Estudo sobre os médiuns

Revista Espírita, março de 1859

Sendo os médiuns os intérpretes das comunicações espíritas, seu papel é extremamente importante, e não se poderia dar mais atenção ao estudo de todas as causas que podem influenciá-los, não somente por si mesmos, mas, também, por aqueles que, não sendo médiuns, se servem de sua intermediação, a fim poderem julgar o grau de confiança que merecem as comunicações que possam receber.

Todo o mundo, dissemos, é mais ou menos médium; mas convencionou-se dar esse nome àqueles nos quais as manifestações são patentes, e, por assim dizer, facultativas. Ora, entre estes últimos, há aptidões muito diferentes: pode-se dizer que cada um tem a sua especialidade. Ao primeiro aspecto, se desenham duas categorias muito nitidamente talhadas: os médiuns de influências físicas, e aqueles das comunicações inteligentes. Estes últimos apresentam numerosas variedades, cujas principais são: os escreventes ou psicógrafos, os desenhistas, os falantes, os audientes e os videntes. Os médiuns poetas, músicos e poliglotas são variedades dos escreventes e dos falantes. Não voltaremos às definições que demos desses diferentes gêneros, mas não queremos lembrar, senão sucintamente, o conjunto, para maior clareza.

De todos os gêneros de médiuns, o mais comum é o dos escreventes; é aquele mais fácil de se adquirir pelo exercício; também é para esse lado que se dirigem, e com razão, os desejos e os esforços dos aspirantes. Eles mesmos apresentam duas variedades que, geralmente, são encontradas em várias outras categorias: os escreventes mecânicos e os escreventes intuitivos. Nos primeiros, o impulso da mão é independente da vontade; ela se move por si mesma, sem que o médium tenha alguma consciência do que escreve, podendo seu pensamento estar em qualquer outra coisa. No médium intuitivo, o Espírito atua sobre o cérebro; seu pensamento atravessa, por assim dizer, o pensamento do médium, sem que haja confusão. Disso resulta, nele, a consciência do que escreve, freqüentemente mesmo, uma consciência antecipada, porque a intuição antecede, algumas vezes, o movimento da mão e, todavia, o pensamento expresso não é o do médium. Uma comparação bem simples nos faz compreender o fenômeno. Quando queremos conversar com alguém cuja língua não conhecemos, nos servimos de um intérprete; o intérprete tem consciência do pensamento dos interlocutores, deve compreendê-lo para exprimi-lo, e, todavia, esse pensamento não é o seu. Pois bem! O papel de um médium intuitivo é o de um intérprete entre o Espírito e nós. A experiência nos ensinou que os médiuns mecânicos e os médiuns intuitivos são igualmente bons, igualmente aptos para receberem e transmitirem boas comunicações. Como meio de convicção, os primeiros valem mais, sem dúvida, mas quando se adquiriu a convicção, não há mais preferência útil; a atenção deve se dirigir inteiramente sobre a natureza das comunicações, quer dizer, sobre a aptidão do médium para receber as dos bons e as dos maus Espíritos, e sob esse aspecto diz-se que ele é bem ou mal assistido: aí está toda a questão, e essa questão é capital, porque só ela pode determinar o grau de confiança que ele merece; é um resultado do estudo e da observação para o qual remetemos ao nosso artigo precedente, sobre os escolhos dos médiuns.

A dificuldade, com um médium intuitivo, consiste em distinguir os pensamentos que lhe são próprios dos que lhe são sugeridos. Essa dificuldade existe para ele mesmo; o pensamento sugerido lhe parece tão natural que o toma, freqüentemente, pelo seu, e duvida de sua faculdade. O meio para convencê-lo, ele e os outros, é um exercício freqüente. Então, no número das evocações nas quais concorreu, apresentar-se-ão mil circunstâncias, uma multidão de comunicações íntimas, particularidades das quais não se poderia ter nenhum conhecimento prévio, e que constatarão, de modo irrecusável, a inteira independência de seu próprio Espírito.

As diferentes variedades de médiuns repousam sobre aptidões especiais, e até o presente não se sabe muito qual lhes é o seu princípio. À primeira vista, e para as pessoas que não fizeram desta ciência um estudo continuado, não parece mais difícil, para um médium, escrever versos que prosa; sobretudo se for mecânico, o Espírito, dir-se-á, pode tão bem fazê-lo escrever numa língua estrangeira, fazê-lo desenhar ou ditar-lhe a música.

Todavia, não é nada disso. Se bem que se vejam, a cada instante, desenhos, versos, música feitos por médiuns que, em seu estado normal, não são nem desenhistas, nem poetas, nem músicos, nem todos estão aptos para produzirem essas coisas. Apesar de sua ignorância, há neles uma faculdade intuitiva, uma flexibilidade que faz deles instrumentos mais dóceis. Foi o que bem expressou Bernard Palissy quando se lhe perguntou por que havia escolhido, para fazer os seus admiráveis desenhos, o senhor Victorien Sardou, que não sabe desenhar; é porque disse, acho-o mais flexível. Ocorre o mesmo com as outras aptidões; e, coisa bizarra, vimos Espíritos se recusarem a ditar versos a médiuns que conheciam a poesia, e dá-los agradável mente a pessoas que não lhe sabiam as primeiras regras; é o que prova, uma vez mais, que os Espíritos têm o seu livre arbítrio, e que é em vão que gostaríamos de submetê-los aos nossos caprichos.

Resulta das observações precedentes, que um médium deve seguir o impulso que lhe é dado, segundo a sua aptidão; que deve tratar de aperfeiçoar essa aptidão pelo exercício, mas que procuraria inutilmente adquirir aquela que lhe falta, ou pelo menos que isso seria em prejuízo daquela que possui. Não forcemos nosso talento, não faríamos nada com graça, disse La Fontaine- podemos acrescentar, não faríamos nada de bom. Quando um médium possui uma faculdade preciosa, com a qual pode se tornar verdadeiramente útil, que se contente com ela, e não procure uma vã satisfação de seu amor-próprio numa variedade que seria o enfraquecimento da faculdade primordial; se esta deve ser transformada, o que freqüentemente acontece, ou se deve adquirir uma nova, isso ocorrerá espontaneamente, e não por um efeito de sua vontade.

A faculdade de produzir efeitos físicos forma uma categoria bem talhada, que se alia raramente com as comunicações inteligentes, sobretudo com as de alta importância.

Sabe-se que os efeitos físicos são obrigação dos Espíritos de baixo estágio, como entre nós os grandes esforços dos saltimbancos; ora, os Espíritos batedores pertencem a essa classe inferior; agem, o mais freqüentemente, para se divertirem ou vexarem, mas, algumas vezes, por ordem de Espíritos elevados que deles se servem, como nos servimos dos trabalhadores; seria absurdo crer que Espíritos superiores viessem divertir-se fazendo as mesas girarem ou baterem. Servem-se desses meios, dizemos nós, como intermediários, seja com o objetivo de convencerem, seja para se comunicarem conosco, quando não lhes oferecemos outros meios; mas o abandonam no momento que possam atuar por um meio mais rápido, mais cômodo e mais direto, como abandonamos o telégrafo aéreo, desde que tivemos o telégrafo elétrico. Não se devem desprezar os efeitos físicos, porque, para muita gente, são um meio de convicção; oferecem, aliás, um precioso objeto de estudo sobre as forças ocultas; mas é notável que os Espíritos os recusem, em geral, àqueles que que não têm mais necessidade, ou que, pelo menos, não aconselham se ocupar de modo especial. Eis o que escreveu, a esse respeito, o Espírito de São Luís, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

“Zombaram das mesas girantes, não zombarão jamais da filosofia, da sabedoria e da clareza que brilham nas comunicações sérias. Isso foi o vestíbulo da ciência; é aí que, ao entrar, devemos deixar os preconceitos, como se deixa o casaco. Não posso vos convidar muito a fazerem, de vossas reuniões, um centro sério: que em outro lugar façam demonstrações físicas, em outro veja-se, em outro ouça-se, que, entre vós, compreenda-se e se ame. Que pensais ser, aos olhos dos Espíritos superiores, quando fazeis girar uma mesa? Ignorantes. Os sábios passam seu tempo a repassar o a, b, c da ciência? Ao passo que vendo-vos procurarem as comunicações sérias, considerar-vos-ão como homens sérios em busca da verdade.”

