As flores

Revista Espírita, dezembro de 1858

Nota. – Esta comunicação e a seguinte foram obtidas pelo senhor F…, o mesmo do qual falamos no nosso número de outubro, a propósito dos Obsedados e Subjugados; pode-se julgar, por aí, a diferença que há entre a natureza de suas comunicações atuais e as de outrora. Sua vontade triunfou completamente da obsessão, da qual era objeto, e seu mau Espírito não reapareceu mais. Estas duas dissertações foram-lhe ditadas por Bemard Palissy.

As flores foram criadas, nos mundos, como símbolos da beleza, da pureza e da esperança.

Como o homem que vê as corolas se entreabrirem, todas as primaveras, e as flores fenecerem para darem frutos deliciosos, como o homem não pensa que sua vida florirá também, mas para produzir frutos eternos? Que vos importa, pois, a tempestade e as tormentas? Essas flores não perecerão jamais, nem a mais frágil obra do Criador. Coragem, pois, homens que tombais no caminho, levantai-vos de novo como o lírio depois da tempestade, mais puro e mais radioso. Como as flores, os ventos vos sacodem à direita e à esquerda, os ventos vos derrubam, vos arrastam para a lama, mas quando o sol reaparece, levantais de novo, também, vossas cabeças mais nobres e maiores.

Amai, pois, as flores, elas são os emblemas de vossa vida, e não deveis corar por serdes comparados a elas. Tende-as em vossos jardins, em vossas casas, mesmos em vossos templos, elas estão por toda parte; em todos os lugares elas levam à poesia, elevam a alma daquele que sabe compreendê-las. Não foi nas flores que Deus ostentou todas as suas magnificências?

Depois onde conheceríeis as cores suaves com as quais o Criador alegrou a natureza sem as flores? Antes que o homem tivesse escavado as entranhas da terra para encontrar os rubis e os topázios, tinha as flores diante de si, e essa variedade infinita de nuanças já o consolava na monotonia da superfície terrestre. Amai, pois, as flores: sereis mais puros, mais amantes; talvez sereis mais crianças, mas sereis as crianças queridas de Deus, e vossas almas, simples e sem mácula, serão acessíveis a todo seu amor, a toda alegria com a qual abraça vossos corações.

As flores querem ser cuidadas por mãos esclarecidas; a inteligência é necessária para a sua prosperidade; errastes, por muito tempo sobre a Terra, em deixar esse cuidado a mãos inábeis que as mutilam, crendo embelezá-las. Nada é mais triste que as árvores redondas ou pontiagudas de vossos jardins: pirâmides de verdura que fazem o efeito de pilha de feno. Deixai a natureza progredir sob mil formas diversas: aí está a graça. Feliz aquele que sabe admirar a beleza de um talo que se balança semeando sua poeira fecundante! Feliz aquele que vê em suas tintas brilhantes um infinito de graça, de delicadeza, de colorido, de nuanças que se afastam e se procuram, se perdem e se reencontram! Feliz aquele que sabe compreender a beleza da gradação dos tons, desde a raiz castanha escura que se casa com a terra, como as cores se fundem, desde o vermelho-escarlate da tulipa e da papoula! (Por que esses nomes rudes e bizarros?) Estudai tudo isso, e notai as folhas que saem, umas das outras, como gerações infinitas até o seu desabrochamento completo sob a cúpula do céu.

As flores não parecem deixar a terra para se lançarem até os outros mundos? Não parecem, freqüentemente, baixar a cabeça de dor por não poderem se elevar mais alto ainda? Não as credes, em sua beleza, mais perto de Deus? Imitai-as, pois, e tornai-vos sempre maiores, mais e mais belos.

Vossa maneira de aprender a botânica é também defeituosa; não é tudo saber o nome de uma planta. Convidar-te-ei, quando tiveres tempo, a trabalhar também numa obra desse gênero. Remeto, pois, para mais tarde as lições que queria dar-te nestes dias; serão mais úteis quando tiverdes a aplicação sob a mão. Aí falaremos do gênero de cultura, dos lugares que lhes convém, da arrumação do edifício para o arejamento e a salubridade das habitações. Se fores imprimir isso, passa os últimos parágrafos; seriam tomados por anúncios.

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Dissertações de além-túmulo – O sono

Revista Espírita, dezembro de 1858

Pobres homens que poucos conheceis os fenômenos mais comuns que fazem vossa vida! Credes ser bem sábios, credes possuir uma vasta erudição, e a esta pergunta de todas as crianças: Que fazemos quando dormimos? O que são os sonhos? Permaneceis interditados.

Não tenho a pretensão de vos fazer compreender o que vou vos explicar, porque há coisas às quais vosso Espírito não pode ainda se submeter, não admitindo senão o que compreende.

O sono liberta inteiramente a alma do corpo. Quando se dorme, se está, momentaneamente, no estado em que se acha de um modo fixo depois da morte. Os Espíritos que são logo desligados da matéria em sua morte, tiveram sonos inteligentes; aqueles, quando dormem, juntam-se à sociedade de outros seres superiores a eles: viajam, conversam e se instruem com eles; trabalham mesmo em obras que encontram prontas quando morrem. Isso deve nos ensinar, uma vez mais, a não temermos a morte, porque morreis todos os dias, segundo a palavra de um santo.

É assim para os Espíritos elevados; mas para a massa dos homens que na morte devem permanecer longas horas nessa perturbação, nessa incerteza da qual vos falaram, aqueles vão, seja em mundos inferiores à Terra, onde antigas afeições o chamam, seja procurar prazeres talvez ainda mais baixos que aqueles que têm aqui; vão haurir doutrinas mais vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que aquelas que professam em vosso meio. E o que faz a simpatia na Terra não é outra coisa senão esse fato, que se sente ao despertar, de se aproximar pelo coração daqueles com quem viemos de passar oito ou nove horas de felicidade ou de prazer. O que explica essas antipatias invencíveis, é que se sabe, no fundo de seu coração, que aquelas pessoas têm uma outra consciência que a nossa porque são conhecidas sem tê-las jamais visto com os olhos. É ainda o que explica a indiferença, uma vez que não se deseja fazer novos amigos, quando se sabe que existem outros que vos amam e que vos querem. Em uma palavra, o sono influi mais que pensais em vossa vida.

