Música de além-túmulo

Revista Espírita, maio de 1859

O Espírito de Mozart veio ditar ao excelente médium, Senhor Bryon-Dorgeval, um fragmento de sonata. Como meio de controle, esse último fê-la ouvir por vários artistas, sem indicar lhes a fonte, pedindo simplesmente que cor encontravam nesse trecho; cada um nele reconheceu, sem hesitação, a marca de Mozart. Foi executado na sessão da Sociedade, do dia 8 de abril último, em presença de numerosos conhecedores, pela senhora de Davans, aluna de Chopin e pianista distinta, que consentiu em prestar seu concurso. Como ponto de comparação, a senhorita de Davans, preliminarmente, fez ouvir uma sonata composta por Mozart quando vivo. Não houve senão uma voz, não só sobre a perfeita identidade do gênero, mas ainda sobre a superioridade da composição espírita. Um trecho de Chopin foi em. seguida executado pela senhorita de Davans, com seu talento habitual. Não se poderia perder essa ocasião de invocar esses dois compositores com os quais se teve a conversa seguinte:

Mozart

1. Sem dúvida sabeis qual o motivo que nos fez chamar-vos? – R. Vosso chamado me dá prazer.

2. Reconheceis o trecho, que se acabou de tocar, como sendo ditado por vós – R. Sim, muito bem; eu o reconheço inteiramente. O médium, que me serviu de intérprete, é um amigo que não me traiu.

3. Qual dos dois trechos preferis? – R. O segundo, sem paralelo.

4. Por quê? – R. A doçura, o encanto nele estão mais vivos e com mais ternura, ao mesmo tempo.

Nota. – Com efeito, essas são as qualidades reconhecidas nesse trecho.

5. A música do mundo que habitais, pode ser comparada à nossa? – R.Ser-vos-ia difícil compreendê-la; temos sentidos que não possuis.

6. Disseram-nos que, em vosso mundo, há uma harmonia natural, universal que não conhecemos neste mundo. – R. É verdade; na vossa Terra, fazeis a música; aqui, toda a Natureza faz ouvir sons melodiosos.

7. Poderíeis tocar, vós mesmo, no piano? – R. Poderia, sem dúvida, mas não o quero; é inútil.

8. Isso seria, no entanto, poderoso motivo de convicção. – R. Não estais convencidos?

Nota. – Sabe-se que os Espíritos jamais se prestam às provas; freqüentemente, fazem espontaneamente o que não se lhes pedem; esta, aliás, entra na categoria das manifestações físicas das quais os Espíritos elevados não se ocupam.

9. Que pensais da recente publicação de vossas cartas? – R. Ela evocou muito minhas recordações.

10. Vossa recordação está na memória de todo o mundo; poderíeis precisar o efeito que essas cartas produziram na opinião? -R. Sim, amaram-na, e se apegou muito mais a mim como homem, como não acontecia antes.

Nota – A pessoa, estranha à Sociedade, que colocou essas últimas perguntas, confirmou que tal foi, com efeito, a impressão produzida por essa publicação.

11. Desejamos interrogar Chopin; podemos? – R. Sim; ele está mais triste e mais sombrio do que eu.

Chopin

12. (Depois da evocação) Poderíeis dizer-nos em que situação estais como Espírito? – R. Ainda errando.

13. Lamentais a vida terrestre? – R. Não sou infeliz.

14. Sois mais feliz do que não éreis? – R. Sim, um pouco.

15. Dissestes um pouco, o que quer dizer não há uma grande diferença; o que vos falta para sê-lo mais? – R. Eu disse um pouco, com relação aquilo que poderia ter sido; porque com minha inteligência, poderia adiantar-me mais do que eu fiz.

16. A felicidade que não tendes agora esperais tê-la um dia? -R. Seguramente, isso virá, mas serão necessárias novas provas.

17. Mozart disse que estais sombrio e triste; por que isso? – R. Mozart disse a verdade. Eu me entristeço, porque empreendi uma prova que não conduzi bem, e não tenho mais a coragem para recomeçá-la.

18. Como apreciais as vossas obras musicais? – R. Eu as estimo muito, mas entre nós faz-se melhor; sobretudo, executa-se melhor; têm-se mais meios.

19. Quais são, pois, vossos executantes? – R. Temos, sob nossas ordens, legiões de executantes que seguem nossas composições com mil vezes mais de arte do que nenhum dos vossos; são músicos completos; o instrumento do qual se servem é sua garganta, por assim dizer, e são ajudados por instrumentos, espécies de órgãos de uma precisão e de uma melodia que pareceis não dever compreender.

20. Estais bem errante? – R. Sim; quer dizer que não pertenço a nenhum planeta exclusivamente.

21. E vossos executantes, estão também errantes? – R. Errantes como eu.

22. (A Mozart.) Teríeis a bondade de nos explicar o que Chopin acaba de dizer? Não compreendemos essa execução por Espíritos errantes. – R. Concebo vosso espanto; todavia, dissemos-vos que há mundos particularmente atribuídos aos seres errantes, mundos nos quais podem habitar temporariamente; espécies de acampamentos, de campos para repousar seus espíritos fatigados por uma muito longa erraticidade, estado sempre um pouco penoso.

23. (A Chopin.) Reconheceis aqui um de vossos alunos? – R. Sim, ele me parece.

24. Estaríeis à vontade assistindo à execução de um trecho de vossa composição? – R. Isso me dará muito prazer, sobretudo executada por uma pessoa que guardou de mim uma boa lembrança; que ela aceite os meus agradecimentos.

25. Poderíeis dar-nos o vosso julgamento sobre a música de Mozart? – R. Gosto muito dela; vejo Mozart como meu mestre.

26. Partilhais sua opinião relativamente à música de hoje? – R. Mozart disse que a música era melhor compreendida em seu tempo do que hoje: é a verdade; objetaria, todavia, de que há ainda verdadeiros artistas.

nota. – O fragmento de sonata ditado pelo Espírito de Mozart acaba de ser publicado.

