós mesmos, certos efeitos por atos espontâneos dos quais não nos damos conta? Parecenos, portanto, muito natural que o Espírito agisse nessa circunstância por uma espécie de instinto; produz por sua vontade, sem saber como, como nós caminhamos sem calcularmos as forças que colocamos em jogo.

22. Concebemos que, nos dois casos citados pela senhora R…, um dos dois Espíritos quisera ter um cachimbo e o outro uma tabaqueira para impressionar os olhos de uma pessoa viva; mas pergunto se, não tendo nada para mostrar-lhe, o Espírito poderia crer ter esses objetos, e iludir-se a si mesmo? – R. Não, se ele tem uma certa superioridade, porque tem a perfeita consciência do que é; mas ocorre de outro modo para os Espíritos inferiores.

Nota. – Tal era por exemplo a rainha de Oude, cuja evocação foi narrada no número de março de 1858, e que se acreditava ainda coberta de diamantes.

23. Dois Espíritos podem se reconhecer entre si pela aparência material que tiveram quando vivos? – R. Não é por causa disso que se reconhecem, uma vez que não tomem essa aparência um para o outro; mas se, em certas circunstâncias, se encontram em presença, revestidos dessa aparência, por que não se reconheceriam?

24. Como podem os Espíritos se reconhecerem na multidão dos outros Espíritos, e como, sobretudo, podem fazê-lo quando um deles vai procurar ao longe, e, a miúdo, em outros mundos, aquele que se chama? – R. Esta é uma questão cuja solução se arrastaria para muito longe; é necessário esperar; não estais bastante avançados; contentai-vos, para o momento, com a certeza de que assim é, e tendes disso bastante provas.

25. Se o Espírito pode haurir no elemento universal os materiais para fazer todas essas coisas, dar a essas coisas uma realidade temporária com suas propriedades, pode muito bem ali haurir o que é necessário para escrever, e, conseqüentemente, isso parece dar-nos a chave do fenômenos da escrita direta? – R. Enfim, aí chegas-tes!

26. Se a matéria, da qual o Espírito se serve, não tem persistência, como ocorre que os traços da escrita direta não desaparecem? – R. Não concluais sobre as palavras; eu não disse no início: jamais; era questão de um objeto material volumoso; aqui, são sinais traçados que é útil conservar, e são conservados.

A teoria acima assim pode se resumir o Espírito age sobre a matéria; haure na matéria primitiva universal os elementos necessários para formar, à sua vontade, objetos com aparência de diversos corpos que existem na Terra, ele pode igualmente operar sobre a matéria elementar, por sua vontade, uma transformação íntima que lhe dá propriedades determinadas. Essa faculdade é inerente à natureza do Espírito, que a exerce, freqüentemente, como um ato instintivo quando isso é necessário, e sem se dar conta dele. Os objetos formados pelo Espírito têm uma existência temporária, subordinada à sua vontade ou à necessidade; podem fazê-los e desfazê-los à sua vontade. Esses objetos podem, em certos casos, terem, aos olhos das pessoas vivas, todas as aparências da realidade, quer dizer, tornarem-se momentaneamente visíveis e mesmo tangíveis. Há formação, mas não criação, tendo em vista que o Espírito nada pode tirar do nada.

Mobiliário de além-túmulo

 

O que é o Espiritismo?

Revista Espírita, julho de 1859

Nova obra do senhor Allan Kardec

PRODUÇÃO PARA O CONHECIMENTO DO MUNDO INVISÍVEL. OU DOS ESPÍRITOS. CONTENDO OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA DOUTRINA ESPÍRITA E A RESPOSTA A ALGUMAS OBJEÇÕES PREJUDICIAIS,

por ALLAN KARDEC

Autor do Livro dos Espíritos e diretor da Revista Espírita.

Grande in 18. Preço: 60 c. (1)

(1) Todas as obras do senhor Allan Kardec se encontram na casa dos senhores LEDOYEN, DENTU, e no escritório da Revista.

As pessoas que não têm do Espiritismo senão um conhecimento superficial, são naturalmente levadas a fazer certas perguntas que um estudo completo dar-lhes-ia a solução, mas o tempo e, freqüentemente, a vontade lhes faltam, para se entregarem a observações continuadas. Gostariam antes de empreender essa tarefa, saber ao menos do que se trata, e se vale a pena se ocupar disso. Portanto, pareceu-nos útil apresentar, em um quadro restrito, a resposta a algumas das questões fundamentais, que nos são diariamente dirigidas; isso será, para o leitor, uma primeira iniciação, e, para nós, tempo ganho com a dispensa de repetir constantemente a mesma coisa. A forma de conversação nos pareceu a mais conveniente, porque não tem a aridez da forma puramente dogmática.

Terminamos essa introdução por um resumo que permitirá apanhar, por uma leitura rápida, o conjunto dos princípios fundamentais da ciência. Aqueles que, depois dessa curta exposição, crerem a coisa digna de sua atenção, poderão aprofundá-la em conhecimento de causa. As objeções nascem, o mais freqüentemente, das idéias falsas que se faz, a priori, sobre o que não se conhece; retificar essas idéias é ir antes das objeções: tal é o objetivo que nos propusemos, publicando este pequeno escrito.

As pessoas estranhas ao Espiritismo nele encontrarão, pois, os meios de adquirirem, em pouco tempo e sem grande despesa, uma idéia da coisa, e as que estão já iniciadas, a maneira de resolverem as principais dificuldades que se lhes opõem. Contamos com o concurso de todos os amigos desta ciência para ajudarem a divulgar este curto resumo.

ALLAN KARDEC.

 

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