Pelo efeito do sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos, e é o que faz que os Espíritos superiores consintam, sem muita repulsa, se encarnarem entre vós. Deus quis que, durante seu contato com o vício, eles possam ir se retemperarem nas fontes do bem, para eles mesmos não falirem, eles que vêm instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes abre até os amigos do céu; é a recreação depois do trabalho, na espera da grande libertação, a liberação final que deverá devolvê-los ao seu verdadeiro meio.

O sonho é a lembrança daquilo que vosso Espírito viu durante o sono, mas notai que não sonhais sempre, porque não vos lembrais sempre do que vistes, ou de tudo o que vistes. Vossa alma não está em todo desenvolvimento; não é, freqüentemente, senão a lembrança de uma perturbação que acompanha vossa partida ou vossa reentrada, à qual se junta a do que fizestes ou do que vos preocupou no estado de vigília; sem isso, como explicaríeis esses sonhos absurdos que têm os mais sábios como os mais simples? Os maus Espíritos se servem também dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilânimes.

De resto, vereis em pouco se desenvolver uma nova espécie de sonho; ela é tão antiga quanto a que conheceis, mas a ignorais. O sonho de Joana, o sonho de Jacó o sonho dos profetas judeus e de alguns adivinhos indianos; aquele sonho é a lembrança da alma inteiramente desligada do corpo, a lembrança dessa segunda vida, da qual vos falei ainda há pouco.

Procurai distinguir bem essas duas espécies de sonho dos quais vos lembrareis, sem isso cairíeis nas contradições e nos erros, que seriam funestos à vossa fé.

Nota. – O Espírito que ditou esta comunicação, instado a dar seu nome, respondeu: “Para quê? Credes, pois, que não haja senão os Espíritos de vossos grandes homens que vêm dizervos coisas boas? Contai, pois, por nada todos aqueles que não conheceis ou que não têm nome sobre a vossa Terra? Sabei que muitos não tomam um nome senão para vos contentar.”

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Sensação dos Espíritos

Revista Espírita, dezembro de 1858

Os Espíritos sofrem? Que sensações experimentam? Tais são as perguntas que se dirigem naturalmente e que tentaremos resolver. Devemos dizer, primeiramente, que para isso não nos contentamos com as respostas dos Espíritos; devemos, por numerosas observações, de alguma sorte, tomar a sensação sobre o fato.

Em uma de nossas reuniões, e pouco antes que São Luís nos desse a bela dissertação sobre a avareza, que inserimos em nosso número do mês de fevereiro, um de nossos sócios contou o fato seguinte, a propósito dessa mesma dissertação.

“Estávamos, disse ele, ocupados com evocações em uma pequena reunião de amigos, quando se apresentou, inopinadamente e sem que o tivéssemos chamado, o Espírito de um homem que havíamos conhecido muito, e que, quando vivo servira de modelo ao retrato do avaro traçado por São Luís; um desses homens que vive miseravelmente no meio da fortuna, que se privam, não pelos outros, mas para amontoar sem proveito para ninguém. Era inverno, estávamos perto do fogo; de repente, esse Espírito nos lembrou seu nome, com o qual não sonhávamos de modo algum, e nos pediu a permissão de vir, durante três dias, aquecer-se na nossa lareira, dizendo que sofre horrivelmente do frio que ele, voluntariamente suportou durante sua vida, e que fez os outros suportarem por sua avareza. Será, acrescentou ele, um abrandamento que obtive, se consentis em mo concedê-lo.”

Esse Espírito sentia uma sensação penosa de frio; mas como o sentia? Aí estava a dificuldade. Dirigimos a São Luís as perguntas seguintes a esse respeito:
Consentiríeis em nos dizer como esse Espírito de avaro, que não tem mais corpo material, podia sentir o frio e pedir para se aquecer?

– R. Podes imaginar os sofrimentos do Espírito pelos sofrimentos morais.

– Concebemos os sofrimentos morais, como os desgostos, os remorsos, a vergonha; mas o calor e o frio, a dor física, não são efeitos morais; os Espíritos sentem essas espécies de sensações?

– R. Tua alma sente o frio? Não; mas tem a consciência da sensação que atua sobre o corpo.

– Disso pareceria resultar que esse Espírito de avaro não sente um frio efetivo; mas que ele teria a lembrança da sensação do frio que suportou, e que essa lembrança, sendo para ele como uma realidade, tornava-se um suplício. – R. E quase isso. Está bem entendido que há uma distinção, que compreendeis perfeitamente, entre a dor física e a dor moral; não se deve confundir o efeito com a causa.

– Se compreendemos bem, poder-se-ia, isso nos parece, explicar a coisa assim como segue:

O corpo é o instrumento da dor; senão a causa primeira, ao menos a causa imediata. A alma
tem percepção dessa dor: essa percepção é o efeito. A lembrança que dela conserva pode ser tão penosa quanto a realidade, mas não pode ter ação física. Com efeito, um frio nem um calor intensos, podem desorganizar os tecidos: a alma não pode nem gelar nem queimar. Não vemos, todos os dias, a lembrança ou apreensão de um mal físico produzir o efeito da realidade? Ocasionar mesmo a morte? Todo o mundo sabe que as pessoas amputadas sentem dor no membro que não existe mais. Seguramente, não é nesse membro que está a sede, nem mesmo o ponto de partida da dor. O cérebro dela conservou a impressão, eis tudo. Pode-se, pois, acreditar que há alguma coisa análoga no sofrimento do Espírito depois da morte. Essas reflexões são justas?