Pode-se procurá-lo, seja no Escritório da Revista Espírita, seja na livraria espírita do senhor Ledoyen, Ralais Royal, galeria de Orléans, 31 – preço: 2 francos. -Será remetida franqueada, contra remessa de uma ordem dessa quantia.

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Cenas da vida particular Espírita

Revista Espírita, maio de 1859

Em nosso número anterior, apresentamos o quadro da vida Espírita como conjunto; seguimos os Espíritos desde o instante em que deixaram seu corpo terrestre, e rapidamente esboçamos suas ocupações. Hoje nos propomos mostrá-los em ação, reunindo num mesmo quadro diversas cenas íntimas que nossas comunicações nos testemunharam. As numerosas conversas familiares de além-túmulo publicadas nesta revista já puderam dar uma idéia da situação dos Espíritos segundo o grau do seu adiantamento, mas aqui há um caráter especial de atividade que nos fez conhecer, melhor ainda, o papel que desempenham junto a nós, e com o nosso desconhecimento. O objeto de estudo, do qual narraremos as peripécias, se ofereceu espontaneamente; apresenta tanto maior interesse porque tem, por herói principal, não um desses Espíritos superiores que habitam mundos desconhecidos, mas um daqueles que, por sua própria natureza, estão ainda presos à nossa Terra, um contemporâneo que nos deu provas manifestas de sua identidade. A ação se passa entre nós, e cada um de nós nela desempenha seu papel.

Esse estudo dos costumes espíritas tem de particular o aspecto de nos mostrar o progresso dos Espíritos no estado errante, e como podemos concorrer para a sua educação.

Um de nossos amigos, depois de longos ensaios infrutíferos, mas dos quais sua paciência triunfou, e, além do mais, médium audiente, estava ocupado em escrever, com um outro médium de seus amigos, quando, a uma questão dirigida a um Espírito, obteve uma resposta bastante bizarra e pouco séria, na qual não reconheceu o caráter do Espírito evocado. Tendo interpelado o autor dessa resposta, e depois de intimá-lo em nome de Deus, a dar-se a conhecer, esse último assinou Pierre Lê Flarnand, nome perfeitamente desconhecido do médium. Foi então que se estabeleceu, entre eles, e mais tarde entre esse Espírito e nós, uma série de conversas que iremos relatar:

Primeira conversa

1. Quem és? – R. Não conheço ninguém com esse nome. – R. Um dos teus antigos companheiros de colégio.

2. Disso não tenho nenhuma lembrança. – R. Lembras de ter sido espancado uma vez?

3. É possível; entre colegiais isso ocorre algumas vezes. Lembro-me com efeito, de alguma coisa como essa, mas me lembro também de lhe pagar com a mesma moeda. – R. Era eu; mas não o quero repetir.

4. Obrigado; tanto quanto me lembro, eras um enorme malandro. – R. Eis que a memória te retorna; nunca mudei enquanto vivi. Tinha má cabeça, mas não era mau no fundo; eu atacava o primeiro que chegasse; era como uma necessidade para mim; depois, voltadas as costas, não pensava mais nisso.

5. Quando e com qual idade morreste? – R. Há quinze anos; tinha uns vinte anos.

6. De que morreste? – R. Uma irreflexão de jovem…, uma conseqüência de minha má cabeça…

7. Tens ainda tua família? – R. Perdera, há muito tempo, meu pai e minha mãe; morava com um tio, meu único parente…; se fores a Cambrai, convido-te a vê-lo…; é um bravo homem, que amo muito, embora me haja conduzido duramente; mas eu o merecia.

8. Chama-se como tu? – R. Não; não há mais ninguém, em Cambrai, com meu nome; ele se chama W….; mora na rua…. nº….; verás que será bem eu quem te fala.

Nota. – O fato foi verificado pelo próprio médium, em uma viagem que fez algum tempo depois. Encontrou o senhor W…..no endereço indicado; este lhe disse que, com efeito, tivera um sobrinho com esse nome, um verdadeiro estouvado, sujeito bastante mau, falecido em 1844, pouco tempo depois de fazer o serviço militar. Essa circunstância fora indicada pelo Espírito; fê-lo mais tarde, espontaneamente; ver-se-á em qual ocasião.

9. Por que acaso vieste até mim? – R. O acaso se quiseres; mas, antes creio que foi meu bom gênio que me impeliu para ti, porque tenho a idéia que ambos ganharemos renovando conhecimento… Eu estava aqui ao teu lado, com teu vizinho, ocupado em considerar os quadros… não quadros de igreja, de repente percebi-te e vim. Vi-te ocupado em conversar com um outro Espírito, quis misturar-me na conversa.

10. Mas por que respondeste às perguntas que eu fazia a um outro Espírito? Isso não é de um bom companheiro. – R. Estava na presença de um Espírito sério, que não me parecia disposto a responder; respondendo por ele, acreditava fazer-lhe o estilo, mas isso não saiu bem; quis, não dizendo a verdade, fazê-lo falar.

11. Mas isso é muito mau, por que poderia resultar em coisas deploráveis se não me apercebesse da fraude. – R. Sempre sabê-lo-ias, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde.

12. Diga-me um pouco como entraste aqui? – R. Bela pergunta! É que temos necessidade de pedir o cordão?

13. Podes, pois, ir por toda parte, entrar em qualquer parte? -R. Mas!… sem ainda dizer atenção!… Não somos Espíritos por nada.

14. Creio, entretanto, que certos Espíritos não têm o poder de entrar em todas as reuniões? — R. Será que, por acaso, crês que a sala é um santuário e que sou indigno de nela penetrar?

15. Responda seriamente à minha pergunta, e nada de maus gracejos, peço-te; vês que não estou com humor para suportá-los, e que os Espíritos mistificadores são mal recebidos em minha casa. – R. Há reuniões de Espíritos onde nós os João Ninguém não podemos penetrar, isso é verdade; mas são os Espíritos superiores que nos impedem, e não vós outros homens; aliás, quando vamos a alguma parte, sabemos muito bem calar e nos mantermos à parte quando é preciso; escutamos, e se isso nos aborrece, vamo-nos dali. Ah! aqui não tens o ar de encantado com a minha visita.