É impossível resumir, de modo mais lógico e mais preciso, o caráter dos dois gêneros de manifestações. Aqueles que têm comunicações elevadas, deve-as à assistência dos bons Espíritos: é um sinal de sua simpatia por ele; renunciá-las para procurar os efeitos materiais, é deixar uma sociedade escolhida por outra mais baixa; querer aliar as duas coisas, é chamar, ao redor de si, seres antipáticos, e, nesse conflito, é provável que os bons se irão e os maus permanecerão. Longe de nós desprezar os médiuns de influências físicas; têm sua razão de ser, seu fim providencial; prestam incontestáveis serviços à ciência espírita; mas quando um médium possui uma faculdade que pode colocá-lo em relação com seres superiores, não compreendemos que dela abdique, ou mesmo que deseje outras, de outro modo que por ignorância; porque, freqüentemente, a ambição de querer ser tudo, faz que se acabe por não ser nada.

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Uma noite esquecida ou a feiticeira Manouza

Primeiro artigo

Segundo artigo

 

Milésima segunda noite dos contos árabes,

Ditada pelo Espírito de Frederíc Soulié.

(TERCEIRO E ÚLTIMO CAPÍTULO)

contos arabes revista espirita

VII

– Levantai-vos, disse-lhe Noureddin, e segui-me. Nazara, banhada em lágrimas, lançou-selhe aos pés e implorou sua graça. -Nada de piedade para uma tal falta, disse o pretenso sultão; preparai-vos para morrer. Noureddin sofria muito por ter para com ela semelhante linguagem, mas não julgou chegado o momento de se fazer conhecer.

Nazara, vendo que era impossível dobrá-lo, o seguiu tremente. Eles retornaram aos apartamentos; ali Noureddin disse a Nazara para ir vestir roupas mais convenientes; depois, terminada a toilete, sem outra explicação, disse-lhe que iriam, ele e Ozana (o anão) conduzila para um bairro de Bagdá onde teria o que ela merecia. Todos os três se cobriram com uma grande manta, para não serem reconhecidos, e saíram do palácio. Mas, ó terror! apenas passaram as portas, mudaram de aspecto aos olhos de Nazara; não eram mais o sultão e Ozana, nem os mercadores de roupas, mas o próprio Noureddin e Tanaple; eles ficaram tão amedrontados, sobretudo Nazara, ao se verem tão perto da morada do sultão, que aceleraram o passo com medo de serem reconhecidos.

Apenas entraram na casa de Noureddin, esta achou-se cercada por uma multidão de homens, escravos e de tropas, enviados pelo sultão para detê-los.

Ao primeiro ruído, Noureddin, Nazara e o anão se refugiaram no apartamento mais retirado do palácio. Ali, o anão lhes disse para não se amedrontarem; que não havia senão uma coisa a se fazer para não serem presos, que era colocar o pequeno dedo da mão esquerda na boca e assoviar três vezes; que Nazara deveria fazer o mesmo, e que, instantaneamente, tornarse-iam invisíveis para todos aqueles que quisessem se apoderar deles.

O ruído continuando a aumentar de modo alarmante, Nazara e Noureddin seguiram o conselho de Tanaple; quando os soldados entraram no apartamento, encontraram-no vazio, e se retiraram depois de fazerem as mais minuciosas buscas. Então, o anão disse a Noureddin para fazer ao contrário do que haviam feito, quer dizer, colocar o pequeno dedo da mão direita na boca e assoviar três vezes; fizeram-no e logo se acharam como eram antes.

O anão, em seguida, fez notar que, não estando em segurança na casa, deveriam deixá-la por algum tempo, a fim de que se apaziguasse a cólera do sultão. Ofereceu-lhes, em conseqüência, conduzi-los para seu palácio subterrâneo, onde estariam muito comodamente, enquanto se achassem os meios de tudo arranjar, a fim de que pudessem entrar sem medo em Bagdá, e nas melhores condições possíveis.

VIII

Noureddin hesitou, mas Nazara tanto lhe pediu, que acabou por consentir. O anão disse-lhes para irem ao jardim, comerem uma laranja com a cabeça voltada para o nascente, e que, então, seriam transportados sem o perceberem. Tiveram o ar de dúvida, mas Tanaple lhes disse que não compreendia sua dúvida depois do que fizera por eles.

Tendo descido ao jardim, e tendo comido a laranja do modo indicado, se acharam subitamente elevados a uma altura prodigiosa; depois, subitamente, sentiram um forte abalo e um grande frio, e se sentiram descendo com grande velocidade. Nada viram durante o trajeto, mas quando tiveram consciência da situação, se acharam sob a terra, num magnífico palácio iluminado por mais de vinte mil velas.

Deixemos nossos amantes em seu palácio subterrâneo e retornemos ao nosso pequeno anão, que deixamos na casa de Noureddin.

Sabeis que o sultão havia enviado soldados para se apoderarem dos fugitivos; depois de haverem explorado os mais retirados cantos da habitação, assim como os jardins, não encontrando nada, foram forçados a se retirarem, para informarem ao sultão de sua tentativa infrutífera.

Tanaple acompanhara a todos ao longo do caminho; olhava-os com ar astuto e, de tempo em tempo, lhes perguntava qual preço o sultão daria àquele que trouxesse de novo os dois fugitivos. – Se o sultão, acrescentava ele, estiver disposto a conceder-me uma hora de audiência, dir-lhe-ei alguma coisa que o apaziguará, e ficará encantado por se livrar de uma mulher como Nazara, que há nela um mau gênio, e que faria descer sobre ele todas as desgraças possíveis, se ela permanecesse algumas luas mais. O chefe dos Eunucos prometeulhe incumbir-se disso e transmitir-lhe a resposta do sultão.

Apenas entrados no palácio, o chefe dos negros veio dizer que seu senhor o esperava, prevenindo-lhe, todavia, que seria furado por uma lança se avançasse imposturas.

Nosso pequeno monstro se apressou em entrar na casa do sultão. Chegado diante desse homem duro e severo, inclinou-se três vezes como é habitual, diante dos príncipes de Bagdá.

– Que tens a me dizer? perguntou-lhe o sultão. Sabes o que te espera se não disseres a verdade. Fala; eu te escuto.

“Grande Espírito, celeste Lua, tríade de Sóis, não anuncio senão a verdade. Nazara é filha da fada Negra e do gênio a Grande Serpente dos Infernos. Sua presença, em tua casa, te traria todas as pragas inimagináveis: praga das serpentes, eclipse do sol, lua azul impedindo os amores da noite; todos os teus desejos, enfim, iriam ser contrariados, e tuas mulheres envelhecidas antes mesmo que uma lua haja passado. Poderia dar-te uma prova do que adianto; sei onde se encontra Nazara; se quiseres, irei procurá-la e poderás convencer-te por ti mesmo. Não há senão um meio de evitar-se essas desgraças, é dar-lha a Noureddin. Noureddin não é mais o que pensas; ele é filho da feiticeira Manouza e do gênio o Rochedo de Diamante. Se tu uni-los, em reconhecimento, Manouza te protegerá; se recusares…. Pobre príncipe! Eu te lamento. Faze a prova; depois disso decidirás.”

O sultão escutou com bastante calma o discurso de Tanaple; mas, logo depois, chamou uma tropa de homens armados, e ordenou-lhes aprisionarem o pequeno monstro, até que um acontecimento viesse convencê-lo daquilo que acabara de ouvir.