R. Sim; mais tarde compreendereis melhor ainda Esperai que fatos novos venham vos fornecer novos motivos de observação, e então deles podereis tirar conseqüências mais completas.

Isso se passou no começo do ano 1858; desde então, com efeito, um estudo mais aprofundado do perispírito, que desempenha um papel tão importante em todos os fenômenos espíritas, e do qual não se havia percebido, as aparições vaporosas ou tangíveis, o estado do Espírito no momento da morte, a idéia tão freqüente no Espírito que ainda está vivo, o quadro tão impressionante dos suicidas, dos supliciados, das pessoas absorvidas nos gozos materiais, e tantos outros fatos, vieram lançar luz sobre essa questão, e deram lugar às explicações das quais damos aqui o resumo.

O perispírito é o laço que une o Espírito à matéria do corpo: ele é haurido no meio ambiente, no fluido universal; tem, ao mesmo tempo, algo da eletricidade, do fluido magnético e, até a um certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria: é o princípio da vida orgânica, mas não o é da vida intelectual: a vida intelectual está no Espírito. É, além disso, o agente das sensações exteriores. No corpo, essas sensações estão localizadas pelos órgãos que lhes servem de canal. Destruído o corpo, as sensações são gerais. Eis porque o Espírito não diz que sofre antes da cabeça que dos pés. De resto, é preciso guardar-se de confundir as sensações do perispírito, tornado independente, com as do corpo: não podemos tomar essas últimas senão como termo de comparação, e não como analogia. Um excesso de calor ou de frio pode desorganizar os tecidos do corpo e não pode resultar nenhum prejuízo ao perispírito.

Desligado do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é o do corpo: entretanto, esse sofrimento não é um sofrimento exclusivamente moral, como o remorso, uma vez que se queixa do frio e do calor; não sofre mais no inverno que no verão: vimo-los passar através de chamas sem nada sentirem de penoso; a temperatura, portanto, não causa sobre eles nenhuma impressão. A dor que sentem, portanto, não é uma dor física propriamente dita: é um vago sentimento íntimo, do qual o próprio Espírito não se apercebe perfeitamente, precisamente porque a dor não é localizada e porque não é produzida por agentes exteriores: é antes uma lembrança que uma realidade, mas uma lembrança também muito penosa. Há, entretanto, algumas vezes, mais que uma lembrança, como vamos ver.

A experiência nos ensina que no momento da morte o perispírito se desliga mais ou menos lentamente do corpo; durante os primeiros instantes, o Espírito não se dá conta da sua situação; não crê estar morto; sente-se viver; vê seu corpo de um lado, sabe que é o seu, e não compreende que esteja dele separado: esse estado dura tão longo tempo quanto exista um laço entre o corpo e o perispírito. Que se reporte à evocação do suicida dos banhos da

Samaritana, que narramos no nosso número de junho. Como todos os outros, ele dizia:

Não, não estou morto, e acrescentava: E, entretanto, sinto os vermes que me roem. Ora, seguramente os vermes não roíam o perispírito, e ainda menos o Espírito, não roíam senão o corpo. Mas como a separação do corpo e do perispírito não estava completa, disso resultava uma espécie de repercussão moral que lhe transmitia a sensação do que se passava no corpo. Repercussão talvez não seja a palavra, poderia fazer crer em um efeito muito material; era antes a visão do que se passava em seu corpo, ao qual se ligava seu perispírito, que produzia nele uma ilusão, que tomava por uma realidade. Assim, não era uma lembrança, uma vez que, durante a vida, não havia sido roído pelos vermes: era o sentimento da atualidade. Vê-se por aí as deduções que se podem tirar dos fatos, quando são observados atentamente. Durante a vida, o corpo recebe as impressões exteriores e as transmite ao Espírito, por intermédio do perispírito que constitui, provavelmente, o que se chama fluido nervoso. Estando o corpo morto não sente mais nada, porque não há mais nele nem Espírito nem perispírito. O perispírito, desligado do corpo, sente a sensação; mas como esta não lhe chega mais por um canal limitado, ela é geral. Ora, como, em realidade, não é senão um agente de transmissão, uma vez que é o Espírito quem tem a consciência, disso resulta que se pudesse existir um perispírito sem Espírito, não sentiria mais do que o corpo quando está morto; do mesmo modo que se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a toda sensação penosa; é o que ocorre para os Espíritos completamente depurados. Sabemos que quanto mais se depuram, mais a essência do perispírito se torna etérea; de onde se segue que a influência material diminui à medida que o Espírito progride, quer dizer, à medida que o próprio perispírito se torna menos grosseiro.

Mas, dir-se-á, as sensações agradáveis são transmitidas ao Espírito pelo perispírito, como as sensações desagradáveis; ora, se o Espírito puro é inacessível a umas, deve sê-lo igualmente às outras. Sim, sem dúvida, para aquelas que provêm- unicamente da influência da matéria que conhecemos; o som de nossos instrumentos, o perfume de nossas flores não lhe causam nenhuma impressão, e, todavia, há neles sensações íntimas de um encanto indefinível, das quais não podemos fazer nenhuma idéia, porque somos, a esse respeito, como cegos de nascença a respeito da luz; sabemos que isso existe; mas por qual meio? Aí se detém para nós a ciência. Sabemos que há percepção, sensação, audição, visão, que essas faculdades são atributos de todo o ser, e não, como no homem, de uma parte do ser; mas, ainda uma vez, por qual intermediário? É o que não sabemos. Os próprios Espíritos não podem disso nos darem conta, porque nossa língua não foi feita para exprimir idéias que não temos, não mais que numa população de cegos não existiriam termos para exprimirem os efeitos da luz; não mais que na língua dos selvagens, não há termos para exprimir nossas artes, nossas ciências e nossas doutrinas filosóficas.