16. É que não recebo de bom grado o primeiro que chega e, francamente, estou de má vontade por ter vindo perturbar uma conversa séria. – R. Não te irrites…, não quero fazê-lo mais…, sou sempre bom rapaz…; uma outra vez far-me-ei anunciar.

17. Eis quinze anos que morreste… – R. Entendamo-nos; foi meu corpo que morreu; mas eu, que te falo, não estou morto.

Nota. – Encontram-se nos Espíritos, mesmo levianos e zombeteiros, palavras de uma grande profundidade. Esse eu, que não morreu, é completamente filosófico.

18. É bem como isso que eu ouço. A esse respeito, diga-me se, tal qual és agora, tu me vês com tanta nitidez como se tivesses teu corpo? – R. Vejo-te ainda melhor; eu era míope; foi por isso que quis isentar-me da conscrição.

19. Eis, digo eu, quinze anos que morreste e me pareces tão estouvado quanto antes; não avançaste pois? – R. Sou o que era, nem melhor, nem pior.

20. Com o que passas teu tempo? – R. Não tenho outras ocupações além de me divertir ou de me informar sobre os acontecimentos que podem influenciar o meu destino. Eu vejo sempre; passo uma parte de meu tempo ora com os amigos, ora no espetáculo… algumas vezes, surpreendo coisas singulares… Sabendo-se que se tem testemunhas quando se crê estar só!… Enfim, faço de modo que meu tempo me seja, o menos possível, pesado… Dizer quanto isso durará, disso nada sei e, entretanto, vago assim há um certo tempo… Tens explicações como essa?

21. Em suma, és mais feliz do que quando vivo? – R. Não.

22. O que te falta? Não tens necessidade de nada; não sofres mais; não receias estar arruinado; vais por toda parte, vês tudo; não temes nem as inquietações, nem as enfermidades da velhice; não é uma existência feliz? – R. Falta-me a realidade dos prazeres; não sou bastante avançado para gozar de uma felicidade moral; invejo tudo o que vejo, e é isso o que me tortura; aborreço-me e trato de matar o tempo como posso!…

E o tempo é bem longo!… Sinto uma doença que não sei definir…; gostaria mais de sofrer as misérias da vida do que essa ansiedade que me oprime.

Nota. – Não está aí um eloqüente quadro dos sofrimentos morais dos Espíritos inferiores? Invejar tudo que vê; ter os mesmos desejos e, na realidade, não gozar de nada, isso deve ser uma verdadeira tortura.

23. Disseste que ias ver teus amigos; não é uma distração? -R. Meus amigos não sabem que estou ali e, aliás, não pensam mais em mim; isso me faz mal.

24. Não os tens entre os Espíritos? — R. Estouvados, vadios como eu, que se aborrecem como eu; sua sociedade não é muito divertida; os que são felizes e razoáveis se afastam de mim.

25. Pobres rapazes! Eu te lamento e se pudesse ser útil fá-lo-ia com prazer. – R. Se soubesses o quanto essa palavra me faz bem! É a primeira vez que a ouço.

26. Não poderias procurar as ocasiões de ver e ouvir coisas boas e úteis, que serviriam para o teu adiantamento? – R. Sim, mas, para isso, seria preciso que soubesse aproveitar essas lições; confesso que, de preferência, gosto de assistir às cenas de amor e de deboche que não influenciam meu espírito no bem. Antes de entrar em tua casa, estive lá, considerando os quadros que revelavam, em mim, certas idéias…, mas ali se quebraram. Eu soube, entretanto, resistir a pedir para me reencarnar, para gozar dos prazeres dos quais tanto abusei; vejo agora o quanto estava errado. Mantendo-me em tua casa, sinto que fiz bem.

27. Pois bem! No futuro, espero que me darás prazer se te apegares à minha amizade, para não concentrar mais a tua atenção sobre os quadros que podem dar-te más idéias, e que, ao contrário, pensarás naquilo que aqui poderás ouvir de bom e de ú-til para ti.

Sentir-te-ás bem, crê em mim. – R. Se for tua idéia, será a minha.

28. Quando vais ao teatro, sentes as mesmas emoções de quando estavas vivo? – R. Várias emoções diferentes; aquelas primeiro; depois, algumas vezes, misturo-me às conversas…, ouço coisas singulares.

29. Qual é o teu teatro predileto? – R. Lês Variétés; mas, freqüentemente, me ocorre ir vê-los todos na mesma noite. Também vou aos bailes, às reuniões onde se diverte.

30. De modo que, mesmo se divertindo, podes instruir-te, deves poder observar muito em tua posição? — R. Sim, mas o que gosto muito é de certos colóquios; é verdadeiramente curioso ver os manejos de certos indivíduos, sobretudo daqueles que querem se fazer crer jovens ainda. Em todas essas tagarelices ninguém diz a verdade: o coração se dissimula como o rosto, e é para nada compreender. Fiz um estudo de costumes sobre isso.

31. Pois bem! Não vês que poderíamos ter conjunto de pequenas boas conversas, como esta, das quais poderíamos, ambos, tirar bom proveito? – R. Sempre; como dizes, para ti primeiro e para mim em seguida. Tens ocupações que necessitam do teu corpo; posso fazer todas as diligências possíveis para me instruir; sem prejudicar a minha existência.

32. Desde que assim é, continuarás as tuas observações, ou como disseste, os estudos dos costumes; até o presente as aproveitaste pouco; é preciso que sirvam para te esclarecer e, para isso, é preciso que as faças com um objetivo sério, e não para te divertir e matar o tempo. Dir-me-ás o que vires; analisá-la-emos e delas tiraremos as conseqüências para a nossa instrução mútua. – R. Será mesmo muito atraente; sim, certamente, estou a teu serviço.

33. Isso não é tudo; eu gostaria de procurar a ocasião de fazer uma boa ação; queres? – R. De todo o coração! Dir-se-á, pois, que poderei ser bom para alguma coisa. Dize-me tudo o que é preciso que eu faça.