– Acreditava, disse Tanaple, fazer favor a um grande príncipe; mas vejo que me enganei e deixo aos gênios o cuidado de vingar seus filhos. Dito isso, seguiu aqueles que vieram para prendê-lo.

IX

Tanaple estava na prisão apenas há algumas horas, quando 9 Sol se cobriu com uma nuvem de cor sombria, como se um véu quisesse ocultá-lo à Terra; depois um grande ruído se fez ouvir, e de uma montanha, colocada à entrada da cidade, saiu um gigante armado que se dirigiu para o palácio do sultão.

Não vos direi que o sultão ficou muito calmo; longe disso; tremia como uma folha de laranjeira, que Éolo tivesse atormentado. A aproximação do gigante, ordenou fechar todas as portas, e todos os seus soldados estarem prontos, armas às mãos, para defenderem seu príncipe. Mas, ó estupefação! à aproximação do gigante, todas as portas se abriram, como impelidas por mão secreta; depois, gravemente, o gigante avançou até o sultão, sem dar um sinal, nem dizer uma palavra. À sua vista, o sultão se lançou de joelhos, pediu ao gigante poupá-lo e dizer o que exigia.

“Príncipe! disse o gigante, não digo grande coisa pela primeira vez; não faço mais que te advertir. Faça o que Tanaple te aconselhou, e nossa proteção ser-te-á assegurada; de outro modo, sofrerás a pena de tua obstinação.” Dito isso, retirou-se.

O sultão ficou primeiro muito amedrontado; mas, ao cabo de um quarto de hora, estando recomposto de sua perturbação, longe de seguir os conselhos de Tanaple, fez logo publicar um édito que prometia uma magnífica recompensa àquele que pudesse colocá-lo nas pegadas dos fugitivos; depois, tendo colocado guardas nas portas do palácio e da cidade, esperou pacientemente. Mas sua paciência não foi de longa duração, ou pelo menos não lhe deixou tempo para colocá-la à prova. A partir do segundo dia, apareceu às portas da cidade um exército que tinha o ar de ter saído de baixo da terra; os soldados estavam vestidos com peles de toupeiras, e tinham armaduras de carapuças de tartarugas; levavam clavas feitas com lascas de rocha.

A sua aproximação, os guardas quiseram resistir, mas o aspecto formidável do exército logo fê-los abaixarem as armas; abriram as portas sem falarem, sem quebrar suas fileiras, e a tropa inimiga foi gravemente até o palácio. O sultão quis se mostrar à porta de seus apartamentos; mas, para sua grande surpresa, seus guardas adormeceram e as portas se abriram por si mesmas; depois o chefe da armada avançou com passo grave até o sultão e lhe disse:

“Venho dizer-te que Tanaple, vendo tua obstinação, nos enviou para te procurar; em lugar de ser o sultão de um povo que não sabes governar, vamos conduzir-te às toupeiras; tu mesmo torna-te-ás toupeira e serás sultão aveludado. Vê se isso te convém antes que fazer o que Tanaple te ordenou; dou-te dez minutos para refletir.

O sultão gostaria de resistir; mas, para sua felicidade, após alguns momentos de reflexão, consentiu naquilo que se lhe exigiam; não quis colocar senão uma condição, de que os fugitivos não habitassem seu reino. Foi-lhe prometido e, no mesmo instante, sem saber de que lado e como, o exército desapareceu aos seus olhos.

Agora que a sorte de nossos amantes estava completamente assegurada, voltemos para junto deles. Sabeis que os deixamos no palácio subterrâneo.

Depois de alguns minutos, ofuscados e arrebatados pelo aspecto das maravilhas que os cercavam, quiseram visitar o palácio e seus arredores. Viram jardins encantadores. Coisa estranha! via-se tão claro quanto a céu descoberto. Aproximaram-se do palácio: todas as suas portas estavam abertas, e havia preparativos como para uma grande festa. À porta estava uma dama em magnífico vestido. Nossos fugitivos não a reconheceram de início; mas, aproximando-se mais, viram Manouza, a feiticeira, Manouza toda transformada; não era mais aquela velha mulher, feia e decrépita, era uma mulher já de uma certa idade, mas ainda bela, e com um grande ar.

“Noureddin, disse-lhe ela, te prometi ajuda e assistência. Hoje vais receber minha promessa; estás no fim de teus males e vais receber o prêmio de tua constância: Nazara vai ser tua mulher; além disso dou-te este palácio; habitá-lo-ás e serás o rei de um povo de bravos e reconhecidos súditos; são dignos de ti, como és digno de reinar sobre eles.”

A essas palavras, música harmoniosa fez-se ouvir, de todos os lados, apareceu uma multidão inumerável de homens e de mulheres em roupas de festa; à sua frente estavam os grandes senhores e as grandes senhoras que vieram se prosternar aos pés de Noureddin; ofereceramlhe uma coroa de ouro, enriquecida com diamantes, dizendo que o reconheciam por seu rei; que esse trono lhe pertencia como herança de seu pai; que foram encantados, há 400 anos pela vontade de mágicos maus, que esse encanto não deveria acabar senão com a presença de Noureddin. Em seguida, fizeram longo discurso pelas suas virtudes e as de Nazara.

Então, Manouza disse-lhe: Sois felizes, nada mais tenho a fazer aqui. Se tiverdes necessidade de mim, batei sobre a estátua que está no meio de vosso jardim e, no mesmo instante, eu virei. Depois ela desapareceu.

Noureddin e Nazara gostariam de retê-la por mais tempo, para lhe agradecer todas as suas bondades para com eles. Depois de alguns momentos, passados conversando, retornaram aos seus súditos; as festas e as alegrias duraram oito dias. Seu reinado foi longo e feliz; viveram milhares de anos, e posso dizer mesmo que vivem ainda; somente o país não foi reencontrado, ou, por melhor dizer, jamais foi muito conhecido.

Fim.

Nota. Chamamos a atenção dos nossos leitores sobre as observações com as quais precedemos o conto, em nossos números de novembro de 1858 e janeiro de 1859.

ALLAN KARDEC.

 

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Carta do doutor Morhéry

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Loudéac, 20 de dezembro de 1858.

robin de morhery

Senhor Allan Kardec,

Eu me felicito por colocar-me em relação convosco, para o gênero de estudo que nos entregamos mutuamente. Há mais de vinte anos que me ocupo com uma obra que devia intitular-se: Estudo sobre os germes. Essa obra devia ser especialmente fisiológica; entretanto, minha intenção era demonstrar a insuficiência do sistema de Bichat, que não admite senão a vida orgânica e a vida de relação. Queria provar que existe um terceiro modo de existência, que sobrevive aos dois outros em estado inorgânico. Esse terceiro modo, não é outra coisa que a vida anímica, ou espírita, como a chamais. Em uma palavra, é o germe primitivo que engendra os dois outros modos de existência, orgânica e de relação. Queria demonstrar, também, que os germes são de natureza fluídica, que são bidinâmicos, atrativos, indestrutíveis, autógenos e em número definido, sobre o nosso planeta como em todos os meios circunscritos. Quando apareceu Céu e Terra, de Jean Reynaud, fui obrigado a modificar minhas convicções. Reconheci que meu sistema era muito estreito, e admiti, com ele, que os astros, pela troca de eletricidade, que podem se enviar reciprocamente, necessariamente, por essas diversas correntes elétricas, devem favorecer a transmigração dos germes, ou Espíritos, que são da mesma natureza fluídica.