Dizendo que os Espíritos são inacessíveis às impressões da nossa matéria, queremos falar de Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não tem analogia neste mundo. Não ocorre o mesmo com aqueles cujo perispírito é mais denso: e estes percebem nossos sons e nossos odores, mas não por uma parte limitada de seu ser, como quando vivo. Poder-se-ia dizer que as vibrações moleculares se fazem sentir em todo o seu ser e chegam assim ao seu sensorium commune, que é o próprio Espírito, embora de modo diferente, e talvez também com uma impressão diferente, o que produz uma modificação na percepção. Eles ouvem o som de nossa voz, e todavia nos compreendem sem o socorro da palavra, unicamente pela transmissão do pensamento, e o que vem em apoio ao que dizemos, é que essa penetração é tanto mais fácil quanto o Espírito esteja mais desmaterializado. Quanto à visão, ela é independente de nossa luz. A faculdade de ver é um atributo essencial da alma: para ela não há obscuridade; entretanto, ela é mais extensa, mais penetrante, naqueles que estão mais depurados. A alma, ou o Espírito, portanto, tem em si mesma a faculdade de todas as percepções; na vida corpórea, elas estão obliteradas pela grosseria de nossos órgãos; na vida extracorpórea, elas o são menos e menos à medida que se torna menos compacto o envoltório semi-material.

Esse envoltório, haurido do meio ambiente, varia segundo a natureza dos mundos. Passando de um mundo a outro, os Espíritos mudam de envoltório, como nós mudamos de vestuário, passando do inverno ao verão, ou do pólo ao equador. Os Espíritos mais elevados, quando vêm nos visitar, revestem, pois, o perispírito terrestre, e desde então suas percepções se operam como nos Espíritos vulgares; mas tanto inferiores, como superiores, não ouvem e não sentem senão o que querem ouvir ou sentir. Sem terem órgãos sensitivos podem tomarse, à vontade, suas percepções ativas ou nulas; não há senão uma coisa que são obrigados a ouvir, são os conselhos dos bons Espíritos. A visão é sempre ativa, mas podem, reciprocamente, se tornarem invisíveis uns aos outros. Segundo a classe que ocupem, eles podem se ocultar daqueles que lhes são inferiores, mas não daqueles que lhes são superiores. Nos primeiros momentos que seguem à morte, a visão do Espírito é sempre perturbada e confusa; clareia à medida que ele se desliga, e pode adquirir a mesma claridade que durante a vida, independentemente de sua penetração através dos corpos que nos são opacos. Quanto à sua extensão através do espaço indefinido, no passado e no futuro, depende do grau de pureza e de elevação do Espírito.

Toda essa teoria, dir-se-á, não é muito tranqüilizadora. Pensávamos que uma vez desembaraçado de nosso grosseiro envoltório, instrumento das nossas dores, não sofreríamos mais, e eis que nos ensinais que sofreremos ainda; que, seja de uma maneira ou de outra, isso não é menos sofrer. Ah! sim, podemos ainda sofrer, e muito, e por muito tempo, mas podemos também não mais sofrer, mesmo desde o instante em que deixamos esta vida corpórea.

Os sofrimentos deste mundo são, algumas vezes, independentes de nós, mas muitos são as conseqüências de nossa vontade. Que se remonte à fonte e ver-se-á que o maior número é a conseqüência de causas que poderíamos evitar. Quantos males, quantas enfermidades, o homem deve aos excessos, à sua ambição, às suas paixões, em uma palavra! O homem que houvesse sempre vivido sobriamente, que não houvesse abusado de nada, que houvesse sempre sido simples em seus gostos, modesto em seus desejos, se pouparia de muitas tributações. Ocorre o mesmo com o Espírito: os sofrimentos que suporta são sempre a conseqüência da maneira com a qual viveu na Terra; não terá mais, sem dúvida, a gota e os reumatismos, mas terá outros sofrimentos que não valem mais. Vimos que esses sofrimentos são o resultado de laços que ainda existem entre ele e a matéria; que quanto mais desligado da matéria, dito de outro modo, quanto mais desmaterializado, menos tem sensações penosas; ora, dele depende se livrar dessa influência, desde esta vida; tem o seu livre arbítrio e, por conseqüência, a escolha entre fazer ou não fazer: que dome suas paixões animais, que não tenha ódio, nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; que não seja dominado pelo egoísmo, que purifique sua alma pelos bons sentimentos, que faça o bem, que dê às coisas deste mundo a importância que elas merecem, então, mesmo sob seu envoltório corporal, está já depurado, e já desligado da matéria, e quando deixa esse envoltório, dele não sofre mais a influência; os sofrimentos físicos que experimenta não lhe deixam nenhuma lembrança penosa; dele não lhe resta nenhuma impressão desagradável, porque não afetaram senão o corpo e não o Espírito; é feliz de estar livre dele, e a calma de sua consciência o livra de todo sofrimento moral. Disso interrogamos milhares, tendo pertencido a todas as classes da sociedade, a todas as posições sociais; estudamo-los em todos os períodos de sua vida espírita, desde o instante em que deixaram seus corpos; nós os seguimos passo a passo, nessa vida de além-túmulo, para observar as mudanças que se operaram neles, em suas idéias, em suas sensações, e sob esse aspecto os homens mais vulgares não foram os que nos forneceram os objetos de estudo menos preciosos. Ora, vimos sempre que os sofrimentos estão em relação com a conduta, da qual sofrem as conseqüências, e que essa nova existência é a fonte de uma felicidade inefável para aqueles que seguiram o bom caminho; donde se segue que aqueles que sofrem, é porque o quiseram, e não devem disso culpar senão a si mesmos, tão bem no outro mundo quanto neste.