34. Devagar! Não confio assim missões delicadas àqueles dos quais não esteja perfeitamente seguro. Tens boa vontade, disso não duvido, mas, terias a perseverança necessária? É uma pergunta. É preciso, pois, que eu aprenda a te conhecer melhor, para saber do que és capaz e até que ponto posso contar contigo. Disso falaremos em uma outra vez. – R. Ve-lo-ás.

35. Adeus, pois, por hoje. – R. Até breve.

Segunda conversa

36. Pois bem! Meu caro Pierre, refletiste seriamente no que dissemos outro dia? – R. Mais
seriamente do que crês porque desejo provar-te que valho mais do que aparento. Sinto-me mais à vontade, desde que tenha alguma coisa a fazer; agora, tenho um objetivo e não me aborreço mais.

37. Falei de ti com o senhor Allan Kardec; comuniquei-lhe nossa conversa, e ele ficou muito contente com isso; ele deseja comunicar-se contigo. – R. Eu o sei, fui à casa dele.

38. Quem te conduziu? – R. Teu pensamento. Voltei aqui depois do outro dia; vi que querias falar de mim e disse-me: Vamos lá primeiro, ali encontrarei, provavelmente, algum objeto de observação e, talvez, a oportunidade de ser útil.

39. Gosto de te ver com esses pensamentos sérios. Que impressão recebeste de tua visita? – R. Oh! Um grande bem; aprendi coisas que não suspeitava e que me esclareceram sobre o meu futuro. Foi como uma luz que se fez em mim; compreendo agora tudo o que tenho a ganhar em me aperfeiçoando…, é preciso, é preciso.

40. Posso, sem indiscrição, perguntar-te o que viste na casa dele? – R. Seguramente, da casa dele como da de outros, tanto mais não direi sempre o que gostaria… ou o que eu poderia.

41. Como entendes isso? É que não podes dizer tudo o que queres? – R. Não; há alguns dias vejo um Espírito que parece me seguir por toda parte, que me impele ou me retém; dir-se-á que me dirige; sinto um impulso do qual não me dou conta, e ao qual obedeço contra a minha vontade; se quero dizer ou fazer alguma coisa inconveniente, ele se coloca diante de mim…, olha-me…, e eu me calo…, detenho-me.

42. Qual é esse Espírito? – R. Nada sei dele; mas ele me domina.

43. Por que não lhe perguntas? – R. Não ouso; quando quero falar-lhe, ele me olha, e minha língua se retém.

Nota. – Evidente que a palavra língua é aqui uma figura, uma vez que os Espíritos não têm linguagem articulada.

44. Deves ver se ele é bom ou mau? – R. Deve ser bom, uma vez que não me impede de dizer asneiras; mas é severo… Algumas vezes tem o ar irritado, e, de outras vezes parece olhar-me com ternura… Veio-me ao pensamento que esse poderia bem ser o Espírito de meu pai, que não quer dar-se a conhecer.

45. Isso me parece provável; ele não deve estar muito contente contigo. Escuta-me bem; vou dar-te um aviso a esse respeito. Sabemos que os pais têm por missão elevar seus filhos e dirigi-los no caminho do bem; em conseqüência, são responsáveis pela educação que receberam, e por isso sofrem ou são felizes no mundo dos Espíritos. A conduta dos filhos influi, pois, até um certo ponto, sobre a felicidade ou a infelicidade de seus pais depois da morte. Como a tua conduta na Terra não foi muito edificante, e depois que morreste não fizeste grande coisa de bom, teu pai deve sofrer com isso, se tem a censurar-se por não te dirigir bem… – R. Se não me tornei bom sujeito, não foi por falta de ser corrigido mais de uma vez com força.

46. Talvez esse não seja o melhor meio para se renovar; qualquer que ele seja, sua afeição por ti é sempre a mesma, e prova-te isso aproximando-se de ti, se for ele, como presumo; deve estar feliz com a tua mudança, o que explica suas alternativas de ternura e irritação; ele quer te ajudar no caminho no qual vens de entrar, e quando nele ver-te solidamente ajustado, estou persuadido de que se dará a conhecer. Assim, trabalhando pela tua própria felicidade, trabalharás pela sua. Não ficaria mesmo espantado que foi ele quem te impeliu a vir em minha casa. Se não o fez antes, foi porque quis deixar-te o tempo de compreender o vazio de tua existência ociosa e dela sentir os desgostos. – R. Obrigado! Obrigado…! Ele está atrás de ti… Pousa sua mão sobre a tua cabeça, como se te ditasse as palavras que acabas de dizer.

47. Voltemos ao senhor Allan Kardec. – R. Fui à sua casa anteontem à noite; estava ocupado escrevendo em seu escritório…, trabalhava numa nova obra que prepara… Ah! ele nos melhora bem. A nós outros, pobres Espíritos; se não nos conhecerem não será por culpa sua.

48. Estava só?- R. Só, sim, quer dizer que não havia ninguém com ele; mas havia, ao redor dele, uma vintena de Espíritos que murmuravam acima de sua cabeça.

49. Ele os ouvia? – R. Ouvia-os, se bem que olhasse por todos os lados para ver de onde vinha esse ruído, para ver se não eram milhares de moscas; depois, abriu a janela para ver se não fora o vento ou a chuva.

Nota. – O fato era perfeitamente exato.

50. Entre todos esses Espíritos, não o reconheceste? – R. Não;
não são os da minha sociedade; eu tinha o ar de um intruso e postei-me num canto para observar.

51. Esses Espíritos pareciam se interessar pelo que ele escrevia? – R. Eu o creio muito! Sobretudo, havia dois ou três que lhe sopravam o que ele escrevia e que tinham o ar de se aconselharem com outros; ele, ele acreditava ingenuamente que as idéias eram dele, e com isso parecia contente.

52. Foi tudo o que viste? – R. Em seguida, chegaram oito ou dez pessoas que se reuniram, em um outro aposento, com Kardec; puseram-se a conversar; perguntavam-lhe; ele respondia, explicava.

53. Conheces as pessoas que lá estavam? – R. Não; sei somente que havia grandes personagens, porque a um deles sempre se dizia: Príncipe, e a um outro; senhor o Duque.