Quando se falou das mesas girantes, entreguei-me em seguida a essa prática, e obtive resultados tais que não tive mais nenhuma dúvida sobre essas manifestações. Depois compreendi que tocáramos o momento em que o mundo invisível iria tornar-se visível e tangível, e que, desde então, caminharíamos para uma revolução sem precedente nas ciências e na filosofia. Estava longe de esperar, entretanto, que um jornal espírita pudesse se estabelecer tão cedo, e se manter em França. Hoje, senhor, graças à vossa perseverança, é um fato adquirido, e esse fato é de uma grande importância. Estou longe de julgar as dificuldades vencidas; experimentareis muitos obstáculos, suportareis muitas piadas, mas, afinal de contas, a verdade mostrar-se-á; chegar-se-á a reconhecer a observação do célebre professor Gay-Lussac, que nos disse, em seu curso, a propósito dos corpos imponderáveis e invisíveis, que essas expressões eram inexatas, e, constantemente, apenas nossa impossibilidade no estado atual da ciência; acrescentava que seria mais lógico chamá-los imponderados. Ocorre o mesmo com a visibilidade e a tangibilidade; o que não é visível para um, o é para outro, mesmo a olho nu; exemplo, os sensitivos; enfim, a audição, o odor e o gosto, que não são senão modificações da propriedade tangível, são nulos no homem, com relação ao cão, à águia e a diversos animais. Portanto, não há nada de absoluto nessas propriedades que se multiplicam segundo a organização. Não há nada de invisível, de intangível, de imponderável: tudo pode ser visto, tocado, ou pesado quando nossos órgãos, que são nossos primeiros e nossos mais preciosos instrumentos, tornarem-se mais sutis.

gay lussac

A tantas experiências, com as quais tendes já recursos para constatar nosso terceiro modo de existência (vida espírita), peco-vos acrescentar a seguinte: Queria muito magnetizar um cego de nascença e, nesse estado sonambúlico, dirigir-lhe uma série de perguntas sobre as formas e as cores. Se o sujeito for lúcido, provará, de modo peremptório, que tem, sobre essas coisas, conhecimentos que não pôde adquirir senão em uma ou várias existências anteriores.

Termino, senhor, rogando-vos receber minhas muito sinceras felicitações sobre o gênero de estudos a que vos consagrais. Como nunca tive medo de manifestar as minhas opiniões, podeis inserir minha carta na vossa Revista, se julgardes que isso seja útil.
Vosso todo devotado servidor, Morhéry, doutor em medicina.

Nota. Estamos muito felizes com a autorização que o senhor doutor Morhéry quis nos dar para publicarmos, nomeando-o, a notável carta que acabamos de ler. Ela prova nele, ao lado do homem de ciência, o homem judicioso que vê alguma coisa além das nossas sensações, e que sabe fazer o sacrifício de suas opiniões pessoais em presença da evidência. Nele a convicção não é uma fé cega, mas raciocinada; é a dedução lógica do sábio que não crê tudo saber.

A infância

DISSERTAÇÃO DE ALÉM-TÚMULO

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Comunicação espontânea do senhor Nélo, médium, lida na Sociedade em 14 de janeiro de 1859.

Não conheceis o segredo que as crianças escondem em sua inocência; não sabeis o que são, o que foram, nem o que serão; todavia, as amais, as quereis bem como se fossem uma parte de vós mesmos, de tal modo que o amor de mãe por seus filhos é reputado o maior que um ser possa ter por um outro ser. De onde provém essa doce afeição, essa terna benevolência que os próprios estranhos sentem para com uma criança? Sabei-o?

Não; é isso que vou explicar-vos.

As crianças são os seres que Deus envia em novas existências; e para que não possam lançar-lhes em rosto uma severidade muito grande, deu-lhes todas as aparências da inocência; mesmo numa criança de uma maldade natural, são cobertos seus defeitos com a não-consciência de seus atos. Essa inocência não é uma superioridade real sobre o que eram antes; é a imagem do que deveriam ser, e se não o são, é unicamente sobre elas que disso recai a pena.

Mas não foi somente por elas que Deus lhes deu esse aspecto, foi também, e sobretudo, pelos seus pais, cujo amor é necessário à sua fraqueza, e esse amor seria singularmente enfraquecido pela visão de um caráter colérico e rude, ao passo que crendo seus filhos bons e dóceis, dão-lhes toda a sua afeição, e os cercam com os mais delicados cuidados. Mas quando as crianças não têm mais necessidade dessa proteção, dessa assistência que lhes foi dada durante quinze a vinte anos, seu caráter real e individual reaparece em toda a sua nudez: permanece bom se era fundamentalmente bom, mas se irisa sempre de nuanças que estavam escondidas pela primeira infância.

Vedes que os caminhos de Deus são sempre os melhores, e que, quando se tem o coração puro, é fácil conceber sua explicação.

Com efeito, pensai bem que o Espírito, das crianças que nascem entre vós, pode vir de um mundo onde tomou hábitos muito diferentes; como quereríeis que fosse ao vosso meio, esse novo ser, que vem com paixões diferentes daquelas que possuis, com inclinações, gostos inteiramente opostos aos vossos; como quereríeis que se incorporasse em vossas fileiras de outro modo do que Deus quis, quer dizer, pela peneira da infância?

Ali se confundem todos os pensamentos, todos os caracteres, todas as variedades de seres engendrados por essa multidão de mundos nos quais crescem as cri aturas. Vós mesmos, em morrendo, vos encontrareis em uma espécie de infância, no meio de novos irmãos; e na vossa nova existência não terrestre, ignorais os hábitos, os costumes, as relações desse mundo, novo para vós; manejareis com dificuldade uma língua que não estais habituado a falar, língua mais viva do que não é hoje vosso pensamento.

A infância tem, ainda, uma outra utilidade; os Espíritos não entram na vida corpórea senão para se aperfeiçoarem, se melhorarem; a fraqueza da juventude toma-os flexíveis, acessíveis aos conselhos da experiência, e daqueles que devem fazê-los progredir; é, então, que se pode reformar seu caráter e reprimir seus maus pendores; tal é o dever que Deus confiou aos seus pais, missão sagrada pela qual terão que responder.

É assim que a infância é, não somente útil, necessária, indispensável, mas, ainda, a conseqüência natural das leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo.

Nota. Chamamos a atenção dos nossos leitores sobre essa notável dissertação, cuja alta importância filosófica será facilmente compreendida. Que de mais belo, de mais grandioso, que essa solidariedade que existe entre todos os mundos! Que de mais próprio para nos dar uma idéia da bondade e da majestade de Deus! A Humanidade cresce com tais pensamentos, ao passo que nós a explicamos reduzindo-a às mesquinhas proporções de nossa vida efêmera e de nosso mundo, imperceptível entre os mundos.

 

infancia espiritual

Os Espíritos barulhentos – Meios para se livrar deles

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Escrevem-nos de Gramat (Lot):

“Em uma casa do lugarejo de Coujet, comuna de Bastat (Lot), ruídos extraordinários se fazem ouvir desde uns dois meses. Eram primeiro golpes secos, e muito semelhantes ao choque de uma clava sobre as tábuas, que se ouviam de todos os lados: sob os pés, sobre a cabeça, nas portas, através dos móveis; depois logo os passos de um homem que caminhava de pés nus, o tamborilar de dedos sobre as vidraças. Os habitantes da casa se amedrontaram e mandaram dizer missas; a população inquieta dirigiu-se para o lugarejo e ouviu; a polícia interveio, fez várias investigações, e o ruído aumentou. Logo, foram portas abertas, objetos transtornados, cadeiras projetadas pela escada, móveis transportados do térreo para o sótão. Tudo o que vos conto, atestado por um grande número de pessoas, passa-se em pleno dia. A casa não é um antigo casebre sombrio e negro, do qual só o aspecto faz cogitar fantasmas; é uma casa recentemente construída, que é agradável; os proprietários são pessoas boas, incapazes de quererem enganar alguém, e doentes de medo. Entretanto, muitas pessoas não pensam que nada há de sobrenatural, e tratam de explicar, seja pela física, seja por más intenções que emprestam aos habitantes da casa, tudo que ali se passa de extraordinário. Por mim, que vi e creio, resolvi dirigir-me a vós para saber quais são os Espíritos que fazem esse barulho, e conhecer o meio, se houver um, de fazê-los calarem-se. É um serviço que prestais a essas boas pessoas, etc….” Os fatos dessa natureza não são raros; eles se assemelham quase todos e não diferem, em geral, senão pela sua intensidade e sua maior ou menor tenacidade. Pouco se inquieta com eles quando se limitam a alguns ruídos sem conseqüência, mas se tomam uma verdadeira calamidade quando adquirem certas proporções. Nosso honorável correspondente nos pergunta quais são os Espíritos que fazem esse barulho. A resposta não é incerta: sabe-se que Espíritos de uma ordem muito inferior são os únicos deles capazes.