Alguns críticos ridicularizaram certas de nossas evocações, a do assassino Lemaire, por exemplo, achando singular que se ocupasse com seres tão ignóbeis, quando existem tantos Espíritos superiores à sua disposição. Esquecem que é por aí que, de algum modo, aprendemos a natureza do fato, ou, para melhor dizer, na sua ignorância da ciência espírita, não vêem, nessas entrevistas, senão uma conversa, mais ou menos divertida, da qual não compreendem a importância. Lemos em alguma parte que um filósofo dizia, depois de conversar com um camponês: Eu mais aprendi com esse rústico que com todos os sábios; é que ele sabia ver outra coisa senão a superfície. Para o observador nada é perdido, encontra úteis ensinamentos até no criptógamo que cresce sobre o estrume. O médico recusa tocar uma chaga horrenda, quando se trata de aprofundar a causa de um mal?

Acrescentamos ainda uma palavra a esse respeito. Os sofrimentos de além-túmulo têm um fim; sabemos que é dado ao Espírito mais inferior elevar-se e purificar-se por novas provas; isso pode ser longo, muito longo, mas depende dele abreviar esse tempo penoso, porque Deus o escuta sempre se ele se submete à sua vontade. Quanto mais o Espírito está desmaterializado, mais suas percepções são vastas e lúcidas; quanto mais está sob o império da matéria, o que depende inteiramente de seu gênero de vida terrestre, mais elas são limitadas e como veladas; tanto a visão moral de um se estende ao infinito, tanto a do outro é restrita. Os Espíritos inferiores não têm, pois, senão uma noção vaga, confusa, incompleta e freqüentemente nula do futuro; não vêem o fim de seus sofrimentos, por isso crêem sofrer sempre, e ainda para eles é um castigo. Se a posição de uns é aflitiva, terrível mesmo, não é desesperadora; a de outros eminentemente consoladora; está pois em nós escolher. Isto é da mais alta moralidade. Os céticos duvidam da sorte que nos espera depois da morte, nós lhes mostramos o que isso é, e com isso cremos prestar-lhes serviço; também vimos mais de um corrigir-se de seu erro, ou pelo menos pôr-se a refletir sobre o que criticavam antes. Não há de tal senão de se aperceber da possibilidade das coisas. Se fora sempre assim, não haveria tantos incrédulos, e a religião e a moral pública ganhariam com isso. A dúvida religiosa não vem entre muitos, senão da dificuldade, para eles, de compreenderem certas coisas; são Espíritos positivos não organizados para a fé cega, que não admitem senão o que, para eles, tem uma razão de ser. Tornai essas coisas acessíveis à sua inteligência, e as aceitam, porque no fundo não pedem melhor do que crerem, sendo a dúvida para eles uma situação mais penosa que se crê ou que querem dizê-lo.

Em tudo o que precede não há nada de sistemas, nada de idéias pessoais; não foram mesmo alguns Espíritos privilegiados que nos ditaram essa teoria, é um resultado de estudos feitos sobre as individualidades, corroborados e confirmados por Espíritos dos quais a linguagem não pode deixar dúvida sobre sua superioridade. Nós o julgamos por suas palavras, e não sobre o nome que trazem ou que podem se dar.

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Fenômeno de bicorporeidade

Revista Espírita, dezembro de 1858

Um dos membros da Sociedade nos comunica uma carta de um de seus amigos, de Bolognesur-Mer, na qual se lê a passagem seguinte. Essa carta está datada de 26 de julho de 1856.

“Meu filho, desde que o magnetizei, por ordens de nossos Espíritos, tomou-se um médium muito raro, pelo menos foi o que me revelou em seu estado sonambúlico, no qual o colocara a seu pedido, no dia 14 de maio último, e quatro ou cinco vezes depois.

“Para mim, está fora de dúvida que meu filho desperto conversa livremente com os Espíritos que deseja, por intermédio de seu guia, que chama familiarmente seu amigo; que, à sua vontade, transporta-se em Espírito para onde deseja, e disso vou citar-vos um fato, do qual tenho as provas escritas nas mãos.

“Há justamente um mês de hoje, estávamos os dois na sala de jantar. Eu lia o curso de magnetismo do senhor Du Potet, quando meu filho toma o livro e o folheia; chegado a um certo lugar, seu guia lhe disse ao ouvido: Leia isso. Era a aventura de um doutor da América, cujo Espírito visitara um amigo, a 15 ou 20 léguas dali, enquanto ele dormia.

Depois de lê-lo, meu filho disse: Bem que gostaria de fazer uma pequena viagem semelhante. – Pois bem! Onde queres tu ir? disse-lhe seu guia. – A Londres, respondeu meu filho, ver meus amigos, e ele designou aqueles que queria visitar.

“Amanhã é domingo, respondeu-lhe; não estás obrigado a levantar cedo para trabalhar. Dormirás às oito horas e irás viajar a Londres até as oito e meia. Sexta-feira próxima, receberás uma carta de teus amigos, que te censurarão por permanecer tão pouco tempo com eles.

“Efetivamente, na manhã do dia seguinte, na hora indicada, ele adormeceu com um sono de chumbo; às oito e meia despertou, e não se lembrava de nada; de minha parte, não disse uma palavra, esperando a conseqüência.

“Na sexta-feira seguinte, eu trabalhava em uma de minhas máquinas e, segundo meu hábito, fumava, porque era antes do almoço; meu filho olha a fumaça de meu cachimbo e me diz: Olha! há uma carta em tua fumaça. – Como vês uma carta em minha fumaça? –

Vais vê-la, respondeu, pois eis o carteiro que a traz. Efetivamente, o carteiro veio entregar uma carta de Londres, na qual os amigos de meu filho lhe fazem uma censura por ter ido nessa cidade, no domingo precedente, e não ter ido vê-los, tendo uma pessoa de seu conhecimento o encontrado. Tenho a carta, como disse, que prova que não inventei nada.”