Os Espíritos também chegaram em massa; havia pelo menos uma centena deles, dos quais vários tinham sobre a cabeça como coroas de fogo; os outros mantinham-se de longe e escutavam.

54. E tu, que fazias?, – R. Eu escutava também, mas, sobretudo, observava; então, veio-me à idéia fazer diligências muito úteis a Kardec; dir-te-ei mais tarde o que era, quando houver triunfado. Deixei, pois, a assembléia e caminhando pelas ruas, diverti-me vagando diante das lojas, misturando-me com os grupos.

55. De sorte que em lugar de ir para os teus afazares, perdias teu tempo. – R. Não o perdi, uma vez que impedi um roubo.

56. Ah! Tu te metes também a te fazer de polícia? – R. Por que não? Passamos diante de uma loja fechada, notei que se passava em seu interior alguma coisa de singular, entrei; vi um jovem muito agitado e que ia, vinha e tinha o ar de querer a caixa do comerciante.

Havia com ele dois Espíritos, um que lhe soprava no ouvido: vá, pois, poltrão! A gaveta está cheia; poderás divertir-te à vontade, etc.; além disso havia uma figura de mulher, bela e cheia de nobreza, alguma coisa de celeste e de bom olhar; dizia-lhe: Vá-te daqui!

Vá-te daqui! não te deixes tentar; e lhe soprava as palavras; prisão, desonra.

O jovem hesitava. No momento em que se aproximou do balcão, coloquei-me diante dele para detê-lo. Os maus Espíritos me perguntavam por que me metia. Eu quero, disse-lhes, impedir esse jovem de cometer uma má ação, e, talvez, ir para a prisão. Então o bom Espírito se aproximou de mim e me disse: é preciso que ele suporte a tentação; é uma prova; se sucumbir, será sua falta. Minha vontade era triunfar, quando seu mau gênio empregou um ardil que triunfou; fê-lo notar, sobre uma mesinha, uma garrafa: era aguardente; inspirou-lhe a idéia de bebê-la para encorajar-se. O infeliz está perdido, disse me…, tratemos ao menos de salvar alguma coisa. Não tinha mais que um recurso, era o de prevenir o patrão… logo! Heis-me em sua casa num instante. Ele estava ocupado numa partida de cartas com sua mulher; era preciso encontrar o meio de fazê-lo descer.

57. Se ele fosse médium, tê-lo-ias feito escrever o que quisesse. Acreditava ao menos nos Espíritos? – R. Ele não tinha bastante espírito para saber o que era.

58. Não te conhecia o talento de fazer jogo de palavras. – R. Se me interrompes, não digo mais nada. Dei-lhe um violento espirro; quis pegar o tabaco, e percebeu que esquecera sua tabaqueira na loja. Chamou seu jovem que dormia num canto e lhe disse para ir procurá la…, esse não era meu negócio…; o menino despertou grunhindo… Soprei à mãe dizer: Não desperte, pois, esse jovem; podes bem ir tu mesmo. – Ele se decidiu enfim…, eu o segui, para fazê-lo ir mais depressa. Chegado à porta, percebeu a luz na loja e ouviu o ruído. Eis que o medo o tomou, as pernas lhe tremeram; impeli-o para fazê-lo avançar; se tivesse entrado subitamente, pegaria o ladrão como numa arapuca; em lugar disso, esse grande imbecil se pôs a gritar, ao ladrão! o ladrão se salvou, mas, em sua precipitação, e perturbado que estava pela aguardente, esqueceu de recolher seu boné. O comerciante entrou quando não havia mais ninguém…; o que fará do boné, não era assunto meu:

Aquele não estava em bons lençóis. Graças a mim, o ladrão não teve o tempo para terminar, e o comerciante o afastou pelo medo; o que não o impediu de dizer, voltando a sua casa, que ele lançou por terra um homem de seis pés. – Vede um pouco, disse, a que se prendem as coisas! Se eu não tivesse a idéia de pegar o tabaco!… – Se eu não tivesse te impedido de enviar nosso jovem! Disse a mulher… – É preciso convir que ambos fomos previdentes! – O que é senão o acaso!

Heis, meu caro, como nos agradecem.

59. Tu és um bravo jovem, meu caro Pierre, e te felicito. Não te desencorajes com a ingratidão dos homens; encontrarás muitas outras, agora que te metes a lhes prestar serviço, mesmo entre aqueles que crêem na intervenção dos Espíritos – R. Sim, e sei que os ingratos se preparam cruéis retornos.

60. Vejo agora que posso contar contigo, e que te tomas verdadeiramente sério. – R. Verás, mais tarde, que serei eu quem lhe pregará a moral.

61. Disso tenho necessidade como um outro, e recebo de bom grado os bons conselhos, de qualquer parte que venham. Disse que queria te mandar fazer uma boa ação; estás disposto? – R. Podes disso duvidar?

62. Tenho um dos meus amigos que está ameaçado, creio, por grandes decepções se continuar a seguir o mau caminho no qual está empenhado; as suas ilusões podem perdê-lo. Queria que tentasses conduzi-lo para o bom caminho, por alguma coisa que pudesse impressioná-lo vivamente; compreendes meu pensamento? -R. Sim; gostarias que lhe fizesse alguma boa manifestação; uma aparição, por exemplo; mas isso não está no meu poder. Posso, entretanto, algumas vezes, quando para isso tenho a permissão, dar provas sensíveis de minha presença; tu o sabes.

Nota. – O médium ao qual esse Espírito parece estar ligado, é informado de sua presença por uma impressão muito sensível, quando mesmo nem sonha chamá-lo. Ele o reconhece por uma espécie de roçadura que sente no braço, nas costas e nas espáduas; mas os efeitos são, algumas vezes, mais enérgicos. Em uma reunião que ocorreu em nossa casa, no dia 24 de março último, esse Espírito respondia às perguntas por intermédio de um outro médium. Falava-se de sua força física; de repente, como para dar uma prova, tomou um dos assistentes pela perna, por meio de um violento abalo, ergueu-o de sua cadeira e o lançou, muito aturdido, à outra extremidade da sala.