Os Espíritos superiores, tanto quanto entre os homens graves e sérios, não se divertem fazendo algazarra. Freqüentemente, os chamamos para perguntarmos o motivo que os levam a perturbarem assim o repouso. A maioria não tem outro objetivo senão o de se divertir; esses são Espíritos antes levianos que maus, que se riem do pavor que ocasionam, e das buscas inúteis que se fazem para descobrir a causa do tumulto.

Freqüentemente, se aferram junto a um indivíduo, que se alegram em vexar, e que perseguem de morada em morada; outras vezes se ligam a um local sem outro motivo que seu capricho. Algumas vezes, é uma vingança que exercem, como teremos ocasião de ver. Em certos casos, sua intenção é mais louvável; querem chamar a atenção e se porem em comunicação, seja para darem uma advertência útil à pessoa à qual se dirigem, seja para pedirem alguma coisa para eles mesmos. Vimo-los, freqüentemente, pedirem preces, outras vezes solicitarem o cumprimento, em seu nome, de um voto que não puderam cumprir, outras vezes, enfim, querer, no interesse de seu próprio repouso, repararem uma ação má cometida por eles quando viviam. Em geral, comete-se o erro de com eles se amedrontar; sua presença pode ser importuna, mas não perigosa. Concebe-se, de resto, o desejo que se tem de livrar-se deles e se faz, geralmente, para isso, tudo ao contrário do que seria preciso. Se são Espíritos que se divertem, quanto mais se toma a coisa a sério, mais persistem, como crianças traquinas que aborrecem mais aqueles que vêem se impacientarem, e que metem medo aos covardes. Se se tomasse o sábio partido de rir por si mesmo, de seus maus rodeios, acabariam por se cansarem e por ficarem tranqüilos. Conhecemos alguém que, longe de se irritar, os excitava, desafiava-os para fazerem tal ou tal coisa, tão bem que, ao cabo de alguns dias, não retomavam mais. Mas, como dissemos, existem alguns cujo motivo é o mais frívolo. Por isso, é sempre útil saber o que querem. Se pedem alguma coisa, pode-se estar certo que cessarão suas visitas, desde que seu desejo seja satisfeito. O melhor meio de estar informado a esse respeito é o de evocar o Espírito, por intermédio de um bom médium escrevente; pelas suas respostas, ver-se-á o que disputam, e se agirá em conseqüência; se for um Espírito infeliz, a caridade manda tratá-lo com as considerações que merece. Se for um mau brincalhão, pode-se agir para com ele sem cerimônia; se for malevolente, é preciso pedir a Deus para torná-lo melhor. Em todo estado de defesa, a prece não pode sempre ter senão um bom resultado. Mas a gravidade das fórmulas de exorcismo fá-los rirem e não as têm em nenhuma conta Podendo-se entrar em comunicação com eles, é preciso desconfiar das qualificações burlescas ou apavorantes que se dão, algumas vezes, para se divertirem com a credulidade.

A dificuldade, em muitos casos, é ter um médium à disposição. É preciso, então, procurar tornar-se a si mesmo, ou interrogar diretamente o Espírito, conformando-se com os preceitos que demos, a esse respeito, em nossa Instrução prática sobre as manifestações.
Esses fenômenos, embora executados por Espíritos inferiores, freqüentemente, são provocados por Espíritos de uma ordem mais elevada, com a finalidade de convencer quanto à existência de seres incorpóreos e de um poder superior ao homem. A ressonância que deles resulta, o medo mesmo que eles causam, chamam a atenção, e acabarão por abrir os olhos dos mais incrédulos. Estes acham mais simples colocar esses fenômenos à conta da imaginação, explicação muito cômoda e que dispensa dar-lhes outras; todavia, quando objetos são postos em desordem ou vos são lançados à cabeça, seria preciso uma imaginação bem complacente para se figurar que semelhantes coisas são quando não o são. Nota-se um efeito qualquer, esse efeito tem necessariamente uma causa; se uma fria e calma observação nos demonstra que esse efeito é independente de toda vontade humana e de toda causa material, se, além disso, nos dá sinais evidentes de inteligência e de livre vontade, o que é o sinal mais característico, somos forçados a atribuí-lo a uma inteligência oculta. Quais são esses seres misteriosos? É o que os estudos espíritas nos ensinam, do modo o menos contestável, pelos meios que nos dá para se comunicar com eles. Esses fenômenos nos ensinam, além do mais, a separar o que há de real, de falso ou exagerado nos fenômenos dos quais não nos damos conta. Se um efeito insólito se produziu: ruído, movimento, mesmo aparição, o primeiro pensamento que se deve ter é que foi devido a uma causa toda natural, porque é a mais provável; é preciso, então, procurar essa causa com o maior cuidado, e não admitir a intervenção dos Espíritos senão conscientemente; é o meio de não se iludir.

Espíritos barulhentos

Meu amigo Hermann

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Sob esse título, M. H. Lugner publicou, no folhetim do Journal de Debates de 26 de novembro de 1858, uma espiritual história fantástica, no gênero de Hoffmann, e que, à primeira vista, parecia ter alguma analogia com os nossos agêneres, e os fenômenos de tangibilidade dos quais falamos. A extensão dessa história não nos permite reproduzi-la por inteiro; limitar-nos-emos a dela fazer uma análise, fazendo notar que o autor a conta como um fato do qual teria sido, pessoalmente, testemunha, tendo, diz ele, laços de amizade com o herói da aventura. Esse herói, de nome Hermann, morava em pequena cidade no fundo da Alemanha. “Era, diz o narrador, um belo moço de 25 anos, de aparência avantajada, cheio de nobreza em todos os seus movimentos, gracioso e espiritual em sua linguagem. Era muito instruído, sem o menor pedantismo, muito fino, sem malícia, muito senhor de sua dignidade sem a menor arrogância. Breve, era perfeito em tudo, e mais perfeito, ainda, em três coisas quanto em todo o resto: seu amor pela filosofia, sua vocação particular pela valsa, e a doçura de seu caráter. Essa doçura não era fraqueza, nem medo de outrem, nem desconfiança exagerada de si mesmo: era uma inclinação natural, uma superabundância desse milk of human kindness que se encontra, comumente, na ficção dos poetas, e do qual a Natureza havia distribuído a Hermann uma dose inabitual. Continha e sustentava, ao mesmo tempo, seus inimigos com uma bondade todo-poderosa e superior aos ultrajes; podia-se feri-lo, mas não encolerizá-lo. Tendo seu cabeleireiro, um dia, queimado-lhe a ponta da orelha encrespando-o, Hermann se apressou em pedir-lhe desculpas, tomando a falta sobre si, assegurando mesmo que havia se movimentado mal oportunamente. Entretanto, não fora nada disso, e posso dizê-lo conscientemente, porque estava lá e vi, claramente, que tudo resultou da imperícia do cabeleireiro. Deu ele muitos outros sinais da imperturbável bondade de sua alma. Escutava ler maus versos com um ar angélico, respondia às mais tolas sátiras por complementos bem feitos, e os piores espíritos usaram contra ele suas maldades. Essa doçura desconhecida tornara-o célebre; não havia mulher que não desse sua vida para vigiar, sem descanso, o caráter de Hermann, e para procurar fazê-lo perder a paciência, ao menos uma vez em sua vida.”