Contado o fato acima, um dos assistentes disse que a história narra vários fatos semelhantes. Citou Santo Alfonso de Liguori, que foi canonizado antes do tempo previsto por haver se mostrado, simultaneamente, em dois lugares diferentes, o que passou por um milagre.

Santo Antônio de Pádua estava na Espanha, e no momento em que pregava, seu pai (em Pádua) ia ao suplício, acusado de uma morte. Nesse momento, Santo Antônio aparece, demonstra a inocência de seu pai, e faz conhecer o verdadeiro criminoso, que mais tarde sofreu o castigo. Foi constatado que Santo Antônio, no mesmo momento, pregava na Espanha.

Santo Alfonso de Liguori, tendo sido evocado, foram lhe dirigidas as perguntas seguintes.

1. O fato pelo qual fostes canonizado é real? – R. Sim.

2. Esse fenômeno é excepcional? – R. Não; pode se apresentar em todos os indivíduos desmaterializados.

3. Era um motivo justo para vos canonizar? – R. Sim, uma vez que, pela minha virtude, havia me elevado a Deus; sem isso, não poderia me transportar a dois lugares ao mesmo tempo.

4. Todos os indivíduos, nos quais esses fenômenos se apresenta, merecem ser canonizados? – R. Não, porque nem todos são igualmente virtuosos.

5. Poderíeis dar-nos a explicação desse fenômeno? – Sim; o homem, quando está completamente desmaterializado pela sua virtude, que elevou sua alma a Deus, pode aparecer em dois lugares ao mesmo tempo, eis como. O Espírito encarnado, sentido chegar o sono, pode pedir a Deus para se transportar para um lugar qualquer. Seu Espírito, ou sua alma, como quiserdes chamá-lo, abandona então seu corpo, seguido de uma parte de seu perispírito, e deixa a matéria imunda num estado vizinho da morte. Digo vizinho da morte, porque resta no corpo um laço que liga o perispírito e a alma à matéria, e esse laço não pode ser definido. O corpo aparece, pois, no lugar pedido. Creio que é tudo o que desejais saber.

6. Isso não nos dá a explicação da visibilidade e da tangibilidade do perispírito. – R. Achandose o Espírito desligado da matéria, segundo seu grau de elevação, pode-se tomar tangível à matéria.

7. Entretanto, certas aparições tangíveis, de mãos e de outras partes do corpo, pertencem evidentemente a Espíritos de uma ordem inferior. – R. São os Espíritos superiores que se servem de Espíritos inferiores para provarem a coisa.

8. O sono do corpo é indispensável para que o Espírito apareça em outros lugares? – R. A alma pode se dividir quando se sente levada para um lugar diferente daquele onde se encontra o corpo.

9. Um homem, estando mergulhado no sono, ao passo que seu Espírito aparece alhures, que ocorreria se fosse despertado subitamente? – R. Isso não ocorreria porque se alguém tivesse a intenção de despertá-lo, o Espírito reentraria no corpo, e preveria a intenção, já que o Espírito lê no pensamento.

Tácito reporta um fato análogo:

Durante os meses que Vespasiano passou em Alexandria, para esperar o retorno periódico dos ventos de verão e a estação na qual o mar se torna seguro, vários prodígios ocorreram, por onde se manifestou o favor do céu e o interesse que os deuses pareciam ter por esse príncipe….

Esses prodígios redobraram em Vespasiano o desejo de visitar a morada sagrada de deus para consultá-lo a respeito do império. Ordenou que o templo fosse fechado a todo mundo: tendo entrado ele mesmo todo atento ao que ia pronunciar o oráculo, percebeu, atrás de si, um dos principais Egípcios, de nome Basilídio, que sabia estar acamado, a várias jornadas de Alexandria. Informou-se com os sacerdotes se Basilídio viera esse dia ao templo; informou-se com os transeuntes se o viram na cidade, enfim, enviou homens a cavalo, e se assegurou que naquele mesmo momento, ele estava a vinte e quatro milhas de distância.

Então, ele não duvidou mais que a visão não fora sobrenatural, e o nome de Basilídio tomou o lugar do oráculo. (TÁCITO, Histórias, liv. IV, cap. 81 e 82. Tradução de Burnouf.)
Depois que essa comunicação nos foi dada, vários fatos do mesmo gênero, cuja fonte é autêntica, nos foram contados, e entre eles há muito recentes, que ocorreram, por assim dizer no nosso meio, e que se apresentaram com as circunstâncias mais singulares. As explicações, às quais deram lugar, alargaram singularmente o campo das observações psicológicas.

A questão dos homens duplos, relegada outrora entre os contos fantásticos, parece ter, assim, um fundo de verdade. A ela retornaremos brevemente.

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Um Espírito no enterro de seu corpo

Revista Espírita, dezembro de 1858

Estado da alma no momento da morte.

Os Espíritos sempre nos disseram que a separação da alma e do corpo não se faz instantaneamente; ela começa, algumas vezes, antes da morte real, durante a agonia, quando a última pulsação se faz sentir, o desligamento não está ainda completo; ele se opera mais ou menos lentamente segundo as circunstâncias, e até a sua inteira liberdade a alma experimenta uma perturbação, uma confusão que não lhe permite conscientizar-se de sua situação; está no estado de uma pessoa que desperta e cujas idéias são confusas.