63. Farás o que fizeres, ou melhor, o que puderes. Informo-te que é um pouco médium. – R. Tanto melhor; tenho meu plano.

64. Que pretendes fazer? – R. Primeiro, vou estudar a posição; ver de quais Espíritos ele está cercado, e se há meio de fazer alguma coisa com eles. Uma vez em sua casa, anunciar-meei, como fiz em tua casa; interpelar-me-ão; responderei: “Sou eu, Pierre Lê Flamand, mensageiro em Espírito, que vem se colocar ao vosso serviço, e que, pela mesma ocasião, desejaria vos prestar um serviço. Ouvi dizer que estás em certas esperanças que vos giram a cabeça e que vos fazem já voltar as costas ao vossos amigos; creio dever, no vosso interesse, vos informar o quanto as vossas idéias estão longe de aproveitarem a vossa felicidade futura. Palavra de Lê Flamand, posso vos assegurar que venho vos ver com boas intenções. Temei a cólera dos Espíritos, e mais ainda a de Deus, e crede na palavra de vosso servidor que pode vos afirmar que sua missão é toda para o bem.” (Sic.)

Se me despedem, voltarei três vezes, e depois verei o que houver a fazer. É isso?

65. Muito bem, meu amigo, mas disso não digas nem mais nem menos. – R. Palavra a palavra.

66. Mas perguntado de quem te encarregou dessa missão, que responderás? – R. Os Espíritos superiores. Posso, para o bem, não dizer inteiramente a verdade.

67. Tu te enganas; desde que se age para o bem, é sempre por inspiração de bons Espíritos; assim, tua consciência pode repousar, porque os maus Espíritos jamais impelem para fazer coisas boas. -R. Está combinado.

68. Agradeço-te e te felicito por tuas boas disposições. Quando queres que te chame para que me faças conhecer o resultado da missão? – R. Informar-te-ei.

(continua no próximo número)

 

cenas da vida particular

Aviso

Revista Espírita, abril de 1859

Recebemos, sem cessar, cartas de nossos correspondentes que nos pedem a História de Joana D’Arc e a de Luís XI, das quais publicamos extratos, assim como o álbum dos desenho do senhor Victorien Sardou.

Lembramos aos nossos leitores que a história de Joana D’Arc está completamente esgotada, agora; que a vida de Luís XI, assim como a de Luís IX, não foram ainda publicadas; esperamos que o serão um dia e nos faremos um dever anunciá-las em nossa coletânea. Até lá, todo pedido com o efeito de procurar essas obras não tem objeto.

Ocorre o mesmo com o álbum do senhor Sardou. O desenho que demos, da casa de Mozart, é o único que está a venda no senhor Ledoyen.

ALLAN KARDEC.

 

aviso espiritismo

Aforismos Espíritas e pensamentos destacados

Revista Espírita, abril de 1859

Os Espíritos se encarnam homens ou mulheres, porque eles não têm sexo. Como devem progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes oferece as provas e os deveres especiais, e a ocasião de adquirirem a experiência. Aquele que fosse sempre homem, não saberia senão o que sabem os homens.

Pela Doutrina Espírita, a solidariedade não está mais restrita à sociedade terrestre: ela abarca todos os mundos; pelas relações que os Espíritos estabelecem entre as diferentes esferas, a solidariedade é universal, porque de um mundo ao outro os seres vivos se prestam mutuo apoio.

aforismo espírita

Sonâmbulos remunerados

Revista Espírita, abril de 1859

Um dos nossos correspondentes nos escreveu a propósito de nosso último artigo sobre os médiuns mercenários, para nos perguntar se nossas observações se aplicam, igualmente, aos sonâmbulos remunerados.

Querendo-se remontar à fonte do fenômeno, ver-se-á que o sonâmbulo, se bem que se possa considerá-lo como uma variedade de médium, é um caso diferente do médium propriamente dito. Com efeito, este último recebe suas comunicações de Espíritos estranhos que podem vir, ou não, segundo as circunstâncias ou as simpatias que encontram. O sonâmbulo, ao contrário, age por si mesmo; é seu próprio Espírito que se desliga da matéria, e vê mais ou menos bem, segundo o desligamento seja mais ou menos completo. O sonâmbulo, é verdade, está em relação com outros Espíritos que o assistem mais ou menos de bom grado, em razão de suas simpatias; mas, em definitivo, é o seu que vê e que pode, até um certo ponto, dispor de si mesmo sem que outros encontrem nisso o que censurar, e sem que seu concurso seja indispensável. Disso resulta que o sonâmbulo que procura uma compensação material para a fadiga, freqüentemente muito grande, que para ele resulta do exercício de sua faculdade, não tem as mesmas suscetibilidades a vencer que o médium que não é senão um instrumento.

Sabe-se, além disso, que a lucidez sonambúlica se desenvolve pelo exercício; ora, aquele que disso faz a sua ocupação exclusiva, adquire uma facilidade tanto maior que está no caso de ver muitas coisas com as quais acaba por se identificar, assim que com certos termos especiais que lhe vêm à memória mais facilmente; em uma palavra, ele se familiariza com esse estado que se torna, por assim dizer, seu estado normal: nada mais o espanta. Aliás, os fatos aí estão para provarem com qual prontidão e qual clareza podem ver; de onde concluímos que a retribuição paga a certos sonâmbulos não é obstáculo ao desenvolvimento da lucidez.