“Acrescentai a todos esses méritos a vantagem de inteira independência e uma fortuna suficiente para ser considerado entre os mais ricos cidadãos da cidade, e tereis dificuldade em imaginar que possa faltar alguma coisa ao feliz Hermann. Entretanto, ele não era feliz e, freqüentemente, dava sinais de tristeza…..Isso devia-se a uma enfermidade singular que o afligira toda a sua vida, e que há muito atiçava a curiosidade da pequena cidade.”

“Hermann não podia ficar desperto um instante depois do pôr-do-sol. Quando o dia se aproximava de seu fim, era tomado de um langor insuportável, e caía progressivamente em uma sonolência que ninguém podia prever, e da qual não se podia tirá-lo. Se deitava-se com o sol, levantava-se com o dia, e seus hábitos matinais teriam feito dele um excelente caçador se pudesse superar seu horror pelo sangue e suportar a idéia de dar morte cruel a criaturas inocentes.” Eis como, em algumas palavras, num momento de expansão, dá conta de sua situação ao seu amigo do Journal dês Debats:

“Sabeis, meu caro amigo, à qual enfermidade me sujeito e que sono invencível me oprime regularmente desde o deitar até que o Sol se levante. Sobre isso estais tão instruído quanto todo mundo, e, como todo mundo, ouvistes dizer que esse sonho se parece, a ponto de se enganar, com a morte. Nada é mais verdadeiro, e esse prodígio pouco me importaria, juro-vos, se a Natureza tivesse se contentado em tomar meu corpo para o objeto de uma de suas fantasias. Mas minha alma é também seu joguete, e não posso vos dizer, sem horror, a sorte bizarra e cruel que lhe foi infligida. Cada uma de minhas noites é preenchida por um sonho, e esse sonho se liga, com a maior clareza, ao sonho da noite precedente. Esses sonhos (queira Deus que esses sejam sonhos!) se seguem e se encadeiam como acontecimentos de uma existência comum que se desenvolveria à face do sol e na companhia de outros homens. Vivo, pois, duas vezes e conduzo duas existências bem diferentes: uma se passa aqui, convosco e com os nossos amigos, a outra bem longe daqui, com homens que conheço tão bem quanto vós, a quem falo como vos falo, e que me tratam de louco, como ireis fazê-lo, quando faço alusão a uma outra existência além daquela que passo com eles. Todavia, não estou aqui vivo e falando, sentado perto de vós, penso que bem desperto; e aquele que pretendesse que nós voltamos ou que somos sombras, não passaria, a justo título, por um insensato? Pois bem! Meu caro amigo, cada um dos momentos, cada um dos atos que preenchem as horas do meu inevitável sono, não têm menos de realidade, e quando estou inteiramente nessa outra existência, é a esta que fico tentado a pedir-lhe um sonho.”

‘Todavia, não sonho mais aqui que naquele mundo; vejo, alternativamente, os dois lados, e não poderia duvidar, se bem que minha razão, quanto a isso, esteja estranhamente ofendida, que minha alma não anime sucessivamente dois corpos e não conduza de frente duas existências. Ai! meu caro amigo, queira Deus que ela tenha, nesses dois corpos, os mesmos instintos e a mesma conduta, e que eu seja, no outro mundo, o homem que conheceis e que amais aqui. Mas isso não é nada, e não se ousaria quase nada contestar quanto à influência do físico sobre o moral conhecendo-se minha história. Não quero me vangloriar, e, aliás, o orgulho que uma dessas duas existências poderia me inspirar seria bem rebatido pela vergonha que é inseparável da outra; entretanto, posso dizer, sem vaidade, que aqui sou justamente amado e respeitado por todo o mundo; louva-se minha personalidade e minhas maneiras; acha-se meu ar nobre, liberal e distinto. Amo, como sabeis, as letras, a filosofia, as artes, a liberdade, tudo o que faz o encanto e a dignidade da vida humana; sou socorro dos infelizes e sem inveja contra meu próximo. Conheceis minha doçura passada em provérbio, meu espírito de justiça e de misericórdia, meu insuperável horror pela violência. Todas essas qualidades que me elevam e que me ornam aqui, eu as expio, no outro mundo, por vícios contrários; a Natureza, que me cumulou aqui com suas bênçãos, quis no outro mundo maldizer-me.

Não só ela me lançou numa situação inferior onde devo ficar, sem letras e sem cultura, mas deu, a esse outro corpo, que é também o meu, órgãos tão grosseiros e tão perversos, sentidos tão cegos e tão fortes, tais inclinações e tais necessidades, que minha alma obedece ao invés de comandar, e se deixa arrastar atrás desse corpo despótico nas mais vis desordens. Naquele mundo, sou duro e frouxo, perseguidor dos fracos e rastejador diante dos fortes, impiedoso e invejoso, naturalmente injusto, violento quase ao delírio.

Todavia, sou eu mesmo e acho bonito me odiar e me desprezar, não posso me desconhecer.”

“Hermann se deteve um instante; sua voz estava tremente e seus olhos molhados de lágrimas. Disse-lhe, tentando sorrir: Quero acariciar vossa loucura, Hermann, para melhor curá-la Dizei-me tudo, e primeiro onde se passa essa outra existência e sob qual nome sois conhecido?”

“Chamo-me William Parker, respondeu ele; sou cidadão de Melbourne, na Austrália. É para ali, nos opostos, que minha alma voa quando vos deixa. Quando o Sol se deita aqui, ela deixa Hermann inanimado atrás dela, e o Sol se eleva no outro mundo quando ela vai dar vida ao corpo inanimado de Parker. Então começa minha miserável existência de vagabundagem, de fraudes, de rixas e de mendicância. Freqüento má sociedade e aí sou contado entre os piores; sem cessar, estou em luta com os meus companheiros, e, freqüentemente, tenho a mão na faca; estou sempre em guerra com a polícia e, freqüentemente, reduzido a me esconder. Mas tudo tem um fim nesse mundo, e esse suplício toca seu fim. Felizmente, cometi um crime. Matei covarde e brutalmente uma pobre criatura que estava ligada a mim. Assim, levei ao seu auge a indignação pública, já excitada pelas minhas más ações. O júri me condenou à morte e espero minha execução.

Algumas pessoas, humanas e religiosas, intercederam junto ao governador para obterem minha graça ou pelo menos um adiamento, que me daria o tempo de me converter. Mas conhece-se muito bem minha natureza grosseira e intratável. Recusou-se e, amanhã, ou, se preferis, esta noite, serei infalivelmente conduzido ao suplício.”

“Pois bem! disse-lhe rindo, tanto melhor para vós e para nós; é um bom alívio a morte desse velhaco. Uma vez Parker lançado na eternidade, Hermann viverá tranqüilo; poderá velar como todo o mundo e permanecer dia e noite conosco. Aquela morte vos curará, meu caro amigo, e sou grato ao governador de Melbourne por ter recusado a graça a esse miserável.”

“Enganai-vos, respondeu-me Hermann com uma gravidade que me causou pena; morreremos os dois juntos, porque não somos senão um, apesar de nossas diversidades e nossa antipatia natural, não temos senão uma alma que será atingida de um só golpe, e em todas as coisas respondemos um pelo outro. Credes, pois, que Parker viveria ainda se Hermann tivesse sentido que, tanto na morte como na vida, eram inseparáveis?

Hesitaria um instante se pudesse arrancar e lançar ao fogo essa outra existência, como o olho maldito de que falam as Escrituras? Mas eu era tão feliz por viver aqui que não podia resolver-me a morrer no outro mundo, e minha indecisão durou até que a sorte decidiu por mim essa questão terrível. Hoje tudo está dito e, crede bem, vos dou adeus.”