Esse estado nada tem de penoso para o homem cuja consciência é pura; sem muito se explicar do que vê, é calmo e espera sem medo o despertar completo; ao contrário, é cheio de angústias e de terror para aquele que teme o futuro. A duração dessa perturbação, dizemos nós, é variável; é muito menos longa naquele que, durante a vida, já elevou seus pensamentos e purificou sua alma; dois ou três dias lhe bastam, ao passo que, em outros, é preciso, algumas vezes, oito ou mais. Freqüentemente, assistimos a esse momento solene, e sempre vimos a mesma coisa; isso não é, pois, uma teoria, mas um resultado da observação, uma vez que é o Espírito quem fala e quem pinta sua própria situação. Eis aqui um exemplo mais característico e tanto mais interessante para o observador, que não se trata mais de um Espírito invisível escrevendo por um médium, mas bem de um Espírito visto e ouvido na presença de seu corpo, seja na câmara mortuária, seja na igreja durante o serviço fúnebre.

O senhor X… vinha de ser atingido por um ataque de apoplexia; algumas horas depois de sua morte, o senhor Adrien, um de seus amigos, se encontrava em seu quarto com a mulher do defunto; ele viu distintamente o Espírito deste passear em todos os sentidos, olhar alternativamente seu corpo e as pessoas presentes, depois sentar-se numa poltrona; tinha exatamente a mesma aparência de quando vivo; estava vestido do mesmo modo, sobrecasaca preta, calça preta; tinha as mãos nos bolsos e o ar preocupado.

Durante esse tempo, a mulher procurava um papel na escrivaninha, seu marido a olha e diz: Procuras inutilmente, não encontrarás nada. Ela não desconfiava nada do que se passava, porque o senhor X… não era visível senão para o senhor Adrien.

No dia seguinte, durante o serviço fúnebre, o senhor Adrien viu de novo o Espírito de seu amigo perambular ao lado do caixão, mas não tinha mais o vestuário da véspera; estava envolvido com uma espécie de roupagem. A conversação seguinte se iniciou entre eles. Notemos, de passagem, que o senhor Adrien não é sonâmbulo; que nesse momento, como no dia precedente, estava perfeitamente desperto, e que o Espírito lhe aparecia como se fosse um dos assistentes do enterro.

– P. Diga um pouco, caro Espírito, que sentes agora? – R. Do bem e do sofrimento. – P. Não compreendo isso. – R. Sinto que estou vivo, com minha verdadeira vida e, entretanto, sinto que vivo, que existo: sou, pois, dois seres? Ah! deixai-me sair desta noite, tenho pesadelo.

– P. Permanecerás por muito tempo assim? – R. Oh! não; graças a Deus, meu amigo; sinto que despertarei logo: seria horrível de outro modo; tenho as idéias confusas; tudo é neblina: sonho na grande divisão que acaba de ser feita… não compreendo ainda nada.

– P. Que efeito vos fez a morte? – R. A morte! eu não estou morto, meu filho, tu te enganas. Eu me levantei e fui atingido de repente, por um nevoeiro que me desceu sobre os olhos, depois despertei, e julguei meu espanto ao me ver, me sentir vivo, e de ver ao lado, sobre a lage, meu outro eu deitado. Minhas idéias eram confusas; enganei-me para me tranqüilizar, mas não pude; vi minha mulher chegar, velar-me, lamentar-se, e me perguntava por quê? Consolei-a, falei-lhe, e ela não me respondia e nem me compreendia; aí está o que me torturava e tornava meu Espírito mais perturbado. Só tu me fizeste bem, porque me ouviste e compreendes o que quero; ajudas-me a desembaraçar minhas idéias e me fazes grande bem; mas, por que os outros não fazem o mesmo? Eis o que me tortura…

O cérebro está esmagado diante dessa dor… Vou vê-la, talvez me ouça agora… Até logo, caro amigo; chama-me e irei ver-te… Far-te-ei mesmo visita de amigo… Eu te surpreenderei… até logo. O senhor Adrien viu-o, em seguida, ir junto de seu filho que chorava… Inclinou-se para ele, ficou um momento nessa situação e partiu rapidamente.

Não fora ouvido, e, sem dúvida, se figurou produzir um som; eu, eu estou persuadido, acrescenta o senhor Adrien, que o que dizia chegava ao coração da criança; eu vos provarei isso. Revi-o depois, ele está mais calmo.

Nota. – Esta narração está de acordo com tudo o que já havíamos observado sobre o fenômeno da separação da alma; ela confirma, com circunstâncias todas especiais, essa verdade, que depois da morte o Espírito ainda está ali presente. Acredita-se não ter, diante de si, senão um corpo inerte, ao passo que ele vê e ouve tudo o que se passa ao redor dele, que penetra o pensamento dos assistentes, que não há, entre eles e ele, senão a diferença da visibilidade e da invisibilidade; os prantos hipócritas de ávidos herdeiros não podem lhe impor. Quantas decepções os Espíritos devem experimentar neste momento!

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Grupo Espírita de estudos via Whatsaap

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Senhor Adrien, médium vidente

Revista Espírita, dezembro de 1858

Toda pessoa que pode ver os Espíritos sem auxílio de terceiro é, por isso mesmo, médium vidente; mas, em geral, as aparições são fortuitas, acidentais. Não conhecemos, ainda, ninguém apto a vê-los de modo permanente, e à vontade. É dessa notável faculdade que está dotado o senhor Adrien, um dos membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Ele é, ao mesmo tempo, médium vidente, escrevente, audiente e sensitivo. Como médium escrevente, ele escreve sob o ditado dos Espíritos, mas raramente de modo mecânico, como os médiuns puramente passivos; quer dizer que, embora escreva coisas estranhas ao seu pensamento, tem consciência do que escreve. Como médium audiente, ouve as vozes ocultas que lhe falam. Temos, na Sociedade, dois outros médiuns que gozam dessa última faculdade em muito alto grau. São, ao mesmo tempo, muito bons médiuns escreventes. Enfim, como médium sensitivo, sente os toques dos Espíritos e a pressão que exercem sobre ele; sentelhes mesmo comoções elétricas muito violentas, que se comunicam às pessoas presentes. Quando magnetiza alguém, pode, à vontade, quando isso é necessário à saúde, produzir sobre ele os abalos da pilha voltaica.