A isso faz-se uma objeção. Como a lucidez é freqüentemente variável, depende de causas fortuitas, pergunta-se se o atrativo do ganho não poderia conduzir o sonâmbulo a fingir essa lucidez, mesmo quando ela lhe faltasse, por fadiga ou outra causa, inconveniente que não ocorre quando não há o interesse. Isso é muito verdadeiro, mas nós respondemos que toda coisa tem o seu lado mau. Pode-se abusar de tudo, e por toda parte onde se introduz a fraude é preciso invectivá-la. O sonâmbulo que assim agisse, faltaria com a lealdade, o que, infelizmente, se encontra também naqueles que não dormem. Com um pouco de hábito, pode-se facilmente se aperceber disso, e seria difícil enganar por muito tempo um observador experimentado. Nisso, como em todas as coisas, o essencial é assegurar-se do grau de confiança que merece a pessoa à qual se dirige. Se o sonâmbulo não remunerado não oferece esse inconveniente, não é preciso crer que sua lucidez seja infalível; ele pode se enganar tanto como um outro, se estiver em más condições; a esse respeito, a experiência é o melhor guia. Em resumo, não preconizamos ninguém; pudemos mesmo constatar serviços eminentes prestados por uns e pelos outros; nosso objetivo era provar que se pode encontrar bons sonâmbulos numa e na outra condição.

sonambulos espiritismo

Pensamentos Poéticos

Revista Espírita, abril de 1859

Ditados pelo Espírito de Alfred de Musset, para a senhora **

Se tu sofres na Terra,

Pobre coração aflito,

Se para ti a miséria

É um quinhão obrigado

Pense, em tua dor,

Que tu segues o caminho

Que conduz pelas lágrimas

Para um melhor destino.

Os pesares da vida

São pois muito grandes

Para que teu coração esqueça

Que um dia nas primeiras classes,

Por preço de teus sofrimentos,

Teu Espírito depurado Terá os prazeres

Do império etéreo?

________________________________

A vida é uma passagem

Da qual conheces o curso;

Age com sabedoria,

Terás mais felizes dias.

Nota. O médium que serviu de intérprete, não só é estranho às regras mais vulgares da poesia, mas jamais pode fazer um único verso por si mesmo. Escreve-os com uma facilidade extraordinária sob o ditado dos Espíritos, e embora seja médium há pouco tempo, delas já possui uma coletânea numerosa, das mais interessantes. Nós as vimos, entre outras, encantadoras e oportunas,”que lhe foram ditadas pelo Espírito de uma pessoa viva que evocou, e que habita a 200 léguas. Essa pessoa, quando está desperta, não é mais poeta que ele.

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Senhor Poitevin, aeronauta

Revista Espírita, abril de 1859

Morto há mais ou menos dois meses, de uma febre tifóide contraída em conseqüência de uma descida que fez em pleno mar.

Sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 11 de fevereiro de 1859.

1. Evocação. – R. Heis-me, falai.

2. Lamentais a vida terrestre? – R. Não.

3. Sois mais feliz que de quando vivo? – R. Muito.

4. Qual motivo pôde levar-vos às experiências aeronáuticas? – R. A necessidade.

5. Tínheis o pensamento de servir à ciência? – R. De nenhum modo.

6. Vedes hoje a ciência aeronáutica sob um outro ponto de vista do que de vossa vida? – R. Não; via-a como a vejo agora, porque a via bem. Vejo sempre aperfeiçoamentos a trazer que eu não poderia desenvolver por falta de ciência; mas esperai; homens virão que lhe darão o relevo que ela merece e que merecerá um dia.

7. Credes que a ciência aeronáutica se tomará um dia um objeto de utilidade pública? – R. Sim, certamente.

8. A grande preocupação daqueles que se ocupam dessa ciência, é a procura dos meios de dirigir os balões; pensais que a isso se chegará? – R. Sim, certamente.

9. Qual é, segundo vós, a maior dificuldade que apresenta a direção dos balões? – R. O vento, as tempestades.

10. Assim, não é a dificuldade de encontrar um ponto de apoio? — R. Se se conduzissem os ventos, conduzir-se-iam os balões.

11. Poderíeis assinalar o ponto para o qual conviria dirigir as pesquisas sob esse aspecto? – R. Deixai fazer.

12. Em vossa vida, estudastes os diferentes sistemas propostos? – R. Não.

13. Poderíeis dar conselhos àqueles que se ocupam dessas espécies de pesquisas? – R. Pensais que seguiriam vossos avisos?

14. Não seriam os nossos mas os vossos. – R. Quereis um tratado? Eu o mandarei fazer.

15. Por quem? – R. Por amigos que me guiaram, a mim mesmo.

16. Há aqui dois inventores distintos em fatos aeronáuticos, o senhor Sanson e o senhor Ducroz que obtiveram rendimento científico muito honroso. Fazeis uma idéia do seu sistema? – R. Não; há muito a dizer; não os conheço.

17. Admitindo como resolvido o problema da navegação, credes na possibilidade de uma navegação aérea sobre uma grande escala, como sobre o mar? – R. Não, jamais como pelo telégrafo.

18. Não falo da rapidez das comunicações, que jamais podem ser comparadas às do telégrafo, mas do transporte de um grande número de pessoas e de objetos materiais. Quais resultados se podem esperar sob esse aspecto? – R. Pouco e prontidão.

19. Quando estáveis em um perigo iminente, pensáveis no que serieis depois da morte? – R. Não; estava inteiramente absorvido em minhas manobras.

20. Que impressão fazia sobre vós o pensamento do perigo que corríeis? – R. O hábito havia enfraquecido o medo.

21. Que sensação experimentáveis quando estáveis perdido no espaço? – R. Perturbação, mas feliz; meu espírito parecia escapar do vosso mundo; entretanto, as necessidades das manobras me tornavam a chamar sob o vento à realidade, e me faziam recair na fria e perigosa posição na qual me encontrava.

22. Vedes com prazer vossa mulher seguir a mesma carreira de aventura vossa? – R. Não.

23. Qual é a vossa situação como Espírito? – R. Vivo como vós, quer dizer, posso dominar a minha vida espiritual como dominais a vossa vida material.

Nota. As curiosas experiências do senhor Poitevin, sua intrepidez, sua notável habilidade na manobra dos balões, nos faziam esperar encontrar, nele, mais elevação e uma grandeza nas idéias. O resultado não respondeu às nossas expectativas; a aerostação não era para ele, como se pôde ver, senão uma indústria, um modo de viver por um gênero particular de espetáculo; todas as suas faculdades estavam concentradas sobre os meios de excitar a curiosidade pública. É assim que, nessas conversas de além-túmulo, as previsões, freqüentemente, se desenrolam; ora ultrapassam, ora acha-se menos do que se esperava, prova evidente da independência das comunicações.