“No dia seguinte, encontrou-se Hermann morto em sua cama, e, alguns meses depois, os jornais da Austrália trouxeram a notícia da execução de William Parker, com todas as circunstâncias descritas por seu sósia.”

Toda essa história está contada com um imperturbável sangue frio e o tom mais sério; nada lhe falta, nos detalhes que omitimos, para dar-lhe um cunho de verdade. Em presença de fenômenos estranhos, dos quais somos testemunhas, um fato dessa natureza poderia parecer, se não real, pelo menos possível, e se relacionar, até um certo ponto, com aqueles que citamos. Com efeito, não seria análoga à do jovem que dormia em Boulogne ao passo que, no mesmo instante, conversava em Londres com seus amigos? A de Santo Antônio de Pádua, que no mesmo dia pregava na Espanha e se mostrava em Pádua para salvar a vida de seu pai, acusado de morte? À primeira vista pode-se dizer que, se esses últimos fatos são exatos, não é mais impossível que esse Hermann viveu na Austrália enquanto dormia na Alemanha e reciprocamente. Embora nossa opinião estivesse perfeitamente estabelecida a esse respeito, cremos dever referi-la aos nossos instrutores de além-túmulo, em uma das sessões da Sociedade. A esta pergunta: Os fatos narrados pelo Journal dês Debats é real? Foi respondido: Não; é uma história de pura invenção, para divertir os leitores. – Se não é real, é possível? – R. Não; uma alma não pode animar dois corpos diferentes.

Com efeito, na história de Boulogne, se bem que o jovem haja se mostrado em dois lugares diferentes, não havia, realmente, senão um corpo, em carne e osso, que estava em Boulogne; em Londres, não havia senão uma aparência do perispírito, tangível, é verdade, mas que não era o próprio corpo, o corpo mortal; não poderia morrer em Londres e em Boulogne. Hermann, ao contrário, segundo a história, tinha realmente dois corpos, uma vez que um foi enforcado em Melbourne e o outro enterrado na Alemanha.

A mesma alma teria, assim, conduzido de frente duas existências, o que, segundo os Espíritos, não é possível. Os fenômenos do gênero do de Boulogne e de Santo Antônio de Pádua, se bem que bastante freqüentes, são, aliás, sempre acidentais e fortuitos num indivíduo, e não têm, jamais, um caráter de permanência, ao passo que o pretenso Hermann era assim desde a sua infância. Mas a razão, a mais grave de todas, é a da diferença de caracteres; seguramente, se esses dois indivíduos não tiveram senão uma e a mesma alma, ela não poderia ser, alternativamente, a de um homem de bem e a de um bandido. O autor se funda, é verdade, sobre a influência do organismo; mas o lamentamos se tal é sua filosofia, e mais ainda se procura acreditá-la, porque isso seria negar a responsabilidade dos atos; uma semelhante doutrina seria a negação de toda moral, uma vez que reduziria o homem ao estado de máquina.

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Os agêneres

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Repetimos muitas vezes a teoria das aparições, e a lembramos em nosso último número a propósito de fenômenos estranhos que relatamos. A eles remetemos nossos leitores, para a inteligência do que se vai seguir.

Todo mundo sabe que, no número das manifestações extraordinárias produzidas pelo senhor Home, estava a aparição de mãos, perfeitamente tangíveis, que cada um podia ver e apalpar, que pressionava e estreitava, depois que, de repente, não ofereciam senão o vazio quando as queriam agarrar de surpresa. Aí está um fato positivo, que se produziu em muitas circunstâncias, e que atestam numerosas testemunhas oculares. Por estranho e anormal que pareça, o maravilhoso cessa desde o instante em que se pode dele dar conta por uma explicação lógica; entra, então, na categoria dos fenômenos naturais, embora de ordem bem diferente daqueles que se produzem sob nossos olhos, e com os quais é preciso guardar-se para não confundi-los. Podem-se encontrar, nos fenômenos usuais, pontos de comparação, como aquele cego que se dava conta do clarão da luz e das cores pelo toque da trombeta, mas não de similitudes; é precisamente a mania de querer tudo assimilar àquilo que conhecemos, que causa decepções a certas pessoas; pensam poder operar sobre esses elementos novos como sobre o hidrogênio e o oxigênio. Ora, aí está o erro; esses fenômenos estão submetidos a condições que saem do círculo habitual de nossas observações; é preciso, antes de tudo, conhecê-las e com elas conformar-se, se se quiser obter resultados. É preciso, sobretudo, não perder de vista esse princípio essencial, verdadeira pedra principal da ciência espírita; é que o agente dos fenômenos vulgares é uma força física, material, que pode ser submetida às leis do cálculo, ao passo que nos fenômenos espíritas, esse agente é constantemente uma inteligência que tem sua vontade própria, e que não podemos submeter aos nossos caprichos.

Nessas mãos haviam a carne, pele, ossos, unhas reais? Evidentemente, não, não eram senão uma aparência, mas tal que produzia o efeito de realidade. Se um Espírito tem o poder de tornar uma parte qualquer de seu corpo etéreo visível e palpável, não há razão que não possa ser do mesmo modo com os outros órgãos. Suponhamos, pois, que um Espírito estenda essa aparência a todas as partes do corpo, creríamos ver um ser semelhante a nós, agindo como nós, ao passo que isso não seria senão um vapor momentaneamente solidificado. Tal é o caso do fantasma de Bayonne. A duração dessa aparência está submetida a condições que nos são desconhecidas; ela depende, sem dúvida, da vontade do Espírito, que pode produzi-la ou fazê-la cessar à sua vontade, mas em certos limites que não está sempre livre para transpor. Os Espíritos, interrogados quanto a esse assunto, assim também sobre todas as intermitências de quaisquer manifestações, sempre disseram que agem em virtude de uma permissão superior.

Se a duração da aparência corporal é limitada para certos Espíritos, podemos dizer que, em princípio, ela é variável, e pode persistir por um maior ou menor tempo; que pode produzirse em todos os tempos e a toda hora. Um Espírito, cujo corpo todo fosse assim visível e palpável, teria para nós todas as aparências de um ser humano, e poderia falar conosco, sentar-se em nosso lar como uma pessoa qualquer, porque, para nós, seria um dos nossos semelhantes.

Partimos de um fato patente, a aparição de mãos tangíveis, para chegarmos a uma suposição que lhe é a conseqüência lógica; e, todavia, não a teríamos insinuado se a história da criança de Bayonne não tivesse sido colocada em nosso caminho, mostrando sua possibilidade. Um Espírito superior, perguntado sobre esse ponto, respondeu que, com efeito, podem-se encontrar seres dessa natureza sem disso duvidar; acrescentou que é raro, mas que isso se vê. Como para se entender é preciso um nome para cada coisa, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas chama-os agêneres para indicar que sua origem não é o produto de uma geração. O fato seguinte, que se passou recentemente em Paris, parece pertencer a essa categoria:

Uma pobre mulher estava na igreja de Saint-Roch, e pedia a Deus vir em ajuda de sua aflição. Em sua saída da igreja, na rua Saint-Honoré, ela encontrou um senhor que a abordou dizendo-lhe: “Minha brava mulher, estaríeis contente por encontrar trabalho? –

Ah! meu bom senhor, disse ela, pedia a Deus que me fosse achá-lo, porque sou bem infeliz. – Pois bem! Ide em tal rua, em tal número; chamareis a senhora T…; ela vo-lo dará.” Ali continuou seu caminho. A pobre mulher se encontrou, sem tardar, no endereço indicado – Tenho, com efeito trabalho a fazer, disse a dama em questão, mas como ainda não chamei ninguém, como ocorre que vindes me procurar? A pobre mulher, percebendo um retrato pendurado na parede, disse: – Senhora, foi esse senhor ali, que me enviou. – Esse senhor! Repetiu a dama espantada, mas isso não é possível; é o retrato de meu filho, que morreu há três anos. – Não sei como isso ocorre, mas vos asseguro que foi esse senhor, que acabo de encontrar saindo da igreja onde fui pedir a Deus para me assistir; ele me abordou, e foi muito bem ele quem me enviou aqui.