Uma nova faculdade acaba de se revelar nele, a da dupla vista; sem ser sonâmbulo, e embora esteja perfeitamente desperto, vê à vontade, a uma distância ilimitada, mesmo além dos mares, o que se passa em uma localidade; vê as pessoas e o que elas fazem; descreve os lugares e os fatos com uma precisão cuja exatidão foi verificada. Apressamo-nos em dizer que o senhor Adrien não é um desses homens fracos e crédulos que se deixam ir pela imaginação; ao contrário, é um homem de caráter muito frio, muito calmo, e que vê tudo isso com o mais absoluto sangue frio, não dizemos com indiferença, longe disso, porque ele toma suas faculdades a sério, e as considera como um dom da Providência, que lhe foi concedido para o bem, também não se serve deles senão para as coisas úteis, e jamais para satisfazer uma vã curiosidade. É um homem jovem, de uma família distinta, muito honrada, de um caráter ameno e benevolente, e cuja educação cuida de se revelar em sua linguagem e em todas as suas maneiras. Como marinheiro e como militar, percorreu uma parte da África, da índia, e de nossas colônias.

De todas suas faculdades como médium, a mais notável, e em nossa opinião a mais preciosa, é a de médium vidente. Os Espíritos lhe aparecem sob a forma que descrevemos em nosso artigo precedente sobre as aparições; ele os vê com uma precisão da qual pode-se julgar pelos retratos, que damos adiante, da viúva de Malabar e da Belle Cordière de Lyon. Mas, dirse-á, o que prova que ele vê bem e que não é o joguete de uma ilusão? O que o prova, é que quando uma pessoa, que ele não conhece, evoca por seu intermédio um parente, um amigo que ele jamais viu, e dele faz um retrato surpreendente de semelhança e que pudemos mesmo constatar; não há, pois, para nós nenhuma dúvida sobre essa faculdade que ele goza no estado de vigília, e não como sonâmbulo.

O que há de mais notável ainda, talvez, é que não vê só os Espíritos evocados; ao mesmo tempo, vê todos aqueles que estão presentes, evocados ou não; ele os vê entrarem, saírem, irem, virem escutarem o que se diz, rirem ou levarem a sério, segundo seu caráter; em uns há gravidade; em outros, um ar zombeteiro e sardônico; algumas vezes um deles avança até um dos assistentes, lhe coloca a mão sobre a espádua ou se coloca ao seu lado, alguns se mantêm afastado; em uma palavra, em toda reunião, há sempre uma assembléia oculta composta de Espíritos atraídos por sua simpatia pelas pessoas, e pelas coisas pelas quais se ocupem. Nas ruas vê uma multidão, porque além dos Espíritos familiares que acompanham seus protegidos, há ali, como entre nós, a massa dos indiferentes e dos vadios. Em sua casa, disse-nos, não está jamais só, e não se entedia nunca; tem sempre uma sociedade com a qual ele conversa.

Sua faculdade se estende não somente aos Espíritos dos mortos, mas aos dos vivos; quando vê uma pessoa, pode fazer abstração do corpo; então o Espírito lhe aparece como se estivesse separado dele, e pode conversar com ele: Em uma criança, por exemplo, pode ver o Espírito que está encarnado nela, apreciar a sua natureza, e saber o que era antes de sua encarnação.

Essa faculdade, estendida a esse grau, nos inicia melhor, que todas as comunicações escritas, na natureza do mundo dos Espíritos; no-lo mostra tal qual é, e se não o vemos pelos nossos olhos, a descrição que dele nos dá fá-lo ver pelo pensamento; os Espíritos não são mais seres abstratos, são seres reais, que estão ali ao nosso lado, que nos acotovelam sem cessar, e como sabemos agora que seu contato pode ser material, compreendemos a causa de uma multidão de impressões que sentimos sem delas nos rendermos conta.

Também colocamos o senhor Adrien no número dos mais notáveis médiuns, e na primeira classe daqueles que forneceram os elementos mais preciosos para o conhecimento do mundo espírita. Sobretudo, o colocamos na primeira classe por suas qualidades pessoais, que são as de um homem de bem por excelência, e que o tornam eminentemente simpático aos Espíritos da mais elevada ordem, o que não ocorre sempre entre os médiuns de influências puramente físicas. Sem dúvida, entre estes últimos, aos que farão mais sensação, cativarão melhor a curiosidade; mas para o observador, para aquele que quer sondar os mistérios desse mundo maravilhoso, o senhor Adrien é o mais poderoso auxiliar que já vimos. Também colocamos sua faculdade, e sua complacência, em proveito de nossa instrução pessoal, seja na intimidade, seja nas sessões da Sociedade, seja, enfim, na visita de diversos lugares de reunião. Estivemos juntos no teatro, nos bailes, nos passeios, nos hospitais, nos cemitérios, nas igrejas; assistimos a enterros, a casamentos, a batismos, a sermões: por toda parte observamos a natureza dos Espíritos que ali vinham se agrupar, entabulamos conversação com alguns, os interrogamos e aprendemos muitas coisas das quais aproveitaremos aos nossos leitores, porque nosso objetivo é fazê-los penetrarem, como nós, nesse mundo tão novo para nós. O microscópio nos revelou um mundo dos infinitamente pequenos que não supúnhamos, embora estivesse sob nossos dedos; o telescópio ‘nos revelou a infinidade de mundos celestes, que não supúnhamos mais; o Espiritismo nos descobre o mundo dos Espíritos que está por toda parte, ao nosso lado como nos espaços; mundo real que reage incessantemente sobre nós.

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