Em uma sessão particular, e por intermédio do mesmo médium, Poitevin ditou os conselhos seguintes para realizar a promessa que vinha de fazer, cada um poderá apreciar-lhe o valor; nós os damos como objeto de estudo sobre a natureza dos Espíritos, e não por seu mérito científico mais que contestável.

“Para conduzir um balão cheio de gás, encontrareis sempre as maiores dificuldades: a imensa superfície que oferece exposta aos ventos, a pequenez do peso que o gás pode levar, a fraqueza do envoltório que reclama esse ar sutil; todas essas causas jamais permitirão dar, ao sistema aerostático, a grande extensão que gostaríeis de vê-lo tomar. Para que o aerostato tenha uma utilidade real, é preciso que seja um modo de comunicação poderoso e dotado de uma certa presteza, mas, sobretudo, poderoso. Dissemos que ele ocupava o meio entre a eletricidade e o vapor; sim, e em dois pontos de vista:

1º. Ele deve transportar os viajantes mais depressa do que as ferrovias, menos depressa do que o telégrafo as mensagens.
2º. Não está no meio desses dois sistemas, porque participa, ao mesmo tempo, do ar e da terra, todos os dois servindo-lhe de caminho: está entre o céu e o mundo.

“Não me perguntastes se chegaríeis a ir, por esse meio, visitar outros planetas.

Entretanto, esse pensamento é o que tem inquietado bem os cérebros, e cuja solução encheria de espanto todo o vosso mundo. Não, não chegareis. Considerai, pois, que para atravessar esses espaços desconhecidos para vós, de milhões, de milhões de léguas, a luz gasta anos; vede, portanto, quanto será preciso de tempo para atingi-los, mesmo levados pelo vapor e pelo vento.

“Para retornar ao assunto principal, começando vos direi que não é preciso esperar muito do vosso sistema atualmente empregado; mas obtereis sempre mais atuando sobre o ar por compressão forte e ampla; o ponto de apoio que procurais, está diante de vós, vos cerca por todos os lados, com ele vos chocais a cada um dos vossos movimentos, ele entrava todos os dias vosso caminho e influi, sobretudo, no que locais. Pensai bem nisso, tirai desta revelação tudo o que puderdes: suas deduções são enormes. Não podemos tomar-vos pelas mãos e vos fazer inventar as ferramentas necessárias a esse trabalho, não podemos vos dar, palavra por palavra, uma indução; é preciso que vosso Espírito trabalhe, que amadureça seus projetos, sem isso não compreenderíeis o que faríeis e não saberíeis manejar vossos instrumentos; seríamos obrigados a voltar e abrir, nós mesmos, todos os vossos empenhos, e as circunstâncias imprevistas que viriam um dia, ou outro, combater vossos esforços, vos reconduziriam a vossa ignorância primária

‘Trabalhai, pois, e encontrareis o que procurardes: conduzi vosso Espírito para o lado que- vos indicamos, e aprendei pela experiência que não vos induzimos ao erro.”

Nota. Esses conselhos, embora encerrando incontestáveis verdades, não deixam de denotar um Espírito pouco esclarecido em certos pontos de vista, uma vez que parece ignorar a verdadeira causa da impossibilidade de atingir outros planetas. É uma prova a mais da diversidade de aptidões e de luzes que se encontram no mundo dos Espíritos, como neste mundo. É pela multiplicidade das observações que se chega a conhecê-lo, a compreendê-lo e a julgá-lo. Por isso, damos espécimes de todos os gêneros de comunicações, tendo o cuidado de fazer ressaltar o forte e o fraco. A de Poitevin terminou por uma consideração muito justa que nos parece suscitada por um Espírito mais filosófico do que o seu; de resto, ele dissera que faria redigir seus conselhos por seus amigos que, em definitivo, não nos ensinam nada.
Nela encontramos ainda uma nova prova, que os homens que têm uma especialidade na

Terra não são, sempre, os mais apropriados a nos esclarecerem como Espíritos, se, sobretudo, não são bastante elevados para se desligarem da vida terrestre.
É deplorável, para o progresso da aeronáutica, que a maioria desses homens intrépidos não possa colocar sua experiência em proveito da ciência, ao passo que os teóricos são estranhos à prática, e são como marinheiros que jamais viram o mar.

Incontestavelmente, haverá um dia engenheiros em aerostática, como há engenheiros marítimos, mas isso não será senão quando terão visto e sondado, por eles mesmos, as profundezas do oceano aéreo. Quantas idéias não lhes dariam o contato real dos elementos, idéias que escapam às pessoas do
ofício! porque, qualquer que seja seu saber, não podem, do fundo de seus gabinetes, perceber todos os escolhos; e, todavia, se essa ciência deva ser um dia uma realidade, isso não será por eles. Aos olhos de muitas pessoas é ainda uma quimera, e eis porque os inventores, que não são, em geral, capitalistas, não encontram nem apoio nem encorajamentos necessários. Quando a aerostação der dividendos, mesmo uma esperança, poderá ser cotada, os capitais não lhe faltarão; até lá não é preciso contar senão com o devotamento daqueles que vêem o progresso antes da especulação. Enquanto houver parcimônia nos meios de execução, haverá reveses pela impossibilidade de ensaios sobre uma tão vasta escala, ou em condições convenientes. Seremos forçados a fazê-lo mesquinhamente, o que é um mal, nisto, como em toda coisa.

O sucesso não será senão ao preço de sacrifícios suficientes para entrar largamente no caminho da prática, e quem diz sacrifício diz exclusão de toda idéia de benefício.

Esperamos que o pensamento de dotar o mundo da solução de um grande problema, não o fosse senão sob o ponto de vista da ciência, inspire algum generoso desinteresse. Mas a primeira coisa a fazer seria fornecer aos teóricos os meios para adquirir a experiência do ar, mesmo pelos meios imperfeitos de que dispomos. Se Poitevin tivesse sido um homem de saber, e tivesse inventado um sistema de locomotiva aérea, teria inspirado, sem contradita, mais confiança que aqueles que jamais deixaram a terra, e teria, provavelmente, encontrado os recursos que se recusam aos outros.