No que acabamos de ver, não haveria nada de surpreendente em que esse Espírito, do filho dessa dama, para prestar serviço a essa pobre mulher, da qual havia, sem dúvida, ouvido a prece, apareceu-lhe sob sua forma corporal para lhe indicar o endereço de sua mãe. Em que se tornou depois? Sem dúvida, no que era antes: num Espírito, a menos que não tenha julgado oportuno se mostrar as outras sob a mesma aparência, continuando seu passeio. Essa mulher, assim, teria encontrado um agênere, com o qual conversou.

Mas, então, dir-seá, por que não se apresentou à sua mãe? Nessas circunstâncias, os motivos determinantes dos Espíritos nos são completamente desconhecidos; eles agem como melhor lhes parece, ou melhor, como disseram, em virtude de uma permissão sem a qual eles não podem revelar sua existência de maneira material. Compreende-se, de resto, que sua visão poderia causar uma emoção perigosa à sua mãe; e quem sabe se não se apresentou a ela, seja durante o sono, seja de outro modo? E, aliás, esse não era o meio de revelar-lhe sua existência? É mais que provável que foi testemunha invisível da entrevista.

O Fantasma de Bayonne parece-nos dever ser considerado como um agênere, pelo menos nas circunstâncias em que se manifestou; porque para a família sempre teve o caráter de um Espírito, caráter que ele jamais procurou dissimular: era seu estado permanente, e as aparências corporais que tomou não foram senão acidentais; ao passo que o agênere, propriamente dito, não revela sua natureza, e não é, aos nossos olhos, senão um homem comum; sua aparição corporal pode, se for preciso, ter longa duração para poder estabelecer relações sociais com um ou com vários indivíduos.

Pedimos ao Espírito de São Luís consentir em nos esclarecer diferentes pontos, respondendo às nossas perguntas.

1. O Espírito do Fantasma de Bayonne poderia se mostrar corporalmente em outros lugares e a outras pessoas senão em sua família? – R. Sim, sem dúvida.

2. Isso depende de sua vontade? – R. Não precisamente; o poder dos Espíritos é limitado; não fazem senão o que lhes é permitido fazerem.

3. Que ocorreria se fosse apresentado a uma pessoa desconhecida? – R. Seria tomado por uma criança comum. Mas vos direi uma coisa, é que existe, algumas vezes, na Terra, Espíritos que revestem essa aparência, e que são tomados por homens.

4. Esses seres pertencem aos Espíritos inferiores ou superiores? – R. Podem pertencer aos dois; esses são fatos raros. Deles tendes exemplos na Bíblia.

5. Raros ou não, basta que sejam possíveis para merecerem a atenção. Que ocorreria, tomando semelhante ser por um homem comum, se lhe fizesse um ferimento mortal? Seria morto? – R. Desapareceria subitamente, como o jovem de Londres. (Ver o número de dezembro de 1858, Fenômeno de bi-corporeidade.)

6. Têm eles paixões? – R. Sim, como Espíritos, têm as paixões de Espíritos segundo a sua inferioridade. Se tomam um corpo aparente, algumas vezes, é para gozarem as paixões humanas; se são elevados, é para um fim útil.

7. Podem eles procriar? – R. Deus não lhes permitiria; seria contrário às leis que estabeleceu para a Terra; elas não podem ser elididas.

8. Se um semelhante ser a nós se apresentasse, haveria um meio para reconhecê-lo? – R. Não, apenas pela sua desaparição, que se faz de modo inesperado. É o mesmo fato do transporte de móveis de um térreo ao sótão, fato que já lestes.

Nota. Alusão a um fato dessa natureza reportado no começo da sessão.

9. Qual é a finalidade que pode levar certos Espíritos a tomarem esse estado corporal; é antes para o mal que para o bem? – R. Freqüentemente para o mal; os bons Espíritos dispõem da inspiração; agem sobre a alma e pelo coração. Vós o sabeis, as manifestações físicas são produzidas por Espíritos inferiores, e estas são desse número. Entretanto, como já disse, os bons Espíritos também podem tomar essa aparência corpórea com um fim útil; falei de modo geral.

10. Nesse estado, podem tomar-se visíveis ou invisíveis à vontade? – R. Sim, uma vez que poderão desaparecer quando o quiserem.

11. Têm um poder oculto, superior ao dos outros homens? – R. Não têm senão o poder que lhes dá sua posição como Espíritos.

12. Têm eles uma necessidade real de se alimentarem? – R. Não; o corpo não é um corpo real.

13. Entretanto, o jovem de Londres não tinha um corpo real, e todavia almoçou com os amigos, e lhes apertou a mão. Em que se tornou a alimentação ingerida? – R. Antes de apertar a mão, onde estavam os dedos que pressionam? Por que não quereis compreender que a matéria desaparece também? O corpo do jovem de Londres não era uma realidade, uma vez que estava em Boulogne; era, pois, uma aparência; ocorria o mesmo com o alimento que parecia ingerir.

14. Tendo-se um semelhante ser em casa, seria um bem ou um mal? – R. Seria antes um mal; de resto, não se podem adquirir muitos conhecimentos com esses seres. Não podemos dizer-vos muito, esses fatos são excessivamente raros e não têm, jamais, um caráter de permanência. Suas desaparições corpóreas instantâneas, como as de Bayonne, o são muito menos.

15. Um Espírito familiar protetor, algumas vezes, toma essa forma? – R. Não; não tem ele as cordas interiores? Toca-as mais facilmente do que o faria sob forma visível, ou se o tomássemos como um dos nossos semelhantes.

16. Perguntou-se se o conde de Saint-German não pertencia à categoria dos agêneres. – R. Não; era um hábil mistificador.

A história do jovem de Londres, narrada em nosso número de dezembro, é um fato de bicorporeidade, ou melhor, de dupla presença, que difere essencialmente daquele em questão. O agênere não tem corpo vivo na Terra; somente seu perispírito toma forma palpável. O jovem de Londres estava perfeitamente vivo; enquanto seu corpo dormia em Boulogne, seu espírito, envolvido pelo perispírito, foi a Londres, onde tomou uma aparência tangível.

Um fato quase análogo nos é pessoal. Enquanto estávamos pacificamente em nossa cama, um dos nossos amigos viu-nos várias vezes em sua casa, embora sob uma aparência não tangível, sentado ao seu lado e conversando com ele como de hábito. Uma vez nos viu com roupão, outras vezes com paletó. Transcreveu nossa conversa, que nos comunicou no dia seguinte. Ela era, pensando bem, relativa aos nossos trabalhos prediletos. Para fazer uma experiência, ofereceu-nos refrescos, e eis nossa resposta:

“Deles não necessito, uma vez que não é meu corpo que aqui está; vós o sabeis, não há nenhuma necessidade de vos produzir uma ilusão.” Uma circunstância, bastante bizarra, se apresentou na ocasião. Seja predisposição natural, seja resultado de nossos trabalhos intelectuais, sérios desde nossa juventude, poderíamos dizê-lo desde a infância, o fundo do nosso caráter sempre teve uma extrema gravidade, mesmo na idade em que não se pensa mais do que no prazer. Essa preocupação constante nos dá um encontro muito frio, excessivamente frio mesmo; ao menos é pelo que somos freqüentemente censurados; mas, sob essa falsa aparência glacial, o Espírito sente, talvez mais vivamente, como se tivesse mais expansão exterior. Ora, em nossas visitas noturnas ao nosso amigo, este ficou surpreso por nos achar diferente; éramos mais aberto, mais comunicativo, quase alegre. Tudo respirando, em nós, a satisfação e a calma do bem-estar. Não está aí um efeito do Espírito desligado da matéria?

 

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